A Grande Fome de Mao
14. O racha sino-soviético
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O racha sino-soviético
Mikhail Klochko recebeu um telegrama para retornar em 16 de julho de 1960.
Junto com cerca de 1.500 conselheiros soviéticos e 2.500 dependentes,
recebeu ordens de arrumar as malas e deixar a embaixada em Pequim. Seus
anfitriões foram corteses até o fim, instruídos para prestar-lhe assistência —
bem como obter, por todos os meios, a informação técnica que os russos
ainda não haviam entregado.1 Em um banquete para os conselheiros que
partiam, o ministro das Relações Exteriores, Chen Yi, agradeceu-lhes
calorosamente pela imensa ajuda e lhes desejou boa saúde. Em um tom mais
azedo, um delegado soviético queixou-se: “Fizemos tanto por vocês, e vocês
não estão felizes.”2
Depois que Mao iniciou uma crise internacional ao bombardear Quemoy e
Matsu dois anos antes, Kruschev começou a reconsiderar sua oferta de
entregar uma amostra de bomba atômica à China. As conversações sobre
desarmamento nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos o levaram
a adiar o cumprimento de sua promessa e, em junho de 1959, finalmente a
renegou por completo.3 Em setembro de 1959, em uma reunião de cúpula
entre Estados Unidos e União Soviética, Kruschev concordou em reduzir para
um milhão o total de soldados soviéticos, buscando uma aproximação maior
com os Estados Unidos. As relações com a China se deterioraram mais ainda
quando Kruschev visitou Pequim meses depois para comemorar o 10º aniversário da República Popular. A delegação soviética entrou em choque
com seus anfitriões em uma série de questões, inclusive a disputa de fronteira
entre China e Índia, quando Moscou tentou agir como mediadora entre os
dois países em vez de apoiar sua aliada Pequim. Na primavera de 1960,
Pequim começou a desafiar Moscou abertamente pelo direito de liderar o
campo socialista e denunciou Kruschev em termos crescentemente injuriosos
por seu “revisionismo” e sua busca de “paz com imperialistas”.4 Irado, o líder
soviético retaliou, retirando todos os conselheiros soviéticos da China.5
A retirada foi um golpe para Mao. Ela levou ao colapso das relações
econômicas entre os dois países, ao cancelamento de muitos projetos de
grande escala e ao esfriamento das transferências de tecnologia militar de alta
capacidade. Como Jung Chang e Jon Halliday destacam em Mao: a história
desconhecida, a população deveria beneficiar-se desses cancelamentos, pois
menos comida teria de ser exportada para pagar projetos dispendiosos.6
Todavia, embora os acordos permitissem que o pagamento da dívida fosse
feito em mais de dezesseis anos, Mao insistiu em pagar antes do prazo: “Os
tempos ficaram realmente pesados em Yan’an [durante a guerra]; comíamos
pimenta vermelha e ninguém morreu, e agora que as coisas estão muito
melhores que naqueles dias, queremos apertar o cinto e tentar pagar em cinco
anos.”7 Em 5 de agosto de 1960, até mesmo antes de ser completada a partida
de todos os especialistas soviéticos, líderes provinciais foram advertidos por
telefone de que o país não estava exportando o suficiente e rumava para um
déficit no balanço de pagamentos de 2 bilhões de yuans. Todo esforço deveria
ser feito para honrar a dívida com a União Soviética em dois anos, e isso teria
que ser realizado por um aumento ao máximo possível da exportação de
grãos, algodão e óleos comestíveis.8
A verdadeira escala dos pagamentos antecipados para a União Soviética só
veio à luz com a abertura dos arquivos no Ministério das Relações Exteriores
em Pequim, onde um exército de contadores mantinha registros detalhados
de como as mudanças na taxa de câmbio, as alterações na relação rublo/ouro,
as renegociações de acordos comerciais e o cálculo das taxas de juros
afetavam os pagamentos para a União Soviética. Eles mostram que Moscou emprestou cerca de 968,6 milhões de rublos a Pequim entre 1950 e 1955 (sem
incluir juros). Quando os especialistas foram chamados de volta, ainda eram
devidos 430,3 milhões.9 Mas, como consequência do déficit comercial, mais
empréstimos foram contratados nos anos seguintes e, por volta do fim de
1962, o total devido por Pequim estava em 1,407 bilhão de rublos (1,275
bilhão em empréstimos, mais juros estimados em 132 milhões). Cerca de
