A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 7 de 43

Páginas do PDF

A Grande Fome de Mao

5. Lançando

5

 

Lançando sputniks

 

Gráficos com metas ascendentes, muito bem desenhados com diagramas

coloridos em código, contrastavam enormemente com os campos da morte.

À medida que as metas subiam sem parar em todos os domínios concebíveis,

da produção de cereais e de aço ao número de poços cavados no campo, um

abismo escuro aparecia entre o mundo de slogans e a realidade da vida das

pessoas. Por trás da pressão que produzia esse hiato estava a mão de Mao. Em

correspondência informal, ele alfinetava e adulava os chefes locais para que

estes se comprometessem com metas de produção ainda maiores.

Zhou Xiaozhou, o cauteloso líder de Hunan, terra natal de Mao, foi um

dos primeiros a sofrer censura. “Por que Hunan não pode aumentar a

produção agrícola?”, perguntou Mao, em visita à capital provincial,

Changsha. “Por que os agricultores de Hunan ainda plantam apenas uma

safra de arroz por ano?” Depois que Zhou explicou que o clima permitia

apenas uma safra de arroz por ano, Mao observou que Zhejiang estava na

mesma latitude que Hunan e plantava duas safras de arroz. “Você não está

nem estudando experiências. Esse é o problema”, continuou Mao.

“Estudaremos a questão, então”, disse Zhou, humildemente.

“O que você quer dizer com estudar?”, exigiu Mao. “Vocês não chegarão a

lugar algum com seu estudo. Pode ir agora”, acrescentou, despedindo o líder

do partido. Abriu um livro e começou a ler.

Humilhado, Zhou, então, prometeu: “Tentaremos iniciar dois plantios

imediatamente.” Mao o ignorou.1

Poucos meses depois, quando o representante de Zhou se encontrou com

o presidente em Pequim, Mao teceu elogios a Henan em vez de a Hunan.

Henan produzia metade do trigo do país: “O que você acha disso?” Depois,

compartilhou seu desapontamento com Hunan. Luxemburgo tinha uma

população de 300 mil, mas produzia 3 milhões de toneladas de aço por ano.

Agora, quantas pessoas havia em Hunan?2

Mao mandou aliados próximos martelarem a mensagem em sua terra.

Assim como Deng Xiaoping era o confiável lugar-tenente na campanha

contra os direitistas, Tan Zhenlin era um fanático responsável pela

agricultura. Homem pequeno, encimado por uma moita de cabelos espessos,

óculos de lentes grossas e lábios grandes e salientes, era um seguidor de Mao e

aliado de Ke Qingshi, a estrela em ascensão de Xangai. Tan Zhenlin foi

descrito por um ex-colega como homem sarcástico, cruelmente voltado

apenas para sua missão.3 Seu conselho para os camaradas convocados pelo

presidente era proferir instantaneamente uma autocrítica, estivessem ou não

em falta.4 Tan passava meses viajando pelo campo, aumentando a pressão por

trás do Grande Salto Adiante. Não ficou impressionado com o que viu em

Hunan, uma província que considerava preguiçosa.5 Quando ameaçou

denunciá-la como politicamente reacionária, um relutante Zhou Xiaozhou

começou a inflar os números das safras.6

Fora dos corredores do poder, onde encontros pessoais aconteciam, o

telefone era usado para manter a pressão. Em um país do tamanho da China,

era natural que um líder mantivesse contato com seus subordinados sem

importar a distância física. No frenesi para produzir mais aço, Xie Fuzhi

telefonava para Yunnan a fim de convencer os secretários do partido do

perigo de ficar atrás dos vizinhos Guangxi e Guizhou.7 Os secretários do

partido, por sua vez, recebiam atualizações frequentes do ministro da

Metalurgia. Em 4 de setembro de 1958, por exemplo, os resultados mais

recentes foram informados por telefonema de Pequim.8 Então, em 6 de

setembro, um discurso de Mao foi transmitido em uma conferência

telefônica, seguida de uma conversa sobre metas para o aço por Bo Yibo em 8 de setembro; por Peng Zhen, em 11 de setembro; e por Wang Heshou, em 16

