A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 13 de 43

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A Grande Fome de Mao

11. Tontos de sucesso

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Tontos de sucesso

 

Mao havia pressionado, bajulado, intimidado seus camaradas para o Grande

Salto Adiante e lançou o país em uma corrida de equiparação aos países mais

desenvolvidos por meio de uma industrialização precipitada e da

coletivização do campo. Os líderes precavidos em relação ao ritmo do

desenvolvimento econômico foram publicamente degradados e humilhados,

enquanto, no local de produção, os críticos do Salto tinham sido suprimidos

em um turbilhão de terror. Depois, como o frenesi para mostrar

produtividades mais altas se tornou rapidamente uma bola de neve fora de

controle e as provas do prejuízo se acumulavam no local de produção, Mao

deu meia-volta e começou a responsabilizar todos os demais pelo distúrbio

que sua campanha criara. Político inteligente, com instinto para a

autopreservação afiado por décadas de purgas políticas, desviou a

responsabilidade pelo caos não apenas para os funcionários locais do partido,

como também para seus camaradas mais próximos, e conseguiu traçar um

autorretrato de líder benigno preocupado com o bem-estar de seus súditos.

Durante o processo, que durou de novembro de 1958 a junho de 1959, a

pressão diminuiu temporariamente, embora o alívio se revelasse de curta

duração.

A desinformação proliferava na ordem política implantada por Mao. O

presidente não era nenhum tolo e compreendia que o sistema de partido

único em que ele próprio contribuíra para construir poderia gerar falsos informes e estatísticas infladas. Em todos os regimes comunistas, existiam

mecanismos de monitoramento elaborados para contornar a burocracia

oficial. Líderes supremos, em especial, tinham todo interesse em descobrir

problemas que funcionários de escalões inferiores do partido preferiam

manter para si mesmos: o fracasso em atualizar-se poderia levar a um golpe.

Organismos de controle supervisionavam os trabalhos formais dos órgãos do

governo e dos líderes do partido, executando checagens nas finanças,

nomeações, procedimentos e informes. A segurança do Estado, ao lado das

tarefas usuais de impedir crimes, administrar prisões e manter o país seguro,

regularmente pesquisava a opinião pública e aferia a extensão do

descontentamento popular. Nesse âmbito, o ministro do Departamento de

Segurança Pública era vital para Mao e não surpreende que ele tenha

apontado Xie Fuzhi para o cargo em 1959: afinal de contas, ali estava um líder

em quem o presidente poderia confiar para lhe dizer a verdade. Em todos os

níveis da maquinaria do partido, relatórios confidenciais eram regularmente

emitidos sobre uma ampla variedade de tópicos, embora, naturalmente,

também pudessem ser tendenciosos. Isso, por sua vez, poderia ser contornado

por meio do envio de funcionários de confiança em missões de apuração dos

fatos. E foi isso o que Mao fez em outubro de 1958, pondo-se ele próprio a

caminho para enfrentar diretamente os problemas nas comunas do povo com

os oficiais que eram líderes nas províncias. À medida que as provas sobre

inflação estatística aumentavam, Mao se preocupava cada vez mais. Em

Wuchang, confrontado com um relatório crítico em que seu aliado próximo

Wang Renzhong mostrou que a província poderia produzir 11 milhões de

toneladas de grãos, em vez dos 30 milhões projetados, sua confiança foi

golpeada e ele ficou deprimido.1

Zhao Ziyang, secretário da província de Guangdong, forneceu uma tábua

de salvação. Em relatório para Tao Zhu, seu chefe, Ziyang revelou, em janeiro

de 1959, que muitas comunas haviam escondido grãos e acumulado reservas

de dinheiro. Em um só condado, cerca de 35 mil toneladas foram

descobertas.2 Seguindo a pista, Zhao lançou uma campanha contra a

ocultação que descobriu mais de 1 milhão de toneladas de grãos.3 Tao Zhu

elogiou o relatório e enviou-o para Mao.4 Então, notícias vieram de Anhui,

sob a liderança do radical Zeng Xisheng: “A questão das assim chamadas

deficiências de grãos no campo não tem que ver com falta de grão, nem está

ligada a requisições excessivas do Estado: é um problema ideológico, em

particular entre oficiais locais.” O relatório explicava que os líderes de equipe

