50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

Edmund Conway · Capítulo 34 de 51

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50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

33. Mercados monetários

 

Num discreto prédio de escritórios em algum lugar nas docas de Londres, um pequeno grupo de pessoas tem a incumbência de produzir aquele que talvez seja o número mais importante do mundo. Esse número, fixado diariamente às onze da manhã, terá consequências imensas para o mundo: vai causar a bancarrota de alguns e fará com que outros ganhem milhões. É algo que faz parte das fundações do capitalismo. Contudo, muito poucas pessoas fora dos mercados financeiros o conhecem. É a Libor (acrônimo de London Interbank Offered Rate), taxa de juros interbancária do mercado de Londres.

A taxa Libor, adm inistrada pela Associação de Bancos Britânicos, está no centro de um dos principais setores da econom ia m undial – o m ercado m onetário. É nele que as em presas tom am e em prestam dinheiro no curto prazo – noutras palavras, sem precisar recorrer à em issão de títulos ou participações (vej a o

capítulo 27). Esses m ercados são o sistem a nervoso central do sistem a financeiro m undial, e, quando falham , o que acontece ocasionalm ente, podem causar um choque em toda a econom ia.

Em tem pos norm ais, a Libor sim plesm ente reflete a taxa com que os bancos estão dispostos a em prestar dinheiro uns aos outros no curto prazo. Esses em préstim os – cham ados de empréstimos interbancários – não têm respaldo: são m ais com o um cheque especial ou um cartão de crédito do que com o um a hipoteca, e são essenciais para o funcionam ento dos bancos. Todos os dias, o balancete dos bancos m uda significativam ente com os depósitos, retiradas, em préstim os ou pagam entos, e a capacidade de tom arem dinheiro em prestado dos outros bancos é essencial para que se m antenham funcionando corretam ente.

O poder da Libor

Os m ercados m onetários atacadistas tornaram -se tão poderosos e am plos

que as taxas Libor – fixadas para as m ais im portantes m oedas do m undo,

inclusive o dólar, o euro e a libra – estão no cerne de contratos valendo

cerca de US$ 300 trilhões – o que equivale a US$ 45.000 para cada ser

hum ano do planeta. A m aioria das pessoas pensa em taxas de j uros com o

aquelas estabelecidas pelos bancos centrais, com o a Reserva Federal ou o

Banco da Inglaterra. Na verdade, a Libor é um a indicação bem m elhor do

verdadeiro custo dos em préstim os na econom ia com o um todo.

 

A m aneira pela qual os bancos operam sofreu diversas transform ações nas últim as décadas. Tradicionalm ente, os bancos ganhavam dinheiro recebendo os depósitos dos clientes na form a de poupança e em prestavam esse dinheiro para outros clientes na form a de crédito im obiliário e de outros tipos de em préstim o

(vej a o capítulo 28). Por um lado, isso significa que, assim com o George Bailey (interpretado por Jam es Stewart) tenta acalm ar os depositantes que estão sacando freneticam ente seu dinheiro em A felicidade não se compra, os bancos tinham um a conexão direta – m uitas vezes, um relacionam ento pessoal – com seus clientes. Por outro, esse modus operandi não dava aos bancos m uitas oportunidades para crescer com o desej avam , porque os reguladores criaram regras sobre o valor que poderiam em prestar em relação a seu porte. Isso, por sua vez, significava que as taxas de j uros cobradas em financiam entos hipotecários não eram baixas.

O surgimento da securitização Muitos desses bancos ou instituições hipotecárias foram organizados com o associações m útuas, o que significa que não pertenciam a acionistas, m as a seus clientes. No Reino Unido, as instituições especializadas em créditos hipotecários eram conhecidas com o cooperativas habitacionais, incluindo com panhias com o Nationwide e Northern Rock.

No entanto, nas décadas de 1970 e 1980, com o aum ento na dem anda pela casa

própria (vej a o capítulo 37), os bancos perceberam que seria difícil acom panhar esse ritm o sem aum entar a quantidade de dinheiro disponível para em préstim os e recorreram a um sistem a alternativo. Em vez de em prestarem dinheiro apenas com base em seus depósitos, com eçaram a consolidar em pacotes a dívida hipotecária que estavam em itindo, vendendo-a para outros investidores. Esse processo ficou conhecido com o securitização – pois transform ava a dívida em securities, instrum entos de investim ento com o títulos, opções, ações etc. Isso funcionou m uito bem durante algum tem po. Tirando as dívidas hipotecárias de seus livros contábeis, os bancos conseguiram fazer m ais em préstim os, e de m aior valor, sem serem lim itados por seu tam anho. Investidores do m undo todo fizeram fila para com prar esses títulos, atraídos por seu retorno substancial e pela garantia dada pelas agências de classificação de crédito que diziam que eram investim entos confiáveis.

