A Grande Fome de Mao
32. Doença
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Doença
Nem todas as pessoas que morrem em tempos de fome morrem de
desnutrição. Doenças comuns como diarreia, disenteria, febre e tifo reclamam
muitas vidas antes disso. O impacto preciso de cada doença na China nesse
tempo é extremamente difícil de apurar, não apenas por causa do tamanho do
país e da diversidade das condições em campo, como também porque alguns
dos arquivos mais problemáticos pertencem aos serviços de saúde. Em um
clima de medo, em que milhões de membros do partido eram expurgados ou
rotulados de direitistas, poucos assuntos eram mais sensíveis que a doença e a
morte. Quando a má nutrição atingiu os recessos interiores do poder em
Zhongnanhai e Li Zhisui disse ao presidente que a hepatite e o edema
estavam em todos os lugares, Mao retrucou: “Vocês, médicos, só perturbam
as pessoas ao falar em doença. Estão criando dificuldades para todos. Eu,
simplesmente, não acredito em você.”1
Naturalmente, funcionários do partido continuaram a produzir relatórios
danosos sobre todos os tipos de tópicos ao longo do Grande Salto Adiante,
frequentemente a um grande risco pessoal, mas pesquisas de condições
médicas confiáveis são muito difíceis de encontrar. Primeiro, os serviços de
saúde foram golpeados pela coletivização, depois sobrecarregados por vítimas
da fome e, por fim, simplesmente deixaram de funcionar. Hospitais, até
mesmo nas grandes cidades, não tinham recursos e, por volta de 1960,
médicos e enfermeiras lutavam por sua própria sobrevivência. Em Nanquim, por exemplo, até dois terços de todas as enfermeiras e médicos estavam
doentes, porque os hospitais se tornaram catalisadores na disseminação da
doença e da morte. Como um relatório indicou, moscas e outros vermes
podiam ser encontrados “com frequência” na comida e causavam diarreia
entre a equipe médica e os pacientes. Até mesmo nos melhores hospitais,
reservados para os membros do partido, o sistema de aquecimento estava
quebrado e a equipe médica vestia retalhos e farrapos sujos, remendados.
Poucos uniformes eram sequer lavados.2 As severas carências de Wuhan se
combinavam com negligência criminosa, pois médicos e enfermeiras dos
Hospitais do Povo pareciam carecer do que um relatório chamou de “senso
de responsabilidade”: lucravam com a diluição de remédios na água,
roubavam os pacientes, espancavam os doentes. Médicos abusavam das
pacientes. As finanças dos hospitais eram uma desordem.3
Nessas condições, não é surpresa que poucos, ou talvez nenhum dos
especialistas médicos, estivessem inclinados a gastar tempo em aldeias
famintas, armados de bisturis e tubos de ensaio para tentar definir as causas
da mortalidade. O campo, onde morria a maioria das pessoas, foi
abandonado. Quando a extensão da fome foi finalmente reconhecida no
inverno de 1960–61, centros de emergência foram instalados em currais
abandonados, ou fazendas sem uso, para ajudar os famintos. No condado de
Rongxian, Sichuan, os levados para esses centros eram colocados em cima de
uma fina camada de palha diretamente sobre o solo. Não havia cobertores,
apesar do inverno cruel. O fedor era avassalador. Patéticos gemidos de dor
ecoavam pelo ar. Alguns eram deixados sem água durante dias a fio — sem
mencionar comida e remédios. Em Tongliang, vivos compartilhavam camas
com mortos; ninguém parecia se importar.4 Em Guanxian, as coisas, às vezes,
funcionavam ao contrário: os vivos eram trancados com os mortos, pois os
encarregados não podiam esperar algumas pessoas morrerem. Yan Xishan,
um mecânico que sofria de epilepsia, foi amarrado e levado para morrer no
necrotério. Ratos já haviam comido olhos e narizes de seis cadáveres no
aposento.5
* * *
Um dos mais surpreendentes aspectos da fome é a baixa incidência de
epidemias. Tifo, também chamado de febre do cárcere, febre de hospital ou
febre da fome, era mencionado, mas não parecia matar em grande
quantidade. Transmitido pelas fezes das moscas, aparecia em condições de
superlotação, antissanitárias, e era associado à fome, à guerra ou ao tempo
frio. O tifo era comum em centros de detenção para migrantes em fuga do
campo, mesmo em cidades como Pequim e Xangai.6 Cerca de 10% a 15% das
vítimas sucumbiam ao tifo, à febre tifoide e à recaída da febre em tempos de
fome, mas esse pode não ter sido o caso na China. A propagação do uso do
DDT, eficiente no controle da peste, poderia ter ajudado? Não é provável,
uma vez que outros insetos haviam sobrevivido ao massacre da guerra do país
contra a natureza. Na verdade, como vimos, os gafanhotos, assim como
outras pragas, vicejavam em uma paisagem destruída. A população de ratos
— que carregavam a pulga — foi destruída pela erradicação lançada no início
do Grande Salto Adiante. Mas ratos procriam ferozmente e não são
comedores exigentes.
