A Grande Fome de Mao
13. Repressão
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Repressão
O Exército foi expurgado. Lin Biao, em quem se podia confiar para
desentocar qualquer oposição ideológica entre os militares, foi recompensado
por seu desempenho em Lushan com a empreitada Peng Dehuai. Lin sabia
que falar a verdade sobre as condições no campo era uma abordagem ingênua
destinada a falhar e, em vez disso, despejou lisonjas sobre o presidente. Mas,
em privado, era muito mais crítico que Peng e confidenciava em seu diário —
desencavado pelos Guardas Vermelhos anos depois — que o Grande Salto
Adiante estava “baseado na fantasia, uma confusão completa”.1 Raramente a
distância entre os pensamentos íntimos de um líder e suas declarações
públicas foi tão grande, mas, em todo o país, funcionários do partido
brigavam para provar sua lealdade ao presidente e ao Grande Salto Adiante, e
um novo expurgo se desenrolou.
O sinal foi dado na cúpula. Em linguagem que augurava a Revolução
Cultural, Peng Zhen conclamou ao expurgo nas fileiras: “A luta deve ser
profunda e levada adiante segundo nossos princípios, seja contra velhos
camaradas em armas, colegas ou até maridos e esposas.” Tan Zhenlin, o
zeloso vice-premiê responsável pela agricultura, indicou que os inimigos
estavam entrincheirados na própria cúpula: “Essa luta deve separar-nos de
alguns de nossos velhos camaradas em armas!”2 Só em Pequim, milhares de
altos funcionários foram atingidos no fim de 1959, incluindo quase trezentos em cargo tão elevado como membro do comitê central, ou 10% do escalão
superior. Mais de sessenta foram rotulados de direitistas. Muitos eram antigos
veteranos, mas, como explicou a liderança, eles tinham que ser esmagados
resolutamente, ou, de outra forma, a “construção do socialismo” estaria em
perigo.3
Ao largo do país, qualquer um que expressasse reservas sobre o Grande
Salto Adiante era perseguido. Em Gansu, a luta começou assim que Zhang
Zhongliang voltou para Lanzhou. Huo Weide, Song Liangcheng e outros que
“lançaram uma flecha envenenada em Lushan” foram denunciados como
membros de um “grupo antipartido”. Bem mais de 10 mil oficiais foram
caçados em toda a província.4 Enquanto seus rivais revelaram a propagação
da fome em uma carta a Pequim, Zhang escreveu, em vez disso, para o
presidente: “O trabalho avança em todos os departamentos em nossa
província, as mudanças são importantes, incluindo as relacionadas aos grãos.
Esperamos uma grande colheita.”5 Depois, em 1960, como sua província se
transformasse em um inferno em vida, escreveu novamente para explicar as
mortes por inanição e jogou a culpa em Huo Weide, o líder do grupo
antipartido. Zhang minimizou o que mais tarde se revelaria como morte em
escala maciça, chamando novamente o fato de problema de “um dedo em
dez”.6
Qualquer um que ficasse no caminho do Grande Salto Adiante era
removido. Em Yunnan, o vice-encarregado do Departamento de Comércio
foi demitido por fazer comentários críticos sobre a escassez de comida e as
comunas do povo — e por haver roncado enquanto gravações dos discursos
do presidente estavam sendo ouvidas.7 Em Hebei, o vice-diretor do
Departamento de Conservação da Água foi expurgado por expressar dúvidas
sobre a sabedoria de desmantelar os sistemas de aquecimento central durante
a campanha do aço.8 Líderes de condado que começaram a fechar alguns
refeitórios foram perseguidos por abandonar o socialismo e “retroceder a
uma política independente”.9 Em Anhui, o vice-governador Zhang Kaifan e
alguns de seus aliados foram demitidos, pois Mao suspeitava de que “essas
pessoas são especuladores que se esgueiraram para dentro do partido [...]. Planejam sabotar a ditadura do proletariado, dividir o partido e organizar
facções”.10 Demissões similares na cúpula também ocorreram em Fujian,
Qinghai, Heilongjiang e Liaoning, entre outras províncias.
