50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer
12. Individualismo
A frase foi cunhada por Karl Marx, que a usou com desgosto: “O culto ao indivíduo”. Mas, no final do século XX, a ideia de que as escolhas individuais têm importância primordial na criação de políticas econômicas tornou-se dominante. Essa filosofia, semente do thatcherismo e do reaganismo, proveio de uma pequena nação europeia: a Áustria.
“Não existe sociedade: o que existe são indivíduos, homens e mulheres, e
famílias.”
Margaret Thatcher
Apesar de a econom ia ser o estudo daquilo que leva as pessoas a tom arem certas decisões, os econom istas clássicos tendiam , em nom e da facilidade, a enfatizar que de m odo geral as pessoas agem em uníssono. Se, por exem plo, chega um a nova variedade de batata frita às prateleiras e se m ostra popular, é porque os consum idores são atraídos por ela. A Escola Austríaca, no entanto – que nasceu no final do século XIX e ganhou forças no século XX –, concentrou-se nas razões específicas de cada indivíduo para decidir adquirir determ inado produto.
A econom ia convencional era – e ainda é – um assunto m uito elevado, exam inando o desem penho econôm ico de um a nação com o um todo, ou um subconj unto desse país, usando m edidas agregadas (em outras palavras, som ando as diversas partes para chegar a um total) com o Produto Interno Bruto e inflação. Em lugar disso, a Escola Austríaca enfatiza que a tom ada individual de decisões precisa ficar em prim eiro plano. Afinal, só indivíduos podem agir; países, em presas e instituições não têm m ente própria – são um a entidade coletiva, com preendida por m uitos indivíduos diferentes.
Os fenôm enos econôm icos – a riqueza ou os níveis de desigualdade de um país, por exem plo – são fruto de escolhas feitas por m ilhares de indivíduos, e não a consequência das políticas coordenadas de legisladores ou grandes em presas. Com o consequência, pode não haver um m odo de reduzir a desigualdade a determ inado nível, pois ela não é produto do desígnio hum ano, m as um a m anifestação da ação hum ana.
Arte ou ciência? Para a teoria austríaca do prim ado do indivíduo, é fundam ental a ideia de que a econom ia é m ais arte do que ciência. Essa ideia pode surpreender aqueles que estão fam iliarizados com a econom ia acadêm ica convencional, com seus gráficos e equações. Usando m odelos econôm icos, diriam , é possível determ inar o percentual de probabilidade de quase tudo, desde um a m udança na taxa de j uros ou um período de recessão, até algum a coisa além do cam po econôm ico, com o a taxa de gravidez na adolescência ou m esm o a possibilidade de um a guerra.
Todavia, apesar da confiança de seus praticantes, esses prognósticos científicos costum am dar errado. Com o advertia o antigo governador do Banco da Inglaterra Mervy n King ao apresentar suas previsões, a única coisa de que ele tinha 100% de certeza é que elas serão equivocadas – não existe m aneira de prever o futuro com precisão.
Em bora o pai da Escola Austríaca, Carl Menger – cuj o livro Princípios de economia política foi publicado em 1871 –, afirm e que a econom ia ainda é um a ciência social, destinada a classificar as ações das pessoas segundo um a estrutura lógica e um conj unto de padrões, seu principal interesse foi enfatizar a natureza caótica da econom ia. Com isso em m ente, os econom istas austríacos evitam , na m edida do possível, introduzir núm eros e equações em seus estudos – fato que levou m uitos de seus trabalhos a serem rej eitados por publicações profissionais sob a alegação de que contêm dados, valores ou equações insuficientes.
“Uma sociedade que não reconhece que cada indivíduo tem seus próprios
valores, e o direito de segui-los, não pode ter respeito pela dignidade do
indivíduo nem saber o que é liberdade.”
Friedrich Hayek, economista austríaco
A armadilha da generalização Com o com entou o sucessor de Menger, o austríaco Friedrich Hay ek, ganhador do Prêm io Nobel, todas as pessoas são diferentes, e assim – em bora possam ser tratadas exatam ente da m esm a m aneira – a form a com o reagem a esse tratam ento pode ser m uito diferente. O único m odo de garantir sua igualdade, afirm ou, “seria tratando-os diferentem ente. Portanto, a igualdade perante a lei e a igualdade m aterial não só são diferentes, com o tam bém conflitam um a com a outra; podem os conseguir um a ou a outra, m as não am bas ao m esm o tem po”.