Uma razão mais convincente para o tifo, com sua erupção de pele e febre
alta que termina em delírio, não ter se propagado amplamente é que as
epidemias eram rapidamente isoladas. Ali estava um regime militar que
negava abertamente a existência da fome, mas reagia imediatamente em
relação a eclosões suspeitas de doenças infecciosas. Isso aconteceu, por
exemplo, no caso da cólera-morbo, que apareceu em Guangdong, no verão de
1961. A epidemia começou no início de junho, quando vários pescadores
caíram doentes após ingerir comida do mar contaminada. Em questão de
semanas, milhares mais tinham sido infectados e, logo, bem mais de cem
pessoas estavam morrendo por causa da doença. As autoridades locais
usaram o Exército para criar um cordão sanitário em torno da região
infectada. Embora a quarentena não pudesse impedir a cólera de propagar-se
a regiões tão distantes quanto Jiangmen e Zhongshan — o pânico chegou a
surgir em Yangjiang —, o número geral de mortes permaneceu baixo.7 A praga também se espalhou por uma área do tamanho da província, em março
de 1960, mas parece ter sido controlada.8
Outras grandes epidemias que os historiadores costumam associar à fome
também são notáveis pela ausência dos arquivos. Houve grandes incidências
de varíola, disenteria e cólera, mas há poucas evidências nos arquivos, até
agora, de milhões varridos por grandes epidemias. E os boletins oficiais
publicados décadas após a fome por comitês locais do partido tampouco
mencionam as epidemias com frequência. Ao contrário, onde a doença é
mencionada, a sentença é invariavelmente que “as mortes por edema
causadas por nutrição inadequada foram altas”.9
O quadro que emerge dos registros é o de um país nas garras de uma
variedade de doenças, em lugar de sofrer o impacto de duas ou três epidemias
historicamente associadas apenas com a fome. E aquele amplo aumento se
devia tanto aos efeitos destrutivos da coletivização em praticamente todos os
aspectos da vida cotidiana — desde jardins de infância superlotados, cantinas
imundas e oficinas perigosas a hospitais mal equipados, superlotados e com
equipe insuficiente — quanto às consequências da fome disseminada. Em
Hunan, cerca de 7.500 crianças morreram de sarampo em 1958, duas vezes
mais que no ano anterior, quando as famílias foram forçadas a deixar os filhos
em jardins de infância congestionados. Casos de pólio foram quinze vezes
mais altos em 1959 que em 1958. A incidência de meningite duplicou,
atribuível, novamente, a desastrosas condições disponíveis nos jardins de
infância.10 Fragmentos de informação de outras regiões confirmam essa
tendência. Milhares de casos de meningite, por exemplo, também apareceram
em Nanquim, no inverno de 1958–59, e custaram 140 vidas.11 O índice de
disenteria também aumentou enormemente e causou sete vezes mais mortes
em Nanquim, em 1959, que no ano anterior.12
A hepatite disparou, mas tendeu mais a afetar os residentes privilegiados
das cidades do que as massas empobrecidas do campo. Na cidade de Hubei,
uma em cada cinco pessoas sofreu da doença em 1961. Apenas em Wuhan,
cerca de 270 mil habitantes, em um universo de 900 mil, fizeram testes que
deram positivo para a doença.13 Também em Xangai o número de infecções era alto o bastante para levar empresas estatais a requerer instalações médicas
especiais para tratar os doentes.14
A malária era endêmica. No verão de 1960, um quarto de todos os aldeões
em áreas de Wuxi sofriam da doença. 15 A febre do caracol, ou
esquistossomose, causada por um verme parasita que ataca o sangue e o
fígado, era prevalecente. Houve milhares de casos em muitos condados de
Hubei, onde as pessoas entravam em contato com caracóis de água doce
quando atravessavam descalças os campos de arroz irrigados ou quando
estavam pescando. Em Hanyang, trabalhadores de fábrica famintos desciam
para os muitos lagos que cercavam a cidade para cortar cevada no verão de
1961. Três mil pessoas foram infectadas, uma dúzia morreu.16 A tênia, que
suga sangue com tanta voracidade que leva o hospedeiro à anemia, era
