A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 14 de 43

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A Grande Fome de Mao

12. O fim da verdade

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O fim da verdade

 

Uma vasta cadeia de montanhas corre pelo norte da província de Jiangxi com

cumes e picos escarpados que se elevam 1,5 mil metros acima do nível do

mar. O próprio monte Lushan é uma área de rochas sedimentares e pedra

calcária nas quais valas, gargantas, cavernas e formações rochosas têm sido

esculpidas pela água e pelo vento, dando-lhe uma aparência agreste e sulcada

muito admirada por visitantes. Florestas de abetos, pinheiros, canforeiras e

ciprestes, aferradas a penhascos e fendas, competem por atenção com as

cachoeiras, enquanto templos e pagodes oferecem vistas tão distantes quanto

as dunas de areia às margens do lago Boyang, no vale do Yang-Tsé. O clima

temperado dá um alívio muito necessário no calor sufocante do verão. Antes

da revolução, europeus também trilhavam a região durante os meses de

inverno para andar de tobogã e esqui. Em 1895, um missionário inglês

comprou o vale Guling e, durante as décadas seguintes, várias centenas de

bangalôs, construídos com granito trazido do vale, transformaram Lushan em

um sanatório e residência de verão para estrangeiros. Chiang Kai-shek, líder

do dominante Kuomintang, adquiriu uma atraente vila onde ele e sua mulher

passaram muitos verões nos anos 1930. Mao reservou o lugar para si,

certificando-se de que o nome “Meilu Villa”, escavado em uma pedra pelo

próprio generalíssimo, fosse preservado.

O presidente abriu o encontro de Lushan em 2 de julho de 1959. Os líderes

do partido se referiram à reunião como “encontro de imortais”. Imortais viviam muito acima dos meros humanos, sentados nas nuvens do céu,

deslizando alegremente através da neblina, desimpedidos das restrições

terrenas. Mao queria que seus colegas se sentissem livres para falar sobre

qualquer tópico que quisessem e tinha em mente dezoito pontos iniciais para

discussão. Mas ele ouvira por acaso comentários críticos feitos pelo ministro

da Defesa, Peng Dehuai, naquele mesmo dia e acrescentou um décimo nono

ponto à sua pauta: a unidade do partido.1 Mao definiu o rumo ao elogiar as

conquistas do Grande Salto Adiante e louvar o entusiasmo e a energia do

povo chinês.

Uma forma de Mao descobrir o que os líderes do partido pensavam do

Salto era fazê-los discutir problemas em pequenos grupos divididos

geograficamente: cada um analisava as questões específicas de sua própria

região durante uma semana, enquanto o presidente detinha a visão geral e era

o único a receber um relatório diário acerca da reunião de cada grupo. Apesar

de suas suspeitas de que Peng Dehuai tramava algo, Mao parecia de bom

humor a princípio, cheio de planos de visitar as cavernas de pedra, templos

budistas e muitos pontos de referência confucianos pelos quais Lushan era

tão famosa. Os líderes locais também organizavam entretenimentos para a

noite, com apresentações de grupos musicais e de dança em uma antiga igreja

católica, invariavelmente seguidas de bailes, nos quais Mao se via rodeado de

enfermeiras jovens. Mao as receberia em seu quarto, rigorosamente protegido

por segurança especial.2

Mao não intervinha, mas era informado por relatórios apresentados por

chefes provinciais confiáveis sobre como cada grupo abordava a questão do

Grande Salto Adiante. Muitos dos participantes da conferência acreditavam

que a reunião de Lushan faria avançar mais a reforma econômica, uma vez

que os problemas com o Grande Salto Adiante já haviam sido discutidos em

reuniões prévias e algumas medidas foram tomadas para enfrentar uma

situação que fugia de controle. À medida que os dias se passavam, a ausência

de intervenções do presidente e a intimidade dos pequenos grupos foram

chamariz para alguns líderes falarem cada vez mais abertamente da fome, dos

falsos números da produção e dos abusos de oficiais no campo. Peng Dehuai,

designado para o grupo noroeste, era franco, e em várias ocasiões censurou Mao pela direção tomada com o Grande Salto Adiante: “Todos temos uma

cota de responsabilidade, inclusive Mao Tsé-tung. A meta de aço de 10,7

milhões de toneladas foi fixada pelo presidente, então como poderia ele

esquivar-se à responsabilidade?”3 Mas o silêncio do presidente não era de

aprovação e Mao ficava cada vez mais perturbado à medida que percebia que

os limites dentro dos quais pensava que a discussão aconteceria estavam

sendo ignorados e alguns líderes começaram a focalizar não apenas as falhas

da coletivização, como também seu papel pessoal nelas.

