A Grande Fome de Mao
20. Moradia
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Moradia
Todo ditador precisa de uma praça. Paradas militares estão no centro dos
rituais do Estado nos regimes comunistas: o poder é demonstrado por um
espetáculo de força militar, com os líderes reunidos na tribuna para saudar o
ruído cadenciado da marcha de milhares de soldados e trabalhadores- -
modelo, enquanto jatos caças-bombardeiros guincham e assobiam acima.
Stalin mandou demolir o Portão da Ressurreição e a Catedral de Kazan na
Praça Vermelha para abrir espaço para tanques pesados passarem retinindo
pelo túmulo de Lenin. Mao foi o convidado de honra de Kruschev no 40º
aniversário da Revolução de Outubro, celebrado na Praça Vermelha em 1957,
mas não tencionava ficar para trás do rival. A Praça Tiananmen tinha que ser
maior, decidiu: a China não era a nação mais populosa da face da terra?1 A
praça foi expandida para conter 400 mil pessoas em 1959, enquanto um
labirinto de muralhas medievais, portões e estradas foi nivelado para dar
lugar a uma vasta área de concreto do tamanho de sessenta campos de
futebol.2
A expansão da Praça Tiananmen foi uma das dez realizações gigantescas
destinadas a intimidar Kruschev no 10º aniversário da Revolução Chinesa, a
ser celebrado em outubro de 1959, na presença de centenas de convidados
estrangeiros — um prédio para cada ano de libertação. Uma estação de trem
novinha, capaz de receber 200 mil passageiros por dia, foi construída em questão de meses. Um Grande Salão do Povo apareceu do lado oeste da Praça
Tiananmen, um Museu de História Chinesa, do lado leste. O Portão
Zhonghua foi derrubado para dar lugar ao Monumento aos Heróis do Povo,
obelisco de granito de 37 metros de altura, no centro da praça.
A liderança se gabava para a imprensa estrangeira, antecipando
ansiosamente o aniversário, de que prédios novos em número suficiente
tinham sido erigidos para dar à capital um total de 37 quilômetros quadrados
de piso novo — mais de catorze vezes aqueles que tinham sido erguidos em
Manhattan desde a Segunda Guerra Mundial.3 Foi uma ostentação vazia, pois
Pequim se tornou uma gigantesca aldeia Potemkin, destinada a enganar
visitantes estrangeiros. Mas não havia como negar que o partido estava
enfeitiçado por uma visão em que arrojados arranha-céus de vidro e concreto
transformariam Pequim da noite para o dia, relegando ao esquecimento as
vergonhosas choupanas de barro e casas de tijolos cinzentos amontoadas em
becos estreitos. Planos foram feitos para a destruição sistemática de toda a
cidade em dez anos. Em certo momento, até o Palácio Imperial foi ameaçado
pela bola de demolição.4 Dezenas de milhares de casas, escritórios e fábricas
foram derrubados, enquanto a capital se tornava um gigantesco canteiro de
obras, permanentemente coberta de poeira. O pessoal das embaixadas
estrangeiras ficou espantado com a taxa de demolição, pois alguns prédios
pulverizados tinham acabado de ser construídos. “O quadro geral é caótico”,
comentou um observador. Todo o trabalho foi concentrado na Praça
Tiananmen, enquanto, em outros lugares, canteiros de obras antigos foram
esquecidos.5 Com frequência, colunas e vigas eram colocadas para o primeiro
e segundo andares e depois abandonadas por causa da escassez de material, o
que deixava esqueletos de obras abandonados como tantos monumentos à
ilusão.6
Embora a maior parte dos edifícios de prestígio estivesse pronta a tempo
para as celebrações de outubro de 1959, isso aconteceu a um custo
considerável. Os planejadores foram eficientes em criar uma ilusão de ordem
no papel, mas o caos reinava em campo. Em uma homenagem apropriada à
loucura do Grande Salto Adiante, aço defeituoso foi incorporado ao novo centro nervoso do partido. Perto de 1.700 toneladas de vigas de aço
