A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 20 de 43

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A Grande Fome de Mao

18. Indústria

18

 

Indústria

 

Produções sempre maiores eram designadas para fábricas, fundições, oficinas,

minas e usinas elétricas em toda a China. A recompensa da unidade de

produção era determinada pelo percentual da cota que a unidade conseguia

cumprir. A produção total era o número mágico que definia a ascensão ou a

queda de qualquer unidade fabril. E, exatamente como os quadros do partido

nas comunas do povo prometiam volumes sempre crescentes de grãos, as

fábricas em todo o país tentavam ultrapassar umas às outras no cumprimento

das cotas. Listas de números de produção eram divulgadas diariamente pela

máquina de propaganda, reproduzidas em mensagens escritas a giz no

quadro-negro e em jornais murais para todos verem. Mapas e diagramas com

projeções crescentes eram exibidos nos pontos de revenda das fábricas. Fotos

de trabalhadores-modelo eram emolduradas em vidro em um “quadro de

honra”, enquanto cartazes, estrelas, faixas e palavras de ordem adornavam as

paredes de cada oficina. Os que não atingiam as metas eram identificados em

reuniões na fábrica, enquanto os trabalhadores que superavam as metas eram

elogiados e alguns deles participavam dos comícios em Pequim inspecionados

por Mao em pessoa. Acima do chiado do metal fundido, do tinido das

caldeiras e do assobio do vapor, um vozerio incessante vinha dos alto-

falantes, que despejavam propaganda e programas de rádio para estimular os

trabalhadores a aumentar a produção.1

Como a meta suprema da fábrica vermelha era a produção, o custo do insumo era frequentemente negligenciado. Na burocracia que se alastrava a

cargo da indústria, dos ministérios da economia central aos diferentes

departamentos administrativos dentro das fábricas, ninguém conseguia

acompanhar exatamente os espantosos volumes de equipamento

encomendados fora. Até Chu En-lai, que pressionava cruelmente pela

extração de gêneros alimentícios do campo para cumprir as metas, parecia

incapaz de limitar efetivamente a importação de maquinário. As empresas

também tomavam empréstimos para financiar a expansão constante,

construir prédios grandiosos e comprar mais equipamento. No caso da

Fábrica de Maquinário de Mineração Luoyang, os juros mensais devidos ao

banco igualavam a folha de salários da fábrica.2

Uma vez instalado, o equipamento ficava sujeito a manutenção deficiente

e incessante maltrato. Em visita a um cais em Xangai, em 1961, a delegação da

Alemanha Oriental, em outras circunstâncias simpática, se surpreendeu com

o estado em que encontrou o maquinário importado. Materiais novos, como

folhas de metal, tubos e perfis de ferro, enferrujavam ao ar livre.3 A usina de

ferro e aço em Wuhan, inaugurada com muita fanfarra por Mao no auge do

Grande Salto Adiante, em setembro de 1958, deu impressão similar de

negligência extrema: apenas duas das seis fornalhas Siemens-Martin

operavam a plena capacidade em 1962.4 Relatórios mais detalhados de

equipes de investigação confirmaram que materiais, ferramentas e

maquinário eram negligenciados ou até deliberadamente danificados. Na

Companhia de Ferro e Aço de Shijiazhuang, por exemplo, metade de todas as

máquinas quebrava com frequência.5 Uma cultura de desperdício

desenvolveu-se. Em Luoyang, apenas três fábricas acumularam mais de 2.500

toneladas de sucata que não ia para lugar algum.6 Em Shenyang, córregos

poluídos por cobre derretido e soluções de níquel corriam entre pilhas de

sucata.7

O desperdício se desenvolveu não apenas porque matérias-primas e

suprimentos estavam mal armazenados, mas também porque os chefes das

fábricas deliberadamente desrespeitavam as regras para aumentar a produção.

A novíssima usina de ferro e aço em Jinan, segundo uma equipe de auditores, desperdiçou um quinto do investimento do Estado, ou 12,4 milhões de yuans,

em seus primeiros dois anos, adicionando areia a centenas de toneladas de

minério de manganês, o que resultou em uma mistura inútil que teve de ser

jogada fora.8

Como todos trabalhavam febrilmente na direção de maiores níveis de

produção, montanhas de bens de padrão inferior se acumulavam. Muitas

fábricas cuspiam bens inferiores enquanto buscavam atalhos na incessante

perseguição da produção mais alta. A própria estrutura da cultura material foi

atingida por bens de segunda, de moradias que se desmantelavam, ônibus

periclitantes, móveis a ponto de desmontar e fiação elétrica defeituosa a

janelas precárias. A Comissão de Planejamento do Estado descobriu que

apenas um quinto de todo o aço produzido em Pequim era de primeira classe.

