A Grande Fome de Mao
16. Saída do pesadelo
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Saída do pesadelo
Confrontados com uma economia falida, Chu En-lai, Li Fuchun e Li
Xiannian, o triunvirato de plantão, começaram em agosto de 1960 a afastar da
União Soviética a estrutura de comércio da China e direcioná-la para o
Ocidente. Nos meses seguintes, Chu En-lai e Chen Yun conseguiram
convencer Mao de que importações de cereais eram necessárias para pôr a
economia de pé novamente após as perdas na agricultura atribuídas a
desastres naturais. Os planejadores do partido também começaram
discretamente a idealizar uma reviravolta e a remendar, com extrema
prudência, as diretrizes políticas. Li Fuchun iniciou o trabalho com um novo
lema que enfatizava o “ajustamento” em vez de grandes saltos adiante em
agosto de 1960. Em um Estado de partido único, onde o governo, segundo a
palavra de ordem, segurava as rédeas, a própria noção de “ajustamento” teria
sido impensável apenas seis meses antes. Chu En-lai acrescentou,
cautelosamente, o termo “consolidação” para torná-lo mais palatável para
Mao.1 Li Fuchun teria que navegar cuidadosamente para que o novo mantra
fosse aprovado por um presidente caprichoso.
Então, em 21 de outubro de 1960, um relatório do Ministério da
Supervisão aterrissou na mesa de Li Fuchun. Era sobre inanição em massa em
Xinyang, região da província-modelo de Henan, de Wu Zhipu. Uma
investigação anterior mencionara 18 mil mortes só no condado de
Zhengyang, mas, agora, o número quadruplicara para 80 mil mortes. Em Suiping, onde se localizava a consagrada comuna de Chayashan, um em cada
dez aldeões morrera de fome.2
Quando Li Fuchun entregou o relatório três dias depois a Mao Tsé-tung, o
presidente ficou visivelmente perturbado: ali estavam contrarrevolucionários
que haviam tomado o poder em uma região inteira, levando adiante atos
horríveis de vingança contra classes inimigas. Após encontro urgente com Liu
Shaoqi e Chu En-lai, uma equipe foi despachada sob a liderança de Li
Xiannian, a quem se juntaram no caminho Tao Zhu e Wang Renzhong.
Em Xinyang encontraram um pesadelo. No condado de Guangshan,
marco zero da fome, ouviram discretos soluços de desespero de sobreviventes
esfomeados, amontoados no frio severo entre os destroços de seus lares
destruídos, cercados de campos infrutíferos marcados por túmulos. As
lareiras estavam frias como gelo, pois tudo o mais, de portas, janelas e
esquadrias a telhados de palha, tinha sido arrancado para servir de
combustível. Não havia mais comida. No reinado de terror após a
Conferência de Lushan, as milícias locais promoveram desordens pelas vilas
em busca de grão escondido, confiscando tudo para compensar a queda na
produção. Em um condado que antes fervia de atividade, duas crianças de
membros finos e cabeças esqueléticas, deitadas ao lado da avó cadavérica,
eram os únicos sobreviventes.3 Uma em cada quatro pessoas de uma
população local de meio milhão havia perecido em Guangshan.4 Túmulos
coletivos eram cavados. Dez bebês que ainda respiravam tinham sido jogados
no chão gelado em Chengguan.5 No total, em 1960, mais de um milhão de
pessoas morreram na região de Xinyang. Dessas vítimas, 67 mil tinham sido
espancadas com porretes até morrer.6 Li Xiannian chorou: “A derrota do
Exército da Rota Ocidental foi cruel e não derramei uma só lágrima, mas,
depois de ver esse horror em Guangshan, até eu sou incapaz de me
controlar.”7
“Pessoas más tomaram o poder, causaram espancamentos, mortes,
escassez de cereais e fome. A revolução democrática não foi completada, pois
forças feudais, cheias de ódio ao socialismo, criam problemas e sabotam as
forças produtivas socialistas”: sem poder mais negar a extensão do desastre, Mao, líder paranoico, que via o mundo em termos de tramas e conspirações,
culpou as classes inimigas pelo problema.8 Fazendeiros ricos e elementos
contrarrevolucionários tiraram vantagem da campanha antidireitista para
rastejar de volta ao poder e executar atos de vingança de classe. Em nenhum
momento, o presidente reconheceu que o regime de terror que modelara na
cúpula se reproduzia em todos os níveis da hierarquia do partido.
