A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 25 de 43

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A Grande Fome de Mao

23. Rodando e negociando

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Rodando e negociando

 

Qualquer que fosse a posição na hierarquia social, todos praticamente, de alto

a baixo, subvertiam o sistema de distribuição e secretamente davam livre

curso ao mesmo objetivo de lucro que o partido tentava eliminar. À medida

que a fome se alastrava, a sobrevivência de uma pessoa comum passou a

depender crescentemente da habilidade de mentir, seduzir, esconder, roubar,

enganar, pilhar, saquear, contrabandear, negligenciar, trapacear, manipular

ou defraudar de outra maneira o Estado.

Mas ninguém podia navegar por conta própria na economia. Em uma

nação de guardiões do portão, os obstáculos estavam em toda parte, uma vez

que qualquer um podia obstruir qualquer um, do intratável zelador de um

bloco de apartamentos ao macambúzio vendedor de passagens do outro lado

do vidro do balcão de uma estação ferroviária. Tão prolíficas e complexas

eram as regras e os regulamentos que transpassavam o sistema, que até

mesmo o mais baixo dos funcionários de departamento estava investido de

um poder tirânico e discricionário. A mais simples das transações — comprar

uma passagem, trocar um cupom, entrar em um prédio — podia tornar-se

um pesadelo quando diante de um defensor de regras. Poder pequeno

corrompia gente pequena, que proliferava nos níveis mais baixos da

economia planificada, tomando decisões arbitrárias e caprichosas sobre bens

e serviços de fornecimento escasso que coincidiam estar sob seu controle. E,

mais acima na cadeia de comando, quanto maior o poder, mais perigoso o abuso.

Era preciso ter uma rede de contatos pessoais e ligações sociais para

conseguir que fossem feitas as coisas mais simples. Pedir a um amigo

proeminente que ajudasse era sempre mais fácil que se aproximar de um

funcionário desconhecido que podia ser devotado aos detalhes do

procedimento administrativo e não ver razão para conferir um benefício a um

estranho. Qualquer ligação era preferível a não ter nenhuma, pois era mais

provável que um antigo vizinho, um colega de outros tempos, um colega de

escola ou até um colega de um colega recebesse bem uma solicitação, olhasse

para o outro lado, resistisse à lei ou quebrasse uma regra. Nos níveis mais

altos do poder, amigos influentes podiam ajudar a assegurar fundos estatais,

evitar o pagamento de impostos ou ter acesso a recursos escassos. Em todos

os níveis as pessoas expandiam suas redes sociais trocando favores, presentes

e pagando propinas. E cuidando dos parentes. Mu Xingwu, chefe de uma

unidade de estocagem em Xangai, recrutou dezenove parentes para trabalhar

sob suas ordens. Metade da força de trabalho era aparentada: aqui estava uma

base sólida para transacionar com os bens que ele deveria salvaguardar.1 Em

todo lugar, as pessoas pressionavam os que estavam abaixo delas para

proteger e favorecer seus próprios interesses. A economia planificada, com

sua dedicação a um bem maior, gerou um sistema em que o indivíduo e sua

rede pessoal prevaleciam.

Mas as pessoas no partido estavam em posição melhor para usar o sistema

em seu próprio benefício que aqueles que estavam fora do partido. E

mostravam uma perspicácia empresarial sem fim para inventar modos de

defraudar o Estado. Prática comum das empresas era contornar o plano e

negociar diretamente entre elas. Em Wuhan, o Departamento Provincial de

Transporte Rodoviário concordou em levar bens para o Escritório Comercial

Número Dois do distrito de Jianghan em troca de alimentos. Operação que

valeu bem mais que uma tonelada de açúcar, uma tonelada de álcool e mil

pacotes de cigarros, assim como 350 quilos de carne enlatada nos primeiros

meses de 1960. A Estação de Compra de Petróleo de Wuhan, por outro lado,

negociou toneladas de petróleo, gás e carvão por lautos banquetes para seus

quadros.2 No norte, o Departamento Florestal de Qinghe trocou centenas de metros cúbicos de madeira por biscoitos e limonada de uma fábrica em

