A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 10 de 43

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A Grande Fome de Mao

8. Febre do aço

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Febre do aço

 

Stalin financiara a indústria à custa da agricultura, impondo requisições

punitivas de grãos que drenavam o campo de toda a sua riqueza. Em busca de

alternativa para o modelo soviético, Mao queria, em vez disso, trazer a

indústria para o campo. A produção industrial nas comunas do povo poderia

ser aumentada imediatamente com apoio em inovações baratas e técnicas

nativas que não requeriam grande volume de investimento, o que levaria a

um salto instantâneo da produtividade. Isso, por sua vez, poderia entusiasmar

os aldeões a alcançar metas econômicas ainda maiores: aí estava a chave para

industrializar um país atrasado sem grande investimento estrangeiro.

Especialistas burgueses foram acusados de direitistas conservadores,

enquanto a sabedoria ligada à terra de simples camponeses foi louvada. O

chefe do partido em Yunnan, Xie Fuzhi, zombava abertamente de medições

geológicas e inspeções tecnológicas recomendadas pelos especialistas russos,

apoiando-se, em lugar disso, na sabedoria das massas para construir represas

e reservatórios.1 O conhecimento intuitivo e a engenhosidade nativa, mais do

que a perícia estrangeira, introduziriam inovações baratas e eficazes que

impulsionariam as aldeias da China para a dianteira da União Soviética. O

campo deveria ser mecanizado por meio de artifícios simples, desenvolvidos

por agricultores comuns em institutos de pesquisa. “Os humildes são os mais

inteligentes, os privilegiados os mais burros”, Mao escreveu em um relatório

que mostrava que os trabalhadores tinham conseguido construir um trator

sozinhos.2 Ou, como afirmava Xie Fuzhi, repetindo palavras sábias do

presidente, “nós somos sobrenaturais. Talvez sejamos sobrenaturais da

segunda ordem. Talvez em algum outro lugar do planeta exista gente mais

brilhante do que nós, em cujo caso somos da segunda ordem, mas, se somos

mais brilhantes que eles, então somos sobrenaturais da primeira ordem”.3

Trabalhadores-modelo povoavam a propaganda do partido. He Ding, um

agricultor pobre de Henan, que nunca tivera um dia de escola em toda a vida,

inventou um sistema de carregadores de terra de madeira que se

movimentava por cabos aéreos com um mecanismo para descarregar e voltar

que reduzia em oito vezes o volume de trabalho necessário para construir um

reservatório.4 Cintos de transportadores de madeira, máquinas de madeira de

selecionar grãos e máquinas de madeira de plantar arroz — tudo era

enaltecido como milagres do homem comum. Na província de Shaanxi,

aldeões até mostravam automóveis nativos e locomotivas nativas: todas as

partes feitas de madeira.5 A maioria das invenções era bastante inocente, mas

o desperdício podia atingir enormes proporções. Na comuna de Diaofang,

Guangdong, cerca de 22 mil vigas, treliças e assoalhos foram arrancados das

casas das pessoas do dia para a noite em um movimento para mecanizar a

comuna. As carretas produzidas eram tão desconjuntadas que caíam aos

pedaços no momento em que alguém tentava usá-las.6

Mas o verdadeiro marco era o aço. Ali estava o material pelo qual valia a

pena insistir no socialismo — duro, brilhante, industrial, moderno e da classe

operária. A palavra “Stalin” simbolizava um homem de aço desejoso de

reduzir a frangalhos todos os inimigos da revolução. Chaminés fumegantes de

fábricas, máquinas-ferramentas chiadeiras, o ruído dos apitos da fábrica,

enormes altos-fornos incandescentes com fogo em vermelho profundo: estas

eram as consagradas imagens da modernidade socialista. Alexei Gastev, o

poeta trabalhador, escreveu, “nós somos originários do ferro”, o homem se

amalgamando com o ferro em uma fusão que anunciava um mundo onde a

máquina se tornava homem e o homem era uma máquina. O aço era o

ingrediente sagrado da alquimia do socialismo. O volume de aço produzido

era um número mágico recitado com fervor religioso nos países socialistas. A produção de aço destilava magicamente todas as complexas dimensões da

atividade humana em um número único, preciso, que indicava onde um país

se situava na escala da evolução. Mao pode não ter sido um especialista em

indústria, mas parecia capaz de repetir de memória e instantaneamente a

produção de aço de praticamente todos os países. Ele era possuído pelo aço.

