A Grande Fome de Mao
34. Violência
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Violência
O terror e a violência eram a base do regime. O terror, para ser eficaz, havia
de ser arbitrário e impiedoso. Tinha que ser difundido o bastante para
alcançar todo mundo, mas não precisava custar muitas vidas. Esse princípio
era bem entendido. “Mate uma galinha para assustar o macaco” era um dito
tradicional. Quadros que forçavam aldeões em Tongzhou — próximo da
capital — a ajoelhar-se antes de espancá-los chamavam isso de “punir um
para deter cem”.1
No entanto, durante o Grande Salto Adiante, algo de natureza
completamente diferente aconteceu no campo. A violência se tornou uma
ferramenta rotineira de controle. Não era usada apenas ocasionalmente
contra uns poucos para instilar medo em muitos, e sim dirigida, sistemática e
habitualmente, contra quem parecesse vadiar, criar empecilhos ou protestar,
sem falar em furtar ou roubar — a maioria dos aldeões. Todo incentivo
importante para o camponês trabalhar foi destruído: a terra pertencia ao
Estado; o grão que ele produzia era adquirido a um preço que ficava com
frequência abaixo do custo de produção; seu gado, ferramentas e utensílios
não lhe pertenciam mais e, quase sempre, até sua casa era confiscada. O
oficial local, por sua vez, enfrentava pressão sempre crescente para cumprir e
tornar a cumprir em excesso o plano e chicoteava a força de trabalho em um
impulso após o outro, sem descanso.
O constante martelar da propaganda pode ter ajudado nos primeiros dias do Grande Salto Adiante, mas as reuniões diárias a que os aldeões eram
obrigados a comparecer contribuíam para propagar a privação do sono.
“Reuniões todo dia, alto-falantes em toda parte”, lembrou Li Popo, quando
entrevistado sobre a fome em Sichuan.2 As reuniões, algumas das quais
duravam vários dias, estavam, de fato, na essência da coletivização, mas não
eram um fórum de democracia socialista, onde as massas camponesas
expressavam abertamente suas opiniões, e sim um lugar de intimidação, onde
os quadros podiam passar sermão, intimidar, ameaçar e gritar até ficar roucos
durante horas a fio. Com demasiada frequência camponeses eram acordados
no meio da noite para trabalhar nos campos depois de uma reunião à noite na
aldeia, de forma que dormiam menos de três ou quatro horas por dia na
estação de aração.3
De qualquer modo, como a promessa da utopia era seguida por mais outro
período de trabalho extenuante, o desejo de trocar trabalho duro por
promessas vazias gradualmente se desgastou. Logo, a única forma de extrair
submissão de uma força de trabalho exausta era a ameaça de violência. Nada
menor que o medo da fome, da dor ou da morte parecia capaz de galvanizá-
los. Em alguns lugares, tanto aldeões quanto quadros se tornaram tão
brutalizados que o alvo e o grau de coerção tinham que ser constantemente
expandidos, o que criava uma espiral sempre crescente de violência. Com
muito menos cenouras para oferecer, o partido se fiava mais pesadamente no
pau.
O bastão era a arma de escolha no campo. Barato e versátil. Uma
sacudidela dele podia punir um retardatário, enquanto uma série de golpes
lacerava as costas dos elementos mais teimosos. Em casos sérios, as vítimas
podiam ser penduradas e espancadas até ficarem cheias de manchas roxas.