Mao ordenou que o poder fosse tomado de volta. Em todo o campo
desenvolveu-se uma campanha, frequentemente apoiada por delegações
enviadas de Pequim, para descobrir e remover pela raiz os “inimigos de
classe”. Li Xiannian e Wang Renzhong supervisionaram um expurgo em
Henan em que líderes do condado foram derrubados e milhares de oficiais
investigados, alguns imediatamente presos.9 Um general com uma equipe de
quarenta homens foi despachado de Pequim para limpar a milícia.10 Em
Gansu, uma delegação enviada pelo Ministério de Inspeção, liderada por
Qian Ying, supervisionou um grande expurgo, que resultou no rebaixamento
de Zhang Zhongliang a terceiro-secretário do comitê provincial do partido.
Outras regiões se seguiram, pois uma ordem urgente atrás de outra
pressionava pela derrubada de “oficiais abusivos” nas comunas do povo. Em 3
de novembro de 1960, uma diretriz de emergência foi finalmente posta em
circulação, permitindo que os aldeões mantivessem hortas privadas, se
engajassem em outras atividades, trabalhassem oito horas por dia e
restaurassem os mercados locais, entre outras medidas destinadas a
enfraquecer o poder das comunas sobre os aldeões.11
Foi o começo do fim da inanição em massa. Ao sentir a mudança do vento,
Li Fuchun fez com que fosse aceita sua política de ajustamento para o ano de
1961.12 Fora ele o primeiro planejador a apoiar Mao no lançamento do
Grande Salto Adiante. Agora, era ele o primeiro a recuar e a conduzir,
prudentemente, uma política de renascimento econômico com o
conhecimento do presidente.
Nesse estágio, Liu Shaoqi ainda observava a cena dos bastidores.
Compartilhava o ponto de vista do presidente de que o campo se tornara solo
fértil para a contrarrevolução. Como outros líderes, preferira ignorar o que acontecia no local de produção depois de Lushan e, em vez disso, devotava
grande parte de sua energia a denunciar estridentemente o caminho
revisionista tomado pela União Soviética. Não era indiferente à fome. A falta
de alimentos era evidente até dentro das paredes vermelhas de Zhongnanhai,
o complexo que servia de quartel-general do partido em Pequim. Carne, ovos
e óleo de cozinha eram escassos, e o edema da fome e a hepatite eram
endêmicos.13 Mas era politicamente mais seguro interpretar os sinais de
inanição como resultado de desastres ambientais. Em 20 de janeiro de 1961,
Liu Shaoqi fez um discurso bombástico a uma audiência de Gansu sobre os
perigos do feudalismo que tinham levado à calamidade testemunhada em
Xinyang: “Isto é uma revolução: a chave é mobilizar as massas. Deveríamos
mobilizar as massas e permitir que elas se libertassem.”14
Apenas dias antes, Mao expressara surpresa com a extensão da reação
burguesa no campo: “Quem pensaria que o campo abrigava tantos
contrarrevolucionários? Não esperávamos que a contrarrevolução usurpasse
o poder ao nível da aldeia e levasse adiante atos cruéis de vingança de
classe.”15 Em vez de se apoiar nos relatórios das zonas rurais, que, Mao
afirmava, haviam desinformado a liderança, o presidente decidiu despachar
várias equipes de alto nível para investigar o campo. Deng Xiaoping, Chu En-
lai e Peng Zhen foram mandados para visitar as comunas em torno de
Pequim. O próprio Mao passou várias semanas em Hunan. Na esperança de
que os agricultores falassem com ele sem inibição, Liu Shaoqi dirigiu-se ao
seu lar, em Huaminglou, Hunan. Seria uma experiência reveladora com
repercussões de longo alcance.
* * *
Determinado a evitar o grande séquito de guarda-costas e funcionários locais
que inevitavelmente acompanhavam a visita de um alto dignitário, Liu partiu
em viagem de Changsha, em 2 de abril de 1961, em dois jipes, na companhia
de sua mulher e de alguns assistentes, tigela e pauzinhos de comer em sua
bagagem leve, pronto para um regime espartano no campo. Logo, o comboio encontrou sinais de uma grande fazenda de porcos. Uma olhada mais de
perto revelou que a fazenda consistia em não mais que uma dúzia de porcos
esqueléticos que procuravam alimento na lama. Liu decidiu passar a noite no
armazém de rações e seus acompanhantes vasculharam em vão o lugar em
busca de palha de arroz para forrar as camas de tábua. Liu notou que
excremento humano seco, empilhado para servir de fertilizante, consistia em
nada mais que fibra crua, outro indicador de fome disseminada. Perto dali,
crianças vestidas de andrajos cavavam o solo em busca de ervas silvestres.16
Os temores de Liu Shaoqi se confirmaram nas semanas seguintes, por mais
difícil que fosse conseguir que agricultores desconfiados falassem a verdade.