defeituoso usadas no Grande Salão do Povo eram tortas, ou insuficientemente
espessas. Varas de aço providas de rosca, produzidas em Tianjin, eram tão
fracas que tiveram que ser descartadas. Em toda a praça, milhares de sacos de
cimento foram desperdiçados, enquanto um terço do equipamento usado no
canteiro de obras estava rotineiramente quebrado. E, mesmo no coração do
poder, o partido não conseguia convocar mais de três quartos da força de
trabalho para chegar no horário pela manhã. Quando, finalmente, chegavam
a seus postos, muitos relaxavam e trabalhavam mal. Uma equipe de vinte
carpinteiros chamados de Wenzhou levou três dias para instalar quinze
batentes de janelas. Apenas um batente serviu.7
Por todo o país, grandes volumes de dinheiro eram desperdiçados em
edifícios de prestígio. Estádios, museus, hotéis e auditórios foram construídos
especificamente para marcar o 10º aniversário da libertação em 1959. Em
Harbin, 5 milhões de yuans foram gastos em um Hotel do Dia Nacional, mais
que o custo total do Hotel Pequim. Mais 7 milhões de yuans foram jogados
em um Estádio do Dia Nacional. Também em Tianjin foi projetado um
Estádio do Dia Nacional, com cadeiras para 80 mil espectadores. Estádios
foram erguidos em Taiyuan e Shenyang, entre outras cidades. Jiangsu decidiu
alocar 20 milhões de yuans para projetos do Dia Nacional.8
Parecia que cada ditador local queria ter seus dez projetos favoritos, em
uma submissa imitação da capital. Os acessórios do poder em Pequim eram
amplamente imitados em níveis mais baixos, pois muitos líderes aspiravam
tornar-se uma versão menor de Mao Tsé-tung. Outra razão era que os
funcionários respondiam aos chefes superiores em Pequim, não ao povo
abaixo deles. Estruturas imensas, tangíveis e projetos vistosos eram um modo
seguro de alimentar a ilusão de governo eficaz. Em Lanzhou, a capital da
empobrecida Gansu, o chefe provincial, Zhang Zhongliang, demandou
insistentemente dez grandes prédios, embora esse número tenha espiralado
rapidamente para dezesseis projetos, incluindo um Salão do Povo —
destinado a ser exatamente a metade do Salão do Povo da Praça Tiananmen
—, uma Praça do Povo, uma Estação Ferroviária do Leste, um Palácio da
Cultura para Trabalhadores, um Palácio da Cultura para Minorias, um estádio, uma biblioteca e um hotel de luxo, assim como novos prédios para o
comitê provincial, o Congresso do Povo provincial, uma torre de televisão e
um parque central. O custo foi fixado em 160 milhões de yuans. Milhares de
casas foram destruídas, deixando muitos habitantes sem teto no meio do
inverno. Muito pouco foi realizado. Depois que o trabalho de construção foi
paralisado na esteira da queda do poder de Zhang Zhongliang, em dezembro
de 1960, nada, senão entulho, ficou no centro da cidade.9 Dúzias de outros
edifícios prestigiosos também foram iniciadas sem qualquer tipo de plano
aprovado. Um exemplo foi o novíssimo Hotel da Amizade, para técnicos
estrangeiros. O número de convidados foi multiplicado por três erradamente,
de modo que, no fim, os 170 estrangeiros receberam, cada um, uma média de
60 m2 quadrados de luxuosas acomodações, enquanto aldeões morriam de
frio e fome perto de Lanzhou. Após a debandada dos técnicos soviéticos, o
prédio ficou assustadoramente silencioso.10
Em degrau mais baixo da ladeira do poder, estavam as comunas, e não
havia escassez de líderes radicais desejosos de transformá-las em modelos da
utopia comunista. Em Huaminglou, onde Liu Shaoqi nascera, o secretário do
partido, Hu Renqin, iniciou dez projetos de construção, que incluíam uma
“cidade dos porcos”, gigantesco abrigo para porcos que se estendia por 10
quilômetros ao longo da principal rodovia. Muitas centenas de casas recuadas
ao longo da estrada foram destruídas para dar lugar ao projeto. Ao parar ali
