A Grande Fome de Mao
China em 1958
PARTE UM
A PERSEGUIÇÃO DA UTOPIA
1
Dois rivais
A morte de Stalin em 1953 foi a libertação de Mao. Por mais de trinta anos,
Mao teve que bancar o pedinte para o líder do comunismo no mundo. Desde
os 27 anos, quando recebeu o primeiro pagamento de um agente soviético —
200 yuans em dinheiro — para cobrir o custo da viagem do encontro que
fundou o Partido Comunista Chinês em Xangai, a vida de Mao foi
transformada por dinheiro russo. Ele não teve escrúpulos em pegar o
dinheiro e usar a ligação com Moscou para liderar um bando de guerrilheiros
andrajosos até o poder supremo — mas não sem reprimendas infindáveis de
Moscou, expulsões do poder e batalhas com conselheiros soviéticos em torno
da política do partido. Stalin constantemente empurrava Mao para os braços
de seu inimigo jurado, o generalíssimo Chiang Kai-shek, o líder do
nacionalista Kuomintang, que dominava boa parte da China. Stalin tinha
pouca fé em Mao e em seus soldados camponeses, e favorecia abertamente
Chiang, mesmo depois de o Kuomintang comandar um sangrento massacre
de comunistas em Xangai, em 1927. Durante a maior parte de uma década, as
tropas de Chiang caçaram sem descanso os combatentes de Mao, forçando os
comunistas a buscar refúgio no sopé de uma montanha e depois atravessar
cerca de 12.500 quilômetros em direção ao norte, em uma retirada mais tarde
conhecida como a Longa Marcha. Quando Chiang foi sequestrado em Xi’an
em 1936, Stalin prontamente enviou um telegrama a Mao, ordenando-lhe que
soltasse o refém incólume. Um ano depois da invasão japonesa à China, Stalin exigiu que Mao fizesse novamente frente comum com seu arqui-inimigo
Chiang, mandando aviões, armas e conselheiros para o regime do
Kuomintang. Tudo o que Mao conseguiu durante a Segunda Guerra Mundial
foi um avião carregado de panfletos de propaganda.
Em vez de enfrentar os japoneses, Mao aumentou suas forças no norte da
China. No fim da guerra, em 1945, Stalin, sempre o rígido pragmático,
assinou um tratado de aliança com o Kuomintang, diminuindo as
perspectivas de apoio ao comunismo na eventualidade de uma guerra civil.
Logo após a rendição do Japão, reiniciou-se a guerra total entre comunistas e
nacionalistas. Stalin ficou de lado novamente, chegando até a avisar Mao para
tomar cuidado com os Estados Unidos, que apoiaram Chiang Kai-shek, agora
reconhecido como líder mundial na vitória dos Aliados contra o Japão. Mao
ignorou o aviso. Os comunistas finalmente conseguiam vantagem. Quando
chegaram à capital, Nanquim, a União Soviética foi um dos poucos países a
permitir que seu embaixador fugisse junto com o Kuomintang.
Mesmo quando a vitória parecia inevitável, Stalin continuou a manter
Mao a distância. Tudo acerca de Mao parecia suspeito para o líder soviético.
Que tipo de comunista tinha medo dos trabalhadores, Stalin se perguntou
repetidamente, quando Mao deteve seu exército fora de Xangai durante
semanas a fio, sem querer assumir a tarefa de alimentar a cidade. Mao era um
camponês, um marxista das cavernas, concluiu Stalin, depois de ler as
traduções dos escritos de Mao, rejeitadas por Stalin como “feudais”. Estava
claro que havia um traço rebelde e teimoso em Mao; sua vitória sobre Chiang
Kai-shek, forçado a recuar o tempo todo até Taiwan, teria sido difícil de ser
explicada de outra forma. Mas orgulho e independência eram precisamente o
que tanto preocupava Stalin, propenso como era a ver inimigos em toda
parte: poderia Mao ser outro Tito, o líder iugoslavo que tinha sido expulso da
família comunista por sua dissidência com Moscou? Tito já era bastante ruim,
e Stalin não podia apreciar a perspectiva de um regime que tomara o poder
sem sua ajuda e governava um império em expansão bem na sua fronteira.
Stalin não confiava em ninguém, menos ainda em um rival em potencial que,
com toda a probabilidade, guardava uma longa lista de ressentimentos.
