A Grande Fome de Mao
5. Lançando
5
Lançando sputniks
Gráficos com metas ascendentes, muito bem desenhados com diagramas
coloridos em código, contrastavam enormemente com os campos da morte.
À medida que as metas subiam sem parar em todos os domínios concebíveis,
da produção de cereais e de aço ao número de poços cavados no campo, um
abismo escuro aparecia entre o mundo de slogans e a realidade da vida das
pessoas. Por trás da pressão que produzia esse hiato estava a mão de Mao. Em
correspondência informal, ele alfinetava e adulava os chefes locais para que
estes se comprometessem com metas de produção ainda maiores.
Zhou Xiaozhou, o cauteloso líder de Hunan, terra natal de Mao, foi um
dos primeiros a sofrer censura. “Por que Hunan não pode aumentar a
produção agrícola?”, perguntou Mao, em visita à capital provincial,
Changsha. “Por que os agricultores de Hunan ainda plantam apenas uma
safra de arroz por ano?” Depois que Zhou explicou que o clima permitia
apenas uma safra de arroz por ano, Mao observou que Zhejiang estava na
mesma latitude que Hunan e plantava duas safras de arroz. “Você não está
nem estudando experiências. Esse é o problema”, continuou Mao.
“Estudaremos a questão, então”, disse Zhou, humildemente.
“O que você quer dizer com estudar?”, exigiu Mao. “Vocês não chegarão a
lugar algum com seu estudo. Pode ir agora”, acrescentou, despedindo o líder
do partido. Abriu um livro e começou a ler.
Humilhado, Zhou, então, prometeu: “Tentaremos iniciar dois plantios
imediatamente.” Mao o ignorou.1
Poucos meses depois, quando o representante de Zhou se encontrou com
o presidente em Pequim, Mao teceu elogios a Henan em vez de a Hunan.
Henan produzia metade do trigo do país: “O que você acha disso?” Depois,
compartilhou seu desapontamento com Hunan. Luxemburgo tinha uma
população de 300 mil, mas produzia 3 milhões de toneladas de aço por ano.
Agora, quantas pessoas havia em Hunan?2
Mao mandou aliados próximos martelarem a mensagem em sua terra.
Assim como Deng Xiaoping era o confiável lugar-tenente na campanha
contra os direitistas, Tan Zhenlin era um fanático responsável pela
agricultura. Homem pequeno, encimado por uma moita de cabelos espessos,
óculos de lentes grossas e lábios grandes e salientes, era um seguidor de Mao e
aliado de Ke Qingshi, a estrela em ascensão de Xangai. Tan Zhenlin foi
descrito por um ex-colega como homem sarcástico, cruelmente voltado
apenas para sua missão.3 Seu conselho para os camaradas convocados pelo
presidente era proferir instantaneamente uma autocrítica, estivessem ou não
em falta.4 Tan passava meses viajando pelo campo, aumentando a pressão por
trás do Grande Salto Adiante. Não ficou impressionado com o que viu em
Hunan, uma província que considerava preguiçosa.5 Quando ameaçou
denunciá-la como politicamente reacionária, um relutante Zhou Xiaozhou
começou a inflar os números das safras.6
Fora dos corredores do poder, onde encontros pessoais aconteciam, o
telefone era usado para manter a pressão. Em um país do tamanho da China,
era natural que um líder mantivesse contato com seus subordinados sem
importar a distância física. No frenesi para produzir mais aço, Xie Fuzhi
telefonava para Yunnan a fim de convencer os secretários do partido do
perigo de ficar atrás dos vizinhos Guangxi e Guizhou.7 Os secretários do
partido, por sua vez, recebiam atualizações frequentes do ministro da
Metalurgia. Em 4 de setembro de 1958, por exemplo, os resultados mais
recentes foram informados por telefonema de Pequim.8 Então, em 6 de
setembro, um discurso de Mao foi transmitido em uma conferência
telefônica, seguida de uma conversa sobre metas para o aço por Bo Yibo em 8 de setembro; por Peng Zhen, em 11 de setembro; e por Wang Heshou, em 16
de setembro. Nesse meio-tempo, incontáveis outras conferências sobre
agricultura, indústria e coletivização eram feitas por telefone da capital.9 Com
