50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

Edmund Conway · Capítulo 11 de 51

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50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

10. Monetarismo

 

John Maynard Keynes versus Milton Friedman: o embate econômico supremo. Não se trata apenas de dois polemistas fenomenalmente inteligentes e com frequência ácidos; não importa se tiveram formações muito diferentes, o primeiro um inglês educado em Eton e o outro nascido no Brooklyn, filho de imigrantes judeus da Hungria. O fato é que os dois representam doutrinas radicalmente opostas. Representam a batalha ideológica por trás da economia dos últimos 50 anos.

Enquanto Key nes prestava m ais atenção no desem prego do que na inflação, advertindo que a econom ia poderia m elhorar com certa dose de interferência estatal, Friedm an sustentava que as pessoas deveriam ficar por conta própria, sendo a principal tarefa do Estado o m onitoram ento e o controle da quantidade de dinheiro que circula na econom ia. Em seu livro sem inal Uma história monetária dos Estados Unidos 1867–1960, escrito com Anna Schwartz, ele expôs as teorias do m onetarism o.

Combata sempre a inflação “A inflação sem pre e em toda parte é um fenôm eno m onetário”, disse Friedm an. Em síntese, ao inj etar dinheiro extra no sistem a (com o os key nesianos tendiam a fazer), os governos faziam a inflação aum entar, provocando o risco de danos im portantes à econom ia. Friedm an acreditava que se os bancos centrais se encarregassem de m anter o controle dos preços, a m aioria dos outros aspectos da econom ia – desem prego, crescim ento econôm ico, produtividade – seriam resolvidos sozinhos.

Enquanto Key nes afirm ava que era m uito difícil convencer os trabalhadores a aceitar salários m ais baixos, a teoria m onetarista clássica afirm ava o contrário: que salários m ais baixos para os trabalhadores e preços m ais baixos para as em presas eram aceitáveis diante de um a inflação crescente. A taxa de crescim ento de um a econom ia, dizia Friedm an, pode ser determ inada controlando-se a quantidade de dinheiro im pressa pelos bancos centrais. Quanto m ais dinheiro se im prim e, m ais as pessoas gastam , e vice-versa. Isso é bem diferente do que pregava o key nesianism o, que m inim izava a im portância do dinheiro. Assinalava ainda um a im portante posição política: enquanto Key nes dizia que os políticos deveriam tentar controlar a econom ia m ediante políticas fiscais, Friedm an dizia que bancos centrais independentes deveriam controlar a econom ia por m eio de taxas de j uros (sob regras estritas).

 

MILTON FRIEDMAN (1912-2006)

Milton Friedm an foi um dos pensadores m ais influentes da econom ia

m oderna. Nasceu no Brookly n, Nova York, em um a fam ília pobre de j udeus

húngaros que m igrou para os Estados Unidos, e não tardou para se revelar

com o um aluno brilhante na escola. Depois de se form ar na Universidade

Rutgers, foi cursar a pós-graduação na Universidade de Chicago, que, sob

sua influência, em pouco tem po tornou-se um dos principais fóruns

acadêm icos da econom ia m undial. Durante a Segunda Guerra Mundial,

trabalhou para o governo federal, chegando a defender políticas de gastos

governam entais ao estilo key nesiano. Foi na década de 1960 que suas ideias

sobre m onetarism o ganharam destaque, e em 1976 recebeu o Prêm io Nobel

de Econom ia.

 

Num a recessão, disse Friedm an, os bancos centrais devem prevenir a deflação inj etando m ais dinheiro no sistem a. Com base nisso, afirm ou que, no período que antecedeu a Grande Depressão, o Sistem a de Reserva Federal com eteu o erro de ser severa dem ais com os bancos norte-am ericanos, perm itindo que m uitos quebrassem , o que, por sua vez, fez com que a crise econôm ica ficasse ainda m ais dolorosa. Com efeito, culpava o Fed por ter transform ado o que teria sido um a pequena recessão na depressão que de fato foi.

Uma ideia cujo momento havia chegado No com eço, a classe dirigente não prestou m uita atenção nos argum entos de Friedm an, que foram apresentados j untam ente com um a verdadeira salada de propostas radicais sobre o livre m ercado, inclusive o serviço m ilitar voluntário, a flutuação livre das taxas de câm bio, vouchers para a educação, a privatização da seguridade social e a instituição de um im posto negativo sobre a renda. Afinal, na década de 1960 o key nesianism o parecia funcionar bem : crescia-se constantem ente, a inflação era baixa e o desem prego estava sob controle. Quem era esse j ovem econom ista que dizia que as políticas tinham o poder de alim entar a inflação e o desem prego –

algo que a Curva de Phillips dizia que era quase im possível? (vej a o capítulo 22)

Então vieram os choques do petróleo e o caos econôm ico da década de 1970. O m undo ocidental enfrentou a estagflação, com a redução do crescim ento econôm ico, inflação crescente e aum ento do desem prego. Aparentem ente, a econom ia key nesiana não tinha resposta para isso, abrindo cam inho para a teoria de Friedm an. Ele previra a possibilidade desse resultado e propôs um a solução: com bater a inflação e não o desem prego.

