A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 23 de 43

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A Grande Fome de Mao

21. Natureza

21

 

Natureza

 

Em viagem extensa pelo império Qing, nos anos 1870, o Barão von

Richthofen relatou que todo o norte do país estava sem árvores e as

montanhas e colinas áridas ofereciam vista desolada.1 Garantir combustível

para invernos longos e frios sempre foi um problema na China imperial.

Agricultores cultivavam grandes quantidades de milho e sorgo: as sementes

eram usadas como comestível, enquanto os caules serviam de combustível

para esquentar a kang, cama aquecida por dentro em que a família dormia à

noite e se sentava durante o inverno, quando recebia o calor dos tubos

colocados dentro dela.2 Em um país exaurido de florestas, a falta de

combustível era profundamente sentida: a escassez de madeira significava que

cada graveto, galho, raiz ou raspa era zelosamente catado por crianças e

mulheres idosas, que deixavam o chão despido.

A destruição da floresta — para abrir espaço, por combustível e madeira —

piorou após 1949 com a estouvada intervenção no meio ambiente. Mao via a

natureza como inimigo a ser dominado, adversário a ser submetido, entidade

fundamentalmente separada dos humanos e que deveria ser remodelada e

subordinada por meio da mobilização das massas. A guerra tinha que ser

travada com a natureza por pessoas em competição com o meio ambiente, em

uma eterna luta pela sobrevivência. Uma filosofia voluntarista afirmava que a

vontade humana e a ilimitada energia das massas revolucionárias poderiam transformar radicalmente as condições materiais e superar quaisquer

dificuldades lançadas no caminho de um futuro comunista. O próprio mundo

físico poderia ser reformado, as colinas eliminadas, as montanhas niveladas,

os rios levantados — balde por balde, se preciso fosse.3 Ao lançar o Grande

Salto Adiante, Mao declarou: “Existe uma nova guerra: deveríamos abrir fogo

contra a natureza.”4

O Grande Salto Adiante dizimou as florestas. No esforço para aumentar a

produção de aço, as fornalhas de fundo de quintal que surgiam rapidamente

por toda parte tinham que ser alimentadas, os agricultores espalhavam-se

pelas montanhas para cortar árvores e usá-las como combustível. No condado

de Yizhang, Hunan, as montanhas eram cobertas de luxuriantes florestas

nativas. Uma grande derrubada se seguiu, algumas unidades abateram dois

terços das árvores para alimentar as fornalhas. Em 1959, nada restava, salvo

montanhas nuas.5 Em Anhua, a oeste de Changsha, uma floresta inteira se

transformou em vasta extensão de lama.6 Conduzidos por espessas florestas

ancestrais ao longo da estrada de Yunnan a Sichuan, especialistas soviéticos

em florestas e preservação do solo observaram que árvores tinham sido

derrubadas ao acaso, resultando em desmoronamentos.7 Florestas eram

brutalizadas por toda parte, às vezes sem esperança de recuperação.

