A Grande Fome de Mao
35. Sítios de horror
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Sítios de horror
O horror da destruição em massa foi encontrado pela liderança do partido
primeiro em Xinyang: ele levou às lágrimas Li Xiannian, duro veterano do
Exército Vermelho. A reação imediata foi culpar os contrarrevolucionários.
Logo, uma campanha se desenvolveu em todo o país para tomar o poder de
volta das mãos da reação, frequentemente com apoio militar do centro. Mas,
em um movimento inteligente, destinado a retratar Xinyang como exceção,
relatórios foram divulgados em que o partido se referia ao “incidente de
Xinyang”. A este acrescentou-se o “incidente de Fengyang”, que tomou o
nome de um condado poeirento à margem do rio Huai, na província de
Anhui. Ali também um reinado de terror custara a vida de um quarto dos 335
mil aldeões. Uma compilação dos relatórios do partido em ambos os casos
começou a circular nos anos 1980 e incluiu um documento de seiscentas
páginas, contrabandeado para fora da China na esteira do massacre da Praça
Tiananmen, em 1989. Esses documentos tornaram-se a base da maioria dos
estudos do período. Xinyang passou a ser um exemplo de fome.
No entanto, quadros locais que se reuniram em todo o país para discutir o
relatório Xinyang, em 1961, não se impressionaram. Em Xiangtan, Hunan,
um condado onde dezenas de milhares morreram, alguns quadros acharam
que o incidente de Xinyang empalidecia em comparação com o que acontecia
em seu próprio quintal. Por que deveria chamar-se “incidente”, alguns se
perguntavam.1
Existe, de fato, um vasto número de aldeias onde a morte colheu mais de
30% da população em um único ano — em alguns casos, vilarejos inteiros
foram apagados. Mas condados são entidades políticas muito maiores, suas
populações em geral variam entre 120 mil e 350 mil. Uma taxa de morte de
10% em um ano, em um condado inteiro, composto de muitas centenas de
aldeias, algumas estreitamente agrupadas, outras divididas por montanhas,
rios ou florestas, só poderia ter ocorrido sob imensa pressão política. Os sítios
de horror, onde a fraude e o terror se combinaram para produzir assassinatos
em massa, existiam em todo o país. Cada província sob a liderança de um
fanático político tinha vários, alguns se gabavam de ter uma dúzia. É
improvável que uma lista completa de tais casos apareça em futuro próximo,
uma vez que tantos arquivos do partido ainda permanecem fechados, mas
abaixo há uma lista provisória de 55 condados, que, sem dúvida, vai crescer à
medida que fontes melhores se tornem disponíveis. Baseia-se em uma
compilação de quarenta condados por Wang Weizhi, demógrafo que
trabalhou para o Departamento de Segurança Pública em Pequim.2 Mas a
informação dele é incompleta, pois é derivada de números oficiais enviados
para a capital em vez de pesquisas nos locais. Vários condados têm sido
acrescentados à lista com base nos arquivos materiais consultados para este
livro (eles estão marcados com um asterisco). Vários casos desses serão
examinados neste capítulo.
Sichuan: Shizhu, Yingjing, Fuling,* Rongxian, Dazu,* Ziyang, Xiushan,
Youyang, Nanxi, Dianjiang, Leshan, Jianwei, Muchuan, Pingshan,*
Bixian,* Ya’an,* Lushan,* Seda*
Anhui: Chaoxian, Taihe, Dingyuan, Wuwei, Xuancheng, Haoxian,
Suxian, Fengyang, Fuyang, Feidong, Wuhe
Henan: Guangshan, Shangcheng, Xincai, Runan, Tanghe, Xixian,
Gushi, Zhengyang, Shangcai, Suiping
Gansu: Tongwei,* Longxi,* Wuwei*
Guizhou: Meitan, Chishui, Jingsha, Tongzi
Qinghai: Huangzhong, Zaduo, Zhenghe
Shandong: Juye,* Jining,* Qihe,* Pingyuan*
Hunan: Guzhang*
Guangxi: Huanjiang
* * *
Tongwei, no noroeste de Gansu, era uma das áreas mais pobres do país.
Localizada no meio de montanhas ondulantes e dividida por ravinas em um
árido platô de loesse, havia sido outrora um ponto de parada importante, na
antiga rota da seda. Antes que o centro de gravidade se movesse na direção do
sul exuberante, a região se erguera com atividade humana, pois bom uso era
feito do rico loesse. Sinais do passado estão em toda parte, uma vez que o solo
é fácil de ser cavado. Muros, casas e aterros para tumbas eram feitos de loesse
e pareciam entalhados direto na paisagem. Cavernas eram esculpidas em
montanhas quebradiças, algumas com aberturas arqueadas e pátios
poeirentos. Com o tempo, o vento e a chuva corroíam a montanha e as
residências terminavam resistindo por conta própria. Terraços no alto de
montanhas e estradas por vales profundos se misturavam em uma paisagem
de terra modelada ao longo das eras por mãos habilidosas. O Exército
Vermelho ocupou Tongwei em setembro de 1935, onde Mao compôs uma
ode à Longa Marcha.