comum, embora estatísticas confiáveis continuem enganosas. Mas o
problema era sério em Hunan, o bastante para as autoridades sanitárias
estipularem a meta de curar 3 milhões de pessoas infectadas em 1960 — em
apenas oito condados.17
Em todos os lugares, os efeitos da coletivização levavam a taxas mais altas
de doenças. Vimos como pessoas morreram pelo calor das fornalhas de fundo
de quintal durante a campanha do ferro e aço em 1958, mas, nos anos
seguintes, as doenças cardíacas continuaram a custar vidas. Trabalhadores
exaustos e mal alimentados ficavam expostos a altas temperaturas durante
todo o dia e, em Nanquim, vários casos de ataques do coração, alguns fatais,
ocorreram em apenas dois dias no verão de 1959.18 Em Hubei, faltavam até
simples chapéus de palha, mas os camponeses eram obrigados a trabalhar ao
meio-dia, sob sol abrasador. Milhares sofriam com o calor, cerca de trinta
casos foram fatais.19
Até mesmo a lepra estava em aumento. Provocada por uma bactéria que
causa dano permanente à pele, aos nervos, membros e olhos, ela se espalhou
devido ao cuidado inadequado, à água contaminada e à dieta insuficiente. Os
hospitais, que já não davam conta do volume de trabalho acima de sua
capacidade, recusavam pacientes leprosos. Em Nanquim, cerca de 250 casos
estavam hospitalizados, mas a falta de recursos significava que eles não
podiam ser separados de outros pacientes.20 Sabia-se que bem mais de 2 mil
leprosos existiam em Wuhan, mas uma severa escassez de leitos condenou-os
a vagar pela cidade e catar comida no lixo.21 Os leprosos do campo podiam
ter menos sorte. Na comuna de Qigong, Guangdong, um rapaz de 16 anos e
um adulto que sofriam de lepra foram escoltados até as montanhas e mortos
com um tiro na nuca.22
Doença mental, por difícil que seja de definir, também estava aumentando,
sem dúvida devido aos incessantes ataques predatórios do Estado,
combinados com a perda disseminada, a dor e a tristeza, que levavam as
pessoas à loucura. Poucos estudos significativos foram produzidos, mas um,
da comuna de Huazhou, em Guangdong, afirmava que mais de quinhentos
aldeões sofriam de doença mental em 1959.23 Em um caso curioso de histeria
em massa, dos seiscentos estudantes de uma escola de ensino médio, no
condado de Rui’an, Zhejiang, um terço começou a chorar e a rir sem razão
aparente, em maio de 1960.24 Informes semelhantes vieram de Sichuan, onde
centenas de aldeões de vários condados ficaram furiosos, tagarelando e
explodindo em gargalhadas convulsivas.25 Uma estimativa colocou a taxa
nacional de doença mental em um por mil, mas, como mostra o caso de
Huazhou, bem mais pessoas devem ter sido incapazes de suportar a violência
crua da coletivização e o horror da fome (isso fica bem claro com as altas
taxas de suicídio, como veremos no próximo capítulo). De qualquer maneira,
muitos nunca recebiam qualquer cuidado, pois as autoridades tinham outras
prioridades. Em Wuhan, por exemplo, cerca de 2 mil casos conhecidos não
tinham acesso a um especialista, pois apenas trinta leitos estavam disponíveis
para casos psicóticos na cidade inteira.26
Até quando eram maltratados, os loucos tinham uma vantagem: como o
bufão da corte, nada lhes acontecia por falar a verdade. Como lembra um
sobrevivente da região de Xinyang, apenas um homem ousava mencionar a
fome em sua aldeia, andando durante todo o dia sem parar, repetindo para
quem quisesse ouvir um refrão popular: “Homem come homem, cachorro
come cachorro, até os ratos estão tão famintos que mordiscam pedras.”
Ninguém jamais o incomodou.27
* * *
Grandes epidemias normalmente associadas à fome não afligiam o campo na
China. Em lugar disso, os efeitos destrutivos da coletivização aumentavam
uma grande variedade de doenças, inclusive envenenamento, pois as pessoas
se voltavam para quaisquer alimentos para matar a fome. Alguns podiam ser
bastante nutritivos — algas marinhas comidas na Irlanda, durante a fome da
batata em 1846–48, ou bulbos de tulipa na Holanda, durante a fome do
inverno de 1944–45, mas muitos levavam a doenças do aparelho digestivo.