Superar a Grã-Bretanha significava cada vez mais ultrapassar sua produção

anual de aço. O aço era o principal motor na escalada das metas, e ele

pressionou muito para ver a produção crescer. Era de 5,35 milhões de

toneladas em 1957. A meta para 1958 foi colocada em 6,2 milhões em

fevereiro de 1958 e aumentada para 8,5 milhões de toneladas em maio, até

Mao decidir, em junho, que 10,7 milhões de toneladas poderiam ser

produzidas. Isso mudou para 12 milhões de toneladas em setembro.

Enquanto fazia malabarismos com os números, Mao se convenceu de que, no

fim de 1960, a China alcançaria a União Soviética. E os Estados Unidos

seriam ultrapassados em 1962, quando uma produção de 100 milhões de

toneladas poderia ser atingida. Então, a China arrancaria, chegando a 150

milhões de toneladas em poucos anos. Sete centenas de milhões de toneladas

seriam produzidas por volta de 1975, deixando a Grã-Bretanha muito atrás.7

Mao era estimulado em seus desvarios por alguns dos camaradas

próximos. Li Fuchun, em primeiro lugar, dizia que a China poderia

desenvolver-se a uma velocidade sem precedentes na história graças à

superioridade do sistema socialista: a Grã-Bretanha poderia ser superada em

apenas sete anos. Então, apresentou um plano extravagante que buscava

alcançar a Grã-Bretanha em ferro, aço e outras commodities industriais em

menos de três anos.8 No início de junho de 1958, enquanto descansava ao

lado da piscina, Mao perguntou ao ministro da Metalurgia, Wang Heshou, se

a produção de aço poderia ser dobrada e o ministro respondeu: “Sem

problemas!”9 Ke Qingshi se gabava de que o Leste da China sozinho poderia

produzir 8 milhões de toneladas. 10 Líderes provinciais como Wang

Renzhong, Tao Zhu, Xie Fuzhi, Wu Zhipu e Li Jingquan, todos fizeram

promessas extravagantes sobre a produção de aço, cedendo aos caprichos

visionários do presidente.

A chave do sucesso eram as pequenas fornalhas operadas por aldeões em

todos os quintais das comunas do povo. Construídas de areia, pedra, barro

refratário ou tijolos, relativamente simples de fazer, permitiam que cada

aldeão se mobilizasse no esforço para superar a Grã-Bretanha. Uma fornalha

típica de fundo de quintal tinha três ou quatro metros de altura, com uma

plataforma de madeira no alto, sustentada por estacas. Uma rampa inclinada

dava acesso à fornalha, os agricultores subiam e desciam rapidamente com

sacos de coque, minério e fundente nas costas ou em cestos pendurados em

varas compridas. Ar era soprado no fundo, o ferro derretido e a escória sendo

liberados através de buracos. Baseadas nos métodos tradicionais de rajadas de

sopro, algumas fornalhas podem ter funcionado bem, mas muitas eram

engodos, impostos às comunas por oficiais fascinados pela febre do aço.