Xi Daolong, cabeça do condado, era um membro-modelo do partido,
selecionado em maio de 1958 pela província para assistir a um dos encontros
mais prestigiosos do partido comunista em Pequim. Quando o chamado do
presidente pela coletivização radical veio alguns meses depois, Xi respondeu
com zelo, amalgamando todas as cooperativas em catorze comunas gigantes.
Sob os olhos vigilantes da milícia, tudo foi coletivizado: terra, gado, casas,
utensílios — até mesmo panelas, latas e botijas foram confiscadas. Os aldeões
tinham que seguir todos os ditames dos líderes do partido. Como Tongwei
era um elo-chave no plano da província de desviar um tributário do rio
Amarelo para as montanhas a fim de criar uma autoestrada de água que
tornaria o árido platô um jardim verde, um em cada cinco camponeses foi despachado para trabalhar em um reservatório. No intuito de agradar a uma
equipe de inspeção enviada para apressar o trabalho do esquema de irrigação,
a metade de todos os aldeões foi arrastada, no meio da colheita, para canteiros
de obras distantes. Permitiu-se que a safra apodrecesse nos campos. Em um
condado de pobreza absoluta, em que os fazendeiros conseguiam ganhar a
vida com dificuldade, mais de 13 mil hectares foram abandonados só no
primeiro ano do Grande Salto Adiante. Com o passar dos anos a safra
encolheu, de 82 mil toneladas em 1957 para 58 mil toneladas em 1958, para
42 mil em 1959 e, finalmente, para miseráveis 18 mil em 1960. Mas as
requisições aumentavam. Xi Daolong informou uma safra recorde de 130 mil
toneladas em 1958. O Estado tomou um terço. Em 1959, Xi novamente
informou o mesmo volume. Como o Estado agora tomou quase a metade,
praticamente não sobrou nenhum grão.3
Os aldeões que reclamavam eram tachados de direitistas, sabotadores ou
agitadores antipartido. O cabeça do condado, um homem chamado Tian
Buxiao, ficou profundamente abalado com o que viu no campo. Foi
denunciado como elemento antipartido e repetidamente submetido a sessões
de humilhação pública, como um “pequeno Peng Dehuai”. Cometeu suicídio
em outubro de 1959. Mais de mil quadros que discordaram de um modo ou
de outro foram censurados. Alguns foram demitidos, outros presos, mas a
tortura era disseminada, em particular contra aldeões. As pessoas eram
enterradas vivas nas cavernas escavadas nas montanhas de loess. No inverno,
eram enterradas sob a neve. Outras formas de tortura eram usadas, inclusive
agulhas de bambu. No relatório não editado anexado ao arquivo que continha
a versão final mandada para o comitê provincial, uma sentença menciona que
“as pessoas eram espancadas até a morte e transformadas em adubo”.4 Mais
de 1.300 foram espancadas ou torturadas até morrer. Lá pelo inverno de
1959–60, as pessoas comiam casca de árvore, raízes e debulho.5
De acordo com relatório compilado pelo comitê do condado em Tongwei
poucos anos depois da fome, cerca de 60 mil pessoas morreram em 1959 e
1960 (o condado tinha 210 mil aldeões em 1957). Poucos lares escaparam da
fome. Quase todo mundo tinha vários parentes que morriam de fome e mais
de 2 mil famílias foram inteiramente eliminadas.6
Xi Daolong finalmente foi preso, mas, sem o apoio de seus superiores,
dificilmente poderia ter presidido um reinado de terror que durou vários
anos. Um escalão acima dele havia Dou Minghai, secretário do partido da
região de Dingxi à qual Tongwei pertencia. O próprio Dou estava sob
constante escrutínio de Zhang Zhongliang, o chefe de Gansu. A pressão era
tão intensa que ele considerava os aldeões que tentavam fugir da região
“todos maus”, e cada um deles culpado de “oposição ao partido”. Ele manteve
a pressão por índices maiores de requisição e declarou que era “mais fácil as
pessoas morrerem de fome que eu pedir cereais ao Estado”.7 Mas, no fim, até
seus superiores não puderam mais ignorar a extensão da fome, e uma equipe
de cem pessoas foi enviada da capital Lanzhou, em fevereiro de 1960. Xi
Daolong e seus ajudantes foram presos.8 Um mês depois, um relatório foi
enviado a Pequim. A liderança central declarou que Tongwei estava
“completamente podre”.9
* * *
Sichuan, à diferença de Gansu, é uma província rica e fértil, tradicionalmente
conhecida como a “terra da abundância”, com florestas subtropicais e
centenas de rios desviados desde tempos antigos com propósito de irrigação.