Em uma aldeia onde parou a caminho de casa, descobriu que o número de
mortes fora ocultado pelos líderes locais, enquanto um relatório oficial
pintava um quadro da vida diária que nada tinha a ver com o desamparo que
Liu via no local de produção. Ele se atritou com o chefe local, que tentou
impedir a equipe de falar com os aldeões. Liu foi atrás de um oficial demitido
como direitista em 1959: Duan Shucheng falou e explicou como a brigada
ganhara uma bandeira vermelha durante o Grande Salto Adiante. Para
proteger seu status privilegiado, explicou Duan, os líderes locais perseguiram
sistematicamente qualquer um que ousasse expressar um ponto de vista
divergente. Em 1960, a magra colheita de 360 toneladas de grãos foi
aumentada para 600 toneladas. Depois dos confiscos, os aldeões foram
deixados com irrisórios 180 quilos, dos quais sementes e forragens tinham
que ser tiradas, deixando um punhado de arroz por dia.17
Na cidade natal de Liu Shaoqi, Tanzichong, amigos e parentes foram
menos relutantes em falar. Negaram que tivesse havido seca no ano anterior e
culparam os oficiais pela escassez de alimentos: “Desastres provocados pelo
homem são a principal razão, não calamidades naturais.” Na cantina, os
utensílios de cozinha, tigelas sujas e pauzinhos estavam atirados em uma
pilha sobre o chão. Algumas folhas de aspargos eram o único vegetal
disponível, que devia ser preparado sem óleo de cozinha. Liu ficou abalado
com o que viu. Poucos dias depois, desculpou-se com seus vizinhos em um
comício com muitas pessoas: “Não vinha à minha casa há quase quarenta
anos. Eu realmente queria voltar para casa para fazer uma visita. Agora vi como suas vidas são amarguradas. Não fizemos bem o nosso trabalho e
imploramos o seu perdão.” Naquela mesma noite, a cantina foi dissolvida por
ordem de Liu.18
Homem comprometido com o partido, Liu Shaoqi ficou genuinamente
chocado com o estado desastroso em que encontrou sua cidade natal.
Dedicara cada minuto de seu tempo ao partido e descobrira que o partido
trouxera abuso generalizado, desastre e inanição para as pessoas que
pretendia servir. O que também descobriu foi uma completa falta de conexão
entre pessoas e partido: ele tinha sido deliberadamente mantido no escuro —
ou isso afirmava.
Embora os detalhes de sua viagem ao campo sejam bem conhecidos, seu
choque com os funcionários locais não são. Primeiro, Liu desviou a culpa
para o chefe do partido Zhang Pinghua, que tomava conta da província após a
queda do poder de Zhou Xiaozhou: “Minha cidade natal é uma enorme
confusão, mas ninguém me mandou um relatório, nem mesmo uma simples
carta ou reclamação. No passado, as pessoas costumavam me mandar cartas,
mas depois tudo parou. Não acho que não queriam mais me escrever, ou se
recusassem a escrever, temo que não tinham permissão para escrever, ou
escreviam e suas cartas eram inspecionadas e confiscadas.” Com o
Departamento de Segurança Pública foi áspero e acusou o aparato de
segurança de estar “completamente podre”. Como podia a polícia local ter
permissão para ler e reter cartas pessoais e como podia se safar com
investigação e espancamento de pessoas por tentar levar malfeitos ao
conhecimento dele? Mais tarde, Liu confrontou Xie Fuzhi, o poderoso
ministro da Segurança Pública e estreito aliado de Mao, perguntando-lhe por
que era permitido que a violência prosseguisse sem controle em sua cidade
natal. Liu, o paciente construtor do partido, se fora: em seu lugar ficara um
homem abalado em sua fé que havia prometido falar em nome dos
conterrâneos aldeões.19
* * *
De volta a Pequim, Liu continuou a falar com franqueza. Em 31 de maio de
1961, em uma reunião de líderes, fez um discurso emocional, no qual, de
forma direta, pôs a culpa pela fome nos ombros do partido. “Os problemas
que apareceram nos últimos anos realmente se devem a desastres naturais ou
a deficiências e erros que tivemos em nosso trabalho? Em Hunan, os
camponeses têm um ditado de que ‘30% se devem a desastres naturais, 70% a
desastres artificiais’.” Liu rejeitou a tentativa de disfarçar a escala da
calamidade por meio da insistência dogmática em que a política geral do
partido era um grande sucesso e magoou Mao ao ridicularizar um de seus
aforismos favoritos: “Alguns camaradas dizem que esses problemas são
meramente um dedo em dez. Mas agora temo que isso não seja mais uma
questão de um em dez. Sempre dizemos nove dedos contra um dedo: a
proporção nunca muda, mas isso não combina de fato com a realidade.