Jiamusi. Outros trocaram porcos por cimento, ou aço por madeira.3

Essas práticas permeavam o país inteiro, à medida que uma economia

paralela era criada por representantes enviados que viajavam para circum-

navegar o rígido sistema de suprimento. Agentes de compra construíam

contatos sociais, convidavam funcionários locais para jantar e negociavam a

abertura do caminho com uma lista de compras fornecida pela empresa para

a qual trabalhavam. Propinas eram comuns. O diretor do Departamento de

Bens e Materiais de Xangai recebia presentes regularmente, de medicamentos

para impotência feitos com extrato de veludo de chifres de veado a açúcar

branco, biscoitos e cordeiros. Mais de 6 milhões de yuans em bens foram

“danificados” ou “perdidos” sob seus auspícios em menos de um ano.4 Em

Guangzhou, o Departamento de Transporte foi acusado de “desperdiçar”

mais de 5 milhões de yuans nos três anos seguintes ao Grande Salto Adiante.5

Só na província de Heilongjiang, uma investigação estimou que cerca de 2 mil

quadros compravam madeira em nome de suas unidades no fim de 1960,

oferecendo em troca relógios, cigarros, sabão ou carne enlatada.6 Dezenas de

fábricas em Guangdong mandaram agentes em turnês de compras em Xangai

que excluíam o Estado de seus acordos de negócios.7 As comunas do povo

não eram exceção: a Fazenda Gaivota em Guangdong vendeu cerca de 27

toneladas de óleo de citronela para uma fábrica de perfume de Xangai em vez

de enviar a mercadoria para o Estado.8 Ninguém sabia quantos negócios

aconteciam nessa economia encoberta, mas uma equipe de investigação

colocou a quantidade de bens embarcados em Nanquim para outras

unidades, sem qualquer aprovação oficial, em 850 toneladas só em abril de

1959. Centenas de unidades estavam envolvidas. Algumas, de fato,

falsificavam as permissões de embarque, usando nomes falsos, imprimindo

certificados falsos e até embarcando em nome do exército a fim de ter lucro.9

O escambo, às vezes considerado uma forma muito primitiva de comércio,

tornou-se um dos modos mais eficientes de distribuir bens onde eles eram

necessários. E podia ser uma operação muito sofisticada movimentar-se

paralelamente a uma rede nacional, canibalizando estruturas estatais, fazendo sombra à economia planificada e ainda assim manter-se invisível graças à

contabilidade criativa. Bens se tornavam moeda. Em detalhado estudo de uma

afamada loja de bolinhos de massa em Shenyang, investigadores mostraram

que a comida era rotineiramente trocada por bens de mais de trinta unidades

de construção na cidade, indo de canos de ferro a cimento e tijolos. Um

suprimento contínuo e barato de ingredientes também estava assegurado pela

troca direta de bolinhos com fornecedores do Estado. A Companhia

Municipal de Produtos Aquáticos, que sofria como qualquer outro

distribuidor severas deficiências no meio da fome, entregou para a loja um

suprimento inteiro de camarões, normalmente destinado a consumidores dos

subúrbios, pela promessa de bolinhos. Os quadros saíam em jornadas de

compras nas melhores lojas de departamentos em Shenyang, pagando com

cupons de bolinhos. Eles cuidavam dos empregados, que se banqueteavam

com os bolinhos. A polícia do tráfego e a brigada de combate a incêndios

foram subornadas, e até serviços como entrega de carvão, suprimento de

água, limpeza de toalete e inspeções de higiene eram executados em troca de

um volume acordado da especialidade da casa.10

A contabilidade criativa podia ocultar a apropriação de fundos.

