A Grande Fome de Mao
18. Indústria
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Indústria
Produções sempre maiores eram designadas para fábricas, fundições, oficinas,
minas e usinas elétricas em toda a China. A recompensa da unidade de
produção era determinada pelo percentual da cota que a unidade conseguia
cumprir. A produção total era o número mágico que definia a ascensão ou a
queda de qualquer unidade fabril. E, exatamente como os quadros do partido
nas comunas do povo prometiam volumes sempre crescentes de grãos, as
fábricas em todo o país tentavam ultrapassar umas às outras no cumprimento
das cotas. Listas de números de produção eram divulgadas diariamente pela
máquina de propaganda, reproduzidas em mensagens escritas a giz no
quadro-negro e em jornais murais para todos verem. Mapas e diagramas com
projeções crescentes eram exibidos nos pontos de revenda das fábricas. Fotos
de trabalhadores-modelo eram emolduradas em vidro em um “quadro de
honra”, enquanto cartazes, estrelas, faixas e palavras de ordem adornavam as
paredes de cada oficina. Os que não atingiam as metas eram identificados em
reuniões na fábrica, enquanto os trabalhadores que superavam as metas eram
elogiados e alguns deles participavam dos comícios em Pequim inspecionados
por Mao em pessoa. Acima do chiado do metal fundido, do tinido das
caldeiras e do assobio do vapor, um vozerio incessante vinha dos alto-
falantes, que despejavam propaganda e programas de rádio para estimular os
trabalhadores a aumentar a produção.1
Como a meta suprema da fábrica vermelha era a produção, o custo do insumo era frequentemente negligenciado. Na burocracia que se alastrava a
cargo da indústria, dos ministérios da economia central aos diferentes
departamentos administrativos dentro das fábricas, ninguém conseguia
acompanhar exatamente os espantosos volumes de equipamento
encomendados fora. Até Chu En-lai, que pressionava cruelmente pela
extração de gêneros alimentícios do campo para cumprir as metas, parecia
incapaz de limitar efetivamente a importação de maquinário. As empresas
também tomavam empréstimos para financiar a expansão constante,
construir prédios grandiosos e comprar mais equipamento. No caso da
Fábrica de Maquinário de Mineração Luoyang, os juros mensais devidos ao
banco igualavam a folha de salários da fábrica.2
Uma vez instalado, o equipamento ficava sujeito a manutenção deficiente
e incessante maltrato. Em visita a um cais em Xangai, em 1961, a delegação da
Alemanha Oriental, em outras circunstâncias simpática, se surpreendeu com
o estado em que encontrou o maquinário importado. Materiais novos, como
folhas de metal, tubos e perfis de ferro, enferrujavam ao ar livre.3 A usina de
ferro e aço em Wuhan, inaugurada com muita fanfarra por Mao no auge do
Grande Salto Adiante, em setembro de 1958, deu impressão similar de
negligência extrema: apenas duas das seis fornalhas Siemens-Martin
operavam a plena capacidade em 1962.4 Relatórios mais detalhados de
equipes de investigação confirmaram que materiais, ferramentas e
maquinário eram negligenciados ou até deliberadamente danificados. Na
Companhia de Ferro e Aço de Shijiazhuang, por exemplo, metade de todas as
máquinas quebrava com frequência.5 Uma cultura de desperdício
desenvolveu-se. Em Luoyang, apenas três fábricas acumularam mais de 2.500
toneladas de sucata que não ia para lugar algum.6 Em Shenyang, córregos
poluídos por cobre derretido e soluções de níquel corriam entre pilhas de
sucata.7
O desperdício se desenvolveu não apenas porque matérias-primas e
suprimentos estavam mal armazenados, mas também porque os chefes das
fábricas deliberadamente desrespeitavam as regras para aumentar a produção.
A novíssima usina de ferro e aço em Jinan, segundo uma equipe de auditores, desperdiçou um quinto do investimento do Estado, ou 12,4 milhões de yuans,
em seus primeiros dois anos, adicionando areia a centenas de toneladas de
minério de manganês, o que resultou em uma mistura inútil que teve de ser
jogada fora.8
Como todos trabalhavam febrilmente na direção de maiores níveis de
produção, montanhas de bens de padrão inferior se acumulavam. Muitas
fábricas cuspiam bens inferiores enquanto buscavam atalhos na incessante
perseguição da produção mais alta. A própria estrutura da cultura material foi
atingida por bens de segunda, de moradias que se desmantelavam, ônibus
periclitantes, móveis a ponto de desmontar e fiação elétrica defeituosa a
janelas precárias. A Comissão de Planejamento do Estado descobriu que
apenas um quinto de todo o aço produzido em Pequim era de primeira classe.
