A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 30 de 43

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A Grande Fome de Mao

Parte Cinco | os Vulneráveis

PARTE CINCO

 

OS VULNERÁVEIS

28

 

Crianças

 

No verão de 1958 havia creches e jardins de infância comunitários em todas

as partes, o que permitia que as mulheres saíssem de casa para se juntar ao

Grande Salto Adiante. Os problemas apareciam logo, quando as crianças

ficavam separadas de seus pais durante todo o dia e, em alguns casos, por

semanas a fio. No campo, mulheres aposentadas e moças solteiras recebiam

cursos apressados de cuidado infantil, mas eram rapidamente sobrepujadas

pelo número de bebês que os pais requeriam entregar aos cuidados do Estado.

E, como a escassez de mão de obra se tornou aguda na corrida pela

industrialização, até as “cuidadoras” foram trabalhar nos campos e nas

fábricas, sendo as crianças largadas sem o menor cuidado. Os prédios das

creches eram com frequência decrépitos, em alguns casos sem instalação

alguma, improvisados em cabanas de barro ou galpões abandonados, e as

crianças cresciam soltas.1 Fora da capital, no condado de Daxing, apenas uma

dúzia em 475 jardins de infância que recebiam crianças tinha equipamento

rudimentar, e muitas vezes elas simplesmente dormiam no chão. Os telhados

de vários prédios tinham goteiras, a alguns faltavam completamente portas e

as janelas não tinham vidraças. Como as babás recebiam apenas treinamento

elementar, acidentes aconteciam com frequência, com crianças que

esbarravam em chaleiras ferventes e sofriam queimaduras. A negligência era

tal que, em uma instalação, muitas crianças de 3 e 4 anos eram incapazes de

andar. Nos subúrbios amontoados em torno de Pequim, um terço de todos os jardins de infância foi descrito pela Federação de Mulheres como

“negligente”.2 Até na capital, o cuidado infantil era elementar ao extremo.

Nas creches, todas as crianças choravam, relatou um informe: as crianças

separadas de suas famílias caíam no choro primeiro, rapidamente seguidas

pelas inexperientes babás que se sentiam profundamente pressionadas e,

finalmente, mães relutantes em entregar os bebês ao Estado também

começavam a chorar.3

A falta de pessoal qualificado levava ao uso do castigo físico para manter a

aparência de ordem em jardins de infância lotados. Isso era comum até nas

cidades. Um dos piores casos foi o de uma supervisora que usava um ferro em

brasa para disciplinar crianças recalcitrantes, e queimou uma criança de 3

anos no braço.4 Padrões deficientes de cuidado e instalações mal providas do

necessário se associavam para gerar doenças. Talheres eram compartilhados e

as crianças doentes não eram isoladas, o que permitia que os germes se

instalassem no jardim de infância. Até no oásis relativo de Xangai, os bebês

estavam sujeitos a passar o dia inteiro com fezes nas fraldas.5 Os índices de

infecção eram altos em Pequim. Na Fábrica de Algodão Número Dois, 90%

das crianças estavam doentes, comumente com sarampo e varíola. Sarna e

vermes também se propagavam amplamente. Os índices de mortalidade eram

altos.6 Nos subúrbios, as moscas abundavam e os jardins de infância fediam a

urina. Envenenamento por comida era ocorrência comum e matava muitas

crianças. A diarreia infectava quatro em cinco delas; algumas também sofriam

de raquitismo.7 Com o avanço da fome, o edema se espalhou à medida que os

corpos começaram a inchar com líquido. Em Nanquim, duas em cada três

crianças inspecionadas em um jardim de infância sofriam de retenção de

líquido; muitas também tinham tracoma (doença infecciosa no olho) e

hepatite.8

O abuso era numeroso. Roubava-se, normalmente, a comida dos jardins

de infância. Insensíveis pilhavam as rações destinadas a crianças indefesas.