Contadores inventavam gastos que nunca haviam acontecido, em alguns

casos reivindicando fundos de até 1 milhão de yuans. Outro truque consistia

em desviar os investimentos estatais dedicados à indústria para capital fixo,

enquanto unidades do Estado construíam para si novos edifícios, salões de

dança, toaletes particulares e elevadores. Isso aconteceu na região de Zunyi,

onde uma batida revelou que 5 milhões de yuans tinham sido desviados desde

o Grande Salto Adiante.11 Em Heilongjiang, um artifício de contabilidade

criativa lançava todo o dispêndio de capital de escritórios, cantinas e até

jardins de infância nos custos de produção, passando, assim, a conta para o

Estado. Em muitas outras empresas, despesas administrativas e operacionais

eram acrescentadas aos custos de produção. Só em Pequim, cerca de

setecentas unidades administrativas completas, com salários e despesas,

desapareciam em um buraco negro chamado “produção”.12 Outros custos

podiam ser disfarçados e transferidos para o Estado. Em Luoyang, província de Henan, uma fábrica de rolamentos construiu uma piscina de 1.250 metros

cúbicos, mandando a conta para cima como “dispositivo para reduzir o

calor”.13

Empréstimos sem fim dos bancos estatais eram também um truque

comum. Como apontou Li Fuchun quando notou um déficit de 3 bilhões de

yuans no verão de 1961, muitas unidades pediam emprestado aos bancos para

banquetes.14 E, quando uma cidade ou um condado ficavam no vermelho,

simplesmente paravam de pagar impostos. Começou em 1960, quando

inúmeras províncias aprovaram legislação que estipulava que todos os lucros

fossem mantidos nas províncias. O Departamento Financeiro e o

Departamento de Comércio da Província de Liaoning decidiram, assim, que o

lucro das empresas sob seu controle deveria ser removido do orçamento e

distribuído localmente. Em Shandong, o condado de Gaoyang determinou

unilateralmente que os lucros deveriam cair fora do orçamento e ser retidos

localmente. As perdas, por outro lado, entravam no orçamento e eram

cobradas do Estado. Não apenas as empresas coletivas e as comunas urbanas

rotineiramente fracassavam em elevar impostos, mas cidades inteiras

decidiram renunciar à cobrança de impostos.15

E existiam aqueles que simplesmente roubavam do Estado com truques

inteligentes de contabilidade. Fábricas locais ao longo da linha ferroviária

Xangai–Nanquim surrupiavam, desviavam ou contrabandeavam bem mais de

300 toneladas de aço, 600 toneladas de cimento e 200 m2 de madeira em

menos de um ano. A fábrica de cadeados Nova China, de Xuzhou, por

exemplo, alugava um caminhão sistematicamente para roubar dos depósitos

ferroviários todo o material de que necessitava. Muitas dessas atividades eram

dirigidas por quadros em altos cargos. Um grande salão de congressos na

Estação Nanquim Leste, inteiramente construído com material roubado, sob

a direção do gerente da estação, Du Chengliang, era um monumento ao

roubo organizado.16

 

* * *

Outra forma de defraudar o Estado era inflar a lista de rações. Um comércio

macabro de cadáveres floresceu no campo. Assim como famílias tentavam

ocultar a morte de um parente para conseguir uma ração extra de comida, os

quadros rotineiramente inflavam o número de agricultores e se apropriavam

do excedente. Isso era comum também nas cidades, onde o Estado tinha a

responsabilidade de alimentar os residentes urbanos. Quando uma equipe de

investigadores estudou longamente as contas de um condado em Hebei,

descobriu que o Estado entregava para cada um dos 26 mil trabalhadores uma

média de 9 quilos de grãos por mês a mais que as rações prescritas. Todos

aumentavam os números. Uma pequena olaria era ousada o bastante para

declarar mais de seiscentos trabalhadores quando apenas 306 podiam ser

encontrados no trabalho. Algumas fábricas classificavam todos os

trabalhadores como envolvidos em trabalhos pesados porque isso os

qualificava para receber uma porção maior de ração, mesmo que a maioria

dos trabalhadores estivesse engajada em trabalho leve.17 Na indústria de

construção em Pequim, até 5 mil que haviam morrido ou retornado para o

campo eram mantidos nos livros. Até mesmo na atmosfera mais elevada da

Academia Chinesa de Ciências Sociais, dos 459 trabalhadores que

reclamavam a ração diária no Instituto de Geofísica bem mais de um terço

não era de membros regulares com direito a rações alimentícias.18

O reverso dessa prática era contratar pessoas fora do plano aprovado.

