A Grande Fome de Mao
15. Grão capitalista
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Grão capitalista
Quase imediatamente após a “debandada” dos especialistas soviéticos em
julho de 1960, um triunvirato formado por Chu En-lai, Li Fuchun e Li
Xiannian foi posto a cargo do comércio exterior.1 Sua resposta à ação de
Kruschev foi mudar a direção do comércio chinês com a União Soviética para
o Ocidente. No fim de agosto, o ministro do Comércio Exterior, Ye Jizhuang,
instruiu seus representantes no exterior a reduzir as importações do bloco
soviético. Todas as negociações para novos acordos comerciais com a URSS
deveriam cessar, com a exceção de alguns projetos estratégicos, como o aço da
União Soviética para a ponte de Nanquim. Nenhum novo contrato de
importação seria assinado, sob o pretexto de que o preço ou as especificações
dos bens não eram satisfatórios.2 Alguns observadores estrangeiros na época
falaram de um cruel bloqueio à China pelo campo socialista,3 mas a separação
da economia da União Soviética de seus aliados foi inteiramente iniciada por
Pequim.
No entanto, a China não podia livrar-se para sempre de parceiros
comerciais com mesquinharias sobre especificações inadequadas. Em
dezembro de 1960, com Mao recolhido, uma explicação mais plausível
finalmente foi oferecida. A versão oficial foi que a China sofria catástrofes
naturais sem precedentes que haviam devastado grande parte do campo e não
podia mais exportar alimentos para a União Soviética. Todo o comércio com
o campo socialista, à exceção da Albânia, tinha que ser reduzido.4 Além de
desviar a atenção das dimensões da fome causada pelo homem, invocar a
força da natureza tinha outra vantagem. Os acordos comerciais em geral têm
uma cláusula padrão, o artigo 33, estipulando que, no caso de circunstâncias
imprevistas, fora do controle humano, uma parte ou todo o contrato podiam
ser encerrados.5 O artigo 33 agora seria usado não apenas para diminuir o
comércio, como para cancelar uma série de acordos.6
Os quadros estatísticos apresentados no capítulo 10 mostram que as
exportações para a União Soviética caíram de 761 milhões de rublos em 1960
para 262 milhões em 1961. Queda similar marcou as importações da Europa
Oriental. Somente quando todos os atrasos de pagamento aos parceiros
comerciais tivessem sido quitados, acordos comerciais para 1961 seriam
contemplados, explicou Ye Jizhuang aos parceiros em Berlim Oriental.7 Mas a
Alemanha Oriental não somente se habituara a usar arroz, como também
dependia da China para óleos comestíveis. Tão grande foi o déficit que Walter
Ulbricht foi forçado a se voltar para Kruschev em busca de ajuda em agosto
de 1961.
A China se afastou do bloco socialista não como punição pela retirada de
especialistas soviéticos, mas porque estava falida. A melhor medida do valor
financeiro do país era o valor do yuan no mercado negro. O yuan iniciou um
declínio espetacular em 1960. Em janeiro de 1961, enquanto notícias da falta
de alimentos vazavam para o resto do mundo, o yuan mergulhou de cabeça
na maior baixa de todos os tempos, de cerca de US$ 0,75 por dez yuans, ou
cerca de um sexto do valor oficial da moeda. No geral, em junho de 1961, o
yuan caíra em 50% do valor em relação ao ano precedente.8
Parte do declínio do yuan foi causada pela necessidade de levantar moedas
fortes para pagar pelos grãos nos mercados internacionais. Uma forma de
enfrentar a inanição tinha sido movimentar os grãos das áreas com excedente
para áreas esfomeadas, mas, no outono de 1960, quando novo fracasso na
colheita piorou a fome, a estratégia teve efeito muito pequeno. Chu En-lai e
Chen Yun conseguiram convencer Mao de que os grãos tinham que ser
importados de países capitalistas. Como fizeram isso permanece obscuro, mas, provavelmente, venderam a ideia afirmando que as importações de
grãos eram um meio de reforçar as exportações para obter dinheiro. Os
primeiros contratos foram negociados em Hong Kong no fim de 1960.9 Cerca
de 6 milhões de toneladas foram compradas em 1960–61 por US$ 367
milhões (ver tabela 4). Os termos de pagamento variavam: os canadenses
pediram entrada de 25% conversíveis em libras esterlinas, ao passo que os
australianos permitiram 10% de entrada e concederam crédito para o
restante. Mas, em geral, cerca da metade tinha que ser paga em 1961.10
Tabela 4: Importações de grãos pela China em 1961
País exportador Milhões de toneladas Alemanha 0,250 Argentina 0,045 Austrália 2,74 Birmânia 0,3 Canadá 2,34 França 0,285
Total 5,96
Fonte: BArch, Berlim, 1962, DL2–VAN–175, p. 15; ver também Allan J. Barry, “The Chinese Food Purchases”, China Quarterly, nº 8 (out.–dez. 1961), p. 21.