Pessoas eram forçadas a se ajoelhar em conchas quebradas, sendo depois
espancadas. Isso aconteceu, por exemplo, a Chen Wuxiong, que se recusou a
trabalhar em um projeto de irrigação distante de casa. Foi forçado a ajoelhar-
se e a segurar um pesado tronco acima da cabeça, espancado o tempo todo
com um bastão por um oficial local chamado Chen Longxiang.4
Como aldeões famintos frequentemente sofriam de edema, o líquido vazava pelos poros a cada golpe de pau. Era uma expressão comum que
alguém “tinha sido espancado até a água sair”, por exemplo, no caso de Lu
Jingfu, um camponês caçado por uma equipe de brutamontes. Tão
enraivecido estava o líder deles, Ren Zhongguang, primeiro-secretário do
partido na comuna de Napeng, no condado de Qin, que espancou o homem
durante 20 minutos.5
Funcionários do partido com frequência tomavam a iniciativa. Um
relatório compilado pelo comitê local do partido que investigou abusos em
uma comuna em Qingyuan informou que o primeiro-secretário do partido,
Deng Zhongxing, espancou pessoalmente mais de duzentos camponeses,
matando catorze em uma tentativa de cumprir as cotas.6 Os miolos de Liu
Shengmao, doente demais para trabalhar no reservatório em Huaminglou,
Hunan, espirraram para todo lado com a surra que recebeu do secretário da
brigada, que continuou a golpear seu corpo sem vida em fúria cega. 7 Ou
Desheng, secretário do partido em uma comuna em Hunan, espancou
sozinho 150 pessoas, das quais quatro morreram. “Se quer ser um membro do
partido, você tem que saber como bater nas pessoas”, era seu conselho aos
novos recrutas.8 No condado de Daoxian — “todo lugar é um campo de
tortura”, escreveu uma equipe de investigação — camponeses eram golpeados
com bastões regularmente. Um líder de equipe espancou pessoalmente treze
pessoas até a morte (outras nove posteriormente morreram dos ferimentos).9
Alguns dos quadros eram verdadeiros gângsteres, sua mera aparência
inspirava medo. No condado de Nanhai, o líder de brigada Liang Yanlong
carregava três armas sob sua grande jaqueta de couro e apavorava a aldeia.10
Li Xianchun, líder de equipe em Hebei, injetava-se morfina todos os dias e
fanfarronava pela aldeia durante o dia em calça vermelho brilhante. Berrava
xingamentos e batia ao acaso em qualquer pessoa que tivesse a infelicidade de
chamar sua atenção.11
Geralmente, em todo o país, talvez metade de todos os quadros
regularmente golpeasse ou espancasse as pessoas que deveriam servir —
como relatórios intermináveis demonstram. 4 mil dos 16 mil aldeões que
trabalhavam no reservatório de Huangcai em Hunan, no inverno de 1959–60, foram chutados e espancados e quatrocentos morreram em consequência
disso.12 Em uma comuna de Luoding, em Guangdong, mais da metade de
todos os quadros espancava os aldeões e perto de cem foram mortos a
pauladas.13 Uma investigação mais ampla em Xinyang, Henan, mostrou que
mais de 1 milhão de pessoas morreram em 1960. A maioria morreu de fome,
mas 67 mil foram espancadas até a morte pelas milícias.14
O bastão era comum, mas não a única ferramenta no arsenal de horror
inventado por quadros locais para humilhar e torturar aqueles que falhavam
em manter um ritmo de trabalho constante. À medida que o campo
escorregava para a fome, violência ainda maior tinha que ser infligida aos
famintos para levá-los aos campos. Parecia sem limites a engenhosidade
exibida pelos poucos que infligiam dor e sofrimento a muitos. Pessoas eram
jogadas em lagos, às vezes amarradas, às vezes despidas. Em Luoding, um
garoto de 10 anos foi amarrado e jogado em um pântano por ter roubado
alguns talos de trigo. Ele morreu alguns dias depois.15
Pessoas eram desnudadas e deixadas no frio. Por roubar 1 quilo de favas, o
camponês Zhu Yufa foi multado em 120 yuans. Suas roupas, seu cobertor e
sua esteira foram confiscados; depois lhe tiraram as roupas e o sujeitaram a
uma sessão de pancadaria.16 Em uma comuna em Guangdong, com milhares
de camponeses mandados para o trabalho forçado, os retardatários eram
despidos no meio do inverno.17 Em outro lugar, na pressa para completar um
reservatório, quatrocentos aldeões de uma só vez foram obrigados a trabalhar
em temperaturas abaixo de zero sem as adequadas roupas acolchoadas de
algodão. Não se abriam exceções para mulheres grávidas. Pensava-se que o
frio forçaria os aldeões a trabalhar com mais vigor.18 Em Liuyang, Hunan,
uma equipe de trezentos homens e mulheres teve que trabalhar na neve com
o peito desnudo. Um em cada sete morreu.19
E, no verão, as pessoas ainda eram obrigadas a ficar sob sol abrasador com
os braços esticados (outras tinham que se ajoelhar sobre pedras partidas ou
pedaços de vidro). Isso aconteceu de Sichuan, no sul, a Liaoning, no norte.20
As pessoas também eram queimadas com ferramentas incandescentes.