Mas a derrubada de árvores ao acaso não parou com o fim da campanha

do aço. A fome não era apenas uma questão de falta de alimento, mas, antes,

de escassez de todos os bens essenciais, combustível em particular. Como

estavam desesperados por lenha e madeira, os agricultores reproduziram

hábitos adquiridos durante a campanha do aço e retornaram às florestas para

derrubar e cortar. Roubar era mais fácil que nunca porque a hierarquia

responsável pelas florestas tinha sido apagada pela coletivização: a floresta

pertencia ao povo.8 No condado de Wudu, na árida Gansu, havia cerca de 760

pessoas a cargo das florestas antes do Grande Salto Adiante; em 1962,

restavam cerca de cem. A situação era a mesma em toda a China. Em 1957, a

província de Jilin era coberta de densas florestas e bonitos bosques

administrados por 247 estações florestais. Apenas oito sobreviveram à

coletivização.9

Não apenas as brigadas locais eram impotentes para deter a depredação de

recursos naturais, como frequentemente eram cúmplices dela. Em março de

1961, quando atravessava os portões da comuna de Sihai, condado de

Yanqing, no alto de montanhas próximas de Pequim, um visitante deu de

cara com cerca de 180 mil tocos de árvores — tílias e amoreiras — cortadas a

uma polegada ou duas do solo. Aquilo fora o trabalho de apenas duas

unidades.10 Os agricultores estavam tão desesperados por lenha que cortavam

até árvores frutíferas no meio do inverno. Como relatou o Departamento

Florestal em Pequim, 50 mil macieiras, nogueiras e árvores de damasco foram

cortadas por uma aldeia em Changping, enquanto uma brigada usou um

trator para arrancar 890 mil plantas e mudas para usar como combustível.11

Com frequência, as comunas enviavam equipes para roubar a propriedade de

vizinhos: de Huairou, cem agricultores foram despachados pela fronteira do

condado para Yanqing, onde cortaram 180 mil árvores em menos de três

semanas.12 Mais perto da capital, árvores ao longo das ferrovias foram

cortadas: 10 mil delas desapareceram no condado de Daxing.13 Mais ao sul,

até postes telefônicos eram derrubados para obtenção de lenha.14 Bem longe,

no interior, em Gansu, uma única brigada destruiu dois terços de todas as

nogueiras-de-iguape, debilitando a economia local, enquanto outra equipe

conseguiu derrubar 40% das melaleucas, de cujo óleo as aldeias locais

dependiam para viver.15

As pessoas estavam desesperadas por gravetos. Alguns aldeões queimavam

não apenas seus móveis, como também até suas casas depois de derrubar as

árvores: “O que está embaixo da panela é ainda mais escasso que o que está

dentro da panela”, lamentavam agricultores.16 Até em Panyu, Guangdong,

cercado de vegetação, dois terços das casas não tinham combustível para

acender o fogo, algumas nem fósforo. O fogo tinha que ser pedido aos

vizinhos. Quando se acendia, o fogo era guardado como um produto

precioso, e aldeias inteiras afundavam de volta em uma primitiva economia

de escambo.17

As árvores também caíam nas cidades, mas por razões diferentes. Como

vimos, várias companhias usaram o Grande Salto Adiante para expandir instalações, muitas vezes desproporcionalmente em relação às necessidades

reais. Um braço do Departamento Comercial de Nanquim destruiu um

pomar de 6 mil cerejeiras, pessegueiros, pereiras e romãzeiras. O campo

remanescente permaneceu vazio. Tal destruição era comum em Nanquim.

Como mostrou uma investigação no fim de 1958, dezenas de unidades foram

responsáveis pela derrubada de 75 mil árvores. A maioria eram fábricas que

necessitavam de madeira, mas algumas vendiam a madeira no mercado negro

para levantar a muito necessitada receita.18

Embora houvesse campanhas periódicas para cobrir de verde o campo

desnudo — desertos pelados seriam transformados em florestas luxuriantes

—, a fome disseminada, o planejamento precário e o colapso mais geral da

autoridade se combinaram para derrotar os esforços de reflorestamento.

Árvores que acabavam de ser plantadas desapareciam instantaneamente. Em

1959, por exemplo, Pequim enviou milhares de pessoas para plantar 2.600

hectares de folhagem protetora no Reservatório das Tumbas Ming. A comuna

local destruiu mais da metade em menos de um ano. Fora de Pequim, entre

um terço e quatro quintos de todo o reflorestamento e os projetos de plantio

se perderam. O dano a regiões mais afastadas do centro do poder deve ter

sido ainda maior.19 Em Heilongjiang, com suas montanhas cobertas de

florestas densas que protegiam lariços, tílias púrpuras e freixos manchurianos,

um terço de toda a semeadura de novas florestas abrigadas morreu porque era

mal administrado.20 Em Hubei, cerca de 15 mil árvores plantadas para

estabilizar as barrancas de uma represa em E’cheng foram ilegalmente

derrubadas assim que colocadas no solo. Foram replantadas, mas o trabalho

foi tão malfeito que a maioria simplesmente tombou e secou.21

Às muitas causas do desflorestamento, devem acrescentar-se os incêndios,

casos que se multiplicavam como resultado de atividade humana maior nas

florestas, e o colapso da administração efetiva das florestas. Cerca de 56 mil

hectares foram destruídos em milhares de incêndios em Hunan durante os

primeiros dois anos do Grande Salto Adiante.22 Nas áridas planícies do norte

de Shaanxi e Gansu, onde as florestas já eram raras, 2.400 incêndios

consumiram mais de 15 mil hectares na primavera de 1962.23 O fogo podia ser acidental, mas, com frequência, a floresta era queimada de propósito para

produzir fertilizante ou facilitar a caça à vida selvagem. À medida que o fogo

avançava e a floresta retrocedia, os animais eram abatidos. Até espécies raras

eram consideradas caça legal e algumas delas — o macaco dourado, o elefante

selvagem e a zibelina — foram levadas à beira da extinção.24

Usava-se o fogo também para abrir clareiras para o plantio de cereais em

grão, embora a maior parte dessa prática ocorresse em áreas de pasto. Em

todos os lugares, a superfície cultivada encolheu, pois se supunha que a

coletivização trouxesse ganhos tão espantosos da produtividade que um terço

de todos os campos poderia ser abandonado. No corredor de Gansu e na

planície de Ningxia, por exemplo, o trigo de inverno se introduziu nas estepes

e apressou a desertificação. O condado de Yanchi — para tomar outro

exemplo de Ningxia — dobrou sua área agricultável para 50 mil hectares

durante o Grande Salto Adiante, cortando toda a grama das terras altas e

levando os carneiros ao alto das montanhas para pastar: o condado agora

enfrentava a areia. Mais para oeste, na árida bacia de Qaidam, uma extensão

desolada, esburacada por pântanos salobros e cercada de montanhas tão frias

que pouco podiam crescer ali, as comunas destruíram 100 mil hectares de

arbustos e vegetação desértica para abrir caminho para o cultivo de cereais em

grão. As fazendas coletivas tiveram que se mudar depois por causa do risco de

serem cobertas pela areia.25

É difícil estimar a extensão da cobertura florestal perdida durante a

fome.26 Até 70% da cobertura florestal local foram destruídos em alguns

condados da província de Liaoning. No leste de Henan, 80% de toda a

cobertura florestal desapareceram; em Kaifeng, ela se foi completamente:

perto de 27 mil hectares foram entregues ao deserto.27 Em toda parte da

imensa extensão do noroeste — de Xinjiang a Shanxi —, um quinto das

árvores foi derrubado.28 29 Em Hunan, metade da floresta foi derrubada. Em

Guangdong, pouco menos de um terço desapareceu.30 Yu Xiguang, um

especialista da fome, afirma que 80% da cobertura florestal viraram fumaça,

mas isso pode estar superestimado.31 O dano variava de lugar para lugar e até

as estatísticas de arquivos são mais instrumentos políticos que reflexos objetivos da realidade. O certo é que nunca antes uma diversidade tão grande

de florestas — dos bosques de bambus no sul aos prados alpinos e às fileiras

de abetos e pinheiros no norte — sofreu ataque tão intenso e prolongado.

 

* * *

 

Depois que nuvens escuras encheram os céus, trovão e chuva explodiram

sobre Hebei no início do verão de 1959. À medida que a chuva torrencial

prosseguia sem se abater, o sistema de drenagem entupiu com lama,

excremento e folhagem, os canais de irrigação desmoronaram, as ruas

viraram rios e a região norte da capital foi inundada. As monções dissolveram

as casas feitas de barro e destruíram os campos, inundando-os ou removendo

a camada de cima do solo. As ruas ficaram cobertas de pó e lotadas de

escombros. Um terço de todos os fazendeiros de Tongzhou foram atingidos,

as casas caíram, as colheitas se perderam e os animais se afogaram.32 Outras

catástrofes sitiaram a China durante o verão. Chuva pesada açoitou

Guangdong. Tufões golpearam a costa mais ao norte. Variações climáticas

extremas tiveram consequências imprevistas e causaram a pior seca em Hubei

em várias décadas.33 O impacto da natureza sobre a economia foi muito bem

explorado pela liderança, que desviava a atenção da política atribuindo as

derrotas econômicas às calamidades. A exata proporção da culpa atribuída à

natureza tornou-se ponto de disputa, e Liu Shaoqi mais tarde se envolveria

em problemas ao afirmar abertamente que apenas 30% das “dificuldades de

produção” eram causadas por desastres naturais; os restantes 70% se deviam a

fatores artificiais.

Embora bastante comum, a explicação de Liu reproduzia, mais que

desafiava, a noção que estava na raiz da degradação ambiental da China na

época, isto é, que os humanos eram uma entidade completamente separada

da natureza.34 As duas explicações estavam entrelaçadas, como mostram

estudos detalhados realizados na época sobre as “calamidades naturais”.

Quando uma equipe de investigação revisitou Tongzhou no verão seguinte,

encontrou pobreza extrema, pois o Estado abandonara inteiramente os

aldeões, que mal sobreviviam sem comida, roupa ou abrigo adequados.35 Os

mecanismos tradicionais para enfrentar tempos de desastre — caridade

privada, assistência do Estado, ajuda mútua, poupanças familiares e migração

— falharam em seus efeitos, e a inundação teve influência muito mais

profunda e prolongada como resultado da coletivização. Mas nada disso

explica por que Tongzhou foi tão atingida. Choveu mais naquela parte da

região? A resposta veio um ano depois, após Liu Shaoqi destacar o papel

marginal das catástrofes em um discurso ouvido por milhares de quadros de

liderança. No clima político mais aberto de 1962, o Departamento de

Conservação da Água começou a fazer um balanço de como o Grande Salto

Adiante havia afetado o sistema de irrigação. E selecionou Tongzhou para

receber atenção especial. A conclusão foi clara: projetos de irrigação mal

concebidos, realizados apressadamente durante o movimento de conservação

da água de 1957–58, perturbaram o sistema natural de água cuidadosamente

equilibrado. Isso se combinou com uma enorme expansão agrícola, quando

mais água que nunca foi forçada para dentro do subsolo. Quando as nuvens

explodiram sobre Tongzhou em 1959, a água não tinha lugar aonde ir e

inundou campos e aldeias.36

O mesmo aconteceu em todo o país. Em Hebei, a região de Cangzhou foi

tão devastada por um tufão em 1961 que uma equipe de 24 homens foi

imediatamente enviada pelo comitê provincial do partido. Eles passaram dez

dias na região, onde perto da metade de todos os campos estava debaixo

d’água. A equipe percebeu rapidamente que o sistema de drenagem natural

tinha sido destruído pelo trabalho de irrigação empreendido desde o Grande

Salto Adiante. Reservatórios mal desenhados, canais e diques contribuíram

para o desastre, piorado pelo aumento da agricultura, pois campos grandes e

quadrados substituíram os cultivos em terrenos pequenos e irregulares que

tradicionalmente seguiam a topografia do solo. Até cidades que nunca tinham

sofrido inundação agora estavam mergulhadas em água. Casas de barro

encimadas por pesados telhados de pedra caíram sobre seus moradores.