Mas nessa imensa província do tamanho da França há imensas variações,
com vales profundos e montanhas escarpadas no platô ocidental de Sichuan,
esparsamente povoado por uma minoria étnica, ao contrário da bacia em
torno de Chengdu, onde montanhas baixas e planícies aluviais sustentam
dezenas de milhões de agricultores. Mais condados em Sichuan que em
qualquer outro lugar têm índice de mortalidade superior a 10% ao ano. A
maior parte deles era de áreas empobrecidas nas montanhas em torno da
bacia e bem poucos se agrupavam ao redor de Chongqing, cidade pendurada
desordenadamente nos penhascos íngremes à beira do Yang-Tsé.
Este era o caso, por exemplo, de Fuling, condado relativamente próspero
com campos em terraços ao longo do rio Yang-Tsé, nas terras do interior fora de Chongqing. Baozi, uma comuna de 15 mil pessoas, conhecida como
“celeiro de grãos de Fuling”, produzia colheitas tão abundantes que,
normalmente, mandava a metade de sua produção como tributo ao Estado. À
beira da estrada principal, até quatrocentas pessoas podiam ser encontradas
em qualquer dia, atarefadas, trazendo grãos, verduras e porcos para vender.
Mas, por volta de 1961, a produção de grãos tinha caído em cerca de 87%. Os
campos estavam cheios de ervas daninhas e metade da população
desaparecera. Um “vento do comunismo” havia soprado sobre a comunidade,
enquanto tijolos, madeira, panelas, utensílios e até agulhas e fraldas para
bebês tinham sido confiscados em uma corrida louca pela coletivização, na
qual a própria noção de propriedade individual era vista como
“conservadorismo direitista”. “Podemos comer muito, até sem agricultura,
por três anos” era o slogan do momento, enquanto 70% da força de trabalho
foram desviados da agricultura para a construção de grandes cantinas,
chiqueiros e mercados. As pessoas que ainda trabalhavam no campo tinham
que obedecer às ordens da comuna e, por exemplo, destruir acres de milho
porque o vice-secretário do partido achava que as folhas estavam viradas na
direção errada. O plantio denso, por outro lado, matou a colheita de arroz em
alguns dos canteiros mais férteis. Em partes da comuna, 80% dos terraços de
arroz foram convertidos em terra seca para verduras, com resultados
desastrosos. Então, como veio uma ordem de Li Jingquan, de que as unidades
avançadas deveriam ajudar a transformar as montanhas em um farto verde,
com encostas cobertas de trigo, os fazendeiros tiveram que abandonar os
terraços férteis para arranhar o solo rochoso nas terras altas a muitas milhas
de distância.
Para esconder o declínio precipitado da produção agrícola, os líderes da
comuna declararam, em 1959, uma safra de 11 mil toneladas em vez das 3.500
toneladas estocadas. O Estado tomou 3 mil toneladas. A milícia foi atrás dos
esconderijos de grãos, tomando tudo em que punha as mãos. Sessões de
humilhação pública pontuavam a agenda diária. O peso do corpo era a linha
de classe que separava os pobres dos ricos: ser gordo era ser um direitista, e os
direitistas eram perseguidos incessantemente — com frequência até a morte.
