A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 40 de 43

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A Grande Fome de Mao

Epílogo

 

O momento decisivo ocorreu em janeiro de 1962, quando 7 mil quadros

chegaram de todas as partes para participar da maior conferência de trabalho

jamais realizada no vasto e moderno Salão do Povo, em Pequim. Liu Shaoqi, o

chefe de Estado, divulgou o relatório oficial para uma audiência apinhada e

falou por 3 horas sem parar — mas não sem interrupção. Ele não confrontou

Mao diretamente, o que teria sido impensável, mas repetiu abertamente tudo

o que dissera a portas fechadas para um pequeno grupo de líderes seniores

seis meses antes. Em Hunan, explicou, os agricultores acreditavam que as

“dificuldades” eram 30% devidas a calamidades naturais e 70% a desastres

provocados pelo homem. O próprio uso do termo “desastre feito pela mão do

homem” (renhuo) foi uma bomba e arrancou exclamações da audiência.

Enquanto Liu prosseguia e rejeitava a expressão “nove dedos para um”, a

frase favorita de Mao para enfatizar as conquistas sobre os reveses, a tensão se

tornava palpável. “Em geral, nossos sucessos têm sido primários; as falhas e os

erros são secundários, ocupam a segunda posição. Eu me pergunto se

podemos dizer, genericamente falando, que a razão de conquistas em relação

aos recuos é de sete para três, embora em cada região seja diferente. Um dedo

para nove dedos não se aplica a todos os lugares. Há apenas um pequeno

número de regiões onde os erros são iguais a um dedo e os sucessos iguais a

nove dedos.” Mao interrompeu Liu, visivelmente aborrecido: “Não é de forma

alguma um número pequeno de regiões; por exemplo, em Hubei, apenas 20%

das regiões reduziram a produção, e, em Jiangsu, 30% de todas as regiões

aumentaram a produção ano após ano!” Mas Liu não se deixou intimidar e continuou: “Em geral, não podemos dizer que seja meramente um dedo, mas

antes três, e, em alguns lugares, é até mais: por exemplo, na região de Xinyang

[em Henan] ou na região de Tianshui [em Gansu].” E quem foi responsável

por esse desastre? Liu pôs abertamente a culpa na liderança central.1

De fato, Liu tentou apaziguar o presidente ao defender a linha geral do

partido, adiando o veredicto sobre as comunas para cinco ou, talvez, dez anos

mais tarde. Mas Mao se enfureceu mesmo assim. “Ele fala sobre desastres

naturais contra desastres feitos pelo homem. Esse tipo de conversa é um

desastre em si”, confidenciou para seu médico.2

Lin Biao, o general que havia corrido em defesa do presidente na

Conferência de Lushan, em 1959, elogiou novamente o Grande Salto Adiante

e o aclamou como uma realização sem precedentes quando comparado a

qualquer outro período da história do país. Com entusiasmo exagerado,

recitou: “Os pensamentos do presidente Mao estão sempre corretos [...]. A

superioridade do presidente Mao tem muitos aspectos, não apenas um, e eu

sei por experiência que a qualidade mais destacada do presidente Mao é o

realismo. O que ele diz é muito mais realista que o que outros dizem. Ele está

sempre muito próximo do alvo. Ele nunca está fora de contato com a

realidade [...]. Sinto profundamente que, quando no passado nosso trabalho

foi bem-feito, foi precisamente quando implementamos de modo completo e

não interferimos com o pensamento do presidente Mao. Toda vez que as

ideias do presidente Mao não foram suficientemente respeitadas ou sofreram

interferência, houve problemas. Isso é essencialmente o que mostra a história

do nosso partido nas últimas décadas.”3

Chu En-lai fez o que sempre fazia melhor. Tentou absolver o presidente

Mao ao absorver grande parte da culpa pelo que dera errado e assumir

responsabilidade pessoal pelas requisições excessivas de grãos, pelos números

inflados de produção, pela retirada dos grãos das províncias e pelas

exportações crescentes de alimentos. “Isso é erro meu”, declarou e foi adiante

para asseverar que “as falhas e os erros dos últimos anos ocorreram

precisamente quando infringimos a linha geral e as preciosas instruções do

presidente Mao.”4 Chu En-lai tentou construir uma ponte no vazio que se abriu entre Mao e Liu, mas não adiantou.

Nunca saberemos quando Mao decidiu livrar-se de Liu e pôr em

movimento a Revolução Cultural que destruiria as vidas de todos os que se

opuseram a ele durante o Grande Salto Adiante. Mas um bom palpite é que

ele começou a tramar a eliminação de sua cada vez mais ameaçadora nêmese

assim que percebeu que todo o seu legado e sua posição na história estavam

em perigo.

O momento definidor pode ter sido uma tarde de verão em julho de 1962,

quando Mao boiava em sua piscina. Ele tinha sido chamado com urgência de

volta a Pequim por Liu e estava de mau humor. O filho de Liu recorda que

seu pai se aproximou apressadamente do presidente e foi solicitado a explicar

o porquê da pressa. Liu começou a relatar que Chen Yun e Tian Jiaying, dois

dos críticos mais francos do Grande Salto Adiante, queriam apresentar

formalmente seus pontos de vista sobre a distribuição de terra. Mao logo

explodiu em uma torrente de denúncias. Mas Liu não desistiu. Falou

apressadamente: “Tantas pessoas morreram de fome!” Depois, deixou

escapar: “A história julgará você e eu, até canibalismo irá para os livros!”

Mao foi tomado por uma grande fúria. “As Três Bandeiras Vermelhas

foram derrubadas, agora a terra está sendo dividida novamente”, gritou. “O

que você fez para resistir a isso? O que vai acontecer depois que eu morrer?”

Os dois homens se acalmaram e Mao concordou em que uma política

econômica de ajustamento deveria continuar.5 Mas o presidente agora estava

convencido de que havia encontrado o seu Kruschev, o servo que denunciara

o patrão, Stalin. Liu, concluiu Mao, era obviamente o homem que publicaria

um discurso secreto e denunciaria todos os seus crimes. Mao esperava o

momento propício, mas o trabalho paciente para lançar uma Revolução

Cultural que dividiria o partido e o país já havia começado.