A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 19 de 43

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A Grande Fome de Mao

Parte Três | Destruição

PARTE TRÊS

 

DESTRUIÇÃO

17

 

Agricultura

 

A expressão “economia planificada” vem do alemão Befehlswirtschaft.

Originalmente aplicada à economia nazista, foi mais tarde usada para

descrever a União Soviética. Em vez de permitir aos compradores e

vendedores dispersos determinar sua própria atividade econômica de acordo

com as leis da oferta e da demanda, uma autoridade maior poderia emitir

ordens e determinar o rumo geral da economia de acordo com um plano

mestre. O princípio do comando requeria que todas as decisões econômicas

fossem centralizadas para o bem maior, enquanto o Estado determinava o que

deveria ser produzido, o quanto deveria ser produzido, quem produziria o

quê e quando, como os recursos deveriam ser alocados e quais preços

deveriam ser cobrados por matérias-primas, bens e serviços. Um plano

central substituía o mercado.

Quando os planejadores assumiram a economia chinesa, os agricultores

perderam o controle da safra. Em 1953, foi introduzido o monopólio do

cereal e decretado que todos os agricultores deveriam vender todo o

excedente para o Estado a preços por ele determinados. O objetivo por trás do

monopólio era estabilizar o preço do grão no país, eliminando a especulação e

garantindo o necessário para alimentar a população urbana e a expansão

industrial. Mas o que era o “cereal excedente”, em um país onde muitos

agricultores mal plantavam o bastante para sobreviver? Foi definido como

semente, forragem e uma ração básica de grão em cerca de 13 a 15 quilos mensais por cabeça. No entanto, 23 a 26 quilos de grão com casca eram

necessários para fornecer entre 1.700 e 1.900 calorias diárias, uma quantidade

que organizações de ajuda internacional consideram o mínimo indispensável

para a subsistência.1 A noção de excedente, em outras palavras, foi uma

construção política destinada a dar legitimidade à extração de grão do campo.

Ao forçar os aldeões a vender grão antes de satisfazer suas próprias

necessidades de subsistência, o Estado também os tornava mais dependentes

do coletivo. Grão extra, acima da ração básica, tinha que ser comprado de

volta do Estado por aldeões com pontos pelo trabalho, distribuídos com base

em seu desempenho no trabalho coletivo. Os agricultores tinham perdido o

controle não apenas de suas terras e safras, como também de seus próprios

horários de trabalho: os oficiais determinavam quem deveria fazer o quê e por

quantos pontos de trabalho, de colher esterco a cuidar dos búfalos nos

campos. Como o mercado foi eliminado e o dinheiro perdeu seu poder de

compra, o grão se tornou a moeda de troca. A maior parte dele estava nas

mãos do Estado.

Mas um problema mais insidioso espreitava por trás da noção de

excedente de grão: a enorme pressão aplicada nos líderes locais para prometer

sempre vendas maiores de cereais. O montante vendido ao Estado era

determinado em uma série de encontros que começavam na aldeia, quando

um líder de equipe passava uma cota para a brigada, onde as promessas eram

ajustadas e combinadas em uma proposta passada para a comuna, que então

negociava o quanto entregaria ao condado. Quando uma promessa chegava

ao nível da região e da província, o volume tinha sido revisado para cima

diversas vezes, como resultado da pressão do grupo. Um número muito

distanciado da realidade finalmente aterrissava na mesa de Li Fuchun, o

responsável por planejar a economia e estabelecer metas nacionais de

produção. Ele, por sua vez, inflava a meta de acordo com as últimas

mudanças políticas acordadas pela liderança: aquele novo número era a

ordem do partido.

A pressão para mostrar ganhos sensacionais na produção de grãos chegou

ao clímax durante o Grande Salto Adiante. Em um frenesi de lances

competitivos, funcionários do partido, da aldeia até a província, tentavam superar uns aos outros, enquanto recordes sucessivos eram anunciados pela

máquina de propaganda, o que, por sua vez, incitava até mesmo os oficiais

mais cuidadosos a inflar os números. Mesmo depois de o partido ter tentado

controlar algumas das afirmações mais extravagantes no início de 1959, o

fracasso em projetar um salto substancial na produção era interpretado como

“conservadorismo direitista”, em particular durante os expurgos que se

seguiram à Conferência de Lushan. Em clima de medo, os líderes da aldeia

seguiam ordens em lugar de discutir as cotas. Frequentemente, um secretário

do partido ou assistente da comuna simplesmente ia até uma faixa de terra,

dava uma olhada em volta e determinava a meta de produtividade. Um líder

de equipe explicava o processo do seguinte modo: “Em 1960, recebemos uma

cota de 260 toneladas. Isso foi aumentado em 5,5 toneladas poucos dias

depois. Então, a comuna fez uma reunião e acrescentou mais 25 toneladas.

Após dois dias, a comuna nos telefonou para dizer que a cota havia subido

para 315 toneladas: como tudo isso aconteceu, não temos ideia.”2

Quanto mais alto o funcionário, maior o poder de aumentar a cota, o que

repercutia em cada unidade subordinada, e cada uma tinha que manipular os

números para obedecer. Quando Xie Fuzhi, o chefe em Yunnan, foi

informado por Pequim de que a meta nacional para a produção de grãos

tinha sido elevada para 300 milhões de toneladas, ele imediatamente fez uma

conferência telefônica para explicar aos líderes de condado que isso realmente

queria dizer 350–400 milhões de toneladas. Yunnan, calculou rapidamente,

tinha 1/30 avos da população total, o que significava uma cota de 10 milhões

de toneladas. Como Yunnan não queria ficar atrás do resto do país, Xie

elevou isso para um total belamente arredondado de 25 bilhões jin,

equivalente a 12,5 milhões de toneladas.3 Todos, da região ao condado,

comuna, brigada e aldeia, tinham que se mobilizar e ajustar as cotas locais de

acordo com isso.

