A Grande Fome de Mao
10. Jornada de compras
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Jornada de compras
Se o brilhante caminho para o comunismo deveria ser encontrado na
mobilização das massas, grandes quantidades de equipamento industrial e
tecnologia avançada eram, apesar de tudo, requeridas para ajudar a
transformar a própria China de um país agrícola em um gigante industrial.
Desde o momento em que Mao retornou de Moscou, onde se gabara de que a
China ultrapassaria a Grã-Bretanha em quinze anos, Pequim começou a
comprar liberalmente de seus amigos estrangeiros. Usinas siderúrgicas,
fornos para secar cimento, fábricas de vidro, usinas de energia elétrica,
refinarias de petróleo: instalações industriais completas e equipamento para
indústria pesada foram adquiridos. Guindastes, caminhões, geradores,
motores, bombas de sucção, compressores, máquinas de ceifar e enfeixar,
debulhadoras, tudo era importado em quantidades sem precedentes. Entregas
de máquinas-ferramentas para dar acabamento a peças de metal (sem incluir
fábricas completas) subiram de 187 unidades em 1957 para 772 em 1958;
máquinas de plantio e semeadura, de 429 unidades para 2.241; tratores, de 67
para 2.657; caminhões, de 212 para 19.860.1 Suprimentos de laminados de
metais ferrosos, alumínio e outros materiais saltaram, tendo também
aumentado acentuadamente o volume de equipamento de transporte e
comunicações.
A maioria desse material vinha da União Soviética, da qual a China
dependia para ajuda econômica e militar desde maio de 1951, quando as Nações Unidas impuseram um bloqueio a importações estratégicas.
Restrições comerciais tinham sido reforçadas após os Estados Unidos
estigmatizarem a China como agressora na Guerra da Coreia. Nos anos 1950,
a China assinou uma série de acordos com Moscou para a construção de mais
de 150 projetos turnkey, a serem construídos e entregues na condição de
prontos para uso. Em janeiro de 1958, a fim de impulsionar o Grande Salto
Adiante, mais um contrato previu a expansão da assistência econômica e
militar. Em agosto de 1958, a compra de outros 47 conjuntos completos de
equipamentos para instalações industriais, a serem construídas com ajuda
técnica soviética, foi acordada — em adição aos cerca de duzentos já
comprados em anos anteriores. Em fevereiro de 1959, outro acordo ampliou
ainda mais a cooperação econômica e científica, incluindo 31 instalações
industriais de grande porte: isso elevou o número de empresas industriais,
lojas de fábricas (outlets) e outras plantas a serem instaladas para cerca de
trezentos.2
Tabela 1: Importações chinesas da URSS, com grandes grupos de
commodities e itens (em milhões de rublos)
1957 1958 1959 1960 1961 1962
Importações chinesas da URSS (total) 556 576 881 761 262 190 Comércio 183 292 370 301 183 140
Petróleo e produtos de petróleo (80) (81) (104) (99) (107) (71)
Equipamentos para fábricas 245 174 310 283 55 9 Equipamento militar 121 78 79 72 12 11 Nova tecnologia 7 31 122 104 12 30 Fonte: Ministério das Relações Exteriores, Pequim, 6 de setembro, 1963, 109–3321-2, p. 66–7 e 88–9; embora as taxas variassem constantemente, 1 rublo equivalia mais ou menos a 2,22 yuans e 1,1 dólar. Os números podem não somar perfeitamente por causa do arredondamento.