no local de produção tinham quatro apreensões. A principal delas era que as

comunas não lhes fornecessem grãos suficientes; que outras equipes

propositadamente não pressionassem o bastante e escondessem parte da

colheita; que o excedente de grãos pudesse ser confiscado durante uma fome

de primavera e que, se declarassem a produção real de grãos, cotas ainda mais

pesadas seriam impostas.5 Mao mandou circular esses relatórios

imediatamente e comentou: “O problema dos líderes de brigadas que

escondem grãos e secretamente os dividem é muito sério. Preocupa as pessoas

e tem efeito sobre a mentalidade comunista de oficiais locais, a safra de

primavera, o entusiasmo pelo Grande Salto Adiante em 1959 e a consolidação

das comunas do povo. O problema se espalhou pelo país e precisa ser

resolvido imediatamente!”6

Mao assumiu a pose de rei sábio benevolente, protetor do bem-estar de

seus súditos. O vento do comunismo varrera o campo, explicou. Como

oficiais ultrazelosos levaram a coletivização longe demais, apropriando-se

aleatoriamente de bens e do trabalho em nome das comunas do povo, os

aldeões começaram a esconder os grãos. Em março de 1959, Mao até falou

com admiração das estratégias que os agricultores adotavam para escapar das

requisições do Estado e ameaçou juntar-se a eles se o partido não mudasse

seus métodos.7 “Eu agora apoio o conservadorismo. Fico do lado do desvio de

direita. Sou contra o igualitarismo e o aventureirismo de esquerda. Eu agora

represento 500 milhões de camponeses e 10 milhões de oficiais locais. É

essencial ser oportunista de direita, devemos persistir com o oportunismo de

direita. Se vocês, junto comigo, não forem para a direita, então serei sozinho

um direitista e sozinho enfrentarei a expulsão do partido!”8 Somente Mao

poderia ter usado o rótulo de “direitista” — que teria significado a morte

política para qualquer outra pessoa — com tanta petulância, enquanto se colocava como o herói solitário que ousava dizer a verdade ao poder. Quanto

aos oficiais locais que censurava por excessos, 5% deveriam ser expurgados.

“Não é necessário atirar em todos eles.”9 Poucos meses depois, quietamente,

aumentou a cota para 10%.10

Mao também repreendeu seus camaradas. O imperador, parece, tinha sido

enganado por conselheiros próximos: havia uma grande safra, mas nada

como as afirmações fantásticas feitas mais cedo na campanha. Mao

confrontou os chefes do partido, repetidas vezes mostrando desprezo pelas

previsões excêntricas e exigindo que as previsões para a produção econômica

fossem reduzidas para níveis mais realistas. Quando um cauteloso Bo Yibo

fracassou em reduzir os projetos industriais em março de 1959, Mao

manifestou desdém: “Que espécie de pessoas está administrando a nossa

indústria: os filhos mimados de família rica! O que precisamos na indústria,

neste momento, é um tipo de imperador Qin. Vocês que estão na indústria

são moles demais, sempre falando em justiça e virtude, a tal ponto que não

realizam nada.”11

A culpa estava reservada particularmente para os amigos íntimos que tão

fielmente haviam implementado os desejos dele. Diante de líderes reunidos

em Xangai em abril, Mao lembrou: “Quando reuni um pequeno grupo na

conferência de Beidaihe em agosto, ninguém objetou quando discutimos as

metas para 1959. Na época, estávamos ocupados principalmente com o

bombardeio de Quemoy. A questão das comunas do povo não era realmente

minha, era Tan Zhenlin o responsável — apenas escrevi algumas linhas.”

Sobre a resolução tomada acerca das comunas do povo, Mao pensou o

seguinte: “Essa ideia foi de outra pessoa, não minha. Dei uma olhada, mas não

entendi, tive apenas uma leve impressão de que as comunas são boas.”

Documentos incompreensíveis contribuíam para metas infladas: “Devíamos

proibir todos esses documentos incompreensíveis de sair daqui. Vocês são

estudantes universitários, professores, grandes mentes confucionistas. Sou

meramente um estudante comum, então vocês deveriam escrever em

linguagem simples.” E, no caso de alguém ter qualquer dúvida sobre sua

liderança, alertou seus companheiros: “Alguns camaradas ainda não reconheceram que sou o líder [...]. Muitas pessoas me odeiam, em particular

[o ministro da Defesa] Peng Dehuai, ele tem ódio mortal a mim [...]. Minha

política com Peng Dehuai é a seguinte: Se você não me atacar, eu não atacarei

você, mas se você me atacar, com certeza eu atacarei você.” Depois, se lançou

em um discurso tortuoso em que cada líder do partido que discordara dele no

passado foi mencionado pelo nome, incluindo Liu Shaoqi, Chu En-lai, Chen

Yun, Zhu De, Lin Biao, Peng Dehuai, Liu Bocheng, Chen Yi e até Ren Bishi,

que morrera fazia muito tempo. Todos os líderes presentes foram citados, à

exceção de Deng Xiaoping.12 O motivo da explosão foi mostrar que Mao

esteve certo o tempo todo, enquanto aqueles que se opuseram a ele em um

momento ou outro do passado do partido tinham estado errados. Ao ficar ao

lado da história, Mao não tinha que prestar contas a ninguém.

E ninguém foi deixado em dúvida sobre a correção em geral de sua linha e

a primazia do sucesso. Mao nunca perdia uma chance de louvar o Grande

Salto Adiante: “Não importa quantos problemas tenhamos, na análise final

não chega a um dedo em dez.”13 Confundir um décimo com o todo era um

erro. Até pensar que uma campanha de natureza tão importante pudesse ter

sido lançada sem que nenhum equívoco fosse cometido era um erro. Duvidar

do Grande Salto Adiante era um erro e ficar de lado e observar de uma

distância crítica era um erro.14 Mao não podia perder o domínio de sua

estratégia global.