Com safras infladas, vinham cotas de confisco elevadas demais, e isso

provocava escassez e, imediatamente, a fome. Mas, se os números eram

inventados, como sabermos qual era a verdadeira colheita e a proporção da

safra confiscada pelo Estado? Kenneth Walker, um especialista em economia

agrária da Universidade de Londres, reuniu cuidadosamente durante uma década dados estatísticos de uma ampla variedade de jornais locais,

estatísticas publicadas e diretrizes políticas. Walker mostrou que o Estado

impôs os confiscos mais altos em 1959–62, em um tempo em que a produção

média por pessoa estava, na verdade, em seu nível mais baixo.4

Exatamente quando o estudo apareceu impresso em 1984, um anuário

estatístico foi publicado pelo Departamento Nacional de Estatísticas da China

com um conjunto de dados históricos que cobria os dados da fome. A maioria

dos observadores se baseou nesses números oficiais. Mas por que

confiaríamos em um conjunto de estatísticas publicadas por um partido

notoriamente protetor de seu próprio passado? Problemas com as estatísticas

oficiais apareceram quando Yang Jisheng, jornalista aposentado da agência

Xinhua, publicou um livro sobre a fome baseado em arquivos do partido, em

um conjunto de números compilados em 1962 pelo Departamento de Grãos.

Mas isso meramente transferiu o problema de um conjunto de números para

outro. O fato de um documento vir de um arquivo não o torna

automaticamente certo. Cada arquivo tem uma série de números que

competem entre si, reunidos de modos diferentes por agências diferentes em

tempos diferentes. Como resultado da pressão política, o trabalho estatístico

do Departamento de Grãos desintegrou-se de 1958 a 1962 a tal extremo que o

próprio Estado não podia mais calcular um nível realista de produção de

cereais. E a distorção era maior no alto, quando falsos relatórios e afirmações

exageradas se acumulavam à medida que subiam na hierarquia do partido. Se

os próprios líderes estavam perdidos em um pântano de invenção estatística,

parece improvável que possamos magicamente extrair a verdade numérica de

um simples documento dos arquivos do partido. Mao Tsé-tung, Liu Shaoqi,

Deng Xiaoping e outros líderes sabiam muito bem que estavam olhando o

mundo através de camadas de filtros distorcidos, e a solução encontrada foi

gastar mais tempo investigando o que acontecia no local de produção em

jornadas de pesquisa no campo.

Por outro lado, entre 1962 e 1965, escritórios locais de estatísticas

tentaram reconstruir sua credibilidade e, com frequência, voltavam aos anos

da fome para descobrir o que havia acontecido. Os números que encontraram

indicam um grau muito maior de confisco que os fornecidos pelo Departamento de Grãos.

 

Tabela 5: Estimativas diferentes para a produção de grãos e confiscos de

grãos em Hunan (milhões de toneladas)

Estimativas de produção total da colheita Estimativas dos confiscos totais

Escritório de Escritório de

Depto. de Grãos Depto. de Grãos

Estatísticas Estatísticas

1956 10,36 — 2,39 (23,1%) —

1957 11,32 2,29 (20,2%) 2,74 (24,2%) 11,3

1958 12,25 2,66 (21,7%) 3,50 (28,5%) 12,27

1959 11,09 2,99 (26,9%) 3,89 (35,1%) 11,09

1960 8,02 1,75 (21,9%) 2,50 (31,2%) 8

1961 8 1,55 (19,4%) 2,21 (27,6%) 8

Fonte: Hunan, maio 1965, 1871–1432, p. 3–8; os números da colheita são de Hunan, 30 de junho de 1961, 194–1–701, p. 3–4, que tem números levemente diferentes das estimativas de 1965; os números do Depto. de Grãos são de Yang, Mubei, p. 540.

 

A tabela 5 compara os números compilados pelo Departamento em 1962 com

os números locais calculados em 1965 pelo Escritório de Estatísticas

provinciais em Hunan, em uma tentativa de determinar em quanto os

agricultores tinham efetivamente contribuído com o Estado. A diferença em

estimativas para a produção de grão é mínima, mas, quando se chega ao

tamanho dos confiscos, as cifras fornecidas pela província revelam-se muito

mais altas, indo de 28% a 35% do total da safra. Por que existe uma

discrepância de 4% a 10%? Uma razão pode ser encontrada na natureza das

provas estatísticas. Um exame mais acurado indica que os números

fornecidos pelo Departamento de Grãos não foram cuidadosamente

recuperados no período imediatamente posterior à fome, mas

mecanicamente compilados dos gráficos que o Departamento entregara nos

anos anteriores. Cada gráfico tinha dois conjuntos de números, um indicando

os confiscos “realizados de fato” no ano corrente, o outro estabelecendo

regras para o ano que entrava. Os números do confisco para 1958, por

exemplo, vêm do gráfico para 1959, o que significava que eram avaliações

grosseiras.5

A isso deveríamos acrescentar o fato de o Departamento de Grãos em

Pequim estar sob muita pressão em 1962 para mostrar que não havia

permitido confiscos excessivos para esgotar o grão do campo e, assim, adotar

um conjunto de números baixos. Mas há outra razão para a divergência:

grãos estavam sendo escondidos em todos os níveis da sociedade, da aldeia à

comuna, até a província. Os números compilados em 1965 pelo Escritório de

Estatísticas em Hunan foram baseados em cuidadosa pesquisa após a fome. O

Escritório pôde voltar atrás para conjuntos completos de estatísticas da

comuna e do condado para descobrir o quanto havia sido confiscado, na

verdade, em contraste com os números da província oficialmente entregues

ao centro. Em outras palavras, a discrepância corresponde ao volume de grãos

requeridos que escapou ao olhar do Estado.

