A Grande Fome de Mao
33. O
33
O gulag
Shen Shanqing, um homem de 54 anos que trabalhava em uma fazenda
coletiva de Xangai, cometeu um erro fatal num dia de verão de 1958. Em vez
de acrescentar água ao adubo para dissolver os sólidos, ele jogou o fertilizante
sem dissolver sobre uma fileira de cenouras. As folhas murcharam. Shen
estava obviamente mais interessado em coletar pontos de trabalho que em
uma abnegada devoção ao Grande Salto Adiante na agricultura. E ele foi
insolente também. Em vez de mostrar arrependimento depois de ser preso,
afirmou desafiadoramente que a comida era escassa e a prisão ao menos lhe
proveria cama e mesa. Um exame mais atento revelou que Shen também
havia difamado o partido dois anos antes. Foi prontamente enviado a um
campo de trabalho por dez anos nas planícies varridas pelo vento em Qinghai,
2 mil quilômetros ao norte de Xangai. Os arquivos sobre ele mostram que foi
libertado em 1968, doente e alquebrado, desejoso de escrever as mais
humilhantes confissões. Elas abrangiam desde seu “deliberado ato de
sabotagem”, dez anos antes, até o que parecia ser sua maior infração durante
uma década de trabalho forçado: a quebra acidental de “propriedade do
governo” sob a forma de vidraça.1
A sentença que recebeu foi severa, mas muitas pessoas comuns
enfrentaram um período de um a cinco anos em um campo por falhas bem
mais leves. A maior parte das provas está seguramente trancada em arquivos
fechados pertencentes aos departamentos de segurança pública, mas relatórios sobre crime e punição copiados ocasionalmente para outros órgãos
do partido detalham, por exemplo, que até ladrõezinhos em Nanquim eram
sentenciados a penas de cinco a dez anos no verão de 1959.2 Em Pequim, um
registro interno de prisão com detalhes de quatrocentos prisioneiros homens
mostra que uma sentença de cinco a dez anos por um delito menor não era
nada de extraordinário. Ding Baozhen, um fazendeiro que se unira ao
Exército de Libertação Popular em 1945 e foi desmobilizado uma década
depois, furtou dois pares de calças que valiam no total 17 yuans. Foi preso em
11 de fevereiro de 1958 por doze anos. Chen Zhiwen, um aldeão analfabeto
que roubou viajantes na estação de ônibus de Qianmen, na capital, pegou
quinze anos. Outro miserável que mal ganhava a vida como vaqueiro antes de
ir para a cidade em 1957 foi preso por roubo em frente à Loja de
Departamentos de Pequim: ele também foi trancafiado por quinze anos.3
Menos pessoas, no entanto, foram fuziladas que nos anos anteriores — ao
menos depois de 1958. A política era “prender menos, matar menos e
supervisionar menos”, explicou Xie Fuzhi, ministro de Segurança Pública, à
sua equipe, em abril de 1960. A morte por execução, como tudo o mais na
economia planificada, era um número, uma meta a ser preenchida, um
quadro estatístico no qual os números tinham que se somar: 4 mil deveriam
ser mortos em 1960, anunciou Xie Fuzhi. Isso era menos que no ano anterior.
