A Grande Fome de Mao
26. Ladrões e rebeldes
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Ladrões e rebeldes
A violência era o último recurso quando agricultores desesperados assaltavam
celeiros, atacavam trens ou saqueavam comunidades. Depois que Cangzhou,
Hebei, foi atingida por um tufão em 1961, alguns aldeões se armaram de
foices para roubar o milho dos campos. Um secretário do partido assumiu
uma brigada e organizou ataques contra aldeias vizinhas, apossando-se de
dezenas de carneiros e várias toneladas de verduras.1 Algumas incursões eram
armadas: em uma ocasião, um líder em Shaanxi forneceu os rifles com os
quais uma centena de aldeões saquearam uma comuna vizinha e levaram
embora cinco toneladas de grãos. Outro líder local chefiou um grupo armado
de 260 homens que dormiam de dia e pilhavam à noite.2 Em partes do campo,
grandes grupos se reuniam ao longo dos limites dos condados e das
províncias e faziam incursões pelas fronteiras, deixando um rastro de
destruição.3
Com frequência, o alvo da violência camponesa era o depósito de
provisões do Estado. A escala dos ataques era espantosa. Só em um condado
de Hunan, trinta dos quinhentos celeiros do Estado foram assaltados em dois
meses.4 Na mesma província, a região de Xiangtan testemunhou mais de
oitocentos casos de roubos de grãos no inverno de 1960–61. Em Huaihua,
agricultores arrombaram celeiros e se apossaram de toneladas de painço.5
Ataques aos trens também eram comuns. Agricultores podiam agrupar-se ao longo de uma ferrovia e roubar trens de carga, usando a pura pressão do
número para sobrepujar os guardas. Isso se tornou cada vez mais comum do
fim de 1960 em diante, à medida que o regime começou a perceber a extensão
da inanição em massa e fez um expurgo dos membros do partido mais
abusivos. Depois que o chefe provincial Zhang Zhongliang foi rebaixado na
província de Gansu, cerca de quinhentos casos de roubo de trem foram
informados pela polícia local só em janeiro de 1961. As perdas totais foram
estimadas grosso modo em 500 toneladas de grão e 2.300 toneladas de carvão.
E a cada assalto as massas se tornavam mais ousadas. Na estação ferroviária
de Wuwei, algumas dezenas de pessoas causaram problema no início de
janeiro; quando outros se uniram à rixa, o número subiu para centenas. No
fim do mês, 4 mil aldeões se amotinaram e pararam um trem do qual foram
arrancadas todas as partes que podiam ser removidas. Em outro lugar, perto
de Zhangye, um celeiro foi pilhado da aurora ao crepúsculo por 2 mil
agricultores enfurecidos, que mataram um dos guardas no processo. Em
outro caso, uniformes militares foram roubados de um vagão. Nos dias
seguintes à pilhagem, agricultores foram tomados por membros de forças
especiais pelos guardas de um armazém e tiveram acesso ao grão sem
oposição.6
Ao longo das linhas de trem, celeiros foram atacados, gado roubado, armas
tomadas e livros de contabilidade queimados. Forças armadas e milícia
especial foram enviadas para restabelecer a ordem.7 Alguns roubos de trem
tiveram repercussão diplomática: por exemplo, quando os assaltantes de um
trem fretado queimaram os bens de uma exposição que estava em trânsito da
República Popular Democrática da Coreia para a República Popular da
Mongólia.8 O Ministério da Segurança Pública não deu ordem de atirar
contra as multidões, mas a polícia foi instruída a se concentrar nos “líderes de
grupo”.9
Violência gera violência: às vezes, rompia-se o escudo protetor que os
observadores tomavam como passividade e submissão, e os agricultores
explodiam em fúria cega. Em encontros polêmicos em que cotas mais altas
eram introduzidas, agricultores acusavam os líderes de matá-los de fome, alguns dos mais decepcionados iam ao ponto de atacar e matar quadros locais
com cutelos.10 Outros armavam-se de paus e caçavam os quadros suspeitos de
roubar dinheiro público. No condado de Yunyang, Sichuan, o povo desatou a
ira coletiva contra seu líder, que pulou em um reservatório, junto com a
mulher, e os dois morreram.11 No montanhoso condado de Tongjiang, o líder
da equipe local, Liu Funian, foi colocado de joelhos sobre pedras e surrado
com um mastro de bandeira.12 Mas tais exemplos eram raros. As pessoas
comuns podem ter furtado, roubado, mentido e, em certas ocasiões,
incendiado e pilhado, mas raramente apelavam para a violência. Eram as
pessoas comuns que tinham de encontrar meios de “engolir a amargura” — a
expressão chinesa para suportar as dificuldades —, absorver o sofrimento,
aceitar a dor e conviver com a perda em escala devastadora.