Mesmo antes de as pessoas começarem a procurar raízes comestíveis e
ervas silvestres, problemas digestivos podiam aparecer, causados por severos
desequilíbrios na dieta. Os habitantes das cidades recebiam, às vezes,
proporção bem mais alta de picles, vegetais salgados e feijão fermentado,
como substitutos para verduras frescas. Em Nanquim, por exemplo, muitos
trabalhadores de fábricas ingeriam uma quantidade de sal de 30 a 50 gramas
por dia, quase dez vezes a quantidade recomendada hoje. Eles colocavam
molho de soja na água quente para quebrar a monotonia da dieta. Em um
caso, descobriu-se que um homem havia ingerido cerca de 5 litros de molho
de soja em menos de um mês.28 Mas grandes quantidades de vegetais com
folhas, sem os carboidratos suficientes, também prejudicavam a saúde.
Quando as rações de grãos acabavam no fim do mês e pessoas famintas
recorriam, então, a vegetais frescos, a pele delas ficava de cor púrpura e elas
morriam, vítimas de envenenamento por fosfito. Dúzias de casos fatais foram
registrados no campo em torno de Xangai, em 1961.29
A falta de higiene na indústria de alimentação causava surtos de diarreia
que vitimavam os fracos e os vulneráveis. O caos semeado pela coletivização
era sentido em todos os níveis da cadeia de produção de alimentos, visto que
o Estado assumiu a produção, o armazenamento, o processamento, a
distribuição e o abastecimento. A comida se tornou apenas outro número
para ser manipulado, distorcido e falsificado pelos chefes de fábrica, enquanto
a apatia, a negligência e a sabotagem eram comuns entre os trabalhadores. Em
Wuhan, o envenenamento por comida foi frequente no verão de 1959, com centenas de incidentes registrados a cada dois dias. O calor do verão abafado
também influenciava, mas uma investigação detalhada de seis produtores de
comida identificou a negligência generalizada como a responsável. As moscas
estavam em toda parte: um inspetor zeloso contabilizou cerca de vinte insetos
por metro quadrado. Jarros e tonéis destinados ao mercado tinham o selo
rompido, seu conteúdo ondulava com a infestação de vermes. Em uma
fábrica foram encontrados vermes em 40 toneladas de geleia e malte. Ovos
podres eram usados na confecção de bolos e doces. Não havia água em muitas
instalações, então os trabalhadores não lavavam as mãos; alguns urinavam no
chão. Quando chegava ao mercado, a comida apodrecia devido ao tempo
úmido.30
Outro problema era que muitos ingredientes não vinham mais dos
subúrbios, mas transportados de longas distâncias. Um lote de cenouras da
província de Zhejiang, por exemplo, apodreceu durante o transporte para
Wuhan. Além disso, o material humano e os equipamentos para manusear a
comida eram grandemente inadequados. Os vendedores ambulantes, que
antes chegavam a todos os cantos do mercado com produção fresca, tinham
sido absorvidos em um coletivo desajeitado, enquanto um sexto de todas as
verduras apodrecia nas ruas simplesmente porque não havia cestas de bambu
suficientes para distribuí-las.31
Nas cantinas, a situação não era melhor. Moscas eram encontradas na
comida e até utensílios básicos faltavam. Em um caso, trezentos trabalhadores
tiveram que compartilhar trinta pares de pauzinhos para comer durante o
café da manhã. Os pauzinhos eram rapidamente lavados em uma bacia cheia
de água suja. Os restaurantes não ofereciam escapatória a esse ciclo de
negligência. As cozinhas eram descritas como caóticas, governadas pelas
moscas, mais que por pessoas. Quando as moscas eram espantadas, caíam
dentro da comida. Em um local, as verduras eram servidas cobertas de sujeira.
