A Grande Fome de Mao
7. As comunas do povo
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As comunas do povo
Um dia depois do encontro com Kruschev na piscina, Li Zhisui foi convocado
por Mao. Às 3 horas, o presidente queria uma aula de inglês do médico. Mais
tarde, durante o café da manhã, um Mao tranquilo entregou-lhe um relatório
sobre a criação de uma comuna do povo em sua província-modelo, Henan.
“Este é um acontecimento extraordinário”, disse Mao, excitadamente, sobre a
fusão de cooperativas agrícolas menores em uma cooperativa coletiva
gigantesca. “Este termo ‘comuna do povo’ é ótimo.”1 Poderia essa ser a ponte
para o comunismo que Stalin nunca encontrou?”
No outono de 1957, logo depois de dada a partida à campanha de
conservação da água, fazendas coletivas começaram a fundir-se em entidades
muito mais amplas, particularmente em regiões onde grandes contingentes de
mão de obra eram necessários. Uma das maiores fazendas coletivas apareceu
em Chayashan, Henan, onde cerca de 9.400 casas se fundiram em uma
gigantesca unidade administrativa. Mas a inspiração por trás das comunas do
povo teve origem no condado de Xushui.
Cem quilômetros ao sul de Pequim, no campo seco e poeirento do norte
da China, marcado por invernos ásperos, inundações na primavera e um solo
alcalino que mal produzia cereais suficientes para os aldeões sobreviverem,
Xushui, um pequeno condado de cerca de 300 mil pessoas, atraiu,
rapidamente, a atenção do presidente. O líder local Zhang Guozhong
abordou os projetos de irrigação como uma campanha militar. Recrutou uma força de trabalho de 100 mil homens, dividiu os aldeões segundo o modelo
militar, em batalhões, companhias e pelotões. Cortou as ligações com as
aldeias e fazia as tropas viverem ao ar livre, dormindo em tendas
improvisadas e comendo em refeitórios coletivos.
A abordagem de Zhang foi altamente eficiente e atraiu a atenção da
liderança em Pequim em setembro de 1957.2 O próprio Tan Zhenlin ficou
impressionado: “O condado de Xushui”, exclamou em fevereiro de 1958,
“criou uma nova experiência em conservação da água!” Ao organizar os
aldeões em unidades disciplinadas, que respondiam ao chamado com
precisão militar, Zhang resolvera simultaneamente o problema do trabalho e
do capital. Enquanto outros condados enfrentavam escassez de mão de obra
quando os homens abandonavam os campos para trabalhar nos projetos de
irrigação, ele organizou suas tropas em uma revolução contínua, atacando um
projeto depois do outro, uma onda vindo enquanto a outra formava crista. Os
termos-chave eram “militarização” (junshihua), “combatividade”
(zhandouhua) e “disciplinamento” (jilühua). A cada brigada era entregue a
responsabilidade por sete hectares, dos quais uma produtividade anual de 50
toneladas era obrigatória. “Dois ou três anos de trabalho duro vão
transformar nosso ambiente natural”, explicou Zhang. “Apenas duas estações,
e um Grande Salto Adiante aparece!”, entusiasmou-se Tan.3 Mao leu os
relatórios e acrescentou seu comentário: “A experiência de Xushui tem que
ser amplamente promovida.”4
Poucas semanas depois, o Diário do Povo elogiou Xushui e identificou a
militarização da força de trabalho como uma chave para o sucesso.5 Então,
em um pequeno artigo na revista Bandeira Vermelha, publicado em 1º de
julho de 1958, Chen Boda, o ghost-writer do presidente, imaginou os aldeões
armados como milicianos, todos alojados em gigantescas comunas: “uma
nação em armas é absolutamente vital.”6 Em um esforço publicitário, Mao fez
uma turnê pelo país, visitando Hebei, Shandong e Henan, elogiando o modo
como os agricultores eram arregimentados em batalhões e pelotões, e
louvando cantinas, creches e asilos com mulheres livres dos encargos
domésticos para serem enviadas para a linha de frente. “A comuna do povo é notável”, proclamou. A China estava mobilizada, oficiais locais em todo o
país lutaram durante o verão para fundir as fazendas coletivas em comunas
do povo, reunindo até 20 mil lares em unidades administrativas básicas. No
final de 1958, o conjunto do campo estava coletivizado em cerca de 26 mil
comunas.