em uma viagem de inspeção, em abril de 1961, como vimos, Liu Shaoqi não
encontrou nada, exceto uma dúzia de animais esqueléticos. Um pavilhão da
água foi construído no lago, assim como um grande salão para funcionários
visitantes. Nesse meio-tempo, meio milhão de quilos de grãos apodreciam
nos campos. A taxa de mortalidade em algumas equipes chegou a 9% em
1960.11 Em todo o país apareceram monumentos similares à extravagância do
partido. Na comuna de Diaofang, Guangdong, onde milhares morriam de
fome, cerca de oitenta casas foram demolidas para fornecer madeira e tijolos,
tudo destinado a um Salão do Povo com espaço suficiente para abrigar um
encontro de 1.500 pessoas.12
Em três anos até setembro de 1961, 99,6 bilhões de yuans foram gastos em construções na capital, acrescidos de mais 9,2 bilhões para projetos de
moradia ostensivamente destinados às pessoas comuns. A maior parte do
dinheiro terminou investida em edifícios prestigiosos e escritórios, sem
benefício tangível para alguém, exceto membros do partido.13 Mas aqueles
totais não levam em consideração todos os tipos de truques de contabilidade
usados para financiar ainda mais construções. Em Guizhou, a região de Zunyi
apropriou-se de cerca de 4 milhões de yuans em fundos do Estado, que
incluíam assistência financeira aos pobres, para uma farra de construção,
embelezando cidades importantes com novos edifícios, salões de dança,
estúdios fotográficos, banheiros privados e elevadores. No condado de
Tongzi, fundos reservados para seis escolas de ensino médio foram
apropriados para a construção de um cinema novo.14 Li Fuchun, ao revisar os
muitos bilhões gastos em projetos prestigiosos sem aprovação do Estado,
sentiu puro desespero: “As pessoas não têm o que comer e ainda estamos
construindo arranha-céus — como podemos nós, comunistas, ter a coragem
de fazer isso! Isso parece comunismo? Quando passamos o dia inteiro falando
do interesse das massas não será conversa fiada?”15
* * *
Como a propriedade privada se tornou coisa do passado, unidades coletivas
se mudaram para as mansões que, outrora, eram o orgulho e a alegria da elite
endinheirada. Como o senso de propriedade se evaporou, sem que nenhum
indivíduo fosse responsável por propriedade alguma, apareceu uma forma de
destruição mais insidiosa que o barulho abafado da marreta. Outrora dos
mais magnificentes imóveis em Xangai, os números 1.154 a 1.170 da Estrada
do Meio Huaihai foram ocupados por uma unidade de maquinário elétrico
em novembro de 1958. Em menos de um ano, as janelas estavam quebradas,
assim como o mármore e as telhas de cerâmica, e o prédio foi despojado e
estripado de todo o equipamento de cozinha importado e dispendioso, do
sistema de calefação, do refrigerador e de todos os toaletes. O fedor permeava
o local e a sujeira se espalhava em todo o complexo. O Exército foi igualmente descuidado. Depois de reclamar o controle de uma quinta ajardinada na
Estrada Fenyang, o lugar ficou em ruínas. A escada desmoronou, as grades se
quebraram, a chaminé caiu, toda a propriedade removível foi roubada, as
árvores no jardim morreram e o lago de lótus se transformou em um pântano
malcheiroso. Depois que um solar na Estrada Hongqiao foi ocupado pela
força aérea, os assoalhos foram quebrados, as torneiras e os interruptores
desmantelados e o banheiro transbordava de fezes. Havia muitos outros
exemplos, “numerosos demais para serem enumerados”, segundo relatório
das autoridades habitacionais.16
A falta de manutenção se espalhava além das casas individuais. Em
Wuhan, os cupins literalmente comeram muitos velhos prédios. Na Rua
Station, metade de mil edifícios estava infestada. O número 14 da Rua Renhe
simplesmente desabou sobre seus ocupantes. Marcos de arquitetura como o
Banco Hong Kong e Xangai em Hankou estavam em perigo de serem
