50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer
35. Crises de crédito
C = SN(d1) – Le-rTN(d1 – σ√T)
Pode não parecer, mas esta é a equação mais perigosa desde E=mc2. Assim como a equação de Albert Einstein acabou levando a Hiroshima e Nagasaki, esta tem o impacto financeiro de uma bomba nuclear. Contribuiu para altos e baixos do mercado de valores, para uma sucessão de crises financeiras e para depressões econômicas que privaram milhões de pessoas de parcelas significativas de seus meios de subsistência. É a fórmula Black-Scholes, e no coração dessa história acha-se a maior de todas as perguntas da economia: os seres humanos podem aprender com seus erros?
Em term os gerais, há duas escolas de pensam ento sobre a form a com o se com portam os m ercados financeiros. Um a diz que os seres hum anos tendem a oscilar do estado de m edo ao de cobiça, e que os m ercados podem ficar obsessivos e essencialm ente irracionais ao extrem o. Sua conclusão é que sem pre irem os de bolha em bolha. Essa é a teoria dos ciclos de crédito. Quando tudo vai bem , o dinheiro é barato e abundante, m as às vezes esses tem pos são interrom pidos por um a crise de crédito, os bancos sim plesm ente param de em prestar, causando a quase paralisia da vida econôm ica norm al.
A outra teoria diz que, com o tem po, os m ercados se corrigem sozinhos, tornando-se cada vez m ais eficientes e m enos propensos a neuroses, o que significa que, um dia, quedas e crises vão se tornar coisas do passado. A teoria baseia-se na crença de que, no longo prazo, os seres hum anos podem se aperfeiçoar. É essa a tese sustentada pela equação m aravilhosa, idealizada por My ron Scholes e Fischer Black.
Cisnes negros
“Cisne negro” é um evento inesperado que força as pessoas a revisarem
suas visões preconcebidas de m undo. A expressão, popularizada pelo escritor
e ex-operador Nassim Nicholas Taleb, deriva da suposição de que todos os
cisnes eram brancos, um a ideia popular na Europa antes do século XVII e
que seria desm entida pela descoberta dos cisnes negros na Austrália.
Nos m ercados financeiros, evento cisne negro é um m om ento aleatório e
inesperado que faz com que os m ercados caiam ou subam . Taleb descreve a
chegada da internet com o um desses m om entos, e a decisão russa de
suspender o pagam ento da dívida em 1998 com o outro. Aquele levou à
explosão das “ponto com ”; este, a um a im portante crise de crédito e ao
colapso do Long-Term Capital Managem ent, um dos m aiores fundos de
cobertura do m undo. Outro exem plo? Os ataques de 11 de setem bro de
2001.
A equação Black-Scholes fez o que parecia ser im possível. À prim eira vista, era apenas um m eio de deduzir qual deveria ser o preço de um a opção dos m ercados
de derivativos (vej a o capítulo 30). Entretanto, as im plicações eram assom brosas. Era um a fórm ula m atem ática que parecia elim inar o risco de se investir nos m ercados. Aparentem ente, seguindo a equação, os investidores poderiam evitar perder m ilhões sim plesm ente vendendo as ações no curto prazo (noutras palavras, apostando em seu declínio im inente), quando os preços estavam caindo. A fórm ula foi adotada por quase todos os investidores im portantes do m undo e proporcionou a seus criadores o Prêm io Nobel de Econom ia de 1997. Infelizm ente, porém , quando as coisas ficaram difíceis, ela não funcionou. Num a situação em que os preços estavam caindo tão depressa que não havia com pradores para um a ação, título ou investim ento específico, a equação altam ente lógica fracassou.
O problem a da equação – e, na verdade, de quase todas as teorias econôm icas – é que os m ercados têm se com portado de m aneira irracional desde a aurora dos tem pos. Altos e baixos parecem ser um com ponente inevitável do capitalism o de
m ercado (vej a o capítulo 31).
