A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 24 de 43

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A Grande Fome de Mao

Parte Quatro | Sobrevivência

PARTE QUATRO

 

SOBREVIVÊNCIA

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Banqueteando-se durante a fome

 

A igualdade pode ter sido um pilar da ideologia comunista, mas, na realidade,

todos os Estados comunistas construíram elaboradas ordens hierárquicas.

Uma razão para isso foi que a maioria desses regimes vivia no medo

constante de inimigos reais ou imaginários, o que justificava a arregimentação

da sociedade segundo linhas militares em que cada unidade subordinada

devia executar ordens sem questionamento: “Cada funcionário é a bigorna de

seus superiores e o martelo de seus subordinados.”1 Outra razão era que a

economia planificada distribuía bens e serviços mais de acordo com a

necessidade do que com a demanda. E às necessidades de diferentes grupos

eram atribuídas prioridades diferentes pelo partido, estivesse ele defendendo

seus domínios contra os poderes imperialistas ou ocupado na construção do

futuro comunista. Na República Popular, o acesso à comida, aos bens e aos

serviços era amplamente determinado por um sistema de registro de unidades

familiares — o equivalente, grosso modo, ao passaporte interno instituído em

dezembro de 1932 na União Soviética. Introduzido nas cidades em 1951,

estendeu-se ao campo em 1955 e se tornou lei em 1958, exatamente quando

os agricultores estavam sendo empurrados para as comunas. O sistema

dividia pessoas em dois mundos diferentes ao classificá-las como “habitantes

das cidades” ( 2 jumin ) ou “camponeses” ( nongmin ). O status conferido pelo

sistema de registro era herdado através da mãe, o que significava que, se uma moça de aldeia se casasse com um morador da cidade, ela e seus filhos

continuavam a ser camponeses.

O sistema de registro familiar era o eixo de apoio da economia planificada.

Como estava a cargo da distribuição de bens, o Estado tinha que ter uma ideia

esboçada das necessidades dos diferentes setores. Se grandes fluxos de pessoas

se movimentassem pelo país em completa liberdade, isso perturbaria as cotas

de produção e os gráficos de distribuição tão meticulosamente mapeados

pelos planejadores centrais. Outra função desse sistema era fixar os

cultivadores à terra e assegurar que trabalho barato estivesse disponível nas

fazendas coletivas das quais se tirava um excedente para pagar pela

industrialização. Os agricultores eram tratados como casta hereditária privada

dos privilégios dados aos habitantes das cidades, que incluíam habitação

subsidiada, rações e acesso à saúde, educação e benefícios para os incapazes.

No meio da fome, o Estado deixou os agricultores se arranjarem sozinhos.

Uma parede foi criada entre as cidades e o campo, mas uma linha de

separação corria entre as pessoas comuns e os membros do partido. E, dentro

do partido — como no Exército —, uma elaborada hierarquia interna

promovia, além disso, os privilégios a que cada um tinha direito, do volume

de grãos, açúcar, óleo de cozinha, carne, ave, peixe e fruta à qualidade dos

bens duráveis, da moradia, da assistência médica e do acesso à informação.

Até a qualidade dos cigarros variava de acordo com a posição hierárquica. Em

Guangzhou, em 1962, quadros das posições 8 e 9 recebiam dois pacotes de

cigarros comuns por mês, quadros das posições 4 a 7, dois pacotes de melhor

qualidade, ao passo que as três posições mais altas, reservadas para

intelectuais de prestígio, artistas, cientistas e líderes do partido, recebiam três

pacotes da melhor qualidade.3

No ápice do partido ficava a liderança, que tinha residências especiais,

protegidas por muros altos, guardas dia e noite e carros com chofer. Lojas

especiais com bens escassos a preços com descontos especiais estavam

reservadas para eles e suas famílias.

Verduras de alta qualidade, carne, galinha e ovos, produzidos por fazendas

dedicadas exclusivamente a isso, eram analisados previamente para garantir

que fossem frescos e testados para detectar veneno antes de serem experimentados por provadores. Somente depois se servia a comida aos

líderes na capital e nas províncias.4 Acima deles estava Mao, que vivia na

opulência, perto da Cidade Proibida, onde imperadores outrora habitavam,

tendo o seu quarto de dormir o tamanho de um salão de baile. Mansões

suntuosas, com cozinheiros e serventes durante todo o ano, estavam às

ordens dele em todas as províncias ou cidades grandes.5 No fim da escala

estavam os milhões de presos nos campos de concentração localizados nas

regiões mais áridas do campo, desde as planícies terrivelmente frias da

Manchúria aos desertos áridos de Gansu. Eles existiam para quebrar pedras,

cavar para extrair carvão, carregar tijolos ou arar o deserto durante anos a fio

sem qualquer assistência da lei.