assolados pelo cupim.17
Lugares religiosos não eram exceção. A religião não tinha lugar nas
comunas do povo: igrejas, templos e mesquitas foram transformados em
oficinas, refeitórios e dormitórios. Em Zhengzhou, dezoito de todos os 27
locais religiosos para católicos, protestantes, budistas e muçulmanos foram
tomados e 680 quartos alugados por congregações religiosas foram
confiscados. A cidade se orgulhou de anunciar em 1960 que o número de
católicos e muçulmanos praticantes havia encolhido de 5.500 para apenas
377. Todos os dezoito líderes religiosos agora participavam do “trabalho
produtivo” — exceto três que morreram.18
A destruição se estendeu aos monumentos históricos. Em Qujiang,
Guangdong, a tumba de Zhang Jiuling, o famoso ministro da dinastia Tang,
foi danificada por uma comuna do povo que escavava tesouros, enquanto um
templo budista da dinastia Ming em Shaoguan foi derrubado para
recuperação de materiais. Mais ao sul de Guangdong, um canhão construído
por Lin Zexu para lutar contra os britânicos na Guerra do Ópio foi derrubado
e usado como sucata.19 Em Dujiangyan, Sichuan, um local de irrigação que
datava do século III d.C. e uma série de templos antigos foram desmantelados
e usados como combustível.20 O templo Erwang, cheio de relíquias culturais e
rodeado de árvores antigas, foi declarado monumento histórico em 1957 — e
parcialmente demolido com explosivos alguns anos depois.21 No norte, a
Grande Muralha da China foi saqueada para aproveitamento do material de
construção, e tijolos das tumbas Ming foram levados embora com a
aprovação dos secretários locais do partido. Um trecho da muralha de 40
metros de comprimento e 9 metros de altura na tumba Dingling, onde o
imperador Yongle estava enterrado, foi arrasado até o chão, enquanto
centenas de metros cúbicos foram escavados da tumba Baocheng, também
conhecida como “Salão Precioso”. “Os tijolos pertencem às massas”, era o
argumento final.22
As muralhas da cidade também eram objeto da ira oficial. Seus parapeitos
recortados, símbolo antigo de grandeza imperial, cheios de videiras e
arbustos, eram agora vistos como símbolos de atraso. Mao Tsé-tung deu o
tom ao indicar em uma conferência em Nanning, em janeiro de 1958, que as
muralhas em torno de Pequim deviam ser destruídas. Grandes trechos dos
portões e dos muros vermelhos seriam derrubados nos anos seguintes. Outras
cidades seguiram o exemplo: partes da parede que emoldurava a velha cidade
de Nanquim foram desmanteladas por unidades coletivas em busca de
material de construção.23
* * *
A maior parte da devastação aconteceu no campo. A destruição vinha em
ondas. Como vimos, os edifícios foram derrubados para fornecer nutrientes
durante a campanha de fertilização no início de 1958. Para permitir que a
revolução contínua se instalasse, os prédios eram usados como combustível:
enquanto agricultores cavavam sulcos profundos, fogueiras queimavam e
faiscavam durante a noite. Depois, quando as comunas do povo foram
estabelecidas, os imóveis privados se transformaram em escritórios, salões de
reunião, refeitórios, creches ou jardins de infância. Alguns prédios foram
despojados do material de construção; outros, derrubados, para abrir caminho para a visão de modernidade que nunca conseguiu exatamente
migrar do papel para a aldeia. Com a pressão para produzir mais ferro e mais
aço, as esquadrias de metal de janelas e portas foram arrancadas, depois os
assoalhos foram usados como combustível. Quando o Grande Salto Adiante
ganhou uma segunda vida, no verão de 1959, a milícia saiu de casa em casa
em busca de grãos escondidos, como se o cereal fosse uma arma de
insurreição, arrebentou paredes, cutucou o solo atrás de cavidades ocultas e
escavou porões, com frequência derrubando parte do prédio ou todo ele.