As etapas do pico à crise Os m ercados financeiros são absolutam ente essenciais para a saúde das econom ias, pois sem um acesso fácil ao crédito (ou, para cham á-lo pelo outro nom e, à dívida), em presas e indivíduos não podem investir em seus futuros. Quando o dinheiro disponível para em préstim os fica escasso, a crise de crédito resultante pode levar à recessão ou, pior ainda, à deflação e à depressão, pois as pessoas param de investir e de gerar riqueza. Logo, com preender com o o m ercado financeiro passa da cobiça para o m edo é fundam ental para entender o funcionam ento de um a econom ia m oderna.
“Enquanto a música estiver tocando, você tem de se levantar e dançar. Ainda
estamos dançando.”
Chuck Prince, presidente do Citigroup até 2007
Entre o auge e a crise, os m ercados financeiros passam por cinco estágios. São os seguintes:
1. Mudança. Acontece algo que m uda a percepção dos investidores com
relação aos m ercados. No final da década de 1990 foi a internet. Até a crise
das “ponto com ”, as pessoas acreditavam que ela teria um potencial quase
ilim itado para se ganhar dinheiro. No com eço da década de 2000, foi a
com binação de taxas de j uros baixas e inflação contida que convenceu as
pessoas a assum irem m ais dívidas e a investirem em im óveis.
2. Apogeu. As expectativas dos investidores sobre essa m udança (m uitas
vezes cham ada de “novo paradigm a”) parecem com pensar. Na década de
1990, por exem plo, quem com prou ações da internet viu seu investim ento
subir de preço aos saltos, enquanto os preços de im óveis subiram no com eço
da década de 2000 em função das taxas de j uros baixas e da crença de que
os bancos teriam descoberto um novo m odelo de crédito hipotecário sem
riscos.
3. Euforia. A em polgação tom a conta e os bancos em prestam m ais dinheiro
ainda na tentativa de aum entar os lucros. Geralm ente, inventam novos
instrum entos financeiros para propiciar isso. Na década de 1980, a inovação
ficou por conta dos títulos podres – títulos de qualidade duvidosa; no início da
década de 2000, foi a securitização de hipotecas e outras dívidas. Todos –
desde um investidor conservador até o m otorista de táxi – entram no
m ercado.
4. Realização de lucros. Subitam ente, os investidores sagazes percebem que
os bons tem pos não vão durar para sem pre e com eçam a vender seus
investim entos. Com a venda, os preços com eçam a baixar pela prim eira
vez.
5. Pânico. Com os preços em queda, o m edo se espalha. As pessoas correm
em m assa para vender seus investim entos e os preços m ergulham
bruscam ente. Os bancos param de em prestar para todos, exceto para
aqueles com excelente histórico.
“O mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode se
manter solvente.”
John Maynard Keynes
Esses cinco estágios, idealizados pelo econom ista Hy m an Minsky, vêm se repetindo através da história, em bora em cada ocasião a m udança original e os detalhes exatos do apogeu sej am diferentes. De certo m odo, a história se repete, m as com um a cam uflagem tal que fica quase irreconhecível. O problem a é que, quando um m ercado entra em pânico, o resultado costum a ser um a crise de liquidez.
O momento Minsky No estágio do pânico, os preços podem cair tanto e tão depressa que o valor dos ativos em questão – com o im óveis – cai rapidam ente abaixo do valor da dívida assum ida por seus com pradores. Os bancos com eçam a exigir o pagam ento dos em préstim os, m as com o é difícil vender um ativo especulativo, os investidores vendem -nos a preços m ais baixos ou buscam outra coisa para vender. Sej a com o for, o resultado é que os preços caem ainda m ais. Às vezes, esse círculo vicioso é conhecido com o “m om ento Minsky ”.
Esse com portam ento – pânico e loucura – parece irracional, e com o a econom ia convencional não tem m uito espaço para com portam entos irracionais, tem sido lenta para diagnosticar bolhas e crises im inentes antes que sej a tarde dem ais. A equação Black-Scholes baseou-se na ideia de que sem pre haverá dem anda para um a ação ou investim ento específico desde que o preço atinj a um nível atraente, m as deixou de levar em consideração o com portam ento irracional durante um a crise. Tal com o acontece com tantas equações e m odelos sofisticados, reforçou a ilusão de que tem os algum m odo de escapar do risco. Mas o m undo financeiro sem pre foi um lugar arriscado.
A ideia condensada:
as econom ias se
paralisam quando
o crédito se esgota