Criou-se um mercado negro de trabalho em que a oferta e a demanda de

trabalhadores determinavam o salário. Trabalhadores mais qualificados e

aprendizes promissores eram atraídos com benefícios adicionais ou

incentivos monetários. Milhares, segundo um relatório no verão de 1960,

tinham sido contratados em Nanquim na primeira metade do ano.19 Tal era a

competição que, quando os chefes da fábrica se recusavam a deixar que bons

trabalhadores procurassem oportunidades melhores em outros lugares, eles se

queixavam de falta de “liberdade de emprego” e tentavam ser demitidos. Uns

poucos explodiam de raiva violenta, dirigindo sua ira contra os quadros que

ficavam em seu caminho. Cento e oitenta dos quinhentos aprendizes no setor

comercial do distrito de Baixia se evadiram. Parte integrante do mercado negro de trabalho eram “fábricas subterrâneas” que surgiam em cada cidade,

incluindo Nanquim. Algumas pessoas pegavam turnos à noite além dos

empregos regulares, outras trabalhavam em dois turnos para fazer o dinheiro

cobrir as despesas: caso de dois terços de todos os trabalhadores de uma

unidade de construção perto do centro. Estudantes, médicos e até quadros

abandonavam seus postos para fazer dinheiro no mercado negro, trabalhando

nas docas ou transportando bens em triciclos de reboque.20

 

* * *

 

Um dos muitos paradoxos da economia planificada, portanto, era que todo

mundo negociava. As pessoas especulavam comprando a granel, apostando

que a escassez e a inflação puxariam o preço para cima. Uma operação inteira

era conduzida na Universidade de Hubei, com telegramas que instruíam

agentes a comprar ou vender mercadorias específicas de acordo com as

demandas flutuantes do mercado negro. Um centro de pesquisa da Academia

Chinesa de Ciências Sociais em Xangai empregou vinte estudantes da

Universidade Normal do Leste da China para comprar bens que eram

trocados por mercadorias escassas com outras unidades.21

Os membros do partido estavam bem situados para assumir operações

especulativas, alguns em tempo integral. Li Ke, oficial da comuna de

Jianguomen, a leste de Pequim, escreveu para si mesmo um certificado de

licença para tratamento de saúde por nove meses e começou a negociar

máquinas de costura, bicicletas e rádios, investindo o lucro em uma aquisição

no atacado de lâmpadas elétricas e cabos. Vendeu as lâmpadas e os cabos em

Tianjin e comprou em troca mobília que descarregou nos subúrbios,

precisamente quando o mercado se contraiu: assim, agiu de um modo

comercial astuto, enquanto constava o tempo todo na folha de pagamentos do

Estado. Muitos outros faziam o mesmo.22

Mas grande parte dos quadros tinha negócios maiores, e o comércio

pequeno era deixado para as pessoas comuns. Em Xangai, outrora porto

autônomo, os hábitos de comércio demoraram a morrer. Zhao Jianguo, uma mulher empreendedora com pouco dinheiro, negociava principalmente