A maior parte era de segunda ou terceira categoria, e mais de 20%

classificados como defeituosos. Em Henan, mais da metade de todo o aço

produzido nas fábricas era de terceira classe ou pior. O material inferior

produzido continuamente pelos gigantes do aço tinha efeito indireto em uma

variedade completa de indústrias relacionadas. Em Angang, o florescente

complexo de aço e ferro em Anshan, os trilhos produzidos em 1957 eram,

geralmente, de primeira classe em qualidade, mas, em 1960, só um terço

correspondia aos padrões requeridos. Como a qualidade dos trilhos sofreu,

várias seções da rede de ferrovias tornaram-se perigosas demais para tráfego

pesado e tiveram que ser fechadas; algumas ruíram completamente.9

Não apenas o número de bens inferiores aumentou, como grandes

quantidades deles acabaram sendo usadas pela população. Em 1957, em

Henan, apenas 0,25% do cimento que não preenchia os critérios de produção

foi retirado. Isso subiu para 5% em 1960, mas grandes quantidades de

material abaixo do padrão eram usadas em canteiros de obras. Pesquisa feita

em uma série de indústrias em Kaifeng, Henan, chegou a uma conclusão

ainda mais espantosa: mais de 70% de toda a produção consistiam em

produtos rejeitados.10

E, exatamente como trilhos defeituosos, vigas empenadas e cimento falso

enfraqueciam perigosamente a estrutura material da vida diária; bens de consumo inferiores tornaram-se parte e parcela da cultura socialista. Em

Xangai, relógios soavam o alarme ao acaso, bacias de esmalte eram vendidas

com trincas e bolhas na superfície, e metade de todos os artigos de malha e

algodão era defeituosa.11 Em Wuhan, zíperes emperravam, facas se dobravam

e lâminas se soltavam dos cabos das ferramentas agrícolas.12 Às vezes, as

fábricas cortavam custos por meio da produção rápida de bens sem rótulo de

identificação. Este foi o caso de um quinto da carne enlatada vendida em

Pequim. Às vezes, os rótulos estavam errados: por exemplo, quando fruta era

substituída por carne de porco, ocasionando o apodrecimento de uma grande

quantidade de bens.13 Ainda mais preocupantes eram os problemas causados

pela adição de produtos químicos à comida processada. Em um ano, uma

fábrica de corante de Pequim vendeu 120 toneladas de pigmentos

prejudiciais, especificamente designados como aditivos para alimentos.

Muitos deles estavam proibidos: por exemplo, o amarelo sudão, corante

usado em tinta para canetas. Procedimentos descuidados no controle de

qualidade também significavam que comida e remédios contaminados

tinham permissão para deixar o chão da fábrica. Um exemplo foi uma partida

de 78 milhões de vidros de penicilina estragada. Um terço dessa partida foi

enviado por uma fábrica de Xangai antes de o problema ser identificado.14

Mao zombava da própria noção de produto defeituoso: “Não existe produto

rejeitado. O que um homem refuga, outro aproveita.”15

Mao pode ter descartado preocupações quanto à qualidade, mas a cultura

de refugo lesou a reputação do país no mercado internacional. Como vimos, o

preço de prosperar à custa de baterias que vazavam, ovos contaminados,

carne infectada, carvão falso e outras mercadorias defeituosas que foram

entregues chegou a 200 milhões ou 300 milhões de yuans só em 1959. Mas a

cultura do refugo também corrompeu o trabalho da indústria militar. Como

mostrou um relatório do marechal He Long, não apenas os rifles de assalto

falhavam, como também os dezenove caças produzidos em Shenyang estavam

abaixo do padrão. Na Fábrica 908, mais de 100 mil máscaras contra gás eram

imprestáveis. Nie Rongzhen, que dirigia o programa de armas nucleares,

queixou-se da qualidade inferior dos dispositivos sem fio e aparelhos de medição por causa das partículas de pó presas dentro deles. Até nas fábricas

altamente secretas havia entulho por toda parte. A menor brisa soprava sobre

equipamentos sensíveis o pó que descansava nas faixas de propaganda

penduradas nas paredes: “Os americanos duvidam de que possamos fazer

mísseis dirigidos porque os chineses são sujos demais.”16

 