quanta frequência o telefone era usado, não sabemos, mas, no auge da
campanha, um oficial local na comuna de Guangdong calculou que cerca de
noventa conferências telefônicas haviam acontecido durante uma única
estação em 1960 para assegurar que o plantio fosse denso (semear mais
densamente na esperança de que a safra aumentasse) — também conhecido
como safra densa.10
A pressão também se mantinha por meio de encontros partidários
voltados para isso e convocados por Mao, que dominava a pauta para
promover novos temas ideológicos e aumentar as metas de produção.11 Bo
Yibo — um dos planejadores repreendidos por Mao por se opor ao aumento
da produção — contribuiu demais para o frenesi quando substituiu um único
conjunto de metas nacionais por um sistema de planejamento duplo, no
encontro de Nanning, em janeiro de 1958. Aos dois conjuntos, Mao
acrescentou um terceiro. Funcionava assim: o ponto essencial era ter um
conjunto de metas a serem alcançadas, enquanto apenas se esperava que o
segundo plano fosse cumprido. O segundo plano era entregue às províncias e
se tornava para elas o primeiro conjunto de metas que tinham de ser atingidas
a todo custo. As províncias, então, eram solicitadas a ter um segundo plano,
que refletisse o que esperavam que fosse alcançado, perfazendo três planos no
total. O sistema era repassado aos condados, acrescentando-se, de fato, um
quarto conjunto de metas, ou plano de produção. Como as metas nacionais
eram incessantemente revisadas para cima em encontros do partido, todo o
sistema de metas definidas e desejadas criava uma orgia de inflação até a
aldeia, resultando em um grande salto nas metas.12
Um processo de emulação aumentou ainda mais a tensão política. Mao
não apenas denegria colegas tímidos e elogiava os mais radicais à vista de seus
subordinados, como também era inclinado a comparar tudo e todos com
alguma coisa mais para elevar o espírito competitivo. Hunan foi justaposta a
Luxemburgo na produção de aço; a China era colocada ao lado da Grã-Bretanha quando se tratava da produção industrial; Gansu era colocada
contra Henan no esforço de irrigação. Isso também foi consagrado nas
diretrizes que Mao distribuiu aos líderes do partido em Nanning: para
impulsionar o espírito competitivo, toda a nação devia envolver-se em
comparações. Revisões regulares em encontros intermináveis em todos os
níveis conferiam três categorias de designação para províncias, cidades,
condados, comunas, fábricas e, até, indivíduos, todas com base em suas
realizações. Uma “bandeira vermelha” era concedida aos julgados avançados,
uma “bandeira cinza” era dada aos considerados medíocres, e uma “bandeira
branca” era a punição para os atrasados. Distribuídas durante encontros após
o trabalho, essas designações simbólicas, algumas vezes desenhadas em um
quadro-negro ao lado do nome de uma unidade, tinham o poder de
envergonhar, em uma sociedade em que até a mais leve falta de entusiasmo
podia levar alguém a ser rotulado de direitista. Todo o país se tornou um
universo de normas, cotas e metas das quais era quase impossível escapar,
enquanto alto-falantes gritavam slogans, oficiais verificavam e avaliavam o
trabalho, e comitês classificavam e davam notas interminavelmente para o
mundo em torno deles. E a classificação do desempenho individual passaria
crescentemente a determinar o tipo de tratamento concedido — até a concha
de mingau na cantina em tempos de fome. Mao era claro: “Comparem: como
deveríamos comparar? O que chamamos ‘comparação’ [bi] é realmente
‘compulsão’ [ 13 bi ].” Um funcionário de condado recordou a experiência
assim:
Naquele ano, juntamos todas as mãos capazes para trabalhar na escavação de poços de água,
deixando a lavoura da primavera sem cuidar. O comitê do partido da prefeitura realizou um
encontro pingbi [avaliação e comparação], em que recebemos uma “bandeira vermelha” pela
escavação dos poços e uma “bandeira branca” pela lavoura da primavera. Voltei ao comitê do