Insetos eram encontrados nos recipientes de vinagre e molho de soja.32
Esses são exemplos de todas as cidades — onde as pessoas são
relativamente privilegiadas em comparação com as péssimas condições do
campo. Uma vez que toda a comida estava concentrada em grandes cantinas, aldeias inteiras eram afetadas por surtos de diarreia causada por comida
envenenada. No condado de Jintang, Sichuan, o mingau ralo servido a
duzentos camponeses em uma cantina continha dúzias de vermes. A razão
era que o poço usado pela cantina era adjacente a um banheiro e a drenagem
era mal dividida, em particular após chuva pesada. Aqueles que se recusavam
a comer o mingau ficavam sem comida alguma durante três dias. Os poucos
que conseguiam engolir a mistura sofriam fortes dores de estômago. Dúzias
ficavam doentes. Dez morreram.33 Quatro tonéis com excremento humano e
urina, o conteúdo derramando-se no chão, foram encontrados numa cozinha
no condado de Pengxian. A água usada para lavar a comida e os pratos vinha
de um lago de água estagnada que ficava à porta da cozinha. Um quarto dos
aldeões estava doente. Moscas reinavam sobre as pessoas.34 Em Jinyang,
também em Sichuan, “excremento de galinha está em todas as partes, fezes
humanas empilham-se, os canais estão bloqueados e o fedor é espantoso”: os
moradores referiam-se à cantina como “beco de merda”.35 Até quando havia
comida, as cantinas podiam ficar sem combustível ou água. Em Chengdu,
onde vários afluentes do Yang-Tsé se encontravam, alguns cozinheiros
tinham que caminhar 700 metros para encontrar água, e o grão, às vezes, era
servido cru.36 Mas em muitos casos, naturalmente, as cantinas não
funcionavam. Depois de esgotadas as provisões de água e combustível, as
portas eram fechadas e os aldeões tinham que se safar sozinhos.
A coletivização foi cheia de acidentes, como vimos no capítulo anterior. As
pessoas não apenas recebiam produtos contaminados ou comida podre, como
também caíam vítimas de acidentes de envenenamento. Em menos de um
mês em 1960, cerca de 134 casos fatais foram informados ao Ministério da
Higiene, embora isso fosse um pálido reflexo da realidade. Às vezes,
pesticidas eram estocados em cantinas e celeiros, e os utensílios usados para
preparar a comida ou manipular os químicos nem sempre eram mantidos
separados. No condado de Baodi, Hebei, um cilindro contaminado com
pesticidas foi usado para moer o grão e mais de cem aldeões foram
envenenados. Nada foi feito, a farinha foi vendida dias depois e mais 150
pessoas caíram doentes. Em Wenshui, um vaso usado para guardar veneno foi parar na cozinha de um jardim de infância, onde mais de trinta crianças
terminaram com graves dores intestinais. Em Hubei, bolas de fertilizante
foram tomadas por bolos de feijão. Mil pessoas adoeceram e 38 morreram.37
* * *
Quando a comida acabou, o governo começou a promover novas tecnologias
de comida e comidas substitutas. A maioria era bastante inofensiva. O
“método do cozimento duplo”, proclamado como uma “grande revolução na
tecnologia de cozinha”, obrigava os cozinheiros a cozinhar o arroz no vapor
duas vezes, adicionando água a cada vez para aumentar o volume da
comida.38 Algumas comidas substitutas consistiam meramente em sabugos
de milho, talos ou resíduos de soja e de outros grãos. Mas o governo também
introduziu novas comidas sucedâneas. A clorela foi anunciada no início dos
anos 1950 por especialistas em alimentos em todo o mundo como uma forma
milagrosa de alga que poderia converter vinte vezes mais energia solar em
proteína que outras plantas. Mas a sopa de plâncton, que prometia tirar
milhões da fome, revelou-se impossível de produzir e tão desagradável ao
paladar que a loucura pela novidade finalmente se acalmou. Na China, o lodo
aquático foi elevado a status de alimento miraculoso durante a fome. Podia
ser cultivado e colhido em lagos pantanosos, mas, com mais frequência, era
cultivado em tonéis de urina humana, e o material verde era recolhido, lavado
e cozido com arroz.39 Provavelmente contribuiu muito pouco em termos de
nutrição. Cientistas descobriram nos anos 1960 que os nutrientes estavam
encapsulados em paredes de células tão fortes que a digestão humana não
conseguia rompê-las.40
Prisioneiros eram usados como cobaias. Além do plâncton verde, que fazia
os presos adoecerem, eles também eram alimentados com serragem e polpa
de madeira. Bao Ruowang — também conhecido como Jean Pasqualini, autor
de memórias sobre a vida em um campo de trabalho na China — lembra-se
de como folhas marrons do plâncton eram moídas com polpa de madeira e
misturadas com farinha. Prisão de ventre em massa seguia-se e matava os
presos mais débeis.41 Mas até nas cidades a disseminação de comidas
substitutas causava obstrução dos intestinos ou ruptura do esfíncter.
