A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 4 de 43

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A Grande Fome de Mao

2. Lances iniciais

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Lances iniciais

 

Em 4 de outubro de 1957, uma esfera brilhante de aço, do tamanho de uma

bola de praia, cruzou rapidamente o céu, alcançou sua órbita e, depois,

começou a circular em volta do globo terrestre a cerca de 29 mil km/h,

emitindo sinais captados por operadores de rádio ao redor do mundo.

Apanhando os Estados Unidos completamente de surpresa, a União Soviética

conseguira lançar com sucesso o primeiro satélite terrestre do mundo,

abrindo um novo capítulo na corrida espacial, que foi recebido com espanto e

medo. Para lançar em órbita o satélite de 84 quilos, notaram observadores, era

necessário um foguete tão poderoso quanto um míssil balístico

intercontinental, o que significava que os russos também poderiam lançar

bombas atômicas para atingir os Estados Unidos. Um mês depois, um satélite

muito mais pesado rodopiou no alto, carregando a primeira criatura viva a

viajar em volta do mundo pelo espaço: vestida com roupa para ir ao espaço

feita sob medida, uma cadelinha chamada Laika entrou para a história como

passageira do Sputnik II.

Em um movimento ousado, Kruschev inaugurou a era da diplomacia do

míssil, apoiado por incessante propaganda de Moscou sobre experimentos

bem-sucedidos com mísseis balísticos intercontinentais. O lançamento do

segundo satélite tinha por objetivo coincidir com o 40º aniversário da

Revolução de Outubro, a ser celebrado na Praça Vermelha com a presença de

milhares de líderes partidários comunistas convidados em todo o mundo.

Mesmo assim, a despeito do triunfo dos lançamentos de satélite, Kruschev

estava em posição vulnerável. Menos de meio ano antes, quase não

sobrevivera a uma tentativa de golpe dos stalinistas linha-dura, Molotov,

Malenkov e Kaganovich. O marechal Jukov, herói da Segunda Guerra

Mundial que liderara o assalto final contra os alemães e capturara Berlim,

usou aviões de transporte de tropas para levar aliados decisivos para Moscou

em defesa de seu chefe. Mas Jukov comandava um exército e também poderia

lançar seus tanques contra Kruschev. Sempre temeroso de um golpe militar, o

líder soviético manobrou para depor Jukov no início de novembro. Justificar

o expurgo de Molotov, Malenkov e Kaganovich, agora chamados de “grupo

antipartido”, era uma coisa, mas como poderia explicar a remoção do general

soviético mais condecorado a seus convidados estrangeiros, já traumatizados

por seu discurso secreto e pela revolta húngara? Josip Broz Tito, o líder

ferozmente independente da Iugoslávia, que se recusou a receber ordens da

União Soviética, era outra fonte potencial de oposição que poderia frustrar o

aniversário. Em meados de outubro, Tito fez objeções ao rascunho de uma

declaração soviética a ser publicada no encontro de líderes de partido em

Moscou e declinou de assistir ao evento.

Kruschev encontrou um aliado decisivo em Mao, apesar das diferenças

entre eles em matéria de política externa e ideologia. Mao, por sua vez, tinha

uma boa razão para ajudar o rival. Ele atormentara o líder soviético com

pedidos insistentes de ajuda para adquirir armas nucleares. Desde que os

Estados Unidos começaram a dar apoio militar a Taiwan e depois que os

americanos introduziram mísseis nucleares táticos, em março de 1955, Mao

empenhou-se em obter a bomba. Agora, na véspera do encontro

internacional, Kruschev reforçava o apoio ao assinar um acordo secreto com

a China, em 15 de outubro, estabelecendo a entrega de uma bomba atômica

soviética em 1959.1

Mao estava exuberante. Sabia que seu momento havia chegado. Kruschev

dependia dele e prodigalizava atenção ao presidente e seu grupo. Dois Tu-

104s foram enviados para levar a delegação chinesa a Moscou. O líder

soviético, ladeado por alguns dos mais antigos membros do partido,

cumprimentou Mao calorosamente no aeroporto Vnukovo e o levou pessoalmente aos aposentos destinados a ele. A China foi a única delegação

entre as 64 que assistiram à conferência a ser hospedada no Grande Palácio

do Kremlin.