Quando a fome se estabeleceu, os próprios agricultores começaram a
canibalizar seus lares: negociavam tijolos por alimentos e queimavam a lã
como combustível. Se ainda não tivesse sido consumida pelo fogo, a palha do
telhado era retirada e comida com desespero. Os aldeões também comiam o
emboço das paredes.
Na melhor das hipóteses, as pessoas eram compelidas a fazer uma
contribuição “voluntária”, como aconteceu em uma aldeia em Xinhui,
Guangdong, onde a cada casa foram pedidos trinta tijolos para a construção
de uma nova escola. Como quadros locais tomavam “emprestado” um
volume cada vez maior de material de construção, nenhuma casa foi deixada
de pé.24 Às vezes, os aldeões eram compensados por suas contribuições. Um
aldeão em Sichuan ousou pedir uma xícara de chá e uma toalha em troca da
metade de um telhado de palha e recebeu a xícara de chá. Um vizinho recebeu
uma bacia pequena em troca de quatro aposentos.25
Na maior parte do tempo, a coação imperava na aldeia. Em Guangdong,
onde Zhao Ziyang foi pioneiro de uma campanha contra a ocultação no início
de 1959, a milícia confiscou tudo, de uma simples noz a mansões inteiras.26
Na comuna de Longgui, Shaoguan, o secretário do partido, Lin Jianhua,
aboliu a propriedade privada e enviou a milícia em alvoroço pelas aldeias. Em
um conjunto habitacional típico, de 85 casas, 56 aposentos e banheiros
externos foram isolados. Os agricultores eram amarrados e espancados se não
seguissem as ordens.27
É difícil estimar o quanto foi destruído. A situação variava tremendamente
de um lugar para outro, mas, em geral, o Grande Salto Adiante constitui, de longe, a maior destruição de propriedade da história humana. Como
aproximação tosca, entre 30% e 40% de todas as casas se transformaram em
entulho. Eis o que escreveu Liu Shaoqi, chefe de Estado, a Mao, em 11 de
maio de 1959, depois de passar um mês investigando a região onde nascera:
“De acordo com camaradas do comitê provincial do partido, 40% de todas as
casas em Hunan foram destruídas. Além disso, existe uma porção que foi
apropriada por organismos do Estado, empresas, comunas e brigadas.”28 O
número de pessoas por aposento em Hunan dobrou durante os anos do
Grande Salto Adiante, com famílias inteiras apinhadas em um cômodo do
tamanho de um guarda-roupa — apesar do espaço criado pela perda de vários
milhões de pessoas que morreram de fome.29 Em Sichuan, a situação era pior,
com famílias vivendo em toaletes ou sob o beiral do telhado de outra família.
Em Yanyuan (perto de Xichang), uma área dominada pelos Yi, uma minoria
que vivia espalhada em áreas montanhosas, a situação ficou horrível depois
que milhares de casas foram entregues ao Estado: “De acordo com estatísticas,
1.147 famílias dividem um cômodo com outra família, 629 famílias dividem
um cômodo com outras três ou quatro famílias, cem famílias compartilham
um cômodo com cinco ou mais famílias.”30 Na província como um todo, a
taxa de destruição variava de 45% a 70% em alguns dos condados mais
afetados.31
Muitos não encontravam um novo lar, sobrevivendo como podiam à
margem da sociedade, buscando acomodação temporária em cabanas feitas
de restos, construídas com escombros, ou vivendo em abrigos para porcos.