A maior parte era de segunda ou terceira categoria, e mais de 20%
classificados como defeituosos. Em Henan, mais da metade de todo o aço
produzido nas fábricas era de terceira classe ou pior. O material inferior
produzido continuamente pelos gigantes do aço tinha efeito indireto em uma
variedade completa de indústrias relacionadas. Em Angang, o florescente
complexo de aço e ferro em Anshan, os trilhos produzidos em 1957 eram,
geralmente, de primeira classe em qualidade, mas, em 1960, só um terço
correspondia aos padrões requeridos. Como a qualidade dos trilhos sofreu,
várias seções da rede de ferrovias tornaram-se perigosas demais para tráfego
pesado e tiveram que ser fechadas; algumas ruíram completamente.9
Não apenas o número de bens inferiores aumentou, como grandes
quantidades deles acabaram sendo usadas pela população. Em 1957, em
Henan, apenas 0,25% do cimento que não preenchia os critérios de produção
foi retirado. Isso subiu para 5% em 1960, mas grandes quantidades de
material abaixo do padrão eram usadas em canteiros de obras. Pesquisa feita
em uma série de indústrias em Kaifeng, Henan, chegou a uma conclusão
ainda mais espantosa: mais de 70% de toda a produção consistiam em
produtos rejeitados.10
E, exatamente como trilhos defeituosos, vigas empenadas e cimento falso
enfraqueciam perigosamente a estrutura material da vida diária; bens de consumo inferiores tornaram-se parte e parcela da cultura socialista. Em
Xangai, relógios soavam o alarme ao acaso, bacias de esmalte eram vendidas
com trincas e bolhas na superfície, e metade de todos os artigos de malha e
algodão era defeituosa.11 Em Wuhan, zíperes emperravam, facas se dobravam
e lâminas se soltavam dos cabos das ferramentas agrícolas.12 Às vezes, as
fábricas cortavam custos por meio da produção rápida de bens sem rótulo de
identificação. Este foi o caso de um quinto da carne enlatada vendida em
Pequim. Às vezes, os rótulos estavam errados: por exemplo, quando fruta era
substituída por carne de porco, ocasionando o apodrecimento de uma grande
quantidade de bens.13 Ainda mais preocupantes eram os problemas causados
pela adição de produtos químicos à comida processada. Em um ano, uma
fábrica de corante de Pequim vendeu 120 toneladas de pigmentos
prejudiciais, especificamente designados como aditivos para alimentos.
Muitos deles estavam proibidos: por exemplo, o amarelo sudão, corante
usado em tinta para canetas. Procedimentos descuidados no controle de
qualidade também significavam que comida e remédios contaminados
tinham permissão para deixar o chão da fábrica. Um exemplo foi uma partida
de 78 milhões de vidros de penicilina estragada. Um terço dessa partida foi
enviado por uma fábrica de Xangai antes de o problema ser identificado.14
Mao zombava da própria noção de produto defeituoso: “Não existe produto
rejeitado. O que um homem refuga, outro aproveita.”15
Mao pode ter descartado preocupações quanto à qualidade, mas a cultura
de refugo lesou a reputação do país no mercado internacional. Como vimos, o
preço de prosperar à custa de baterias que vazavam, ovos contaminados,
carne infectada, carvão falso e outras mercadorias defeituosas que foram
entregues chegou a 200 milhões ou 300 milhões de yuans só em 1959. Mas a
cultura do refugo também corrompeu o trabalho da indústria militar. Como
mostrou um relatório do marechal He Long, não apenas os rifles de assalto
falhavam, como também os dezenove caças produzidos em Shenyang estavam
abaixo do padrão. Na Fábrica 908, mais de 100 mil máscaras contra gás eram
imprestáveis. Nie Rongzhen, que dirigia o programa de armas nucleares,
queixou-se da qualidade inferior dos dispositivos sem fio e aparelhos de medição por causa das partículas de pó presas dentro deles. Até nas fábricas
altamente secretas havia entulho por toda parte. A menor brisa soprava sobre
equipamentos sensíveis o pó que descansava nas faixas de propaganda
penduradas nas paredes: “Os americanos duvidam de que possamos fazer
mísseis dirigidos porque os chineses são sujos demais.”16
* * *
As condições de vida dos trabalhadores eram apavorantes. Importações
estupendas de maquinário estrangeiro se destinavam a lançar o país para a
dianteira, enquanto instalações novas brilhantes, de fornos de secar cimento a
refinarias de petróleo, eram compradas da União Soviética e Europa Oriental.