No final, as pessoas não tinham nada para comer, exceto cascas de árvore e
lama. Até um terço da população morreu em algumas aldeias em Baozi.10
Baozi não era excepcional de forma alguma. Por todo o condado de
Fuling, os índices de mortalidade eram altos, com algumas aldeias perdendo
9% da população em um único mês, em 1960.11 Um índice médio de
mortalidade de 40% a 50% não era incomum em brigadas na região.12
Outros condados na área de Chongqing também tinham índices de
mortalidade de mais de 10% em 1960, por exemplo, Shizhu, Xiushan e
Youyang. Em Shizhu, a milícia proibiu aldeões de buscar raízes e ervas
silvestres na floresta, revistando todas as casas em busca de panelas e
caçarolas para impedir que se cozinhasse fora das cantinas. A violência era
comum, com “esquadrões de espancamento” (darendui) em partes do
condado tomando conta da disciplina; alguns levavam pinças e agulhas de
bambu. Chen Zhilin, vice-secretário de uma das comunas, espancou várias
centenas de pessoas, matando oito. Algumas foram enterradas vivas. No
condado como um todo — de acordo com o Departamento de Segurança
Pública —, cerca de 64 mil pessoas morreram só em 1959–60, ou 20% da
população. As autoridades ficaram tão assoberbadas com as ondas de morte
que, no fim, os mortos eram atirados em túmulos coletivos. Quarenta corpos
foram jogados em um buraco na comuna de Shuitian. Perto da estrada para a
capital do condado, outros sessenta foram enterrados em uma trincheira
estreita, mas o serviço foi tão malfeito que partes de vinte corpos ficaram para
fora do túmulo e logo foram atacadas por cães vorazes. Como madeira para
caixão era escassa, vários bebês mortos na época foram levados em recipientes
de ratã para serem enterrados.13
Longe dos vales exuberantes ao longo do Yang-Tsé, duras batalhas
ensanguentavam as savanas do platô tibetano a oeste. Em 1959, em Serthar
(Seda), um condado na região autônoma de Ganzi, tibetanos foram presos e
empurrados para dentro de coletivos depois que Lhasa foi abalada por uma
rebelião e o Dalai Lama teve que fugir a pé pelas montanhas do Himalaia para
a Índia. Dúzias de rebeliões aconteceram em Ganzi no fim de 1958, levando a
milhares de prisões e muitas execuções.14 Uma matança de amplo alcance
precedeu a coletivização, pois os pastores preferiam matar seus carneiros a entregá-los ao Estado. Dezenas de milhares de animais foram mortos e
comidos. Os quadros, no controle dos cereais, se recusavam a alimentar os
nômades, usando a milícia para extrair qualquer sinal possível de riqueza
daqueles que consideravam seus inimigos. Encurraladas em comunas
improvisadas, muitas pessoas morriam de doença. Se antes os nômades
tinham acesso a água limpa durante todo o ano, estavam agora amontoados
em acampamentos ordinários, sem instalações adequadas e logo cheios de
excrementos e detritos. De uma população de 16 mil, cerca de 15% morreram
só em 1960. Cerca de 40% dos que morreram foram espancados ou
torturados até a morte.15
* * *
Guizhou, à diferença de sua vizinha do norte, Sichuan, é uma província
empobrecida, historicamente abalada por rebeliões de minorias que
compõem pelo menos um terço da população — muitas vivem na pobreza
nas montanhas e terras altas que dominam o que é conhecido como “reino
das montanhas”. Chishui, antes próspera como passagem estratégica para o
transporte de sal, é um posto avançado perdido na fronteira com Sichuan. O
rio que corre por vale de arenito vermelho carrega o sedimento e dá nome ao
lugar, que significa “Água Vermelha”. Em março de 1935, o Exército
Vermelho cruzou o rio diversas vezes e transformou o condado em solo
sagrado, astutamente promovido pelos líderes locais depois da revolução. No
alto das montanhas escarlates, pequenas aldeias ficavam escondidas entre
gigantescas samambaias e bambus de um verde brilhante, mas a maioria das
pessoas cultivava arroz com casca e cana-de-açúcar ao longo do rio e seus
tributários. Entre outubro de 1959 e abril de 1960, cerca de 24 mil pessoas
morreram — mais de 10% da população.16
Wang Linchi, um homem relativamente jovem de 35 anos, estava a cargo
do condado. Recebera uma cobiçada bandeira vermelha em 1958 e fora
elogiado pela liderança central por transformar um local atrasado em um
“condado de 5 mil quilos”, graças às muitas inovações anunciadas pelo Grande Salto Adiante. Em Chishui, sob Wang Linchi, arar a terra
profundamente significava cavar a uma profundidade de 1 a 1,5 metro:
quanto mais profundo, melhor. Grandes quantidades de sementes eram
utilizadas, com frequência, de 200 a 450 quilos por hectare, mas, de vez em
quando, uma ou duas toneladas; às vezes, 3 toneladas. Entre outros grandes
esquemas inventados pela liderança do condado, havia um projeto de
irrigação no qual a água seria captada por meio de uma rede de canos de
bambu para todos os canteiros do condado. “Canos de água nos céus de
Chishui” era o slogan, mas o esquema falhou miseravelmente depois que
acres de florestas de bambu foram derrubados, privando os aldeões de um
recurso muito necessário.