Como a equipe observou, a natureza e o povo pagaram o preço de políticas

passadas: tudo estava “emaciado” (shou): “Pessoas estão macilentas, a terra

está desnuda, animais estão pele e osso e as casas estão finas.”37

Tongzhou e Cangzhou são dois exemplos bem documentados, mas

cinturões ainda maiores de fome se encontravam nas planícies ao longo dos

rios Huai e Amarelo: Hu Yaobang passou um mês viajando por cerca de 1.800

quilômetros de Shangqiu, em Henan, a Jining, em Shandong, de Fuyang, em

Anhui, a Xuzhou, em Jiangsu, inspecionando a devastação causada por chuva

torrencial em setembro de 1961. Como veremos, muitos dos lugares de

horror onde a taxa de mortalidade era, no mínimo, de 10% estavam situados

naquelas duas áreas. Alguns desses nomes — Fengyang, Fuyang, Jining — se

tornaram desde então símbolos de inanição em massa. A primeira coisa que

Hu Yaobang observou foi que a chuva naquele outono dificilmente fora

excepcional. Em alguns dos condados mais devastados, como Fengyang, “a

chuva foi basicamente normal”. Pesquisas adicionais revelaram que a

principal razão para essas regiões terem sido devastadas por inundações de

não mais de 700 milímetros foi a extraordinária extensão dos projetos de

conservação da água executados desde o outono de 1957. As vastas redes de

irrigação retinham água, que evaporava e se tornava “um dragão do mal,

transformando a terra em mar”. A situação era tão ruim que qualquer chuva

que excedesse 300 milímetros podia causar devastação. Os aldeões locais se

ressentiam profundamente dos canais e condutos construídos nos anos

anteriores, vendo-os como a principal causa das inundações. Hu observou

que “alguns dos quadros são honestos e estão aprendendo a lição, mas outros

estão confusos, alguns até insistindo em que esta é uma catástrofe natural”.38

Por todo o país, as obras de irrigação, feitas por centenas de milhões de

agricultores a um grande custo humano e econômico, eram, em sua maior

parte, inúteis ou claramente perigosas. Muitas violavam as leis da natureza,

resultando em erosão do solo, deslizamentos e assoreamento dos rios. Vimos

como Hunan, província abençoada com solo fértil, vales de rios e planícies,

montanhas viçosas cobertas de florestas primitivas, foi desfigurada por

comunas locais durante o esforço do aço. As montanhas foram desnudadas

por torrentes, pois não havia mais cobertura para interceptar a chuva. Como

a capacidade das florestas de reter água foi degradada, riscos naturais foram

amplificados para desastres. Grandes projetos de irrigação que haviam interrompido o curso natural da água com diques, galerias, reservatórios e

canais de irrigação apenas agravaram os problemas. Depósitos acumulados

elevaram o leito dos rios locais em Hunan em até 80 centímetros, de forma

que o excesso de água ameaçava derramar-se e inundar as aldeias vizinhas.39

Projetos locais de aterro pioraram as coisas. Lançados pelo Estado e pelas

comunas locais em resposta à escassez de comida, mostravam pouco sentido

de gerenciamento da natureza. Em Hunan, mais de 100 mil hectares foram

abertos, grande parte nas encostas de montanhas. A chuva então lavava o solo

e o levava para os novos reservatórios construídos, sufocando-os com

sedimentos. Uma equipe de Longhui aterrou dez hectares em um declive de

montanha: o escoamento da chuva torrencial de maio de 1962 levou solo

suficiente para assorear trinta represas e cinco estradas.40

A falta de diversos bens também tendia a se reproduzir em um círculo

vicioso de escassez. Uma vez que todo o fertilizante tinha sido gasto no

Grande Salto Adiante de 1958, os campos ficaram áridos. Os caminhos entre

os campos de arroz eram malconservados à medida que agricultores perdiam

o controle da terra e as safras eram plantadas ao acaso e frequentemente

mudadas. O plantio denso e a lavra profunda despojavam mais a terra, pois

exauriam ainda mais o solo. No passado, um campo podia reter água

cuidadosamente irrigada por quatro a cinco dias, mas, em 1962, a água

escoava terra adentro em menos de 72 horas. Isso significava que era preciso

duas vezes mais água, precisamente quando o sistema se assoreava.41 O

Departamento de Conservação da Água e Eletricidade em Hunan concluiu

que cerca de 57 mil quilômetros quadrados sofriam de erosão do solo, a

maior parte da bacia do rio Yang-Tsé, e entre um terço e um quarto do Xiang,

do Zijiang e do Yuanjiang — três dos quatro maiores rios da província. Até a

metade de todos os esquemas para conservação da água e do solo se

assorearam e foram lavados. Na esteira de uma campanha de irrigação, o

volume de erosão do solo cresceu em cerca de 50%.42

O trabalho desgastado, executado por agricultores esfomeados sem muito

planejamento e frequentemente em desrespeito à opinião de especialistas,

também arruinava novos projetos de irrigação. Em Hunan, no fim da fome, menos da metade de todas as bombas d’água funcionava. Muitas estavam