Mao falou novamente em 10 de julho, quando convocou um encontro dos

líderes regionais e argumentou que as conquistas dos últimos anos excediam

em muito os fracassos. Usou a metáfora consagrada no encontro de Nanning,

em janeiro de 1958: “Todo mundo não tem dez dedos? Podemos contar nove

desses dedos como conquistas e apenas um como fracasso.” O partido podia

resolver esses problemas, mas apenas por meio da unidade e ideologia

compartilhadas. A linha geral, disse, estava completamente correta. Liu

Shaoqi interveio e explicou que os poucos problemas surgidos eram resultado

da falta de experiência: não havia sempre um preço a pagar por lições

valiosas? Chu En-lai acrescentou que o partido era rápido em descobrir

problemas e especialista em resolvê-los. O presidente concluiu: “A situação é

excelente em geral. Há muitos problemas, mas nosso futuro é brilhante!”4

O silêncio seguiu-se ao discurso de Mao. Mas nem todos estavam

desejosos de se conformar. O ministro da Defesa, Peng Dehuai, era bem

conhecido pela teimosia. Quando Peng voltara ao seu lar, em Xiangtan,

Hunan, a mesma região em que Mao crescera, encontrou violência e

sofrimento por toda parte, de agricultores forçados ao plantio denso até

oficiais determinados a derrubar casas na campanha do ferro e do aço. Ao

visitar um asilo e um jardim de infância, não viu nada exceto miséria, crianças

em farrapos e idosos acocorados em esteiras de bambu no inverno rigoroso.

Mesmo após a visita, continuou a receber cartas de sua cidade natal sobre

inanição disseminada.5 Peng ficou abalado com o que testemunhou no

campo e tinha muitas esperanças de falar em Lushan sobre as falhas do

Grande Salto. Agora receava que o encontro se transformasse em mera

formalidade em que, por deferência a Mao, a questão da fome seria evitada.6

Nenhum dos líderes, acreditava, tinha coragem de falar: Liu Shaoqi acabava

de se tornar chefe de Estado, Chu En-lai e Chen Yun haviam sido silenciados

um ano antes, Zhu De tinha algumas ideias críticas, o marechal Lin Biao

estava doente e tinha uma compreensão limitada dos problemas, e Deng

Xiaoping relutava em expressar qualquer crítica.7 Peng decidiu escrever a

Mao e deixou uma longa carta no alojamento do presidente enquanto este

dormia, em 14 de julho.

Com o corpo de um touro e a cara de um buldogue, homem vigoroso de

cabeça raspada, Peng Dehuai era conhecido como líder que não hesitava em

falar abertamente com Mao.8 Mao e Peng se conheciam desde os dias iniciais

da luta de guerrilha em Jinggangshan, mas se chocaram em várias ocasiões,

notadamente durante a Guerra da Coreia, quando um furioso Peng empurrou

para o lado um guarda do quarto de dormir de Mao para confrontar o

presidente sobre estratégia militar. O presidente detestava o velho marechal.

A carta de Peng começava como um memorial: “Sou um homem simples

e, de fato, sou cru e não tenho tato. Por essa razão, se esta carta tem valor ou

não, você é quem decidirá. Por favor, me corrija onde quer que eu esteja

errado.” Peng teve o cuidado de fazer o devido elogio às conquistas do

Grande Salto Adiante, pois a produção industrial e agrícola tinha decolado, e

as fornalhas de fundo de quintal levaram novas habilidades técnicas para os

camponeses. Peng até previu que a Grã-Bretanha seria ultrapassada em meros

quatro anos. Quaisquer que fossem os problemas surgidos, escreveu, eles se

deviam à má compreensão das ideias do presidente. Na segunda parte da

carta, Peng insistiu em que o partido podia aprender com os erros do Grande

Salto Adiante, que incluíam considerável desperdício de recursos naturais e

mão de obra, informações infladas sobre produção e tendências esquerdistas.