O resultado do Grande Salto Adiante em Chishui foi uma produção de
grãos em queda e o virtual extermínio do gado. Mas Wang estava
determinado a manter sua reputação. Já em setembro de 1958, muitos meses
antes do relatório de Zhao Ziyang sobre ocultação de grão em Guangdong, ele
decretou que parte da colheita estava sendo retida por “fazendeiros ricos” e
“maus elementos” em um ataque sustentado ao sistema socialista. Um contra-
ataque impiedoso, com quadros armados, era necessário para salvar as
comunas e impedir uma contrarrevolução. As pessoas no campo foram
aterrorizadas. Um ano depois, na esteira da Conferência de Lushan, os
aldeões foram divididos em “camponeses ricos” e “camponeses pobres”. Atrás
dos camponeses ricos estavam os senhores de terras, sabotadores,
contrarrevolucionários e outros elementos empenhados em destruir a
revolução: “Camponeses pobres e ricos, esta luta é até a morte!” Vários
milhares de quadros foram expulsos do partido por terem o passado de classe
errado, enquanto demonstrações de massa, sessões de humilhação pública e
campanhas contra a ocultação foram organizadas para arrancar pela raiz cada
inimigo de classe. Como Mao, Wang Linchi era poeta, compunha versos para
glorificar a classe trabalhadora e organizou uma ópera tradicional em que ele
foi o principal protagonista — antes de centenas de convidados devorarem
um opulento banquete. Nesse meio-tempo, a agricultura era negligenciada:
embora em janeiro de 1960 Wang anunciasse a seus superiores em Guiyang
uma colheita recorde de 33.500 toneladas, 80% desse total só existiam no
papel.17
Dificilmente Wang Linchi seria um caso único em Guizhou, província
radical, liderada por Zhou Lin, seguidor muito próximo de Mao. Em todos os
lugares, Zhou Lin tacitamente estimulava uma abordagem radical do Grande
Salto Adiante, o que resultou em um dos índices de mortalidade mais altos do
país. Em Meitan, famosa pelo chá, 45 mil pessoas morreram em seis meses.
Wang Qingchen, o primeiro-secretário do partido, dispunha de uma força de
trabalho de 50 mil à sua disposição e construía gigantescos jardins de chá,
pomares, sistemas de irrigação e edifícios coletivos que transformariam
Meitan em um modelo nacional. Quarenta mil porcos foram requisitados
para uma “cidade de 10 mil porcos”. Quem criticasse esses planos era acusado
de “agitar uma tendência revisionista ruim” e recebia o rótulo de “direitista
oportunista”. Em 1960, uma campanha “Prenda muitos e detenha muitos” foi
organizada pela polícia e pela milícia e varreu toda a região. Cerca de 3 mil
pessoas foram presas em um mês. Um slogan simples parecia captar o espírito
de Meitan: “Os que são incapazes de produzir grão não vão receber nenhum
grão.”18
Quarenta e cinco mil mortes é um número muito alto, mas, mesmo assim,
pode estar subestimado. De acordo com uma investigação do comitê
provincial do partido, 12 mil pessoas “morreram de fome” só em uma
comuna, ou 22% da população.19 Com foco em uma aldeia, pesquisa mais
detalhada mostrou que mais de um terço dos habitantes morreu. Nongcha era
antes uma aldeia relativamente próspera, em que cada família possuía alguns
patos e galinhas, mas, em 1961, a colheita tinha diminuído para um terço do
produzido em 1957. Verduras eram difíceis de aparecer. A produção de cana-
de-açúcar, indispensável para os fazendeiros locais trocarem por comida e
outros bens, foi praticamente apagada. Muitos campos foram destruídos após
experiências com plantio profundo e criação de novas terras em leitos de rios,
lagos e no oceano. Alguns campos eram chamados de “canteiros da lua”,
porque o terreno esburacado já não conseguia reter nenhuma água. Não se
conseguiam pontos por trabalho e as aldeias eram alimentadas de acordo com
os caprichos de quadros locais em cantinas caóticas. Propriedade pessoal era confiscada, canteiros privados, abolidos. As requisições do Estado eram
elevadíssimas, apesar da queda na produção de grãos: em 1959, três quartos
da colheita foram levados por agentes do Estado e os aldeões foram deixados
a passar fome. Em 1961, só restava um porco em toda a cidade.20
Quando uma equipe de inspeção foi agendada para visitar Meitan em abril
de 1960, os líderes locais correram dia e noite para enterrar cadáveres em
túmulos coletivos à beira da estrada. Aldeões doentes e crianças abandonadas
foram trancados e guardados pela milícia, enquanto se arrancavam
reveladoras árvores sem casca, com raiz e tudo.21 Ao viajar pela região em