quebradas, outras simplesmente paravam de trabalhar na ausência de

qualquer supervisão.43 Na região de Hengyang, dois terços de todos os

reservatórios de médio porte e um terço de todos os pequenos diques tinham

problemas, e a água se perdia em vazamentos e infiltrações.44 Na província

como um todo, 10% de todos os reservatórios médios foram descritos como

projetos completamente inúteis e abandonados a meio caminho. Nenhum

dos dez grandes teve muito impacto, porque submergiram grandes superfícies

cultivadas, mas, na verdade, irrigavam muito pouco, causando grande ira

entre as pessoas do lugar que tinham sido forçadas a reassentar-se.45 Em

muitos casos, o material de construção estava tão quebradiço que o

movimento das ondas nos reservatórios criava sulcos de 50 a 70 centímetros

de profundidade dentro da represa.46 O uso de dinamite para pescar por

agricultores esfomeados perto de represas e eclusas não melhorava a

situação.47 Hunan não era exceção. Na vizinha Hubei, durante a seca de 1959,

que parte da liderança do partido identificou como uma das catástrofes que

devastavam o país, a água do poderoso Yang-Tsé não pôde ser desviada para

os campos porque mais de três quartos de todas as novas eclusas eram altas

demais. O rio passava ao longo de campos áridos, enquanto pessoas e gado

sofriam sede.48 Ao longo da extensão de 100 quilômetros entre Jianli e

Jingzhou, no meio da seca, agricultores abriam buracos nos diques locais para

irrigar os campos, mas estes eram inundados durante as chuvas fortes.49 Em

1961, estimados 400 mil pequenos reservatórios estavam em mau estado;

cerca de um em cada três estava inutilizado, ou assoreado ou seco.50

Mas, como em outras partes do país, grandes projetos se multiplicavam,

presas do gigantismo. Em Hubei, aumentaram de poucas dúzias antes de 1957

para bem mais de quinhentos. Uma vez prontos, eram com frequência

simplesmente abandonados às comunas locais, muitas das quais fracassavam

em fornecer supervisão de qualquer espécie. Pedras eram levadas para longe

dos diques, aquedutos eram abandonados ao assoreamento, buracos eram

abertos em paredes de contenção, e estábulos, chiqueiros e até casas inteiras

eram construídos sobre as represas. A borracha usada para selar hermeticamente as comportas era cortada, enquanto o equipamento de

telecomunicação de postos de sentinela vazios era roubado.51 Conclusão

inescapável: apesar dos imensos esforços devotados aos planos de irrigação

com o alistamento forçado de milhões de fazendeiros por toda a província,

em 1961 menos de 1 milhão de hectares foram irrigados, em contraste com 2

milhões em 1957.52 A posição em Hunan era só marginalmente melhor:

depois do investimento maciço na conservação de água, a superfície irrigada

de ponta a ponta na província cresceu de 2,66 milhões de hectares em 1957

para cerca de 2,68 milhões em 1962, ou menos de 1%.53

Represas em todo o país careciam de vertedouros, usavam material

inferior e eram construídas sem atenção para a geologia local. Muitas se

esboroavam. Em Guangdong, a represa de Fenghuang, no condado de

Chao’an, explodiu em 1960, seguida por outra, em Huangdan, condado de

Dongxing. Essas represas eram grandes reservatórios, mas médios e pequenos

reservatórios também desmoronavam, por exemplo em Lingshan, Huiyang e

Raoping.54 Em todo o país, 115 grandes reservatórios, ou 38% do total, eram

incapazes de reter as inundações durante a estação chuvosa.55 De acordo com

um relatório da liderança central, três grandes reservatórios ou represas, nove

médios e 223 pequenos desmoronaram em 1960 porque haviam sido mal

construídos.56

Enquanto muitos dos que foram erigidos com terra desmoronaram quase

imediatamente, alguns eram perigosas bombas de tempo tiquetaqueando

durante décadas. Isso aconteceu com as represas Banqiao e Shimantan, em

Zhumadian, Henan, construídas como parte da campanha para “Domar o rio

Huai”, em 1957–59, como vimos em capítulo anterior. Quando um tufão

atingiu a região em agosto de 1975, essas represas se romperam, liberando

uma onda de maré que submergiu cerca de 230 mil pessoas.57 Em 1980, 2.976

represas ruíram em Henan. Como disse mais tarde o chefe do Departamento

de Recursos Hídricos, referindo-se ao Grande Salto Adiante, “a merda

daquela era ainda não foi limpa”.58

* * *

 

Interferir na natureza aumentou a alcalinização — também conhecida como

salinização ou aumento do sódio no solo — de terras cultivadas, embora esse

fenômeno fosse mais comumente associado às planícies semiáridas do norte.

