A Grande Fome de Mao
Parte Quatro | Sobrevivência
PARTE QUATRO
SOBREVIVÊNCIA
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Banqueteando-se durante a fome
A igualdade pode ter sido um pilar da ideologia comunista, mas, na realidade,
todos os Estados comunistas construíram elaboradas ordens hierárquicas.
Uma razão para isso foi que a maioria desses regimes vivia no medo
constante de inimigos reais ou imaginários, o que justificava a arregimentação
da sociedade segundo linhas militares em que cada unidade subordinada
devia executar ordens sem questionamento: “Cada funcionário é a bigorna de
seus superiores e o martelo de seus subordinados.”1 Outra razão era que a
economia planificada distribuía bens e serviços mais de acordo com a
necessidade do que com a demanda. E às necessidades de diferentes grupos
eram atribuídas prioridades diferentes pelo partido, estivesse ele defendendo
seus domínios contra os poderes imperialistas ou ocupado na construção do
futuro comunista. Na República Popular, o acesso à comida, aos bens e aos
serviços era amplamente determinado por um sistema de registro de unidades
familiares — o equivalente, grosso modo, ao passaporte interno instituído em
dezembro de 1932 na União Soviética. Introduzido nas cidades em 1951,
estendeu-se ao campo em 1955 e se tornou lei em 1958, exatamente quando
os agricultores estavam sendo empurrados para as comunas. O sistema
dividia pessoas em dois mundos diferentes ao classificá-las como “habitantes
das cidades” ( 2 jumin ) ou “camponeses” ( nongmin ). O status conferido pelo
sistema de registro era herdado através da mãe, o que significava que, se uma moça de aldeia se casasse com um morador da cidade, ela e seus filhos
continuavam a ser camponeses.
O sistema de registro familiar era o eixo de apoio da economia planificada.
Como estava a cargo da distribuição de bens, o Estado tinha que ter uma ideia
esboçada das necessidades dos diferentes setores. Se grandes fluxos de pessoas
se movimentassem pelo país em completa liberdade, isso perturbaria as cotas
de produção e os gráficos de distribuição tão meticulosamente mapeados
pelos planejadores centrais. Outra função desse sistema era fixar os
cultivadores à terra e assegurar que trabalho barato estivesse disponível nas
fazendas coletivas das quais se tirava um excedente para pagar pela
industrialização. Os agricultores eram tratados como casta hereditária privada
dos privilégios dados aos habitantes das cidades, que incluíam habitação
subsidiada, rações e acesso à saúde, educação e benefícios para os incapazes.
No meio da fome, o Estado deixou os agricultores se arranjarem sozinhos.
Uma parede foi criada entre as cidades e o campo, mas uma linha de
separação corria entre as pessoas comuns e os membros do partido. E, dentro
do partido — como no Exército —, uma elaborada hierarquia interna
promovia, além disso, os privilégios a que cada um tinha direito, do volume
de grãos, açúcar, óleo de cozinha, carne, ave, peixe e fruta à qualidade dos
bens duráveis, da moradia, da assistência médica e do acesso à informação.
Até a qualidade dos cigarros variava de acordo com a posição hierárquica. Em
Guangzhou, em 1962, quadros das posições 8 e 9 recebiam dois pacotes de
cigarros comuns por mês, quadros das posições 4 a 7, dois pacotes de melhor
qualidade, ao passo que as três posições mais altas, reservadas para
intelectuais de prestígio, artistas, cientistas e líderes do partido, recebiam três
pacotes da melhor qualidade.3
No ápice do partido ficava a liderança, que tinha residências especiais,
protegidas por muros altos, guardas dia e noite e carros com chofer. Lojas
especiais com bens escassos a preços com descontos especiais estavam
reservadas para eles e suas famílias.
Verduras de alta qualidade, carne, galinha e ovos, produzidos por fazendas
dedicadas exclusivamente a isso, eram analisados previamente para garantir
que fossem frescos e testados para detectar veneno antes de serem experimentados por provadores. Somente depois se servia a comida aos
líderes na capital e nas províncias.4 Acima deles estava Mao, que vivia na
opulência, perto da Cidade Proibida, onde imperadores outrora habitavam,
tendo o seu quarto de dormir o tamanho de um salão de baile. Mansões
suntuosas, com cozinheiros e serventes durante todo o ano, estavam às
ordens dele em todas as províncias ou cidades grandes.5 No fim da escala
estavam os milhões de presos nos campos de concentração localizados nas
regiões mais áridas do campo, desde as planícies terrivelmente frias da
Manchúria aos desertos áridos de Gansu. Eles existiam para quebrar pedras,
cavar para extrair carvão, carregar tijolos ou arar o deserto durante anos a fio
sem qualquer assistência da lei.
