50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

Edmund Conway · Capítulo 15 de 51

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50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

14. A revolução marginalista

 

Em 2007, David Beckham causou furor no mundo ao sair do Real Madrid da Espanha para ir para o Los Angeles G alaxy, assinando um contrato de cinco anos pelo valor de US$ 250 milhões, segundo se noticiou. O que gerou mais interesse foi o valor do negócio. Ele podia ser um bom jogador de futebol; ele pode também ter sido um excelente chamariz de marketing tanto para seu novo

clube quanto para a Major League,[1] que se esforçou para concorrer com associações como a NFL, de futebol americano, a NBA, de basquete, e as de outros esportes norte-americanos. Mas, falando sério, o sujeito vale US$ 250 milhões?

Por m enos econôm ico que possa parecer, o preço parece ter sido m esm o bom . O tim e de futebol não teria pago tudo isso caso não esperasse gerar um bom lucro. Indiretam ente, portanto, é o público que considera que Beckham , e outros j ogadores de futebol com o ele, m erecem um a som a desse porte. Estão dispostos a pagar por produtos relacionados com Beckham – desde cam isas com seu nom e bordado até as roupas e lâm inas de barbear prom ovidas por ele.

A margem Por que atribuím os a um ser hum ano um valor tão superior ao de outro? Grandes atletas podem ser bons em seus respectivos esportes, m as por que valem tão m ais do que aqueles cuj o papel é essencial para nosso bem -estar, com o professores e m édicos? A resposta pode ser encontrada naquilo que os econom istas cham am de margem.

Há cerca de trezentos anos, Adam Sm ith m encionou um paradoxo não m uito diferente do de Beckham em A riqueza das nações. Por que, perguntou, a diferença tão grande de preços entre diam antes e água?

Ao contrário da água, os diam antes não são essenciais para a existência hum ana; são pedaços de carvão cristalino – em bora sej am m uito atraentes. Ele raciocinou que é preciso m ais trabalho para fazer um diam ante – extraí-lo, cortá-lo, poli-lo e assim por diante – do que para produzir água, o que j ustificaria o custo. Adem ais, os diam antes são escassos, enquanto a água é abundante para a m aioria da população ocidental.

 

“É na margem, e não com uma visão ampla, que tomamos decisões econômicas.”

Eugen von Böhm-Bawerk, economista austríaco

 

Do m esm o m odo, é m uito pequeno o núm ero de pessoas que têm a habilidade de chutar em curva sobre a barreira e m arcar gol, com o fez David Beckham ao cobrar um a falta. A escassez faz com que o preço aum ente. Todavia, essa é apenas m etade da explicação. Afinal, a quantidade de esgrim istas m uito talentosos tam bém é reduzida, m as é m uito provável que não ganhem em anos o que Beckham recebe por sem ana.

A resposta ao paradoxo, proposta por econom istas no final do século XIX

(inclusive Carl Menger da Escola Austríaca; vej a o capítulo 12), é que o valor de determ inada coisa – sej a David Beckham , um diam ante ou um copo de água – é subj etivo. Depende apenas do valor que as pessoas atribuem a essa coisa em um dado m om ento. A ideia parece sim ples, m as m ostrou-se revolucionária. Antes, as pessoas presum iam que algum a coisa tinha valor inerente; após a revolução m arginalista, ficou claro que as coisas só têm valor na m edida em que as pessoas as desej am .

Utilidade marginal Voltem os ao nosso copo d’água. Para quem suportou dias e dias com sede em um deserto, o valor desse copo é incalculável; provavelm ente, a pessoa pagaria qualquer preço pedido, m esm o um diam ante, se tivesse um . Mas quanto m ais copos essa pessoa encontrar à disposição, m enos estará disposta a pagar por um deles. O que precisam os determ inar não é o valor da água no m undo, m as de cada copo específico. E a satisfação obtida com cada porção extra de água é o que os econom istas cham am de utilidade marginal de cada copo. Nesse caso, a utilidade m arginal será decrescente.