Outros exemplos confirmam que as taxas de requisição eram muito mais

altas que as sugeridas pelo Departamento de Grãos. Em Zhejiang, por

exemplo, Zeng Shaowen, um funcionário provincial de alto escalão, admitiu,

em 1961, que cerca de 2,9 milhões de toneladas, ou 40,9% da safra, foram

requisitados em 1958, seguidos de percentual ainda maior — 43,2% — no ano

seguinte. O Departamento de Grãos dá percentagens muito mais baixas:

30,4% para 1958, seguida de 34,4%.6 Uma história semelhante vem de

Guizhou. Nos arquivos do partido provincial, que Yang Jisheng não pôde

acessar, um documento do comitê provincial do partido mostra que uma

média de 1,8 milhão de toneladas foi requisitada todos os anos de 1958 a

1960, o que representou 44,4% da safra, com um pico de 2,34 milhões de

toneladas em 1959 — equivalente a enormes 56,5% da safra. Os números

fornecidos pelo Departamento de Grãos são em média de 1,4 milhão de

toneladas para os mesmos três anos, ou cerca de um quarto menos.7

Alguns desses cálculos podem parecer abstratos, mas são muito

importantes. O grão não é apenas a moeda de troca em uma economia

planificada; ele se torna a fonte de sobrevivência em tempos de fome. Quando

Hunan ou Zhejiang aumentavam suas requisições em 8% a 10% e tomavam

mais 750 mil toneladas de grãos do campo em meio à fome, o número de pessoas levadas à inanição crescia proporcionalmente. Vimos como um quilo

de grão fornecia quantidade suficiente de calorias para uma pessoa a cada dia,

o que significa que uma família de três membros podia viver com uma

tonelada por ano. Mas a verdadeira questão é que muitos agricultores

poderiam ter sobrevivido à fome se suas rações tivessem sido apenas

marginalmente aumentadas em cerca de 400 a 500 calorias por dia,

equivalentes a uma grande tigela à noite. Em resumo, para entender como as

pessoas morreram em tal escala, é vital ver o papel desempenhado por

requisições crescentes em tempos de colheitas decrescentes.

 

Tabela 6: Estimativas diferentes de requisição de grãos

(milhões de toneladas)

Produção total Total de requisições

Estatísticas Escritório de

Depto. de Grãos

oficiais Estatísticas

1958 51 56,27 66,32 200

1959 67,49 60,71 72,23 170

1960 51,09 39,04 50,35 143,50

1961 54,52 33,96 — 147,47

Fonte: Walker, Food Grain Procurement, p. 162; Yang, Mubei, p. 539; Yunnan, 1962, 81–7– 86; os números de produção são de grãos com casca, ao passo que os números de requisições são de grãos processados, ocultando perda excedente de cerca de um quinto do peso total.

 

Quanto grão foi requisitado no total? A tabela 6 tem três conjuntos de

estatísticas. Os dois primeiros mostram os números gerais a que chegou

Kenneth Walker em 1983, pesquisando em estatísticas publicadas, assim

como os números fornecidos por Yang Jisheng com base no Departamento de

Grãos. Mas, como vimos, a palavra do Departamento de Grãos não é

confiável, porque ele não tinha nem a perícia, nem a inclinação política para

coletar os números reais. Um terceiro conjunto de estatísticas vem das

anotações feitas pelo Escritório de Estatísticas de Yunnan em 1962, enquanto

seus membros assistiam a uma das conferências nacionais periodicamente

realizadas pelo Departamento de Estatísticas em Pequim. Nem um só

conjunto de números verdadeiros será encontrado nos arquivos, uma vez que cada número era uma afirmação limitada pela política e pela utilidade em

lugar da perícia. Mas parece que o Departamento de Grãos compilava

números que estavam muito abaixo do que observadores estrangeiros

conseguiam calcular com base em estatísticas regionais publicadas e do que o

Departamento de Estatísticas compilou em 1962. Em resumo, provas de

diferentes fontes mostram que o nível de requisição variava de 30% a 37%

nacionalmente, muito acima dos mais comuns 20% a 25% extraídos até 1958.

Como Mao indicou em 25 de março de 1959, em um encontro secreto de

líderes do partido, “se vocês não forem além de um terço, as pessoas não se

rebelarão”. Ele próprio estimulava requisições maiores que o usual, em um

tempo em que era bem sabido que os números das safras tinham sido

inflados.8 Em outras palavras, a ideia de que o Estado erradamente tomou

grão demais do campo porque supôs que a safra era muito maior do que era

é, em grande medida, um mito — quando muito, parcialmente verdadeiro

apenas para o outono de 1958.

Uma parte do grão requisitado era vendida de volta para os fazendeiros —

mediante ágio —, mas eles estavam no fim de uma longa lista de espera.