de setembro. Nesse meio-tempo, incontáveis outras conferências sobre

agricultura, indústria e coletivização eram feitas por telefone da capital.9 Com

quanta frequência o telefone era usado, não sabemos, mas, no auge da

campanha, um oficial local na comuna de Guangdong calculou que cerca de

noventa conferências telefônicas haviam acontecido durante uma única

estação em 1960 para assegurar que o plantio fosse denso (semear mais

densamente na esperança de que a safra aumentasse) — também conhecido

como safra densa.10

A pressão também se mantinha por meio de encontros partidários

voltados para isso e convocados por Mao, que dominava a pauta para

promover novos temas ideológicos e aumentar as metas de produção.11 Bo

Yibo — um dos planejadores repreendidos por Mao por se opor ao aumento

da produção — contribuiu demais para o frenesi quando substituiu um único

conjunto de metas nacionais por um sistema de planejamento duplo, no

encontro de Nanning, em janeiro de 1958. Aos dois conjuntos, Mao

acrescentou um terceiro. Funcionava assim: o ponto essencial era ter um

conjunto de metas a serem alcançadas, enquanto apenas se esperava que o

segundo plano fosse cumprido. O segundo plano era entregue às províncias e

se tornava para elas o primeiro conjunto de metas que tinham de ser atingidas

a todo custo. As províncias, então, eram solicitadas a ter um segundo plano,

que refletisse o que esperavam que fosse alcançado, perfazendo três planos no

total. O sistema era repassado aos condados, acrescentando-se, de fato, um

quarto conjunto de metas, ou plano de produção. Como as metas nacionais

eram incessantemente revisadas para cima em encontros do partido, todo o

sistema de metas definidas e desejadas criava uma orgia de inflação até a

aldeia, resultando em um grande salto nas metas.12

Um processo de emulação aumentou ainda mais a tensão política. Mao

não apenas denegria colegas tímidos e elogiava os mais radicais à vista de seus

subordinados, como também era inclinado a comparar tudo e todos com

alguma coisa mais para elevar o espírito competitivo. Hunan foi justaposta a

Luxemburgo na produção de aço; a China era colocada ao lado da Grã-Bretanha quando se tratava da produção industrial; Gansu era colocada

contra Henan no esforço de irrigação. Isso também foi consagrado nas

diretrizes que Mao distribuiu aos líderes do partido em Nanning: para

impulsionar o espírito competitivo, toda a nação devia envolver-se em

comparações. Revisões regulares em encontros intermináveis em todos os

níveis conferiam três categorias de designação para províncias, cidades,

condados, comunas, fábricas e, até, indivíduos, todas com base em suas

realizações. Uma “bandeira vermelha” era concedida aos julgados avançados,

uma “bandeira cinza” era dada aos considerados medíocres, e uma “bandeira

branca” era a punição para os atrasados. Distribuídas durante encontros após

o trabalho, essas designações simbólicas, algumas vezes desenhadas em um

quadro-negro ao lado do nome de uma unidade, tinham o poder de

envergonhar, em uma sociedade em que até a mais leve falta de entusiasmo

podia levar alguém a ser rotulado de direitista. Todo o país se tornou um

universo de normas, cotas e metas das quais era quase impossível escapar,

enquanto alto-falantes gritavam slogans, oficiais verificavam e avaliavam o

trabalho, e comitês classificavam e davam notas interminavelmente para o

mundo em torno deles. E a classificação do desempenho individual passaria

crescentemente a determinar o tipo de tratamento concedido — até a concha

de mingau na cantina em tempos de fome. Mao era claro: “Comparem: como

deveríamos comparar? O que chamamos ‘comparação’ [bi] é realmente

‘compulsão’ [ 13 bi ].” Um funcionário de condado recordou a experiência

assim:

 

Naquele ano, juntamos todas as mãos capazes para trabalhar na escavação de poços de água,

deixando a lavoura da primavera sem cuidar. O comitê do partido da prefeitura realizou um

encontro pingbi [avaliação e comparação], em que recebemos uma “bandeira vermelha” pela

escavação dos poços e uma “bandeira branca” pela lavoura da primavera. Voltei ao comitê do

partido do condado para relatar isso e fui censurado pelo secretário do partido: “Mas como você

pôde partir com uma bandeira vermelha e voltar com uma bandeira branca!” Percebi que o

problema era muito sério. Eu mesmo poderia ser tomado como um “bandeira branca”. Assim,

tive que deixar minha mulher grávida chorando; ela daria à luz logo, e minha irmã moribunda,

infectada com tétano, para voltar ao local de trabalho nas montanhas.14

* * *

 