* * *

 

As condições de vida dos trabalhadores eram apavorantes. Importações

estupendas de maquinário estrangeiro se destinavam a lançar o país para a

dianteira, enquanto instalações novas brilhantes, de fornos de secar cimento a

refinarias de petróleo, eram compradas da União Soviética e Europa Oriental.

Mas muito pouco era investido em moradia e alimentação dos trabalhadores

comuns e suas famílias — a despeito do fato de a força de trabalho ter

crescido explosivamente com a chegada de milhões do campo.

Tome-se a fábrica de ferro e aço em Jinan, a capital de Shandong.

Estabelecida no auge do Grande Salto Adiante, em 1958, com o equipamento

tecnológico mais avançado, deveria ser um refúgio para os novos recrutados.

Mas as condições se deterioraram rapidamente. As instalações de toalete eram

inadequadas, então os trabalhadores urinavam e defecavam diretamente no

chão da fábrica. A sujeira e o fedor permeavam o local, piolhos e sarna eram

comuns. O caos reinava no local de produção. Brigas eram ocorrências

frequentes, as janelas estavam quebradas e as portas caíam. Uma hierarquia

social emergiu em que os trabalhadores mais fortes pegavam as melhores

camas nos dormitórios. O medo era difundido, em particular entre as

mulheres, comumente assediadas, humilhadas e abusadas pelos quadros

locais em seus escritórios, dormitórios ou, às vezes, no chão da fábrica, à vista

dos outros trabalhadores. Nenhuma delas ousava dormir ou sair sozinha.17

Cenário similar podia ser encontrado em Nanquim. Quando a Federação

de Sindicatos inspecionou a vida dos trabalhadores em ferro, aço e carvão em

1960, encontrou refeitórios imundos infectados por insetos e ratos. As filas

eram intermináveis, até mil trabalhadores enfileirados à frente de uma janela de refeitório na Mina de Carvão de Lingshan. Como o refeitório ficava aberto

por apenas uma hora, os trabalhadores discutiam e disputavam espaço,

chegando ao confronto físico. Na Mina de Carvão de Guantang, os mineiros

que se atrasavam eram privados da refeição e tinham que descer para

trabalhar na mina em um turno de dez horas com o estômago vazio. Os

dormitórios estavam superlotados. Em média, cada trabalhador tinha um

espaço de 1 a 1,5 metro quadrado, embora alguns dormissem em tábuas

imprensadas entre as camas ou contra as colunas. Muitos descansavam em

turnos, tendo que compartilhar a cama. Os tetos de palha gotejavam,

forçando alguns trabalhadores a movimentar as camas-beliche em torno das

poças formadas pelas goteiras. Outros dormiam embaixo de guarda-chuvas.

Equipamento de proteção não havia, ou era completamente inadequado.

Muitos mineiros não tinham sapatos e a alternativa era trabalhar descalços

nas minas. Aqueles que tinham que extrair carvão em buracos abertos

ficavam ensopados quando chovia, os casacos encharcando-se de água. Nos

dormitórios não existiam cobertores, e a umidade era tão alta que as roupas

nunca secavam realmente. Alguns trabalhadores do aço que tinham que

trabalhar em frente aos altos-fornos queimavam os pés porque não possuíam

sapatos.18

Mais ao sul, na subtropical Guangzhou, os dormitórios estavam tão

superlotados que uma cama-beliche não fornecia mais que meio metro

quadrado por trabalhador. Trabalho de construção malfeito resultava em um

local quente e úmido durante a estação chuvosa, levando o mofo a espalhar-se

como erupção, infectando roupas e camas. A umidade era tanta que algumas

instalações eram descritas como meros “tanques”, com a água escorrendo das

paredes para formar poças no solo.19 Na Mina de Carvão de Quren, localizada

perto de Shaoguan, os trabalhadores canibalizavam as estacas de sustentação

das minas para construir móveis ou se aquecer. Um em cada sete

trabalhadores sofria de silicose, “doença do oleiro”, causada pela inalação de

partículas de poeira, pois não eram fornecidas máscaras protetoras.20

A situação não era melhor no norte. Na própria capital, um estudo

detalhado de quatro fábricas pela Federação de Sindicatos mostrou que havia quatro vezes mais trabalhadores que antes do Grande Salto Adiante, embora