Como vimos nos capítulos 10 e 15, o partido desenvolvera uma lista de

prioridades políticas que ignorava as necessidades do campo. A liderança

decidiu aumentar as exportações de grão para honrar seus contratos

estrangeiros e manter sua reputação internacional, a tal ponto que uma

política de exportar “acima de tudo o mais” foi adotada em 1960. O partido

escolheu aumentar a ajuda estrangeira aos aliados e embarcou carregamentos

de grãos gratuitamente para países como Albânia. Prioridade também foi

dada às crescentes populações de Pequim, Tianjin, Xangai e à província de

Liaoning — área central da indústria pesada —, seguida de requisições de

moradores urbanos em geral. A consequência dessas decisões políticas não foi

apenas o aumento da proporção de requisições, como também o aumento das

requisições do volume total de grãos entregue ao Estado. No caso de

Zhejiang, por exemplo, uma média anual de 1,68 milhão de toneladas deixou

a província de 1958 a 1961, em contraste com 1,2 milhão de toneladas em

cada um dos três anos precedentes. Apenas em 1958, isso significou que mais

da metade dos grãos requisitados foi entregue a Pequim antes mesmo que a

província começasse a alimentar os residentes urbanos.9 Em geral, o volume

de grãos tomado pelo Estado para alimentar Pequim, Xangai, Tianjin e a

província de Liaoning e para manter o mercado de exportação subiu a cada

trimestre, de 1,6 milhão de toneladas no terceiro trimestre de 1956 a 1,8

milhão de toneladas no mesmo período em 1957, a 2,3 milhões de toneladas

em 1958, a 2,5 milhões de toneladas um ano depois e a uma alta de 3 milhões

de toneladas em três meses em 1960.10

O efeito direto dessas prioridades políticas foi a destruição da vida de

muitos aldeões. Como colocou Wang Renzhong em um encontro de líderes

de todas as províncias do sul, em agosto de 1961, “condições

extraordinariamente difíceis demandam medidas extraordinárias”,

explicando que o grão seria fornecido apenas para as cidades, de forma que as

aldeias nas garras da fome teriam que se virar sozinhas. Em seu modo de ver,

algumas partes teriam que ser sacrificadas para manter o todo.11

Ele não estava sozinho. Chu En-lai, por exemplo, pressionava

incansavelmente por requisições maiores. Era o homem responsável por

garantir que grão suficiente fosse tomado do campo para alimentar as cidades

e ganhar moeda estrangeira. Ele atormentava chefes provinciais

pessoalmente, por telefone, por meio de seus representantes e de uma

incessante linha de telegramas com a marca “urgente”. Chu também tinha um

agudo sentido de hierarquia, em que as necessidades do campo tinham que

fazer concessões aos interesses do Estado — que ele representava. Sabia muito

bem que as vastas quantidades de grãos que lhe haviam sido dadas por Li

Jingquan, seguidor radical de Mao, só podiam levar a uma situação de fome

em massa em Sichuan. Mas outros também se agarravam rigidamente ao

ponto de vista de que a inanição de pessoas importava menos que as

demandas do Estado. Deng Xiaoping pensava que, em uma economia

planificada, as requisições tinham que ser implacáveis, “como em uma

guerra”: não importava o quanto um líder provincial tentasse defender o seu

território, a linha do partido tinha que ser mantida, ou o Estado pereceria. Ao

falar, no fim de 1961, quando a extensão da fome era bem conhecida entre a

liderança, isso foi o que Deng Xiaoping teve a dizer sobre Sichuan, onde enormes requisições causaram a morte de muitos milhões de pessoas: “No

passado, as requisições foram muito pesadas em certas regiões; em Sichuan,

por exemplo, foram pesadas por um número regular de anos, incluindo este

ano, mas não há alternativa. Eu aprovo o estilo Sichuan, eles nunca se

queixam de provações, todos deveríamos aprender com Sichuan. E não estou

dizendo isso porque eu mesmo sou de Sichuan.”12 Como vimos, Mao

colocava de forma diferente: “Quando não há o bastante para comer, as

pessoas morrem de fome. É melhor deixar metade das pessoas morrerem,

para que a outra metade possa se saciar.”13

 

* * *

 

Os preços pagos pelo Estado pelas requisições de grãos variavam de província

para província. No caso do milho, por exemplo, ia de 124 yuans por tonelada

em Guangxi a 152 yuans por tonelada em Guangdong, logo depois da

fronteira com Guangxi, no início de 1961. A diferença para o arroz podia

chegar a 50%: por exemplo, 124 yuans por tonelada em Guangxi contra 180

yuans pela mesma quantidade em Xangai.14 O Estado teve lucro substancial

exportando arroz por 400 yuans a tonelada.15

Os preços eram periodicamente ajustados, mas os preços das requisições

permaneciam tão baixos que, na maioria das vezes, os agricultores produziam

grãos com prejuízo. Simplesmente por essa razão, ainda em 1976 não era

lucrativo cultivar trigo, centeio, milho e sorgo. O lucro com o arroz era

marginal.16 Mas, em uma economia planificada, os agricultores não decidiam

mais a safra que plantariam, pois tinham que seguir ordens dos oficiais locais

— que, por sua vez, tinham que aplicar as ordens do partido. E os

planejadores estavam fascinados pela produção de cereais, decidindo forçar

proporções sempre maiores de agricultores a se concentrar no grão — em

detrimento da economia em geral. Essa visão se traduziu em 1959 em uma

política de estimular a produção de grão acima de tudo o mais e levou muitas

províncias a estender a superfície cultivada com grão em cerca de 10%.17 Os agricultores solicitados a abandonar safras mais lucrativas por milho, arroz ou