A alcalinização é com frequência vista como uma desvantagem da irrigação

em regiões secas, quando a falta de chuvas permite que os sais solúveis

contidos na água se acumulem no solo, reduzindo severamente sua

fertilidade. Novos planos de irrigação tiveram efeito desastroso sobre a

alcalinização da Planície do Norte da China. Em Henan, cerca de dois terços

de 1 milhão de hectares de solo tornaram-se terra alcalina.59 Em Pequim e

nos subúrbios circunvizinhos, como o Departamento de Conservação da

Água descobriu, a quantidade de solo perdida para a alcalinização dobrou

para 10% durante o Grande Salto Adiante.60 Também ao longo da costa a

salinização aumentou, em consequência da intrusão de água do mar, causada

por planos malfeitos de quadros locais que cortejavam a atenção dos

superiores. Em uma comuna de Hebei situada a 20 quilômetros do mar, a

tradição foi posta de lado na perseguição de uma visão de simetria: cavaram-

se grandes canais para cruzar campos de arroz quadrados, reconstruídos a

partir de terrenos irregulares que, costumeiramente, seguiam os contornos da

terra. A safra despencou à medida que a proporção de terra alcalina

dobrava.61 Por toda a província, o volume de terra alcalina saltou em cerca de

1,5 milhão de hectares.62

Dificilmente Hebei foi uma exceção: em seu relatório sobre salinização,

Liu Jianxun observou que, em muitos condados do norte de Henan, a

extensão da salinização havia dobrado, chegando a 28%.63 Hu Yaobang,

inspecionando condados ao longo do rio Amarelo, descobriu que imensos

esquemas de irrigação em alguns condados de Shandong haviam aumentado

a proporção geral de solo alcalino de 8% para 24%.64 Isso foi confirmado em

um relatório mais detalhado sobre as regiões norte e oeste da província, onde

a salinização média estava acima de 20% em 1962, tendo dobrado desde o

Grande Salto Adiante. No condado de Huimin, estava perto da metade de toda a terra cultivada. Havia pouca dúvida sobre as razões para isso: “Nos

últimos dois anos, o desenvolvimento de planos de irrigação perturbou o

sistema de drenagem natural.”65 Não está claro como tantos milhões de

hectares foram perdidos para o sal durante a grande fome, mas é provável que

a área perdida tenha atingido entre 10% e 15% de toda a terra irrigada para a

cultura de grãos.

 

* * *

 

Não existem dados numéricos sobre o país ou até sobre as províncias, mas

evidências qualitativas sugerem que a poluição do ar e da água também

contribuiu para uma crise ambiental de proporções consideráveis. A China

não tinha usinas de tratamento e tanto o esgoto urbano quanto o lixo

industrial eram descarregados diretamente nos rios locais. O esforço para

transformar uma sociedade predominantemente agrária em uma casa de

força industrial capaz de liderar o campo socialista em sua conquista do

mundo aumentou o volume de poluentes como fenol, cianeto, arsênico,

fluoreto, nitratos e sulfatos jogados no curso de riachos. O fenol é um dos

contaminantes mais comuns: 0,001 miligrama por litro é o máximo

suportável para a água potável e 0,01 para a criação de peixes. Nos

derramamentos nos rios Songhua e Mudan, que correm pelo desolado

coração industrial do norte, o volume de fenol ia de 2 a 24 miligramas por

litro. Onde outrora abundavam carpas, peixes-gatos e esturjões, nada restava,

exceto um fétido fluxo de material tóxico. Em uma extensão de 150

quilômetros do rio Nen, um grande tributário do Songhua, pescadores

removeram cerca de 600 toneladas de peixes mortos em menos de um dia na

primavera de 1959. Em Liaoning, o peixe desapareceu completamente dos

rios perto das cidades industriais de Fushun e Shenyang. Ao longo da costa

perto de Dalian não era incomum colher cerca de 20 toneladas de holotúrias

por ano, mas a iguaria desapareceu durante o Grande Salto Adiante.66 Mais

ao sul, em Pequim, o Conselho de Estado reclamou da poluição: o poderoso

complexo de ferro e aço de Anshan descarregava volumes tão altos de resíduos que os rios fediam a petróleo, com peixes mortos boiando de barriga

