50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

07. Vantagem comparativa

 

Se a economia de mercado tivesse de ser decomposta em dois artigos cruciais de fé, seriam os seguintes: primeiro, a mão invisível significa que até atos motivados por interesse pessoal são, em massa, benéficos para a sociedade

(veja o capítulo 1); segundo, o crescimento econômico não é um jogo de soma zero, no qual há um perdedor para cada vencedor. Crenças assim contrariam a intuição, especialmente esta última. É da natureza humana presumir que, quando alguém fica mais rico, mais gordo ou mais saudável, faz isso à custa de outrem, que fica mais pobre, mais magro ou mais doente.

Tom em os com o exem plo dois países, com o Portugal e Inglaterra. Digam os que am bos com ercializam bens um com o outro – vinho e tecidos – e que Portugal é m ais eficiente na produção desses dois bens. Este país pode fabricar tecidos por m etade do preço da Inglaterra, e vinhos por um quinto do preço.

Portugal tem o que os econom istas cham am de vantagem absoluta na produção desses dois tipos de bens. Diante disso, aparentem ente a regra da divisão do trabalho – que diz que cada um deve se especializar naquilo que faz m elhor – não apresenta um a solução. Você poderia supor que a Inglaterra não pode fazer m uita coisa para com petir, e que deveria se resignar a perder sua riqueza lentam ente. Não é bem assim .

Nesse caso, se a Inglaterra dedicasse todos os seus recursos à produção de tecidos e Portugal se concentrasse em vinhos, am bos, j untos, acabariam produzindo m ais tecidos e vinhos. Então, Portugal poderia trocar o vinho excessivo pelos tecidos ingleses. Isso porque, em nosso exem plo, a Inglaterra tem um a vantagem comparativa na confecção de tecidos, ao contrário do que ocorre com vinhos, área na qual é m uito m enos eficiente do que os portugueses. O pai da vantagem com parativa, o econom ista David Ricardo, usou esse exem plo em seu revolucionário livro de 1817, Princípios de economia política e tributação. À prim eira vista, parece ilógico, pois estam os acostum ados com a ideia de que só pode haver vencedores e perdedores quando as pessoas concorrem um as com as outras. Porém , a lei da vantagem com parativa m ostra que quando países m antêm relações com erciais, o resultado pode ser do tipo ganha-ganha.

A lei da vantagem com parativa em ação

Tom em os com o exem plo dois países do m esm o tam anho, A e B. Eles

com ercializam sapatos e m ilho, e o país A produz am bos os produtos com

m ais eficiência. Contudo, enquanto o país A consegue produzir 2.032 kg* de

m ilho por hom em -hora (contra 762 kg de B), tam bém produz 25 sapatos por

hom em -hora contra 20 de B. Portanto, o país B tem um a vantagem

com parativa na m anufatura de calçados. Isso é o que aconteceria caso cada

país tentasse produzir os dois bens:

 

No entanto, se o país A se concentrasse em produzir m ilho e B em produzir

sapatos, eis o que iria acontecer:

Nenhum país precisou de horas extras: com binando suas vantagens

com parativas, os dois países podem , j untos, produzir significativam ente

m ais, e am bos se beneficiarão.

A única circunstância sob a qual a vantagem com parativa não iria funcionar

seria se um país fosse não só m ais eficiente do que outro na produção dos

dois tipos de bens, com o tam bém m ais eficiente na m esm a proporção para

cada um . Na prática, isso é tão im provável que se pode dizer que é

efetivam ente im possível.

* A tabela original indicava respectivam ente 80 e 30 bushels de m ilho (equivalente a 25,40 kg) por hom em -hora com o produção do país A e do país B. Esses valores foram convertidos para quilogram as para a edição brasileira (N. do T.).

 

“Cite uma proposição, em todas as ciências sociais, que seja ao mesmo tempo

verdadeira e não trivial.”

Stanislaw Ulam, matemático

 

A razão é que cada país tem um núm ero finito de pessoas, que só podem dedicar um núm ero finito de horas a determ inada tarefa. Mesm o que, em teoria, Portugal pudesse produzir algum a coisa por um custo m enor que o da Inglaterra, não poderia produzir tudo a custo m enor, pois o tem po gasto na confecção de tecidos, por exem plo, não poderá ser em pregado na produção de vinho ou de qualquer outra coisa.