O esforço chegou ao clímax no fim do verão de 1958. Chen Yun, o líder do

partido que caíra em desgraça mais cedo naquele ano, foi posto a cargo do

movimento e trabalhou duro para se redimir. Em 21 de agosto, transmitiu

ordens de Mao de que não seria tolerada nem mesmo uma tonelada abaixo da

meta, e o fracasso em cumprir o plano significava punições que iam desde a

advertência até a expulsão do partido.11 Para manter o ímpeto, Mao visitou

Wuhan em setembro para inaugurar uma máquina gigantesca de ferro e aço

construída com a ajuda soviética e observou o ferro derretido do primeiro

fogo sair da fornalha. No mesmo dia, Pequim despachou uma equipe de 1.500

ativistas do partido para espalhar-se pelo país a fim de reunir apoio para o

esforço do aço.12 Depois disso, 29 de setembro foi escolhido para conquistar

uma meta ainda mais alta em celebração ao Dia Nacional. Duas semanas

antes do evento, o ministro da Metalurgia, Wang Heshou, em conferência

telefônica, pediu a líderes provinciais para aumentar o desafio. Estes, por sua

vez, incitaram representantes de condado por telefone no dia seguinte.13

Em Yunnan, Xie Fuzhi ordenou que todos se tornassem soldados da

campanha, anunciando uma investida durante duas semanas, dia e noite, para

aumentar a produção.14 Ativistas do partido se espalhavam pela manhã,

alguns partindo bem antes do sol nascer, a fim de alcançar aldeias remotas a

tempo. No condado de Dehong, 200 mil aldeões foram jogados na campanha enquanto o céu se tornava carmesim com a incandescência de milhares de

fornalhas de tijolos. Os aldeões se dispersavam na floresta em busca de

combustível, outros coletavam carvão, às vezes cavando com picaretas, pás e

mãos no campo aberto. No frenesi para cumprir as metas, os acidentes eram

comuns. Árvores derrubadas ao acaso tombavam em cima de aldeias;

explosivos usados por trabalhadores inexperientes para abrir minas também

custavam vidas.15 Xie Fuzhi telefonava regularmente para verificar os últimos

resultados.16 Fuzhi, por sua vez, era instigado por Bo Yibo, que transmitiu

uma meta de 12 milhões de toneladas, gabando-se de que 40 milhões de

trabalhadores operavam cerca de 500 mil fornalhas em todo o país.17 No Dia

Nacional, Bo anunciou que outubro seria o mês do salto da produção de aço,

e novo acesso de loucura se seguiu. Em Yunnan, o número de pessoas

envolvidas no movimento saltou de 3 milhões para 4 milhões, uma semana

especial de “alta produção” foi anunciada para estipular novo recorde. “Os

olhos do mundo estão sobre a China”, exclamou Xie Fuzhi, pois o país tinha

que alcançar a meta que havia anunciado ou enfrentar uma humilhante

mudança de opinião.18

Com toda a pressão vinda de cima, os aldeões tinham pouca escolha, a não

ser participar da campanha. Na região de Qujing, Yunnan, assoalhos foram

arrancados e galinhas foram mortas para que as penas pudessem ser usadas

para alimentar as chamas ou fazer foles. Esquadrões de ativistas do partido

iam de porta em porta para recolher pedaços de ferro e frequentemente

confiscavam utensílios domésticos ou ferramentas agrícolas. Aqueles que não

mostravam entusiasmo suficiente eram verbalmente insultados, empurrados,

ou até amarrados e obrigados a desfilar. Relatórios críticos escritos por

inspetores do partido na época falam de medo e intimidação. Na esteira de

um ano de incansáveis campanhas, cada uma nos calcanhares da última —

planos de irrigação, campanhas de fertilização, lavra profunda, plantio denso,

o ataque furioso das comunas do povo —, a mera menção do slogan

“lançando um satélite” era suficiente para instilar medo, pois isso augurava

nova “guerra amarga”, ou “batalha noturna”, em que ninguém tinha

permissão para dormir durante dias a fio. Alguns tentavam escapar e dormir na floresta molhada e fria para conseguir algumas horas de descanso, olhando