Mao, de fato, nunca esquecia um tratamento desdenhoso e se ressentia profundamente da forma como fora tratado por Stalin, mas não tinha
ninguém mais a quem se voltar em busca de apoio. O regime comunista
chinês precisava desesperadamente de reconhecimento internacional, assim
como de ajuda econômica para reconstruir o país dilacerado pela guerra. Mao
anunciou a política de “inclinar-se para um lado”, engoliu o orgulho e buscou
aproximação com a União Soviética.
Vários pedidos seus para se encontrar com Stalin foram recusados. Em
dezembro de 1949, Mao foi finalmente convidado a ir a Moscou. Mas, em
lugar de ser recebido como o líder de uma grande revolução que levara um
quarto do mundo para a órbita comunista, teve uma recepção fria, tal qual
um convidado entre muitos outros delegados que viajaram a Moscou para
celebrar o 70º aniversário de Stalin. Após um breve encontro, Mao foi
rapidamente levado para uma casa de verão nos arredores da capital e
deixado a esperar durante semanas, em isolamento, por uma audiência
formal. Cada dia que passava o fazia aprender sobre seu lugar humilde em
uma irmandade comunista que girava inteiramente em torno do ditador
soviético. Quando Mao e Stalin finalmente se encontraram, tudo o que Mao
obteve foram US$ 300 milhões em ajuda militar, divididos em cinco anos. Por
essa soma insignificante, Mao teve que fazer grandes concessões territoriais,
privilégios que relembravam os tratados desiguais do século XIX: o controle
soviético de Lüshun (Port Arthur) e da Ferrovia Oriental Chinesa, na
Manchúria, foi garantido até meados dos anos 1950. Direitos aos depósitos
minerais em Xinjiang, a província mais ocidental da China, também tiveram
de ser concedidos. Mas Mao conseguiu um tratado de proteção mútua na
eventualidade de agressão do Japão ou de seus aliados, em particular os
Estados Unidos.
Mesmo antes de Mao e Stalin assinarem o Tratado de Aliança e Amizade,
Kim Il-sung, o guerrilheiro comunista que assumira o controle do norte da
Coreia depois da divisão de seu país em 1948, vinha contemplando a
reunificação da península pela força militar. Mao apoiou a Coreia do Norte,
vendo em Kim um aliado comunista contra os Estados Unidos. A Guerra da
Coreia estourou em junho de 1950, mas impeliu os Estados Unidos a
intervirem em defesa do sul. Confrontado por esmagador poderio aéreo e batalhões de tanques, Kim, sob ataque, teve que recuar até a fronteira entre a
China e a Coreia do Norte. Preocupado com a possibilidade de os americanos
cruzarem o rio Yalu e atacarem a China, Mao despachou voluntários para
lutar na Coreia com cobertura aérea prometida por Stalin. Uma guerra feroz
se seguiu, as baixas do lado chinês sempre mais altas, enquanto os aviões que
Stalin prometera só vinham esporadicamente. Quando o conflito chegou a
um impasse sangrento, Stalin repetidamente criou empecilhos às negociações
para encerrá-lo. A paz não estava em seus interesses estratégicos. Unindo o
insulto à injúria, Stalin também exigiu da China o pagamento pelo
equipamento militar soviético que mandara para a Coreia. Sua morte em
1953 ocasionou rápido armistício.
Por trinta anos Mao sofrera humilhação nas mãos de Stalin,
subordinando-se a Moscou por pura necessidade estratégica. A guerra
coreana o tornara ainda mais ressentido do patrocínio soviético, sentimento
amplamente difundido entre dirigentes comunistas de outros países, que, da
mesma forma, almejavam relações de igualdade com Moscou.
A Guerra da Coreia também aprofundou a influência de Mao sobre os
colegas. O presidente havia levado o partido a uma vitória em 1949. A Coreia
também era sua glória pessoal, porque exigira a intervenção quando outros
líderes do partido vacilaram. Ele era o homem que levara os Estados Unidos a
um beco sem saída — embora a um alto custo para seus próprios soldados.
Mao agora estava acima de seus companheiros. Mao, como Stalin, era incapaz
de considerar alguém como igual e, tal qual Stalin, não tinha dúvida acerca de
seu próprio papel na história. Estava convicto de sua própria genialidade e
infalibilidade.
Depois da morte de Stalin, Mao, finalmente, viu a chance de garantir
independência em relação ao Kremlin e proclamou sua liderança sobre o
campo socialista. O presidente supôs, naturalmente, que ele próprio era a luz-
guia do comunismo, que estava a ponto de esmagar o capitalismo, o que fazia
dele o pivô histórico em torno do qual o universo girava. Não fora ele quem
guiara seus homens à vitória, trazendo uma segunda Revolução de Outubro
para um quarto do mundo? Stalin não podia sequer pleitear ter presidido a
revolução bolchevique; menos ainda poderia Nikita Kruschev, o homem que logo assumiu o poder em Moscou.