trigo ficavam em desvantagem. Por exemplo, depois que receberam ordem de

cultivar grãos em vez de melões, cana-de-açúcar e tabaco, que cultivavam

habitualmente, algumas aldeias em Zhejiang viram sua renda despencar.18

Outro problema com a economia planificada era que funcionários no local

de produção nem sempre sabiam o que estavam fazendo e impunham

decisões que se revelavam desastrosas. Já vimos como o plantio denso e a

lavra profunda foram martelados pelo regime no auge do Grande Salto

Adiante. Isso foi combinado com caprichosas intervenções de quadros locais

com pouco conhecimento de agricultura. Em 1959, na comuna de Luoyang,

um líder local decidiu substituir a safra local por batatas-doces em metade da

área disponível, mas mudou de ideia depois e substituiu as batatas por

amendoins. Depois, os amendoins foram arrancados para abrir espaço para o

arroz. No ano anterior, a comuna tinha tentado a lavra profunda, utilizando

vastas concentrações de mão de obra para cavar sulcos profundos, a maior

parte com as mãos. Grandes quantidades de fertilizantes foram aplicadas, em

alguns casos até 30 toneladas por hectare. Tudo deu em nada.19 No condado

de Kaiping, Guangdong, milhares de aldeões foram repetidamente forçados a

plantar uma safra no início da primavera de 1959, apesar do frio cortante: as

sementes congelaram em três ocasiões e, no final, os campos renderam 450

quilos por hectare.20

Ainda mais desastrosa foi a ordem de plantar menos. Mao estava tão

convencido de que o campo ofegava sob o peso de cereais que sugeriu que um

terço da terra descansasse. “As pessoas na China cultivam em média três mu,

mas acho que dois 21 mu é o bastante.” Combinado com o êxodo de

agricultores em direção às cidades, a área geral cultivada caiu. Em Hunan, em

1958, cerca de 5,78 milhões de hectares foram cultivados com grãos, mas, por

volta de 1962, esse número diminuiu em 15%, chegando a 4,92 milhões de

hectares.22 Na província de Zhejiang, cerca de 65 mil hectares de terra

cultivada desapareciam todo ano, o que levou a uma perda de

aproximadamente um décimo da área total por volta de 1961.23 Essas médias

provinciais mascaravam profundas diferenças regionais. Na região de Wuhan, por exemplo, pouco mais da metade de 37 mil hectares disponíveis

estava lavrada.24 Tan Zhenlin, a cargo da agricultura, observou, em 1959, que

cerca de 7,3 milhões de hectares eram deixados em descanso.25 No início de

1961, Peng Zhen estimou a área total semeada em 107 milhões de hectares: se

for verdade, significaria um desperdício de 23 milhões de hectares desde

1958.26

A essa perda tinha que ser acrescentada a mudança na proporção dos

grãos cultivados. A população urbana preferia, em grande parte, grãos

refinados — arroz, trigo, soja — embora, no norte, consideráveis volumes de

grãos rústicos — sorgo, milho e painço — fossem consumidos. Mas batatas-

doces eram vistas como alimentação de camponeses e, em geral, não eram

consumidas em volumes significativos.27 Além disso, batatas-doces eram uma

mercadoria perecível, e o Estado tinha limitado interesse nelas: a maior parte

das requisições era de grãos refinados. Mas a proporção de batata-doce

cresceu durante os anos de fome, quando os quadros respondiam à pressão

para aumentar a produtividade por meio da mudança para o tubérculo, fácil

de cultivar. Mais frequentemente, os agricultores eram deixados apenas com

as batatas.

 

* * *

 

Ao impor o monopólio na venda de cereais, o Estado assumiu tarefa de

proporções gigantescas. Empregados do Estado tinham que comprar o grão,

estocá-lo, transportá-lo para diferentes destinações pelo país, estocá-lo

novamente e distribuí-lo em troca de cupons de rações — tudo de acordo

com um plano mestre, em lugar de incentivos criados pelo mercado. Até um

país rico teria hesitado diante da enormidade da tarefa, e a China era uma

nação pobre e extremamente grande para isso. A estocagem do Estado — em

oposição a pequenos estoques distribuídos entre uma ampla variedade de

produtores privados e públicos, varejistas e consumidores — contribuiu em

grande medida para a destruição de grãos. Insetos eram comuns, ratos

abundavam. Uma detalhada investigação do Congresso Provincial do Povo de Guangdong mostrou que, no condado de Nanxiong, espantosos 2.533 de

todos os 2.832 celeiros locais tinham ratos. Insetos infestavam um terço de

todos os 123 armazéns do Estado e uma proporção ainda maior dos 728

celeiros comunais no condado de Chao.28 Em Yunnan, no primeiro semestre

de 1961, cerca de 240 mil toneladas foram contaminadas por bichos.29 No

condado de Zhucheng, Shandong, cada quilo de grão fervilhava de insetos.30

Além disso, o apodrecimento. Condições precárias de estocagem

contribuíram para isso, assim como a prática, nem sempre bem-sucedida,

detectada por inspetores de grãos, de molhar os grãos com água para

aumentar seu tamanho. Em Guangdong, cerca de um terço de 1,5 milhão de

toneladas de grãos do Estado continham água demais, de forma que um

celeiro atrás do outro sucumbiu ao apodrecimento.31 Em Hunan, um quinto

de todos os celeiros de grãos do Estado estavam infestados de insetos ou

corrompidos por alto conteúdo de água. Em Changsha, a capital provincial,

mais da metade de todo o grão estocado estava contaminada.32 As

temperaturas nos armazéns do Estado eram com frequência altas demais,

acelerando a deterioração e, em troca, beneficiando os insetos, que

aproveitavam o calor e a umidade. Em Yunnan, a temperatura em alguns

armazéns chegava a 39–43º C.33 Mesmo longe da umidade da China

subtropical, o apodrecimento era comum no inverno frio da planície do

norte. Logo fora da capital, no meio dos piores anos da fome, bem mais de 50

toneladas de batatas-doces apodreciam em uma dúzia de aldeias do condado

de Yanqing. Outras 6 toneladas se putrefaziam em instalações de

armazenagem no distrito de Haidian em Pequim.34

Perdas significativas também foram causadas por fogo, seja incêndio

criminoso ou acidental. Só em Yunnan, 70 toneladas de comida

transformavam-se em fumaça todo mês em 1961; mais de 300 toneladas

foram completamente destruídas a cada mês em 1960 e 1961, em

consequência de apodrecimento, insetos e fogo. O Departamento de

Segurança calculou que a perda de grãos para o fogo naquela província, só em

1960, teria sido suficiente para alimentar adequadamente 1,5 milhão de

pessoas durante um mês inteiro.35 Yunnan não foi a que mais perdeu. Na região de Anshan, província de Liaoning, 400 toneladas foram destruídas a