 

* * *

 

À medida que a fome se ampliava, as posições de privilégio mudavam. Apesar

dos expurgos contínuos, a filiação ao partido cresceu quase a metade, de 12,45

milhões de membros em 1958 para 17,38 milhões em 1961.6 Os membros do

partido sabiam como se cuidar. Uma forma de se regalar durante a fome era

participar dos encontros frequentes, em que o Estado fornecia tudo. Cerca de

50 mil funcionários vieram a Xangai em 1958, número que dobrou para 100

mil em 1960. Ficavam em hotéis administrados pelo Estado e comiam em

banquetes patrocinados pelo Estado. Um lugar favorito era o Hotel Donghu,

antiga residência do famoso gângster Du Yuesheng: um dos poucos lugares

que não cobravam por nada — fossem menus elaborados ou uma variedade

de perfumes oferecida nos banheiros. Alguns encontros duravam mais de um

mês. Em 1960, mais ou menos um encontro de alto nível realizava-se a cada

dia do ano, com grande custo para a cidade.7

Os quadros de nível mais baixo regalavam-se em encontros locais. No

condado de Nayong, na província de Guizhou, assolada pela fome, 260

quadros gastaram quatro dias lidando a seu jeito com 210 quilos de carne

bovina, 500 quilos de carne de porco, 680 galinhas, 40 quilos de presunto, 210

litros de vinho e 79 pacotes de cigarros, assim como montanhas de açúcar e doces. A isso devem ser acrescentados bons cobertores, travesseiros de luxo,

sabonetes perfumados e outros artigos especialmente comprados para o

encontro. Em Pequim, uma fábrica de automóveis gastou mais de 6 mil yuans

em oito visitas a hotéis de alto nível para receber visitantes no fim de 1960.8

Outro truque era organizar sessões de “teste de produtos”. Em Yingkou,

Liaoning, mais de vinte quadros reuniram-se em uma manhã, em março de

1960, e lidaram sistematicamente com uma variedade de produtos locais, a

começar por cigarros. Prosseguiram com carne enlatada, frutas e biscoitos,

servindo-se durante todo o tempo de copiosas quantidades de vinho de arroz.

No fim do dia, saciados e bêbados, três dos testadores vomitaram.9

Viagens de lazer eram organizadas. Em fevereiro de 1960, cerca de 250

quadros embarcaram em um navio de luxo para cruzar o Yang-Tsé, provando

delícias culinárias a bordo enquanto admiravam penhascos de pedra calcária,

paisagens de calcário e pequenas gargantas. Ocasionalmente deixavam o

conforto de suas cabines para visitar atrações culturais ao longo do caminho.

Cem rolos de filmes foram projetados. O aroma de óleos perfumados e

bastões de incenso cuidadosamente posicionados por todo o navio flutuava

no ar. Um fluxo permanente de garçonetes em uniforme e salto alto servia

prato após prato de iguarias. Uma banda tocava ao fundo. Não se pouparam

despesas. Só de combustível e pessoal, o custo do cruzeiro de 25 dias foi de 36

mil yuans, aos quais se devem acrescer 5 toneladas de carne e peixe, sem

contar os incontáveis fornecimentos de cigarros e bebidas. Deve ter sido uma

visão fascinante, pois o cruzeiro estava iluminado como um arco-íris, com

luzes de todas as cores, brilhando na escuridão de uma noite de luar. O som

das risadas, da conversa e dos copos que se tocavam em brindes viajava sobre

as águas do Yang-Tsé, cercado por uma paisagem espantosamente bonita,

arruinada pela inanição em massa.10

 

* * *

 

Durante a fome, os banquetes e a bebida (dachi dahe) nos encontros do

partido que aconteciam nas cidades e no campo eram fonte comum de reclamações. Chamavam-se de “quadros porquinhos” os funcionários