para cima na superfície viscosa.67

Tão grande era o volume de refugo alcalino jogado fora pelas fábricas de

papel em Jiamusi que até o fundo dos barcos se corroía. As próprias fábricas

não podiam mais produzir papel de alta qualidade porque dependiam

grandemente da água do rio que tanto poluíam. Esse foi o caso de todas as

fábricas no cinturão que se estendia de Xangai a Hangzhou. As companhias

petrolíferas também eram criminosas: uma única usina em Maoming liberava

24 mil toneladas de querosene nos rios por ano. Outros recursos escassos no

meio da fome eram atirados na água: o Conselho de Estado calculou que as

fábricas de fundição da suja e poeirenta Shenyang poderiam ter economizado

240 toneladas de cobre e 590 toneladas de ácido sulfúrico por ano

simplesmente reciclando a água que usavam.68

Poucos estudos comparativos foram feitos na época para medir o aumento

da poluição depois de 1957, mas um caso ilustra o impacto do Grande Salto

Adiante. As fábricas de malha, couro, papel e produtos químicos em

Lanzhou, o centro industrial do noroeste, geravam mais de 1.680 toneladas de

águas servidas por dia em 1957. Isso saltou para 12.750 toneladas por dia em

1959. Lanzhou é a primeira grande cidade ao longo do rio Amarelo e tinha

em suas águas oito vezes mais poluentes que o permitido pelo Ministério da

Higiene. O rio seguia seu curso vagarosamente através dos desertos e pastos

da Mongólia Interior antes de entrar na Planície do Norte da China, onde a

água era desviada para irrigação através de infindáveis condutos e galerias, os

poluentes embebendo profundamente o solo cultivado.69

Envenenavam-se também as pessoas, pois os rios com frequência eram a

única fonte de água. Trabalhadores que viviam perto das fábricas de aço no

norte sofriam de envenenamento crônico. Em Zibo, Shandong, cem

agricultores ficaram doentes após beber água poluída com contaminantes de

uma fábrica farmacêutica rio acima.70 Em Nanquim, uma única fábrica, que

empregava apenas 275 trabalhadores, produzia por dia de 80 a 90 toneladas

de água de esgoto com material radioativo. Não existiam regras para o

armazenamento do lixo e todo ele era atirado diretamente no ralo, terminando no rio Qinhuai, que se transformou em uma vala de detritos. Até

o lençol freático foi envenenado: usada por pessoas locais para lavar o arroz, a

água dos poços perto da fábrica se tornou vermelha ou verde.71 Em Baoshan,

Xangai, a água servida produzida pelas fábricas de aço vazava nos dormitórios

dos trabalhadores. Do lado de fora, montes de ferro corrugado se

acumulavam, de forma que trabalhadores tinham que galgar o entulho para

ter acesso aos dormitórios.72 A escória preocupava menos que a poluição

causada pelas descargas de resíduos, mas, enquanto isso, um quarto de

milhão de toneladas de escória acumulava-se todo dia na movimentada

Xangai.73

A poluição também estava no ar, embora tenhamos menos exemplos

específicos porque a água era um recurso muito mais precioso que o ar, sendo

por isso monitorada em grande detalhe. Mas um estudo mostra que, em

Xangai, diversas fábricas lançavam o equivalente a 20 toneladas de vapor de

ácido sulfúrico, criado com a produção de fertilizantes fosfatados.74

 

* * *

 

Algumas dessas fábricas também produziam pesticidas, o que contaminava

animais, pessoas, solo e ar. Em Xangai, por exemplo, milhares de toneladas de

Dipterex e DDT eram produzidas, assim como benzeno hexaclorídrico

(BHC), um químico agrícola altamente tóxico chamado 666 que degradava

lentamente o solo.75 Os efeitos dos pesticidas no gado, na terra arável e nos

produtos aquáticos são bem conhecidos, mas, em tempos de fome, o veneno

químico encontrava novas aplicações, estendendo-se muito além da

plantação. Desesperadas por comida, algumas comunas usavam pesticidas

para pegar peixes, pássaros e animais. Em Hubei, inseticidas como Sistox e

Demeton, comumente chamados pós 1605 e 1059, assim como um pesticida

hipertóxico conhecido como 3911, eram deliberadamente espalhados para

capturar patos, depois vendidos para as cidades. Só em Shakou, dúzias de

clientes foram envenenados e vários morreram depois de comer as aves contaminadas. Agricultores esfomeados também partiam sozinhos em busca

de comida, largando químicos em poças e lagos para matar a vida silvestre.

Em alguns lugares, a água ficava verde e matava toda a vida silvestre.76

Mas a forma mais popular de controle das pestes era a mobilização das

massas. Fascinado pelo poder das massas para conquistar a natureza, Mao

lançara um chamado para eliminar ratos, moscas, mosquitos e pardais em

1958. Os pardais eram o alvo porque comiam sementes e privavam as pessoas

dos frutos de seu trabalho. Em um dos episódios mais bizarros e daninhos ao

meio ambiente do Grande Salto Adiante, o país foi mobilizado em uma

guerra completa contra os pássaros. Com o rufar de tambores ou o estrépito

de batidas em panelas ou gongos, um ruído gigantesco era levantado para

manter os pardais em voo até ficarem tão exaustos que simplesmente caíam

do céu. Quebravam-se ovos e destruíam-se os ninhos, também se alvejavam

os pássaros no ar. O sincronismo era essencial, pois todo o país foi levado a

marchar em fileiras cerradas na batalha contra o inimigo, certificando-se de

que os pardais não tivessem para onde escapar. Nas cidades, as pessoas

subiam nos telhados, enquanto, nos campos, os fazendeiros se dispersavam

pelas montanhas e subiam em árvores, todos na mesma hora, para assegurar a

completa vitória.