* * *
À medida que a fome se ampliava, as posições de privilégio mudavam. Apesar
dos expurgos contínuos, a filiação ao partido cresceu quase a metade, de 12,45
milhões de membros em 1958 para 17,38 milhões em 1961.6 Os membros do
partido sabiam como se cuidar. Uma forma de se regalar durante a fome era
participar dos encontros frequentes, em que o Estado fornecia tudo. Cerca de
50 mil funcionários vieram a Xangai em 1958, número que dobrou para 100
mil em 1960. Ficavam em hotéis administrados pelo Estado e comiam em
banquetes patrocinados pelo Estado. Um lugar favorito era o Hotel Donghu,
antiga residência do famoso gângster Du Yuesheng: um dos poucos lugares
que não cobravam por nada — fossem menus elaborados ou uma variedade
de perfumes oferecida nos banheiros. Alguns encontros duravam mais de um
mês. Em 1960, mais ou menos um encontro de alto nível realizava-se a cada
dia do ano, com grande custo para a cidade.7
Os quadros de nível mais baixo regalavam-se em encontros locais. No
condado de Nayong, na província de Guizhou, assolada pela fome, 260
quadros gastaram quatro dias lidando a seu jeito com 210 quilos de carne
bovina, 500 quilos de carne de porco, 680 galinhas, 40 quilos de presunto, 210
litros de vinho e 79 pacotes de cigarros, assim como montanhas de açúcar e doces. A isso devem ser acrescentados bons cobertores, travesseiros de luxo,
sabonetes perfumados e outros artigos especialmente comprados para o
encontro. Em Pequim, uma fábrica de automóveis gastou mais de 6 mil yuans
em oito visitas a hotéis de alto nível para receber visitantes no fim de 1960.8
Outro truque era organizar sessões de “teste de produtos”. Em Yingkou,
Liaoning, mais de vinte quadros reuniram-se em uma manhã, em março de
1960, e lidaram sistematicamente com uma variedade de produtos locais, a
começar por cigarros. Prosseguiram com carne enlatada, frutas e biscoitos,
servindo-se durante todo o tempo de copiosas quantidades de vinho de arroz.
No fim do dia, saciados e bêbados, três dos testadores vomitaram.9
Viagens de lazer eram organizadas. Em fevereiro de 1960, cerca de 250
quadros embarcaram em um navio de luxo para cruzar o Yang-Tsé, provando
delícias culinárias a bordo enquanto admiravam penhascos de pedra calcária,
paisagens de calcário e pequenas gargantas. Ocasionalmente deixavam o
conforto de suas cabines para visitar atrações culturais ao longo do caminho.
Cem rolos de filmes foram projetados. O aroma de óleos perfumados e
bastões de incenso cuidadosamente posicionados por todo o navio flutuava
no ar. Um fluxo permanente de garçonetes em uniforme e salto alto servia
prato após prato de iguarias. Uma banda tocava ao fundo. Não se pouparam
despesas. Só de combustível e pessoal, o custo do cruzeiro de 25 dias foi de 36
mil yuans, aos quais se devem acrescer 5 toneladas de carne e peixe, sem
contar os incontáveis fornecimentos de cigarros e bebidas. Deve ter sido uma
visão fascinante, pois o cruzeiro estava iluminado como um arco-íris, com
luzes de todas as cores, brilhando na escuridão de uma noite de luar. O som
das risadas, da conversa e dos copos que se tocavam em brindes viajava sobre
as águas do Yang-Tsé, cercado por uma paisagem espantosamente bonita,
arruinada pela inanição em massa.10
* * *
Durante a fome, os banquetes e a bebida (dachi dahe) nos encontros do
partido que aconteciam nas cidades e no campo eram fonte comum de reclamações. Chamavam-se de “quadros porquinhos” os funcionários
vorazes, em uma referência ao famoso personagem do romance da dinastia
Ming, Viagem para o Ocidente, metade humano, metade porco, e lendário por
sua preguiça, glutoneria e luxúria.11 Mas, fora do partido, algumas pessoas
também tinham oportunidades de regalar-se. O pessoal das cantinas coletivas
frequentemente abusava de sua posição para surrupiar provisões. Em uma
fábrica de algodão em Zhengzhou, capital da esfomeada Henan, os chefes
regularmente invadiam os recintos onde se estocavam alimentos, usando-os
como despensa pessoal. Em uma ocasião, um cozinheiro devorou vinte ovos
em um só dia, outros deram fim em quilos de carne enlatada. Comiam
macarrão e bolos fritos à noite, enquanto carne, peixe e verduras destinados
às cantinas eram divididos entre a equipe durante o dia. Trabalhadores
comuns tinham que sobreviver com três tigelas de mingau de arroz por dia,
ocasionalmente suplementadas por um pouco de arroz seco e bolinhos de