Trabalhadores da fábrica de Liangma em Pequim tiveram que puxar suas
fezes com a mão.42
Aldeões percorriam a floresta buscando plantas, bagas e nozes. Eles
varriam as montanhas à procura de raízes comestíveis e gramas silvestres. Em
desespero, cavoucavam em busca de carniça de animais, reviravam lixo,
raspavam casca de árvores e, no fim, voltavam-se à lama para encher os
estômagos. Até em Pequim, estrangeiros testemunharam pessoas baterem
com paus nas acácias para que as folhas caíssem em bolsas e pudessem depois
ser transformadas em sopa.43 Yan Shifu, homem delgado com grande sorriso,
era um garoto de 10 anos quando o Grande Salto Adiante se desenvolveu em
Sichuan. Ele agora trabalha como chef e tem boa memória para comida. Yan
recorda como folhas de rami eram cortadas em pedacinhos e se tornavam
panquecas; talos de colza eram cozidos até tornarem-se sopa espessa,
enquanto folhas de mostarda eram fervidas. Talos de ervilha eram moídos,
coados e transformados em pequenas panquecas. Caules de banana eram
despelados e comidos crus, como cana-de-açúcar. Rabanetes eram raros o
bastante para serem vistos como petiscos. Insetos eram estalados vivos na
boca, mas minhocas e sapos eram grelhados. Apesar da engenhosidade de sua
família, o pai e a irmã mais nova de Yan Shifu morreram de desnutrição.44
Algumas gramas, cogumelos e raízes catados pelos aldeões eram tóxicos.
Poucas pessoas sabiam de fato o que comiam, pois as crianças se
encarregavam de se esgueirar à noite e buscar ervas selvagens. “Naqueles
dias”, um sobrevivente recorda, “não era possível sair para buscar remédios
de ervas conhecidos. Comíamos de tudo. Comíamos qualquer planta que
fosse verde. Não nos importávamos, contanto que soubéssemos que a planta
não era venenosa. Comíamos quase qualquer coisa”.45 Mas os acidentes eram
comuns. Em Hebei, cerca de cem mortes causadas por comida contaminada,
animais doentes e raízes e ervas tóxicas eram informadas todo mês.46
Mandioca, um tubérculo duro que pode ser moído e se transformar em
tapioca, é excelente fonte de carboidratos, mas as folhas são altamente tóxicas e não podem ser comidas cruas. Na província de Guangxi, cerca de 174
pessoas morreram em um único mês após comer a mandioca sem socar e
cozinhar da forma apropriada. Na província de Fujian, número similar
sucumbiu a uma doença de paralisia neurológica causada pelo tubérculo —
entre milhares de casos de envenenamento.47 Carrapicho, uma erva daninha,
era outro perigo. As sementes são altamente tóxicas e matam porcos soltos
que fuçam em busca de comida. Em humanos, provoca náusea e vômito,
assim como repuxões nos músculos do pescoço, aceleração do batimento
cardíaco, dificuldade de respirar e, finalmente, morte. Em dez dias, a erva
causou 160 vítimas em Pequim.48
Em uma estranha reviravolta da sorte, as pessoas politicamente mais
marginalizadas às vezes estavam em posição melhor para sobreviver porque
haviam desenvolvido mecanismos contra a fome por muitos anos antes do
Grande Salto Adiante. Filhos de um “malvado dono de terras”, Meng Xiaoli e
seu irmão foram expulsos de sua casa ancestral em Qianjiang, Hubei,
imediatamente depois de os comunistas assumirem o poder, em 1949. Não
lhes deram tempo nem de pegar seus pertences. Embora fosse apenas um
menino, Meng teve seu pulôver arrancado. Vagaram pela cidade com a mãe,
repelidos por todos, e terminaram à beira do lago, cavando a terra em busca
de verduras silvestres. Dormiram sobre palha seca com os cachorros da aldeia
na primeira noite e, mais tarde, lhes foi alocada uma velha cabana de barro.