 

“A estrutura monetária de Friedman foi tão influente que, ao menos em suas

linhas gerais, tornou-se quase idêntica à teoria monetária moderna.”

Ben Bernanke

 

Dos dois lados do Atlântico, os políticos com eçaram a abraçar lentam ente a doutrina. Na década de 1980, Paul Volcker, presidente da Reserva Federal, conduziu os Estados Unidos por um a dolorosa e traum ática recessão para fazer com que os preços ficassem novam ente sob controle. No Reino Unido, Margaret Thatcher, recém -em possada no cargo de prim eira-m inistra, acolheu a m ensagem m onetarista. Na Alem anha, o Bundesbank tam bém com eçou a prestar atenção na velocidade com que se im prim ia o dinheiro.

Problemas do monetarismo O problem a é que, tivesse Friedm an razão ou não, foi tão difícil encontrar um a m edida apropriada de crescim ento m onetário – a quantidade de dinheiro circulando na econom ia – que o desafio de pôr em prática sua doutrina foi m uito grande. A inflação pode ser um fenôm eno m onetário, m as a quantidade de dinheiro em circulação costum a aum entar e dim inuir por m otivos que nada têm a ver com a inflação. Quando, por exem plo, especialistas da City londrina ou de Wall Street idealizam um novo tipo de instrum ento financeiro, volta e m eia isso faz com que aum ente a quantidade de dinheiro no sistem a. Porém , é difícil, ou m esm o im possível, j ulgar o que m otiva o aum ento senão após algum tem po, quando os bancos centrais j á tiverem tom ado decisões sobre taxas de j uros. Isso significa que, na prática, todos os bancos centrais deixaram de tentar controlar a quantidade de dinheiro em circulação, exceto o Banco Central Europeu, que continua a fixar um a m eta de inflação.

O sucessor de Volcker no Fed, Alan Greenspan, em bora fosse defensor declarado do livre m ercado e tivesse grande respeito pelo m onetarism o, tam bém ignorou as estatísticas m onetárias, a ponto de o Fed ter, há alguns anos, parado de publicar valores de crescim ento m onetário.

Monetarismo vs. keynesianismo – o placar final O resultado do confronto entre Friedm an e Key nes é, com o geralm ente acontece nas lutas entre gigantes, um em pate. Os bancos centrais m odernos costum am concentrar-se tanto em indicadores m onetários quanto em outros m ais tradicionais para decidir sobre as políticas a seguir. Apesar do foco sobre o dinheiro ter dim inuído no final da década de 1990 e no início da seguinte, voltou à cena recentem ente, quando os econom istas afirm aram que a crise no crescim ento m onetário aj udou a explicar a recessão que se seguiu à crise creditícia de 2008.

Por outro lado, tem aum entado o consenso de que as políticas sugeridas por Friedm an e defendidas por Thatcher e Reagan na década de 1980 – a liberalização dos m ercados financeiros, a contenção da inflação e do crescim ento m onetário, a m aior liberdade para as em presas pedirem em préstim os e para contratar e despedir funcionários – foram , em parte, responsáveis por causar o aum ento da dívida que desencadeou a crise financeira. Com o disse o com entarista econôm ico Martin Wolf pouco antes do m ergulho do Reino Unido e dos EUA na recessão: “Assim com o as ideias de Key nes foram testadas até sua destruição nas décadas de 1950, 1960 e 1970, as ideias de Milton Friedm an podem sofrer um destino sim ilar nas décadas de 1980, 1990 e 2000. Todos os deuses fracassam quando se acredita dem ais neles”.

Quanto aos dois envolvidos, eles nunca se encontraram pessoalm ente. A única vez em que estiveram em contato foi na década de 1930, quando Friedm an apresentou um ensaio ao Economic Journal, publicação dirigida por Key nes nessa época. No texto, havia um ataque ácido a A.C. Pigou, professor de econom ia em Cam bridge e colega de Key nes nessa instituição. Key nes m ostrou o trabalho a Pigou, que discordou da crítica, e Key nes escreveu a Friedm an inform ando-lhe que decidira não publicar o texto. “Essa foi um a das únicas duas cartas que recebi de Key nes”, recordou-se depois Friedm an; “a outra tam bém foi um a rej eição!”

A ideia condensada:

controle o crescim ento

do dinheiro