50 Ideias de Economia Que Você Precisa Conhecer

O Básico

01 A mão invisível

 

“A cobiça é boa”, declarou G ordon G ekko, vilão do filme clássico da década de 1980, Wall Street – poder e cobiça, confirmando, em uma única frase, os piores receios da sociedade educada sobre os financistas. Nesse mundo cruel de Manhattan, a avareza declarada não era motivo para vergonha: devia ser envergada com orgulho, como camisas listradas e suspensórios vermelhos.

Se o film e foi chocante no final do século XX, tente im aginar com o um a declaração dessas teria soado dois séculos antes, quando a vida intelectual ainda era dom inada pela Igrej a e definir seres hum anos com o anim ais econôm icos era quase um a blasfêm ia. Agora você pode ter um a noção do im pacto causado pela ideia radical da “m ão invisível”, de Adam Sm ith, quando a propôs no século XVIII. Apesar disso, tal com o seu descendente holly woodiano, seu livro foi um grande sucesso com ercial, esgotando-se em sua prim eira edição e m antendo-se, desde então, com o parte do cânone.

O papel do interesse pessoal A “m ão invisível” é um a form a sintética de

expressar a lei da oferta e da dem anda (vej a o capítulo 2), e explica com o o “puxa e em purra” desses dois fatores serve para beneficiar toda a sociedade. Em term os sim ples, o conceito é o seguinte: não há nada de errado se as pessoas agem em interesse pessoal. Num m ercado livre, a força com binada de todos que lutam por seus interesses individuais beneficia a sociedade com o um todo, enriquecendo todos.

Sm ith usou a frase apenas três vezes em sua obra-prim a A riqueza das nações, de 1776, m as um trecho fundam ental realça sua im portância:

[O indivíduo] não tem a intenção de prom over o interesse público, nem sabe o quanto o prom ove... ao dirigir [sua] atividade de m aneira a valorizar ao m áxim o a sua produção, visa apenas seu próprio lucro, e nisto, com o em m uitos outros casos, é guiado por um a m ão invisível a prom over um fim que não fazia parte de sua intenção... Ao buscar seu interesse pessoal, frequentem ente ele prom ove o da sociedade de m aneira m ais eficiente do que quando de fato tem a intenção de prom ovê-lo. Nunca soube de bons feitos por parte daqueles que afetam as trocas em nom e do bem público.

A ideia aj uda a explicar por que os m ercados livres têm sido tão im portantes para o desenvolvim ento de sociedades m odernas com plexas.

Aprendendo com a mão Vam os tom ar com o exem plo um inventor, Thom as, que teve a ideia de criar um novo tipo de lâm pada, m ais eficiente, duradoura e lum inosa que as dem ais. Ele o fez para atender a seu interesse pessoal, esperando ficar rico ou talvez fam oso. O subproduto será o benefício da sociedade com o um todo, criando em pregos para aqueles que produzem as lâm padas e m elhorando a vida (e a sala de visitas) daqueles que as com pram . Se não houvesse dem anda para a lâm pada elétrica, ninguém as teria com prado de Thom as e, na verdade, a m ão invisível teria lhe dado um tapa por com eter tal erro.

De m odo análogo, com o Thom as conseguiu se estabelecer, outros podem vê-lo ganhando dinheiro e, assim , tentam superá-lo criando lâm padas m elhores e m ais lum inosas, de m aneira que tam bém com eçam a ganhar dinheiro. Entretanto, a m ão invisível nunca dorm e. Thom as reduz seus preços, que ficam abaixo da concorrência, garantindo m ais vendas. Os consum idores, encantados, beneficiam -se de lâm padas ainda m ais baratas.

Em cada estágio do processo, Thom as estaria atuando segundo seu interesse pessoal, e não o da sociedade, m as, contrariam ente ao que sugeriria a intuição, todos se beneficiariam disso. De certo m odo, a teoria da m ão invisível é análoga à ideia da m atem ática – dois negativos produzem um positivo. Se um a pessoa age em seu próprio interesse, m as todos os dem ais estão sendo altruístas, a sociedade não terá benefícios.