Apesar de a vantagem com parativa ser m ais aplicável à econom ia internacional, é igualm ente im portante em um a escala m enor. No capítulo sobre divisão do

trabalho (vej a o capítulo 6), im aginam os um em presário m ais talentoso do que sua equipe em tudo, desde a gerência até a faxina do prédio. Podem os usar a vantagem com parativa para explicar por que ele se sairia m elhor se dedicasse seu tem po àquilo que gera m ais receita (a adm inistração), deixando as tarefas m enos lucrativas para seus em pregados.

Sempre livre-comércio? A teoria da vantagem com parativa de Ricardo costum a ser usada com o espinha dorsal dos argum entos a favor do livre-com ércio – em outras palavras, a abolição de tarifas e cotas sobre bens im portados de outros países. Afirm a-se que, com ercializando livrem ente com outros países – m esm o aqueles que, no papel, são m ais eficientes na produção de bens e serviços – um país consegue ser m ais próspero do que se fechasse suas fronteiras.

Entretanto, alguns – inclusive Hillary Clinton e o renom ado econom ista Paul Sam uelson – lem braram que, por m ais elegantes que sej am as ideias de Ricardo, não se aplicam estritam ente ao m undo econôm ico atual, bem m ais sofisticado. Lem bram especificam ente que, no início do século XIX, quando Ricardo apresentou sua teoria, havia restrições efetivas à m ovim entação do capital individual (dinheiro e ativos) no exterior. Hoj e isso não se aplica m ais, pois com um toque no teclado um em presário pode transferir eletronicam ente bilhões de dólares em ativos de um lado para outro do m undo.

Jack Welch, antigo CEO da General Electric, dizia que “toda fábrica deveria estar sobre um a barcaça” – indicando que, idealm ente, as fábricas deveriam poder ir flutuando para onde quer que as despesas com pessoal, m ateriais e im postos fossem m enores. Hoj e, pode-se dizer que tal cenário é um a realidade, pois as em presas, não m ais presas a nações específicas com o na época de Ricardo, levam seus funcionários e seu dinheiro para o lugar que preferirem . Na verdade, segundo alguns econom istas, isso faz com que os salários caiam rapidam ente, e os cidadãos de alguns países fiquem pior do que os de outros. O contra-argum ento é que, em troca, o país que cria em pregos no exterior beneficia-se com os lucros elevados dessa em presa, redistribuídos a seus investidores, e com os preços m ais baixos nas loj as.

“Vantagem comparativa. O fato de que é logicamente certa não precisa ser

discutido na frente de um matemático; que não é trivial, é atestado por

milhares de homens importantes e inteligentes que nunca conseguiram

compreender a doutrina sozinhos ou acreditar nela depois que alguém a

explicou para eles.”

Paul Samuelson, economista norte-americano, em resposta ao matemático

Stanislaw Ulam

 

Outros alegam que a vantagem com parativa é um a teoria sim plista dem ais, presum indo, entre outras coisas, que cada m ercado é perfeitam ente com petitivo (na verdade, o protecionism o interno e os m onopólios garantem que os m ercados não sej am assim ), que não existe em prego pleno e que os trabalhadores deslocados podem m uito bem encontrar outros em pregos nos quais terão a m esm a produtividade. Alguns reclam am que, se as econom ias devessem se especializar em determ inadas indústrias, com o sugere a teoria da vantagem com parativa, reduziriam significativam ente sua diversidade econôm ica, deixando-as m uito vulneráveis a circunstâncias variáveis – com o um a queda repentina no apetite dos consum idores por seus produtos. Na Etiópia, onde o café representa 60% das exportações, um a m udança na dem anda do exterior ou um a safra ruim deixariam o país em um a posição econôm ica m ais fraca.

Apesar de tudo, a m aioria dos econom istas alega que a vantagem com parativa ainda é um a das m ais im portantes e fundam entais entre todas as ideias econôm icas, pois destaca o com ércio m undial e a globalização, provando que as nações podem prosperar ainda m ais caso olhem para fora em vez de olharem para dentro.

 

A ideia condensada:

especialização

+ livre com ércio

= ganha-ganha