A Grande Fome de Mao
Parte Cinco | os Vulneráveis
PARTE CINCO
OS VULNERÁVEIS
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Crianças
No verão de 1958 havia creches e jardins de infância comunitários em todas
as partes, o que permitia que as mulheres saíssem de casa para se juntar ao
Grande Salto Adiante. Os problemas apareciam logo, quando as crianças
ficavam separadas de seus pais durante todo o dia e, em alguns casos, por
semanas a fio. No campo, mulheres aposentadas e moças solteiras recebiam
cursos apressados de cuidado infantil, mas eram rapidamente sobrepujadas
pelo número de bebês que os pais requeriam entregar aos cuidados do Estado.
E, como a escassez de mão de obra se tornou aguda na corrida pela
industrialização, até as “cuidadoras” foram trabalhar nos campos e nas
fábricas, sendo as crianças largadas sem o menor cuidado. Os prédios das
creches eram com frequência decrépitos, em alguns casos sem instalação
alguma, improvisados em cabanas de barro ou galpões abandonados, e as
crianças cresciam soltas.1 Fora da capital, no condado de Daxing, apenas uma
dúzia em 475 jardins de infância que recebiam crianças tinha equipamento
rudimentar, e muitas vezes elas simplesmente dormiam no chão. Os telhados
de vários prédios tinham goteiras, a alguns faltavam completamente portas e
as janelas não tinham vidraças. Como as babás recebiam apenas treinamento
elementar, acidentes aconteciam com frequência, com crianças que
esbarravam em chaleiras ferventes e sofriam queimaduras. A negligência era
tal que, em uma instalação, muitas crianças de 3 e 4 anos eram incapazes de
andar. Nos subúrbios amontoados em torno de Pequim, um terço de todos os jardins de infância foi descrito pela Federação de Mulheres como
“negligente”.2 Até na capital, o cuidado infantil era elementar ao extremo.
Nas creches, todas as crianças choravam, relatou um informe: as crianças
separadas de suas famílias caíam no choro primeiro, rapidamente seguidas
pelas inexperientes babás que se sentiam profundamente pressionadas e,
finalmente, mães relutantes em entregar os bebês ao Estado também
começavam a chorar.3
A falta de pessoal qualificado levava ao uso do castigo físico para manter a
aparência de ordem em jardins de infância lotados. Isso era comum até nas
cidades. Um dos piores casos foi o de uma supervisora que usava um ferro em
brasa para disciplinar crianças recalcitrantes, e queimou uma criança de 3
anos no braço.4 Padrões deficientes de cuidado e instalações mal providas do
necessário se associavam para gerar doenças. Talheres eram compartilhados e
as crianças doentes não eram isoladas, o que permitia que os germes se
instalassem no jardim de infância. Até no oásis relativo de Xangai, os bebês
estavam sujeitos a passar o dia inteiro com fezes nas fraldas.5 Os índices de
infecção eram altos em Pequim. Na Fábrica de Algodão Número Dois, 90%
das crianças estavam doentes, comumente com sarampo e varíola. Sarna e
vermes também se propagavam amplamente. Os índices de mortalidade eram
altos.6 Nos subúrbios, as moscas abundavam e os jardins de infância fediam a
urina. Envenenamento por comida era ocorrência comum e matava muitas
crianças. A diarreia infectava quatro em cinco delas; algumas também sofriam
de raquitismo.7 Com o avanço da fome, o edema se espalhou à medida que os
corpos começaram a inchar com líquido. Em Nanquim, duas em cada três
crianças inspecionadas em um jardim de infância sofriam de retenção de
líquido; muitas também tinham tracoma (doença infecciosa no olho) e
hepatite.8
O abuso era numeroso. Roubava-se, normalmente, a comida dos jardins
de infância. Insensíveis pilhavam as rações destinadas a crianças indefesas.