Agulhas quentes eram usadas para queimar umbigos.21 Quando fazendeiros recrutados para trabalhar em um reservatório na comuna de Lingbei
queixaram-se de dor, a milícia queimou seus corpos.22 Em Hebei, as pessoas
eram marcadas com ferro em brasa.23 Em Sichuan, algumas eram
submergidas no óleo e lhes ateavam fogo: algumas queimavam até morrer.24
Água quente era jogada sobre as pessoas. Como óleo estava escasso, elas
eram cobertas de urina e excremento.25 Uma mulher de 80 anos, que cometeu
a temeridade de informar sobre seu chefe de equipe que roubava arroz, pagou
o preço quando foi encharcada de urina.26 Na comuna de Longgui, perto de
Shantou, aqueles que fracassavam em manter o ritmo de trabalho eram
empurrados para dentro de um monte de excremento, forçados a beber urina
ou ter as mãos queimadas.27 Em outro lugar, uma poção líquida de
excremento diluído em água era despejada na garganta da vítima. Huang
Bingyin, um aldeão enfraquecido pela fome, roubou uma galinha, mas foi
pego e forçado pelo líder da aldeia a engolir bosta de vaca.28 Liu Desheng,
culpado de embolsar uma batata-doce, foi coberto de urina. Ele, sua mulher e
seu filho também foram forçados a entrar em um monte de excremento. Em
seguida, alicates foram usados para puxar sua língua para fora da boca depois
que ele se recusou a engolir excremento. Liu Desheng morreu três dias
depois.29
Em toda parte, mutilava-se como punição: cabelos eram arrancados,30
orelhas e narizes, cortados. Depois que furtou alguma comida, Chen Di, um
camponês em Guangdong, foi amarrado pelo miliciano Chen Qiu, que cortou
fora uma de suas orelhas.31 O caso de Wang Ziyou foi informado à liderança
central: como punição por ele ter desenterrado uma batata, uma de suas
orelhas tinha sido cortada, as pernas amarradas com arame e uma pedra de 10
quilos deixada cair sobre suas costas; depois disso, ainda foi queimado com
ferro em brasa.32 No condado de Yuanling, Hunan, testículos eram
golpeados, solas dos pés queimadas e pimentas ardidas empurradas narinas
adentro. Orelhas eram pregadas na parede.33 Na região de Liuyang, Hunan,
arames de ferro eram usados para prender fazendeiros.34 Em Jianyang,
Sichuan, um arame era traspassado nas orelhas dos ladrões e pendurado pelo
peso de um pedaço de cartolina que dizia “ladrão contumaz”35. Outros
tinham agulhas inseridas embaixo das unhas.36 Em várias partes de
Guangdong, quadros injetavam água salgada em pessoas com agulhas
normalmente usadas no gado.37
Às vezes, maridos e mulheres eram forçados a se agredir, alguns até a
morte.38 Um homem idoso, quando entrevistado para este livro em 2006,
soluçou mansamente ao contar como, quando jovem, ele e outros aldeões
tinham sido forçados a espancar uma avó, amarrada no templo local, por
pegar madeira na floresta.39
Pessoas eram intimidadas por imitações de execuções e sepultamentos.40
Elas também eram queimadas vivas. Isso foi mencionado com frequência em
relatórios sobre Hunan. Pessoas eram trancadas em um porão e deixadas para
morrer em assustador silêncio, depois de um período de gritos frenéticos e
arranhar de paredes.41 A prática se espalhou o suficiente para provocar um
interrogatório pelo chefe provincial Zhou Xiaozhou durante uma visita ao
condado de Fengling, em novembro de 1958.42
A humilhação era companheira fiel da dor. Em todos os lugares, as pessoas
eram forçadas a se exibir — às vezes com um chapéu de bobo, às vezes com
uma placa no peito, às vezes inteiramente nuas.43 Rostos eram manchados de
tinta preta.44 As pessoas recebiam cortes de cabelo yin e yang, com um lado
da cabeça raspado, o outro, não.45 O abuso verbal era abundante. Dez anos
depois, os Guardas Vermelhos, durante a Revolução Cultural, inventaram
muito pouco.