Com o tem po, os bancos foram ficando cada vez m ais sofisticados na criação desses investim entos. Não bastasse reunirem os créditos hipotecários em pacotes, fatiaram -nos e dividiram -nos em instrum entos conhecidos com o obrigações de dívida colateralizadas (com sigla em inglês CDO) e versões ainda m ais com plexas, com o CDOs2 (fatiadas e divididas duas vezes) e CDOs3 (três vezes).

A teoria por trás disso parece bem sensata. Antes, quando alguém deixava de pagar um a dívida hipotecária, quem m ais sofria era o banco; a securitização prom etia difundir o risco pelo sistem a financeiro para aqueles com m ais disposição de assum i-lo. O problem a, no entanto, é que, ao elim inar o relacionam ento pessoal entre credor e devedor (processo conhecido com o desintermediação), é bem m ais provável que aqueles que com pram pacotes de dívidas – sej am investidores j aponeses, sej am fundos europeus de pensão –, na verdade, não vão saber os riscos que estão assum indo. O que podem fazer é confiar nas classificações de agências com o Standard & Poors, Fitch, Moody ’s e outras.

Essa desconexão foi um a das principais causas da crise financeira da década de 2000, pois os investidores não tinham plena consciência da escala de risco que estavam assum indo ao adquirir pacotes de dívidas im ensam ente com plicadas. Com o os bancos estavam em prestando bem m ais do que o que tinham em depósitos, desenvolveram um déficit grave em suas contas – um buraco conhecido com o lacuna de financiamento –, que só pode ser corrigido com um grande financiam ento. E, com o verem os, isso não aconteceu.

O dia que mudou o mundo Em 9 de agosto de 2007, tanto os m ercados interbancários quanto os m ercados de hipotecas securitizadas paralisaram -se repentinam ente no m undo todo. Percebendo que o m ercado im obiliário dos EUA estava prestes a sofrer um a queda considerável e que, o que era m ais grave ainda, o sistem a financeiro ocidental tornara-se excessivam ente endividado, os investidores pararam de com prar títulos – noutras palavras, pararam de em prestar dinheiro. Foi um m om ento de m edo que provocou a crise financeira que se seguiu: o m om ento em que os econom istas e financistas, que até então não tinham prestado m uita atenção nessa parte com plexa do sistem a, deram -se conta de sua im portância para a saúde da econom ia m undial.

Muitos bancos dos dois lados do Atlântico, inclusive o Northern Rock, viram -se subitam ente incapazes de se financiar nos m ercados atacadistas e ficaram com um buraco m uito grande em suas contas. Apesar de a crise financeira ter m uitas causas, foi esse congelam ento dos m ercados financeiros que fez com que os prim eiros choques fatais se espalhassem pelo sistem a. Apenas um m ês depois, o Northern Rock foi forçado a buscar o financiam ento de em ergência do Banco da Inglaterra, que atuou com o em prestador de últim o recurso. Muitos acreditaram que o problem a foi causado especificam ente por hipotecas subprime (financiam entos im obiliários concedidos a devedores pouco solventes), m as o verdadeiro problem a do Northern Rock foi a com pleta dependência dos m ercados atacadistas quando as taxas Libor tinham subido, refletindo a relutância dos bancos em em prestarem dinheiro uns aos outros.

 

“Não creio que algum economista vá discordar do fato de que estamos na pior

crise econômica desde a G rande Depressão. A boa notícia é que estamos

chegando a um consenso com relação ao que precisa ser feito.”

Barack Obama

 

A taxa Libor é apenas um a taxa indicativa, m ostrando em teoria o que os bancos estariam dispostos a cobrar uns dos outros. Nesse caso, não havia em préstim o algum . Os bancos centrais foram forçados a intervir e inj etar dinheiro diretam ente nos m ercados e nos bancos. Os m ercados m onetários tinham secado!

 

A ideia condensada:

os m ercados

m onetários fazem o

m undo financeiro girar