março de 1960, Nie Rongzhen mostrou-se maravilhado com Guizhou em
uma carta a Mao: “De fato, Guizhou não é pobre de forma alguma, é muito
rica — no futuro deveria ser nossa base industrial no sudoeste.”22
* * *
À medida que se aproxima do fim de sua longa jornada pelo platô de loess, o
rio Amarelo cruza o Grande Canal, um rio antigo feito pelo homem,
completado no século VII, para levar o tributo de grãos até a capital imperial
no norte. Diz-se que mais de 40 mil trabalhadores eram necessários para
manter o sistema do canal, usado, em seu auge, em meados do século XV, por
cerca de 11 mil barcaças de grãos. Qihe é o principal porto do rio em
Shandong, situa-se logo a noroeste de Jinan e deve ter se beneficiado de sua
localização estratégica no rio Amarelo. Antes do Grande Salto Adiante era
conhecida como “armazém de grãos”, com uma safra abundante que chegava
a 200 mil toneladas em um ano bom para a população de cerca de meio
milhão de pessoas. Algodão, tabaco e frutas também eram amplamente
cultivados. Por volta de 1961, o condado de Qihe havia perdido bem mais de
100 mil pessoas, ou um quinto da população, comparado com 1957. Metade
dos trabalhadores que sobreviveram ou ficaram para trás estava doente. A
economia foi destruída. As 200 mil toneladas de grãos colhidas em 1956
definharam para apenas 16 mil poucos anos depois. O colapso da produção
de amendoim foi até mais dramático: enquanto 7.780 toneladas tinham sido colhidas dos campos em 1956, lamentáveis dez toneladas foram reunidas em
1961. Tudo, parece, se reduziu a cerca de um décimo do que se poderia
esperar antes de 1958. Até a terra cultivada encolhera: um quinto foi levado
embora pela construção de reservatórios e estradas, a maioria dos quais nunca
foi terminada. Como em todo lugar no norte, o volume de solo alcalino havia
dobrado e chegou a quase um terço da superfície em cultivo. Apesar — ou, na
verdade, em consequência — do investimento maciço em projetos de
conservação da água, a superfície irrigada em geral encolheu em 70%. Fora
dos campos, a devastação era igualmente visível. O gado era menos da metade
de antes, o número de carroças definhou, enquanto dezenas de milhares de
utensílios simples como ancinhos e enxadas desapareceram. Mais da metade
das árvores tinha sido derrubada. De todas as habitações no país, 38% tinham
sido destruídos. Do que restou em pé, um quarto estava pesadamente
danificado e necessitava de atenção urgente. Cerca de 13 mil famílias não
tinham sequer um quarto para elas.23
Hanzhuang era um dos muitos vilarejos pequenos do condado de Qihe.
Tinha 240 aldeões em 1957, mas, em 1961, só restavam 141. Um quarto da
vila tinha morrido de fome, uma em cada seis famílias havia sido
inteiramente extinta — um fato que tem grande peso em uma cultura que
continuava a enfatizar a descendência, apesar de toda a retórica oficial de
classes. Entre 1958 e 1961, apenas quatro crianças nasceram na aldeia, uma
das quais morreu na infância. Muitos aldeões eram solteiros, a maioria fraca
ou doente, e poucas mulheres das aldeias vizinhas queriam casar-se com os
homens do lugar. A aldeia perdera cerca de 40% das terras e bem mais da
metade do que restou estava quase estéril por causa de sua pesada salinização.
De acordo com um ditado local, “ao deixar a casa, contempla-se uma
extensão branca”, porque o sal embranquecia a terra até tão longe quanto o
olho podia ver. No meio dessa faixa de terra exausta e fina, erguiam-se choças
de barro abandonadas.
A aldeia se gabava de um total de 240 quartos, mas apenas oitenta
restavam, a maioria com tetos gotejantes ou paredes desmoronadas. Não
havia nada dentro desses lares miseráveis, como uma equipe de inspeção
revelou: “Todas essas famílias foram à falência com a fome. Os menos afetados venderam roupas e móveis, enquanto os mais prejudicados tiveram
que vender panelas, louças e bacias, assim como madeira arrancada das casas.
Na aldeia, 27 famílias venderam tudo que tinham.” Yang Jimao, por exemplo,
deixou a aldeia em 1960. Sua mulher e o filho só sobreviveram com a venda
de todas as posses. Não possuíam cama, nem panelas, nem utensílios para
cultivar a terra. Dividiam um cobertor rasgado e um casaco esburacado.
Outros ainda estavam pior. Entre as poucas pessoas que ficaram em
Hanzhuang, estava Liu Zailin, de 33 anos, que logo morreu de fome. Sua
mulher enforcou-se em um abrigo e deixou dois filhos que foram adotados
pelos aldeões locais.