Mao foi colocado nos aposentos privados da imperatriz Catarina, forrados

de damasco e com o teto esculpido em volutas. Toda a ala oeste era

extravagantemente mobiliada, com altas colunas encimadas por capitéis de

bronze, paredes forradas com seda lustrosa ou nogueira, estuque dourado nas

abóbadas, tapetes espessos por toda parte. Mao parecia alheio a tudo e usou

seu próprio urinol.2

Em 7 de novembro veio o clímax público do aniversário de gala: Mao ficou

ao lado de Kruschev em cima do mausoléu de Lenin para assistir à parada de

quatro horas na Praça Vermelha, as forças soviéticas exibindo suas novas

armas. O povo agitava bandeiras chinesas e gritava: “Longa vida a Mao e à

China!”

Apesar de todos os privilégios concedidos a Mao, este se divertia

criticando seus anfitriões. Menosprezava a comida e desprezava a cultura

russa, tratava os outros delegados do partido com ares de superioridade e era

arredio em relação a Kruschev. “Veja como nos tratam diferente agora”,

gracejou com seu médico com um sorriso de desdém. “Até nesta terra

comunista eles sabem quem é poderoso e quem é fraco. Que arrogantes!”3

Mas deu o apoio crucial com que Kruschev contava. Em 14 de novembro,

diante de todos os delegados do partido, afirmou: “Somos tantos aqui, com

tantos partidos, devemos ter uma cabeça [...]. Se a União Soviética não for a

cabeça, então, quem? Deveríamos fazer isso em ordem alfabética? Albânia?

Vietnã, com o camarada Ho Chi Minh? Outro país? A China não se qualifica

para ser a cabeça, não temos experiência suficiente. Sabemos de revolução,

mas não sabemos sobre construção socialista. Demograficamente, somos um

país imenso, mas, economicamente, somos pequenos.”4

Se Mao deu seu pequeno espetáculo de promessa de submissão, também

foi a Moscou para mostrar que ele e não Kruschev era a verdadeira eminência

sênior do campo comunista. Perdeu poucas oportunidades de diminuir o

líder soviético, até dizendo-lhe na cara que ele tinha um temperamento

irritadiço que ofendia as pessoas.5 Dois dias após, em 18 de novembro,

chegou o momento que Mao esperava. Pondo de lado o protocolo da

conferência, em um discurso de improviso, dirigiu-se aos delegados sentado

em seu assento, invocando condições de saúde para não ficar de pé. Como

Kruschev recordou mais tarde em suas memórias, Mao considerava-se

notavelmente superior a todos.6 Em monólogo longo e divagante, o

presidente virou-se para Kruschev, oferecendo-lhe um conselho, como se

falasse a um aluno: “Não importa quem, todos precisam de apoio [...]. Existe

um ditado chinês que diz: embora exista beleza no lótus, ele precisa do apoio

de suas folhas verdes. Você, camarada Kruschev, mesmo que seja um lótus,

também precisa ser apoiado por folhas.” Como se isso não fosse simbólico o

bastante, Mao declarou depois que o confronto entre Kruschev e os stalinistas

linha-dura, em junho de 1957, tinha sido uma “luta entre duas linhas: uma

era errada, e a outra, relativamente correta.” Como deveria ser entendido isso:

como um débil elogio ou uma farpa velada? Certamente não causou qualquer

efeito no tradutor, que murmurou algo vago sobre “dois grupos diferentes”

em que “uma tendência liderada por Kruschev prevaleceu”. O que Mao disse

exatamente, lembrou mais tarde o embaixador iugoslavo, “ninguém, exceto

os chineses, souberam”, mas produziu um silêncio mortal.7 Embaraçando

ainda mais seu anfitrião, Mao continuou e descreveu Molotov, um dos chefes

da tentativa de golpe de junho, como “um velho camarada com uma longa

história de luta”.8

A essência do discurso de Mao foi ainda mais assustadora para seus

anfitriões russos. “Há dois ventos no mundo, um vento leste e um vento

oeste. Temos um ditado na China que diz: se o vento leste não prevalece sobre

o vento oeste, então o oeste prevalece sobre o leste. Penso que o ponto

decisivo da situação internacional agora é que o vento leste prevalece sobre o

oeste, isso quer dizer que as forças do socialismo se tornaram

esmagadoramente superiores às forças do capitalismo.”