Pequim também pressionou Moscou para entregar antes do prazo. Em março
de 1958, o veterano militar Zhu De impôs aos russos mais pressa na
conclusão da montagem de dois equipamentos de aço em Baotou e Wuhan.3
Pedido similar foi feito em julho a S. F. Antonov, agente diplomático russo
em Pequim, por um dos enviados pessoais de Chu En-lai.4 Tal era a pressão do Grande Salto Adiante, que ramos inteiros da indústria soviética tiveram
que reorganizar seu sistema de produção para cumprir as demandas urgentes
e ordens de serviços crescentes para toda uma variedade de commodities,
frequentemente para entrega antes do prazo.5 As importações chinesas da
União Soviética ascenderam a espantosos 70% em 1958 e 1959, como mostra
a tabela 1. Se as importações eram de 556 milhões de rublos em 1957, em
1959 ficaram em 881 milhões, dos quais dois terços consistiam em
maquinaria e equipamentos. A China também se apoiou na União Soviética
para grandes importações de ferro, aço e petróleo. Se Pequim dependia de
Moscou para metade de seu petróleo, componentes de máquinas e
equipamento industrial pesado, uma grande proporção também vinha de
outros países do bloco socialista, Alemanha Oriental em particular. Em 1958,
Walter Ulbricht concordou em construir refinarias de açúcar, fábricas de
cimento, usinas geradoras de energia elétrica e vidrarias, aumentando
fortemente o nível de exportações para a China.6 Importações chinesas da
Alemanha Oriental ascenderam a 120 milhões de rublos, volume seguido por
mais 100 milhões em 1959.7
Mas não foi meramente o volume de importações que passou por rápida
mudança durante o Grande Salto Adiante. Em busca do melhor equipamento
em sua jornada para o comunismo, Pequim mudou substancialmente a
estrutura de comércio exterior com abertura para a Europa Ocidental, o que
se tornou possível pelo colapso gradativo do bloqueio imposto pelos Estados
Unidos. Washington foi incapaz de continuar a pressionar seus aliados, pois a
Grã-Bretanha estava muito interessada em entrar no enorme mercado chinês
e fez vigorosa campanha para eliminar o sistema de controle das exportações
de 1956 em diante. As compras chinesas à Grã-Bretanha dobraram de £ 12
milhões em 1957 para £ 27 milhões em 1958 e £ 24 milhões em 1959,
enquanto as importações chinesas à Alemanha Ocidental subiram de 200
milhões de marcos alemães em 1957 para 682 milhões em 1958 e 540 milhões
em 1959.8
Todas essas importações eram, na realidade, industriais, mas Mao também
se obstinava na busca do mais avançado equipamento militar. A começar de 1957, a liderança em Pequim concentrou esforços para extrair de Moscou o
máximo possível de equipamento militar e “nova tecnologia”. Chu En-lai
escreveu para Kruschev em junho de 1958, pedindo ajuda para construir uma
nova marinha. Dois meses depois, durante o bombardeio das ilhas de
Quemoy e Matsu, próximas à costa, no estreito de Taiwan, pediu a mais
moderna tecnologia de vigilância aérea. Em maio de 1959, uma ordem de
compra de material relacionado a “equipamento de defesa e aviação” foi
apresentada aos russos. Um lembrete seguiu-se em setembro de 1959, em que
Chu En-lai indicou que Pequim planejava gastar um total de 165 milhões de
rublos em 1960 com equipamento militar soviético.9 Exatamente quanto
Pequim gastou permanece um mistério, uma vez que as estatísticas
publicadas, examinadas por observadores estrangeiros, não incluíam itens
“invisíveis”, como suprimentos militares. No entanto, arquivos do Ministério
das Relações Exteriores agora fornecem uma clara visão das importações
chinesas a Moscou, tanto de “bens especiais”, o que significa equipamento
militar, quanto de “nova tecnologia”: como mostra a tabela 1, esses dois
grupos ascenderam a mais de 200 milhões de rublos em 1959 e representaram
perto de um quarto das importações da China procedentes da União
Soviética.