massa cozidos ao vapor. Muitos estavam fracos demais para trabalhar.12
No campo, os aldeões nem sempre assistiam inertes à pilhagem. Em uma
comuna de Guangdong, onde dois terços de todos os porcos tinham sido
comidos por quadros locais em banquetes e festas para celebrar o advento da
abundância, os agricultores advertiram: “Vocês, quadros, roubam
abertamente; nós, membros da comunidade, roubamos secretamente.”13 Uma
orgia de abates marcou o campo em 1958, quando agricultores mataram suas
aves domésticas e gado como forma de resistência contra as comunas do
povo. Impulsionados pelo medo, pelos rumores e pelo exemplo, optaram por
comer os frutos de seu trabalho, ou estocar um suprimento de carne, ou
vender seus produtos no mercado negro e guardar algum dinheiro em vez de
entregar seus pertences. Hu Yongming, como vimos, comeu
sistematicamente seu rebanho em uma aldeia no montanhoso nordeste da
província de Guangdong, abatendo em rápida sucessão quatro galinhas, três
patos, cachorros e filhotes, assim como um gato. Sua família deleitou-se com
a carne.14
Mesmo após os dias de glória de 1958, aldeões continuaram a encontrar
meios de se regalar ocasionalmente — às vezes com a conivência de líderes locais. Em Luoding, condado ensanguentado por uma liderança violenta e
agressiva, uma brigada ainda conseguiu “celebrar o aniversário do Partido
Comunista”, desculpa para cada família engolir quatro patos em 1º de julho
de 1959.15 No Ano-Novo de 1961, milhares de cabeças de gado foram
abatidas por agricultores descontentes na região de Zhanjiang — forma de
protesto também observada em outras partes da província de Guangdong,
pois não havia porcos disponíveis para os bolinhos sumamente importantes e
tradicionalmente usados para celebrar o Ano-novo lunar.16
Outra razão para o ocasional banquete era que poucas pessoas viam
qualquer motivo para poupar, uma vez que a expropriação e a inflação
rapidamente corroíam quaisquer reservas pessoais. Chen Liugu, uma velha
senhora de Panyu, que conseguira poupar 300 yuans, agora esbanjava, no
início do verão de 1959, convidando dez pessoas a um restaurante, onde
tigelas de sopa de peixe foram avidamente consumidas. “Não tem sentido
economizar agora, e só tenho uma centena de yuans reservados para comprar
um caixão.”17 Em Pequim, residentes estrangeiros notaram que alguns
restaurantes normalmente tranquilos ficaram lotados em 1959, quando
rumores sobre o advento de comunas urbanas fizeram com que residentes se
apressassem a vender sua mobília em lojas do Estado. O que se ganhou foi
gasto em uma rara refeição nos restaurantes.18
Às vezes, pessoas comuns comiam copiosamente porque tinham a sorte de
serem cuidadas por quadros que usavam toda a habilidade política para
transformar sua unidade em um bastião de abundância no meio da fome. Em
Xuhui, Xangai, alguns refeitórios tinham o luxo relativo de portas de vidro e
lâmpadas fluorescentes. Outros instalavam rádios, enquanto um refeitório em
Putuo construiu um aquário com peixes dourados.19 Por outro lado, a
supervisão deficiente da cadeia de suprimentos em algumas unidades urbanas
ocasionalmente significava que os trabalhadores tinham bastante para comer.
Em Hebei, uma investigação mostrou que, às vezes, os trabalhadores iam de
um refeitório para outro e comiam uma série de refeições. Em um salão de
refeitório, as mesas ficavam rotineiramente lotadas de produtos que se
derramavam no chão. As sobras varridas ao fim de cada refeição enchiam três ou quatro bacias, pesando 5 quilos cada. Em outro caso de embaraço criado
pela riqueza, trabalhadores levavam comida para o dormitório, embora
grande parte nunca fosse consumida. O assoalho ficava coberto de uma
camada de mingau amarelo, quando as pessoas pisavam em bolinhos
recheados jogados fora.20 Em Shijingshan, perto de Pequim, as ofertas
abundavam o suficiente para os trabalhadores pegarem o recheio dos
bolinhos de jujuba e jogarem fora a massa de farinha.21 Nos refeitórios da
poderosa Fábrica de Máquinas-Ferramentas de Xangai, lavava-se o arroz com
tanta pressa que vários quilos eram retirados dos encanamentos de águas
servidas em qualquer dia da semana e usados para alimentar os porcos.
Supervisão deficiente durante os turnos da noite permitia que trabalhadores
comessem e alguns se envolviam em concursos de alimentação: um
verdadeiro campeão conseguia comer cerca de 2 quilos de arroz de uma
sentada.22