a distância as fornalhas brilhando como vaga-lumes na noite. Estavam com

frio e mal alimentados: os oficiais locais tentavam reduzir o custo do aço

inflando números, fornecendo quantidades mesquinhas de alimentos, agora

inteiramente em suas mãos graças ao advento dos refeitórios coletivos.19

A China estava mergulhada em um mar de fogo. Todas as fornalhas

funcionavam, embora os dramas humanos que se desenrolavam durante a

campanha fossem diferentes em cada aldeia. Em Yunnan, algumas pessoas

eram forçadas a ir para o trabalho sem alimento ou descanso suficientes e

trabalhavam até a morte perto das fornalhas, na pressa para completar a meta

de produção.20 Em outras vilas por todo o país, pessoas conseguiam

conservar uma pequena lembrança de uma panela ou frigideira. Mas duas

novas dimensões foram acrescentadas ao teatro de violência e mataram no

nascedouro qualquer insubordinação suspeitada. Primeiro, os oficiais agora

podiam contar com a milícia estabelecida dentro das comunas do povo para

forçar a obediência. Em Macheng, por exemplo, os milicianos podiam vir a

uma aldeia e recrutar pessoas para trabalhar nas fornalhas durante dias

sucessivos. Um homem que saiu do trabalho mais cedo foi levado pelas ruas

com um chapéu de burro em que estava escrito: “Sou um desertor.”21

Segundo, como toda a comida agora estava nas mãos das comunas, os oficiais

podiam usar as rações como forma de recompensa ou punição. A recusa a

trabalhar — ou qualquer sinal de indolência — era punida com corte de ração

ou privação completa de comida. Em Macheng, as mulheres que ficavam em

casa à noite para cuidar dos filhos eram banidas do refeitório.22 Como

explicou mais tarde Zhang Aihua, que viveu durante a fome em Anhui: “Ou

você fazia o que lhe diziam ou o chefe não lhe dava comida: a mão dele

segurava a concha.”23 O controle que os oficiais tinham sobre o suprimento

de comida era reforçado, visto que caçarolas e frigideiras eram rotineiramente

levadas embora.

Nas cidades, a campanha era dura em cima de pessoas comuns. Em

Nanquim, uma fornalha registrou recorde de 8,8 toneladas em um único dia,

mas os fogos tinham que ser alimentados constantemente e algumas equipes estavam tão famintas que desmaiavam ao lado dos fundidores. Apesar da

enorme pressão, as pessoas ainda protestavam. Wang Manxiao simplesmente

se recusou a trabalhar mais de oito horas por dia. Quando confrontado pelo

secretário do partido, Wang foi desafiador, perguntando à queima-roupa: “E

você vai fazer o quê?” Outras pessoas duvidavam de que as fornalhas de fundo

de quintal fossem ajudar a superar a Grã-Bretanha na produção de aço. Cerca

de metade de todos os trabalhadores de algumas equipes era descrita como

“retrógrada”, o que significava que se esquivavam de trabalho pesado.24

No final, os líderes conseguiram seu recorde, embora muito dele fosse

escória, minério não lavado ou mera invenção estatística. Lingotes de ferro

das regiões rurais acumulavam-se por toda parte, pequenos ou quebradiços

demais para serem usados em usinas de laminação modernas. De acordo com

relatório do próprio Ministério da Metalurgia, em muitas províncias, nem

mesmo um terço do ferro produzido por fornalhas de fundo de quintal era

utilizável. E o preço da mercadoria era exorbitante. Uma tonelada de ferro de

uma fornalha de fundo de quintal tinha o custo estimado em 300 a 350 yuans,

duas vezes o valor necessário para uma fornalha moderna, e àquele custo

tinham que ser acrescentados 4 toneladas de carvão, 3 toneladas de minério

de ferro e trinta a cinquenta dias de trabalho.25 As perdas totais do esforço de

ferro-e-aço em 1958 foram mais tarde estimadas pelo Departamento de

Estatísticas em 5 bilhões de yuans — sem incluir o dano às construções,

florestas, minas e pessoas.26

 

* * *

 