A punição também se estendia além da morte. Às vezes, os cadáveres dos
espancados até a morte simplesmente apodreciam à beira da estrada,
destinados a se tornar párias na vida após a morte, pois, sem os ritos
apropriados de sepultamento, seus fantasmas vagariam — de acordo com a
crença popular —, sem nunca poder descansar. Sinais eram colocados em
alguns túmulos. Na comuna de Longgui, Guangdong, onde uma em cada
cinco pessoas morreu em 1959, alguns eram enterrados à beira da estrada, o
lugar marcado por um cartaz com a palavra “preguiçoso”.46 Em Shimen, Hunan, toda a família de Mao Bingxiang morreu de fome, mas o líder da
brigada recusou-se a lhes dar sepultamento. Depois de uma semana, ratos
tinham devorado os olhos dos cadáveres. Pessoas do lugar disseram mais
tarde a uma equipe de investigação: “Nós, seres humanos, não somos nem
como cachorros, ninguém nos enterra quando morremos.”47
Membros da família podiam ser punidos por tentar enterrar um parente
que estava com problemas perante a justiça local. Quando uma mãe de 70
anos se enforcou para escapar da fome, sua filha correu de volta dos campos
para casa em pânico. Mas o chefe local se enfureceu com a quebra de
disciplina. Perseguiu a filha pela estrada, socou sua cabeça e depois, quando
ela estava caída, chutou-a na parte superior do corpo. Ela ficou aleijada para o
resto da vida. “Você pode ficar com ela e comê-la”, ele disse sobre a mãe dela,
cujo corpo foi deixado para se decompor durante dias.48 A pior forma de
profanação era picar o corpo e usá-lo como fertilizante. Isso aconteceu com
Deng Daming, espancado até a morte porque seu filho furtara algumas favas.
O secretário do partido Dan Niming ordenou que seu corpo fosse fervido em
fogo brando até se transformar em fertilizante para um campo de abóboras.49
* * *
É difícil subestimar a extensão da violência: em uma província como Hunan,
que não se situava entre as piores em termos de baixas, um relatório de um
comitê central de inspeção, endereçado na época a Chu En-lai, observou que
pessoas eram espancadas até morrer em 82 dos 86 condados e cidades.50 Mas
é tarefa árdua obter números confiáveis e é provável que nenhum se refira a
todo o país. Já foi bastante difícil os investigadores da época determinarem
quantas pessoas morreram durante a fome, que dirá apurar a causa da morte.
Mas algumas das equipes enviadas ao campo sondaram um pouco mais e
obtiveram uma ideia por alto do que havia acontecido. No condado de
Daoxian, Hunan, muitas pessoas pereceram em 1960, mas apenas 90% das
mortes podiam ser atribuídas à doença e à desnutrição. Ao revisar todas as
provas, a equipe concluiu que 10% tinham sido enterrados vivos, espancados até a morte ou assassinados de outra forma por membros do partido e pela
milícia.51 No condado de Shimen, Hunan, cerca de 3.500 morreram em 1960,
dos quais 12% “espancados ou levados à morte”.52 Em Xinyang, uma região
submetida a uma pesquisa chefiada por líderes seniores, como Li Xiannian,
um milhão de pessoas morreram em 1960. Um comitê formal de investigação
estimou que de 6% a 7% foram espancados até a morte.53 Em Sichuan, as
taxas eram muito mais altas. No condado de Kaixian, um exame mais atento
por uma equipe enviada pelo comitê provincial do partido concluiu, na
época, que, do total da população da comuna de Fengle, 17% morreram em
menos de um ano, e até 65% das vítimas tinham morrido porque foram
espancadas, punidas com a privação de comida ou forçadas a cometer
suicídio.54
Relatório após relatório detalhava os modos como as pessoas eram
torturadas, e a imagem que emerge dessa massa de provas é que, no mínimo,
de 6% a 8% das vítimas da fome eram diretamente mortas ou morriam em
consequência de ferimentos infligidos por quadros ou pela milícia. Como
veremos no capítulo 35, pelo menos 45 milhões de pessoas morreram acima
da taxa normal de falecimentos durante a fome, de 1958 a 1962. Dada a
extensão e o alvo da violência tão abundantemente documentados nos
arquivos do partido, é provável que, no mínimo 2,5 milhões dessas vítimas
tenham sido espancadas ou torturadas até a morte.
Não há explicação simples para a violência que sustentava a coletivização
drástica. Poder-se-ia muito bem apontar para uma tradição de violência que
se estendia desde muitos séculos atrás na China, mas como isso poderia ter
sido diferente, de alguma maneira, do resto do mundo? A Europa estava
empapada de sangue e o assassinato em massa tomou um número sem
precedentes de vidas na primeira metade do século XX. Ditaduras modernas
podem ser particularmente criminosas em sua combinação de novas
tecnologias de poder, exercido através do Estado de partido único, com novas
tecnologias de morte, desde a metralhadora até a câmara de gás. Quando
Estados poderosos decidem agrupar esses recursos para exterminar grupos
inteiros de pessoas, as consequências gerais podem ser devastadoras. O genocídio, afinal, se tornou possível apenas com o advento do Estado
moderno.