Para cumprir esses compromissos, a China tinha que ganhar um excedente
em moeda conversível e isso só poderia ser feito com a redução das
importações de bens de capital e o aumento das exportações para o mundo
não comunista. Durante a fome, até então, Chu En-lai se certificara de que
entregas de ovos e carne chegassem a Hong Kong todos os dias.11 Agora, no
outono de 1960, apesar dos protestos de um desapontado Kruschev que se
queixava da falta de entrega de gêneros alimentícios para a União Soviética,
Chu resolveu redirecionar todos os gêneros alimentícios disponíveis para
Hong Kong, aumentando grandemente o comércio com a colônia da coroa.12
Algodão e produtos têxteis também partiam para Hong Kong, saltando de
HK$ 217,3 milhões em 1959 para HK$ 287 milhões no ano seguinte.13 No
geral, o comércio com Hong Kong foi a maior fonte de moeda estrangeira
para Pequim durante a fome, produzindo cerca de US$ 320 milhões em um
ano.14 Assim como em 1958, os mercados asiáticos foram inundados de
produtos baratos. Têxteis, por exemplo, embora muito necessários à
população chinesa, eram vendidos a preços abaixo do custo, o que
competidores como Índia e Japão não podiam de forma alguma igualar.
Pequim também esvaziou suas reservas, mandando barras de prata para
Londres. A China tornou-se exportadora de barras de ouro e prata no fim de
1960, enviando cerca de 50 a 60 milhões de onças troy em 1961, das quais 46
milhões, avaliadas em £ 15,5 milhões, foram compradas pela Grã-Bretanha.15
No total, se formos confiar em um relatório de Chu En-lai, por volta de US$
150 milhões foram arrecadados pela venda de ouro e prata no fim de 1961.16
Em desesperada tentativa de levantar mais moeda estrangeira, a China iniciou
um comércio sombrio pelo qual chineses que viviam fora podiam comprar
cupons especiais em troca de dinheiro vivo nos bancos de Hong Kong: esses
cupons podiam ser enviados pela fronteira aos parentes famintos, para serem
trocados por grãos e cobertores.17
* * *
Por que a China não importou grãos dos aliados socialistas? Orgulho e medo
foram os principais obstáculos. Como vimos, a liderança nunca hesitou em
colocar a reputação do país acima das necessidades da população e saqueou o
campo para cumprir acordos de exportação com parceiros estrangeiros. No
entanto, o orgulho sempre vem antes da proverbial queda e, em março de
1961, Chu En-lai teve que executar uma humilhante mudança de rumo ao
explicar aos aliados comerciais que a China não estava mais na posição de
exportar gêneros alimentícios para cumprir seus acordos comerciais de longo
prazo ou honrar vários contratos para grandes instalações industriais. A
entrega de mais de 1 milhão de toneladas de grãos e óleos comestíveis ainda
estava pendente com a União Soviética apenas para o ano de 1960, e a China
não seria capaz de atualizar os embarques de alimentos em futuro próximo.
Como explicou Chu, diplomaticamente, como poderia seu país pedir grãos
quando falhara tão feio com os aliados socialistas?18
Pequim também temia que um pedido de ajuda pudesse ser recusado por
Moscou: o Grande Salto Adiante não tinha sido destinado a mostrar que a
China era mais capaz que a União Soviética? Esse medo era, provavelmente,
justificado, embora, inicialmente, a União Soviética mostrasse boa vontade.