Mas muito pouco era investido em moradia e alimentação dos trabalhadores
comuns e suas famílias — a despeito do fato de a força de trabalho ter
crescido explosivamente com a chegada de milhões do campo.
Tome-se a fábrica de ferro e aço em Jinan, a capital de Shandong.
Estabelecida no auge do Grande Salto Adiante, em 1958, com o equipamento
tecnológico mais avançado, deveria ser um refúgio para os novos recrutados.
Mas as condições se deterioraram rapidamente. As instalações de toalete eram
inadequadas, então os trabalhadores urinavam e defecavam diretamente no
chão da fábrica. A sujeira e o fedor permeavam o local, piolhos e sarna eram
comuns. O caos reinava no local de produção. Brigas eram ocorrências
frequentes, as janelas estavam quebradas e as portas caíam. Uma hierarquia
social emergiu em que os trabalhadores mais fortes pegavam as melhores
camas nos dormitórios. O medo era difundido, em particular entre as
mulheres, comumente assediadas, humilhadas e abusadas pelos quadros
locais em seus escritórios, dormitórios ou, às vezes, no chão da fábrica, à vista
dos outros trabalhadores. Nenhuma delas ousava dormir ou sair sozinha.17
Cenário similar podia ser encontrado em Nanquim. Quando a Federação
de Sindicatos inspecionou a vida dos trabalhadores em ferro, aço e carvão em
1960, encontrou refeitórios imundos infectados por insetos e ratos. As filas
eram intermináveis, até mil trabalhadores enfileirados à frente de uma janela de refeitório na Mina de Carvão de Lingshan. Como o refeitório ficava aberto
por apenas uma hora, os trabalhadores discutiam e disputavam espaço,
chegando ao confronto físico. Na Mina de Carvão de Guantang, os mineiros
que se atrasavam eram privados da refeição e tinham que descer para
trabalhar na mina em um turno de dez horas com o estômago vazio. Os
dormitórios estavam superlotados. Em média, cada trabalhador tinha um
espaço de 1 a 1,5 metro quadrado, embora alguns dormissem em tábuas
imprensadas entre as camas ou contra as colunas. Muitos descansavam em
turnos, tendo que compartilhar a cama. Os tetos de palha gotejavam,
forçando alguns trabalhadores a movimentar as camas-beliche em torno das
poças formadas pelas goteiras. Outros dormiam embaixo de guarda-chuvas.
Equipamento de proteção não havia, ou era completamente inadequado.
Muitos mineiros não tinham sapatos e a alternativa era trabalhar descalços
nas minas. Aqueles que tinham que extrair carvão em buracos abertos
ficavam ensopados quando chovia, os casacos encharcando-se de água. Nos
dormitórios não existiam cobertores, e a umidade era tão alta que as roupas
nunca secavam realmente. Alguns trabalhadores do aço que tinham que
trabalhar em frente aos altos-fornos queimavam os pés porque não possuíam
sapatos.18
Mais ao sul, na subtropical Guangzhou, os dormitórios estavam tão
superlotados que uma cama-beliche não fornecia mais que meio metro
quadrado por trabalhador. Trabalho de construção malfeito resultava em um
local quente e úmido durante a estação chuvosa, levando o mofo a espalhar-se
como erupção, infectando roupas e camas. A umidade era tanta que algumas
instalações eram descritas como meros “tanques”, com a água escorrendo das
paredes para formar poças no solo.19 Na Mina de Carvão de Quren, localizada
perto de Shaoguan, os trabalhadores canibalizavam as estacas de sustentação
das minas para construir móveis ou se aquecer. Um em cada sete
trabalhadores sofria de silicose, “doença do oleiro”, causada pela inalação de
partículas de poeira, pois não eram fornecidas máscaras protetoras.20
A situação não era melhor no norte. Na própria capital, um estudo
detalhado de quatro fábricas pela Federação de Sindicatos mostrou que havia quatro vezes mais trabalhadores que antes do Grande Salto Adiante, embora
o espaço no dormitório não acompanhasse o ritmo do aumento. Em
Changxindian, no distrito de Fengtai, uma fábrica de trilhos alocava apenas
pouco mais de meio metro quadrado para cada um de seus trabalhadores. Em
toda Pequim, trabalhadores dormiam em depósitos, bibliotecas e até em
abrigos antiaéreos, com frequência em camas-beliche dispostas em três
camadas. Ficavam arrumados como sardinhas, tão apertados que não havia
espaço para se virar à noite. Para passar pela porta, os trabalhadores tinham
que fazer fila. Os toaletes eram permanentemente usados e, com frequência,
bloqueados. Muitos embrulhavam as fezes em folha de jornal e atiravam o
pacote por uma janela.