* * *
Rude, instável e impulsivo, Kruschev era visto por muitos que o conheciam
como um tolo, limitado tanto em habilidade quanto em ambição.
Precisamente essa reputação foi o que lhe permitira sobreviver sob Stalin, que
o tratava com afetuosa condescendência, e foi também o que o salvou do
destino de colegas mais brilhantes que cometiam erros em suas relações com
o ditador. “Meu pequeno Marx!”, Stalin o chamou uma vez zombeteiramente,
enquanto gentilmente batia na testa de Kruschev com o cachimbo, brincando:
“É oco!”1 Kruschev era o animal de estimação de Stalin. Mas era tão
paranoico quanto Stalin e, por baixo da enganadora falta de jeito, havia um
homem esperto e imensamente ambicioso.
Kruschev, crítico severo da forma de Stalin lidar com Mao, resolveu
sobrepujar seu antigo mestre e colocar as relações com Pequim em novo
patamar. Seria o tutor benevolente de Mao e dirigiria o camponês rebelde
para uma forma mais esclarecida de marxismo. Também desempenhou o
papel de patrão benévolo, supervisionando maciça transferência de tecnologia
a centenas de fábricas e usinas financiadas pela ajuda soviética. Foram
despachados para a China conselheiros em várias áreas, da energia atômica à
engenharia mecânica, enquanto cerca de 10 mil estudantes chineses foram
treinados na União Soviética nos primeiros anos após a morte de Stalin. Mas,
em vez de mostrar gratidão, os líderes em Pequim viam essa generosidade
como um direito, buscando extrair volumes sempre crescentes de apoio
militar e econômico, em um misto de regateio, súplica e adulação. Kruschev
cedeu. Como exagerara na oferta, teve de intimidar seus camaradas em
Moscou para que aceitassem um pacote de ajuda muito além do que a União
Soviética podia bancar.
Kruschev foi para o limbo a fim de satisfazer Pequim e esperava um
bocado em troca. Mao, em vez disso, tratava Kruschev com desprezo,
aprisionando-o no papel de novato grosseiro e imaturo do qual o próprio Mao escapara com tanta astúcia. O momento crítico veio em 1956, quando
Kruschev denunciou os crimes de seu ex-mestre em um relatório secreto
revelado em um congresso do partido — sem consultar Mao. O presidente
elogiou o discurso, pois sentiu que ele enfraqueceria a autoridade de Moscou
no bloco comunista. Mas nunca perdoou a Kruschev, porque também via a
desestalinização como um desafio à sua própria autoridade, acostumado que
estava a interpretar o mundo consigo mesmo no centro. Diminuir Stalin era
solapar Mao, que constantemente se comparava ao ditador soviético, apesar
de conservar uma longa lista de ressentimentos contra ele. Mao também
achava que só ele próprio ocupava posição moral grandiosa o bastante para
poder emitir julgamento sobre os erros e as conquistas de Stalin. Um ataque a
Stalin, além disso, podia ser explorado pelos americanos.
Acima de tudo, o gesto contra Stalin implicava que a crítica a Mao
também era permissível. O discurso secreto de Kruschev deu munição aos
que temiam o poder crescente de Mao e queriam um retorno à liderança
coletiva. No 8º Congresso do Partido, em setembro de 1956, em Pequim, uma
referência ao “Pensamento de Mao Tsé-tung” foi removida da Constituição
do partido, o princípio da liderança coletiva foi louvado e o culto da
personalidade, criticado. Constrangido pelo relatório secreto de Kruschev,
Mao teve pouca escolha a não ser concordar com essas medidas, para as quais
ele próprio contribuíra nos meses prévios ao congresso.2 Mas o presidente se
sentiu enganado e não escondia sua raiva.3
Mao teve outra derrota quando sua política econômica, conhecida como
“Maré Alta Socialista”, foi suspensa no fim de 1956, na segunda sessão
plenária do Congresso do Partido. Um ano antes, um Mao impaciente,
desgostoso com o ritmo lento do desenvolvimento econômico, criticara
repetidamente os que estavam a favor de um ritmo mais cauteloso, como
“mulheres de pés atados”. Profetizava um salto na produção agrícola trazido
pela coletivização acelerada do campo e, em janeiro de 1956, exigiu aumentos
irrealistas na produção de cereais, algodão, carvão e aço. A Maré Alta
Socialista — a que historiadores mais tarde se refeririam como “Pequeno
Salto Adiante” — fracassou rapidamente.4 A produção industrial nas cidades sofreu toda sorte de gargalos e falta de estoques quando os recursos e