Isso aconteceu em três quartos de todos os jardins de infância em
Guangzhou, por causa do roubo escancarado ou sutil, mediante artifícios de
contabilidade.9 Em um caso em Nanquim, toda a carne separada para as crianças foi levada para casa pelo diretor Li Darao, que também se apropriou
de toda a ração de sabão. Em outros lugares da cidade, toda a carne e o açúcar
eram equitativamente divididos entre os funcionários.10 No campo, o abuso
era mais frequente, mas menos documentado. Em novembro de 1960, uma
ou duas crianças morriam todos os dias no condado de Qichun, Hubei: os
trabalhadores responsáveis pelas instalações comiam a maior parte da
comida.11 No fim, o Estado se retirou em meio ao caos, os jardins de infância
foram simplesmente fechados e a tarefa de cuidar das crianças foi deixada
para os aldeões. Um exemplo: o número de instituições que cuidavam de
crianças em Guangdong declinou de 35 mil para 5.400 só em 1961.12
* * *
As crianças com idade suficiente para ir à escola eram postas a trabalhar. Um
programa de estudo–trabalho, lançado pelo governo central no outono de
1957, exigiu que todos os estudantes participassem do trabalho produtivo,
que, na prática, podia chegar à metade de todo o tempo gasto na escola. Isso
foi antes de o Grande Salto Adiante sequer começar.13 Quando o país estava
mobilizado na campanha do aço, no outono de 1958, as crianças não apenas
recolhiam sucata e tijolos velhos como, de fato, operavam as fornalhas, tarefa
tão cansativa que algumas delas desmaiavam após longos turnos expostas ao
calor. Centenas de escolas primárias em Wuhan abriram várias fábricas cada
uma, em uma explosão de industrialização. Nas escolas, os alunos eram
mantidos nas instalações durante todo o dia, dormindo em condições
primitivas, às vezes três em uma só cama em prédios com goteiras.
Suspendia-se o ensino durante semanas a fio, sendo o trabalho coletivo
considerado o centro do desenvolvimento individual. Pais ansiosos não
tinham alternativa a não ser esgueirar-se para dentro das escolas à noite para
averiguar o bem-estar dos filhos.14 Depois, a resistência passiva tomou corpo
e, no início de 1959, alguns estudantes só assistiam às aulas de educação
formal e optavam por omitir a experiência de trabalho; alguns abandonaram
completamente a escola.15 Em Nanquim, muitos gazeteiros simplesmente
ficavam em casa, mas um quarto deles achou trabalho nas fábricas. Vários
alunos trabalhavam para a polícia.16
Os escolares tinham que participar do trabalho produtivo, mas, com
frequência, trabalhavam sem as medidas adequadas de segurança. Os
acidentes eram comuns e centenas morreram ao longo do Grande Salto
Adiante. Enquanto cavavam um canal em Gansu, sete estudantes morreram
quando uma borda desabou. Em Shandong, oito alunos encontraram o fim,
atingidos por um muro que caiu quando trabalhavam em um forno
abandonado.17
No campo, a maioria das crianças não tinha o luxo de ir à escola.
Esperava-se que trabalhassem no campo, carregassem esterco, cuidassem do
gado ou pegassem lenha para a cantina. Grande parte disso seguia a prática
tradicional, pois, nas famílias pobres, sempre se esperou que as crianças
ajudassem. Mas, em seu despertar, a coletivização trouxe um regime muito
mais árduo, em que o trabalho era propriedade do coletivo em lugar de ser do
indivíduo ou da família. As crianças não eram mais chamadas para trabalhar
por seus pais e recebiam ordens o tempo todo de quadros locais. Muitos
tratavam as crianças como se fossem adultos. Tang Suoqun, uma garota de 13
anos de idade, foi mandada carregar um volume de 41 quilos de grama
cortada. Não muito longe, um menino de 14 anos transportava esterco que
pesava 50 quilos.18
Por todo o país, uma lógica inflexível governava as relações entre os
governantes e os governados. Como não havia comida suficiente para
distribuir, os trabalhadores mais capazes recebiam tratamento preferencial,
enquanto os considerados ociosos — crianças, doentes e idosos — eram
explorados. Os arquivos do partido fornecem longas e dolorosas listas de