Deveríamos ser realistas e falar das coisas como realmente são.” Sobre a linha
do partido, não mediu as palavras. “Houve muitas fraquezas e erros, até
fraquezas e erros muito sérios em levar adiante a linha do partido, em
organizar as comunas do povo, em organizar o trabalho para o Grande Salto
Adiante.” E ele não tinha dúvida sobre onde estava a responsabilidade. “O
centro é o principal culpado. Nós, líderes, somos todos culpados, não vamos
culpar uma só pessoa, ou um departamento.”20
Liu se separava de Mao. Escapou das consequências por sua crítica porque
o horror, àquela altura, era tão evidente, em todo lugar, que não podia mais
ser ocultado. Pagaria caro por seu desafio durante a Revolução Cultural, mas,
por enquanto, os outros líderes se inclinaram cautelosamente na direção de
Liu Shaoqi e mudaram, muito levemente, o equilíbrio do poder, afastando-o
de Mao. Chu En-lai, sempre circunspecto, reconheceu alguns erros cometidos
na esteira da Conferência de Lushan e, depois, para ajudar o presidente a
manter as aparências, abertamente aceitou a culpa por tudo que dera
errado.21
Liu Shaoqi aproveitou a chance de levar ao limite o debate crítico, mas foi
Li Fuchun quem usou a mudança para montar um recuo estratégico em
relação ao Grande Salto Adiante. Homem de ares modestos que gostava de
ler, Li desconfiava de visões dissidentes, mas também mudou de tom, fazendo uma análise sincera e vigorosa da economia em um encontro de planejadores
do partido em Beidaihe, em julho de 1961. Apenas poucos meses antes, atento
às mudanças de humor do presidente, suavizara a escassez geral, afirmando
que uma sociedade socialista nunca se desenvolvia em linha reta, pois até a
União Soviética passara por períodos de redução da produção de grãos.22
Mas, na esteira do ataque de Liu Shaoqi, não mais se esquivou da questão. Em
Shandong, Henan e Gansu, observou, dezenas de milhões de agricultores
lutavam para sobreviver com um punhado de cereais por dia, e a fome tinha
pouco a ver com calamidades naturais. As pessoas morriam de fome por
causa de erros do partido. Li tinha sete adjetivos para descrever o Grande
Salto Adiante: alto demais, grande demais, igual demais (o que significava que
todos os incentivos tinham sido anulados), disperso demais, caótico demais,
rápido demais e inclinado demais a transferir recursos. Uma prolongada
análise se seguiu, assim como propostas concretas destinadas a reduzir todas
as metas de produção e recolocar a economia nos trilhos. Estreito seguidor de
Mao, Li teve um modo astuto de absolvê-lo de toda a culpa: “As diretrizes do
presidente Mao são inteiramente corretas, mas nós, incluindo os órgãos
centrais, cometemos erros ao executá-las.”23
Li recebeu o endosso do presidente. No mês seguinte, fez relatório
semelhante em um encontro de alto nível do partido em Lushan e novamente
isentou o presidente de qualquer responsabilidade. Foi o momento crítico da
fome. Li falava suavemente, era despretensioso e sua lealdade a Mao
dificilmente seria posta em dúvida. À diferença de Peng Dehuai, encontrou
um meio de apresentar os fatos sem incorrer em sua ira. Mao, líder paranoico
que suspeitava de traição à mais leve desaprovação, elogiou o relatório.
Uma série de cáusticas análises seguiu-se ao discurso de Li Fuchun. Li
Yiqing, antigo secretário do partido, relatou que, em 1958, mais de 140 mil
toneladas de ferramentas agrícolas tinham sido lançadas nas fornalhas de
fundo de quintal na província-modelo de Henan. Wu Jingtian, vice-ministro
de Ferrovias, explicou como uma em cada cinco locomotivas estava fora de
circulação por causa de defeito na máquina. Peng De, vice-ministro de
Transportes, anunciou que menos de dois em cada três veículos sob seu
comando trabalhavam realmente. O vice-ministro da Metalurgia, Xu Chi, observou que as forjarias de aço de Angang tinham sido obrigadas a parar
durante semanas a fio no verão por causa da escassez de carvão.24
Mao raramente ia aos encontros, seguindo-os em vez disso por meio de
relatórios compilados todas as noites. Ele estava em retiro, abstendo-se
estrategicamente de fazer julgamentos e descobrindo em que pé estavam seus
colegas. Mas não estava satisfeito. Desabafou com seu médico, Li Zhisui:
“Todos os bons membros do partido morreram. Os únicos que restaram são
um bando de zumbis.”25 Mas não tomou nenhuma atitude. Finalmente, os
líderes do partido começavam a discutir entre eles a extensão do dano trazido
por três anos de coletivização forçada. O que descobriram foi uma destruição
em escala que poucos teriam imaginado.