* * *
No retiro anual da liderança em um hotel na praia de Beidaihe, onde grandes
e luxuosos bangalôs tinham vista panorâmica para o mar de Bohai, Mao
acreditou que estava à beira de um avanço milenar revolucionário. Em 23 de
agosto de 1958, quando o pesado bombardeio de Quemoy estava para
começar, ele falou com desprezo sobre o rígido sistema de incentivos
materiais inventado por Stalin. “Com excedente de grãos, podemos
implementar o sistema de suprimento [...]. O socialismo que estamos
construindo agora nutre os brotos do comunismo.” A comuna do povo era
uma ponte dourada para o comunismo, levando comida para todos: “Se
pudéssemos fornecer comida sem custo, isso seria uma grande
transformação. Imagino que, em cerca de dez anos, as matérias-primas serão
abundantes, os padrões morais serão altos. Podemos começar o comunismo
com comida, roupas e moradia. Refeitórios coletivos, comida grátis, isso é
comunismo!”7
Zhang Guozhong, celebrizado no verão em conferências do partido em
Pequim, respondeu ao chamado de Mao e, confiantemente, previu a chegada
do comunismo por volta de 1963.8 Em 1º de setembro, o Diário do Povo
declarou que, em futuro não muito distante, a comuna de Xushui levaria seus
membros para um paraíso, em que cada um poderia receber segundo sua
necessidade.9 Em meio à euforia nacional, Liu Shaoqi visitou a comuna uma
semana depois. Ele prometera o comunismo mais cedo que qualquer um,
dizendo em julho aos trabalhadores de uma usina de eletricidade: “A China
em breve entrará no comunismo; não vai demorar muito, e muitos de vocês já
podem vê-lo.” Superar a Grã-Bretanha, acrescentou, não era mais questão de
uma década: dois ou três anos seriam suficientes.10 Agora, tendo visto as
comunas, pressionou por um sistema de suprimento em que refeições,
roupas, assistência médica e outros aspectos essenciais da vida diária fossem
fornecidos sem pagamento pela comuna.11 Perto do fim do mês, no condado
de Fanxian, Shandong, um gigantesco encontro de milhares de ativistas do
partido jurou solenemente cruzar a ponte para o comunismo em torno de
1960. Mao ficou extasiado. “Esse documento é realmente bom, é um poema, e
dá a impressão de que pode ser feito!”12
* * *
As comunas do povo satisfizeram uma demanda crescente da parte de oficiais
locais por trabalho, uma vez que se esforçavam para cumprir as tarefas
sempre mais opressivas do Grande Salto Adiante. No cotidiano, no entanto,
os aldeões tinham menos entusiasmo. À medida que a vida diária se
organizava segundo modelos militares, os aldeões eram “soldados de
infantaria” que tinham que “travar combates” na “linha de frente” em
“batalhões” e “pelotões”, enquanto “brigadas de choque” podiam “fazer uma
marcha” na “guerra móvel”. A posição indicada de um revolucionário na
sociedade era um “posto de sentinela”, ao passo que um grupo de pessoas que
trabalhava em um grande projeto era um “grande exército”.13
Termos marciais se ajustavam à organização militar. “Cada um é um
soldado”, Mao proclamara, e a formação de milícias ajudou a arregimentar o
resto da sociedade em comunas populares: “No passado, em nosso exército,
não havia coisas como um salário, ou um domingo, nem horas de trabalho
em um dia. Os soldados rasos eram todos iguais. O verdadeiro espírito do
comunismo vem quando você levanta um gigantesco exército do povo [...].