cada mês em 1960, embora nesse número somente se incluíssem perdas que

podiam ser atribuídas a roubo e corrupção — assunto do qual trataremos

adiante.36

O sistema de transporte foi desastrosamente afetado pelos programas do

Grande Salto Adiante. O sistema ferroviário foi paralisado no início de 1959,

sobrecarregado pelo volume de bens que o plano deslocava de uma

extremidade para outra do país. Caminhões ficavam rapidamente sem

gasolina. Em todo o país, o grão ia para o lixo às margens das ferrovias. Na

pequena capital provincial de Kunming, cerca de 15 toneladas eram perdidas

todo mês devido aos trens e caminhões.37 Isso não era nada em comparação

com o que acontecia no campo depois da colheita. Em Hunan, o sistema

inteiro foi paralisado no verão de 1959 em consequência da falta de centenas

de vagões de frete necessários todos os dias. Faltavam caminhões também, de

forma que apenas metade de cereais podia ser transportada do campo para as

principais estações ferroviárias. Cerca de 200 mil toneladas de grão se

acumulavam à margem da estrada, embora apenas 60 mil toneladas pudessem

ser carregadas todo mês.38

No final, não restavam nem sementes suficientes para os agricultores

plantarem a safra. Ao viajar de trem de Pequim para Xangai, na primavera de

1962, visitantes estrangeiros notaram que, no máximo, faixas de terra ao

longo dos trilhos estavam esparsamente plantadas, campo após campo sem

semear.39 Por todo o país, campos outrora muito bem cuidados apresentavam

agora aspecto desolado, com moitas de trigo raquítico ou arroz mirrado, por

falta de fertilizantes. Grandes lotes estavam abandonados porque os

agricultores não tinham nada para plantar. Em toda parte, grandes volumes

de sementes normalmente separadas para serem plantadas na estação

seguinte tinham sido comidos por agricultores desesperados. Até em

Zhejiang, relativamente protegida dos piores efeitos da fome, uma em cada

cinco aldeias carecia das sementes necessárias para semear os campos.40 Na

subtropical Guangdong, normalmente iluminada em todos os tons de verde

na primavera, 10% dos brotos apodreciam rotineiramente, a semente fraca e empobrecida, a terra lavada de todos os nutrientes. Em algumas comunas do

condado de Zhongshan, metade dos campos murchou, as plantas florescentes

ficaram amarelas e, depois, lentamente se decompuseram em um mingau

marrom.41

 

* * *

 

Como os planejadores destinavam proporção sempre maior das terras

agricultáveis para o cultivo de grãos, a produção de safras comerciais e óleos

comestíveis desabou. Mas, à diferença do grão, não havia noção alguma de

um limiar de subsistência abaixo do qual o Estado não deveria intervir, e as

requisições aumentavam rapidamente em consequência disso.

O algodão é um bom exemplo. Já observamos como produtos têxteis da

China inundaram o mercado internacional em 1958, quando o país declarou

uma ofensiva comercial e exportou bens a preços abaixo do custo econômico.

Essa estratégia foi um tiro pela culatra, mas as exportações de tecidos, apesar

de tudo, cresceram para cumprir os acordos comerciais com parceiros

estrangeiros. A China embarcou 1 milhão de metros de tecido de algodão

para a União Soviética em 1957; depois, 2 milhões de metros em 1959 e

imensos 149 milhões de metros em 1960.42 O custo de importar 10 mil

toneladas de algodão cru para alimentar as indústrias têxteis foi de US$ 8

milhões. A matemática era simples. Como exclamou o ministro das Finanças

Li Xiannian, em novembro de 1961, ao calcular o custo equivalente de

importação de 50 mil toneladas extras de algodão que tinham sido

requisitadas ao campo naquele ano, “40 milhões de dólares americanos é

realmente maravilhoso”.43

 

Tabela 7: Produção de algodão e requisições de algodão em Hunan

(toneladas)

Produção Requisição

1957 21.557 17.235 (80%) 1958 23.681 15.330 (64,7%) 1959 32.500 28.410 (87,4%) 1960 21.000 19.950 (95%) 1961 15.130 15.530 (102,6%) Fonte: Hunan, 1962, 187–1–1021, p. 33; março 1964, 187–1–1154, p. 80 e 97.

 

A atração do papel-moeda era irresistível. A requisição aumentou de 1,64

milhão de toneladas em 1957 para 2,1 milhões de toneladas no ano seguinte.

Embora apenas metade daquele volume tenha sido arrecadado em 1960,

quando a safra de algodão caiu, isso ainda significou que entre 82% e 90% da

produção total de algodão acabaram nas mãos do Estado.44 Tome-se o

exemplo de Hunan (tabela 7). Como a produção real desabou depois de um

pico em 1959, o percentual tomado pelo Estado saltou de 80% para 95% em

1960. Em 1961, funcionários de Hunan conseguiram requisitar mais que a

produção total de algodão, espalhando-se por toda a província e recolhendo

todos os fardos de algodão, inclusive as reservas da safra precedente mantidas

por equipes e comunas. Essa estratégia tinha sido adotada em Hebei em 1959

e era altamente recomendada pela liderança. Como o Conselho de Estado

explicou, em fevereiro de 1959, Hebei conseguira aumentar as requisições em

um terço, tirando à força as reservas encontradas em instalações coletivas de

armazenagem e “tomando o algodão ainda nas mãos das massas”.45

As massas eram deixadas sem muito tecido. Exatamente como o grão era

distribuído de acordo com prioridades políticas que favoreciam o mercado de

exportação acima das necessidades domésticas, uma grande proporção de

algodão era dada às indústrias têxteis e vendida no mercado internacional. O

que restava era racionado e distribuído em pequenas porções, segundo uma

hierarquia social bem estabelecida que colocava partido e exército no alto,

seguidos da população urbana, sendo cada uma dessas categorias mais

ajustada a uma intricada hierarquia que tinha algo em comum: os produtores

de algodão, principalmente pessoas do campo, eram, em geral, excluídos. Dos

3,5 milhões de peças de algodão (jian) produzidas em 1961, cerca da metade

estava reservada para os uniformes do partido e do exército, e um milhão de

peças foram separadas para o mercado de exportação, enquanto para uma

população de 600 milhões eram deixadas 800 mil peças.46 Em Guangzhou, cupons de racionamento eram requeridos para toalhas, meias, camisas,