Menos aberto, mas igualmente destrutivo, era o incêndio proposital,
embora nem sempre fosse possível distinguir entre incêndios iniciados
acidentalmente, por exemplo, por aldeões pobres que tentavam aquecer-se
durante o inverno, e aqueles desencadeados deliberadamente como forma de
protesto. O Ministério da Segurança Pública avaliou que, no mínimo, 7 mil
incêndios causaram prejuízo equivalente a 100 milhões de yuans em 1958 —
embora fosse incapaz de dizer em que proporção esses incidentes eram
propositais.13 Dúzias de incêndios propositais eram informados todos os anos
pelos órgãos de segurança pública em Hebei.14 No fim de 1959 houve três
vezes mais incêndios em Nanquim que no ano anterior. Muitos eram
provocados por negligência, mas não poucos atribuídos a incendiários. Zhao
Zhihai, por exemplo, começou um incêndio no dormitório da fábrica como
forma de protesto.15 Xu Minghong queimou quatro montes de feno e foi
morto a tiros pela milícia local.16 Em Songzi, Hubei, a casa de um secretário
do partido foi incendiada.17 Em outro lugar da província, agricultores
irritados jogaram petróleo em uma estátua de Mao e a incendiaram.18 Em
Sichuan, Li Huaiwen pôs fogo na cantina local, que antes fora seu lar, e gritou:
“Caiam fora, esta cantina me pertence!”19
Em 1961, a piromania apoderou-se do país. Em torno de Guangzhou,
centenas de incêndios tremeluziram à noite nas semanas seguintes ao Ano-Novo Chinês, muitos iniciados por agricultores que exigiam seu próprio
pedaço de terra.20 No condado de Wengyuan, os aldeões garatujaram uma
mensagem na parede perto do celeiro que tinham acabado de queimar,
proclamando que o grão que não era mais deles também podia ser
queimado.21
* * *
À medida que a inanição se instala, pessoas esfomeadas frequentemente estão
fracas demais e muito voltadas para sua própria sobrevivência para pensar em
rebelião. Mas nas catacumbas dos arquivos do partido há bastante prova de
organizações clandestinas que floresciam nos dois últimos anos de fome. Elas
nunca representaram uma ameaça genuína ao partido e eram facilmente
esmagadas, mas agiam, de fato, como um barômetro do descontentamento
popular. Muitas dessas organizações jamais se firmaram. Em Hunan, por
exemplo, 150 pessoas ao longo da fronteira armaram-se para uma rebelião no
inverno de 1960–61, mas foram imediatamente varridas pelas forças de
segurança locais. Perto da capital provincial, alguns agricultores
decepcionados criaram o Ame o Partido Popular, em favor da liberdade de
cultivo e comercialização de produtos agrícolas. Eles também nunca tiveram
chance.22
Desafios mais convincentes vieram das províncias próximas do Tibete,
onde um levante armado em março de 1959 foi sufocado com artilharia
pesada e resultou na fuga do Dalai Lama para o exílio. Em Qinghai, em 1958,
uma rebelião aberta durou meses a fio, em lugares que iam de Yegainnyin
(Henan), perto da fronteira de Gansu no leste, até Gyêgu (Yushu) e Nangqen
(Nangqian), no planalto tibetano. Alguns rebeldes eram inspirados por Lhasa,
outros estimulados pelo Islã. As forças armadas da província foram
insuficientes para lidar com os levantes, e o exército concentrou-se
inicialmente em retomar o controle das rodovias vitais.23
A região continuou a ser sacudida periodicamente por levantes locais. No
outono de 1960, aldeões do condado de Xuanwei, Yunnan, se rebelaram, um ato subversivo que rapidamente se espalhou para diversas comunas. O
movimento foi apoiado por quadros locais, inclusive secretários do partido
nos mais altos escalões do poder. Armas foram apreendidas e centenas de
aldeões descontentes fizeram uma passeata com palavras de ordem que
prometiam abolição das comunas do povo, mercado livre e devolução da
terra para os agricultores. O Exército interveio rapidamente, capturando e
eliminando todos os líderes, exceto um. Em seu relatório a Chu En-lai, o
chefe da segurança, Xie Fuzhi, mencionou doze incidentes similares nas
províncias do sudoeste naquele ano.24 A isso tiveram que ser acrescidos mais
de 3 mil “grupos contrarrevolucionários” detectados pelas forças de
segurança pública: só Yunnan abrigava uma centena de grupos que se
referiam a si mesmos como “partido” ( 25 dang ).
