A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 2 de 43

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A Grande Fome de Mao

Cronologia

 

1949:

 

O Partido Comunista Chinês conquista o continente e estabelece a

República Popular da China em 1º de outubro. O generalíssimo Chiang

Kai-shek, líder do derrotado Kuomintang, refugia-se na ilha de Taiwan.

Em dezembro, Mao viaja a Moscou para conseguir uma aliança estratégica

com a União Soviética e buscar ajuda de Stalin.

 

Outubro de 1950:

 

A China entra na Guerra da Coreia.

 

Março de 1953:

 

Morre Stalin.

 

Outono de 1955 — primavera de 1956:

 

Insatisfeito com o ritmo lento de desenvolvimento econômico, Mao

pressiona para acelerar a coletivização do campo e para aumentar a

produção de cereais, algodão, carvão e aço. Sua “Maré Alta Socialista”, a

que alguns historiadores se referem como o “Pequeno Salto Adiante”,

produz falta de estoques industriais e fome em regiões do campo. Chu En-

lai e outros planejadores da economia pressionam por uma redução no

ritmo da coletivização na primavera de 1956.

Fevereiro de 1956:

 

Kruschev denuncia Stalin e o culto da personalidade num discurso secreto

em Moscou. A crítica da desastrosa campanha de coletivização de Stalin

fortalece a posição dos opositores da “Maré Alta Socialista” na China. Mao

percebe a desestalinização como um desafio à sua própria autoridade.

 

Outono de 1956:

 

Uma referência ao “Pensamento de Mao Tsé-tung” é removida da

Constituição do Partido, o princípio da liderança coletiva é louvado e o

culto da personalidade é censurado. A “Maré Alta Socialista” é suspensa.

 

Outubro de 1956:

 

Estimulado pela desestalinização, o povo na Hungria se revolta contra seu

próprio governo, levando as forças soviéticas a invadir o país, esmagar

toda a oposição e instalar um novo regime com o apoio de Moscou.

 

Inverno de 1956 — primavera de 1967:

 

Contra o desejo da maioria dos seus colegas, Mao estimula um clima

político mais aberto com a campanha das Cem Flores para garantir o

apoio de cientistas e intelectuais ao desenvolvimento da economia e evitar

a intranquilidade social que levou à invasão soviética da Hungria.

 

Verão de 1957:

 

A campanha tem efeito contrário ao desejado, e uma barragem crescente

de críticas questiona o próprio direito do partido a governar. Mao dá

meia-volta e acusa essas vozes críticas de “maus elementos”, dispostos a

destruir o partido. Põe Deng Xiaoping a cargo de uma campanha

antidireita, que persegue meio milhão de pessoas — muitas delas

estudantes e intelectuais deportados para áreas remotas para fazer trabalho

pesado. O partido se une a favor de seu presidente.

Novembro de 1957:

 

Mao visita Moscou. Impressionado com o Sputnik soviético, o primeiro

satélite lançado em órbita, declara que “o vento leste prevalece sobre o

vento oeste”. Em resposta ao anúncio de Kruschev de que a União

Soviética irá superar os Estados Unidos em produção econômica em

quinze anos, ele declara que a China irá ultrapassar a Grã-Bretanha no

mesmo período.

 

Inverno de 1957 — primavera de 1958:

 

Em uma série de conferências do partido, Mao ataca Chu En-lai e outros

líderes antigos que se opõem à política econômica. Promove sua própria

visão de mobilização de massa e coletivização acelerada do campo,

exigindo metas agrícolas e industriais ampliadas. O slogan “fazendo todo o

possível, tendo ambições maiores, e conquistando cada vez mais, mais

depressa e com mais resultados econômicos” torna-se a diretriz do

partido.

 

Inverno de 1957 — verão de 1958

 

Uma campanha repressiva tem por alvo centenas de milhares de membros

do partido críticos da política econômica. Vários líderes provinciais do

partido são expulsos e substituídos por seguidores estritos de Mao. A

oposição de dentro do partido é silenciada.

 

Inverno de 1957 — primavera de 1958

 

Uma campanha maciça de conservação da água é lançada, marcando o

início do “Grande Salto Adiante” para centenas de milhões de aldeões

comuns compelidos a trabalhar durante semanas a fio em projetos

remotos, frequentemente sem descanso e sem alimento suficientes.