exemplos. Ailong, um menino de 13 anos que cuidava dos patos em
Guangdong, foi pego cavando raízes para comer. Foi forçado a ficar sentado
com a cabeça entre os joelhos, coberto de excremento, e enfiaram-se lascas de
bambu debaixo das unhas dele. A surra que recebeu foi tão violenta que o
garoto ficou aleijado para o resto da vida.19 No condado Luoding, em Guangdong, o oficial local Qu Bendi espancou até a morte uma criança de 8
anos que roubara um punhado de arroz.20 Em Hunan, Tang Yunqing, de 12
anos, foi afogado em um lago por ter furtado comida da cantina.21 Às vezes,
os pais eram forçados a infligir a punição. Quando um menino furtou um
punhado de grãos na mesma aldeia em Hunan onde Tang Yunqing foi
afogado, o chefe local, Xiong Changming, forçou o pai do menino a enterrá-
lo vivo. O pai morreu de pesar poucos dias depois.22
Represálias também eram praticadas contra crianças como forma de
punição coletiva. Guo Huansheng, que sustentava os três filhos, teve recusada
uma licença do trabalho para levar o filho de 5 anos ao hospital. Ela era uma
mulher teimosa e foi até Guangzhou sem permissão, mas, assim mesmo, seu
filho, doente, morreu no hospital. Quando voltou para casa, após uma
ausência de dez dias, descobriu que seus dois outros filhos tinham sido
ignorados por toda a aldeia. Cobertos de excrementos, vermes rastejavam em
seus ânus e axilas. Ambos morreram logo. Então, o oficial local He Liming
começou a aparecer em sua casa, para bater com força na porta e denunciá-la
como fujona. A mulher ficou louca.23 Na aldeia de Liaojia, perto de
Changsha, um pai fugiu para a cidade, deixando para trás dois filhos. Os
quadros locais trancaram-nos em casa e eles morreram de fome poucos dias
depois.24
Crianças recalcitrantes também eram trancafiadas. Na Guangdong
subtropical, crianças podiam ser colocadas dentro de uma gaiola de porco
simplesmente por falar durante uma reunião.25 A polícia ajudava e colocava
crianças de 7 a 10 anos atrás das grades por roubar pequenas quantidades de
comida, no condado de Shuicheng, Guizhou. Uma criança de 11 anos ficou
presa por oito meses por ter roubado 1 quilo de milho.26 Instalações
correcionais maiores foram estabelecidas em nível de condado, destinadas
especificamente a crianças consideradas incorrigíveis. No condado de
Fengxian, sob a jurisdição de Xangai, cerca de duzentas crianças de 6 a 10
anos acabaram em um campo de reeducação sob o controle do Departamento
de Segurança Pública: o castigo físico incluía ser chutado, ficar de pé,
ajoelhado e a inserção de agulhas nas palmas; algumas eram algemadas.27
A pressão também vinha de dentro da família. Quando os pais estavam
ocupados demais trabalhando nos campos ou doentes e confinados a suas
camas, os filhos eram encarregados de buscar a ração alocada na cantina, que
podia ficar a muitos quilômetros de distância. As crianças — às vezes de
apenas 4 anos — tinham que enfrentar os empurrões dos adultos na cantina e
depois levar a comida de volta para a família. A tensão era imensa e muitos
dos entrevistados lembram-se hoje, vividamente, de como falharam com a
família em uma ou outra ocasião. Ding Qiao’er era uma menina pequena de 8
anos quando teve que cuidar de toda a família. Seu pai adoeceu e a mãe tinha
pedras nos rins e pés atados, segundo a tradição anciã de amarrar os pés de
meninas para que não crescessem, o que significava que ela não podia
trabalhar para a comuna e ganhar seu sustento. Todos os dias a menina tinha
que ficar na fila da cantina por até uma hora, e durante todo esse tempo era
empurrada e ameaçada por adultos famintos. A família inteira de seis pessoas
dependia de uma tigela de mingau aguado que ela recebia. Um dia, depois de
uma chuva pesada, a garota esquelética escorregou quando voltava para casa e
derramou todo o conteúdo da tigela. “Eu chorei, mas depois me lembrei de
que meus pais e toda a família ainda esperavam que eu levasse a comida para
eles. Então, parei de chorar e raspei a comida do chão. Estava cheia de areia.”