Isso aconteceu em três quartos de todos os jardins de infância em

Guangzhou, por causa do roubo escancarado ou sutil, mediante artifícios de

contabilidade.9 Em um caso em Nanquim, toda a carne separada para as crianças foi levada para casa pelo diretor Li Darao, que também se apropriou

de toda a ração de sabão. Em outros lugares da cidade, toda a carne e o açúcar

eram equitativamente divididos entre os funcionários.10 No campo, o abuso

era mais frequente, mas menos documentado. Em novembro de 1960, uma

ou duas crianças morriam todos os dias no condado de Qichun, Hubei: os

trabalhadores responsáveis pelas instalações comiam a maior parte da

comida.11 No fim, o Estado se retirou em meio ao caos, os jardins de infância

foram simplesmente fechados e a tarefa de cuidar das crianças foi deixada

para os aldeões. Um exemplo: o número de instituições que cuidavam de

crianças em Guangdong declinou de 35 mil para 5.400 só em 1961.12

 

* * *

 

As crianças com idade suficiente para ir à escola eram postas a trabalhar. Um

programa de estudo–trabalho, lançado pelo governo central no outono de

1957, exigiu que todos os estudantes participassem do trabalho produtivo,

que, na prática, podia chegar à metade de todo o tempo gasto na escola. Isso

foi antes de o Grande Salto Adiante sequer começar.13 Quando o país estava

mobilizado na campanha do aço, no outono de 1958, as crianças não apenas

recolhiam sucata e tijolos velhos como, de fato, operavam as fornalhas, tarefa

tão cansativa que algumas delas desmaiavam após longos turnos expostas ao

calor. Centenas de escolas primárias em Wuhan abriram várias fábricas cada

uma, em uma explosão de industrialização. Nas escolas, os alunos eram

mantidos nas instalações durante todo o dia, dormindo em condições

primitivas, às vezes três em uma só cama em prédios com goteiras.

Suspendia-se o ensino durante semanas a fio, sendo o trabalho coletivo

considerado o centro do desenvolvimento individual. Pais ansiosos não

tinham alternativa a não ser esgueirar-se para dentro das escolas à noite para

averiguar o bem-estar dos filhos.14 Depois, a resistência passiva tomou corpo

e, no início de 1959, alguns estudantes só assistiam às aulas de educação

formal e optavam por omitir a experiência de trabalho; alguns abandonaram

completamente a escola.15 Em Nanquim, muitos gazeteiros simplesmente

ficavam em casa, mas um quarto deles achou trabalho nas fábricas. Vários

alunos trabalhavam para a polícia.16

Os escolares tinham que participar do trabalho produtivo, mas, com

frequência, trabalhavam sem as medidas adequadas de segurança. Os

acidentes eram comuns e centenas morreram ao longo do Grande Salto

Adiante. Enquanto cavavam um canal em Gansu, sete estudantes morreram

quando uma borda desabou. Em Shandong, oito alunos encontraram o fim,

atingidos por um muro que caiu quando trabalhavam em um forno

abandonado.17

No campo, a maioria das crianças não tinha o luxo de ir à escola.

Esperava-se que trabalhassem no campo, carregassem esterco, cuidassem do

gado ou pegassem lenha para a cantina. Grande parte disso seguia a prática

tradicional, pois, nas famílias pobres, sempre se esperou que as crianças

ajudassem. Mas, em seu despertar, a coletivização trouxe um regime muito

mais árduo, em que o trabalho era propriedade do coletivo em lugar de ser do

indivíduo ou da família. As crianças não eram mais chamadas para trabalhar

por seus pais e recebiam ordens o tempo todo de quadros locais. Muitos

tratavam as crianças como se fossem adultos. Tang Suoqun, uma garota de 13

anos de idade, foi mandada carregar um volume de 41 quilos de grama

cortada. Não muito longe, um menino de 14 anos transportava esterco que

pesava 50 quilos.18

Por todo o país, uma lógica inflexível governava as relações entre os

governantes e os governados. Como não havia comida suficiente para

distribuir, os trabalhadores mais capazes recebiam tratamento preferencial,

enquanto os considerados ociosos — crianças, doentes e idosos — eram

explorados. Os arquivos do partido fornecem longas e dolorosas listas de

exemplos. Ailong, um menino de 13 anos que cuidava dos patos em

Guangdong, foi pego cavando raízes para comer. Foi forçado a ficar sentado

com a cabeça entre os joelhos, coberto de excremento, e enfiaram-se lascas de

bambu debaixo das unhas dele. A surra que recebeu foi tão violenta que o

garoto ficou aleijado para o resto da vida.19 No condado Luoding, em Guangdong, o oficial local Qu Bendi espancou até a morte uma criança de 8