Precisamos reviver as tradições militares.” Mao explicou: “O comunismo
militar na União Soviética se baseava em requisições de cereais; temos 22
anos de tradições militares e o sistema de suprimento está por trás do nosso
comunismo militar.”14
“Mísseis balísticos e bombas atômicas nunca vão amedrontar o povo
chinês”, bradou o Diário do Povo enquanto projéteis atingiam Quemoy, a
nação erguendo-se como um só homem, pronta para lutar contra as forças do
imperialismo: 250 milhões de homens e mulheres seriam transformados em
um mar de soldados.15 Em outubro, 30 milhões de milicianos em Sichuan
gastaram duas horas em treinamento militar à noite. Em Shandong, 25
milhões de homens em armas eram o “principal exército” na “linha de frente”
da produção de cereais e de aço. Só no condado de Yingnan, 70 mil desses
homens recrutados assumiram o comando de meio milhão de homens na
batalha da lavra profunda. Em Heilongjiang, no norte da Manchúria, havia 6
milhões de milicianos, e hábitos militares eram instilados em nove entre dez
jovens.16 Tan Zhenlin delirava com as milícias e prescrevia que cada adulto
deveria aprender como usar uma arma e disparar trinta balas por ano.17 Na
realidade, poucos carregavam armas. Muitos meramente passavam pelas
movimentações e treinavam desanimadamente nos campos depois do
trabalho, com rifles antigos. Mas uma pequena porção praticava com
munição verdadeira e era treinada como tropa de choque.18 Eles se revelariam
cruciais para reforçar a disciplina, não apenas durante o delírio de instalação
das comunas, como durante os anos de fome que estavam à frente.
A movimentação das milícias e um pequeno corpo de lutadores treinados
levaram a organização militar a todas as comunas. Em toda a China,
agricultores eram acordados durante a noite ao som da corneta e faziam fila
na cantina para uma rápida tigela de arroz aguado. O som de cornetas e
clarins era o sinal para reunir a força de trabalho, que saía marchando para o
campo, carregando bandeiras e flâmulas ao som de canções militares. Alto-
falantes, às vezes, berravam exortações para um trabalho mais duro, ou,
ocasionalmente, música revolucionária. Às vezes, ativistas do partido, oficiais
locais e a milícia reforçadora da disciplina puniam com espancamentos os
que não atingiam as metas. No fim do dia, os aldeões voltavam para seus
alojamentos, designados de acordo com o turno de trabalho de cada pessoa.
Reuniões se seguiam à noite para avaliar o desempenho de cada trabalhador e
analisar táticas locais.
As comunas se apropriavam do trabalho e, na maior parte das vezes, os
homens e as mulheres que estavam no comando das equipes de líderes não
recebiam compensação adequada. O secretário do partido Zhang Xianli
explicou em Macheng: “Agora que temos comunas, à exceção do urinol no
quarto, tudo é coletivo, até os seres humanos.” Isso foi entendido pelo
agricultor pobre Lin Shengqi da seguinte forma: “Faça tudo que um oficial lhe
disser para fazer.”19 Os salários, em consequência, foram praticamente
abolidos. Os membros de uma equipe que trabalhavam sob a supervisão de
um líder de esquadrão ganhavam pontos em vez de salário, calculados de
acordo com um sistema complexo, baseado no desempenho médio da equipe
como um todo, no trabalho feito, na idade e no sexo de cada trabalhador. No
fim do ano, a renda líquida de cada equipe era distribuída entre os membros
“de acordo com a necessidade”, e o excedente, em princípio, dividido
conforme os pontos de trabalho que cada um acumulava. Na prática, o
excedente nunca existiu, pois o Estado vinha e tirava grande parte da
produção. Os pontos de trabalho, no entanto, desvalorizaram-se rapidamente
durante o Grande Salto Adiante. No condado de Jiangning, perto de
Nanquim, um dia de trabalho equivalia a 1,05 yuan em 1957. Um ano depois,
não valia mais que 28 centavos de yuan. Em 1959, seu valor havia declinado
para ínfimos 16 centavos. Os locais referiam-se ao sistema de pontos como
“bater em um tambor com um pepino”: quanto mais se batia, menos se ouvia,
pois todos os incentivos para o trabalho tinham sido removidos.20
Alguns nunca foram pagos. Chen Yuquan, um jovem robusto entrevistado