Poucas fábricas forneciam aquecimento suficiente: uma das quatro
empresas inspecionadas não tinha nenhum aquecedor no rigoroso inverno de
1958–59. Os trabalhadores lançavam mão de queimar bolas de carvão em
pequenos fogões, o que resultava em mortes por envenenamento a gás de
carvão. A gripe era comum. Lixo se acumulava por toda parte; o roubo era
generalizado. As ameaças eram comuns, especialmente no caso de
trabalhadores novos. Na Fábrica de Cimento de Liulihe, inspecionada
separadamente pela Federação de Sindicatos em março de 1959, três
refeitórios designados para um total de mil pessoas tinham que fornecer
comida para mais de 5.700 trabalhadores. Os mais velhos eram simplesmente
afastados por jovens ansiosos para furar a fila, muitos nunca comiam nada a
não ser comida fria.21 Um ano depois, investigação similar anotou poucas
mudanças e acrescentou que o vandalismo — delito criminal, tomado
emprestado do código penal soviético que cobria uma ampla variedade de
atos, como linguagem grosseira, destruição de propriedade e comportamento
sexual ilegal — era comum em dormitórios. Trabalhadores usavam poder e
influência para serem promovidos de uma cama para outra, encontrando
espaço para os amigos e a família, apesar da superlotação.22
Em 1961, até metade da força de trabalho em Pequim sofria de edema da
fome.23 Doenças industriais eram comuns, cerca de 40 mil trabalhadores
tinham sido expostos a pó de silicone. Um relatório escrito pelo Congresso do Povo da cidade estimou que um em cada dez trabalhadores sofria de doença
crônica.24 A situação real era provavelmente muito pior.
Muitas fábricas novas abertas durante o Grande Salto Adiante eram
descritas como “operadas pelo povo” em lugar de “operadas pelo Estado”.
Elas não se saíram melhor. Em sua maioria, eram instalações mal construídas,
rapidamente erguidas em edifícios confiscados e, frequentemente,
inadequadas para a produção industrial. Uma oficina química em Nanquim,
que funcionava em uma casa, tinha telhado de bambu e pintura descascada
nas paredes de barro. Empregava 275 trabalhadores. O lixo radioativo
saturava recantos e fissuras, acumulado no piso de um aposento, ou em tonéis
abertos, de onde era espalhado pelo vento e pela chuva. Trabalhadores
sofriam de irritação na garganta e no nariz, pois o equipamento de proteção
não era usado apropriadamente. Máscaras e luvas frequentemente eram
usadas ao contrário e levadas para o dormitório sem serem limpas. Das 77
trabalhadoras examinadas pelo médico, oito estavam grávidas ou eram
lactantes, embora estivessem em contato com material radioativo diariamente
e por várias horas. Não se tomava banho no inverno.25
Esse não era exemplo isolado. Nas 28 fábricas “operadas pelo povo” no
distrito de Gulou, o velho centro da cidade, onde tambores eram usados para
cadenciar a vigília noturna, encontrava-se sujeira por toda parte. A ventilação
inexistente era a menor das preocupações. Muitos trabalhadores eram
mulheres que começaram a trabalhar durante o Grande Salto Adiante. A
maioria não tinha experiência de trabalho e recebia pouquíssimo
equipamento de proteção, algumas só mesmo o chapéu de palha. A exposição
aos componentes químicos e à poeira de silicone comumente causava olhos
vermelhos, dores de cabeça, coceiras e erupções na pele. Em algumas
mulheres, a inalação constante de produtos químicos destruía a cartilagem
que separa as narinas. Com temperaturas que iam de 38º C a 46º C perto das
fornalhas, a insolação era ocorrência frequente, mesmo no meio do inverno.26
Um exame de saúde feito em 450 mulheres que trabalhavam em uma fábrica
de válvulas eletrônicas revelou que mais de um terço sofria de falta de
menstruação, sintoma de má nutrição. Na fábrica química de Nanquim, um quarto tinha tuberculose, enquanto uma em cada duas sofria de pressão
baixa. Metade tinha vermes.27
Por piores que fossem as condições de vida, os trabalhadores fabris
estavam em situação melhor que os agricultores que produziam a comida.
