A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 1 de 43

Páginas do PDF

A Grande Fome de Mao

Prefácio

 

Entre 1958 e 1962, a China desceu ao inferno. Mao Tsé-tung, presidente do

Partido Comunista Chinês, jogou seu país em um delírio com o Grande Salto

Adiante, uma tentativa de alcançar e superar a Grã-Bretanha em menos de

quinze anos. Ao liberar o maior ativo da China, uma força de trabalho que se

contava em centenas de milhões, Mao sonhou que poderia catapultar seu país

para a dianteira dos competidores. Em vez de seguir o modelo de

desenvolvimento soviético, que se inclinava acentuadamente para a indústria,

a China “caminharia sobre duas pernas”: as massas camponesas foram

mobilizadas para transformar a agricultura e a indústria ao mesmo tempo,

convertendo uma economia retrógrada numa sociedade comunista moderna,

com abundância para todos. Na perseguição de um paraíso utópico, tudo foi

coletivizado, e os aldeões foram arrebanhados em comunas gigantescas, que

proclamavam o advento do comunismo. As pessoas no campo foram

roubadas de seu trabalho, de seus lares, de sua terra, de seus pertences e de

seu meio de subsistência. A comida, distribuída às colheradas nos refeitórios

coletivos segundo o merecimento, transformou-se em arma para forçar as

pessoas a seguir todos os ditames do partido. As campanhas de irrigação

forçaram até a metade dos camponeses a trabalhar durante semanas a fio em

projetos de reservatórios de água gigantescos, frequentemente distantes de

casa, sem alimento e descanso adequados. A experiência terminou na maior

catástrofe que o país jamais conheceu, destruindo dezenas de milhões de

vidas.

À diferença de desastres comparáveis, como, por exemplo, os que aconteceram sob Pol Pot, Adolf Hitler ou Josef Stalin, as verdadeiras

dimensões do que aconteceu durante o Grande Salto Adiante continuam

pouco conhecidas. Isso porque durante muito tempo o acesso aos arquivos do

partido foi proibido a todos, exceto aos historiadores confiáveis, respaldados

por credenciais do partido. Mas uma nova lei do arquivo abriu, recentemente,

grande quantidade de material para historiadores profissionais, mudando o

modo de estudar a era maoista. Este livro se baseia em bem mais de mil

documentos, coletados por vários anos em diversos arquivos do partido, do

Ministério das Relações Exteriores em Pequim e de grandes coleções

provinciais em Hebei, Shandong, Gansu, Hubei, Hunan, Zhejiang, Sichuan,

Guizhou, Yunnan e Guangdong, e em coleções menores, porém igualmente

valiosas, em cidades e condados por toda a China. O material inclui relatórios

secretos do Departamento de Segurança Pública, minutas detalhadas de

encontros da cúpula do partido, versões sem censura de discursos de

importantes lideranças, pesquisas das condições de trabalho no campo,

investigações de casos de assassinatos em massa, confissões de líderes

responsáveis pela morte de milhões de pessoas, inquéritos coligidos por

equipes especiais enviadas para descobrir a extensão da catástrofe nos últimos

estágios do Grande Salto Adiante, relatórios gerais da resistência camponesa

durante a campanha de coletivização, pesquisas secretas de opinião, cartas de

queixas escritas por gente comum e muito mais.

O que surge desse massivo e detalhado dossiê transforma o nosso

entendimento do Grande Salto Adiante. Quando se trata do número geral de

mortos, por exemplo, os pesquisadores tiveram, até agora, que inferir das

estatísticas oficiais de população, incluindo números dos censos de 1953, 1964

e 1982. Suas estimativas vão de 15 a 32 milhões de mortes. Mas os relatórios

de segurança pública compilados na época, bem como os volumosos

relatórios secretos cotejados pelos comitês do partido nos últimos meses do

Grande Salto Adiante mostram como esses cálculos são incorretos e apontam

para uma catástrofe de magnitude muito maior: este livro mostra que pelo

menos 45 milhões de pessoas morreram desnecessariamente entre 1958 e

1962.

O termo “fome”, ou até mesmo “Grande Fome”, é frequentemente usado para descrever esses quatro a cinco anos da era maoista, mas o termo não

consegue captar as muitas formas pelas quais as pessoas morreram sob a

coletivização radical. O uso displicente do termo “fome” também deu suporte

à visão amplamente disseminada de que essas mortes eram consequência não

intencional de programas econômicos malfeitos e mal executados.

Assassinatos em massa não são usualmente associados a Mao e ao Grande

Salto Adiante, e a China continua a se beneficiar de uma comparação mais

favorável com a devastação comumente associada ao Camboja e à União

Soviética. Mas, como demonstram as novas provas apresentadas neste livro,

coerção, terror e violência sistemática foram a base do Grande Salto Adiante.