partido do condado para relatar isso e fui censurado pelo secretário do partido: “Mas como você
pôde partir com uma bandeira vermelha e voltar com uma bandeira branca!” Percebi que o
problema era muito sério. Eu mesmo poderia ser tomado como um “bandeira branca”. Assim,
tive que deixar minha mulher grávida chorando; ela daria à luz logo, e minha irmã moribunda,
infectada com tétano, para voltar ao local de trabalho nas montanhas.14
* * *
Logo, toda a China era presa da febre de metas, à medida que números
fantásticos para a produção agrícola e industrial competiam por atenção. Os
números eram trombeteados em encontros do partido e divulgados por uma
máquina de propaganda poderosa, que cobria de glória os líderes por trás dos
recordes mais recentes. Os números eram estratosféricos. Usava-se a
expressão “lançar um sputnik” quando se conseguia um novo recorde —
homenagem ao primeiro satélite lançado ao espaço pelo campo socialista no
ano anterior. “Lançar um sputnik”, “unir-se ao partido em combate”,
“trabalhar duro durante alguns dias e noites” eram formas de conseguir uma
bandeira vermelha. Em Chayashan, Henan, que logo se tornaria a primeira
comuna do povo (conhecida como “Comuna Sputnik”), uma meta de 4.200
quilos de trigo por hectare foi estabelecida em fevereiro de 1958. Enquanto 6
mil ativistas percorriam o campo com um rio de bandeiras, cartazes, panfletos
e palavras de ordem, as metas iam sendo exacerbadas. No fim do ano,
prometia-se um nível inteiramente fictício de 37,5 toneladas por hectare.15
Muitos desses recordes eram conquistados em “campos de sputnik”,
canteiros experimentais de alta produtividade cuidados em segredo por
oficiais locais ávidos de estabelecer novos recordes. Esses canteiros eram, em
geral, limitados a uma pequena faixa de terra em uma fazenda coletiva, mas
funcionavam como mostruário de novas técnicas agrícolas que encontravam
aplicação muito mais ampla. Aumentar a produtividade estimulou a corrida
por fertilizantes. Todo tipo concebível de nutriente foi jogado nos campos,
desde ervas marinhas dragadas do mar e lixo resgatado de pilhas de refugos
até fuligem raspada de chaminés. Fezes humanas e de animais eram
carregadas para os campos por filas intermináveis de pessoas, às vezes até
tarde da noite. Onde os excrementos eram tradicionalmente vistos como
substância suja e poluente pelas muitas minorias que viviam em áreas
longínquas do império, banheiros externos foram construídos pela primeira
vez, o partido tratando com rudeza as sensibilidades locais. Coletar
excrementos dos banheiros tornou-se tarefa indicada para equipes de
punição.16 O resíduo humano incluía os cabelos e, em aldeias de Guangdong,
as mulheres eram forçadas a raspar a cabeça para contribuir com fertilizante
ou enfrentar o banimento da cantina.17
Mas, na maior parte das vezes, as casas feitas de barro e palha eram
derrubadas para fornecer nutrientes para o solo. Paredes de construções onde
animais haviam vivido e, especialmente, onde urinaram, como estábulos,
podiam fornecer fertilizante útil. A princípio, velhas paredes e choupanas
abandonadas foram destruídas, mas, à medida que a campanha ganhava
impulso, filas inteiras de casas eram sistematicamente arrasadas, e os tijolos
de barro estilhaçados e espalhados nos campos. Em Macheng, aninhado no
sul da cadeia de montanhas Dabie, em Hubei, milhares de casas foram
demolidas para coletar fertilizantes. Em janeiro de 1958, o condado-modelo
foi exaltado por Wang Renzhong, secretário do partido na província, por
chegar a uma produtividade de 6 toneladas de arroz por hectare: “Vamos
aprender com Macheng!”, declarou, arrebatadamente, o Diário do Povo.
Depois de elogiado por Mao por seus canteiros experimentais, Macheng
tornou-se um relicário. Nos meses seguintes, o lugar atraiu meio milhão de
oficiais, incluindo Chu En-lai, o ministro do Exterior Chen Yi e Li Xiannian.