Mas poucos tinham condições de sustentar a família ou remeter dinheiro para
a aldeia deixada para trás. Seus salários eram corroídos pela inflação e
exauridos pelas compras de alimentos necessários para complementar as
magras rações que recebiam nos refeitórios. Na Companhia de Ferro e Aço
Shijiazhuang, os trabalhadores gastavam três quartos dos salários com
comida.28 Em Nanquim, muitos tinham que tomar dinheiro emprestado,
incorrendo em dívidas que iam de 30 a 200 yuans. Dados os parcos salários
que a maioria ganhava, as dívidas eram impagáveis. Um trabalhador de Grau
Três ganhava 43 yuans por mês, embora só a comida para uma família
custasse 46 yuans. Nenhuma economia era feita no refeitório, onde a comida
era ruim e cara.29 Poucas pessoas sequer conseguiam chegar ao Grau Três. A
maioria dos salários ia de 12,7 yuans a 22 yuans por mês.30 Nas fábricas mais
pobres “operadas pelo povo”, mais de um terço da força de trabalho recebia
menos de 10 yuans por mês. Muitos tinham que pedir emprestado ou
penhorar os poucos itens pessoais que haviam sobrado, vendendo a roupa de
reserva durante o verão para tremer de frio durante o inverno.31
E ainda por cima havia os honorários médicos, que, com frequência, os
trabalhadores tinham que pagar. Um exame na fábrica química de Pequim
em 1960 mostrou que centenas de trabalhadores estavam endividados em
consequência de tratamento médico. Chong Qingtian cuidava da mulher
doente e devia 1.700 yuans quando ela morreu. Foi levado à Justiça, que
determinou o pagamento de 20 yuans por mês, deixando-o com pouco mais
de 40 yuans para viver. Ele era um excelente trabalhador, mas muitos estavam
em posição menos invejável e acabavam arruinados pelos honorários médicos
em que incorriam para tratar de doenças causadas por horríveis condições de
trabalho.32
* * *
Quando todos os problemas inerentes à economia planificada eram levados
em conta — gasto descontrolado de capital, enorme desperdício, produtos
defeituosos, gargalos de transporte, deplorável disciplina de trabalho —, o
desempenho das fábricas era desanimador. Os custos reais eram difíceis de
calcular no caos financeiro criado pelo planejamento central. Não apenas os
contadores adulteravam a contabilidade, como, às vezes, não sabiam como
lidar com as somas de dinheiro. Em Nanquim, cerca de quarenta grandes
unidades de produção tinham apenas catorze contadores, dos quais somente
seis eram capazes de cuidar do dinheiro. Muitas fábricas sequer possuíam um
livro para registrar entradas e saídas, e ninguém tinha a mais leve ideia dos
custos incorridos.33
Algumas aproximações indicavam a extensão do dano, como mostra o
exemplo do aço, que é basicamente ferro reforçado com carbono e metais
endurecedores. Em Hunan, 2,2 toneladas de ferro eram usadas para produzir
uma tonelada de aço, o que representava enorme desperdício. O custo de
produção de uma tonelada de aço era de 1.226 yuans. Vendida a um preço
estipulado pelo Estado em 250 yuans, havia uma perda de mil yuans por
tonelada. Em 1959, a província perdeu cerca de 4 milhões de yuans por mês
com o aço.34 Mais preparadas para fazer aço a um custo/benefício aceitável,
eram as fábricas e fornalhas tecnologicamente avançadas de Shijiazhuang.