Mao continuou com um exame da mudança no equilíbrio de poder entre

os dois campos e, depois, chocou os participantes com suas reflexões sobre

uma iminente guerra mundial.9 “Vamos imaginar quantas pessoas morreriam se a guerra estourasse. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo, e um terço

poderia ser perdido. Se for um pouco mais, poderia ser a metade [...]. Digo

que, se o pior se tornar ainda pior e uma metade morrer, haverá ainda a outra

metade, mas o imperialismo seria apagado e o mundo inteiro se tornaria

socialista. Depois de alguns anos, seriam 2,7 bilhões de pessoas novamente.”10

Os Estados Unidos não eram nada, senão um “tigre de papel”, continuou

Mao, parecendo imune à perda de vidas que contemplava. Estava blefando,

nessa ocasião e em outras como essa, mas o principal de toda a exibição de

poderio era mostrar que ele e não Kruschev era um revolucionário mais

decidido.

Mao não fez apenas cálculos populacionais para sua audiência. Fazia

algum tempo que vinha seguindo cuidadosamente a campanha de Kruschev

pela descentralização da economia e o solapamento dos burocratas presos às

escrivaninhas em Moscou a fim de transferir poder para os novos conselhos

econômicos regionais, supervisionados por seus próprios homens de

confiança locais. Kruschev cruzara o país diversas vezes, dando palestras aos

camponeses sobre como aumentar o rendimento agrícola: “Vocês devem

plantar batatas em canteiros quadrados. Vocês devem cultivar repolho como

minha avó fazia.”11

Kruschev era mordaz com economistas de antecedentes sofisticados que

estavam “aritmeticamente” corretos, mas falhavam em compreender do que o

povo soviético era capaz: “Deixem os ideólogos do mundo capitalista

continuarem a tagarelar por bastante tempo. Deixem os camaradas

economistas enrubescerem. Às vezes, o homem deve exceder suas próprias

forças, fazendo um esforço grande e súbito.”12 E aquele esforço súbito, criado

pela libertação dos camponeses da persistente influência do Estado stalinista,

criaria tal abundância que até os Estados Unidos seriam alcançados

economicamente: “Quando conhecem sua própria força, as pessoas fazem

milagres.” Em maio de 1957, Kruschev havia anunciado que, em poucos anos,

a União Soviética se equipararia aos Estados Unidos na produção de carne,

leite e manteiga.13 Agora, em Moscou, diante dos delegados de partidos

estrangeiros, Kruschev proclamou o sucesso do impulso econômico em seu discurso fundamental da celebração do Aniversário de Outubro: “Camaradas,

os cálculos de nossos planejadores mostram que, nos próximos quinze anos, a

União Soviética não apenas se igualará, como superará o atual volume de

produção de importantes produtos nos EUA.”14

Mao não perdeu tempo. Publicamente adotou o desafio e imediatamente

anunciou que a China superaria a Grã-Bretanha — ainda considerada uma

grande potência industrial — em quinze anos: “Este ano, nosso país tem 5,2

milhões de toneladas de aço e, após cinco anos, poderemos ter de 10 a 15

milhões de toneladas; depois de mais cinco anos, de 20 a 25 milhões de

toneladas; somem, então, mais cinco anos e teremos de 30 a 40 milhões de

toneladas. Talvez eu esteja me gabando aqui e talvez, quando tivermos outro

encontro internacional no futuro, vocês me critiquem por ser subjetivo, mas

falo com base em considerável prova [...]. O camarada Kruschev nos diz que a

União Soviética superará os Estados Unidos em quinze anos. Eu posso lhes

dizer que, em quinze anos, nós bem poderemos nos equiparar ou ultrapassar

a Grã-Bretanha.”15 O “Grande Salto Adiante” havia começado.