A Grande Fome de Mao
11. Tontos de sucesso
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Tontos de sucesso
Mao havia pressionado, bajulado, intimidado seus camaradas para o Grande
Salto Adiante e lançou o país em uma corrida de equiparação aos países mais
desenvolvidos por meio de uma industrialização precipitada e da
coletivização do campo. Os líderes precavidos em relação ao ritmo do
desenvolvimento econômico foram publicamente degradados e humilhados,
enquanto, no local de produção, os críticos do Salto tinham sido suprimidos
em um turbilhão de terror. Depois, como o frenesi para mostrar
produtividades mais altas se tornou rapidamente uma bola de neve fora de
controle e as provas do prejuízo se acumulavam no local de produção, Mao
deu meia-volta e começou a responsabilizar todos os demais pelo distúrbio
que sua campanha criara. Político inteligente, com instinto para a
autopreservação afiado por décadas de purgas políticas, desviou a
responsabilidade pelo caos não apenas para os funcionários locais do partido,
como também para seus camaradas mais próximos, e conseguiu traçar um
autorretrato de líder benigno preocupado com o bem-estar de seus súditos.
Durante o processo, que durou de novembro de 1958 a junho de 1959, a
pressão diminuiu temporariamente, embora o alívio se revelasse de curta
duração.
A desinformação proliferava na ordem política implantada por Mao. O
presidente não era nenhum tolo e compreendia que o sistema de partido
único em que ele próprio contribuíra para construir poderia gerar falsos informes e estatísticas infladas. Em todos os regimes comunistas, existiam
mecanismos de monitoramento elaborados para contornar a burocracia
oficial. Líderes supremos, em especial, tinham todo interesse em descobrir
problemas que funcionários de escalões inferiores do partido preferiam
manter para si mesmos: o fracasso em atualizar-se poderia levar a um golpe.
Organismos de controle supervisionavam os trabalhos formais dos órgãos do
governo e dos líderes do partido, executando checagens nas finanças,
nomeações, procedimentos e informes. A segurança do Estado, ao lado das
tarefas usuais de impedir crimes, administrar prisões e manter o país seguro,
regularmente pesquisava a opinião pública e aferia a extensão do
descontentamento popular. Nesse âmbito, o ministro do Departamento de
Segurança Pública era vital para Mao e não surpreende que ele tenha
apontado Xie Fuzhi para o cargo em 1959: afinal de contas, ali estava um líder
em quem o presidente poderia confiar para lhe dizer a verdade. Em todos os
níveis da maquinaria do partido, relatórios confidenciais eram regularmente
emitidos sobre uma ampla variedade de tópicos, embora, naturalmente,
também pudessem ser tendenciosos. Isso, por sua vez, poderia ser contornado
por meio do envio de funcionários de confiança em missões de apuração dos
fatos. E foi isso o que Mao fez em outubro de 1958, pondo-se ele próprio a
caminho para enfrentar diretamente os problemas nas comunas do povo com
os oficiais que eram líderes nas províncias. À medida que as provas sobre
inflação estatística aumentavam, Mao se preocupava cada vez mais. Em
Wuchang, confrontado com um relatório crítico em que seu aliado próximo
Wang Renzhong mostrou que a província poderia produzir 11 milhões de
toneladas de grãos, em vez dos 30 milhões projetados, sua confiança foi
golpeada e ele ficou deprimido.1
Zhao Ziyang, secretário da província de Guangdong, forneceu uma tábua
de salvação. Em relatório para Tao Zhu, seu chefe, Ziyang revelou, em janeiro
de 1959, que muitas comunas haviam escondido grãos e acumulado reservas
de dinheiro. Em um só condado, cerca de 35 mil toneladas foram
descobertas.2 Seguindo a pista, Zhao lançou uma campanha contra a
ocultação que descobriu mais de 1 milhão de toneladas de grãos.3 Tao Zhu
elogiou o relatório e enviou-o para Mao.4 Então, notícias vieram de Anhui,
sob a liderança do radical Zeng Xisheng: “A questão das assim chamadas
deficiências de grãos no campo não tem que ver com falta de grão, nem está
ligada a requisições excessivas do Estado: é um problema ideológico, em
particular entre oficiais locais.” O relatório explicava que os líderes de equipe
no local de produção tinham quatro apreensões. A principal delas era que as
comunas não lhes fornecessem grãos suficientes; que outras equipes
propositadamente não pressionassem o bastante e escondessem parte da
colheita; que o excedente de grãos pudesse ser confiscado durante uma fome
de primavera e que, se declarassem a produção real de grãos, cotas ainda mais
pesadas seriam impostas.5 Mao mandou circular esses relatórios
imediatamente e comentou: “O problema dos líderes de brigadas que
escondem grãos e secretamente os dividem é muito sério. Preocupa as pessoas
e tem efeito sobre a mentalidade comunista de oficiais locais, a safra de
primavera, o entusiasmo pelo Grande Salto Adiante em 1959 e a consolidação
das comunas do povo. O problema se espalhou pelo país e precisa ser
resolvido imediatamente!”6
Mao assumiu a pose de rei sábio benevolente, protetor do bem-estar de
seus súditos. O vento do comunismo varrera o campo, explicou. Como
oficiais ultrazelosos levaram a coletivização longe demais, apropriando-se
aleatoriamente de bens e do trabalho em nome das comunas do povo, os
aldeões começaram a esconder os grãos. Em março de 1959, Mao até falou
com admiração das estratégias que os agricultores adotavam para escapar das
requisições do Estado e ameaçou juntar-se a eles se o partido não mudasse
seus métodos.7 “Eu agora apoio o conservadorismo. Fico do lado do desvio de
direita. Sou contra o igualitarismo e o aventureirismo de esquerda. Eu agora
represento 500 milhões de camponeses e 10 milhões de oficiais locais. É
essencial ser oportunista de direita, devemos persistir com o oportunismo de
direita. Se vocês, junto comigo, não forem para a direita, então serei sozinho
um direitista e sozinho enfrentarei a expulsão do partido!”8 Somente Mao
poderia ter usado o rótulo de “direitista” — que teria significado a morte
política para qualquer outra pessoa — com tanta petulância, enquanto se colocava como o herói solitário que ousava dizer a verdade ao poder. Quanto
aos oficiais locais que censurava por excessos, 5% deveriam ser expurgados.