mercadorias pequenas, como lâmpadas, mas também teve bom lucro com

uma prestigiosa bicicleta Fênix. Li Chuanying, outro pequeno comerciante,

comprava bens em Xangai e os vendia na província de Anhui. Hu Yumei

viajava para Huangyan, Zhejiang, a fim de negociar chapéus de palha,

esteiras, peixe desidratado e camarões, frequentemente duplicando seu

dinheiro. Ma Guiyou faturou cerca de 100 yuans em um mês comprando

joias e relógios de famílias ricas da cidade e negociando tíquetes de rações no

campo: “Não sou contrarrevolucionária! Não furto nem roubo e não tenho

emprego, então quem se importa se faço alguns negócios?” Os funcionários

que elaboraram um relatório com a ajuda dos comitês vizinhos em agosto de

1961 ficaram espantados não apenas com a variedade de bens em oferta,

como também com a qualidade da informação sobre as condições do

mercado. Apesar de toda a informação econômica reunida pela maquinaria

dos planejadores centrais, os pequenos comerciantes estavam mais

atualizados com a demanda popular que o partido. O fenômeno era amplo e

atraía participantes de todas as formações sociais, variando do velho puxador

de riquixá Chen Zhangwu, que vendia frutas do campo para cobrir despesas

pessoais, a gerentes influentes, que usavam viagens oficiais a lugares distantes

como Mongólia Interior e Manchúria como disfarce para acordos

particulares.23

Trabalhadores de fábrica também transacionavam bens. A Federação dos

Sindicatos ficou alarmada com trabalhadores interessados em perseguir um

“estilo de vida capitalista”, rejeitando os princípios da economia planificada.

Eles especulavam com produtos escassos, comparavam cuidadosamente os

preços em lojas diferentes e os compravam para ter lucro. Alguns entravam

em filas onde quer que vissem algo, sem se importar com o que estivesse à

venda. Alguns levavam membros da família para fazer rodízio. Li Lanying,

trabalhadora de fábrica, gastou 5 yuans em geleia de cenoura, que esperava

revender depois. Uma colega adquiriu caquis em saco. Estas não eram

exceções, mas um “estilo de vida”, como o relatório colocou, porque os

trabalhadores acreditavam amplamente que “poupar dinheiro não é tão

eficiente quanto poupar bens”. A poupança era corroída em vários pontos

percentuais por mês.24 Em Xangai, o medo da escassez levava as pessoas às

filas e a armazenar todo e qualquer bem disponível nas lojas.25

Quando não tinham capital para especular, os trabalhadores ressuscitaram

uma prática comum antes de 1949, chamada dahui. Pessoas carentes de um

círculo de amigos fiéis pediam emprestado umas às outras, cada uma

emprestando de 5 a 10 yuans por mês para um membro diferente todo mês, e

cada um, por sua vez, agindo como banqueiro uma vez por ano. No distrito

de Dongcheng, em Pequim, cerca de setenta desses acordos eram fechados

todo mês entre trabalhadores de fábrica. Alguns gastavam em bens de luxo.

Zhao Wenhua, um trabalhador dos correios, comprou para si um relógio,

uma bicicleta, um casaco de pele e presentes de casamento, todos vistos como

bens duráveis que manteriam seu valor. A prática se espalhou com o

entendimento de que, em tempos de carência, os bens eram uma aposta mais

segura que o dinheiro.26 Até as crianças comerciavam. Mais ou menos uma

em cada dez crianças de escola primária em Jilin especulava com bolos, carne,

ovos, vegetais ou sabão.27

Alguns apostavam. Na comuna de Lantang, Guangdong, dois quadros

apostaram mil quilos de grãos que pertenciam à cidade, assim como várias

centenas de quilos de vegetais. A poucos quilômetros de distância, uma

mulher que perdera 50 yuans em apostas vendia sexo para pagar as dívidas.28

Apostar era um hábito arraigado que as autoridades fracassaram em suprimir

em Guangzhou, onde trabalhadores de fábrica jogavam pôquer por comida

em vez de dinheiro. Alguns arriscavam somas astronômicas, até 3.500

yuans.29 Em Liuhe, pertinho de Nanquim, as apostas aconteciam em quase

todos os lugares e envolviam grupos de até vinte pessoas.30 A aposta era

endêmica durante a fome, pois as pessoas arriscavam tudo o que tinham por

puro desespero. No meio do catastrófico inverno de 1960–61, a aposta

reinava em Hunan também e alguns jogadores literalmente perdiam as

calças.31

 