1,269 bilhão desse total estava amortizado em 1962.10 Em outras palavras,
apesar de a dívida total aumentar de 968 milhões para 1,407 bilhão de rublos,
a China conseguiu pagar mais ou menos meio bilhão entre 1960 e 1962,
enquanto dezenas de milhões de chineses morriam de fome. Pode ser que esse
volume seja, na realidade, menor, pois o número para 1960 não incluiu os
juros presumivelmente pagos além do capital, mas, mesmo que se permita
uma correção de 10%, permanece o fato de grandes somas de dinheiro terem
sido pagas à União Soviética. Em 1960, cerca de 160 milhões de rublos foram
enviados para quitar parte da dívida, enquanto, em 1962, cerca de 172
milhões de rublos foram devolvidos (falta o número para 1961, mas é
provável que seja semelhante).11 Grandes volumes de exportações também
foram usados para amortizar a dívida, o que significou que, no fim de 1962, a
China devia à União Soviética apenas 138 milhões de rublos: a China insistiu
em pagar 97 milhões em 1963 e quitou a dívida em 1965.12
Mas os russos nunca pediram pagamento acelerado. Ao contrário, fizeram
acordo, em abril de 1961, de que 288 milhões de rublos em saldo credor
deveriam ser refinanciados como crédito novo, com pagamento em quatro
anos. A primeira parcela, de não mais de 8 milhões, seria paga em 1962.13
Como a moratória do déficit comercial funcionava como empréstimo não
planejado, isso, na realidade, significou que a China recebeu mais ajuda
econômica da União Soviética do que qualquer outro país recebeu em um só
ano até o presente.14
O dano real para a economia pela retirada dos especialistas foi pequeno,
pois poucos especialistas civis trabalhavam na agricultura. E, mesmo que
alguns projetos industriais se atrasassem por causa da retirada dos
especialistas, a economia, a essa altura, já estava em sérios problemas. Mas Mao, convenientemente, culpou a União Soviética pelo colapso econômico da
China e iniciou um dos mais duradouros mitos sobre a fome, ou seja, que a
fome era causada pela pressão soviética pelo pagamento da dívida. Já em
novembro de 1960, a China invocou catástrofes naturais, assim como o
imenso dano causado a toda a economia pela retirada soviética, para explicar
atrasos na entrega de alimentos para a Alemanha Oriental.15 Em 1964,
Mikhail Suslov, o principal ideólogo em política externa em Moscou,
observou que a China culpava a União Soviética pela fome.16 Até o dia de
hoje, quando pessoas comuns, sobreviventes da fome, são perguntadas sobre
o que, na opinião delas, causou a inanição em massa, a resposta
invariavelmente aponta para a União Soviética. Assim explicou a fome um
agricultor de Shajing, perto da fronteira com Hong Kong, em entrevista
recente: “O governo devia à União Soviética uma imensa soma de dinheiro e
precisava pagar os empréstimos. Uma grande soma em empréstimos. Então,
toda a produção do campo tinha que ser entregue. Todo o gado e os grãos
tinham que ser entregues para o governo pagar os empréstimos com a União
Soviética. A União Soviética forçou a China a pagar os empréstimos.”17
A retirada dos técnicos apressou a adoção de políticas na China destinadas
a enfrentar a fome? Poucos observadores, até hoje, veem isso por esse ângulo.
Kruschev é redondamente censurado por ter dado um tiro no pé: da noite
para o dia, o líder soviético jogou fora qualquer influência que tivesse sobre a
China. Especialmente sarcásticos com seu líder, foram os diplomatas russos
que serviam em Pequim na época; por exemplo, Stepan Chervonenko e Lev
Deliusin, que prezavam a “relação especial” de seu país com a China — e
assim suas próprias posições como mediadores entre os países.18 O próprio
Kruschev certamente não tinha nenhum objetivo em mente. Provavelmente,
esperava que a China, humilhada, voltasse à mesa para renegociar em termos
mais amenos para a União Soviética. Mas, fosse ou não intenção dele, o
movimento de Kruschev contribuiu para isolar Mao ainda mais e atingi-lo
exatamente quando os relatórios vinham de todas as partes do país sobre os
efeitos da inanição em massa. Na verdade, Mao ficou tão deprimido no verão
de 1960 que caiu de cama, aparentemente incapaz de confrontar as notícias
adversas. 19 Estava recolhido e tentava encontrar uma solução para o impasse.