Um exem plo é o da Coca-Cola, que m udou a receita de seu refrigerante efervescente na década de 1980 para atrair bebedores m ais j ovens e interessantes. No entanto, a New Coke foi um com pleto desastre: o público não gostou da m udança e as vendas despencaram . A m ensagem da m ão invisível foi clara, e a Coca-Cola, com lucros em queda, tirou a New Coke do m ercado após alguns m eses. A versão anterior tornou a circular, e os consum idores ficaram felizes – bem com o os diretores da Coca-Cola, um a vez que seus lucros voltaram a crescer rapidam ente.

 

ADAM SMITH (1723-1790)

O pai da econom ia foi um herói radical, um tanto quanto inesperado, da

pequena cidade escocesa de Kirkcaldy. Apropriadam ente para o prim eiro

econom ista, Sm ith era um acadêm ico excêntrico que se considerava um

forasteiro, e de vez em quando se lam entava por sua aparência física

incom um e pela falta de atributos sociais. Com o m uitos de seus herdeiros

m odernos, seu gabinete na Universidade de Glasgow tinha pilhas

caoticam ente altas de docum entos e livros. De vez em quando, viam -no

falando sozinho – e ainda por cim a era sonâm bulo!

Sm ith criou a expressão “m ão invisível” em seu prim eiro livro, Teoria dos

sentimentos morais (1759), que se concentrava na m aneira com o os seres

hum anos interagem e se com unicam e no relacionam ento entre retidão

m oral e a busca inata do hom em pelo interesse pessoal. Após deixar

Glasgow para ser tutor do j ovem Duque de Buccleuch, com eçou a trabalhar

no livro que depois se tornaria, em seu título com pleto, Uma investigação

sobre a natureza e as causas da riqueza das nações.

Depois disso, Sm ith tornou-se um a espécie de celebridade, e suas ideias não

apenas influenciaram todos os grandes nom es da econom ia com o aj udaram

a im pelir a Revolução Industrial e a prim eira onda de globalização, que

term inou com a Prim eira Guerra Mundial. Nos últim os 30 anos, Sm ith

voltou a se tornar herói, com suas ideias sobre m ercados livres, livre-

com ércio e divisão do trabalho (vej a o capítulo 6) em basando o pensam ento

econôm ico m oderno.

Merecidam ente, em 2007, Sm ith foi hom enageado na qualidade de prim eiro

escocês a aparecer no papel-m oeda do Banco da Inglaterra, com seu rosto

estam pado na nota de £ 20.

Sm ith adm itiu que havia circunstâncias nas quais a teoria da m ão invisível não funcionava. Entre elas, um dilem a conhecido com o a “tragédia dos com uns”. O problem a é que, quando existe um a oferta lim itada de determ inado recurso, com o pastos em um a área com um , aqueles que exploram a terra fazem -no em detrim ento de seus vizinhos. É um argum ento que tem sido usado com veem ência por aqueles que fazem cam panhas contra as alterações clim áticas

(vej a o capítulo 45).

Limites aos mercados livres Apesar de a ideia da m ão invisível ter sido aproveitada ocasionalm ente por políticos de direita nas últim as décadas, não é um a teoria que representa necessariam ente um a posição política específica. É

um a teoria econôm ica positiva (vej a o capítulo 16), em bora desautorize seriam ente aqueles que pensam que as econom ias podem ser m ais bem adm inistradas de cim a para baixo, com os governos decidindo o que deve ser produzido.

A m ão invisível destaca o fato de que os indivíduos – e não governos ou adm inistradores – deveriam poder decidir o que produzir e consum ir, m as há algum as condições im portantes. Sm ith tom ou o cuidado de distinguir o interesse pessoal da pura cobiça egoísta. É de nosso interesse pessoal ter um conj unto de leis e regulam entos que nos protej am de serm os tratados inj ustam ente com o consum idores. Incluem -se aí os direitos de propriedade, patentes, direitos autorais e leis que protegem os trabalhadores. A m ão invisível precisa ser apoiada pela regra da lei.

Foi isso que Gordon Gekko não entendeu. Alguém que é m ovido pura e sim plesm ente pela cobiça pode decidir burlar a lei na tentativa de enriquecer em detrim ento dos dem ais. Adam Sm ith nunca teria aprovado isso.

 

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o jantar, mas da consideração que têm por seus próprios interesses. Apelamos não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca lhes falamos

de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.”

Adam Smith

 

A ideia condensada:

o interesse

pessoal é bom

para a sociedade