Logo, toda a China era presa da febre de metas, à medida que números

fantásticos para a produção agrícola e industrial competiam por atenção. Os

números eram trombeteados em encontros do partido e divulgados por uma

máquina de propaganda poderosa, que cobria de glória os líderes por trás dos

recordes mais recentes. Os números eram estratosféricos. Usava-se a

expressão “lançar um sputnik” quando se conseguia um novo recorde —

homenagem ao primeiro satélite lançado ao espaço pelo campo socialista no

ano anterior. “Lançar um sputnik”, “unir-se ao partido em combate”,

“trabalhar duro durante alguns dias e noites” eram formas de conseguir uma

bandeira vermelha. Em Chayashan, Henan, que logo se tornaria a primeira

comuna do povo (conhecida como “Comuna Sputnik”), uma meta de 4.200

quilos de trigo por hectare foi estabelecida em fevereiro de 1958. Enquanto 6

mil ativistas percorriam o campo com um rio de bandeiras, cartazes, panfletos

e palavras de ordem, as metas iam sendo exacerbadas. No fim do ano,

prometia-se um nível inteiramente fictício de 37,5 toneladas por hectare.15

Muitos desses recordes eram conquistados em “campos de sputnik”,

canteiros experimentais de alta produtividade cuidados em segredo por

oficiais locais ávidos de estabelecer novos recordes. Esses canteiros eram, em

geral, limitados a uma pequena faixa de terra em uma fazenda coletiva, mas

funcionavam como mostruário de novas técnicas agrícolas que encontravam

aplicação muito mais ampla. Aumentar a produtividade estimulou a corrida

por fertilizantes. Todo tipo concebível de nutriente foi jogado nos campos,

desde ervas marinhas dragadas do mar e lixo resgatado de pilhas de refugos

até fuligem raspada de chaminés. Fezes humanas e de animais eram

carregadas para os campos por filas intermináveis de pessoas, às vezes até

tarde da noite. Onde os excrementos eram tradicionalmente vistos como

substância suja e poluente pelas muitas minorias que viviam em áreas

longínquas do império, banheiros externos foram construídos pela primeira

vez, o partido tratando com rudeza as sensibilidades locais. Coletar

excrementos dos banheiros tornou-se tarefa indicada para equipes de

punição.16 O resíduo humano incluía os cabelos e, em aldeias de Guangdong,

as mulheres eram forçadas a raspar a cabeça para contribuir com fertilizante

ou enfrentar o banimento da cantina.17

Mas, na maior parte das vezes, as casas feitas de barro e palha eram

derrubadas para fornecer nutrientes para o solo. Paredes de construções onde

animais haviam vivido e, especialmente, onde urinaram, como estábulos,

podiam fornecer fertilizante útil. A princípio, velhas paredes e choupanas

abandonadas foram destruídas, mas, à medida que a campanha ganhava

impulso, filas inteiras de casas eram sistematicamente arrasadas, e os tijolos

de barro estilhaçados e espalhados nos campos. Em Macheng, aninhado no

sul da cadeia de montanhas Dabie, em Hubei, milhares de casas foram

demolidas para coletar fertilizantes. Em janeiro de 1958, o condado-modelo

foi exaltado por Wang Renzhong, secretário do partido na província, por

chegar a uma produtividade de 6 toneladas de arroz por hectare: “Vamos

aprender com Macheng!”, declarou, arrebatadamente, o Diário do Povo.

Depois de elogiado por Mao por seus canteiros experimentais, Macheng

tornou-se um relicário. Nos meses seguintes, o lugar atraiu meio milhão de

oficiais, incluindo Chu En-lai, o ministro do Exterior Chen Yi e Li Xiannian.