Sua família ficou com raiva e a censurou por ter estragado a ração de que
todos dependiam. “Mas, no fim, todos comeram devagar a comida, porque
estava cheia de areia. Se não comessem, ficariam tão famintos que poderiam
enlouquecer.”28
Crianças brigavam umas com as outras por comida. Embora fosse Ding
Qiao’er quem levasse para casa a ração da família, às vezes seus pais davam
mais comida aos irmãos e menos a ela e sua irmã mais jovem. Elas
protestavam, choravam e, às vezes, brigavam uma com a outra por causa das
rações. Liu Shu, que cresceu no condado de Renshou, Sichuan, também se
lembra de como seu irmão mais jovem enchia sua tigela primeiro e não
deixava quase nada para os outros. “A cada refeição, ele gritava. Toda refeição
era assim. Como gritava, apanhava frequentemente.”29 Li Erjie, mãe de três,
recorda que seus dois filhos brigavam por comida todos os dias. “Eles lutavam
ferozmente. Minha filha menor recebia a menor porção, embora sempre chorasse por mais. Ela chorava alto para conseguir o que queria. Meus outros
filhos a maldiziam e ainda se lembram disso até hoje.”30
A violência contra as crianças dentro da família podia ir muito mais longe,
uma vez que os membros da família se tornavam concorrentes diante da
pouca comida.31 É difícil aparecer informação sobre isso, mas os relatórios
policiais às vezes se aproximam da complexa dinâmica familiar em tempos de
fome. Em Nanquim, cerca de dois casos de assassinato dentro da família eram
relatados todos os meses em meio à fome. A maior parte da violência era
cometida por homens contra mulheres e crianças, embora uma em cada cinco
vítimas fosse idosa. Na maioria dos casos, a razão por trás do assassinato era
que as vítimas se tornaram um fardo. Em Liuhe, uma garota paralítica foi
jogada em um lago pelos pais. Em Jiangpsu, uma criança de 8 anos, muda e
provavelmente retardada, roubava repetidamente tanto dos pais quanto dos
vizinhos, pondo a família em risco: foi estrangulada durante a noite. Alguns
casos mostram a esfomeação deliberada de um membro mais fraco da família.
Wang Jiuchang, por exemplo, repetidamente comia a ração designada para
sua filha de 8 anos. E também lhe tomou a jaqueta e as calças de algodão no
meio do inverno. No fim, ela morreu de fome e frio. 32
No campo, seguindo tradição estabelecida contra a qual o partido
comunista pouco podia fazer, crianças eram vendidas ou dadas quando não
podiam mais ser sustentadas pelas próprias famílias. No condado de Neiqiu,
Hebei, Chen Zhenyuan estava estressado ao limite com a família de seis
pessoas e deu seu filho de 4 anos a outro aldeão. O de 7 anos foi entregue a
um tio no condado vizinho.33 Em Chengdu, Li Erjie deu um dos três filhos à
irmã. Mas outros membros da família não gostavam da criança, e a sogra era
uma mulher feroz que favorecia abertamente o próprio neto: “Não temos
comida para nós mesmos, por que temos que manter outra cadelinha?”,
queixava-se. E pegava toda a comida destinada à criança adotada. A menina,
com apenas 4 anos de idade, também era mandada todos os dias para buscar
verduras da cantina e tinha que lidar com adultos que se empurravam e se
apertavam na fila. Desmaiava de fome com frequência. Maltratada pela
família adotiva, foi encontrada meses depois coberta de piolhos e levada de
volta pela mãe.34
Poucas famílias queriam assumir um encargo extra no país faminto, o que
fazia com que algumas pessoas abandonassem as crianças. As sortudas eram
deixadas para trás em uma cidade, onde haveria mais chance de serem
acolhidas; algumas famílias faziam um grande esforço para transpor o cordão
de cercas que isolava o campo. Em Nanquim, mais de 2 mil crianças foram
abandonadas em 1959, quatro vezes mais que em uma década inteira de
domínio comunista até o Grande Salto Adiante: seis em cada dez eram
meninas e cerca de um terço com a idade de 3 anos ou mais; a maioria era
doente, algumas cegas ou com alguma deficiência. A julgar pelo sotaque
daquelas capazes de falar, muitas vinham da província de Anhui, outras de
aldeias vizinhas a Nanquim. Famílias eram entrevistadas por trabalhadores da
comunidade. A justificativa mais comum era a própria lógica da coletivização,
pois alguns aldeões deturpavam a propaganda oficial com o argumento de
que “as crianças pertencem ao Estado”. As imagens utópicas de abundância
além da aldeia, de riqueza e felicidade escondidas atrás dos muros da cidade,
também eram importantes. Uma noção comum da gente do campo era que
uma criança “podia entrar em uma cidade e ter uma vida feliz”, pois seria
criada na prosperidade.
Histórias mais trágicas espreitavam por trás de tais racionalizações: por
exemplo, o caso de um menino de 13 anos chamado Shi Liuhong. Ele foi
levado por uma trilha nas montanhas de sua cidade natal em Hujiang.