túnicas e capas de chuva. A peça de algodão era racionada em um metro por

ano, os que viviam nos subúrbios recebendo um terço a menos que os

habitantes da cidade. Antes do Grande Salto Adiante, em contraste, qualquer

um podia comprar mais de sete metros de algodão por ano.47

Em 1960, a situação no campo se tornou tão desesperada que os

agricultores comeram as sementes de algodão. No condado de Cixi, Zhejiang,

cerca de 2 mil aldeões foram envenenados em um só mês por comer bolos

feitos com sementes, uma indicação da extensão do desespero que atingira

uma das mais protegidas províncias da China. Em Henan, os bolos de

sementes envenenaram mais de 100 mil pessoas somente na região de

Xinxiang, matando mais de 150.48 Por todo o campo, aldeões

desesperadamente famintos comiam tudo em que pudessem pôr as mãos, de

cintos de couro e palha de telhado a estofo de algodão. Ao viajar durante um

mês por algumas das regiões mais devastadas ao longo do rio Huai, em

setembro de 1961, Hu Yaobang, um chefe do partido e colega de Deng

Xiaoping que se tornaria importante décadas depois por afastar o país do

marxismo ortodoxo, relatou ter visto mulheres e crianças completamente

nuas. Muitas famílias de cinco ou seis compartilhavam um cobertor. “É difícil

imaginar se não se vê com os próprios olhos. Há vários lugares onde

deveríamos tratar com urgência essa questão para evitar que as pessoas

morram congeladas.”49 Em todo o país, os que morriam de inanição

frequentemente estavam nus, até mesmo em pleno inverno.

 

* * *

 

Embora abatidos em quantidades significativas durante o Grande Salto

Adiante em 1958, com o passar dos anos aves domésticas, porcos e gado

sucumbiam principalmente por negligência, frio e doença. Os números dão o

sentido da devastação. Na província de Hunan, onde cerca de 12,7 milhões de

porcos fuçavam a terra em 1958, meros 3,4 milhões de animais esqueléticos

restavam vivos em 1961 (tabela 8). Hebei tinha 3,8 milhões de porcos em 1961, metade daqueles de que a província se gabava cinco anos antes. Um

milhão de cabeças de gado também desapareceram.50 Shandong perdeu 50%

de seu gado durante a fome.51

 

Tabela 8: Porcos na província de Hunan (milhões)

1957 1958 1959 1960 1961 10,9 12,7 7,95 4,4 3,4

Fonte: Hunan, 1962, 187–1–1021, p. 59.

 

A negligência era generalizada, pois os incentivos para cuidar do gado foram

removidos assim que todos os animais foram entregues às comunas do povo.

Em Huaxian, nos arredores de Guangzhou, os porcos ficavam em trinta

centímetros de excremento. Em algumas aldeias, os abrigos de porcos foram

destruídos para serem transformados em fertilizantes, deixando os animais

expostos às intempéries.52 Medidas de quarentena de rotina fracassavam, pois

os serviços veterinários estavam desorganizados. Peste bovina e febre suína se

espalharam; gripe aviária era comum.53 O inverno era o principal causador de

morte. Dezenas de milhares de porcos morreram de fome no condado de

Cixi, Zhejiang, em um só mês.54 Só em dezembro de 1960, 600 mil porcos

morreram na província de Hunan.55

Ainda mais reveladores eram os índices de doenças, que subiam com

rapidez. Em Dongguan, Guangdong, o índice de mortes de porcos estava

pouco acima de 9% em 1956. Três anos depois, um quarto de todos os porcos

morreu, e, em 1960, bem mais da metade de todos os porcos pereceu. O

condado ficou com um milhão de porcos, onde poucos anos antes existiam

mais de 4,2 milhões.56 Em Zhejiang, o índice de morte em alguns condados

era de 600%, significando que, para cada nascimento, havia seis mortes; a vara

inteira logo foi eliminada.57 Em toda Henan, a situação do gado era melhor

em 1940, em plena guerra com o Japão, do que em 1961 — segundo o próprio

Chu En-lai.58

Antes de morrer, os porcos se voltavam uns contra os outros. Mais

frequentemente, o gado não era separado por peso, ou seja, todos ficavam presos em um espaço comum, onde os menores eram rechaçados, pisados,