O Estado de partido único de Mao não concentrou todos os seus recursos
para o extermínio de grupos específicos de pessoas — com a exceção,
naturalmente, de contrarrevolucionários, sabotadores, espiões e outros
“inimigos do povo”, categorias políticas potencialmente vagas o suficiente
para incluir cada um e todos. Mas Mao, de fato, jogou o país no Grande Salto
Adiante estendendo a estrutura militar do partido a toda a sociedade. “Cada
um, um soldado”, proclamou, no auge da campanha, e afastou para o lado
bondades burguesas como salário, dia de folga semanal ou a prescrição do
limite de trabalho que um trabalhador poderia executar.55 Um gigantesco
exército do povo na economia planificada estaria pronto a cumprir todos os
comandos de seus generais. Todos os aspectos da sociedade estavam
organizados segundo linhas militares — com cantinas, jardins de infância,
dormitórios coletivos, tropas de choque e aldeões vistos como infantaria —,
em uma revolução contínua. Não existiam meramente palavras marciais
retoricamente exibidas para aumentar a coesão do grupo. Todos os líderes
eram militares sintonizados com os rigores da guerra. Eles passaram vinte
anos em uma guerra de guerrilha em condições de privação extrema.
Enfrentaram uma campanha de extermínio atrás da outra, desatadas pelo
regime nacionalista de Chiang Kai-shek, e depois conseguiram sobreviver ao
massacre do exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Passaram
por expurgos cruéis e fases de tortura que periodicamente convulsionavam o
próprio partido. Glorificavam a violência e estavam acostumados à perda
maciça de vidas. E todos compartilhavam uma ideologia em que os fins
justificavam os meios. Em 1962, depois de perder milhões de pessoas em sua
província, Li Jingquan comparou o Grande Salto Adiante à Longa Marcha, na
qual um em cada dez conseguira chegar ao fim: “Não somos fracos, estamos
mais fortes, conservamos nossa determinação.”56
Em campo, funcionários do partido mostravam a mesma dura indiferença
pela vida humana que tinham em relação aos milhões mobilizados nas
sangrentas ofensivas contra Chiang Kai-shek. A força bruta com a qual o país
tinha sido conquistado estava agora voltada para a economia — sem levar em conta os números de baixa. E como a pura força de vontade humana era
considerada capaz de quase tudo — montanhas podiam ser movidas —,
qualquer falha parecia suspeitosamente com sabotagem. Um preguiçoso na
“guerra aos pardais” era um “mau elemento” que poderia descarrilar toda a
estratégia militar do Grande Salto Adiante. Um fazendeiro que furtava na
cantina era um soldado que fora para o mau caminho e deveria ser eliminado
antes que o pelotão ameaçasse um motim. Qualquer um era potencialmente
um desertor, ou um espião, ou um traidor, de forma que a menor infração era
respondida com todo o rigor da justiça marcial. O país se transformou em um
gigantesco acampamento, em que as pessoas comuns não tinham mais
influência nas tarefas para as quais recebiam ordens de execução, apesar da
pretensão do fingimento de democracia socialista. Elas tinham que seguir
ordens, e o fracasso em cumpri-las as colocava em risco de punição.
Quaisquer controles que existiam em relação à violência — religião, lei,
comunidade, família — foram simplesmente varridos.
Enquanto expurgava a si mesmo diversas vezes durante o Grande Salto
Adiante, o partido também recrutava novos membros, muitos dos quais com
características repulsivas, que sentiam pouco remorso em usar a violência
para conseguir que o trabalho fosse feito. A aldeia, comuna ou condado com a
maior quantidade de bandeiras vermelhas eram também, geralmente, onde
havia a maioria das vítimas. Mas bandeiras vermelhas podiam ser levadas
embora e dadas a um rival a qualquer momento, o que forçava os quadros
locais a manter a pressão, embora a força de trabalho estivesse
crescentemente exausta. Um círculo vicioso de repressão foi criado, com
espancamentos cada vez mais incessantes requeridos para conseguir que os
famintos desempenhassem quaisquer tarefas para as quais fossem designados.