Os líderes provinciais que conseguiram suavizar o impacto do Grande
Salto Adiante foram removidos. Sob o fogo constante de Mao e seus acólitos
por sua precaução, Zhou Xiaozhou, o relutante líder da província de Hunan,
havia mudado de atitude e inflado as projeções da safra em 1958. Mas
raramente perdia oportunidade de amortecer o entusiasmo dos oficiais locais
durante viagens de inspeção. Em Changde, zombou abertamente de toda a
bazófia sobre produção de cereais e questionou o sistema de suprimento.
Abordado por uma mulher que se queixava do refeitório local, sugeriu que
ela, simplesmente, saísse e cozinhasse uma refeição em casa. Recusou
categoricamente que alguém em Hunan seguisse o exemplo de Macheng,
vendo os campos de sputnik como desvio perigoso das urgentes tarefas da
agricultura. Em Ningxiang, onde descobriu que só mulheres trabalhavam nos
campos, exigiu que os homens fossem retirados das fornalhas de fundo de
quintal. Sua resposta ao programa trabalho-estudo, que requeria a
participação de todos os alunos das escolas primárias no trabalho produtivo,
tinha sido uma mera exclamação: “Besteira!”11 Apesar de todo o seu esforço,
muitos oficiais locais tomaram a dianteira, aderindo ao Salto Adiante com
uma mistura de convicção e ambição, que levou ao mesmo tipo de violência
no local de produção encontrado em qualquer outro lugar.
Mas, de modo geral, Hunan estava em melhores condições que a vizinha
Hubei, administrada por Wang Renzhong, sicofanta de Mao. Quando o trem
especial de Mao parou em Wuchang, em maio de 1959, pouco antes do
encontro de Lushan, a cidade estava em terrível estado. Até na casa de
hóspedes organizada para Mao não havia carne, cigarros ou vegetais.
Changsha, em Hunan, província natal de Mao, era diferente, com
restaurantes ao ar livre que ainda atendiam os fregueses. Zhou Xiaozhou
ficou muito consciente do contraste e cutucou seu rival Wang, que
acompanhava Mao a Changsha: “Hunan foi criticada por não ter trabalhado
tão duro. Mas olhe agora para Hubei. Não se encontram nem cigarros velhos
ou chá. Vocês usaram todas as suas reservas no ano passado. Hoje, podemos
ser pobres, mas ao menos temos suprimentos armazenados.”12 Em
retrospecto, talvez Zhou tenha feito inimigos demais para sobreviver no feroz
contexto de um regime de partido único. Como membro-chave do grupo
antipartido, foi expurgado imediatamente após a Conferência de Lushan e
pavimentou o caminho para líderes como Zhang Pinghua, desejosos de seguir
cada palavra de Mao — e esfomear a população local em consequência.
Quaisquer que fossem os remanescentes de razão que conseguiram
sobreviver à loucura do Grande Salto Adiante, eles foram varridos pelo
frenesi da caça às bruxas que deixou os agricultores mais vulneráveis que
nunca ao poder nu do partido. Em cada nível — província, condado, comuna,
brigada — expurgos ferozes foram feitos, substituindo-se oficiais comuns por
elementos duros, inescrupulosos, que desfraldavam as velas para
beneficiarem-se dos ventos radicais que sopravam de Pequim. Em 1959–60,
cerca de 3,6 milhões de membros do partido foram rotulados de direitistas ou
expurgados, embora o número de oficiais tenha aumentado de 13,96 milhões
em 1959 para 17,38 milhões em 1961.13 Em um universo moral em que os
meios justificavam os fins, muitos se preparariam para se tornar instrumentos
da vontade do presidente e rejeitar toda ideia de certo e errado para atingir os
fins que contemplavam. Se a liderança tivesse revertido o curso no verão de
1959, em Lushan, o número de vítimas reclamadas pela fome teria sido
contado em milhões. Em vez disso, enquanto o país mergulhava na catástrofe,
dezenas de milhões de vidas se extinguiam por exaustão, doença, tortura e
fome. A guerra contra o povo estava prestes a assumir uma dimensão
totalmente nova, enquanto a liderança olhava para o outro lado, encontrando
no crescente racha com a União Soviética um pretexto perfeito para fingir
que não via o que estava acontecendo no local de produção.