A China também teve que quitar as obrigações de devedor com a União
Soviética. O volume emprestado por Moscou a Pequim entre 1950 e 1962
ficou em 1,407 bilhão de rublos.10 Mesmo antes de a China aumentar
substancialmente o pagamento dos empréstimos após o desacordo com a
União Soviética, no verão de 1960, os pagamentos do serviço da dívida devem
ter atingido mais de 200 milhões de rublos por ano. As limitadas reservas de
ouro e de moeda estrangeira da China significavam que tanto a dívida quanto
as importações tinham que ser pagas em espécie por meio de exportações, o
que sobrecarregava as limitadas riquezas. O padrão básico de comércio era a
troca de créditos, bens de capital e matéria-prima por minerais raros, bens
manufaturados e gêneros alimentícios. Carne de porco, por exemplo, era
trocada por fiação, soja por alumínio, cereais por lâminas de aço. Dado o
volume existente de metais raros, como antimônio, estanho e tungstênio, ser
limitado, a jornada de compras de Pequim significava que mais gêneros alimentícios tinham que ser extraídos do campo para pagar a conta (ver
tabela 2). Mais da metade de todas as exportações para a União Soviética
consistia em commodities agrícolas, variando de fibras, tabaco, cereais, soja,
frutas frescas e óleo comestível a carne enlatada. Só o valor do arroz
exportado para Moscou triplicou de 1957 a 1959, como indicam as tabelas 2 e
3. O peso das importações, em outras palavras, recaía sobre os agricultores.
Tabela 2: Exportações chinesas para a URSS:
grandes grupos de commodities (em milhões de rublos)
1957 1958 1959 1960 1961 1962
Exportações da China para a URSS (total) 672 809 1.006 737 483 441
Indústria e mineração 223 234 218 183 140 116
Agricultura e linhas secundárias de produtos
processados 227 346 460 386 304 296
Agricultura e produtos secundários 223 229 328 168 40 30
Fonte: Ministério das Relações Exteriores, Pequim, 6 de setembro, 1963, 109–3321-2, p. 66–8; os números podem não somar perfeitamente por causa do arredondamento.
Tabela 3: Exportações de grãos e óleos comestíveis para a URSS (milhares
de toneladas e milhões de rublos)
1957 1958 1959 1960 1961
valor peso valor peso valor peso valor peso valor peso
Grão 77 806 100 934 147 1.418 66 640 1,2 12
Arroz (25) (201) (54) (437) (88) (784) (33) (285) (0,2) (1,8)
Soja (49) (570) (45) (489) (59) (634) (33) (355) (0,9) (10,4)
Óleos com. 24 57 23 72 28 78 15 41 0,4 0,4 Fonte: Ministério das Relações Exteriores, Pequim, 6 de setembro, 1963, 109–3321-2, p. 66–8; os números podem não somar perfeitamente por causa do arredondamento.
* * *
Quem foi o arquiteto do comércio exterior da China? Em uma economia
planificada, importações e exportações eram normalmente controladas por acordos anuais de comércio, uma vez que o aumento do comércio externo foi
planejado para combinar com o crescimento projetado do país. Havia uma
relação direta entre a taxa de investimento de capital, o volume de comércio
exterior e o tamanho das colheitas. O plano econômico geral, acordado pela
liderança central, determinava o volume e a estrutura das importações, que,
por sua vez, estabeleciam o nível de exportações do país. Planos de comércio
eram preparados pelo Ministério das Relações Exteriores, que, então, delegava
a importação e exportação a corporações atuantes em uma variedade de
produtos industriais e comerciais.11
No labirinto burocrático da China comunista, o premiê Chu En-lai
detinha a supervisão global do comércio externo. Ele estava muito interessado
em intensificar as relações econômicas com o resto do mundo, não apenas
com a União Soviética, mas também com países de fora do bloco comunista.
O desenvolvimento econômico, de acordo com Chu, só poderia ser atingido
mediante o capital, a tecnologia e a habilidade adequados, todos os quais
vinham de fora. Um aliado muito próximo de Chu En-lai, o ministro do
Comércio Exterior, Ye Jizhuang, também era favorável a aumentar muito as
exportações, que poderiam ser usadas para pagar maquinaria e instalações
industriais importadas. Mas, em 1957, Chu refreou o entusiasmo de seu
delegado, fazendo soar uma cautelosa retirada do comércio externo. Em
outubro de 1957, Ye teve que explicar a uma delegação de comércio exterior
que a população sofrera com o volume de exportações de alimentos, em
particular óleos comestíveis, que levara a sérias deficiências internas. Chu En-
lai decidira que o volume de comércio com todos os países teria de ser
cortado em 1958.12
A abordagem gradativa de Chu En-lai no planejamento econômico se
chocava com a visão de Mao de um audacioso Grande Salto Adiante. Como
vimos, Mao iradamente pôs de lado as reservas expressadas pelo premiê,
silenciando seus oponentes na conferência de Nanning, em janeiro de 1958.