Os russos, por exemplo, ofereceram entregar 1 milhão de toneladas de grãos e
meio milhão de toneladas de açúcar em base de troca, livre de juros, e o custo
seria reembolsado ao longo de vários anos. Pequim recusou os grãos, mas
pegou o açúcar. 19 Kruschev repetiu a oferta de grãos durante encontro com
Ye Jizhuang no Kremlin, em abril de 1961. O líder soviético disse ao ministro
do Comércio Exterior chinês que tinha toda simpatia pela situação aflitiva da
China, ainda mais que a Ucrânia sofrera fome terrível em 1946. Em
lembrança crua e dita de forma bastante impensada, que só poderia ofender,
acrescentou que haviam acontecido casos de canibalismo. Depois, mudou o
tema da conversa e mencionou, como se por casualidade, que a União
Soviética estava a ponto de superar os Estados Unidos na produção de aço. Ye
Jizhuang polidamente declinou da oferta.20
Poucos meses após, quando a fome se recusou a desaparecer com a
chegada do verão, Chu En-lai abordou os russos. Em encontro com uma
delegação de Moscou em agosto de 1961, explicou por que, pela primeira vez
na história da República Popular, os grãos estavam sendo importados do
campo imperialista. Depois, Chu, de maneira bem indireta, perguntou sobre
o desejo da União Soviética de trocar 2 milhões de toneladas de cereais por
soja, cerdas e estanho, possivelmente até arroz. Apenas um terço seria pago de
entrada, e o restante nos dois anos seguintes. A ocasião do pedido foi mal
escolhida, pois veio logo após a delegação ter empacado em um déficit
comercial de 70 milhões de rublos. “Vocês têm alguma moeda estrangeira?”,
inquiriu o lado soviético abruptamente, forçando Chu a admitir que a China
não tinha nenhuma e estava vendendo prata.21 A delegação deixou o assunto
no ar e nada mais aconteceu durante vários meses, até que alguém,
finalmente, deu uma pista ao informar Deng Xiaoping de que a União
Soviética enfrentava dificuldades e não estava em posição de ajudar. A perda
de prestígio da China deve ter sido tremenda.22
Táticas de adiamento no meio da calamidade também foram adotadas por
Moscou quando Chu En-lai pediu 20 mil toneladas extras de petróleo em
julho de 1961: Kruschev esperou quatro meses, até depois do 22º Congresso
do Partido Soviético, para atender ao pedido de Pequim.23 Vantagem política
também foi extraída de uma troca de grãos acordada em junho de 1961. De
todo o trigo que Pequim comprava do Canadá, 280 mil toneladas eram
destinadas à União Soviética, que, em troca, exportava volume similar para a
China. Depois que o trigo foi embarcado diretamente do Canadá para a
Rússia, os soviéticos agiram como se a importação viesse dos Estados Unidos
e listaram, ao mesmo tempo, sua exportação de grãos para a China nas
estatísticas de comércio publicadas em 1961. Aos olhos do mundo, com
especialistas estrangeiros debruçados sobre estatísticas publicadas em busca
de sinais de um racha entre os dois gigantes socialistas, parecia que a União
Soviética estava alimentando a China.24
* * *
Nem todos os grãos comprados no exterior se destinavam ao consumo
doméstico. O arroz comprado da Birmânia, por exemplo, era embarcado
diretamente para o Ceilão a fim de cumprir compromissos importantes.
Cerca de 160 mil toneladas também seguiram para a Alemanha Oriental com
o propósito de corrigir o déficit comercial com aliados socialistas. E a China,
no meio da fome, continuou a ser generosa com os amigos. Dois
carregamentos de trigo de cerca de 60 mil toneladas foram embarcados em
portos canadenses diretamente para Tirana, como presente. Uma vez que a
Albânia tinha cerca de 1,4 milhão de habitantes, aquele volume cobria um
quinto da demanda doméstica.25 Pupo Shyti, o negociador chefe de Tirana
em Pequim, recordou mais tarde que podia ver sinais de fome em Pequim,
mas “os chineses nos davam tudo [...]. Quando precisávamos de alguma coisa,
era só pedir aos chineses [...]. Senti-me envergonhado”.26 Outros países, além da Albânia, também receberam arroz grátis no auge da fome: por exemplo, a
Guiné, recebedora de 10 mil toneladas em 1961.27
A China nunca deixou de cultivar sua imagem internacional com ajuda
liberal e empréstimos baratos para nações em desenvolvimento da Ásia e da
África. Uma razão pela qual a China aumentou as doações externas durante o
Grande Salto Adiante foi provar que havia descoberto a ponte para o futuro
comunista. Mas a principal consideração era a rivalidade com Moscou. Em
uma era de descolonização, Kruschev começou a competir pela lealdade de
nações em desenvolvimento, tentando afastá-las dos Estados Unidos e atraí-
las para a órbita soviética, mediante o fornecimento de abundante ajuda a
projetos prestigiosos, como usinas hidrelétricas e estádios. Mao queria
desafiar a liderança de Kruschev na Ásia e na África. Desprezando a noção do
Kremlin de “evolução pacífica” em que se baseavam suas relações com o
mundo em desenvolvimento, Mao estimulava, em vez disso, uma teoria
militante de revolução, e, em competição decidida com Moscou, ajudava
comunistas revolucionários em países como Argélia, Camarões, Quênia e
Uganda.