Em agosto, novo recorde foi conquistado, com uma produtividade de 277
toneladas de arroz por hectare: “A Era dos Milagres!”, proclamou a máquina
de propaganda.18
No local de produção, a pressão era incessante, jactâncias loucas e
números falsos competindo por atenção. Em uma comuna de Macheng, a
chefe da Federação das Mulheres tomou a iniciativa: saiu de sua casa e
permitiu que ela fosse transformada em fertilizante. Em dois dias, trezentas
casas, cinquenta estábulos e centenas de galinheiros foram derrubados. No
fim do ano, cerca de 50 mil construções tinham sido destruídas.19 Tentando
superar umas às outras, comunas em todo o país seguiram o exemplo. Em
Dashi, Guangdong, uma comuna também atraiu a atenção do país com seu
“Universidade de 25 toneladas de cereais” e “Lavoura de 5 mil quilos”, com
oficiais locais transformando em pó metade das casas em Xi’er.20 Outra
matéria orgânica abriu caminho nos campos: em partes da província de
Jiangsu, a terra foi coberta com açúcar branco.21
Lavra profunda foi outra receita revolucionária, destinada a libertar os
agricultores do solo caprichoso. Quanto mais profundo o plantio, mais fortes
as raízes e mais grosso o caule, ou assim rezava a lógica por trás desse
experimento. “Usem ondas humanas e revolvam todos os campos”,
comandou Mao.22 Se recolher cascalho com a pá em projetos de irrigação era
pesado, arar a uma profundidade de 40 centímetros a 1 metro — às vezes 3
metros — era totalmente exaustivo. Quando não havia ferramentas, filas de
agricultores cavavam sulcos com as mãos, às vezes ao longo da noite à luz de
tochas. Adulados por oficiais ansiosos para obter a cobiçada bandeira
vermelha, os aldeões, de vez em quando, escavavam a terra até a rocha,
destruindo a camada de solo da superfície. Em setembro de 1958, cerca de 8
milhões de hectares tinham sido arados a uma profundidade de 30
centímetros, mas a liderança exigia mais: no mínimo 60 centímetros de
profundidade.23
A isso se seguiam grandes concentrações de sementes, na busca por
produtividades mais altas. Inicialmente, esses experimentos incompletos
eram feitos em canteiros artificiais, mas, nos anos seguintes, se espalharam
pelos campos sob os olhos atentos de oficiais radicais. Em Diaofang,
Guangdong, até 600 quilos de sementes por hectare foram plantados em áreas
estéreis, montanhosas, no meio da fome em 1960.24 Em outros lugares da
província, os agricultores foram recrutados para semear mais de 250 quilos de
grãos de amendoim em um único hectare: no fim da estação, a produtividade
por hectare foi de apenas 525 quilos de amendoim.25
“Plantio denso” foi a pedra angular do cultivo inovador. Parecia que as
sementes também mostravam espírito revolucionário, as que pertenciam à
mesma classe dividiam a luz e os nutrientes em um esforço de igualdade.
Explicou o presidente Mao: “Com companhia, elas crescem rapidamente;
quando crescerem juntas, estarão mais confortáveis.”26 Com grande
frequência, os agricultores eram instruídos a transplantar brotos de arroz de
faixas adjacentes para o canteiro experimental, apertando bem os
aglomerados. Os agricultores, naturalmente, sabiam das coisas: aravam a terra há gerações e cuidavam de um recurso precioso do qual suas vidas
dependiam. Alguns ficaram incrédulos, outros tentaram argumentar com os
oficiais: “Você planta as sementes próximas demais, não há espaço suficiente
entre elas para respirar; depois, acrescenta 10 toneladas de fertilizantes por
campo. Isso vai sufocá-las.” Mas o conselho foi ignorado: “É uma técnica
nova, você não compreende!”27
A maioria dos agricultores, após testemunhar uma série de campanhas
antidireitistas desde 1957, tinha muito cuidado para nunca objetar em
público. Todo sobrevivente entrevistado para este livro contou história
semelhante: “Sabíamos da situação, mas ninguém ousava dizer coisa alguma.
Se você dissesse, eles espancavam você. O que podíamos fazer?”28 Outro
explicou: “Tínhamos que seguir o que o governo dissesse, fosse o que fosse. Se
eu falasse alguma coisa errada, se o que dissesse fosse contra a linha geral,
então eu seria rotulado de direitista. Ninguém ousava dizer nada.” 29 O que
aconteceu em uma aldeia no condado de Quxian, Zhejiang, é um bom
exemplo: grandes caldeirões de mingau foram colocados nos campos e
ninguém tinha permissão para sair, fossem mães grávidas que precisavam
alimentar seus filhos, fossem pessoas idosas precisando de repouso. As
pessoas tiveram que trabalhar durante toda a noite, pois os oficiais haviam
bloqueado todas as saídas para a aldeia. Aqueles que objetavam ao plantio
denso eram espancados pelos ativistas do partido. Um velho teimoso que