Em Huanggang, região de Hubei, onde as temperaturas caíam abaixo de zero,
cerca de 100 mil famílias não tinham casa no inverno de 1960–61. Metade da
população não dispunha de lareira para se aquecer, e as pessoas tinham que
sobreviver ao duro inverno usando miseráveis farrapos.32
* * *
Um grupo especial de vítimas, vários milhões de pessoas, foi deslocado pela irrigação e pelos planos para reservatórios deslanchados durante o Grande
Salto Adiante. Só em Hunan, bem mais de meio milhão de pessoas foram
evacuadas.33 Um terço de um milhão, senão mais, foi despejado à medida que
cada um dos projetos gigantes era iniciado na Hidrelétrica de Três Gargantas,
em Henan, Xin’anjiang, em Zhejiang, e Danjiangkou, em Hubei.34 Na região
de Zhanjiang, em Guangdong, eram necessárias cerca de 300 mil casas para
famílias evacuadas no fim de 1961.35
A maioria foi deslocada sem muito planejamento e, geralmente, sem
compensação. No condado de Yueyang, Hunan, cerca de 22 mil pessoas
perderam seus lares durante a construção do Reservatório Tieshan. Tijolos,
mobília, ferramentas e gado das aldeias que seriam inundadas pelo
reservatório foram confiscados e usados para construir uma fazenda coletiva
nas montanhas, para onde as pessoas deslocadas foram relegadas pelas
autoridades do condado. Isoladas nas montanhas, sem terra arável para
sobreviver e com todos os laços com as aldeias natais cortados, tais pessoas
achavam a vida infeliz e muitas começaram a voltar para a planície. Depois, o
projeto do reservatório foi abandonado. Os evacuados, em sua maioria,
decidiram voltar para casa, mas ficaram encalhados em vilarejos fantasmas
dos quais todos os objetos removíveis haviam sido levados. Buscavam refúgio
em cabanas improvisadas, toaletes externos, abrigos para porcos e até
cavernas, algumas das quais periodicamente desabavam e enterravam os
ocupantes. Muitos tinham que esmolar ou roubar para continuar a viver,
dividiam alguns utensílios de cozinha e sobreviviam com uma parca ração de
10 quilos de grão por mês. Poucos tinham roupas acolchoadas ou cobertores
para o inverno.36
Muitas pessoas deslocadas vagavam pelos campos, algumas finalmente
voltavam para casa, puxadas pelos laços com o lugar onde haviam nascido.
Cerca de cem quilômetros a nordeste de Pequim, instalados em um vale
pitoresco com castanheiras, pereiras e pomares de maçãs silvestres ácidas e,
ao fundo, montanhas cobertas de florestas, os residentes de 65 aldeias foram
arrancados para abrir lugar para o Reservatório Miyun, construído entre
setembro de 1958 e junho de 1959. Cerca de 57 mil pessoas perderam suas casas. Como se isso não fosse ruim o bastante, quadros locais requisitaram
todas as ferramentas e roubaram a mobília. Os agricultores que resistiam
eram presos. Apenas um quarto dos aldeões foi realocado, mas os campos
improvisados eram tão confinados que seus habitantes se referiam a eles
como “abrigos de porcos”.
Dois anos depois, muitos ainda vagavam pelo campo. Em março de 1961,
um grupo de 1.500 famílias voltou para casa. Homens, mulheres e crianças se
arrastavam à beira de estradas sujas, carregavam trouxas rasgadas e bolsas
esfarrapadas com as roupas e os pertences que haviam conseguido salvar.
Poucos retornavam às aldeias natais — o reservatório ainda não tinha água —
e construíam cabanas de barro ou dormiam ao relento.37 Milhões de
refugiados como esses viviam em miséria semelhante em todo o campo.