Em lugar disso, Mao inclinou-se para Zhu De. Militar veterano de legendária
reputação, o marechal Zhu De uniu-se às forças de Mao em 1928. Um se
apoiava no outro: Zhu detinha habilidades militares, enquanto Mao o
sobrepujava na política partidária. Astuto político ele próprio, Zhu De sabia como apoiar a visão do presidente em um salto adiante para o comunismo.
Em outubro de 1957, já sugerira: “Devemos lutar para expandir exportações e
importações, para que gradualmente nos tornemos grandes importadores e
grandes exportadores.” Poucas semanas após, argumentou: “Se queremos
construir o socialismo, precisamos importar tecnologia, equipamento, aço e
outros materiais necessários.”13
“Grandes importações e grandes exportações”, política idealista que não
levava em consideração a capacidade real do país de exportar gêneros
alimentícios e outros materiais, tornou-se um importante lema em 1958. Isso
convinha a Mao, que podia mostrar o sucesso de suas políticas no cenário
internacional. Depois que Mao afirmou sua autoridade sobre seus camaradas
e silenciou todos os críticos do Grande Salto Adiante, poucos líderes achavam
sábio argumentar em favor da disciplina financeira. À medida que a projetada
produção agrícola e industrial era revisada para cima ininterruptamente, a
quantidade de importações se comportava da mesma forma. Em outras
palavras, um endurecimento na política de comércio exterior só seria factível
se Mao reconhecesse o fracasso do Grande Salto Adiante. A política estava no
comando e exceder-se nas importações não era visto como indisciplina
orçamentária e sim como fé ilimitada no poder das massas de transformar a
economia. O propósito de gastar em bens de capital importados era criar
capacidade para produzir maquinário e bens manufaturados e catapultar a
economia a um nível muito mais alto de desenvolvimento, o que, em última
instância, livraria a China de sua dependência econômica em relação à União
Soviética.
Mao tinha poucos opositores em casa. Fora, no bloco soviético, líderes
podem ter abrigado dúvidas sobre o Grande Salto Adiante, mas o aumento
das quantidades de gêneros alimentícios enviados pela China era conveniente
para eles. Kruschev, afinal, afastava a ênfase da economia soviética na
indústria pesada e a aproximava das necessidades dos consumidores e
prometia, desafiadoramente, superar os Estados Unidos na produção per
capita de carne, leite e manteiga. Na Alemanha Oriental, Walter Ulbricht se
desesperava para deter o fluxo de pessoas que votavam com os pés ao escapar
para a Alemanha Ocidental. Ulbricht também fez afirmações extravagantes e anunciou, no 5º Congresso do Partido, em 1958, que a sociedade socialista
estava em formação, pois a quantidade per capita de bens de consumo logo
“alcançaria e superaria” a da Alemanha Ocidental, processo que se pensava
completar em 1961.14 Nesse meio-tempo, coletivizou o campo, causando
sérios déficits de alimentos, o que só aumentou a dependência das
importações chinesas. Na Alemanha Oriental, líderes podem ter tido dúvidas
sobre o tamanho da safra chinesa de 1958, mas estavam muito interessados
em obter mais gêneros alimentícios.15 Não apenas o arroz se tornou alimento
fundamental na Alemanha Oriental durante o Grande Salto Adiante, como a
indústria de margarina passou a depender das importações alemãs de óleos
comestíveis da China. Delegados pressionavam muito por maiores
importações de forragem, tabaco e amendoim.16 Tal era a pressão que, em
junho de 1959, um representante comercial chinês foi forçado a explicar que a
forragem exportada para os porcos na Alemanha era necessária para
alimentar pessoas na China.17
A China não apenas exportou mais para os aliados do bloco soviético,
como também começou a fazer liquidações de produtos na Ásia e na África.
No quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro em Moscou,
Kruschev declarou, triunfante, sua intenção de alcançar os Estados Unidos
em produtos de fazenda. Também anunciou uma ofensiva comercial.
“Declaramos guerra a vocês no campo pacífico do comércio”, ameaçou, e
iniciou um avanço comercial em todo o mundo, projetado para enfraquecer o
comércio exterior dos Estados Unidos e atrair as economias em
desenvolvimento para a esfera soviética. A Rússia vendia estanho, zinco e
produtos de soja a preços com os quais ninguém podia competir e entregava
caminhões, carros e maquinário no Oriente Médio a preços menores que o
custo de produção — frequentemente com empréstimos a baixas taxas de
juros e termos preferenciais de pagamento.18 Em uma economia planificada,
que subordinava a economia à política, a União Soviética podia pagar mais
por matérias-primas, ignorar os preços de mercado e suportar pesadas perdas
para ganhar influência em todo o mundo.
A China estava aferrada à sua própria guerra comercial e baixava os preços dos bens como se fossem excedentes da demanda interna na idade da
abundância trazida pelo Grande Salto Adiante. Bicicletas, máquinas de
costura, garrafas térmicas, carne suína enlatada, canetas-tinteiro: toda sorte
de bens era vendida abaixo do custo para mostrar que o país estava à frente da
União Soviética na corrida pelo verdadeiro comunismo. Na colônia britânica
de Hong Kong, capas de chuva feitas na China eram vendidas por 40% menos
que em Guangzhou.19 Sapatos de couro custavam US$ 1,50 o par; codorniz
congelada, oito centavos cada; violinos, US$ 5,20.20
Mas o principal inimigo na guerra contra o imperialismo era o Japão, e a
China fez o melhor que podia para vender mais barato óleo de soja, cimento,
aço estrutural e vidro para janela. Acima de tudo, os tecidos tornaram-se o
campo de batalha em que a supremacia comunista tinha que ser afirmada,
enquanto panos acinzentados para lençóis e algodão estampado inundavam o
mercado. O preço a pagar por exportar bens abaixo do custo era imenso para
um país que vivia no limite. Em 1957, cerca de 8,7 milhões de peças de tecido
foram exportadas por mais de US$ 50 milhões. Só nos primeiros nove meses
de 1958, 9,2 milhões de peças de tecido foram para o mercado internacional e
carrearam para a China apenas US$ 47 milhões, ou 12% menos. No fim do
ano, enquanto os camponeses pobres enfrentavam o inverno sem roupas de
algodão acolchoadas, cerca de 14 milhões de peças do tecido eram vendidas
no exterior abaixo do custo.21 Tudo era feito para a China poder reclamar o
título de terceiro maior exportador do mundo de roupas — em vez de quinto.
Como reconheceu Ye Jizhuang em conferência do partido sobre comércio
exterior no fim de 1958, inundar o mercado com bens abaixo do custo fora
desastroso, pois se vendera mais do que antes, mas com receita muito menor:
“Realmente nos machucamos, assustamos nossos amigos e despertamos
nossos inimigos.”22
“Tenho ouvido dizer que, no Ministério de Comércio Exterior, algumas
pessoas assinam contratos de forma muito displicente. Quem permitiu que
exportassem tanto?”, inquiriu Chu En-lai, distanciando-se do caso.
“Pensamos que teríamos uma grande safra de algodão e que não
encontraríamos problemas, então não pedimos permissão”, interferiu Ma
Yimin, um administrador do Ministério do Comércio Exterior.23
Mas nem a safra de algodão, nem a safra de grãos, nem, aliás, a produção
industrial estavam sequer próximas das metas que tinham sido prometidas
durante o Grande Salto Adiante. A China tinha um enorme déficit comercial.