anos que roubara um punhado de arroz.20 Em Hunan, Tang Yunqing, de 12

anos, foi afogado em um lago por ter furtado comida da cantina.21 Às vezes,

os pais eram forçados a infligir a punição. Quando um menino furtou um

punhado de grãos na mesma aldeia em Hunan onde Tang Yunqing foi

afogado, o chefe local, Xiong Changming, forçou o pai do menino a enterrá-

lo vivo. O pai morreu de pesar poucos dias depois.22

Represálias também eram praticadas contra crianças como forma de

punição coletiva. Guo Huansheng, que sustentava os três filhos, teve recusada

uma licença do trabalho para levar o filho de 5 anos ao hospital. Ela era uma

mulher teimosa e foi até Guangzhou sem permissão, mas, assim mesmo, seu

filho, doente, morreu no hospital. Quando voltou para casa, após uma

ausência de dez dias, descobriu que seus dois outros filhos tinham sido

ignorados por toda a aldeia. Cobertos de excrementos, vermes rastejavam em

seus ânus e axilas. Ambos morreram logo. Então, o oficial local He Liming

começou a aparecer em sua casa, para bater com força na porta e denunciá-la

como fujona. A mulher ficou louca.23 Na aldeia de Liaojia, perto de

Changsha, um pai fugiu para a cidade, deixando para trás dois filhos. Os

quadros locais trancaram-nos em casa e eles morreram de fome poucos dias

depois.24

Crianças recalcitrantes também eram trancafiadas. Na Guangdong

subtropical, crianças podiam ser colocadas dentro de uma gaiola de porco

simplesmente por falar durante uma reunião.25 A polícia ajudava e colocava

crianças de 7 a 10 anos atrás das grades por roubar pequenas quantidades de

comida, no condado de Shuicheng, Guizhou. Uma criança de 11 anos ficou

presa por oito meses por ter roubado 1 quilo de milho.26 Instalações

correcionais maiores foram estabelecidas em nível de condado, destinadas

especificamente a crianças consideradas incorrigíveis. No condado de

Fengxian, sob a jurisdição de Xangai, cerca de duzentas crianças de 6 a 10

anos acabaram em um campo de reeducação sob o controle do Departamento

de Segurança Pública: o castigo físico incluía ser chutado, ficar de pé,

ajoelhado e a inserção de agulhas nas palmas; algumas eram algemadas.27

A pressão também vinha de dentro da família. Quando os pais estavam

ocupados demais trabalhando nos campos ou doentes e confinados a suas

camas, os filhos eram encarregados de buscar a ração alocada na cantina, que

podia ficar a muitos quilômetros de distância. As crianças — às vezes de

apenas 4 anos — tinham que enfrentar os empurrões dos adultos na cantina e

depois levar a comida de volta para a família. A tensão era imensa e muitos

dos entrevistados lembram-se hoje, vividamente, de como falharam com a

família em uma ou outra ocasião. Ding Qiao’er era uma menina pequena de 8

anos quando teve que cuidar de toda a família. Seu pai adoeceu e a mãe tinha

pedras nos rins e pés atados, segundo a tradição anciã de amarrar os pés de

meninas para que não crescessem, o que significava que ela não podia

trabalhar para a comuna e ganhar seu sustento. Todos os dias a menina tinha

que ficar na fila da cantina por até uma hora, e durante todo esse tempo era

empurrada e ameaçada por adultos famintos. A família inteira de seis pessoas

dependia de uma tigela de mingau aguado que ela recebia. Um dia, depois de

uma chuva pesada, a garota esquelética escorregou quando voltava para casa e

derramou todo o conteúdo da tigela. “Eu chorei, mas depois me lembrei de

que meus pais e toda a família ainda esperavam que eu levasse a comida para

eles. Então, parei de chorar e raspei a comida do chão. Estava cheia de areia.”

Sua família ficou com raiva e a censurou por ter estragado a ração de que

todos dependiam. “Mas, no fim, todos comeram devagar a comida, porque

estava cheia de areia. Se não comessem, ficariam tão famintos que poderiam

enlouquecer.”28

Crianças brigavam umas com as outras por comida. Embora fosse Ding

Qiao’er quem levasse para casa a ração da família, às vezes seus pais davam

mais comida aos irmãos e menos a ela e sua irmã mais jovem. Elas

protestavam, choravam e, às vezes, brigavam uma com a outra por causa das

rações. Liu Shu, que cresceu no condado de Renshou, Sichuan, também se

lembra de como seu irmão mais jovem enchia sua tigela primeiro e não

deixava quase nada para os outros. “A cada refeição, ele gritava. Toda refeição

era assim. Como gritava, apanhava frequentemente.”29 Li Erjie, mãe de três,

recorda que seus dois filhos brigavam por comida todos os dias. “Eles lutavam

ferozmente. Minha filha menor recebia a menor porção, embora sempre chorasse por mais. Ela chorava alto para conseguir o que queria. Meus outros