Em 1959, 4.500 pessoas foram mortas (o termo era sempre matar, sha, porque
os regimes comunistas raramente sentiam necessidade de disfarçar o
assassinato judicial com eufemismos como “pena de morte”, ou “punição
capital”), enquanto 213 mil pessoas eram presas e mais 677 mil eram
publicamente humilhadas.4
Nenhum desses dados sensíveis é fácil de ser encontrado, mas um
documento de segurança pública de Hebei mostra que isso funcionava em
nível provincial. Na província em torno da capital, cerca de 16 mil
“contrarrevolucionários” foram presos em 1958, três vezes mais que nos dois
anos anteriores, assim como 20 mil criminosos comuns, o número mais alto
desde 1949, à exceção de 1955. Esses números caíram drasticamente em 1959,
quando foram presos 1.900 “contrarrevolucionários” e 5 mil criminosos comuns. Pouco mudou em 1960 e 1961, exceto o número de criminosos
comuns, que caiu para pouco mais de mil.5 Cerca de oitocentos foram
fuzilados em 1959.6
Poucos podem ter sido mortos, mas até um curto período em um campo
de trabalho podia trazer doença e morte. Uma constelação de campos de
trabalho se estendia pelas regiões mais inóspitas do país, desde as “grandes
regiões selvagens no norte”, como eram chamadas as vastas extensões
pantanosas de Heilongjiang, até as montanhas e desertos áridos de Qinghai e
Gansu, no noroeste. A vida era miserável, se não débil, fora do sistema de
gulag, mas, dentro das minas de sal e urânio, das fábricas de tijolos, das
fazendas do Estado e dos campos de trabalho, um regime brutal se combinava
com a ampla desnutrição para enterrar um em cada quatro ou cinco
prisioneiros. Em Huangshui, Sichuan, mais de um terço de todos os
prisioneiros morreu de fome.7 Em Jiabiangou, uma área de dunas de areia
perto do deserto de Gobi, em Gansu, o primeiro lote de 2.300 prisioneiros
chegou em dezembro de 1957. Quando os prisioneiros foram removidos para
outra fazenda em setembro de 1960, mil haviam morrido em condições
abjetas. Isso foi seguido de 640 mortes em novembro e dezembro, quando o
campo foi finalmente fechado, no rastro da queda do poder de Zhang
Zhongliang.8 Em geral, em toda a província, cerca de 82 mil prisioneiros
estavam em centenas de campos de trabalho em junho de 1960.9 Em
dezembro de 1960 restavam apenas 72 mil prisioneiros, perto de 4 mil tendo
morrido só naquele mês.10 Os índices de morte anuais mais baixos nos
campos de trabalho registrados nos arquivos consultados para este livro
foram de 4% a 8% ao ano entre 1959 e 1961 em Hebei, que tinha apenas
poucos milhares de prisioneiros.11
Qual era o tamanho da população do laogai, ou campos de reforma pelo
trabalho? Xie Fuzhi colocou o total — excluindo o Tibete — em 1,8 milhão
em 1960. Os prisioneiros trabalhavam em 1.077 fábricas, minas e pedreiras,
assim como em 440 fazendas.12 Uma taxa de mortalidade aproximada de 5%
em 1958 e 1962 e de 10% ao ano de 1959 a 1961 atingiria 700 mil mortes por
doença e desnutrição. Não admira que alguns quisessem escapar. Mas a vigilância geralmente era rígida, mesmo porque os campos de trabalho davam
uma contribuição crucial para a economia do país — estimada por Xie Fuzhi,
em 1960, em 3 bilhões de yuans por ano, sem contar as 750 mil toneladas de
produtos das fazendas.13
* * *
Os campos de reforma pelo trabalho eram apenas uma parte de um sistema
bem mais amplo de gulag. As pessoas submetidas a sessões de humilhação
pública ou colocadas sob vigilância formal — pouco menos de um milhão em
1959 — eram despachadas com demasiada frequência para uma prisão
local.14 E, mais importante: de 1957 a 1962, a justiça formal era abreviada.
Isso começou, como sempre, no alto, na pessoa de Mao Tsé-tung. Em agosto
de 1958, ele declarou que “cada uma das nossas resoluções do partido é uma
lei. Quando fazemos uma conferência ela se torna lei [...]. A grande maioria
das regras e regulamentos (90%) são traçados pela administração judiciária.