* * *

À medida que o dinheiro perdia poder de compra, os cupons de

racionamento se tornaram uma forma de dinheiro substituto. Eram

requeridos para os bens mais essenciais, variando de combustível, grão, porco

e tecido a garrafas térmicas, mobília e até material de construção. Destinados

a assegurar a distribuição equitativa de mercadorias básicas, os cupons

também vinculavam a população ao sistema de unidades familiares, através

do qual eram distribuídos. A cada unidade familiar era emitido um

certificado ou caderno de ração, no qual todos os membros da família

estavam registrados, e esse documento, por sua vez, dava direito à família de

receber um suprimento mensal de cupons de rações. Com frequência, os

cupons eram válidos por apenas um mês. Seu uso, às vezes, se restringia ao

lugar onde era emitido, que podia ser um refeitório local, uma comuna, um

condado, uma cidade ou, ocasionalmente, províncias inteiras. Um cupom de

arroz de um condado não tinha validade em outro, o que forçava as pessoas a

ficar em seu lugar de residência.32

Negociavam-se cupons da mesma forma que bens eram trocados. Em

algumas comunas, por exemplo, no condado de Jinghai, Hebei, os cupons se

tornaram substitutos de salários, enquanto o dinheiro quase desaparecia.

Uma grande variedade de cupons para bens e serviços, de sementes de

abóbora a cortes de cabelo, foi emitida em lugar de pagamento, variando em

valor de 1 fen (unidade monetária chinesa que valia um centésimo de yuan) a

5 yuans.33

Um dos propósitos dos cupons era evitar o armazenamento de bens. Mas

como descobriu, em fevereiro de 1961, o Congresso Provincial do Povo de

Guangdong, de todos os cupons distribuídos desde setembro de 1959, mais de

um terço não tinha sido trocado, o que significava que papel com valor de

cerca de 20 mil toneladas de grão estava circulando como dinheiro

substituto.34

Falsificar cupons, com frequência impressos em papel de baixa qualidade,

era muito mais fácil que falsificar dinheiro. No Instituto Hidráulico Leste da

China, uma dúzia de máquinas de impressão circulava nos refeitórios.35 O

fenômeno deve ter sido comum. Uma batida policial em Shantou trouxe à luz cerca de duzentos casos distintos que envolviam pirataria de cupons. Como

indicou um relatório ao Congresso Provincial do Povo, mais de um terço das

infrações sociais se relacionava com cupons de rações; as forças de segurança

até censuraram “especuladores inimigos” por causar uma inundação de

cupons falsos em Qingyuan, no outono de 1960.36

 

* * *

 

Onde compradores e vendedores se encontravam, surgia um mercado negro.

Enquanto o comércio se transferia da loja para a rua, mercados apareciam nas

esquinas das ruas, fora das lojas de departamentos, nas estações ferroviárias,

perto dos portões das fábricas. O mercado negro surgia e desaparecia em uma

zona legal crepuscular, diminuindo a cada investida punitiva apenas para

reaparecer tão logo a pressão ficasse mais fraca. Vendedores abordavam

compradores furtivamente e puxavam bens de sacolas de papel ou dos bolsos

do casaco, enquanto outros se sentavam nos meios-fios, espalhando os bens

no chão, de gêneros alimentícios e quinquilharias de segunda mão a bens

roubados. Os serviços de segurança pública faziam batidas regulares e

afugentavam vendedores. Mas eles voltavam. E, quando as autoridades locais

fingiam que não viam, mercados de faz de conta emergiam, com as pessoas se

reunindo em horário combinado para trocar bens, até o negócio evoluir para

um mercado mais permanente com compradores e vendedores acorrendo de

aldeias vizinhas.