filhos a maldiziam e ainda se lembram disso até hoje.”30

A violência contra as crianças dentro da família podia ir muito mais longe,

uma vez que os membros da família se tornavam concorrentes diante da

pouca comida.31 É difícil aparecer informação sobre isso, mas os relatórios

policiais às vezes se aproximam da complexa dinâmica familiar em tempos de

fome. Em Nanquim, cerca de dois casos de assassinato dentro da família eram

relatados todos os meses em meio à fome. A maior parte da violência era

cometida por homens contra mulheres e crianças, embora uma em cada cinco

vítimas fosse idosa. Na maioria dos casos, a razão por trás do assassinato era

que as vítimas se tornaram um fardo. Em Liuhe, uma garota paralítica foi

jogada em um lago pelos pais. Em Jiangpsu, uma criança de 8 anos, muda e

provavelmente retardada, roubava repetidamente tanto dos pais quanto dos

vizinhos, pondo a família em risco: foi estrangulada durante a noite. Alguns

casos mostram a esfomeação deliberada de um membro mais fraco da família.

Wang Jiuchang, por exemplo, repetidamente comia a ração designada para

sua filha de 8 anos. E também lhe tomou a jaqueta e as calças de algodão no

meio do inverno. No fim, ela morreu de fome e frio. 32

No campo, seguindo tradição estabelecida contra a qual o partido

comunista pouco podia fazer, crianças eram vendidas ou dadas quando não

podiam mais ser sustentadas pelas próprias famílias. No condado de Neiqiu,

Hebei, Chen Zhenyuan estava estressado ao limite com a família de seis

pessoas e deu seu filho de 4 anos a outro aldeão. O de 7 anos foi entregue a

um tio no condado vizinho.33 Em Chengdu, Li Erjie deu um dos três filhos à

irmã. Mas outros membros da família não gostavam da criança, e a sogra era

uma mulher feroz que favorecia abertamente o próprio neto: “Não temos

comida para nós mesmos, por que temos que manter outra cadelinha?”,

queixava-se. E pegava toda a comida destinada à criança adotada. A menina,

com apenas 4 anos de idade, também era mandada todos os dias para buscar

verduras da cantina e tinha que lidar com adultos que se empurravam e se

apertavam na fila. Desmaiava de fome com frequência. Maltratada pela

família adotiva, foi encontrada meses depois coberta de piolhos e levada de

volta pela mãe.34

Poucas famílias queriam assumir um encargo extra no país faminto, o que

fazia com que algumas pessoas abandonassem as crianças. As sortudas eram

deixadas para trás em uma cidade, onde haveria mais chance de serem

acolhidas; algumas famílias faziam um grande esforço para transpor o cordão

de cercas que isolava o campo. Em Nanquim, mais de 2 mil crianças foram

abandonadas em 1959, quatro vezes mais que em uma década inteira de

domínio comunista até o Grande Salto Adiante: seis em cada dez eram

meninas e cerca de um terço com a idade de 3 anos ou mais; a maioria era

doente, algumas cegas ou com alguma deficiência. A julgar pelo sotaque

daquelas capazes de falar, muitas vinham da província de Anhui, outras de

aldeias vizinhas a Nanquim. Famílias eram entrevistadas por trabalhadores da

comunidade. A justificativa mais comum era a própria lógica da coletivização,

pois alguns aldeões deturpavam a propaganda oficial com o argumento de

que “as crianças pertencem ao Estado”. As imagens utópicas de abundância

além da aldeia, de riqueza e felicidade escondidas atrás dos muros da cidade,

também eram importantes. Uma noção comum da gente do campo era que

uma criança “podia entrar em uma cidade e ter uma vida feliz”, pois seria

criada na prosperidade.

Histórias mais trágicas espreitavam por trás de tais racionalizações: por

exemplo, o caso de um menino de 13 anos chamado Shi Liuhong. Ele foi

levado por uma trilha nas montanhas de sua cidade natal em Hujiang.