Na escalada da violência, o limite era alcançado quando a ameaça de punição
e a ameaça da fome cancelavam uma à outra. Um aldeão forçado a trabalhar
por longos turnos nas montanhas no frio do inverno foi sucinto: “Estamos
exaustos; se você me bater, não trabalharei.”57
O modo como a violência aumentou na época é analisado em um
manuscrito extremamente interessante, intitulado “Como e por que os
quadros espancam as pessoas”, escrito por uma das equipes de investigação despachadas para o campo em Hunan. Os autores do relatório não apenas
gastaram tempo para reunir provas incriminadoras contra quadros culpados
de abuso de poder, como também os entrevistaram em uma rara tentativa de
descobrir o que tinha dado errado. A equipe descobriu o princípio da
recompensa: os quadros batiam em aldeões para ganhar elogios de seus
superiores. Por mais caótica que a situação estivesse em campo, a violência
sempre seguia uma linha, principalmente do topo para a base. Zhao
Zhangsheng foi um exemplo. Membro das fileiras inferiores do partido,
recusou-se, a princípio, a espancar pessoas suspeitas de serem “direitistas” nos
expurgos que se seguiram à Conferência de Lushan em 1959. Foi censurado
por seus superiores e até arriscou ser denunciado, ele próprio, como
“conservador direitista”, mas continuou a expressar relutância em usar a
violência contra inimigos do partido. Então, foi multado em 5 yuans como
advertência. Depois, finalmente sucumbiu à pressão e voltou com raiva,
surrando uma criança pequena até ela ficar coberta de sangue.58
A pressão dos que assistiam aos atos de violência frequentemente arrastava
os quadros locais ao mesmo baixo nível e os unia em uma camaradagem de
violência compartilhada. Em Leiyang, o líder do condado Zhang Donghai e
seus acólitos consideravam a violência um “dever” intrínseco da “revolução
contínua”: “fazer uma campanha não é a mesma coisa que fazer um bordado,
é impossível não espancar pessoas até a morte.” Quadros locais que se
recusavam a bater em preguiçosos eram, eles próprios, sujeitos a sessões de
humilhação pública, amarrados e espancados. Cerca de 260 foram demitidos
do trabalho. Trinta foram espancados até a morte.59 No condado de
Hechuan, Sichuan, quadros ouviam que “há tantas pessoas trabalhando que
não importa se você espancar algumas até a morte”.60
Entrevistas colhidas por inspetores do partido, em 1961, confrontaram os
perpetradores de violência com suas vítimas. Shao Ke’nan era um jovem de
Hunan que foi espancado pela primeira vez no verão de 1958, no auge do
frenesi da coletivização. Despachado para trabalhar 12 horas por dia no meio
do inverno em um projeto de irrigação nas montanhas Huaguo, foi coberto
de golpes novamente. Um de seus espancadores era um oficial chamado Yi Shaohua. Shao Ke’nan conhecia Yi desde a infância e se lembrou de que o
homem nunca recorrera à violência antes do Grande Salto Adiante. Com o
desdobramento de novas campanhas políticas, ele mudou e espancava e
praguejava ao menor pretexto. Socava forte e deixava suas vítimas com
hematomas, surradas e ensanguentadas.61 Quando Yi Shaohua, por seu turno,
foi perguntado por que era tão violento, explicou que a pressão vinha de seu
superior. Yi tinha medo de ser tachado de direitista. Seu chefe lhe dissera: “Se
você não bater neles, o trabalho não será feito.” A pressão tinha que ser
passada adiante na cadeia de comando: “As pessoas acima de nós nos apertam
para que apertemos quem está abaixo de nós.”62 Em outras palavras, como os
próprios membros do partido eram aterrorizados, eles, por sua vez,
aterrorizavam a população sob seu controle.
* * *
Os quadros tinham uma escolha: poderiam melhorar as condições dos
aldeões — contra todas as probabilidades — ou, em vez disso, tentar cumprir
as metas do partido. Um existia a expensas do outro. A maioria seguia o
caminho de menor resistência. Uma vez feita a escolha, a violência assumia
sua própria lógica. Em condições de penúria generalizada era impossível
manter todo mundo vivo. Simplesmente não havia comida suficiente na
aldeia para prover até camponeses confiáveis de uma dieta adequada e, no
clima de repressão em massa que se seguiu à Conferência de Lushan em 1959,
não parecia que o problema de escassez estivesse para ser resolvido com
muita rapidez. Um expediente para aumentar a comida disponível era
eliminar os fracos e doentes. A economia planificada já reduzira as pessoas a
meros dígitos em uma folha de balanço, um recurso a ser explorado por bens
maiores, como carvão ou cereais. O Estado era tudo, o indivíduo, nada; seu
valor era constantemente avaliado mediante pontos de trabalho e
determinado pela habilidade de deslocar terra ou plantar arroz. No campo,
camponeses eram tratados como gado: tinham que ser alimentados, vestidos e
alojados, tudo a um custo para o coletivo. A extensão lógica desses cálculos gélidos era destruir os que eram julgados não merecedores de viver. O
assassinato discriminado de preguiçosos, fisicamente débeis ou elementos de
qualquer forma improdutivos aumentava o suprimento geral de comida para
aqueles que contribuíam com o regime através de seu trabalho. A violência
era um modo de lidar com a escassez de alimentos.