em fevereiro de 1961 no condado de Xiangtan, Hunan, lembrou que fizera
um total de 4,50 yuans em 1958, com os quais comprou um par de calças. No
ano seguinte, despachado para uma mina de carvão onde não havia registro
de trabalho, não recebeu nada.21 Algumas comunas aboliram completamente
o dinheiro. No condado de Longchuan, Guangdong, os aldeões que vendiam
seus porcos recebiam notas de crédito em vez de dinheiro, o que os levava a
matar e comer os animais em lugar de vendê-los. 22 Em muitos casos, no
entanto, os aldeões tinham de pedir emprestado à comuna, entrando em uma
forma de trabalho servil. Li Yeye, que alimentava a mulher cronicamente doente e cinco crianças carregando esterco durante o dia inteiro, nunca tinha
dinheiro: “Pessoas como nós não tinham dinheiro, estávamos constantemente
endividados. Tínhamos que pagar nossa dívida com a comuna.”23 Feng
Dabai, um barbeiro do norte de Sichuan que tomava conta de uma família de
nove pessoas durante a fome, pediu tanto dinheiro emprestado para comprar
comida que ainda pagava a dívida cinquenta anos depois.24
* * *
Nas comunas mais radicais, hortas, ferramentas e gado de propriedade
particular tinham que ser entregues ao coletivo. Em muitos casos, as pessoas
não tinham permissão para ficar com nada, exceto o mínimo essencial. Como
disse Li Jingquan, líder de Sichuan: “Até a merda tem que ser coletivizada!”25
Em resposta, os aldeões tentaram salvar o máximo que podiam de seus
pertences. Matavam gado, escondiam cereais e vendiam bens. Logo no início
do movimento, Hu Yongming, um agricultor do nordeste úmido e
montanhoso de Guangdong, matou quatro galinhas e em seguida, no mesmo
dia, matou dois ou três patos. Depois vieram três cadelas; os filhotes foram
mortos em seguida. Finalmente, o gato foi comido.26 Muitos fizeram o
mesmo, os agricultores devoravam as aves domésticas e os rebanhos. Em
todas as aldeias de Guangdong, galinhas e patos foram comidos primeiro,
seguidos de cachorros e vacas. Enquanto os locais consumiam a produção de
sua propriedade com medo da coletivização,27 funcionários locais, atentos aos
números, constataram que só o consumo de carne de porco e vegetais havia
aumentado em 60% com o advento das comunas. Um ditado comum em
Guangdong era: “O que você come é seu, o que você não come é de outra
pessoa.”28
O cenário era semelhante nas cidades, embora, em geral, as tentativas de
impor comunas urbanas tivessem sido abandonadas alguns anos depois. Nas
primeiras semanas de outubro de 1958, mais de meio milhão de yuans foram
retirados do banco em apenas um distrito de Guangzhou.29 Em Wuhan houve corrida ao banco, um quinto de toda a poupança foi retirado dois dias
depois da implantação da Comuna Leste.30 Alguns trabalhadores de pequenas
empresas venderam até as máquinas de costura de que dependiam para viver,
outros arrancavam o piso de suas casas para obter madeira, que vendiam
como combustível.31 Com medo do confisco da poupança, pessoas antes
parcimoniosas começaram a ceder ao consumo conspícuo. Trabalhadores
comuns compravam marcas de cigarro dispendiosas e outros bens de luxo;
alguns até esbanjavam em banquetes extravagantes.32 Boatos estimulavam o
medo: dizia-se que, em algumas aldeias, cada pessoa só poderia ter um
cobertor, os demais seriam coletivos: “Até as roupas têm números.”33
No impulso de aumentar a produção e cumprir metas sempre maiores, as
casas também eram confiscadas: a comuna, afinal, precisava de tijolos para
refeitórios, dormitórios, creches e asilos planejados no papel. Em Macheng,
como vimos, inicialmente as casas foram derrubadas para serem usadas como
fertilizante, tendência que piorou com o advento das comunas do povo. Em
todo o país, aldeões dos condados começaram a dividir casas e algumas
famílias terminaram em abrigos temporários. Aos aldeões recalcitrantes foi
dito que “rações de cereais não serão dadas aos que não saírem da casa”. Em
algumas aldeias, uma grandiosa visão de modernidade justificou a eliminação
de casas velhas. Na comuna de Guishan, trinta moradias foram derrubadas
para abrir espaço para um plano utópico em que ruas pavimentadas e
arranha-céus substituiriam as cabanas de barro à beira das vielas poeirentas.