São num erosos os exem plos de preços que aum entaram ou dim inuíram em função da elevação ou queda da utilidade m arginal do bem em questão. O preço de um barril de petróleo estava em torno de apenas US$ 20 nos prim eiros anos do século XXI, m as alguns anos depois tinha aum entado para m ais de US$ 100 por barril, chegando a custar US$ 140. O m edo de racionam ento, exacerbado pela dem anda de econom ias que cresciam rapidam ente, fez com que as pessoas se dispusessem a pagar preços m aiores. Depois de apenas alguns m eses, o preço despencou para m enos de US$ 40 por barril, com a recessão econôm ica m undial.

O conceito de utilidade m arginal floresceu graças a outro grande econom ista, Alfred Marshall (1842-1924), que apresentou a ideia de que os consum idores tom am decisões com base em considerações m arginais. Anteriorm ente, a atenção voltava-se m ais para a oferta do que a dem anda, m as ele sustentou que essa abordagem unilateral equivalia a tentar cortar um a folha de papel (representando o preço) com apenas um a lâm ina de tesoura. Em vez de considerar que algum a coisa – digam os, um copo d’água – tem determ inado preço, estipulado pelos custos havidos pelo fornecedor em extraí-la e engarrafá-la, Marshall enfatizou que os desej os dos consum idores tam bém devem ser levados em consideração. Argum entou que só vão adquirir um produto se o item (1) for atraente a seu ver; (2) tiver um preço exequível; (3) seu preço for razoável em com paração com outros bens. Cada um a dessas considerações afeta o preço m arginal, sej a o de um copo d’água, sej a o do passe de um j ogador de futebol de renom e m undial.

Com a tudo que puder

Muitos, em um dado m om ento, sentiram -se tentados a entrar em um

restaurante cuj o atrativo é o bufê do tipo com a-tudo-que-puder. Você paga

adiantado – digam os, US$ 10,99 – e com eça a com er. Em term os

econôm icos, o custo total é o m esm o – US$ 10,99 –, m as o custo m arginal,

ou sej a, cada porção adicional, é zero, pois é esse o custo da com ida extra.

Contudo, a quantidade real de satisfação e de desfrute proporcionada pela

com ida (aquilo que os econom istas cham am de “utilidade”) dim inui a cada

porção pois vam os ficando cada vez m ais saciados, até m esm o passando

m al.

Portanto, em bora o custo m arginal de um a porção extra sej a zero, a

utilidade m arginal com eça alta e dim inui. É um princípio universal na

econom ia. Tem os a tendência a extrair m ais prazer na prim eira vez em que

consum im os determ inado bem , m as depois o retorno é m enor – assim com o

a prim eira aquisição de um Penny Black, o prim eiro selo postal, traz m ais

satisfação para um filatelista do que aquela auferida com a aquisição do

segundo, terceiro ou quarto exem plar desse selo.

 

Pensando na margem A ênfase de Marshall recaiu sobre o m arginal; as pessoas só fazem algum a coisa – fabricar lâm padas ou varar a noite estudando para um a prova no dia seguinte – quando o estudo extra ou a lâm pada valem a pena. Em um dado ponto, dorm ir será um plano m ais sensato do que estudar de m adrugada; do m esm o m odo, a receita proveniente da produção de um a nova lâm pada será m enor do que o custo de produção. Pensam os sem pre na m argem – é um a form a prática de agir. Portanto, as econom ias avançam m ediante increm entos graduais, e não em saltos gigantescos. A revolução m arginalista lançou luzes sobre a verdadeira natureza da evolução econôm ica.

Apesar de o hom em ser m arginalista por natureza, foi preciso que Marshall estabelecesse a ideia de utilidade m arginal com o parte dos fundam entos da econom ia. Hoj e, essas ideias inform am planos de negócios no m undo inteiro. São vitais para o com ércio.

E a parábola de Beckham não parou por ali. Dois anos depois de m udar de equipe, envolveu-se em um cabo de guerra com o clube italiano AC Milan. O incidente reforça a im portância de se levar em conta a utilidade m arginal. Os italianos acharam que um sim ples desem bolso seria suficiente pelo j ogador. Mas Tim Leiweke, presidente do LA Galaxy, disse: “O que o Milan não entende é que por trás desta história há fãs que estão parando de ir ao estádio e patrocinadores que am eaçam nos processar”. Esse é um exem plo clássico de pensam ento m arginalista.

 

A ideia condensada:

pessoas racionais

pensam em term os

m arginalistas