A Grande Fome de Mao
Cronologia
1949:
O Partido Comunista Chinês conquista o continente e estabelece a
República Popular da China em 1º de outubro. O generalíssimo Chiang
Kai-shek, líder do derrotado Kuomintang, refugia-se na ilha de Taiwan.
Em dezembro, Mao viaja a Moscou para conseguir uma aliança estratégica
com a União Soviética e buscar ajuda de Stalin.
Outubro de 1950:
A China entra na Guerra da Coreia.
Março de 1953:
Morre Stalin.
Outono de 1955 — primavera de 1956:
Insatisfeito com o ritmo lento de desenvolvimento econômico, Mao
pressiona para acelerar a coletivização do campo e para aumentar a
produção de cereais, algodão, carvão e aço. Sua “Maré Alta Socialista”, a
que alguns historiadores se referem como o “Pequeno Salto Adiante”,
produz falta de estoques industriais e fome em regiões do campo. Chu En-
lai e outros planejadores da economia pressionam por uma redução no
ritmo da coletivização na primavera de 1956.
Fevereiro de 1956:
Kruschev denuncia Stalin e o culto da personalidade num discurso secreto
em Moscou. A crítica da desastrosa campanha de coletivização de Stalin
fortalece a posição dos opositores da “Maré Alta Socialista” na China. Mao
percebe a desestalinização como um desafio à sua própria autoridade.
Outono de 1956:
Uma referência ao “Pensamento de Mao Tsé-tung” é removida da
Constituição do Partido, o princípio da liderança coletiva é louvado e o
culto da personalidade é censurado. A “Maré Alta Socialista” é suspensa.
Outubro de 1956:
Estimulado pela desestalinização, o povo na Hungria se revolta contra seu
próprio governo, levando as forças soviéticas a invadir o país, esmagar
toda a oposição e instalar um novo regime com o apoio de Moscou.
Inverno de 1956 — primavera de 1967:
Contra o desejo da maioria dos seus colegas, Mao estimula um clima
político mais aberto com a campanha das Cem Flores para garantir o
apoio de cientistas e intelectuais ao desenvolvimento da economia e evitar
a intranquilidade social que levou à invasão soviética da Hungria.
Verão de 1957:
A campanha tem efeito contrário ao desejado, e uma barragem crescente
de críticas questiona o próprio direito do partido a governar. Mao dá
meia-volta e acusa essas vozes críticas de “maus elementos”, dispostos a
destruir o partido. Põe Deng Xiaoping a cargo de uma campanha
antidireita, que persegue meio milhão de pessoas — muitas delas
estudantes e intelectuais deportados para áreas remotas para fazer trabalho
pesado. O partido se une a favor de seu presidente.
Novembro de 1957:
Mao visita Moscou. Impressionado com o Sputnik soviético, o primeiro
satélite lançado em órbita, declara que “o vento leste prevalece sobre o
vento oeste”. Em resposta ao anúncio de Kruschev de que a União
Soviética irá superar os Estados Unidos em produção econômica em
quinze anos, ele declara que a China irá ultrapassar a Grã-Bretanha no
mesmo período.
Inverno de 1957 — primavera de 1958:
Em uma série de conferências do partido, Mao ataca Chu En-lai e outros
líderes antigos que se opõem à política econômica. Promove sua própria
visão de mobilização de massa e coletivização acelerada do campo,
exigindo metas agrícolas e industriais ampliadas. O slogan “fazendo todo o
possível, tendo ambições maiores, e conquistando cada vez mais, mais
depressa e com mais resultados econômicos” torna-se a diretriz do
partido.
Inverno de 1957 — verão de 1958
Uma campanha repressiva tem por alvo centenas de milhares de membros
do partido críticos da política econômica. Vários líderes provinciais do
partido são expulsos e substituídos por seguidores estritos de Mao. A
oposição de dentro do partido é silenciada.
Inverno de 1957 — primavera de 1958
Uma campanha maciça de conservação da água é lançada, marcando o
início do “Grande Salto Adiante” para centenas de milhões de aldeões
comuns compelidos a trabalhar durante semanas a fio em projetos
remotos, frequentemente sem descanso e sem alimento suficientes.