o espaço no dormitório não acompanhasse o ritmo do aumento. Em

Changxindian, no distrito de Fengtai, uma fábrica de trilhos alocava apenas

pouco mais de meio metro quadrado para cada um de seus trabalhadores. Em

toda Pequim, trabalhadores dormiam em depósitos, bibliotecas e até em

abrigos antiaéreos, com frequência em camas-beliche dispostas em três

camadas. Ficavam arrumados como sardinhas, tão apertados que não havia

espaço para se virar à noite. Para passar pela porta, os trabalhadores tinham

que fazer fila. Os toaletes eram permanentemente usados e, com frequência,

bloqueados. Muitos embrulhavam as fezes em folha de jornal e atiravam o

pacote por uma janela.

Poucas fábricas forneciam aquecimento suficiente: uma das quatro

empresas inspecionadas não tinha nenhum aquecedor no rigoroso inverno de

1958–59. Os trabalhadores lançavam mão de queimar bolas de carvão em

pequenos fogões, o que resultava em mortes por envenenamento a gás de

carvão. A gripe era comum. Lixo se acumulava por toda parte; o roubo era

generalizado. As ameaças eram comuns, especialmente no caso de

trabalhadores novos. Na Fábrica de Cimento de Liulihe, inspecionada

separadamente pela Federação de Sindicatos em março de 1959, três

refeitórios designados para um total de mil pessoas tinham que fornecer

comida para mais de 5.700 trabalhadores. Os mais velhos eram simplesmente

afastados por jovens ansiosos para furar a fila, muitos nunca comiam nada a

não ser comida fria.21 Um ano depois, investigação similar anotou poucas

mudanças e acrescentou que o vandalismo — delito criminal, tomado

emprestado do código penal soviético que cobria uma ampla variedade de

atos, como linguagem grosseira, destruição de propriedade e comportamento

sexual ilegal — era comum em dormitórios. Trabalhadores usavam poder e

influência para serem promovidos de uma cama para outra, encontrando

espaço para os amigos e a família, apesar da superlotação.22

Em 1961, até metade da força de trabalho em Pequim sofria de edema da

fome.23 Doenças industriais eram comuns, cerca de 40 mil trabalhadores

tinham sido expostos a pó de silicone. Um relatório escrito pelo Congresso do Povo da cidade estimou que um em cada dez trabalhadores sofria de doença

crônica.24 A situação real era provavelmente muito pior.

Muitas fábricas novas abertas durante o Grande Salto Adiante eram

descritas como “operadas pelo povo” em lugar de “operadas pelo Estado”.