 

* * *

 

Na primeira metade de 1959, o plantio denso e a lavra profunda continuaram

sem pausa, os planos para irrigação seguiram velozmente e a coletivização foi

em frente. Em um momento de redução da atividade após um esforço total de

coletivizar o campo, Stalin permitira que os agricultores deixassem as

fazendas coletivas depois que ele publicou um artigo intitulado “Tontos de

sucesso”, em 1930. À diferença de seu antigo patrono, Mao fez muito pouco

em relação às comunas do povo. Meramente indicou que a brigada devia ser a

unidade básica de prestação de contas em lugar da comuna. Historiadores têm interpretado esse período como de “recuo” ou “esfriamento”, mas este,

simplesmente, não foi o caso. Deng Xiaoping deixou isso claro para os

tenentes no campo de batalha em fevereiro de 1959: “Precisamos esquentar,

não esfriar.”15

As requisições ao campo para alimentar as cidades e satisfazer os clientes

externos aumentaram drasticamente nesse período. Nas minutas altamente

confidenciais distribuídas apenas aos participantes de um encontro no Hotel

Jinjiang, em Xangai, em 25 de março, Mao ordenou que um terço de todos os

grãos fosse requisitado, muito acima dos índices anteriores: “Se vocês não

ultrapassarem um terço, as pessoas não se rebelarão.” As regiões que

falhassem em cumprir as cotas de requisição deveriam ser denunciadas: “Isso

não é desumano, é realista.” O país tinha uma safra abundante e os oficiais

deveriam seguir o exemplo de Henan e elevar as requisições: “Quem ataca

primeiro, prevalece; quem ataca por último, falha.” Mao disponibilizou 16 mil

caminhões extras para executar a tarefa. Em relação à carne, elogiou a decisão

tomada por Hebei e Shandong de banir o consumo no campo por um período

de três meses: “Isso é bom, por que todo o país não pode fazer o mesmo?”

Óleos comestíveis deveriam ser extraídos ao máximo. Mao repeliu a

intervenção de um colega que sugeriu que o Estado deveria garantir 8 metros

de tecido por pessoa por ano: “Quem ordenou isso?” E, como vimos no

último capítulo, Mao também reverteu a prioridade dada ao mercado local.

As exportações superavam as necessidades locais e tinham que ser garantidas:

“Deveríamos comer menos.” Uma abordagem firme (zhuajin) e cruel

(zhuahen) era permitida em tempos de guerra quando em confronto com

problemas práticos. “Quando não há o bastante para comer, as pessoas

morrem de fome. É melhor deixar metade das pessoas morrerem para que a

outra metade possa se saciar.”16

A palavra de Mao era a lei. Mas qual era o significado de alguns de seus

mais obscuros pronunciamentos, por exemplo: “Quem ataca primeiro,

prevalece; quem ataca por último, falha”? Tan Zhenlin, que o secretariado do

partido pôs a cargo da agricultura, esclareceu isso em junho de 1959, em

conferência telefônica sobre requisições. Explicou que os grãos deveriam ser

tomados antes que os agricultores pudessem comê-los: a rapidez era essencial, pois cada lado tentava chegar primeiro à colheita. “Mas esse ditado de ‘quem

ataca primeiro, prevalece’ deveria ser usado apenas por secretários regionais

do partido e dos condados; se fosse utilizado abaixo desse nível, poderia

facilmente criar mal-entendidos.”17 Wang Renzhong, o homem que dissera a

Mao como os oficiais inflavam os números da safra, tinha a seguinte

recomendação: “Tentaremos meios pacíficos antes de recorrer à força. Se

ainda fracassarem em cumprir com o planejamento unificado do Estado,

então aplicaremos as medidas necessárias, da advertência formal à dispensa

ou até à remoção do partido.”18

Sinais de fome tinham aparecido em 1958. Na primeira metade de 1959, a

inanição se espalhou, enquanto aldeões eram atingidos por requisições

crescentes do Estado. Até um fanático como Tan Zhenlin estimou que, no

início de janeiro, cerca de 5 milhões de pessoas sofriam do edema da fome, 70

mil tinham morrido de inanição. Chu En-lai colocou o último número em

120 mil. Ambos os números estavam muito abaixo da marca, mas os dois

homens tinham pouco incentivo para investigar mais.19 Mao estava ciente da

fome, mas a subestimava e fazia circular relatórios que mostravam que os

aldeões das regiões afligidas obtinham comida suficiente, até meio quilo por

dia na província-modelo de Henan.20 No local de produção, os oficiais locais

estavam inseguros de como responder, desnorteados pela sinalização

inconstante e contraditória de Pequim. Na cúpula, a liderança tinha sido

surpreendida pela explosão de Mao em Xangai: era um presságio das coisas

que viriam.