agredidos até a morte e devorados. Em partes do condado de Jiangyin, por

exemplo, muitos porcos morriam congelados, mas um número regular era

canibalizado por porcos maiores.59 Quando grandes números de porcos são

jogados juntos em um ambiente hostil, aparentemente nenhuma hierarquia se

desenvolve, e cada animal olha os outros como inimigos. Na comuna Estrela

Vermelha em Pequim, onde a morte nos rebanhos era de 45%, os aldeões

observavam que os porcos comiam filhotes, pois eram todos confinados

juntos, indiscriminadamente.60

Uma pequena proporção de mortes era causada por inovações no

acasalamento dos animais. Assim como acontecera com o plantio denso e

lavra profunda, supunha-se que essas inovações impulsionariam o país para a

dianteira de seus rivais. Toda sorte de experimentos foi tentada para

aumentar o peso dos porcos, alguns deles inspirados nas teorias fraudulentas

de Trofim Lysenko. Um protegido de Stalin, Lysenko rejeitava a genética e

acreditava que a hereditariedade era modelada pelo meio ambiente (Lysenko,

diga-se de passagem, expressou abertamente seu desprezo pelo Grande Salto

Adiante em 1958, para grande irritação da liderança em Pequim).61

Exatamente como sementes de variedades híbridas eram desenvolvidas para

ganhar mais resistência, a procriação híbrida de gado era valorizada pelos

líderes mais antigos. Jiang Hua, secretário do partido em Zhejiang, pediu aos

líderes dos condados que tomassem medidas visando a “modelar ativamente

a natureza”: sugeriu o cruzamento de porcas com touros para produzir

filhotes mais pesados.62 Os quadros locais, ansiosos para cumprir cotas

impossíveis de entrega de carne, também inseminaram artificialmente

animais que ainda não haviam atingido a maioridade, incluindo alguns que

pesavam apenas 15 quilos (um porco adulto saudável deve pesar entre 100 e

120 quilos). Como resultado, muitos animais ficaram aleijados.63

A despeito do precipitado declínio do rebanho, as requisições do Estado

eram incessantes. Em Hebei e Shandong, foi imposta ao campo a proibição de

abate de animais por um período de três meses, no início de 1959. Como

vimos, Mao aplaudiu a proibição, indo a ponto de sugerir que se adotasse uma resolução para que ninguém comesse carne: toda ela deveria ser

exportada para honrar os compromissos externos.64 Mao não conseguiu

exatamente o que queria, ainda que as rações para a população urbana fossem

reduzidas diversas vezes. Até em Xangai, uma cidade onde, em média, cada

pessoa consumia cerca de 20 quilos de carne por ano em 1953, meros 4,5

quilos em tíquetes de ração foram alocados pelo plano em 1960, embora, em

realidade, muito menos estivesse disponível.65 Mas os membros do partido

continuaram a receber suprimento regular de carne. Assim, Guangdong teve

ordem, em 1961, para entregar 2.500 porcos à capital, todos reservados para

banquetes oficiais e convidados estrangeiros: isso foi um acréscimo às cotas

regulares das requisições do Estado.66

A indústria da pesca também foi muito prejudicada pela coletivização, pois

o equipamento foi confiscado ou malconservado. Em Wuxing, um distrito da

próspera cidade da seda, Huzhou, situada no sul do lago Tai, um em cada

cinco barcos não podia mais navegar no mar porque não havia óleo de tungue

para reparar fissuras. O número de buracos aumentou constantemente, pois

os pregos marinhos não eram mais feitos de ferro forjado.67 O volume geral

da pescaria desabou. No lago Chaohu, Anhui, uma única equipe de

pescadores capturava rotineiramente cerca de 215 toneladas de peixe em

1958. Dois anos mais tarde, não mais de 9 toneladas eram puxadas para

bordo, pois barcos e redes apodreciam sem que cuidado algum fosse tomado.

Muitos pescadores abandonaram o comércio por falta de incentivo.68

 

* * *

 

Arados, ancinhos, foices, enxadas, pás, baldes, cestos, esteiras, carretas e

ferramentas de toda espécie foram coletivizados, mas qual coletividade os

possuía realmente? Um cabo de guerra começou entre equipes, brigadas e

comunas, com recriminações mútuas e reintegrações de posse ao acaso, e o

resultado foi que, no fim, ninguém se importava mais. Alguns aldeões

simplesmente atiravam seus arados e ancinhos no campo no fim do dia. No passado, uma boa ferramenta podia durar até dez anos — alguns arados

sobrevivendo por até sessenta anos com cuidadosos reparos — agora, não

duravam mais que um ano ou dois. Esteira de secar painço, que, quando

cuidadosamente mantida, só precisaria ser consertada após dez anos, com o

advento das comunas do povo ficavam imprestáveis depois de uma estação.

Alguns ancinhos, conforme relatado por uma equipe de investigadores de

Xangai, tinham que ser consertados todos os dias.69

E essas eram as ferramentas que não tinham sido devoradas pelas

fornalhas de fundo de quintal durante a campanha frenética do ferro e do aço

em 1958. Na conferência de Lushan realizada no verão de 1961, Li Yiqing,

secretário da região centro-sul, disse aos líderes do partido que 140 mil

toneladas de ferramentas agrícolas tinham sido jogadas ao fogo na província

de Henan.70 Quando essas perdas foram somadas à destruição causada pela

negligência, o total variava em cerca de um terço à metade de todo o

equipamento. Em Shandong, um terço de todas as ferramentas estava

inutilizado após um ano do Grande Salto Adiante.71 Na região de Shaoguan,

Guangdong, 40% de todo o equipamento necessário já não existia em 1961,

significando perda de aproximadamente 34 milhões de ferramentas. Um

terço do que restou estava danificado.72 Numerosos moinhos movidos a água

em Hebei estavam partidos, enquanto as carretas também tinham sido

reduzidas em 50%.73 Na província de Zhejiang, metade de todas as bombas-

d’água, mais da metade de todas as máquinas de semeadura e mais de um

terço de todas as debulhadoras estavam tão danificados que não tinham mais

conserto.74

Além de haver poucos incentivos para reparar ferramentas que pertenciam

a todos em geral e a ninguém em particular, outras razões se colocavam no

caminho da recuperação. A escassez generalizada de recursos naturais,

especialmente madeira, significou inflação galopante — apesar dos preços

fixos da economia planificada. Em Zhejiang, por exemplo, o bambu estava

40% mais caro depois do Grande Salto Adiante, e o ferro destinado ao campo

para a produção de ferramentas era de qualidade inferior.75 Com os lares

destituídos de utensílios de cozinha e implementos agrícolas para alimentar as fornalhas de fundo de quintal, aos aldeões foram entregues de volta lingotes

inúteis de ferro quebradiço. Metade do metal alocado para aldeias em

Guangdong em 1961 era defeituosa.76 A produção de ferramentas em

empresas do Estado, como veremos, não se saiu melhor.