“Não é necessário atirar em todos eles.”9 Poucos meses depois, quietamente,
aumentou a cota para 10%.10
Mao também repreendeu seus camaradas. O imperador, parece, tinha sido
enganado por conselheiros próximos: havia uma grande safra, mas nada
como as afirmações fantásticas feitas mais cedo na campanha. Mao
confrontou os chefes do partido, repetidas vezes mostrando desprezo pelas
previsões excêntricas e exigindo que as previsões para a produção econômica
fossem reduzidas para níveis mais realistas. Quando um cauteloso Bo Yibo
fracassou em reduzir os projetos industriais em março de 1959, Mao
manifestou desdém: “Que espécie de pessoas está administrando a nossa
indústria: os filhos mimados de família rica! O que precisamos na indústria,
neste momento, é um tipo de imperador Qin. Vocês que estão na indústria
são moles demais, sempre falando em justiça e virtude, a tal ponto que não
realizam nada.”11
A culpa estava reservada particularmente para os amigos íntimos que tão
fielmente haviam implementado os desejos dele. Diante de líderes reunidos
em Xangai em abril, Mao lembrou: “Quando reuni um pequeno grupo na
conferência de Beidaihe em agosto, ninguém objetou quando discutimos as
metas para 1959. Na época, estávamos ocupados principalmente com o
bombardeio de Quemoy. A questão das comunas do povo não era realmente
minha, era Tan Zhenlin o responsável — apenas escrevi algumas linhas.”
Sobre a resolução tomada acerca das comunas do povo, Mao pensou o
seguinte: “Essa ideia foi de outra pessoa, não minha. Dei uma olhada, mas não
entendi, tive apenas uma leve impressão de que as comunas são boas.”
Documentos incompreensíveis contribuíam para metas infladas: “Devíamos
proibir todos esses documentos incompreensíveis de sair daqui. Vocês são
estudantes universitários, professores, grandes mentes confucionistas. Sou
meramente um estudante comum, então vocês deveriam escrever em
linguagem simples.” E, no caso de alguém ter qualquer dúvida sobre sua
liderança, alertou seus companheiros: “Alguns camaradas ainda não reconheceram que sou o líder [...]. Muitas pessoas me odeiam, em particular
[o ministro da Defesa] Peng Dehuai, ele tem ódio mortal a mim [...]. Minha
política com Peng Dehuai é a seguinte: Se você não me atacar, eu não atacarei
você, mas se você me atacar, com certeza eu atacarei você.” Depois, se lançou
em um discurso tortuoso em que cada líder do partido que discordara dele no
passado foi mencionado pelo nome, incluindo Liu Shaoqi, Chu En-lai, Chen
Yun, Zhu De, Lin Biao, Peng Dehuai, Liu Bocheng, Chen Yi e até Ren Bishi,
que morrera fazia muito tempo. Todos os líderes presentes foram citados, à
exceção de Deng Xiaoping.12 O motivo da explosão foi mostrar que Mao
esteve certo o tempo todo, enquanto aqueles que se opuseram a ele em um
momento ou outro do passado do partido tinham estado errados. Ao ficar ao
lado da história, Mao não tinha que prestar contas a ninguém.
E ninguém foi deixado em dúvida sobre a correção em geral de sua linha e
a primazia do sucesso. Mao nunca perdia uma chance de louvar o Grande
Salto Adiante: “Não importa quantos problemas tenhamos, na análise final
não chega a um dedo em dez.”13 Confundir um décimo com o todo era um
erro. Até pensar que uma campanha de natureza tão importante pudesse ter
sido lançada sem que nenhum equívoco fosse cometido era um erro. Duvidar
do Grande Salto Adiante era um erro e ficar de lado e observar de uma
distância crítica era um erro.14 Mao não podia perder o domínio de sua
estratégia global.