falhou em demonstrar entusiasmo foi arrastado pelo cabelo e teve o rosto
enfiado dentro de uma vala. Depois, os agricultores receberam ordem de
arrancar as mudas e começar tudo de novo.30
As visitas eram cuidadosamente orquestradas. Em Macheng, os
agricultores foram avisados para nunca dizer nada ruim sobre o Grande Salto
Adiante na frente dos visitantes. Wang Renzhong inspecionou os campos e
viu agricultores devorando montículos de arroz, cuidadosamente dispostos
para a sua visita.31 Em Xushui, Zhang Guozhong, um militar, assegurou de
forma cruel que a imagem apresentada ao mundo exterior não tivesse falhas:
os elementos indesejáveis desapareceram em um elaborado sistema de
campos de trabalho que se estendia do condado a cada comuna, brigada e equipe de produção. Para “estimular a produção”, preguiçosos desfilavam
antes de serem trancafiados: cerca de 7 mil pessoas foram presas entre 1958 e
1960.32 Em Luoding, Guangdong, comitês de inspeção que visitavam a
comuna de Liantan, no fim de 1958, foram recepcionados por um grupo de
garotas, perfumes caros, toalhas brancas e luxuoso banquete de dezesseis
pratos. Dezenas de fazendeiros trabalharam durante dias a fio para esculpir
um imenso slogan de elogio às comunas, na encosta da montanha.33
Disseram a Li Zhisui, que acompanhava Mao em suas visitas, que os
agricultores tinham recebido ordem de transplantar as mudas de arroz ao
longo da estrada que estava na rota de Mao para dar a impressão de uma
colheita excepcionalmente grande. O médico comentou que “toda a China
era um palco, todas as pessoas, artistas, em uma obra artística espetacular
para Mao”.34 Mas, na realidade, uma ditadura nunca tem um só ditador e sim
muitas pessoas desejosas de brigar pelo poder com quem está acima delas. O
país estava cheio de mandões locais, cada um tentava enganar o que estava
acima para que acreditasse que suas conquistas eram genuínas.
Mao ficou deliciado. À medida que relatórios chegavam de todo o país
sobre novos recordes na produção de arroz, trigo ou amendoim, ele começou
a se perguntar o que fazer com todo esse excedente de comida. Em 4 de
agosto de 1958, em Xushui, ao lado de Zhang Guozhong, cercado de
jornalistas, trabalhando nos campos com chapéu de palha e sapatos de
algodão, Mao sorriu radiante: “Como vão comer tanto grão? O que vão fazer
com o excedente?”
“Podemos trocar por maquinário”, respondeu Zhang, depois de uma
pausa para pensar.
“Mas vocês não são os únicos que têm excedente, outros também têm
muito grão! Ninguém vai querer o seu grão!”, disparou Mao de volta com
sorriso benevolente.
“Podemos fazer bebida alcoólica das raízes”, sugeriu outro oficial.
“Mas todos os condados farão bebida alcoólica! De quantas toneladas de
bebida vocês precisam?”, meditou Mao. “Com tanto grão, no futuro vocês
deveriam plantar menos, trabalhar metade do tempo e dedicar o resto do tempo à cultura e às atividades de lazer, abrir escolas e uma universidade, não
acham? [...] Vocês deveriam comer mais. Até cinco refeições por dia é
bom!”35
Afinal, a China encontrara um caminho para sair da pobreza opressiva,
resolver o problema da fome e produzir mais comida do que as pessoas
poderiam comer. À medida que relatórios vinham de todas as partes do país
indicando uma colheita excepcional, duas vezes maior que a do ano anterior,
outros líderes se juntavam ao coro. Tan Zhenlin, responsável pela agricultura,
viajou pelas províncias para entusiasmar a liderança local. Ele compartilhou a
visão de Mao de uma cornucópia comunista em que agricultores jantavam
iguarias, como ninhos de andorinha; usavam seda, cetim e peles de raposa, e
viviam em arranha-céus com água encanada e televisão. Cada condado teria
um aeroporto.36 Tan até explicou como a China conseguira deixar a União
Soviética para trás: “Alguns camaradas se perguntarão como conseguimos ser
tão rápidos, uma vez que a União Soviética ainda pratica o socialismo em vez
do comunismo. A diferença é que nós temos uma ‘revolução contínua’. A
União Soviética não a tem, ou a segue frouxamente [...]. Comunização é a
revolução comunista!”37 Chen Yi, por seu turno, opinou que, uma vez que
seria possível estocar grãos suficientes nos dois anos seguintes, então os
agricultores poderiam parar de cultivar safras por duas estações e devotar seu
tempo a construir casas com todos os confortos modernos.38 Os líderes locais
compartilhavam o mesmo entusiasmo. Em janeiro de 1959, o Conselho de
Estado teve que deter um dilúvio de pessoas, cartas e presentes enviados por
comunas a Pequim para atestar os novos recordes na agricultura. O
presidente estava inundado.39