Cansado e faminto, adormeceu à beira da estrada e descobriu ao acordar que

sua mãe partira. Este era um dos meios mais comuns de “perder” uma

criança. O verbo “perder” (diu) era empregado frequentemente como

eufemismo para abandono. Como relatou uma menina de 13 anos, seu pai

morrera três anos antes e não havia comida na aldeia. Sua mãe “perdera” seu

irmão cego, de 14 anos; depois, o irmão mais novo e sua irmã tinham sido

“perdidos” nas montanhas, antes de ela também ser deixada para trás.35

Como mostra o último exemplo, algumas crianças eram abandonadas em

pares, talvez porque os pais esperassem que elas pudessem ficar juntas. Nas

ruas de Nanquim, um menino de 6 anos foi encontrado chorando por sua

mãe e segurando dois irmãos menores. Mas outras razões também contavam para o abandono dos filhos. Alguns eram deixados nas ruas porque mulheres

do campo — desesperadas por comida e abrigo — se “recasavam” com

homens da cidade que não aceitavam seus filhos.36 Algumas crianças traziam

a data de nascimento escrita em um pedaço de papel preso à roupa, outras

carregavam uma nota escrita em um bolso. Em poucos casos, mães

desesperadas levavam os filhos diretamente à delegacia de polícia.37

Não há estatísticas confiáveis sobre o número de crianças abandonadas,

mas, em uma cidade como Nanquim, vários milhares foram encontrados em

um só ano. Em Wuhan, a capital de Hunan, quatro ou cinco crianças eram

recolhidas diariamente pelas autoridades durante o verão de 1959.38 Na

província como um todo, 21 mil crianças foram colocadas em orfanatos do

Estado no verão de 1961, embora muitas mais nunca fossem registradas pelas

autoridades.39

Na maioria dos casos, as crianças ficavam com os pais até o fim. Em todo o

campo, em incontáveis cidades, crianças famintas com ventres dilatados e

membros raquíticos, cabeças pesadas oscilando em pescoços magros eram

deixadas para morrer em cabanas de aldeões, campos vazios ou à beira de

estradas poeirentas. Em algumas cidades do condado de Jinghai, Hebei,

crianças de 4 a 5 anos eram incapazes de andar. As que podiam usavam nada

mais que uma peça de roupa amassada e arrastavam os pés descalços pela

neve, no inverno.40 Até em cidades como Shijiazhuang, metade dos bebês

morria porque as mães não tinham leite.41 Em alguns casos, as crianças eram

quase as únicas a morrer. Em uma pequena cidade do condado de Qionghai,

Guangdong, 47 pessoas, ou uma em cada dez, morreram no inverno de 1958–

59: destas, 41 eram bebês e crianças, seis eram idosas.42

Apesar disso, contra todas as probabilidades, as crianças, às vezes, eram as

únicas a sobreviver. Em Sichuan, foi estimado que de 0,3% a 0,5% da

população rural era de órfãos — o que significava mais ou menos de 180 mil a

200 mil crianças sem pais. Muitas vagavam pelas aldeias em bandos

andrajosos, sujas e despenteadas, sobrevivendo por suas habilidades — o que,

na maior parte das vezes, significava roubo. Crianças sozinhas eram presas

fáceis, seus poucos pertences tomados — canecas, sapatos, cobertores, roupas — por seus guardiões ou vizinhos. Descartada por conhecidos depois que