* * *
Na primeira metade de 1959, o plantio denso e a lavra profunda continuaram
sem pausa, os planos para irrigação seguiram velozmente e a coletivização foi
em frente. Em um momento de redução da atividade após um esforço total de
coletivizar o campo, Stalin permitira que os agricultores deixassem as
fazendas coletivas depois que ele publicou um artigo intitulado “Tontos de
sucesso”, em 1930. À diferença de seu antigo patrono, Mao fez muito pouco
em relação às comunas do povo. Meramente indicou que a brigada devia ser a
unidade básica de prestação de contas em lugar da comuna. Historiadores têm interpretado esse período como de “recuo” ou “esfriamento”, mas este,
simplesmente, não foi o caso. Deng Xiaoping deixou isso claro para os
tenentes no campo de batalha em fevereiro de 1959: “Precisamos esquentar,
não esfriar.”15
As requisições ao campo para alimentar as cidades e satisfazer os clientes
externos aumentaram drasticamente nesse período. Nas minutas altamente
confidenciais distribuídas apenas aos participantes de um encontro no Hotel
Jinjiang, em Xangai, em 25 de março, Mao ordenou que um terço de todos os
grãos fosse requisitado, muito acima dos índices anteriores: “Se vocês não
ultrapassarem um terço, as pessoas não se rebelarão.” As regiões que
falhassem em cumprir as cotas de requisição deveriam ser denunciadas: “Isso
não é desumano, é realista.” O país tinha uma safra abundante e os oficiais
deveriam seguir o exemplo de Henan e elevar as requisições: “Quem ataca
primeiro, prevalece; quem ataca por último, falha.” Mao disponibilizou 16 mil
caminhões extras para executar a tarefa. Em relação à carne, elogiou a decisão
tomada por Hebei e Shandong de banir o consumo no campo por um período
de três meses: “Isso é bom, por que todo o país não pode fazer o mesmo?”
Óleos comestíveis deveriam ser extraídos ao máximo. Mao repeliu a
intervenção de um colega que sugeriu que o Estado deveria garantir 8 metros
de tecido por pessoa por ano: “Quem ordenou isso?” E, como vimos no
último capítulo, Mao também reverteu a prioridade dada ao mercado local.
As exportações superavam as necessidades locais e tinham que ser garantidas:
“Deveríamos comer menos.” Uma abordagem firme (zhuajin) e cruel
(zhuahen) era permitida em tempos de guerra quando em confronto com
problemas práticos. “Quando não há o bastante para comer, as pessoas
morrem de fome. É melhor deixar metade das pessoas morrerem para que a
outra metade possa se saciar.”16
A palavra de Mao era a lei. Mas qual era o significado de alguns de seus
mais obscuros pronunciamentos, por exemplo: “Quem ataca primeiro,
prevalece; quem ataca por último, falha”? Tan Zhenlin, que o secretariado do
partido pôs a cargo da agricultura, esclareceu isso em junho de 1959, em
conferência telefônica sobre requisições. Explicou que os grãos deveriam ser
tomados antes que os agricultores pudessem comê-los: a rapidez era essencial, pois cada lado tentava chegar primeiro à colheita. “Mas esse ditado de ‘quem
ataca primeiro, prevalece’ deveria ser usado apenas por secretários regionais
do partido e dos condados; se fosse utilizado abaixo desse nível, poderia
facilmente criar mal-entendidos.”17 Wang Renzhong, o homem que dissera a
Mao como os oficiais inflavam os números da safra, tinha a seguinte
recomendação: “Tentaremos meios pacíficos antes de recorrer à força. Se
ainda fracassarem em cumprir com o planejamento unificado do Estado,
então aplicaremos as medidas necessárias, da advertência formal à dispensa
ou até à remoção do partido.”18
Sinais de fome tinham aparecido em 1958. Na primeira metade de 1959, a
inanição se espalhou, enquanto aldeões eram atingidos por requisições
crescentes do Estado. Até um fanático como Tan Zhenlin estimou que, no
início de janeiro, cerca de 5 milhões de pessoas sofriam do edema da fome, 70
mil tinham morrido de inanição. Chu En-lai colocou o último número em
120 mil. Ambos os números estavam muito abaixo da marca, mas os dois
homens tinham pouco incentivo para investigar mais.19 Mao estava ciente da
fome, mas a subestimava e fazia circular relatórios que mostravam que os
aldeões das regiões afligidas obtinham comida suficiente, até meio quilo por
dia na província-modelo de Henan.20 No local de produção, os oficiais locais
estavam inseguros de como responder, desnorteados pela sinalização
inconstante e contraditória de Pequim. Na cúpula, a liderança tinha sido
surpreendida pela explosão de Mao em Xangai: era um presságio das coisas
que viriam.