A comida era comumente usada como uma arma. A fome era a punição à
qual se recorria em primeiro lugar, mais ainda que a uma surra. Li Wenming,
vice-secretário do partido de uma comuna no condado de Chuxiong,
espancou seis camponeses até a morte, mas sua principal arma para obter
disciplina era a fome. Dois irmãos recalcitrantes foram privados de comida
por uma semana inteira e acabaram buscando desesperadamente raízes na
floresta, onde logo morreram de fome. Uma das mulheres dos dois estava em
casa doente. Ela também foi banida da cantina. Uma brigada inteira de 76
pessoas foi punida com a fome por doze dias. Muitas morreram de
desnutrição.63 Em Longgui, Guangdong, o secretário do partido na comuna
ordenou que aqueles que não trabalhassem não deveriam comer.64 Ao
descrever o que aconteceu em muitos condados em Sichuan, um inspetor
notou que “os membros da comuna doentes demais para trabalhar são
privados de comida — isso apressa a morte deles”. No primeiro mês, a ração
era reduzida para 150 gramas de grão por dia; depois, no segundo, para 100
gramas. No final, àqueles que estavam para morrer negava-se qualquer
comida. Em Jiangbei e Yongchuan, “praticamente toda comuna do povo
retém comida”. Em uma cantina que servia 67 pessoas, dezoito morreram três
meses após ser barradas em suas dependências por motivo de doença.65
Existem poucos números confiáveis, mas uma equipe de inspetores que
examinou atentamente várias brigadas no condado de Ruijiang, Sichuan,
acreditava que a 80% dos que morreram de fome havia sido negada comida
como forma de punição.66 E, até aos que recebiam comida na cantina, com
frequência se dava quantidade inferior à que formalmente teriam direito.
Como explicou um aldeão, a concha mergulhada na panela “podia ler o rosto
das pessoas”. Com isso, ele quis referir-se a um fenômeno que muitos
entrevistados lembraram: ou seja, que o homem a cargo da cantina deliberadamente discriminava os que considerava “maus elementos”.
Enquanto chegava ao fundo da panela para os bons trabalhadores, a concha
meramente raspava a superfície para os “maus elementos”, a quem era dada
uma mistura aguada. “A água tinha aparência esverdeada e era intragável.”67
Relatório após relatório afirma que os doentes eram forçados a sair e a
trabalhar nos campos. Dos 24 aldeões que sofriam de edema e foram
compelidos pelo oficial Zhao Xuedong a participar do trabalho, todos, à
exceção de quatro, morreram. Na comuna de Jinchang, aqueles que tinham a
sorte de receber tratamento médico eram orientados para trabalho pesado
pelo secretário local do partido assim que liberados do cuidado médico.68 Por
todo o país, os doentes demais para trabalhar eram rotineiramente cortados
do suprimento de comida — uma decisão a que chegavam facilmente os
quadros que interpretavam doença como oposição ao regime. Nos piores
lugares, até mesmo aqueles que conseguiam realizar sua tarefa diária
recebiam apenas uma tigela de arroz aguado.
* * *
“A cada um segundo suas necessidades” era o slogan proclamado por
condados-modelo, como Xushui, mas com excessiva frequência esse slogan
estava muito mais próximo do dito de Lenin, “aquele que não trabalhar não
comerá”. Alguns coletivos até dividiam a população local em grupos distintos,
conforme o desempenho no trabalho, cada um recebendo uma ração
diferente. As calorias eram distribuídas de acordo com os músculos. A ideia
era cortar a ração dos que tinham desempenho menor no trabalho e usá-la
como bônus para estimular os melhores trabalhadores. Era um sistema
simples e eficaz para administrar a escassez, recompensando os fortes à custa
dos fracos. Um sistema similar tinha sido inventado em circunstâncias
semelhantes quando os nazistas foram confrontados com tal escassez de
comida que já não podiam alimentar seus trabalhadores escravos. Günther
Falkenhahn, diretor de uma mina que supria o complexo químico IG Farben,
dividiu seu Ostarbeiter em três classes e concentrou a comida disponível naqueles trabalhadores que davam o melhor retorno por unidade de caloria.