A carta foi equilibrada e prudente, ainda mais à luz do que viria nos dias

seguintes, mas conseguiu enraivecer Mao. A menção de Peng de “fanatismo

pequeno-burguês que levava a erros de esquerda” tinha tocado um nervo

exposto do presidente. Tão ofensivo quanto isso era uma afirmação irônica,

segundo a qual “cuidar da construção econômica não é exatamente tão fácil

quanto bombardear Quemoy ou lidar com o Tibete.”9

De acordo com seu médico, Mao não dormiu a noite inteira. Dois dias

depois, convocou uma reunião do Conselho Permanente do Politburo em sua

vila e recebeu os líderes de roupão de banho e chinelos.10 Elementos

direitistas de fora do partido tinham atacado o Grande Salto Adiante,

explicou Mao, e agora pessoas de dentro das fileiras estavam minando o

movimento também, ao afirmar que ele, Mao, fizera mais mal do que bem.

Peng Dehuai era uma dessas pessoas e sua carta seria distribuída a todos os

150 participantes do encontro de Lushan para discussão em pequenos grupos.

Depois, pediu a Liu Shaoqi e Chu En-lai que mandassem vir reforços de

Pequim: Peng Zhen, Chen Yi, Huang Kecheng e outros deveriam unir-se ao

encontro o mais rápido possível.11

A essa altura, a maioria dos antigos oficiais entendeu o quanto a situação

se tornara séria e começou a falar contra Peng. Zhang Zhongliang, o líder de

Gansu, afirmou que os sucessos em sua província ilustravam a sabedoria do

Grande Salto Adiante. Tao Zhu, Wang Renzhong e Chen Zhengren, todos

que tinham interesse no Salto, concordaram.12 Mas vários não concordaram.

Huang Kecheng, chefe do Estado-Maior do Exército, chegou no dia seguinte

de Pequim e inesperadamente falou em favor de Peng Dehuai. Como Huang

admitiria nas duas semanas seguintes, não conseguira dormir por causa do

tamanho da inanição no campo.13 Tan Zhenlin, com quem sempre se podia

contar, explodiu: “Você comeu carne de cachorro [significando: você está de

miolo mole]? Está com febre? Que absurdo! Você devia saber que o

chamamos a Lushan para nos ajudar.”14 Outros hesitaram também. Zhou

Xiazhou, o primeiro-secretário da província de Hunan, elogiou a carta,

embora concordasse que continha algumas farpas. O momento decisivo foi

uma bomba jogada por Zhang Wentian em um espantoso ataque a Mao e ao

Grande Salto Adiante em 21 de julho.

Zhang Wentian desafiara a liderança de Mao no início dos anos 1930,

como membro da facção opositora, mas depois se unira à causa do

presidente. Como vice-ministro das Relações Exteriores, tinha considerável

influência, e Mao só viu seu apoio a Peng como uma aliança entre o

Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exteriores.15 Zhang falou

durante várias horas em 21 de julho, apesar das frequentes vaias de

apoiadores de Mao. Contrariamente aos rituais estabelecidos do partido,

negligenciou as conquistas em um curto parágrafo de abertura e entrou direto

em uma análise detalhada dos problemas causados pelo Grande Salto

Adiante. As metas eram altas demais, as afirmações sobre a safra eram falsas

e, em consequência, as pessoas morriam de fome. O custo das fornalhas de

fundo de quintal era de 5 bilhões de yuans, para não dizer nada da safra

perdida porque os aldeões estavam ocupados demais derretendo ferro para

fazer a colheita nos campos. Zhang denunciou slogans como “que todo o

povo vá fundir aço” como absurdos. Paradas na produção eram frequentes.