Elas não se saíram melhor. Em sua maioria, eram instalações mal construídas,

rapidamente erguidas em edifícios confiscados e, frequentemente,

inadequadas para a produção industrial. Uma oficina química em Nanquim,

que funcionava em uma casa, tinha telhado de bambu e pintura descascada

nas paredes de barro. Empregava 275 trabalhadores. O lixo radioativo

saturava recantos e fissuras, acumulado no piso de um aposento, ou em tonéis

abertos, de onde era espalhado pelo vento e pela chuva. Trabalhadores

sofriam de irritação na garganta e no nariz, pois o equipamento de proteção

não era usado apropriadamente. Máscaras e luvas frequentemente eram

usadas ao contrário e levadas para o dormitório sem serem limpas. Das 77

trabalhadoras examinadas pelo médico, oito estavam grávidas ou eram

lactantes, embora estivessem em contato com material radioativo diariamente

e por várias horas. Não se tomava banho no inverno.25

Esse não era exemplo isolado. Nas 28 fábricas “operadas pelo povo” no

distrito de Gulou, o velho centro da cidade, onde tambores eram usados para

cadenciar a vigília noturna, encontrava-se sujeira por toda parte. A ventilação

inexistente era a menor das preocupações. Muitos trabalhadores eram

mulheres que começaram a trabalhar durante o Grande Salto Adiante. A

maioria não tinha experiência de trabalho e recebia pouquíssimo

equipamento de proteção, algumas só mesmo o chapéu de palha. A exposição

aos componentes químicos e à poeira de silicone comumente causava olhos

vermelhos, dores de cabeça, coceiras e erupções na pele. Em algumas

mulheres, a inalação constante de produtos químicos destruía a cartilagem

que separa as narinas. Com temperaturas que iam de 38º C a 46º C perto das

fornalhas, a insolação era ocorrência frequente, mesmo no meio do inverno.26

Um exame de saúde feito em 450 mulheres que trabalhavam em uma fábrica

de válvulas eletrônicas revelou que mais de um terço sofria de falta de

menstruação, sintoma de má nutrição. Na fábrica química de Nanquim, um quarto tinha tuberculose, enquanto uma em cada duas sofria de pressão

baixa. Metade tinha vermes.27

Por piores que fossem as condições de vida, os trabalhadores fabris

estavam em situação melhor que os agricultores que produziam a comida.

Mas poucos tinham condições de sustentar a família ou remeter dinheiro para

a aldeia deixada para trás. Seus salários eram corroídos pela inflação e

exauridos pelas compras de alimentos necessários para complementar as

magras rações que recebiam nos refeitórios. Na Companhia de Ferro e Aço

Shijiazhuang, os trabalhadores gastavam três quartos dos salários com

comida.28 Em Nanquim, muitos tinham que tomar dinheiro emprestado,

incorrendo em dívidas que iam de 30 a 200 yuans. Dados os parcos salários

que a maioria ganhava, as dívidas eram impagáveis. Um trabalhador de Grau

Três ganhava 43 yuans por mês, embora só a comida para uma família

custasse 46 yuans. Nenhuma economia era feita no refeitório, onde a comida

era ruim e cara.29 Poucas pessoas sequer conseguiam chegar ao Grau Três. A

maioria dos salários ia de 12,7 yuans a 22 yuans por mês.30 Nas fábricas mais

pobres “operadas pelo povo”, mais de um terço da força de trabalho recebia

menos de 10 yuans por mês. Muitos tinham que pedir emprestado ou

penhorar os poucos itens pessoais que haviam sobrado, vendendo a roupa de

reserva durante o verão para tremer de frio durante o inverno.31

E ainda por cima havia os honorários médicos, que, com frequência, os

trabalhadores tinham que pagar. Um exame na fábrica química de Pequim

em 1960 mostrou que centenas de trabalhadores estavam endividados em

consequência de tratamento médico. Chong Qingtian cuidava da mulher

doente e devia 1.700 yuans quando ela morreu. Foi levado à Justiça, que

determinou o pagamento de 20 yuans por mês, deixando-o com pouco mais

de 40 yuans para viver. Ele era um excelente trabalhador, mas muitos estavam

em posição menos invejável e acabavam arruinados pelos honorários médicos

em que incorriam para tratar de doenças causadas por horríveis condições de

trabalho.32

 

* * *

Quando todos os problemas inerentes à economia planificada eram levados

em conta — gasto descontrolado de capital, enorme desperdício, produtos

defeituosos, gargalos de transporte, deplorável disciplina de trabalho —, o

desempenho das fábricas era desanimador. Os custos reais eram difíceis de

calcular no caos financeiro criado pelo planejamento central. Não apenas os

contadores adulteravam a contabilidade, como, às vezes, não sabiam como

lidar com as somas de dinheiro. Em Nanquim, cerca de quarenta grandes

unidades de produção tinham apenas catorze contadores, dos quais somente

seis eram capazes de cuidar do dinheiro. Muitas fábricas sequer possuíam um

livro para registrar entradas e saídas, e ninguém tinha a mais leve ideia dos

custos incorridos.33

Algumas aproximações indicavam a extensão do dano, como mostra o

exemplo do aço, que é basicamente ferro reforçado com carbono e metais

endurecedores. Em Hunan, 2,2 toneladas de ferro eram usadas para produzir

uma tonelada de aço, o que representava enorme desperdício. O custo de

produção de uma tonelada de aço era de 1.226 yuans. Vendida a um preço

estipulado pelo Estado em 250 yuans, havia uma perda de mil yuans por

tonelada. Em 1959, a província perdeu cerca de 4 milhões de yuans por mês

com o aço.34 Mais preparadas para fazer aço a um custo/benefício aceitável,

eram as fábricas e fornalhas tecnologicamente avançadas de Shijiazhuang.