Entregas prometidas para aliados socialistas não eram cumpridas. Apenas um
terço das 2 mil toneladas de frango congelado acordadas seria entregue à
Alemanha Oriental em 1958, e Walter Ulbricht exigiu que o resto fosse
entregue a tempo para o Natal. À Alemanha Oriental, eram devidos de 5 a 7
milhões de rublos; à Hungria, 1,3 milhão; à Tchecoslováquia, 1,1 milhão; e
todos exigiram compensação em forma de arroz, amendoins ou peles de
animais. Chu concordou em liberar até 15 mil toneladas de arroz e 2 mil
toneladas de amendoim para Hungria e Tchecoslováquia. E também pôs de
lado a política de Zhu De de “grandes importações, grandes exportações”. Ao
observar uma desvantagem de 400 milhões de yuans em exportações para o
bloco socialista para 1958, declarou: “Somos contra grandes importações e
grandes exportações, porque o comércio exterior tem que ser equilibrado.”24
Como essa desvantagem seria compensada? Chu En-lai foi o primeiro a
declarar em 1958: “Prefiro que não comamos, ou comamos menos e
consumamos menos e honremos os contratos que assinamos com
estrangeiros.”25 “Tomar bens sem nada em troca não é o estilo do
socialismo”, acrescentou, semanas depois.26 Deng Xiaoping interferiu: se cada
um pudesse poupar apenas alguns ovos, 1 libra de carne, 1 libra de óleo e 6
quilos de grãos, todo o problema de exportação simplesmente
desapareceria.27 Li Xiannian, Li Fuchun e Bo Yibo concordaram: “Para
construir o socialismo e um futuro melhor, as pessoas vão concordar em
comer um pouco menos se explicarmos as razões.”28
A fim de honrar as obrigações externas, as exportações de 1959 foram
substancialmente aumentadas, de 6,5 bilhões para 7,9 bilhões de yuans,
enquanto as importações cresceram apenas 3%, para 6,3 bilhões de yuans.29
Os grãos destinados aos mercados externos, por exemplo, dobraram para 4
milhões de toneladas.30 Alguns leitores poderão pensar que essas eram apenas
pequenas percentagens da produção total de grãos, mas, em um país pobre, alguns milhões de toneladas faziam a diferença entre a vida e a morte. Como
Wang Renzhong apontou, amargamente, em 1961, quando o país procurava
um caminho para fora da fome, a província de Hubei (da qual ele era o líder)
recebeu 200 mil toneladas de Pequim para combater a inanição em massa em
1959, mas o Estado exportou mais de 4 milhões de toneladas no mesmo
ano.31
A responsabilidade de alcançar as metas de exportações foi passada para os
líderes provinciais, e a cada região foi dada uma proporção da meta nacional.
Mas, no inverno de 1958–59, os chefes provinciais foram confrontados com
déficits crescentes. Em janeiro de 1959, apenas 80 mil toneladas de grãos para
exportação tinham sido requisitadas em todo o país. No mês seguinte, Hubei
recusou-se a entregar mais de 23 mil das 48 mil toneladas previstas, enquanto
Li Jingquan concordou em fornecer dois terços da cota de Sichuan e compor
o resto com uma variedade de grãos inferiores. Em Anhui, Zeng Xisheng
aprovou a entrega de apenas 5 mil das 23 mil toneladas planejadas. Fujian não
entregou nada.32 Para exportar commodities também, muitas províncias
cumpriram apenas metade de sua cota de exportação, e regiões como
Guizhou, Gansu e Qinghai caíram para um terço de suas obrigações.33
Queixas sobre falhas nas entregas chegaram a Pequim: hospitais e jardins
de infância em Leningrado, por exemplo, estavam sem arroz no meio do
inverno.34 Enquanto fugia de controle, a questão do comércio externo foi
discutida em uma reunião do partido em Xangai, em março/abril de 1959.