Em Shandong, as equipes enviadas para investigar o que havia acontecido
durante a fome foram tímidas em apontar os quadros abusadores, à diferença
de seus colegas em Gansu ou Guangdong. Mas as dimensões políticas da
fome estavam claras. A chefia da aldeia mudou quinze vezes desde o Grande
Salto Adiante. Poucos podiam fazer alguma coisa para resistir às requisições
impostas de cima e, em 1959, os aldeões foram deixados com uma média de
25 quilos de grãos por pessoa — para o ano inteiro. O alistamento no trabalho
para projetos de irrigação não ajudava. No inverno de 1959–60, 46 dos
melhores trabalhadores foram recrutados de Hanzhuang. Eles trabalharam
por quarenta dias e noites sem descanso, na neve, mas não receberam
nenhum cereal, que tinha de ser fornecido pela aldeia, já exaurida pelas
requisições do Estado. Alguns morreram enquanto cavavam a terra no frio,
outros caíram mortos à beira da estrada a caminho de casa.24
Em todo o campo de Shandong havia incontáveis aldeias em situação
igualmente difícil, quebradas por quatro anos de abuso generalizado. Todos
os sinais de advertência tinham aparecido em abril de 1959. Tan Qilong, um
líder veterano em Shandong, testemunhou pessoalmente como em vários
condados na região de Jining as árvores estavam sem folhas e sem casca,
crianças abandonadas pelos agricultores morriam à beira da estrada, seus
rostos encovados de fome. Em Juye, as pessoas comeram a palha de seus
travesseiros; milhares de pessoas morreram de fome. Tan Qilong informou
sobre essa situação ao chefe provincial Shu Tong, mas tomou a iniciativa
excepcional de mandar uma cópia a Mao Tsé-tung.25 Semanas depois, um contrito Shu Tong teve que explicar o “incidente de Jining” ao presidente, que
passava pela região em seu trem especial.26
Mas Shu Tong não fez nada para aliviar a fome. Ele próprio admitiu que
detestava más notícias e se recusava até a falar sobre “um dedo” de
deficiências em Shandong. Shu Tong ameaçava os que criticavam o Grande
Salto Adiante com o rótulo de “conservadorismo direitista”.27 De acordo com
os que tinham que trabalhar a seu lado, o tsar regional explodia em um acesso
de raiva violenta quando alguém tentava preveni-lo a não apoiar uma visão
utópica que custara a vida de incontáveis pessoas. “Aquele que atinge
primeiro prevalece, o que atinge por último fracassa”: Shu Tong seguia
religiosamente o conselho de Mao sobre apanhar os grãos antes que os
fazendeiros pudessem comê-los e apoiava grandes requisições para satisfazer
as demandas de Pequim.28
* * *
Gansu, Sichuan, Guizhou, Shandong — todas essas províncias tinham
condados onde o índice de mortalidade ficava acima de 10% em 1960. Mas
nada tão ruim como Anhui, administrada por Zen Xisheng, um dos mais
devotados seguidores de Mao. Como outras províncias, Anhui estava dividida
em regiões e tinha mais de uma dúzia delas. Uma dessas regiões era Fuyang.
No ano de 1958, existia em Fuyang uma população de 8 milhões. Três anos
após, mais de 2,4 milhões de pessoas haviam morrido.29
Uma das razões para o alto índice de mortalidade era a própria paisagem.
Plana e geralmente árida, oferecia poucos lugares para alguém se esconder ali.
Muitos que queriam fugir da área seguiam o rio até Xinyang, na vizinha
Henan, onde a fome ainda estava pior. O próprio rio Huai era uma rede
mortal. Em 1957, tornou-se foco de um imenso projeto de irrigação que
mobilizou até 80% da força de trabalho. Cada hectare devia ter um duto; cada
10 hectares, um canal; e cada 100 hectares, uma grande hidrovia. Os campos
seriam lisos como espelho, e o plantio profundo tornaria o solo tão maleável
quanto farinha. Fuyang poderia alcançar o futuro em apenas um ou dois
anos.30 Slogans como “Em um dia chuvoso, vemos um dia ensolarado, a noite
se torna o dia” e “Durante o dia, combatemos o sol; à noite, combatemos as
estrelas” estavam por trás da exploração incessante dos melhores
trabalhadores ao longo do rio. Muitos sucumbiram à doença, exaustão e
morte.31
Para impedir os trabalhadores de voltar para casa no Ano-Novo Chinês, a
milícia fechou suas casas. Com o inexorável avanço de represas, diques e
canais, tudo no caminho foi sendo aplainado. Árvores, tumbas, até pontes
grandes eram derrubadas, forçando os trabalhadores a andar quilômetros
todos os dias para chegar aos campos.32 Aldeias inteiras eram forçadas a
realocar-se da noite para o dia por capricho de um quadro: centenas delas
simplesmente desapareceram do mapa.33
Outros planos gigantescos levaram embora os melhores trabalhadores dos
campos antes que a semeadura ou colheita fosse completada. Tão abundante
era a safra — dizia a linha do partido — que o grão deveria ser transformado
em álcool. O condado de Hao, que lutava para se tornar um “condado de 5
mil toneladas”, construiu mais de 3.200 fábricas de álcool em janeiro de 1959.