Fundada em 1957, a Shijiazhuang Ferro e Aço dava lucro antes do Grande

Salto Adiante, mas custos muito altos a mandaram para o vermelho. Em

1958, uma tonelada de aço custava 112 yuans e dava à fábrica um lucro de

cerca de 16 milhões de yuans. Em 1959, o custo por tonelada subiu para 154

yuans, empurrando a fábrica para um déficit de 23 milhões de yuans, seguido

em 1960 por custos de 172 yuans por tonelada e perdas excedendo o limite de

40 milhões de yuans. Nessa época, a fábrica usava uma variedade de minérios

de ferro pobres que vinham de minas distantes como ilha Hainan.35

À medida que as perdas aumentavam, a produção parava. Após vários

anos de crescimento vertiginoso, a economia entrou em profunda recessão

em 1961. O suprimento de carvão — o combustível da indústria moderna — se esgotou. Nas minas de carvão, o equipamento tinha sido tão maltratado

durante o Grande Salto Adiante que a maior parte dele estava defeituosa.

Com frequência, maquinário novo não durava mais de seis meses por causa

do aço de baixa resistência usado em sua produção. Os próprios mineiros

deixavam o trabalho aos montes, desgostosos com os preços crescentes da

comida e da moradia, fartos da escassez de itens básicos como sabão,

uniformes e sapatos de borracha.36 E, mesmo que o carvão fosse retirado da

mina, a escassez de combustível fazia com que boa parte dele ficasse

empilhada sem uso. As quatro grandes minas de carvão da província de

Guangdong produziram cerca de 1,7 milhão de toneladas de carvão em 1959,

mas conseguiram transportar menos de 1 milhão.37 Em Gansu, a liderança

radical de Zhang Zhongliang assegurou-se de que a produção de carvão

subisse de 1,5 milhão de toneladas em 1958 para 7,3 milhões de toneladas em

1960, a um considerável custo humano. Depois que o petróleo acabou, cerca

de 2 milhões de toneladas foram abandonadas nas minas.38

 

Tabela 9: Produção industrial da província de Hunan

(milhões de yuans)

1957 1958 1959 1960 1961 1962 1.819 2.959 4.023 4.542 2.426 2.068

Fonte: Hunan, 1964, 187–1–1260.

 

Enquanto a produção de carvão despencava, fábricas em todo o país paravam.

Em Xangai, em dezembro de 1960, a Planta de Maquinário China trabalhava

com um terço da capacidade por causa da falta de energia. A Fábrica de

Algodão Número Um tinha 2 mil trabalhadores ociosos durante todo o dia.39

No primeiro semestre de 1961, o volume de carvão entregue em Xangai foi

reduzido em 15%, mas um terço desse volume nunca foi entregue, na

verdade. Perto de metade do ferro e da madeira necessários para alimentar a

indústria pesada da cidade estava em falta também.40

Por ser um centro industrial de importância estratégica, Xangai recebeu a

mais alta prioridade dos planejadores. A situação era pior em outros lugares, à medida que as deficiências da economia fugiam de controle. Em Shaoguan,

a cidade da indústria pesada de Guangdong, uma pesquisa em 32 empresas do

Estado no verão de 1961 mostrou que a produção tinha mergulhado de

ponta-cabeça, com o sabão em queda de 52% em relação ao ano anterior;

tijolos, 53%; lingotes, 80%; fósforos, 36%; sapatos de couro, 65%. Na fábrica

de sapato, cada trabalhador produzia um par por dia, quando três por dia

eram feitos antes do Grande Salto Adiante.41 A tabela 9 mostra o que

aconteceu em toda a província de Hunan. Esses números se referem apenas à

produção, que mais que duplicou de 1957 a 1960, mas caiu, novamente, nos

dois anos seguintes. Se o custo dessa obsessão pela quantidade sobre a

qualidade tivesse sido calculado, teria indicado um desastre de proporções

gigantescas, inversamente proporcional à ambição do plano geral. Mas

nenhuma fábrica foi à falência: esse era um fenômeno capitalista associado

aos ciclos de crescimento e depressão que a economia planificada estava

destinada a evitar.