Quanta ajuda foi dada em tempos de fome? No cômputo geral, a China
forneceu 4 bilhões de yuans a países estrangeiros de 1950 a julho de 1960, dos
quais 2,8 bilhões foram ajuda econômica gratuita e 1,2 bilhão livre de juros ou
com baixas taxas de empréstimo.28 A maior parte dessa ajuda foi concedida
de 1958 em diante. Em 1960, um novo organismo em nível de ministério,
chamado Departamento de Relação Econômica Exterior, foi criado para lidar
com doações crescentes, e a ajuda a países estrangeiros foi fixada em 420
milhões de yuans.29 No ano seguinte, Pequim recusou novos empréstimos ou
até mesmo o adiamento de pagamentos oferecidos por aliados socialistas
cientes dos apuros da China, mas cerca de 660 milhões de yuans foram
reservados para ajuda externa.30 Os beneficiários incluíram a Birmânia, em
US$ 84 milhões, e Camboja, em US$ 11,2 milhões; ao Vietnã foram
concedidos 142 milhões de rublos, e à Albânia, 112,5 milhões de rublos.31 As
somas ficaram disponíveis enquanto a renda global do Estado encolhia em
45%, para 35 bilhões de yuans, com cortes em diversas áreas, inclusive 1,4
bilhão de yuans em saúde e educação.32
Tal generosidade significava que, no local de produção, onde as pessoas
morriam de fome, os grãos continuaram a ser exportados em 1960, parte
deles gratuitamente. De fato, com uma política de “exportação acima de tudo
o mais” (chukou diyi), quase todas as províncias tinham que exportar mais
que nunca. Hunan foi instruída a exportar bens no valor de 423 milhões de
yuans, ou 3,4% do valor total da produção da província, e o produto a ser
exportado incluía 300 mil toneladas de arroz e 270 mil porcos.33
Nos cinco meses seguintes à decisão de Chu En-lai, em agosto de 1960, de
restringir a exportação de comida para o campo socialista, bem mais de 100
mil toneladas de grãos foram requisitadas de Guangdong e enviadas a Cuba,
Indonésia, Polônia e Vietnã, o que representou cerca de um quarto das 470
mil toneladas confiscadas da província naquele período. Como explicou o
chefe provincial, Tao Zhu, após o estabelecimento de relações diplomáticas
formais com o regime de Fidel Castro, em setembro de 1960, entregar grãos
ao povo de Cuba, sitiado pelo imperialismo americano, era uma questão de
“reputação internacional”.34 Trabalhadores de fábrica em Guangzhou eram
menos entusiasmados acerca da assistência abnegada ao mundo em
desenvolvimento: já amargados pela falta de algodão, exportado e posto em
liquidação em lojas de Hong Kong, perguntavam abertamente: “Por que
exportar para Cuba quando não temos o suficiente para comer?”35 Até em
lugares distantes como Gansu, aldeões protestavam por ter que passar fome
porque Mao embarcava arroz para Cuba.36 Em uma festa em Beidaihe, no
mês seguinte, a liderança decidiu enviar para Castro mais 100 mil toneladas
de arroz, no valor de 26 milhões de yuans em troca de açúcar.37
* * *
A China poderia ter aceitado ajuda em vez de gastar todas as suas divisas
estrangeiras em importações de grãos? O presidente John Kennedy observou
friamente que Pequim mandava alimentos para África e Cuba mesmo em tempo de fome e acrescentou: “Não temos nenhuma indicação dos chineses
comunistas de que receberiam bem qualquer oferta de alimentos.”38 A Cruz
Vermelha tentou realmente dar assistência, mas abordou Pequim de forma
desastrada ao inquirir primeiro sobre fome no Tibete — onde uma grande
rebelião acabara de ser esmagada pelo Exército de Libertação Popular. A
resposta foi rápida e previsível. O país testemunhara uma colheita
ineditamente rica em 1960, absolutamente não havia fome e os rumores em
contrário eram difamações. Henrik Beer, o desajeitado secretário- -geral da
Liga das Sociedades da Cruz Vermelha, jogou gasolina ao fogo ao enviar um
segundo telegrama de Genebra para perguntar se isso também era verdade
para a China. Seguiu-se uma resposta furiosa em que Pequim destacava que
Tibete e China não eram entidades separadas e sim um só país, no qual o
governo se apoiava nas muitas vantagens das comunas do povo para superar
as calamidades naturais dos dois anos anteriores.39
Mesmo que a Cruz Vermelha tivesse puxado o assunto de forma mais
diplomática, é muito provável que a ajuda estrangeira fosse recusada. Quando
o ministro das Relações Exteriores do Japão teve uma conversa sossegada com
seu colega, Chen Yi, sobre um presente discreto de 100 mil toneladas de trigo
a ser embarcado fora da vista do público, o pedido foi rejeitado.40 Até doações
de roupas escolares de crianças de Berlim Oriental, oferecidas para ajudar
Guangdong, varrida por um tufão em 1959, foram vistas como
desmoralização, e as embaixadas foram instruídas a não mais aceitar
donativos.41 A China queria apadrinhar o mundo em desenvolvimento, mas
não aceitava ajuda de ninguém.