Menos da metade jamais funcionou e muitas toneladas de grãos foram para o
lixo.34
Igualmente ruinosos foram os esforços para mecanizar a agricultura.
Pesadas rodas de ferro foram colocadas em cerca de 10 mil carroças. Ficaram
tão pesadas que os bois não conseguiam mais puxá-las.35 Para reparar o
problema, as velhas carroças foram banidas das estradas, e os fazendeiros
vistos usando-as eram denunciados como direitistas.36
A produção de grão desabou, mas quadros zelosos a duplicaram no papel.
Requisições punitivas seguiram-se; levadas a efeito com a violência de rotina,
elas, às vezes, extraíam perto de 90% da safra real.37 Para compensar a
escassez de grãos, quadros irrompiam nas casas locais e levavam embora
mesas, cadeiras e camas. Os fazendeiros eram obrigados a entregar um lote
estipulado de roupas de algodão, até vários quilos por família. O fracasso em
cumprir a cota levava ao banimento da cantina. Zhao Huairen teve que
entregar os casacos de algodão de sua mãe de 70 anos e de seu filho. No frio congelante, tinham que se enterrar sob alguma palha para manter-se
aquecidos. Em 1960, restara tão pouco para coletar que, em uma comuna, a
maior carga transportada consistiu em uma centena de caixões.38
A tortura era desenfreada. Arame era usado para perfurar as orelhas de
“maus elementos”, enquanto mulheres eram desnudadas e suspensas pelos
cabelos. Nas palavras de um líder do condado de Jieshou, “seus peitos eram
torcidos até que minasse líquido”.39 Em Linquan, o uso da violência foi
resumido, como se segue, pelo chefe do partido: “Pessoas morreram em
circunstâncias trágicas, espancadas e enforcadas até a morte, privadas de
comida ou enterradas vivas. Algumas eram severamente torturadas e
espancadas, orelhas cortadas, narizes arrancados, bocas rasgadas e assim por
diante, o que, com frequência, causava a morte. Descobrimos como tudo isso
foi extremamente sério assim que começamos a investigar.”40 O assassinato
era comum. Em Dahuangzhuang, pequena aldeia de Linquan, nove em
dezenove quadros haviam matado ao menos um aldeão durante a fome. Li
Fengying, um líder de equipe, assassinou cinco pessoas.41
Em alguns casos, os aldeões eram deliberadamente atraídos para
armadilhas. No fim de 1959, no auge da fome, uma das fábricas de
processamento de comida que pertencia ao departamento local de grão, no
condado de Funan, deixou bolos de cereais em um pátio com os portões
escancarados. Quando fazendeiros esfomeados tentaram roubar a comida, os
portões se fecharam subitamente atrás deles. “Alguns dos presos na arapuca
foram obrigados a entrar em sacos de grãos que tiveram a boca amarrada.
Depois, sofreram espancamento com barras de ferro. Os sacos ficaram
cobertos de sangue. Outros tiveram o rosto entalhado à faca e, depois,
gasolina foi esfregada nas feridas.”42
A ajuda aos famintos era retida. 15 toneladas de grãos enviadas aos
necessitados de um só condado foram confiscadas e isso apressou o fim de
milhares.43 As pessoas também morriam quando as autoridades locais
tentavam esconder a fome das equipes de inspeção. A milícia, por exemplo,
foi instruída a bloquear as aldeias e não permitir que ninguém com sinais de
desnutrição saísse para as ruas.44 Em uma comuna que receberia a visita do Ministério do Interior, em 1960, o cabeça do condado fez o que pôde para
prender e esconder mais de 3 mil aldeões com edema. Trancados, sem ajuda
médica, vários sucumbiram em questão de dias.45 Um oficial local deu uma
olhada rápida em Qin Zonghuai, um dos que sofriam de edema. “Ele não vai
viver, enterrem ele rápido”, ordenou, quando uma equipe de inspeção estava
a caminho. “Qin ainda respirava enquanto estava sendo enterrado”, concluiu
o secretário local do partido.46