O especialista soviético Mikhail Klochko testemunhou o começo da

campanha em Pequim. Foi acordado de manhã cedo pelos gritos

horripilantes de uma mulher que corria de um lado para o outro em um

telhado próximo ao seu hotel. Um tambor começou a soar enquanto a mulher

freneticamente acenava com um grande lençol em uma vara de bambu. Por

três dias, todo o hotel foi mobilizado na campanha para acabar com os

pardais, dos mensageiros às empregadas e aos intérpretes oficiais. Crianças

saíam com atiradeiras e miravam qualquer espécie de criatura alada.77

Acidentes aconteciam, pois pessoas caíam de telhados, postes e escadas.

Em Nanquim, Li Haodong subiu no telhado de uma escola para chegar ao

ninho de um pardal, mas pisou em falso e despencou de três andares. O

oficial local He Delin, que agitava furiosamente um lençol para assustar os

pássaros, tropeçou e caiu de um telhado, quebrando a espinha. Revólveres

eram distribuídos para atirar nos passarinhos, o que também resultou em acidentes. Em Nanquim, cerca de 330 quilos de pólvora foram usados em

apenas dois dias, indicando a extensão da campanha. Mas a vítima real foi o

meio ambiente, pois as armas eram apontadas para qualquer tipo de criatura

de penas. A extensão do dano foi exacerbada pelo uso indiscriminado de

veneno agrícola: em Nanquim, iscas matavam lobos, coelhos, cobras, ovelhas,

galinhas, patos, cachorros e pombos, alguns em grande quantidade.78

O humilde pardal suportou as maiores baixas. Não temos nenhum

número confiável, pois os números eram parte de uma campanha em que a

inflação retórica se combinava com uma ilusória precisão para produzir

dígitos tão surreais quanto a própria campanha. Assim, Xangai informou

triunfantemente que eliminara 48.695,49 quilos de moscas, 930.486 ratos,

1.213,05 quilos de baratas e 1.367.440 pardais em uma de suas guerras

periódicas contra todas as pestes (imagina-se se as pessoas não criavam

secretamente moscas e baratas para obter uma medalha de honra).79 Os

pardais foram provavelmente levados à beira da extinção e poucos eram

vistos anos depois. Em abril de 1960, quando os líderes perceberam que os

pássaros também comiam insetos, os pássaros foram removidos da lista de

pragas daninhas e os piolhos os substituíram.80

Mas a mudança veio muito tarde: infestações de insetos espalharam-se

depois de 1958 e arruinaram uma proporção significativa da safra. O maior

dano foi ocasionado antes da colheita, quando enxames de gafanhotos

escureceram o céu e cobriram o campo com um cobertor eriçado, devorando

a safra. Aproveitaram-se da seca em Hubei, no verão de 1961, e infestaram 13

mil hectares, só na região de Xiaogan. Na região de Jingzhou, mais de 50 mil

hectares foram devastados. No geral, na província, perto de 15% da colheita

de arroz foi perdida para o voraz gafanhoto. Tudo foi deixado despido, mais

da metade de todo o algodão perdido na região de Yichang.81 Em torno de

Nanquim, onde uma feroz campanha contra os pardais fora desencadeada,

cerca de 60% de todos os campos sofreram o dano de insetos no outono de

1960, o que levou a séria escassez de verduras.82 Toda sorte de espécies

daninhas proliferou: na província de Zhejiang, entre 500 mil e 750 mil

toneladas de grãos, ou mais ou menos 10% da colheita, foram perdidas em 1960 para a mariposa oriental, o gafanhoto de folha, a lagarta-rosada e a

aranha vermelha, entre outras pestes. Medidas preventivas foram

prejudicadas por falta de inseticidas: os produtos químicos agrícolas tinham

sido desperdiçados inicialmente no ataque à natureza de 1958–59; depois, a

escassez de todas as commodities se estendeu em 1960 aos pesticidas,

exatamente quando eram mais que nunca necessários.83

Na guerra à natureza, fatores diferentes se combinaram para ampliar

dramaticamente o que a liderança descreveu como “catástrofes naturais”. A

campanha do aço causou o desflorestamento, o que levou por sua vez à erosão

do solo e à perda de água. Os planos grandiosos de irrigação perturbaram

ainda mais o equilíbrio ecológico, piorando o impacto das inundações e secas,

ambas estimulantes de gafanhotos: a seca eliminava toda competição,

enquanto as chuvas pesadas que se seguiam permitiam que os gafanhotos se

reproduzissem mais rapidamente que outros insetos e dominassem uma

surrada paisagem. Com o desaparecimento dos pardais e o mau uso dos

pesticidas, os insetos desciam sem oposição sobre qualquer safra magra que

os agricultores tivessem conseguido cultivar.

Mao perdeu a guerra contra a natureza. A campanha saiu pela culatra

quando rompeu o delicado equilíbrio entre humanos e meio ambiente,

dizimando a vida humana como resultado.