roubaram dela tudo que tinha, Gao Yuhua, de 11 anos, dormia em uma cama

de feno e tinha apenas uma tanga para se cobrir. Sobreviveu esmagando grãos

de painço, que comia crus. Uma equipe de investigação descreveu sua

aparência como a de uma “criança primitiva”, da Idade da Pedra.43 Xiang

Qingping foi adotado por um fazendeiro pobre em Fuling, mas, depois que o

garoto de 12 anos queixou-se aos vizinhos de que o homem o maltratava e lhe

dava barro para comer, a cabeça dele foi esmurrada. Em outro lugar no

condado, um órfão teve a coluna quebrada por aldeões violentos que o

pegaram roubando dos campos.44 Quando irmãos sobreviviam, não era

incomum que se voltassem uns contra os outros. Entre os muitos casos

registrados, Jiang Laosan, de 7 anos, foi agredido e roubado pelo irmão de 16

anos; morreu poucos meses depois de ficar órfão.45

Alguns órfãos mostravam extraordinária resiliência, como Zhao Xiaobai,

uma mulher de voz suave e olhos tristes. Poucos anos antes do Grande Salto

Adiante, sua família deixou a aldeia natal em Henan para se unir a um

programa de migração que estimulava agricultores a se estabelecer na

província de Gansu. Seu pai foi obrigado a quebrar gelo nas montanhas, mas

morreu de fome em 1959. A mãe estava doente demais para trabalhar. Um

dos quadros locais foi até a casa dela e bateu com força na porta para anunciar

que os preguiçosos não receberiam comida. Outro valentão local veio à noite

e importunou sua mãe para obter favores sexuais. No fim, exausta, a mãe

parece ter desistido. No meio de uma noite gelada, em janeiro de 1960,

levantou-se e foi ao banheiro. Sua filha, Zhao Xiaobai, de 11 anos, levantou-se

e perguntou à mãe aonde ela ia. Então, adormeceu novamente, mas, duas

horas depois, a mãe ainda estava no banheiro. “Eu a chamei e ela não

respondeu. Apenas ficou sentada lá, com a cabeça virada para o lado, e não

disse nada.”

Cercada de estranhos que falavam um dialeto diferente, Zhao e a irmã de 6

anos terminaram vivendo com um tio, que também migrara para Gansu. “Ele

era razoável comigo, porque eu tinha idade suficiente para sair para trabalhar.

Mas não era bom para minha irmã. Você sabe, em Gansu era muito frio,-20ºC. Ele pediu à minha irmã que saísse e catasse gravetos para acender o

fogo naquele tempo gelado. Como era possível ela encontrar alguma madeira?

Um dia, fazia frio demais e ela voltou de mãos vazias. Então, ele bateu na

cabeça dela e ela sangrou muito.” Para proteger a irmã dos maus-tratos do tio,

Zhao levava a menina de 6 anos com ela quando ia trabalhar como um adulto,

cavando canais e arando campos. Mas ali também ela não estava segura.

“Uma vez, enquanto trabalhava, ouvi minha irmã chorar e vi alguém que a

estava machucando. Alguém atirava bolas de areia em minha irmã e ela estava

cercada de punhados de areia. Seus olhos estavam cobertos de areia, e ela só

chorava e chorava.” Zhao encontrou um casal que planejava voltar para

Henan. Vendeu tudo o que as duas tinham e comprou duas passagens por 10

yuans. De volta a Henan, finalmente, encontraram a avó, que tomou conta

das duas meninas. Quando perguntada como se tornou a mulher que é agora,

Zhao Xiaobai respondeu sem hesitação: “Pelo sofrimento.”46

Algumas crianças nunca encontraram alguém com vontade de tomar

conta delas e eram colocadas em orfanato, onde as condições — muito

previsivelmente — eram aterradoras. O castigo físico era comum. Uma dúzia

de crianças morreram nas mãos de seus guardiões em uma comuna do

condado de Dianjiang, Sichuan.47 Em Hubei, os órfãos eram abrigados em

prédios decrépitos, com telhados com goteiras, e largados para sobreviver no

inverno sem roupas de algodão acolchoadas ou cobertores. O cuidado médico

inexistia. Muitos milhares morreram de doença.48

 

* * *

 

Embora os bebês morressem em números desproporcionais, menos

nascimentos foram registrados durante a fome. Especialistas em demografia

se baseiam nos números dos censos de 1953, 1964 e 1982 para tentar

reconstituir o declínio dos nascimentos durante a fome, mas números muito

mais confiáveis estão disponíveis nos arquivos, pois em uma economia

planificada as autoridades tinham que se manter informadas sobre a

população. Na região de Qujing, Yunnan, onde a fome apareceu em 1958, os nascimentos caíram de 106 mil em 1957 para 59 mil no ano seguinte. Em

Yunnan como um todo, o número de nascimentos desabou de 678 mil em

1957 para 450 mil em 1958.49

Outra forma de analisar o fato é encontrar estatísticas de idade compiladas

depois da fome. Em Hunan, província que não estava entre as mais atingidas,

uma defasagem muito clara aparece entre crianças de 3 anos de idade em

1964 que nasceram em 1961: havia cerca de 600 mil crianças a menos que

entre as de 6 anos de idade, embora estas também devam ter sofrido. Por

outro lado, existiam quatro vezes mais crianças de um ano de idade e quatro

vezes mais crianças com menos de um ano.50 Mas nenhuma dessas

estatísticas apresenta os incontáveis casos de bebês que morriam semanas

depois de nascer: quem teria qualquer incentivo para contar as mortes de

recém-nascidos cujos nascimentos não tinham sido sequer registrados no

meio da fome?