Em agosto, novo recorde foi conquistado, com uma produtividade de 277

toneladas de arroz por hectare: “A Era dos Milagres!”, proclamou a máquina

de propaganda.18

No local de produção, a pressão era incessante, jactâncias loucas e

números falsos competindo por atenção. Em uma comuna de Macheng, a

chefe da Federação das Mulheres tomou a iniciativa: saiu de sua casa e

permitiu que ela fosse transformada em fertilizante. Em dois dias, trezentas

casas, cinquenta estábulos e centenas de galinheiros foram derrubados. No

fim do ano, cerca de 50 mil construções tinham sido destruídas.19 Tentando

superar umas às outras, comunas em todo o país seguiram o exemplo. Em

Dashi, Guangdong, uma comuna também atraiu a atenção do país com seu

“Universidade de 25 toneladas de cereais” e “Lavoura de 5 mil quilos”, com

oficiais locais transformando em pó metade das casas em Xi’er.20 Outra

matéria orgânica abriu caminho nos campos: em partes da província de

Jiangsu, a terra foi coberta com açúcar branco.21

Lavra profunda foi outra receita revolucionária, destinada a libertar os

agricultores do solo caprichoso. Quanto mais profundo o plantio, mais fortes

as raízes e mais grosso o caule, ou assim rezava a lógica por trás desse

experimento. “Usem ondas humanas e revolvam todos os campos”,

comandou Mao.22 Se recolher cascalho com a pá em projetos de irrigação era

pesado, arar a uma profundidade de 40 centímetros a 1 metro — às vezes 3

metros — era totalmente exaustivo. Quando não havia ferramentas, filas de

agricultores cavavam sulcos com as mãos, às vezes ao longo da noite à luz de

tochas. Adulados por oficiais ansiosos para obter a cobiçada bandeira

vermelha, os aldeões, de vez em quando, escavavam a terra até a rocha,

destruindo a camada de solo da superfície. Em setembro de 1958, cerca de 8

milhões de hectares tinham sido arados a uma profundidade de 30

centímetros, mas a liderança exigia mais: no mínimo 60 centímetros de

profundidade.23

A isso se seguiam grandes concentrações de sementes, na busca por

produtividades mais altas. Inicialmente, esses experimentos incompletos

eram feitos em canteiros artificiais, mas, nos anos seguintes, se espalharam

pelos campos sob os olhos atentos de oficiais radicais. Em Diaofang,

Guangdong, até 600 quilos de sementes por hectare foram plantados em áreas

estéreis, montanhosas, no meio da fome em 1960.24 Em outros lugares da

província, os agricultores foram recrutados para semear mais de 250 quilos de

grãos de amendoim em um único hectare: no fim da estação, a produtividade

por hectare foi de apenas 525 quilos de amendoim.25

“Plantio denso” foi a pedra angular do cultivo inovador. Parecia que as

sementes também mostravam espírito revolucionário, as que pertenciam à

mesma classe dividiam a luz e os nutrientes em um esforço de igualdade.

Explicou o presidente Mao: “Com companhia, elas crescem rapidamente;

quando crescerem juntas, estarão mais confortáveis.”26 Com grande

frequência, os agricultores eram instruídos a transplantar brotos de arroz de

faixas adjacentes para o canteiro experimental, apertando bem os

aglomerados. Os agricultores, naturalmente, sabiam das coisas: aravam a terra há gerações e cuidavam de um recurso precioso do qual suas vidas

dependiam. Alguns ficaram incrédulos, outros tentaram argumentar com os

oficiais: “Você planta as sementes próximas demais, não há espaço suficiente

entre elas para respirar; depois, acrescenta 10 toneladas de fertilizantes por

campo. Isso vai sufocá-las.” Mas o conselho foi ignorado: “É uma técnica

nova, você não compreende!”27

A maioria dos agricultores, após testemunhar uma série de campanhas

antidireitistas desde 1957, tinha muito cuidado para nunca objetar em

público. Todo sobrevivente entrevistado para este livro contou história

semelhante: “Sabíamos da situação, mas ninguém ousava dizer coisa alguma.

Se você dissesse, eles espancavam você. O que podíamos fazer?”28 Outro

explicou: “Tínhamos que seguir o que o governo dissesse, fosse o que fosse. Se

eu falasse alguma coisa errada, se o que dissesse fosse contra a linha geral,

então eu seria rotulado de direitista. Ninguém ousava dizer nada.” 29 O que

aconteceu em uma aldeia no condado de Quxian, Zhejiang, é um bom

exemplo: grandes caldeirões de mingau foram colocados nos campos e

ninguém tinha permissão para sair, fossem mães grávidas que precisavam

alimentar seus filhos, fossem pessoas idosas precisando de repouso. As

pessoas tiveram que trabalhar durante toda a noite, pois os oficiais haviam

bloqueado todas as saídas para a aldeia. Aqueles que objetavam ao plantio

denso eram espancados pelos ativistas do partido. Um velho teimoso que

falhou em demonstrar entusiasmo foi arrastado pelo cabelo e teve o rosto

enfiado dentro de uma vala. Depois, os agricultores receberam ordem de

arrancar as mudas e começar tudo de novo.30

As visitas eram cuidadosamente orquestradas. Em Macheng, os

agricultores foram avisados para nunca dizer nada ruim sobre o Grande Salto

Adiante na frente dos visitantes. Wang Renzhong inspecionou os campos e

viu agricultores devorando montículos de arroz, cuidadosamente dispostos

para a sua visita.31 Em Xushui, Zhang Guozhong, um militar, assegurou de

forma cruel que a imagem apresentada ao mundo exterior não tivesse falhas:

os elementos indesejáveis desapareceram em um elaborado sistema de

campos de trabalho que se estendia do condado a cada comuna, brigada e equipe de produção. Para “estimular a produção”, preguiçosos desfilavam

antes de serem trancafiados: cerca de 7 mil pessoas foram presas entre 1958 e

1960.32 Em Luoding, Guangdong, comitês de inspeção que visitavam a

comuna de Liantan, no fim de 1958, foram recepcionados por um grupo de

garotas, perfumes caros, toalhas brancas e luxuoso banquete de dezesseis

pratos. Dezenas de fazendeiros trabalharam durante dias a fio para esculpir

um imenso slogan de elogio às comunas, na encosta da montanha.33

Disseram a Li Zhisui, que acompanhava Mao em suas visitas, que os

agricultores tinham recebido ordem de transplantar as mudas de arroz ao

longo da estrada que estava na rota de Mao para dar a impressão de uma

colheita excepcionalmente grande. O médico comentou que “toda a China

era um palco, todas as pessoas, artistas, em uma obra artística espetacular

para Mao”.34 Mas, na realidade, uma ditadura nunca tem um só ditador e sim

muitas pessoas desejosas de brigar pelo poder com quem está acima delas. O

país estava cheio de mandões locais, cada um tentava enganar o que estava

acima para que acreditasse que suas conquistas eram genuínas.

Mao ficou deliciado. À medida que relatórios chegavam de todo o país

sobre novos recordes na produção de arroz, trigo ou amendoim, ele começou

a se perguntar o que fazer com todo esse excedente de comida. Em 4 de

agosto de 1958, em Xushui, ao lado de Zhang Guozhong, cercado de

jornalistas, trabalhando nos campos com chapéu de palha e sapatos de

algodão, Mao sorriu radiante: “Como vão comer tanto grão? O que vão fazer

com o excedente?”

“Podemos trocar por maquinário”, respondeu Zhang, depois de uma

pausa para pensar.

“Mas vocês não são os únicos que têm excedente, outros também têm

muito grão! Ninguém vai querer o seu grão!”, disparou Mao de volta com

sorriso benevolente.

“Podemos fazer bebida alcoólica das raízes”, sugeriu outro oficial.

“Mas todos os condados farão bebida alcoólica! De quantas toneladas de

bebida vocês precisam?”, meditou Mao. “Com tanto grão, no futuro vocês

deveriam plantar menos, trabalhar metade do tempo e dedicar o resto do tempo à cultura e às atividades de lazer, abrir escolas e uma universidade, não

acham? [...] Vocês deveriam comer mais. Até cinco refeições por dia é

bom!”35

Afinal, a China encontrara um caminho para sair da pobreza opressiva,

resolver o problema da fome e produzir mais comida do que as pessoas

poderiam comer. À medida que relatórios vinham de todas as partes do país

indicando uma colheita excepcional, duas vezes maior que a do ano anterior,

outros líderes se juntavam ao coro. Tan Zhenlin, responsável pela agricultura,

viajou pelas províncias para entusiasmar a liderança local. Ele compartilhou a

visão de Mao de uma cornucópia comunista em que agricultores jantavam

iguarias, como ninhos de andorinha; usavam seda, cetim e peles de raposa, e

viviam em arranha-céus com água encanada e televisão. Cada condado teria

um aeroporto.36 Tan até explicou como a China conseguira deixar a União

Soviética para trás: “Alguns camaradas se perguntarão como conseguimos ser

tão rápidos, uma vez que a União Soviética ainda pratica o socialismo em vez

do comunismo. A diferença é que nós temos uma ‘revolução contínua’. A

União Soviética não a tem, ou a segue frouxamente [...]. Comunização é a

revolução comunista!”37 Chen Yi, por seu turno, opinou que, uma vez que

seria possível estocar grãos suficientes nos dois anos seguintes, então os

agricultores poderiam parar de cultivar safras por duas estações e devotar seu

tempo a construir casas com todos os confortos modernos.38 Os líderes locais

compartilhavam o mesmo entusiasmo. Em janeiro de 1959, o Conselho de

Estado teve que deter um dilúvio de pessoas, cartas e presentes enviados por

comunas a Pequim para atestar os novos recordes na agricultura. O

presidente estava inundado.39