Fundada em 1957, a Shijiazhuang Ferro e Aço dava lucro antes do Grande
Salto Adiante, mas custos muito altos a mandaram para o vermelho. Em
1958, uma tonelada de aço custava 112 yuans e dava à fábrica um lucro de
cerca de 16 milhões de yuans. Em 1959, o custo por tonelada subiu para 154
yuans, empurrando a fábrica para um déficit de 23 milhões de yuans, seguido
em 1960 por custos de 172 yuans por tonelada e perdas excedendo o limite de
40 milhões de yuans. Nessa época, a fábrica usava uma variedade de minérios
de ferro pobres que vinham de minas distantes como ilha Hainan.35
À medida que as perdas aumentavam, a produção parava. Após vários
anos de crescimento vertiginoso, a economia entrou em profunda recessão
em 1961. O suprimento de carvão — o combustível da indústria moderna — se esgotou. Nas minas de carvão, o equipamento tinha sido tão maltratado
durante o Grande Salto Adiante que a maior parte dele estava defeituosa.
Com frequência, maquinário novo não durava mais de seis meses por causa
do aço de baixa resistência usado em sua produção. Os próprios mineiros
deixavam o trabalho aos montes, desgostosos com os preços crescentes da
comida e da moradia, fartos da escassez de itens básicos como sabão,
uniformes e sapatos de borracha.36 E, mesmo que o carvão fosse retirado da
mina, a escassez de combustível fazia com que boa parte dele ficasse
empilhada sem uso. As quatro grandes minas de carvão da província de
Guangdong produziram cerca de 1,7 milhão de toneladas de carvão em 1959,
mas conseguiram transportar menos de 1 milhão.37 Em Gansu, a liderança
radical de Zhang Zhongliang assegurou-se de que a produção de carvão
subisse de 1,5 milhão de toneladas em 1958 para 7,3 milhões de toneladas em
1960, a um considerável custo humano. Depois que o petróleo acabou, cerca
de 2 milhões de toneladas foram abandonadas nas minas.38
Tabela 9: Produção industrial da província de Hunan
(milhões de yuans)
1957 1958 1959 1960 1961 1962 1.819 2.959 4.023 4.542 2.426 2.068
Fonte: Hunan, 1964, 187–1–1260.
Enquanto a produção de carvão despencava, fábricas em todo o país paravam.
Em Xangai, em dezembro de 1960, a Planta de Maquinário China trabalhava
com um terço da capacidade por causa da falta de energia. A Fábrica de
Algodão Número Um tinha 2 mil trabalhadores ociosos durante todo o dia.39
No primeiro semestre de 1961, o volume de carvão entregue em Xangai foi
reduzido em 15%, mas um terço desse volume nunca foi entregue, na
verdade. Perto de metade do ferro e da madeira necessários para alimentar a
indústria pesada da cidade estava em falta também.40
Por ser um centro industrial de importância estratégica, Xangai recebeu a
mais alta prioridade dos planejadores. A situação era pior em outros lugares, à medida que as deficiências da economia fugiam de controle. Em Shaoguan,
a cidade da indústria pesada de Guangdong, uma pesquisa em 32 empresas do
Estado no verão de 1961 mostrou que a produção tinha mergulhado de
ponta-cabeça, com o sabão em queda de 52% em relação ao ano anterior;
tijolos, 53%; lingotes, 80%; fósforos, 36%; sapatos de couro, 65%. Na fábrica
de sapato, cada trabalhador produzia um par por dia, quando três por dia
eram feitos antes do Grande Salto Adiante.41 A tabela 9 mostra o que
aconteceu em toda a província de Hunan. Esses números se referem apenas à
produção, que mais que duplicou de 1957 a 1960, mas caiu, novamente, nos
dois anos seguintes. Se o custo dessa obsessão pela quantidade sobre a
qualidade tivesse sido calculado, teria indicado um desastre de proporções
gigantescas, inversamente proporcional à ambição do plano geral. Mas
nenhuma fábrica foi à falência: esse era um fenômeno capitalista associado
aos ciclos de crescimento e depressão que a economia planificada estava
destinada a evitar.