A Grande Fome de Mao
Epílogo
O momento decisivo ocorreu em janeiro de 1962, quando 7 mil quadros
chegaram de todas as partes para participar da maior conferência de trabalho
jamais realizada no vasto e moderno Salão do Povo, em Pequim. Liu Shaoqi, o
chefe de Estado, divulgou o relatório oficial para uma audiência apinhada e
falou por 3 horas sem parar — mas não sem interrupção. Ele não confrontou
Mao diretamente, o que teria sido impensável, mas repetiu abertamente tudo
o que dissera a portas fechadas para um pequeno grupo de líderes seniores
seis meses antes. Em Hunan, explicou, os agricultores acreditavam que as
“dificuldades” eram 30% devidas a calamidades naturais e 70% a desastres
provocados pelo homem. O próprio uso do termo “desastre feito pela mão do
homem” (renhuo) foi uma bomba e arrancou exclamações da audiência.
Enquanto Liu prosseguia e rejeitava a expressão “nove dedos para um”, a
frase favorita de Mao para enfatizar as conquistas sobre os reveses, a tensão se
tornava palpável. “Em geral, nossos sucessos têm sido primários; as falhas e os
erros são secundários, ocupam a segunda posição. Eu me pergunto se
podemos dizer, genericamente falando, que a razão de conquistas em relação
aos recuos é de sete para três, embora em cada região seja diferente. Um dedo
para nove dedos não se aplica a todos os lugares. Há apenas um pequeno
número de regiões onde os erros são iguais a um dedo e os sucessos iguais a
nove dedos.” Mao interrompeu Liu, visivelmente aborrecido: “Não é de forma
alguma um número pequeno de regiões; por exemplo, em Hubei, apenas 20%
das regiões reduziram a produção, e, em Jiangsu, 30% de todas as regiões
aumentaram a produção ano após ano!” Mas Liu não se deixou intimidar e continuou: “Em geral, não podemos dizer que seja meramente um dedo, mas
antes três, e, em alguns lugares, é até mais: por exemplo, na região de Xinyang
[em Henan] ou na região de Tianshui [em Gansu].” E quem foi responsável
por esse desastre? Liu pôs abertamente a culpa na liderança central.1
De fato, Liu tentou apaziguar o presidente ao defender a linha geral do
partido, adiando o veredicto sobre as comunas para cinco ou, talvez, dez anos
mais tarde. Mas Mao se enfureceu mesmo assim. “Ele fala sobre desastres
naturais contra desastres feitos pelo homem. Esse tipo de conversa é um
desastre em si”, confidenciou para seu médico.2
Lin Biao, o general que havia corrido em defesa do presidente na
Conferência de Lushan, em 1959, elogiou novamente o Grande Salto Adiante
e o aclamou como uma realização sem precedentes quando comparado a
qualquer outro período da história do país. Com entusiasmo exagerado,
recitou: “Os pensamentos do presidente Mao estão sempre corretos [...]. A
superioridade do presidente Mao tem muitos aspectos, não apenas um, e eu
sei por experiência que a qualidade mais destacada do presidente Mao é o
realismo. O que ele diz é muito mais realista que o que outros dizem. Ele está
sempre muito próximo do alvo. Ele nunca está fora de contato com a
realidade [...]. Sinto profundamente que, quando no passado nosso trabalho
foi bem-feito, foi precisamente quando implementamos de modo completo e
não interferimos com o pensamento do presidente Mao. Toda vez que as
ideias do presidente Mao não foram suficientemente respeitadas ou sofreram
interferência, houve problemas. Isso é essencialmente o que mostra a história
do nosso partido nas últimas décadas.”3
Chu En-lai fez o que sempre fazia melhor. Tentou absolver o presidente
Mao ao absorver grande parte da culpa pelo que dera errado e assumir
responsabilidade pessoal pelas requisições excessivas de grãos, pelos números
inflados de produção, pela retirada dos grãos das províncias e pelas
exportações crescentes de alimentos. “Isso é erro meu”, declarou e foi adiante
para asseverar que “as falhas e os erros dos últimos anos ocorreram
precisamente quando infringimos a linha geral e as preciosas instruções do
presidente Mao.”4 Chu En-lai tentou construir uma ponte no vazio que se abriu entre Mao e Liu, mas não adiantou.
Nunca saberemos quando Mao decidiu livrar-se de Liu e pôr em
movimento a Revolução Cultural que destruiria as vidas de todos os que se
opuseram a ele durante o Grande Salto Adiante. Mas um bom palpite é que
ele começou a tramar a eliminação de sua cada vez mais ameaçadora nêmese
assim que percebeu que todo o seu legado e sua posição na história estavam
em perigo.
O momento definidor pode ter sido uma tarde de verão em julho de 1962,
quando Mao boiava em sua piscina. Ele tinha sido chamado com urgência de
volta a Pequim por Liu e estava de mau humor. O filho de Liu recorda que
seu pai se aproximou apressadamente do presidente e foi solicitado a explicar
o porquê da pressa. Liu começou a relatar que Chen Yun e Tian Jiaying, dois
dos críticos mais francos do Grande Salto Adiante, queriam apresentar
formalmente seus pontos de vista sobre a distribuição de terra. Mao logo
explodiu em uma torrente de denúncias. Mas Liu não desistiu. Falou
apressadamente: “Tantas pessoas morreram de fome!” Depois, deixou
escapar: “A história julgará você e eu, até canibalismo irá para os livros!”
Mao foi tomado por uma grande fúria. “As Três Bandeiras Vermelhas
foram derrubadas, agora a terra está sendo dividida novamente”, gritou. “O
que você fez para resistir a isso? O que vai acontecer depois que eu morrer?”
Os dois homens se acalmaram e Mao concordou em que uma política
econômica de ajustamento deveria continuar.5 Mas o presidente agora estava
convencido de que havia encontrado o seu Kruschev, o servo que denunciara
o patrão, Stalin. Liu, concluiu Mao, era obviamente o homem que publicaria
um discurso secreto e denunciaria todos os seus crimes. Mao esperava o
momento propício, mas o trabalho paciente para lançar uma Revolução
Cultural que dividiria o partido e o país já havia começado.