Estrangeiros se queixavam da baixa qualidade dos produtos feitos na China, o

que prejudicava a reputação do país. Acima de tudo, o Grande Salto Adiante

não fez diferença para o campo: “Nosso país é ‘pobre e infrutífero’, e o sistema

socialista nos dá condições de mudar isso rapidamente, mas ainda somos

‘pobres e infrutíferos’.” Mao estimulou os líderes a derrubar o imperador de

seu cavalo, reconheceu Zhang, embora ninguém ousasse abrir a boca por

medo de perder a cabeça. Em conclusão, inverteu a metáfora de Mao dos dez

dedos: “As deficiências superam as realizações por um fator de nove para

dez.”16

Mao certamente se perguntou se esse era um ataque organizado à sua

liderança. Peng Dehuai comandava o exército, Zhou Xiaozhou chefiava uma

província, Zhang Wentian estava em assuntos externos. Poderia haver mais

opositores escondidos atrás dos panos? Peng tinha sido designado para o

grupo noroeste por causa de sua experiência na província de Gansu, que

percorrera nos meses anteriores, e os dois, Peng e Zhang, discutiam

repetidamente os problemas que surgiram nessa parte do país.17 Enquanto o

encontro de Lushan se desenrolava, aconteceu um golpe na província de

Gansu. Depois que Zhang Zhongliang, o homem responsável por Gansu,

deixara Lanzhou para participar do encontro em Lushan, o comitê provincial

do partido foi dominado por Huo Weide, rival de Zhang. Em 15 de julho, o

comitê mandou uma carta urgente ao centro com o anúncio de que milhares haviam morrido de fome e mais de 1,5 milhão de agricultores sofriam uma

fome que acossava meia dúzia de condados. O principal responsável por essa

fome era Zhang Zhongliang, que, como líder da província, ratificara os

números das safras, aumentara as requisições do Estado, perdoara abusos dos

oficiais no local da produção e falhara em agir quando a inanição aparecera

em abril de 1959. Ante os próprios olhos de Mao, no meio do encontro de

Lushan, um de seus mais zelosos seguidores era solapado por um comitê

provincial do partido.18

Outras más notícias chegaram a Mao. Em abril, Peng Dehuai visitara a

Europa Oriental em uma turnê de boa vontade e se encontrou brevemente

com Kruschev na Albânia. Logo depois de seu retorno, durante uma rápida

sessão de relato com Mao, Peng emitiu uma observação desastrada que fez o

rosto de Mao ficar vermelho: dúzias de líderes próximos de Tito, observou,

tinham voado para a Albânia. Tito era o implacável líder da Iugoslávia que

ousara opor-se a Stalin e atraíra alguns dos mais próximos colaboradores do

líder soviético. Mao deve ter interpretado o comentário como crítica velada

ao seu próprio domínio.19 Poucas semanas depois, em 20 de junho, a

liderança soviética renegou o acordo para ajudar a China a desenvolver armas

nucleares.

Então, em 18 de julho, Kruschev condenou publicamente as comunas

quando visitava a cidade polonesa de Poznań. Acusou os que haviam feito

pressão em favor de comunas na Rússia, nos anos 1920, de ter entendimento

limitado do que era o comunismo e de como deveria ser construído. A

divulgação inicial de seu discurso na rádio polonesa não mencionou as

comunas, mas, alguns dias depois, uma versão completa foi impressa no

Pravda, o que, para observadores próximos, só podia ser visto como um

ataque cuidadosamente planejado a Mao. Uma tradução para o chinês

apareceu poucos dias depois em um folheto reservado para a liderança

chinesa,20 mas já em 19 de julho Mao fez circular um relatório compilado

pela embaixada em Moscou que mostrava como alguns oficiais soviéticos

discutiam abertamente o fato de pessoas estarem morrendo de fome na China

como resultado do Grande Salto Adiante.21 Poderia haver um conluio entre inimigos dentro do partido e revisionistas de fora? Era uma coincidência que

Kruschev tivesse feito seu discurso precisamente quando Peng Dehuai e

Zhang Wentian atacavam o Grande Salto Adiante?