Primeiro tentaram esmolar, mas ninguém ousava lhes dar um pouco de
comida. “Depois, tentamos pescar peixes no lago, mas não conseguíamos
pegar o bastante para comer porque não tínhamos os utensílios certos. Ainda
assim, conseguimos sobreviver, porque podíamos escavar raízes de lótus e
pegar sementes. Depois de alguns meses, meu irmão e eu aprendemos a pegar
peixes no lago. Embora não tivéssemos nenhum arroz, realmente
conseguíamos comer bastante bem.” Quando a fome engolfou a aldeia anos
depois, essa família era a única preparada para sobreviver.49
Palha e talos eram comidos dos telhados. Zhao Xiaobai, a garota órfã de 11
anos que tinha que trabalhar como um adulto para cuidar da irmã menor,
lembrou-se de um dia em que, torturada pela fome, subiu em uma escada até o telhado. “Eu ainda era bem jovem. Estava com muita fome, então quebrei
um pedaço de talo de milho [usado para cobrir o telhado] e comecei a
mastigá-lo. O gosto era delicioso! Mastiguei um pedaço atrás do outro. Estava
com tanta fome, que até talos de milho tinham gosto bom.”50 Couro era
amaciado e comido, lembrou Zhu Erge, que testemunhou metade de sua
aldeia morrer de fome em Sichuan, mas conseguiu sobreviver porque sua mãe
era cozinheira na cantina: “Molhávamos as cadeiras de couro em que as
pessoas se sentavam. Depois que estavam molhadas, cozinhávamos o couro e
o cortávamos em pedacinhos para comer.”51
Animais infectados eram comidos pelos famintos, até na periferia da
capital. No condado de Huairou, ovelhas contaminadas com antraz eram
regularmente devoradas por aldeões famintos.52 Centenas se envenenaram
após comer pedaços de gordura malcheirosa, misturada com chumaços de
pelo, arrancada da pele de animais em uma fábrica de couro em Chengdu e
depois trocada por verduras com uma cantina do povo. Até as carcaças
contaminadas de gado doente, rejeitadas por um matadouro no condado de
Guanxian, eram discretamente vendidas para uma comuna local.53 Quando
as pessoas não eram comidas por ratos, os ratos eram comidos pelas pessoas;
os mortos, às vezes, tirados de suas covas.54
Quando não havia mais nada, as pessoas se voltaram para uma lama suave,
chamada terra Guanyin — o nome da Deusa da Misericódia. Uma equipe
enviada por Li Jingquan ficou espantada com o que viu no condado de
Liangxian, Sichuan. Era uma visão do inferno: grupos cerrados de aldeões
fantasmagóricos enfileiravam-se diante de buracos profundos, os corpos
murchos porejando suor sob o clarão do sol, enquanto esperavam a vez de
descer no buraco e escavar alguns punhados da lama branca como porcelana.
Crianças, os quadris apontando sob a pele, desmaiavam de exaustão, seus
corpos sujos pareciam esculturas de lama sombreando a terra. Mulheres
velhas em andrajos queimavam amuletos de papel e se curvavam, de mãos
dadas, murmurando estranhos encantamentos. Um quarto de milhão de
toneladas foi escavado por mais de 10 mil pessoas. Só em uma cidade, 214
famílias de um total de 262 haviam comido lama, vários quilos por pessoa. Alguns aldeões enchiam a boca de lama enquanto cavavam. Mas a maioria
adicionava água e trabalhava a terra depois de misturá-la com resíduos de
cereais, flores e ervas, assando bolos de lama que tinham recheio, mesmo que
representassem pouco valor nutritivo. Uma vez comida, a mistura agia como
cimento, secava o estômago e absorvia toda a umidade dentro do trato
intestinal. Defecar se tornava impossível. Em todas as aldeias, várias pessoas
morriam dolorosamente, os intestinos bloqueados pela lama.55 Em Henan,
como lembrou He Guanghua, muitas pessoas deram para comer uma pedra
local chamada yanglishi, que era moída e transformada em bolos. Os adultos
ajudavam uns aos outros a tirar as fezes com gravetos.56 Em toda a China, de
Sichuan, Gansu e Anhui a Henan, pessoas atormentadas por fome voraz se
voltavam para o barro.