Verão de 1958:
Kruschev visita Pequim, mas tensões aparecem quando Mao decide
bombardear diversas ilhas no estreito de Taiwan sem primeiro consultar
seu aliado soviético, desencadeando uma crise internacional com os
Estados Unidos. Moscou é forçada a tomar partido e se posiciona em favor
de Pequim, proclamando que um ataque à República Popular da China
seria um ataque à União Soviética.
Verão de 1958:
A mobilização em massa de aldeões em torno de imensos projetos
aquáticos requer unidades administrativas muito maiores no campo,
levando à fusão de fazendas coletivas em gigantescas comunas populares
de até 20 mil casas. A vida diária nas comunas segue as regras militares.
Quase tudo, incluindo terra e trabalho, é coletivizado. Refeitórios coletivos
substituem cozinhas privadas, enquanto as crianças são deixadas aos
cuidados de jardins de infância. Um sistema de pontos de trabalho é usado
para calcular recompensas, e até o dinheiro é abolido em algumas
comunas. Fornalhas de fundo de quintal são usadas para fundir toda sorte
de objetos de metal a fim de contribuir para as metas crescentes de aço do
partido. Condições de fome aparecem em muitas partes do país.
Novembro de 1958 — fevereiro de 1959:
Mao se volta contra oficiais que produzem metas infladas e promete uma
iminente transição para o comunismo. Ele tenta refrear alguns dos piores
abusos do Grande Salto Adiante, mas continua a pressionar pela
coletivização. Anuncia que os erros cometidos pelo partido são apenas
“um dedo em dez”. Para cumprir compromissos externos e alimentar as
cidades, a requisição de cereais do campo aumenta acentuadamente. A
fome se espalha.
Março de 1959:
Numa conferência em Xangai, Mao lança um ataque desmoralizador aos
membros antigos do partido e pressiona por requisições ainda maiores de
alimentos do campo, até um terço de todos os cereais, apesar da fome
disseminada.
Julho de 1959:
Na conferência de Lushan, Mao denuncia Peng Dehuai e outros líderes
como uma “panelinha antipartido” por criticarem o Grande Salto Adiante.
Verão de 1959 — verão de 1960:
Uma campanha repressiva é lançada contra membros do partido que
expressavam pontos de vista críticos semelhantes a Peng Dehuai e seus
aliados. Dezenas de milhões de aldeões morrem de inanição, doenças ou
tortura.
Julho de 1960:
Conselheiros soviéticos são retirados da China por Kruschev. Chu En-lai e
Li Fuchun deslocam a estrutura de comércio para longe da União Soviética
em direção ao Ocidente.
Outubro de 1960:
Um relatório de inanição em massa em Xinyang, Henan, é entregue a Mao
por Li Fuchun.
Novembro de 1960:
Uma diretriz de emergência é emitida, permitindo aos aldeões ter hortas
privadas, envolver-se em ocupações secundárias, descansar oito horas por
dia e restaurar os mercados locais, entre outras medidas destinadas a
enfraquecer o poder das comunas sobre os aldeões.
Inverno de 1961 — 1962:
Equipes de investigação se espalham no campo, trazendo à luz a completa
dimensão da catástrofe. Grandes quantidades de alimentos são importadas
do Ocidente.
Primavera de 1961:
Circuitos de inspeção por membros da liderança do partido resultam num
afastamento ainda maior do Grande Salto Adiante. Liu Shaoqi põe a culpa
da fome nos ombros do partido, mas absolve Mao de toda
responsabilidade.
Verão de 1961:
As consequências do Grande Salto Adiante são discutidas numa série de
encontros do partido.
Janeiro de 1962:
Num grande encontro do partido que reuniu milhares de oficiais em
Pequim, Liu Shaoqi descreve a fome como um desastre produzido pelo
homem. O apoio a Mao Tsé-tung desaparece. A fome abranda, mas
continua a reclamar vidas em várias partes do país até o fim de 1962.
1966:
Mao lança a Revolução Cultural.