Um m arciano na Grande Estação Central
Im agine que você é um m arciano que acaba de chegar à Terra e se vê na
Grande Estação Central de Nova York. Todas as m anhãs, por volta das 8h00,
você presencia a chegada de grandes caixas retangulares sobre rodas,
despej ando na plataform a pessoas que depois saem às ruas. Ao cair da
tarde, você vê m ilhares de pessoas que, com o m anadas, voltam às caixas.
Observando diariam ente esse com portam ento, você pode idealizar algum as
regras “científicas” razoavelm ente confiáveis sobre o com portam ento
hum ano, e até predizer com precisão o que as pessoas fariam todos os dias,
sem com preender o que as leva a participar dessa m igração coletiva diária.
Você teria um a visão bem m íope da hum anidade. É exatam ente essa a
crítica da Escola Austríaca à econom ia ortodoxa, que idealiza m odelos
com plexos que não levam m uito em conta a tom ada de decisões dos seres
hum anos individuais. O problem a é que os econom istas têm tanta fé nos
m odelos que deixam de ver o que m otiva as decisões das pessoas.
Vej am os o caso do dono de um a loj a. Um dos prim eiros pressupostos da econom ia ortodoxa é que, ao longo do dia, ele vai procurar m axim izar seus lucros – afinal, esse elem ento de interesse pessoal é um a das regras m ais
im portantes de Adam Sm ith (vej a o capítulo 1). Entretanto, um econom ista austríaco diria que aquilo que ele vende pode ser determ inado pelo fato de decidir abrir m ais tarde a loj a, ou que se recusa a vender para certa pessoa porque não gosta dela. Fatores pessoais com o esses determ inam seu com portam ento, e, em m assa, determ inam o com portam ento dos loj istas do m undo todo.
Oferta e dem anda, aos olhos do econom ista austríaco, é um a descrição abstrata daquilo que faz com que os preços subam ou baixem – e não um a causa em si. Os econom istas retrucam afirm ando que todas as ciências sociais precisam dessas abstrações e generalizações, m as a principal realização da escola austríaca é forçar a ciência a levar em conta o fato de que os valores, planos, expectativas e visão da realidade de cada um são elem entos subj etivos.
O individualismo se justifica? Mas, por que isso é tão im portante? Um a escola de pensam ento que adverte contra a tendência a suposições sobre o com portam ento hum ano pode parecer m enos útil do que a econom ia ortodoxa, que busca prever resultados e apresentar soluções para legisladores m ediante essas m esm as suposições. Porém , o ceticism o da Escola Austríaca foi j ustificado, entre outras coisas, porque Hay ek e seu com patriota Ludwig von Mises foram alguns dos prim eiros a prever a queda do regim e com unista, argum entando que um Estado planej ado desde o centro está fadado ao fracasso, j á que os responsáveis pelo planej am ento nunca terão inform ações suficientes sobre o que leva seus cidadãos a tom arem decisões individuais.
Os econom istas austríacos enfatizam a im portância de dar liberdade ao indivíduo para tom ar suas próprias decisões. Esse laissez-faire ideal acabou inspirando algum as das m aiores reform as da econom ia do século XX, pois foram , pelo m enos em parte, as ideias da Escola Austríaca que inspiraram tanto Ronald Reagan quanto Margaret Thatcher a buscarem a liberdade de m ercado, inform ando suas reform as baseadas na econom ia do lado da oferta (vej a o
capítulo 13). Perceberam que o foco não deveria estar na econom ia im posta desde o alto, m as nas vontades e desej os dos indivíduos.
“Depois que se percebe que a divisão do trabalho é a essência da sociedade,
nada resta da antítese entre indivíduo e sociedade. A contradição entre o
princípio individual e o princípio social desaparece.”
Ludwig von Mises, economista austríaco
A ideia condensada:
as escolhas dos
indivíduos são
fundam entais