* * *
As pessoas realmente morreram de desnutrição — ao contrário de tantas
outras fomes, em que as doenças foram a causa da morte. A desnutrição, no
sentido estritamente clínico, significa que o desgaste da proteína e dos
depósitos de gordura no corpo faz com que os músculos se enfraqueçam e
finalmente parem de funcionar, inclusive o coração. Adultos podem
sobreviver por semanas sem comida, se puderem beber água. A gordura
depositada no organismo fornece a principal fonte de energia e se esgota
primeiro. Uma pequena quantidade de proteínas também está guardada no
fígado como glicogênio e geralmente é convertida em um dia. Mas, assim que
os depósitos de gordura se exaurem, as proteínas são retiradas dos músculos e
de outros tecidos usados pelo fígado para produzir os açúcares necessários ao
cérebro — a primeira prioridade do corpo. O cérebro, de forma muito literal,
começa a canibalizar o corpo e tira pedaços deste ou daquele tecido para
conseguir a glicose de que precisa para sobreviver. A pressão sanguínea cai, o
que significa que o coração tem que trabalhar mais. O corpo se enfraquece e
se torna progressivamente emaciado. À medida que as proteínas se esgotam,
os líquidos começam a escapar dos vasos sanguíneos e dos tecidos em desintegração e se acumulam embaixo da pele e nas cavidades do corpo,
produzindo edema. O inchaço aparece primeiro no rosto, nos pés e nas
pernas, mas os fluidos também podem gravitar em torno do estômago e do
peito. Joelhos inchados tornam doloroso o caminhar. Comer mais sal ou
adicionar água à refeição para fazer com que dure mais piora a condição.
Alguns famintos não sofrem de edema e, em vez disso, se desidratam, a pele
se torna apergaminhada, murcha e escamosa, e, às vezes, se cobre de pontos
marrons. À medida que os músculos da garganta se enfraquecem e a laringe
se resseca, a voz engrossa antes de silenciar. As pessoas tendem a se encolher
para poupar energia. As faces encovam, as maçãs do rosto saltam e os globos
oculares salientes são de um branco horrível, o olhar fixo e vago e,
aparentemente, sem emoção. As costelas apontam sob a pele, que se pendura
em dobras. Braços e pernas parecem gravetos. Cabelos pretos perdem a cor e
caem. O coração ainda tem que trabalhar mais, pois o volume de sangue de
fato aumenta em relação ao peso do corpo que declina. No fim, os órgãos
estão tão danificados que falham.57
A fome pode ter sido um tema tabu, mas os arquivos estão repletos de
relatórios sobre edema (shuizhongbing) e morte por desnutrição (esi). Wu
Ningkun, professor de literatura inglesa, descreveu o que aconteceu à medida
que passava fome: “Fui o primeiro a aparecer com um caso sério de edema.
Tornei-me emaciado, meus tornozelos incharam e minhas pernas ficaram tão
fracas que eu, com frequência, caía quando andava para os campos, para o
trabalho forçado. Não sabia com o que eu parecia, pois não havia espelhos em
volta, mas poderia dizer pelos olhares pálidos de outros presos que eu devia
estar com uma aparência e tanto.”58 Poucas vítimas foram tão eloquentes,
mas os sintomas eram observados em toda parte. Em uma comuna em
Qingyuan — antes considerada o celeiro de Guangdong — 40% dos aldeões
sofreram de edema em 1960.59 Até nas cidades era comum. Temos visto
como a força de trabalho sofreu de edema em Pequim. Entre os estudantes do
curso secundário em Xangai, o edema se difundiu em 1960–61.60 Na
Universidade de Nankai, a melhor instituição de ensino superior de Tianjin,
um em cada cinco estudantes sofria de edema.61 A doença era tão comum que, quando os famintos não a desenvolviam, permitia-se uma explicação. Hu
Kaiming, um funcionário corajoso apontado como primeiro-secretário de
Zhangjiakou em 1959, observou como, no inverno de 1960–61, aldeões
famintos subitamente caíam mortos em consequência da baixa incidência de
açúcar no sangue, sem os sinais comuns de edema.62
Por que os aldeões não sucumbiram a epidemias em números maiores
antes que a desnutrição terminal se instalasse? Uma razão, sugerida acima, é
que o partido monitorava atentamente as doenças infecciosas. Mas a
coletivização também trouxe caos organizacional e o colapso do serviço de
saúde rural, que era rudimentar, no melhor dos casos. Uma explicação mais
plausível é as pessoas no campo morrerem de desnutrição bem mais rápido
que em outros lugares, reduzindo a janela de oportunidade em que os germes
poderiam atacar devido à baixa imunidade. A única comida disponível estava
nas cantinas coletivas, e o acesso a elas era controlado pelos quadros locais.
Sob imensa pressão para aparecer com resultados tangíveis, muitos
funcionários usavam a comida como arma. No capítulo sobre violência,
veremos que os aldeões que não trabalhavam não recebiam comida alguma. E
aqueles que não podiam mais trabalhar frequentemente estavam exaustos. A
morte se seguia prontamente.