Graças aos relatórios frequentemente meticulosos compilados pelo próprio

partido, podemos inferir que, entre 1958 e 1962, em estimativa aproximada,

de 6% a 8% das vítimas foram torturadas até a morte ou sumariamente

mortas — ascendendo, no mínimo, a 2,5 milhões de pessoas. Outras vítimas

foram deliberadamente privadas de comida e morreram de inanição. Muitas

outras desapareceram porque eram velhas, fracas ou doentes demais para

trabalhar — e, portanto, incapazes de ganhar seu sustento. Pessoas eram

mortas seletivamente porque eram ricas, porque faziam cera, porque falavam,

porque simplesmente não eram estimadas ou por qualquer outra razão, pelo

homem que empunhava a concha no refeitório. Incontáveis pessoas foram

mortas indiretamente por negligência, uma vez que os oficiais estavam sob

pressão para focar mais os números que as pessoas, para garantir que

preenchessem as metas que lhes eram entregues pelos responsáveis pelo

planejamento.

Uma visão de abundância prometida não apenas motivou um dos

assassinatos em massa mais terríveis da história, como também infligiu dano

sem precedentes à agricultura, à indústria, ao comércio e ao transporte.

Panelas, caçarolas e ferramentas eram atiradas em fornalhas de fundo de

quintal para aumentar a produção de aço do país, vista como um dos mágicos

fazedores de progresso. Os rebanhos declinaram precipitadamente, não

apenas porque os animais eram abatidos para o mercado externo, como

também porque sucumbiam em massa de doenças e fome — apesar dos

extravagantes planos de gigantescas fazendas de criação de porcos que trariam carne para todas as mesas. O desperdício aumentou porque produtos

em estado bruto e suprimentos eram mal alocados e porque os chefes das

fábricas deliberadamente quebravam as regras para aumentar a produção.

Como todos cortavam caminho na incansável perseguição de uma produção

maior, as fábricas cuspiam bens de qualidade inferior que se acumulavam nos

desvios das linhas férreas sem serem recolhidos. A corrupção se infiltrou em

todos os lugares e aspectos da vida chinesa, manchando tudo, do molho de

soja às usinas hidrelétricas. O sistema de transporte se deteriorou lentamente

até parar por completo, incapaz de atender às demandas criadas por uma

economia planificada. Bens no valor de centenas de milhões de yuans se

acumulavam em refeitórios, dormitórios e até nas ruas, grande parte do

estoque simplesmente apodrecendo ou enferrujando. Teria sido difícil

planejar um sistema de maior desperdício, em que os cereais eram deixados

sem serem recolhidos à beira de estradas de terra no campo, enquanto as

pessoas roubavam raízes ou comiam lama.

Este livro também documenta como a tentativa de saltar para dentro do

comunismo resultou na maior destruição de propriedades da história

humana — superando de longe os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

Até 40% de todas as moradias se tornaram entulho, enquanto casas eram

derrubadas para cultivar fertilizante, construir refeitórios, reassentar

camponeses, endireitar o trajeto de estradas, abrir espaço para um futuro

melhor ou simplesmente para punir seus ocupantes. A natureza também não

escapou da destruição. Nunca saberemos qual foi a perda total de cobertura

de florestas durante o Grande Salto Adiante, mas um ataque prolongado e

intenso à natureza reclamou até metade de todas as árvores em algumas

províncias. Rios e cursos d’água sofreram também: em todo o país, represas e

canais, construídos por centenas de milhões de fazendeiros a um grande custo

humano e econômico, tornaram-se, na maior parte, inúteis ou até perigosos,

resultando em deslizamentos de terra, obstrução de rios, salinização do solo e

devastadoras inundações.

Assim, o significado deste livro não está de forma alguma restrito à fome.

O que relata, frequentemente com angustiante detalhamento, é o quase

colapso de um sistema social e econômico no qual Mao havia apostado seu prestígio. Enquanto a catástrofe se propagava, o líder atacava seus críticos

para manter a posição como o indispensável líder do partido. Depois que a

fome chegou ao fim, no entanto, novas facções apareceram, opondo-se

fortemente ao presidente: para ficar no poder, ele teve que virar o país de

cabeça para baixo com a Revolução Cultural. O elemento essencial da história

da República Popular da China foi o Grande Salto Adiante. Qualquer

tentativa de compreender o que aconteceu na China comunista deve iniciar

por colocá-lo no centro de todo o período maoista. De maneira muito mais

geral, enquanto o mundo moderno luta para encontrar um equilíbrio entre a

liberdade e a regulação, a catástrofe desencadeada na época permanece como

um lembrete do quanto é profundamente equivocada a ideia do Estado

planejador como antídoto para o caos.