Em Pequim, o mercado negro apareceu em Tianqiao, Xizhimenwai e

Dongzhimenwai, onde centenas de mercadores ofereciam bens cujo preço

podia chegar a quinze vezes o estipulado pelo Estado. Isso não impedia uma

multidão entusiasmada de donas de casa, trabalhadores e até quadros de fazer

compras. Como notaram agentes confusos do Departamento de Segurança

Pública, as pessoas de fato gostavam dos mercados negros.37 Eles eram

tolerados, mas não se permitia que florescessem na capital, à diferença de

Guangzhou, onde compradores vinham de toda a região. Na cidade sulista,

centenas de compradores só da província de Hunan podiam ser encontrados especificamente comprando batata-doce no verão de 1961, muitos deles

mandados diretamente por suas unidades familiares.38 O comércio era

abertamente conduzido e muitos dos vendedores eram crianças, incluindo

algumas que tinham apenas seis ou sete anos de idade e outras mais velhas

que fumavam e pechinchavam com potenciais compradores.39

Em Tianjin, funcionários locais descobriram cerca de 8 mil casos de

atividade de mercado negro nas primeiras semanas de janeiro de 1961. Em

algumas ocasiões, mais de oitocentas pessoas vendiam bens em apenas um

mercado, cercadas de milhares de clientes que examinavam os bens e

geralmente bloqueavam o tráfego. “Não há nada que o mercado negro não

tenha”, segundo um investigador.40 Os policiais que patrulhavam as ruas

lutavam uma batalha perdida, e, em julho de 1962, as autoridades finalmente

decidiram legalizar dúzias de mercados que nunca tinham conseguido

erradicar de fato. No fim do ano, metade das frutas e um quarto da carne de

porco vendida em Tianjin vinham de mais de 7 mil vendedores ambulantes.

Eles ganhavam quase o dobro do que ganhava um trabalhador do Estado.41

Milhares de pessoas viajavam de Pequim para Tianjin, tal era a reputação do

mercado.42

 

* * *

 

À medida que a inanição ganhava terreno e a fome corroía o tecido social da

vida diária, as pessoas se voltavam para dentro. Tudo estava à venda. Nada

escapava ao domínio do comércio — tijolos, roupas e combustível eram

trocados por comida. Em Hubei, um terço dos trabalhadores das grandes

fábricas sobrevivia de empréstimos. Alguns estavam tão profundamente

endividados que vendiam o sangue para sobreviver.43 Em uma unidade de

Chongqinq, Sichuan, um em cada vinte trabalhadores vendia seu sangue. A

porcentagem era ainda maior em Chengdu, com homens e mulheres

trabalhadores trocando o sangue por migalhas para alimentar as famílias. O

trabalhador em construção Wang Yuting ficou conhecido em todos os

hospitais após vender vários litros em um período de sete meses.44

Mas a situação era infinitamente pior no campo. Apenas no distrito de

Huangpi, Hubei, 3 mil famílias pegaram suas roupas de reserva para vender

em Wuchang, onde também mendigaram comida.45 No condado de

Cangxian, Hebei, um terço dos aldeões vendeu toda a mobília, alguns até o

telhado sobre suas cabeças.46 As pessoas trocavam tudo que tinham no

condado de Changzhou, Jiangsu, incluindo as roupas do corpo.47

Antes de morrer, vendiam os filhos para casais que não podiam

engravidar. Em Shandong, Yan Xizhi entregou as três filhas e vendeu um

filho de 5 anos por 15 yuans para um homem de uma aldeia vizinha. Seu filho

mais jovem, um bebê de dez meses, foi vendido para um oficial por uma

ninharia. Wu Jingxi obteve de um estranho 5 yuans pelo filho de nove anos,

soma que cobria o custo de uma tigela de arroz e 2 quilos de amendoim. Sua

mulher, desesperada, segundo uma pesquisa, chorou tanto que seus olhos

inchados estavam perdendo a visão. Wang Weitong, mãe de dois filhos,

vendeu um deles por 1,5 yuan e quatro bolinhos assados. Muitos, é claro,

nunca encontraram comprador para os filhos.48