Ke Qingshi, chefe do partido em Xangai, ficou tão enraivecido com o

discurso de Zhang Wentian que abordou Mao e o incitou a enfrentar seus

inimigos imediatamente. Li Jingquan também falou com Mao. Liu Shaoqi e

Chu En-lai conferenciaram com o presidente na noite de 22 de julho, embora

os detalhes do que foi dito naquela noite não sejam conhecidos.22 De modo

bastante falso, mas inteligente, que implicava Liu Shaoqi, Mao afirmaria

semanas depois que ficara intrigado com os pedidos de maior liberdade de

expressão por alguns camaradas: Liu foi quem lhe indicara que não se tratava

de vozes isoladas, mas de uma facção em luta contra a linha do partido.23

Em 23 de julho, Mao fez um discurso longo e sinuoso que durou três

horas, em que metáforas obscuras se misturavam com ameaças diretas

destinadas a assustar seus opositores. Abriu seu discurso assim: “Vocês

falaram muito, então o que acham de me deixar dizer algumas palavras — o

que acham?” Depois, refutou a carta de Peng Dehuai, recapitulou todos os

ataques ao partido desde sua fundação e advertiu os líderes a não titubear em

um momento de crise — alguns camaradas estavam a meros 30 quilômetros

de se tornarem direitistas. Repetiu a ameaça que fizera em um encontro do

partido três meses antes: “Se você não me atacar, eu não atacarei você, mas se

você me atacar, com certeza eu atacarei você.” Se todo problema pequeno em

toda brigada tivesse que ser relatado ao Diário do Povo à custa de qualquer

outra notícia, disse, o problema levaria um ano para aparecer impresso. E

qual seria o resultado? O país entraria em colapso, a liderança seria

derrubada. “Se nós merecemos perecer, irei para o campo liderar os

camponeses para derrubar o governo. Se o Exército de Libertação Popular

não me seguir, então irei buscar um Exército Vermelho. Mas acho que o

Exército de Libertação vai me seguir.” Mao admitiu a responsabilidade geral

pelo Grande Salto Adiante, mas também implicou uma série de camaradas,

desde Ke Qingshi, o chefe de Xangai que primeiro propôs a campanha do aço,

Li Fuchun, responsável pelo planejamento geral, Tan Zhenlin e Lu Liaoyan,

que supervisavam a agricultura, até os líderes provinciais que Peng rotulava de esquerdistas, fossem eles da província de Yunnan, Henan, Sichuan ou

Hubei. Mao deu um ultimato: os líderes teriam de escolher entre Peng e ele, e

a escolha errada traria enormes consequências políticas para o partido.24

Sua audiência ficou em estado de choque. Quando Mao saiu com seu

médico, esbarrou em Peng Dehuai. “Ministro Peng, vamos ter uma conversa”,

sugeriu Mao.

Peng Dehuai ficou lívido. “Não há nada para conversar. Chega de

conversa”, respondeu, baixando a mão direita em um movimento de golpe

cortante.25

 

* * *

 

Em 2 de agosto, Mao abriu a conferência do comitê central com um discurso

curto, mas feroz, que definiu o rumo das duas semanas seguintes. “Quando

chegamos pela primeira vez a Lushan, existia algo no ar, algumas pessoas

diziam que não havia liberdade para falar abertamente, havia pressão. Na

época, não entendi direito o que falavam. Para mim não tinha pé nem cabeça

e eu não podia ver por que não havia liberdade suficiente. De fato, nas

primeiras duas semanas, parecia um encontro de imortais e não existia

tensão. Apenas mais tarde se tornou tenso, quando algumas pessoas queriam

liberdade para falar. A tensão apareceu porque elas queriam liberdade para

criticar a linha geral, liberdade para destruir a linha geral. Elas criticaram o

que fizemos no ano passado e criticaram o trabalho deste ano, dizendo que

tudo que fizemos no ano passado foi ruim, fundamentalmente ruim [...]. Que

problemas temos agora? Hoje, o único problema são os direitistas

oportunistas que lançam um ataque furioso ao partido, ao povo e à grande e

dinâmica empresa socialista.” Mao advertiu seus colegas de que havia uma

escolha inflexível a fazer. “Ou vocês querem unidade ou querem dividir o

partido.”26

Na semana seguinte, pequenos grupos de trabalho foram encarregados de

interrogar severamente Peng Dehuai, Zhang Wentian, Huang Kecheng, Zhou

Xiaozhou e outros sobre todos os detalhes da conspiração contra o partido. Em uma série de tensas confrontações e interrogatório cruzado, o “grupo

antipartido” teve que se submeter a autocríticas sempre mais detalhadas em

que todos os aspectos de seu passado, suas reuniões e suas conversas eram

verificados. Afirmações sobre fome haviam lançado uma sombra sobre chefes

provinciais como Li Jingquan, Zeng Xisheng, Wang Renzhong e Zhang

Zhongliang, e eles não precisaram de estímulo para atacar os homens que

tinham solapado sua credibilidade. Lin Biao mostrou-se tão feroz quanto eles.