Os que estavam no fundo caíam em uma espiral fatal de má nutrição e
desempenho ruim. Por volta de 1943, ele teve reconhecimento nacional, e a
ideia de Leistungsernährung, ou “alimentação segundo a performance”, foi
promulgada como prática padrão no emprego de 69 Ostarbeiter .
Nenhuma ordem jamais veio de cima, instruindo os membros do partido a
restringir a alimentação adequada a trabalhadores acima da média, mas essa
parecia uma estratégia eficaz o bastante para alguns quadros astutos obterem
a produção máxima com o mínimo de gastos. Na Vila do Pêssego,
Guangdong, os quadros dividiram os camponeses em doze graus diferentes,
calibrados de acordo com a performance. Trabalhadores do nível mais alto
recebiam pouco menos de 500 gramas de grão por dia. Aqueles que ficavam
perto do fundo recebiam meros 150 gramas por dia, uma dieta de fome que
eliminava os elementos mais vulneráveis, substituídos por outros que
inexoravelmente escorregavam para baixo nas posições e beiravam o fim. Um
em cada dez morreu de fome em 1960.70 De fato, por todo o país, como
vimos, as unidades estavam divididas em níveis diferentes, bandeiras
vermelhas, verdes e brancas entregues aos avançados, medíocres e atrasados.
Foi um pequeno passo para elaborar mais o sistema e tornar a renda calórica
dependente da posição. No condado de Jintang, por exemplo, uma aldeia
dividia seus membros nos grupos “superior”, “médio” e “inferior”, os nomes
respectivamente listados em papel vermelho, verde e branco. Membros de
posições diferentes não podiam se misturar. Os nomes vermelhos eram
elogiados, mas os brancos eram perseguidos sem descanso, muitos acabando
em campos de trabalho provisórios para “reeducação”.71
* * *
O suicídio atingiu proporções epidêmicas. Para cada assassinato, um número
não revelado sofria de um modo ou de outro, e alguns destes optavam por dar
fim à vida. Frequentemente, não era tanto a dor que empurrava uma pessoa
para o fim, quanto a vergonha e a humilhação suportadas na frente de outros aldeões. Uma frase feita era que fulano ou beltrano, tendo se desviado do
caminho, “ficou com medo do castigo e cometeu suicídio”. “Levado à morte”
ou “imprensado contra a parede” também eram expressões comuns para
descrever o autoassassinato. No espaço de poucos meses no verão de 1958, em
Fengxian, Xangai, 95 pessoas “foram forçadas a um impasse e cometeram
suicídio” entre 960 pessoas mortas. As outras morreram de doenças não
tratadas, tortura ou exaustão.72 Como dado básico muito genérico (os
números, novamente, são gritantemente não confiáveis), cerca de 3% a 6%
das mortes evitáveis foram causadas por suicídio, o que significa que entre 1
milhão e 3 milhões de pessoas deram fim à vida durante o Grande Salto
Adiante.
Em Puning, Guangdong, suicídios eram descritos como “persistentes”;
algumas pessoas acabavam com a vida por vergonha de ter furtado de colegas
aldeões.73 Quando a punição coletiva era distribuída, aqueles que se sentiam
culpados por colocar os outros em perigo cometiam suicídio. No condado de
Kaiping, uma senhora de 56 anos furtou dois punhados de grãos. Toda a sua
família foi banida da cantina por cinco dias e mandada para um campo de
trabalho. Ela cometeu suicídio.74 Às vezes, as mulheres levavam os filhos com
elas, pois sabiam que não sobreviveriam sozinhos. Em Shantou, uma mulher
acusada de roubo amarrou seus dois filhos ao próprio corpo antes de pular no
rio.75
Nas cidades, a taxa de suicídio igualmente disparou, embora existam
poucos números confiáveis. O Departamento de Segurança Pública em
Nanquim, por exemplo, ficou alarmado quando informou que, na primeira
metade de 1959, cerca de duzentas pessoas tinham pulado no rio para praticar
suicídio. A maioria, mulheres.76 Muitos se matavam porque suas famílias
tinham sido separadas pela coletivização. Tang Guiying, por exemplo, perdeu
o filho para a doença. Depois, sua casa foi destruída para abrir espaço a um
projeto de irrigação. Ela se uniu ao marido, que trabalhava em uma fábrica
em Nanquim. Quando as autoridades lançaram uma campanha para mandar
aldeões de volta para o campo, ele não fez nada para protegê-la. Ela se
enforcou.77