 

* * *

 

O livro introduz novas provas sobre a dinâmica de poder em um Estado de

partido único. A política por trás do Grande Salto Adiante foi estudada por

cientistas políticos com base em declarações oficiais, documentos semioficiais

ou material da Guarda Vermelha liberado durante a Revolução Cultural, mas

nenhuma dessas fontes censuradas revela o que aconteceu por trás de portas

fechadas. Todo o quadro do que foi dito e feito nos corredores do poder será

conhecido apenas quando os Arquivos Centrais do Partido em Pequim

abrirem suas portas aos pesquisadores, e isso não é provável em um futuro

próximo. Mas as minutas de muitos encontros decisivos podem ser

encontradas em arquivos provinciais, uma vez que líderes locais com

frequência participavam dos mais importantes encontros do partido e tinham

de ser informados dos desenvolvimentos em Pequim. Os arquivos lançam

uma luz muito diferente sobre a liderança: à medida que se tornam

conhecidos alguns encontros altamente secretos, vemos as calúnias cruéis e

táticas de intimidação que tinham lugar entre os líderes do partido em toda a

sua crueza. O retrato que emerge do próprio Mao não é nada lisonjeiro e está

muito longe da imagem pública que ele cultivava com tanto cuidado: incoerente nos discursos, obcecado com seu próprio papel na história,

frequentemente discorrendo sobre ninharias passadas, um mestre em usar as

emoções para intimidar em reuniões do partido e, acima de tudo, insensível

às perdas humanas.

Sabemos que Mao foi o arquiteto central do Grande Salto Adiante e, assim,

carrega a principal responsabilidade pela catástrofe que se seguiu.1 Ele teve

que trabalhar duro para impor sua opinião, barganhando, adulando,

instigando, ocasionalmente atormentando e perseguindo os colegas. À

diferença de Stalin, não arrastava os rivais para um calabouço para executá-

los, mas tinha o poder de tirá-los de suas funções, encerrando suas carreiras

— e os muitos privilégios que vinham com uma posição alta no partido. A

campanha para superar a Grã-Bretanha começou com o presidente Mao e

terminou quando ele, de má vontade, permitiu que seus colegas retornassem

a uma abordagem mais gradual do planejamento econômico alguns anos

depois. Mas ele nunca teria prevalecido se Liu Shaoqi e Chu En-lai, os mais

poderosos homens do partido depois de Mao, tivessem atuado contra ele. Os

dois, em vez disso, obtiveram apoio de outros colegas antigos, à medida que

correntes de interesse e alianças se estendiam até os vilarejos — como está

documentado aqui pela primeira vez. Purgas ferozes foram levadas adiante,

enquanto oficiais antigos eram substituídos por homens duros,

inescrupulosos, que içavam velas para beneficiar-se dos ventos radicais que

sopravam de Pequim.

Mas acima de tudo este livro junta duas dimensões da catástrofe que até

agora têm sido estudadas isoladamente. Temos que vincular o que aconteceu

nos corredores de Zhongnanhai, o conjunto residencial que serve como

quartel-general do partido em Pequim, com as experiências diárias das

pessoas comuns. Com exceção de alguns estudos de vilarejos baseados em

entrevistas, simplesmente não existe história social da era maoista sem falar

na fome.2 E exatamente como as novas provas dos arquivos mostram que a

responsabilidade pela catástrofe se estendeu muito além de Mao, a profusa

documentação que o partido reuniu sobre cada aspecto da vida diária sob o

seu domínio refuta a noção comum do povo como mera vítima. Apesar da

visão de ordem social que o regime projetava interna e externamente, o partido nunca conseguiu impor seu grande desígnio, encontrando um grau

de oposição encoberta e subversão de que não se ouviu falar em nenhum país

com governo eleito. Em contraste com a imagem de uma sociedade

comunista estritamente disciplinada, em que os erros da cúpula levaram todo

o maquinário a parar, o retrato que emerge dos arquivos e entrevistas é de

uma sociedade em desintegração, levando as pessoas a apelarem para todos os

meios a fim de sobreviver. A coletivização radical foi tão destrutiva que, em

todos os níveis, a população tentava tirar vantagem, minar ou explorar o

grande plano, dando secretamente livre curso à motivação de lucro que o

partido tentava eliminar. Enquanto a fome se espalhava, a própria

sobrevivência de uma pessoa comum passou a depender cada vez mais da

habilidade de mentir, agradar, ocultar, roubar, trapacear, furtar, saquear,

contrabandear, enganar, manipular ou passar a perna no Estado de qualquer

outra forma. Como explica Robert Service, na União Soviética, esses

fenômenos foram justamente o que impediu o sistema de chegar a uma

paralisação completa.3 Um Estado comunista “perfeito” era incapaz de

fornecer incentivos suficientes para as pessoas colaborarem e, sem algum grau

de acomodação da motivação de lucro, teria se destruído. Nenhum regime

comunista teria tido condições de permanecer tanto tempo no poder sem que

houvesse constantes violações da linha do partido.