Mao interferiu e recomendou o vegetarianismo como solução: “Devemos
poupar roupa e comida para garantir as exportações. De outra forma, se 650
milhões de pessoas começarem a comer um pouco mais, nossos excedentes
para exportação serão todos comidos. Cavalos, vacas, ovelhas, galinhas,
cachorros, porcos: seis dos animais de granja não comem carne, e não estão
todos vivos? Algumas pessoas não comem carne também e vivem até idade
avançada. Ouvi dizer que Huang Yanpei não comia carne e viveu até os 80.
Podemos aprovar uma resolução em que ninguém possa comer carne e que
toda a carne deva ser exportada?”35 Ao ouvir a ordem do presidente, Peng
Zhen, prefeito de Pequim, ficou desejoso de avançar ainda mais e sugeriu que o consumo de cereais também fosse cortado para aumentar as exportações.
Chu En-lai, agora encorajado, sugeriu: “Não devemos comer carne de porco
durante três meses para garantir as exportações de carne.”36 Além da carne, o
uso de óleo comestível também seria restringido. Em 24 de maio de 1959,
uma ordem foi emitida para todas as províncias: no interesse do mercado de
exportação e da construção do socialismo, não se deve mais vender óleo
comestível no país.37
Mas, enquanto a pressão para entregar os produtos aumentava, outro
problema apareceu. Unidades locais começaram a cortar caminho para
cumprir as metas e isso levou à queda dos padrões de qualidade das
exportações. A União Soviética apresentou repetidas reclamações sobre a
qualidade da carne, frequentemente contaminada por bactérias. Até um terço
das latas de carne de porco estava enferrujado.38 Também houve queixas
sobre outros bens: cerca de 46 mil pares de sapatos enviados para a União
Soviética tinham defeitos; o papel exportado para Hong Kong era
imprestável; baterias compradas pelo Iraque vazavam; a Suíça descobriu que
um terço do carvão entregue consistia em pedras. A Alemanha Ocidental
descobriu salmonela em 500 toneladas de ovos e, no Marrocos, um terço de
todas as sementes de abóbora compradas da República Popular estava
infestado de insetos.39 O custo de substituir mercadoria defeituosa entregue
em 1959 chegou a 200 ou 300 milhões de yuans, enquanto a China também
adquiria má reputação no exterior, o que, no futuro, se mostraria difícil de
mudar.40
Ainda incapaz de superar o crescente déficit comercial, Pequim tomou
medidas de emergência em outubro de 1959. O Conselho de Estado ordenou
que todas as commodities que pudessem ser reduzidas ou eliminadas do
consumo doméstico fossem requisitadas e quaisquer déficits remanescentes
fossem substituídos por outros bens que pudessem ser obtidos.41 Para apoiar
o reajuste, um escritório especial de exportação foi criado a fim de monitorar
tanto a qualidade quanto a quantidade de todas as commodities de
exportação.42 Acordos comerciais foram feitos com base em calendários, e os
novos arranjos fizeram parte de um esforço de fim de ano para assegurar o cumprimento das metas. Isso significou que mais pressão foi feita exatamente
quando o país entrava no inverno. O volume de carne de porco, por exemplo,
estava abaixo da cota e, em novembro, uma campanha foi organizada para
requisitar 9 milhões de porcos extras antes do fim do ano.43
Enquanto 1959 findava, a extorsão impiedosa significou que 7,9 bilhões de
yuans tinham sido exportados, em linha com a meta de Chu En-lai. Grãos e
óleos comestíveis chegaram a 1,7 bilhão de yuans. Dos 4,2 milhões de
toneladas de grãos exportados naquele ano, 1,42 milhão foi para a União
Soviética, 1 milhão para a Europa Oriental e quase 1,6 milhão para “países
capitalistas”.44 Mas, a despeito de tudo, esses esforços simplesmente não
foram suficientes. Só o déficit comercial com a Europa Oriental em 1958 e
com a União Soviética em 1959 aumentou para 300 milhões de yuans.45 As
tensões ferveriam no verão de 1960.