Um general esquelético, careca, que destruíra as melhores divisões do

Kuomintang na Manchúria, na guerra civil, Lin fora discretamente

promovido por Mao a uma das vice-presidências do partido alguns meses

antes. Vítima de toda sorte de fobias em relação à água, ao vento e ao frio,

frequentemente faltava ao trabalho por doença, levando vida reclusa, mas, em

Lushan, tomou a defesa do presidente e acusou Peng Dehuai de ser

abertamente “ambicioso, conspiratório e hipócrita”. Em sua voz aguda, gritou

que “só Mao é um grande herói, um papel a que ninguém mais deveria ousar

aspirar. Todos nós ficamos muito atrás dele, então nem sequer pensem

nisso!”27

Liu Shaoqi e Chu En-lai também tinham papéis a cumprir. Ambos tinham

muito a perder e cada um podia ser censurado pelo que dera errado no país se

Mao decidisse recuar. Liu Shaoqi apoiara entusiasticamente o Grande Salto

Adiante e fora recompensado pela lealdade com uma promoção a chefe de

Estado em abril. Ele também se via como o herdeiro em potencial da

liderança do partido e não tinha desejo de virar o barco. Depois da explosão

de Mao, Liu ficou tão nervoso que exagerou no uso de suas pílulas de dormir.

Em determinado momento, tomou comprimidos demais e desmaiou no

toalete.28 Mas se recompôs e, em 17 de agosto, último dia do encontro, deu

uma demonstração de adulação servil e exaltou as muitas qualidades de

Mao.29

Chu En-lai, como premiê, estivera envolvido na administração do dia a dia

do país e teria que responder pelas desastrosas circunstâncias se Peng Dehuai

conseguisse se impor. Também tinha razões para se sentir ameaçado pelo

velho marechal. Huang Kecheng, em uma das sessões de interrogatório, revelou que, anos antes, Peng descrevera Chu como um político fraco que

deveria abdicar de todos os postos importantes.30 Mas acima de tudo, Chu

apoiou Mao porque tomara uma decisão, desde um longo tempo antes, de

nunca se opor a Mao: lealdade a Mao, como descobrira em décadas de feroz

luta política interna, era a chave para ficar no poder. Sua posição já fora

enfraquecida pelo venenoso ataque que Mao lhe fizera em Nanning, um ano

antes, e não desejava incorrer na ira do presidente de novo. Assim, Mao

estava no centro de uma coalizão de líderes que se sentiam ameaçados por

Peng Dehuai. Sem o apoio deles, o presidente não teria prevalecido.

À medida que os encontros progrediam e as críticas se intensificavam, os

homens que haviam falado contra Mao foram gradativamente demolidos até

confissões completas serem obtidas. Peng admitiu que sua carta e os

comentários que fez nas primeiras sessões não eram incidentes isolados, mas

“erros antipartido, antipovo, antissocialistas e de natureza oportunista”.31

Mao falou novamente em 11 de agosto e recordou a Peng Dehuai: “Você

disse, no encontro no norte da China, que fodi sua mãe por quarenta dias e,

aqui em Lushan, você só fodeu minha mãe por vinte dias, então ainda lhe

devo vinte dias. Agora, faremos a sua vontade, e até acrescentei cinco dias,

além dos quarenta que tivemos até agora, para que você insulte o quanto

quiser; de outra forma, ficaremos lhe devendo.” No jargão mais padronizado

do socialismo, Mao afirmou que Peng e seus apoiadores eram “democratas

burgueses” que tinham pouco em comum com a revolução proletária

socialista. Portanto, tirava-os de suas posições e os jogava nas fileiras da

burguesia.32

No último encontro da conferência, cinco dias depois, uma resolução foi

aprovada, em que os oponentes de Mao foram considerados culpados de

conspirar contra partido, Estado e povo.33 Nos meses seguintes se desataria

uma caça nacional às bruxas contra elementos “direitistas”.