 

Verão de 1958:

Kruschev visita Pequim, mas tensões aparecem quando Mao decide

bombardear diversas ilhas no estreito de Taiwan sem primeiro consultar

seu aliado soviético, desencadeando uma crise internacional com os

Estados Unidos. Moscou é forçada a tomar partido e se posiciona em favor

de Pequim, proclamando que um ataque à República Popular da China

seria um ataque à União Soviética.

 

Verão de 1958:

 

A mobilização em massa de aldeões em torno de imensos projetos

aquáticos requer unidades administrativas muito maiores no campo,

levando à fusão de fazendas coletivas em gigantescas comunas populares

de até 20 mil casas. A vida diária nas comunas segue as regras militares.

Quase tudo, incluindo terra e trabalho, é coletivizado. Refeitórios coletivos

substituem cozinhas privadas, enquanto as crianças são deixadas aos

cuidados de jardins de infância. Um sistema de pontos de trabalho é usado

para calcular recompensas, e até o dinheiro é abolido em algumas

comunas. Fornalhas de fundo de quintal são usadas para fundir toda sorte

de objetos de metal a fim de contribuir para as metas crescentes de aço do

partido. Condições de fome aparecem em muitas partes do país.

 

Novembro de 1958 — fevereiro de 1959:

 

Mao se volta contra oficiais que produzem metas infladas e promete uma

iminente transição para o comunismo. Ele tenta refrear alguns dos piores

abusos do Grande Salto Adiante, mas continua a pressionar pela

coletivização. Anuncia que os erros cometidos pelo partido são apenas

“um dedo em dez”. Para cumprir compromissos externos e alimentar as

cidades, a requisição de cereais do campo aumenta acentuadamente. A

fome se espalha.

 

Março de 1959:

 

Numa conferência em Xangai, Mao lança um ataque desmoralizador aos

membros antigos do partido e pressiona por requisições ainda maiores de

alimentos do campo, até um terço de todos os cereais, apesar da fome

disseminada.

 

Julho de 1959:

 

Na conferência de Lushan, Mao denuncia Peng Dehuai e outros líderes

como uma “panelinha antipartido” por criticarem o Grande Salto Adiante.

 

Verão de 1959 — verão de 1960:

 

Uma campanha repressiva é lançada contra membros do partido que

expressavam pontos de vista críticos semelhantes a Peng Dehuai e seus

aliados. Dezenas de milhões de aldeões morrem de inanição, doenças ou

tortura.

 

Julho de 1960:

 

Conselheiros soviéticos são retirados da China por Kruschev. Chu En-lai e

Li Fuchun deslocam a estrutura de comércio para longe da União Soviética

em direção ao Ocidente.

 

Outubro de 1960:

 

Um relatório de inanição em massa em Xinyang, Henan, é entregue a Mao

por Li Fuchun.

 

Novembro de 1960:

 

Uma diretriz de emergência é emitida, permitindo aos aldeões ter hortas

privadas, envolver-se em ocupações secundárias, descansar oito horas por

dia e restaurar os mercados locais, entre outras medidas destinadas a

enfraquecer o poder das comunas sobre os aldeões.

 

Inverno de 1961 — 1962:

Equipes de investigação se espalham no campo, trazendo à luz a completa

dimensão da catástrofe. Grandes quantidades de alimentos são importadas

do Ocidente.

 

Primavera de 1961:

 

Circuitos de inspeção por membros da liderança do partido resultam num

afastamento ainda maior do Grande Salto Adiante. Liu Shaoqi põe a culpa

da fome nos ombros do partido, mas absolve Mao de toda

responsabilidade.

 

Verão de 1961:

 

As consequências do Grande Salto Adiante são discutidas numa série de

encontros do partido.

 

Janeiro de 1962:

 

Num grande encontro do partido que reuniu milhares de oficiais em

Pequim, Liu Shaoqi descreve a fome como um desastre produzido pelo

homem. O apoio a Mao Tsé-tung desaparece. A fome abranda, mas

continua a reclamar vidas em várias partes do país até o fim de 1962.

 

1966:

 

Mao lança a Revolução Cultural.