Nem uma só casa foi construída, e algumas famílias terminaram vivendo em
chiqueiros ou templos abandonados, com chuva gotejando do telhado e vento
soprando através das paredes porosas, feitas de barro e palha. “Destruir meu
lar é ainda pior do que escavar o túmulo do meu ancestral”, lamentou um
aldeão. Mas poucos ousavam queixar-se. A maioria ficava quieta e alguns
choravam, enquanto o líder local passava sem dizer uma só palavra,
simplesmente levantando o dedo para assinalar a casa a ser destruída.34 No
condado de Dianjiang, Sichuan, uma equipe de onze pessoas pôs fogo em
centenas de casebres de palha. “Destruir casebres de palha em uma noite,
levantar áreas residenciais em três dias, construir o comunismo em cem dias” era o principal slogan. Algumas aldeias foram completamente esvaziadas,
embora, de alguma forma, ninguém realmente conseguisse passar da fase de
destruição do plano.35 Casas também foram derrubadas especificamente para
separar homens de mulheres no grande esforço de arregimentação do campo.
Em Jingning, Gansu, cerca de 10 mil moradias foram pulverizadas durante o
Grande Salto Adiante por ordem do chefe provincial Zhang Zhongliang. A
maioria das pessoas retiradas das casas terminou não em dormitórios, como
os imaginados para as comunas-modelo, mas vivendo nas ruas, destituídas.36
* * *
Exceto os aldeões mais pobres, as pessoas não gostavam dos refeitórios,
porque administrar coletivos sem dinheiro dificilmente permitiria atender
caprichos individuais, gostos e dietas. Algumas pessoas tinham que andar
muitos quilômetros para chegar às instalações coletivas. Em Hunan, mais de
dois terços de todos os aldeões se opunham à alimentação coletiva, segundo o
cabeça da província, Zhou Xiaozhou.37 Em todo o país, os oficiais tiveram que
pressionar para fazer os aldeões entrarem nos refeitórios. Em Macheng,
usaram uma abordagem simples, mas eficaz: cortaram os suprimentos de
cereais para a aldeia. Mas as famílias que haviam amealhado provisões ainda
não as entregavam. Foram denunciadas como “camponeses ricos” voltados
para “sabotar as comunas do povo”. A milícia, então, entrou no caso,
patrulhando as ruas e multando as famílias de cujas casas havia fumaça
saindo pela chaminé. O passo final foi o confisco de comida e utensílios casa
por casa.38
Assim que se estabeleciam nas comunas, os aldeões comiam vorazmente,
com mais avidez, pois as novas instalações tinham sido construídas com
recursos, comida e móveis tomados da aldeia. Em uma comuna de Macheng,
cerca de 10 mil peças de mobiliário, 3 mil porcos e 57 mil quilos de grãos,
assim como incontáveis árvores, cortadas de terrenos privados para obtenção
de combustível, foram para os refeitórios.39 Com o trabalho explorado, as posses confiscadas e os lares demolidos, os aldeões tiveram a oportunidade de
compartilhar a visão de seu líder. O comunismo estava próximo, e o Estado
proveria tudo. “A cada um segundo suas necessidades” foi interpretado
literalmente e, enquanto conseguissem se safar impunes, as pessoas comeriam
tudo o que podiam. Durante dois meses, em muitas aldeias por todo o país, as
pessoas “esticaram os estômagos”, seguindo a diretriz de Mao em Xushui:
“Vocês deveriam comer mais. Até cinco refeições por dia é bom!”
Especialmente nas regiões onde outras safras que não alimentos eram
produzidas — por exemplo, algodão —, a restrição era menos pronunciada,
pois o Estado fornecia o cereal. Os trabalhadores se enchiam de comida,
alguns eram repreendidos por falta de apetite. Restos de arroz eram atirados
na privada aos baldes. Em algumas equipes, as pessoas, às vezes, faziam
competições para ver quem comia mais; crianças eram levadas às lágrimas
por não conseguir continuar. Outros tomaram Mao ao pé da letra, “lançando
um sputnik” por ter cinco refeições por dia. Comida que teria mantido uma
aldeia por meia semana desaparecia em um dia.40 No condado de Jiangning,
Jiangsu, alguns aldeões devoravam um quilo de arroz em uma única refeição.
A extravagância no consumo era ainda maior nas cidades: cerca de 50 quilos
de arroz foram jogados no esgoto em um único dia, no fim de 1958, em uma
oficina em Nanquim. Pães doces cozidos entupiam as privadas: um inspetor
detalhista observou que a camada de arroz depositada no fundo de uma rede
de esgoto tinha 30 centímetros. Em algumas fábricas, os trabalhadores
devoravam até vinte tigelas de arroz por dia; os restos eram atirados aos
porcos.41 O festim não durou muito.