Sociedades secretas foram cruelmente esmagadas depois de 1949, mas uma
longa história de repressão do Estado preparou-as para sobreviver contra
todas as probabilidades. Pesquisa feita em uma província do norte indica a
extensão de sua contínua influência — embora os números possam ter sido
inflados por quadros ultrazelosos, desejosos de obter mais recursos para
combater a contrarrevolução. Na província de Hebei, quarenta grupos
tachados de “contrarrevolucionários” foram desmascarados nos primeiros
meses de 1959. Metade deles pertencia a sociedades secretas que o partido
tentara extirpar. Huanxingdao, Shengxiandao, Baguadao, Xiantiandao,
Jiugongdao — havia cerca de uma dúzia de seitas religiosas populares e
sociedades secretas ativas na província. Só no condado de Ningjin, pensava-se
que perto de 4% da população local pertenciam a uma ou outra seita e muitos
juravam fidelidade ao Yiguandao.26 Algumas sociedades estenderam sua
influência além dos limites das províncias. Apesar das restrições à
movimentação de pessoas do campo, seguidores viajavam de Hebei a
Shandong para rezar no túmulo do líder de uma seita de aldeia chamada Céu
e Terra Ensinando à Sociedade.27 Em todas as partes, pessoas se voltavam
para a religião popular, apesar das críticas do partido à “superstição”. Em
Guangdong, onde uma cerimônia para marcar o aniversário da Mãe Dragão
continuava popular, cerca de 3 mil devotos se reuniram para a ocasião em
Deqing, em 1960. Até estudantes e quadros participaram.28
Nada pôde desestabilizar o regime em seus momentos mais sombrios.
Como em outras fomes, de Bengala e Irlanda à Ucrânia, a maioria dos
aldeões, na época em que se tornou claro que a inanição chegara para ficar,
estava fraca demais para caminhar pela estrada até a próxima aldeia, que dirá
encontrar armas e organizar um levante. De qualquer modo, todas as formas
de oposição eram brutalmente reprimidas e severamente tratadas: líderes de
tumultos ou levantes enfrentavam a execução, enquanto outros recebiam
sentenças indefinidas em campos de trabalho. O que também impediu o país
de implodir, mesmo quando dezenas de milhões pereciam, foi a ausência de
qualquer alternativa viável ao partido comunista. Embora existissem religiões
secretas dispersas ou partidos clandestinos mal organizados, ninguém, exceto
o regime, podia controlar a imensa extensão de terra. E o potencial para o
golpe dentro do exército havia sido evitado pelos expurgos extensivos levados
a efeito por Lin Biao depois da Conferência de Lushan em 1959.
Mas algo ainda mais tenaz que a mera geopolítica impediu o surgimento
de uma ameaça convincente ao domínio do partido. A técnica mais comum
de autoajuda em tempos de inanição em massa é um artifício simples
chamado esperança. E a esperança ditava que, por pior que fosse a situação na
aldeia, Mao trazia no coração os melhores interesses do povo. Uma convicção
comum nos tempos imperiais era que o imperador era benevolente, mas seus
servos podiam ser corruptos. E, mais ainda na República Popular, a
população tinha que conciliar a visão de utopia trombeteada pela mídia com a
realidade diária da catástrofe. Era generalizada a crença de que quadros
abusivos fracassavam em executar as ordens do presidente beneficente. Uma
entidade distante chamada “o governo” e um semideus chamado “Mao”
estavam do lado do bem. Se ao menos ele soubesse, as coisas seriam
diferentes.