A sobrevivência dependia da desobediência, mas as muitas estratégias de

sobrevivência inventadas pelas pessoas em todos os níveis, de fazendeiros

escondendo cereais a oficiais do partido falsificando os livros contábeis,

também tendiam a prolongar a vida do regime. Elas se tornaram parte do

sistema. A falta de clareza tornou-se o meio comunista de vida. As pessoas

mentiam para sobreviver e, como consequência, a informação era distorcida

ao longo de toda a cadeia até o presidente. A economia planificada requeria

vastos inputs de dados acurados, mas, em cada nível, as metas eram

distorcidas, as cifras, infladas, e as políticas que se chocavam com interesses

locais eram ignoradas. Da mesma forma que com a motivação de lucro, a

iniciativa individual e o pensamento crítico tiveram que ser constantemente

suprimidos, e um permanente estado de sítio se desenvolveu.

Alguns historiadores poderiam interpretar esses atos de sobrevivência como provas de “resistência”, ou “armas dos fracos” opositores “camponeses”

contra o “Estado”. Mas técnicas de sobrevivência se estendiam de um lado a

outro do espectro social. Praticamente todo mundo, de alto a baixo, roubou

durante a fome, tanto que, se esses fossem atos de “resistência”, o partido teria

entrado em colapso num estágio muito inicial. Pode ser tentador glorificar o

que parece à primeira vista ser uma cultura moralmente atraente de

resistência pelas pessoas comuns, mas, quando a comida acabou, o ganho de

um indivíduo era com demasiada frequência a perda de outro. Quando

fazendeiros escondiam cereal, os trabalhadores de uma aldeia morriam de

fome. Quando o empregado de uma fábrica punha areia na farinha, alguém

no fim da linha mastigava pedra. Romantizar o que eram frequentemente

meios profundamente desesperados de sobrevivência é ver o mundo em preto

e branco, quando, na realidade, a coletivização forçou todas as pessoas, num

determinado momento, a assumirem compromissos morais amargos. As

degradações rotineiras estavam assim de mãos dadas com a destruição em

massa. Primo Levi, em suas memórias de Auschwitz, observa que os

sobreviventes dificilmente seriam heróis: quando alguém se coloca acima dos

outros num mundo dominado pela lei da sobrevivência, seu senso de

moralidade muda. Em Os afogados e os sobreviventes, Levi chamou isso de

zona cinzenta, mostrando como os prisioneiros determinados a sobreviver

tinham que se afastar de valores morais para obter uma ração extra. Ele

tentou não julgar, mas explicar, desenrolando camada após camada a

operação dos campos de concentração. Entender a complexidade do

comportamento humano em tempos de catástrofe é também um dos

objetivos deste livro, na medida em que os arquivos do partido permitem pela

primeira vez que nos aproximemos das difíceis escolhas que as pessoas

fizeram meio século atrás — seja nos corredores do poder, seja dentro do

casebre de uma família que morria de fome muito distante da capital.

 

* * *

 

As duas primeiras partes do livro explicam como e por que o Grande Salto Adiante se desenrolou, identificando os momentos decisivos e mapeando os

modos como as vidas de milhões foram modeladas por decisões tomadas por

uns poucos escolhidos na cúpula. A Parte Três estuda a escala de destruição

da agricultura, indústria, comércio e moradia ao meio ambiente. A Parte

Quatro mostra como o grande plano foi transformado pelas estratégias

diárias de sobrevivência de pessoas comuns para produzir algo que ninguém

pretendia e que poucos poderiam de fato reconhecer. Nas cidades,

trabalhadores roubavam, faziam cera ou sabotavam ativamente a economia

planificada, enquanto no campo os agricultores recorriam a todo um

repertório de atos de sobrevivência, que iam de comer os cereais diretamente

da plantação a pegar a estrada em busca de um lugar melhor para viver.

Outros roubavam celeiros, incendiavam escritórios do partido, assaltavam

trens de carga e, de vez em quando, organizavam rebeliões contra o regime.

Mas a habilidade das pessoas para sobreviver era muito limitada por sua

posição na elaborada hierarquia social que jogava o partido contra os outros.

E alguns eram mais vulneráveis que outros: a Parte Cinco observa a vida das

crianças, mulheres e idosos. Finalmente, a Parte Seis levanta os muitos modos

pelos quais as pessoas morreram — de acidentes, doenças, tortura, assassinato

e suicídio à inanição. Um ensaio sobre as fontes no fim do livro explica em

detalhe a natureza das provas de arquivo.