* * *
Os mortos também eram despejados. E isso era abertamente contrário a uma
preocupação profundamente arraigada com a vida após a morte, expressada
em complexas práticas de luto, ritos funerários e rituais ancestrais. O enterro
era o meio preferido de lidar com o cadáver, pois o corpo era visto como
oferenda valiosa a ser colocada sob o solo perto da aldeia ancestral do
falecido. Pensava-se que obrigações mútuas existiam entre seres ancestrais e
seus descendentes. Os mortos tinham necessidades específicas a serem
respeitadas. Nos funerais, dinheiro de imitação era queimado, assim como
todo um conjunto de bens, mobílias e até casas, tudo feito de papel e
destinado a ajudar o falecido a se estabelecer no além. O caixão tinha que ser
impermeável. Os túmulos deviam ser varridos, e comida e presentes,
regularmente oferecidos aos ancestrais.38
Algumas dessas práticas foram observadas durante o Grande Salto
Adiante. Por muito que o partido desprezasse a religião popular como
superstição, alguns quadros locais contribuíam para dispendiosos funerais.
Para o enterro de sua avó, um funcionário em Hebei convocou uma banda
funerária de trinta músicos. Um refeitório foi colocado à disposição para a ocasião, 120 convidados foram tratados a vinho e cigarros — no meio da
fome. Como se isso não bastasse realmente para mitigar a dor, Li Jianjian fez
com que os restos mortais de seus pais, enterrados cinco anos antes, fossem
exumados, transferidos para novos caixões e enterrados novamente. Li
Yongfu, assessor do secretário do partido de uma fábrica de tricô em Pequim,
não apenas armou uma barraca com luz elétrica para receber uma banda
funerária, como também queimou um carro de papel, uma vaca de papel e
uma milícia de papel para ajudar a passagem de sua mãe para o outro mundo.
Cinco monges cantavam escrituras sagradas.39
Mas muitas sepulturas foram destruídas para recuperar pedra, madeira ou
até para servir de fertilizante. Em Hunan, por exemplo, as tumbas foram
tomadas para construir uma represa, e ativistas do partido deram o exemplo
ao destruir os lugares de descanso de seus próprios ancestrais. Em Yueyang,
em centenas de túmulos profanados, os ossos apareciam para fora dos
caixões.40 Wei Shu relembrou em uma entrevista como fazia para tirar
túmulos nos campos de Sichuan: “Você sabe, túmulos para pessoas mortas
geralmente se parecem com colinas pequenas. Você tem que achatá-los, essa
era uma das coisas que tínhamos que fazer em 1958. À noite, recebíamos
ordens para voltar e destruir os túmulos e transformá-los em local de
plantio.”41 Em muitas partes, a terra arável do país ocupada por túmulos
ancestrais era sistematicamente requisitada. Em Pequim, os crematórios
trabalharam em tempo integral durante o Grande Salto Adiante. Em 1958,
mais de 7 mil corpos foram cremados, quase três vezes o número de 1956 e
vinte vezes mais que em 1952. Um terço desses cadáveres tinha que ser
desenterrado para abrir espaço para a agricultura.42
No campo, as autoridades nem sempre se incomodavam em cremar os
corpos desenterrados na busca frenética por madeira. Como observou uma
publicação de circulação restrita, editada pelo escritório do secretariado do
Conselho de Estado, em Mouping, Shandong, os quadros locais usavam
cadáveres para fertilizar a terra: “Eles jogaram alguns corpos, ainda não
inteiramente decompostos, nas safras.” Uma senhora idosa, enterrada apenas
dias antes, foi despojada das roupas, o corpo desnudo atirado à margem da
estrada.43
Isso não foi exceção, de maneira alguma. No relatório de um comissário da
divisão militar em Shaanxi, onde ele trabalhava, o membro do partido Hou
Shixiang disse que, quando voltou para sua aldeia, notou que muitos caixões
tinham sido desenterrados e deixados espalhados pelo campo em frente à sua
casa. As tampas estavam entreabertas e não havia corpos. Poucos dias depois,
em uma tarde chuvosa, notou uma coluna de fumaça que saía da chaminé do
subsecretário local. Dentro da casa existiam quatro grandes caldeirões em que
os corpos estavam sendo cozidos para se transformar em fertilizante, o caldo
deveria ser uniformemente distribuído pelos campos.44