matérias-primas requeridos para o aumento da produção não estavam
disponíveis. No campo, a coletivização encontrou a resistência dos
camponeses, que matavam seus animais e escondiam os cereais. A fome
apareceu em algumas províncias, na primavera de 1956. Tentando controlar o
dano criado pelas táticas de choque de seu presidente, o premiê Chu En-lai e
o planejador da economia Chen Yun exigiram o fim do “avanço precipitado”
(maojin) e tentaram reduzir o tamanho das fazendas coletivas, reverter para
um livre mercado limitado e permitir um alcance maior para a produção
privada no campo. Frustrado, Mao viu isso como um desafio pessoal. Em
cima de um editorial de junho de 1956 do Diário do Povo que criticava a Maré
Alta Socialista por “tentar fazer tudo de um dia para o outro”, que lhe fora
enviado para que tomasse conhecimento, Mao escreveu, irritado: “Não lerei
isto.” Mais tarde, mostrou surpresa: “Por que deveria ler algo que me
ofende?”5 Sua posição foi ainda mais enfraquecida porque Kruschev, em seu
discurso secreto, destacou o fracasso das políticas agrícolas de Stalin, que
incluíam a coletivização no campo. A crítica a Stalin pareceu uma avaliação
não intencional do impulso de Mao em direção à coletivização. O 8º
Congresso do Partido descartou a Maré Alta Socialista.
Seguiu-se outra humilhação. Apesar das grandes reservas dos outros
líderes do partido, Mao estimulou a crítica aberta ao partido na campanha das
Cem Flores, lançada em abril de 1957. Sua esperança era que, ao pedir às
pessoas comuns que expressassem suas opiniões, um pequeno número de
conservadores e contrarrevolucionários seria descoberto. Isso preveniria o
massacre criado pela desestalinização na Hungria, onde uma revolta nacional
contra o partido comunista em outubro de 1956 levara as forças soviéticas a
invadir o país, esmagar brutalmente a oposição e instalar um novo governo
pró-Moscou. Na China, Mao explicou a seus relutantes camaradas, o partido
quebraria qualquer oposição em muitos pequenos “incidentes húngaros”,
todos os quais seriam tratados separadamente.6 Um clima mais aberto,
imaginou, também ajudaria a garantir o apoio de cientistas e intelectuais ao
desenvolvimento do país. O presidente cometeu grande erro de cálculo, à
medida que a barragem de críticas que produzira questionou não só o próprio direito do partido de governar, como também sua própria liderança. Sua
resposta foi acusar os críticos de “maus elementos” dispostos a destruir o
partido. Pôs Deng Xiaoping a cargo da campanha antidireitista levada adiante
com extraordinária veemência, visando a meio milhão de pessoas — muitas
delas estudantes e intelectuais deportados para áreas remotas do país para
fazer trabalho pesado. Mao lutou para retomar o controle, e todo o caso foi
imensamente embaraçoso, mas sua estratégia foi parcialmente bem-sucedida
porque criou condições para afirmar sua própria preeminência. Atacado de
todos os lados, com seu direito a governar questionado, o partido perfilou-se
atrás de seu presidente.
O colapso da campanha das Cem Flores em junho de 1957 também
confirmou a suspeita do presidente de que o “conservadorismo de direita” era
um grande inimigo ideológico e que a inércia direitista estava por trás da
estagnação econômica de então. Mao queria ressuscitar as políticas da Maré
Alta Socialista que tinham sido desacreditadas por uma profusão de críticas
dos especialistas que tentara cortejar. Se tantos profissionais com habilidade e
conhecimento científico para ajudar no desenvolvimento econômico estavam
insatisfeitos, não seria politicamente sábio basear o futuro do país em sua
perícia. Essa opinião era compartilhada por Liu Shaoqi, o segundo homem no
comando do partido, que acompanhou o presidente na pressão por metas
mais elevadas na produção agrícola.7 Em outubro de 1957, com o apoio de
Liu, Mao reafirmou o lema que cristalizava sua visão: “maior, mais depressa,
melhor e mais econômico.” Também conseguiu substituir a expressão
“avanço precipitado” (maojin), com sua conotação de incansável impulso à
frente, por “salto adiante” (yuejin): em meio a uma feroz campanha
antidireitista, poucos líderes do partido ousaram opor-se. Mao conseguia o
que queria e estava pronto para desafiar Kruschev.