vorazes, em uma referência ao famoso personagem do romance da dinastia

Ming, Viagem para o Ocidente, metade humano, metade porco, e lendário por

sua preguiça, glutoneria e luxúria.11 Mas, fora do partido, algumas pessoas

também tinham oportunidades de regalar-se. O pessoal das cantinas coletivas

frequentemente abusava de sua posição para surrupiar provisões. Em uma

fábrica de algodão em Zhengzhou, capital da esfomeada Henan, os chefes

regularmente invadiam os recintos onde se estocavam alimentos, usando-os

como despensa pessoal. Em uma ocasião, um cozinheiro devorou vinte ovos

em um só dia, outros deram fim em quilos de carne enlatada. Comiam

macarrão e bolos fritos à noite, enquanto carne, peixe e verduras destinados

às cantinas eram divididos entre a equipe durante o dia. Trabalhadores

comuns tinham que sobreviver com três tigelas de mingau de arroz por dia,

ocasionalmente suplementadas por um pouco de arroz seco e bolinhos de

massa cozidos ao vapor. Muitos estavam fracos demais para trabalhar.12

No campo, os aldeões nem sempre assistiam inertes à pilhagem. Em uma

comuna de Guangdong, onde dois terços de todos os porcos tinham sido

comidos por quadros locais em banquetes e festas para celebrar o advento da

abundância, os agricultores advertiram: “Vocês, quadros, roubam

abertamente; nós, membros da comunidade, roubamos secretamente.”13 Uma

orgia de abates marcou o campo em 1958, quando agricultores mataram suas

aves domésticas e gado como forma de resistência contra as comunas do

povo. Impulsionados pelo medo, pelos rumores e pelo exemplo, optaram por

comer os frutos de seu trabalho, ou estocar um suprimento de carne, ou

vender seus produtos no mercado negro e guardar algum dinheiro em vez de

entregar seus pertences. Hu Yongming, como vimos, comeu

sistematicamente seu rebanho em uma aldeia no montanhoso nordeste da

província de Guangdong, abatendo em rápida sucessão quatro galinhas, três

patos, cachorros e filhotes, assim como um gato. Sua família deleitou-se com

a carne.14

Mesmo após os dias de glória de 1958, aldeões continuaram a encontrar

meios de se regalar ocasionalmente — às vezes com a conivência de líderes locais. Em Luoding, condado ensanguentado por uma liderança violenta e

agressiva, uma brigada ainda conseguiu “celebrar o aniversário do Partido

Comunista”, desculpa para cada família engolir quatro patos em 1º de julho

de 1959.15 No Ano-Novo de 1961, milhares de cabeças de gado foram

abatidas por agricultores descontentes na região de Zhanjiang — forma de

protesto também observada em outras partes da província de Guangdong,

pois não havia porcos disponíveis para os bolinhos sumamente importantes e

tradicionalmente usados para celebrar o Ano-novo lunar.16

Outra razão para o ocasional banquete era que poucas pessoas viam

qualquer motivo para poupar, uma vez que a expropriação e a inflação

rapidamente corroíam quaisquer reservas pessoais. Chen Liugu, uma velha

senhora de Panyu, que conseguira poupar 300 yuans, agora esbanjava, no

início do verão de 1959, convidando dez pessoas a um restaurante, onde

tigelas de sopa de peixe foram avidamente consumidas. “Não tem sentido

economizar agora, e só tenho uma centena de yuans reservados para comprar

um caixão.”17 Em Pequim, residentes estrangeiros notaram que alguns

restaurantes normalmente tranquilos ficaram lotados em 1959, quando

rumores sobre o advento de comunas urbanas fizeram com que residentes se

apressassem a vender sua mobília em lojas do Estado. O que se ganhou foi

gasto em uma rara refeição nos restaurantes.18

Às vezes, pessoas comuns comiam copiosamente porque tinham a sorte de

serem cuidadas por quadros que usavam toda a habilidade política para

transformar sua unidade em um bastião de abundância no meio da fome. Em

Xuhui, Xangai, alguns refeitórios tinham o luxo relativo de portas de vidro e

lâmpadas fluorescentes. Outros instalavam rádios, enquanto um refeitório em

Putuo construiu um aquário com peixes dourados.19 Por outro lado, a

supervisão deficiente da cadeia de suprimentos em algumas unidades urbanas

ocasionalmente significava que os trabalhadores tinham bastante para comer.

Em Hebei, uma investigação mostrou que, às vezes, os trabalhadores iam de

um refeitório para outro e comiam uma série de refeições. Em um salão de

refeitório, as mesas ficavam rotineiramente lotadas de produtos que se

derramavam no chão. As sobras varridas ao fim de cada refeição enchiam três ou quatro bacias, pesando 5 quilos cada. Em outro caso de embaraço criado

pela riqueza, trabalhadores levavam comida para o dormitório, embora

grande parte nunca fosse consumida. O assoalho ficava coberto de uma

camada de mingau amarelo, quando as pessoas pisavam em bolinhos

recheados jogados fora.20 Em Shijingshan, perto de Pequim, as ofertas

abundavam o suficiente para os trabalhadores pegarem o recheio dos

bolinhos de jujuba e jogarem fora a massa de farinha.21 Nos refeitórios da

poderosa Fábrica de Máquinas-Ferramentas de Xangai, lavava-se o arroz com

tanta pressa que vários quilos eram retirados dos encanamentos de águas

servidas em qualquer dia da semana e usados para alimentar os porcos.

Supervisão deficiente durante os turnos da noite permitia que trabalhadores

comessem e alguns se envolviam em concursos de alimentação: um

verdadeiro campeão conseguia comer cerca de 2 quilos de arroz de uma

sentada.22