Não devemos nos apoiar nessas regras e regulamentos, devemos nos apoiar,
principalmente, nas resoluções e conferências, quatro [conferências] por ano
em vez de lei comum e lei criminal para manter a ordem.”15
A palavra do presidente era, de fato, a lei, e os comitês do partido — “com
a ajuda das massas” — se encarregavam das questões judiciais. Foi essa
pressão política que trouxe à baila a abolição do Ministério da Justiça em
1959. No campo, isso significou que o poder passou das autoridades
judiciárias locais para as milícias locais. Em todo o condado de Ningjin,
Hebei, com uma população de 830 mil pessoas, apenas oitenta quadros
estavam no comando da polícia, da inspetoria e dos tribunais. Isso era metade
do que existia antes do advento das comunas do povo.16
A milícia local se apoiava em uma dimensão completamente nova,
acrescentada ao mundo das prisões a partir de agosto de 1957: os campos de
reeducação pelo trabalho, chamados laojiao. Criminosos comuns, como Shen
Shanqing, recebiam uma sentença de um tribunal do povo, mas os
prisioneiros dos campos de reeducação não estavam sujeitos a nenhum procedimento judicial e poderiam ser mantidos indefinidamente — até
estarem completamente “reeducados”. Ao contrário dos campos de reforma
pelo trabalho, os novos campos eram organizados pelas províncias, cidades,
condados, comunas do povo e até por aldeias, e não pelo Ministério da
Segurança Pública. Qualquer pessoa suspeita de roubar, vagabundear,
caluniar o partido, escrever slogans reacionários nos muros, obstruir o
trabalho ou cometer um ato visto como contrário ao espírito do Grande Salto
Adiante podia ser trancafiada em campos de reeducação. Estes eram tão
duros quanto os campos de trabalho mais formais e brotaram em toda parte
depois de 1957. Xie Fuzhi mencionou 440 mil prisioneiros em campos de
reeducação em 1960, mas o que ele via a distância de seu escritório em
Pequim não era mais que a ponta do iceberg.17
Somente quando equipes de trabalho foram enviadas ao campo do fim de
1960 em diante, para supervisionar um expurgo de quadros locais, a
dimensão real do encarceramento local finalmente veio à luz. Era difícil
encontrar um coletivo que não administrasse seu próprio gulag, apoiado na
poderosa milícia criada no verão de 1958. Relatório após relatório
mencionam como esta ou aquela unidade — repartições de polícia local,
equipes de aldeia, comunas do povo — tinham estabelecido um “campo de
punição privado” (sili xingchang). Para cada criminoso como Shen Shanqing,
formalmente entregue aos tribunais, vários contornavam o sistema judicial e
terminavam em uma prisão local. O tamanho desse mundo na sombra nunca
se saberá. Na comuna-modelo de Xushui, como vimos, Zhang Guozhong
construiu um elaborado sistema de gulag, estendendo-o do condado a cada
brigada. Ele continha 1,5% da população local.18 Em Fengxian, próximo de
Xangai, aldeões eram rotineiramente levados para campos de trabalho
especiais, um dos quais instalado especificamente para prender crianças
recalcitrantes.19 No condado de Kaiping, uma única brigada se gabava de não
ter menos que quatro campos, aos quais as pessoas eram mandadas por dois
dias ou por períodos mais longos, de até 150 dias. Uma vez dentro dos
campos, muitas eram espancadas e torturadas; algumas ficavam aleijadas para
toda a vida.20 Às vezes, as pessoas não eram nem trancadas em uma prisão formal. Para dar um exemplo, um oficial de Kaiping acorrentou uma anciã,
acusada de roubo, durante dez dias, na cantina, usando de 4 a 5 quilos de
algemas. Um jovem miliciano acendia fósforos para queimar os pés dela.21
Inventavam-se campos e sanções especiais em todo o país, enquanto à
justiça local era permitido agir sem freios. No condado de Yinjiang, Guizhou,
os internos de um campo tinham o sinal de “ladrão” impresso na testa em
tinta vermelha. Em toda a província, as comunas do povo instalaram “centros
de treinamento” (jixundui), para onde aqueles que expressavam críticas
severas ou se recusavam a participar de reuniões eram enviados para
“reeducação” e compelidos ao trabalho pesado.22 Vários “campos de
treinamento” também foram criados pelo Departamento de Segurança
Pública em Liuzhou em 1959, para cuidar dos elementos subversivos que
objetavam à coletivização.23 No condado de Yanqing, no norte de Pequim, a
mais leve suspeita de preguiça resultava em detenção: uma mulher de 62 anos
ficou um mês no confinamento por não ter apanhado quantidade suficiente
de pardais.24
Se para cada criminoso entregue ao sistema formal de justiça, cerca de três
ou quatro pessoas eram trancadas em um campo local de reeducação, o total
da população prisioneira deve ter chegado de 8 milhões a 9 milhões em
qualquer ano durante o Grande Salto Adiante (1,8 a 2 milhões em campos de
trabalho, 6 a 8 milhões em campos de reeducação). O número total de mortes
devido à doença e à desnutrição, conservadoramente estimado antes em cerca
de um milhão em campos de trabalho formais, teria de ser multiplicado por
três ou quatro, significando que pelo menos 3 milhões morreram no gulag
durante a fome.25 A taxa de morte era alta, mas, comparada à da União
Soviética nos anos 1930, a taxa de encarceramento era relativamente baixa.
Isso aconteceu porque comparativamente poucas pessoas, de fato, cumpriam
tempo por crime. Em vez disso, eram espancadas e sujeitadas à fome.