Quando Mikhail Klochko, um consultor estrangeiro que crescera na Ucrânia,

com seus campos ondulados e irregulares, viajou para o sul da China no

outono de 1958 e se surpreendeu com os trechos amarelos de terra nua,

divididos em pequenos terraços: estes eram os lendários arrozais, mas quase

nenhum ser humano era visto ali.27

Onde estavam os agricultores? Muitos eram mobilizados pela milícia para

as fornalhas de fundo de quintal, alguns colocados em grandes planos de irrigação, ao passo que outros tinham deixado a cidade em busca de trabalho

nas muitas fábricas que perseguiam metas sempre mais altas. No total, mais

de 15 milhões de fazendeiros mudaram-se para a cidade em 1958, atraídos

pela perspectiva de uma vida melhor.28 Em Yunnan, o número de

trabalhadores industriais saltou de 124 mil em 1957 para 775 mil, o que

significava que mais de meio milhão de pessoas tinham sido tiradas do

campo.29 Um terço de toda a força de trabalho da província foi direcionado

para trabalhar em projetos de conservação da água em uma ou outra época

daquele ano.30 Para colocar de forma diferente: dos 70 mil trabalhadores na

Jinning rural, Yunnan, 20 mil foram alocados nos planos de irrigação, 10 mil

na construção de ferrovias, 10 mil em fábricas locais, restando 30 mil para

produzir comida.31 Mas os números mascaravam outra mudança nos padrões

de trabalho: enquanto a maioria dos homens deixava a cidade, as mulheres

tinham que trabalhar nos campos. Muitas quase não tinham experiência em

conservar complexos terraços de arroz, plantando as sementes de forma

desigual e permitindo que ervas daninhas invadissem os campos. No condado

de Yongren, um quinto da safra apodreceu em consequência disso.32

Até um terço do tempo devotado à agricultura foi perdido,33 mas Mao e

seus colegas acreditavam que inovações como lavra profunda e plantio denso

compensavam amplamente esse déficit. Por outro lado, na “revolução

contínua” louvada pela liderança, os agricultores eram organizados segundo

padrões militares: iam para o campo industrial na estação seca e voltavam

para a frente agrícola durante a colheita. Como dizia Xie Fuzhi, “uma

revolução contínua significa o aparecimento constante de novas tarefas”.34

Mesmo que todas as fontes disponíveis de mão de obra fossem mobilizadas

para a campanha da colheita — de auxiliares de escritório, estudantes e

professores, trabalhadores de fábrica e habitantes da cidade até as forças

armadas —, a situação no local de produção era caótica. Muitas ferramentas

agrícolas tinham sido destruídas na campanha do ferro e aço, o trabalho

ainda era desviado para a construção de represas e os celeiros comuns nas

comunas do povo eram mal administrados. Em Liantan, a comuna-modelo

onde um slogan de louvor ao Grande Salto Adiante tinha sido esculpido na montanha para recepcionar uma equipe de inspeção, vários milhares de

fazendeiros foram alistados para lavrar profundamente 7 hectares durante a

colheita de outono; como ninguém estava disponível para colher a safra, cerca

de 500 toneladas de cereais foram abandonadas nos campos.35

Mas as entregas de grãos para o Estado tinham de ser feitas de acordo com

a produtividade que os oficiais locais declaravam oficialmente. A produção

verdadeira de cereais de 1958 foi de pouco mais de 200 milhões de toneladas,

mas, com base em todas as declarações feitas sobre colheitas excepcionais, a

liderança estimou que estava perto de 410 milhões de toneladas. Requisições

punitivas, baseadas em números inteiramente fictícios, só podiam criar medo

e raiva nas aldeias. O cenário estava armado para uma guerra em que as

requisições afundariam o campo na pior fome já registrada na história

humana. Tan Zhenlin parecia insensível a isso enquanto discursava para

alguns líderes do sul da China em outubro de 1958: “É preciso lutar contra os

camponeses [...]. Há algo ideologicamente errado com você, se você tem

medo de coerção.”36