Cansado e faminto, adormeceu à beira da estrada e descobriu ao acordar que
sua mãe partira. Este era um dos meios mais comuns de “perder” uma
criança. O verbo “perder” (diu) era empregado frequentemente como
eufemismo para abandono. Como relatou uma menina de 13 anos, seu pai
morrera três anos antes e não havia comida na aldeia. Sua mãe “perdera” seu
irmão cego, de 14 anos; depois, o irmão mais novo e sua irmã tinham sido
“perdidos” nas montanhas, antes de ela também ser deixada para trás.35
Como mostra o último exemplo, algumas crianças eram abandonadas em
pares, talvez porque os pais esperassem que elas pudessem ficar juntas. Nas
ruas de Nanquim, um menino de 6 anos foi encontrado chorando por sua
mãe e segurando dois irmãos menores. Mas outras razões também contavam para o abandono dos filhos. Alguns eram deixados nas ruas porque mulheres
do campo — desesperadas por comida e abrigo — se “recasavam” com
homens da cidade que não aceitavam seus filhos.36 Algumas crianças traziam
a data de nascimento escrita em um pedaço de papel preso à roupa, outras
carregavam uma nota escrita em um bolso. Em poucos casos, mães
desesperadas levavam os filhos diretamente à delegacia de polícia.37
Não há estatísticas confiáveis sobre o número de crianças abandonadas,
mas, em uma cidade como Nanquim, vários milhares foram encontrados em
um só ano. Em Wuhan, a capital de Hunan, quatro ou cinco crianças eram
recolhidas diariamente pelas autoridades durante o verão de 1959.38 Na
província como um todo, 21 mil crianças foram colocadas em orfanatos do
Estado no verão de 1961, embora muitas mais nunca fossem registradas pelas
autoridades.39
Na maioria dos casos, as crianças ficavam com os pais até o fim. Em todo o
campo, em incontáveis cidades, crianças famintas com ventres dilatados e
membros raquíticos, cabeças pesadas oscilando em pescoços magros eram
deixadas para morrer em cabanas de aldeões, campos vazios ou à beira de
estradas poeirentas. Em algumas cidades do condado de Jinghai, Hebei,
crianças de 4 a 5 anos eram incapazes de andar. As que podiam usavam nada
mais que uma peça de roupa amassada e arrastavam os pés descalços pela
neve, no inverno.40 Até em cidades como Shijiazhuang, metade dos bebês
morria porque as mães não tinham leite.41 Em alguns casos, as crianças eram
quase as únicas a morrer. Em uma pequena cidade do condado de Qionghai,
Guangdong, 47 pessoas, ou uma em cada dez, morreram no inverno de 1958–
59: destas, 41 eram bebês e crianças, seis eram idosas.42
Apesar disso, contra todas as probabilidades, as crianças, às vezes, eram as
únicas a sobreviver. Em Sichuan, foi estimado que de 0,3% a 0,5% da
população rural era de órfãos — o que significava mais ou menos de 180 mil a
200 mil crianças sem pais. Muitas vagavam pelas aldeias em bandos
andrajosos, sujas e despenteadas, sobrevivendo por suas habilidades — o que,
na maior parte das vezes, significava roubo. Crianças sozinhas eram presas
fáceis, seus poucos pertences tomados — canecas, sapatos, cobertores, roupas — por seus guardiões ou vizinhos. Descartada por conhecidos depois que
roubaram dela tudo que tinha, Gao Yuhua, de 11 anos, dormia em uma cama
de feno e tinha apenas uma tanga para se cobrir. Sobreviveu esmagando grãos
de painço, que comia crus. Uma equipe de investigação descreveu sua
aparência como a de uma “criança primitiva”, da Idade da Pedra.43 Xiang
Qingping foi adotado por um fazendeiro pobre em Fuling, mas, depois que o
garoto de 12 anos queixou-se aos vizinhos de que o homem o maltratava e lhe
dava barro para comer, a cabeça dele foi esmurrada. Em outro lugar no
condado, um órfão teve a coluna quebrada por aldeões violentos que o
pegaram roubando dos campos.44 Quando irmãos sobreviviam, não era
incomum que se voltassem uns contra os outros. Entre os muitos casos
registrados, Jiang Laosan, de 7 anos, foi agredido e roubado pelo irmão de 16
anos; morreu poucos meses depois de ficar órfão.45
Alguns órfãos mostravam extraordinária resiliência, como Zhao Xiaobai,
uma mulher de voz suave e olhos tristes. Poucos anos antes do Grande Salto
Adiante, sua família deixou a aldeia natal em Henan para se unir a um
programa de migração que estimulava agricultores a se estabelecer na
província de Gansu. Seu pai foi obrigado a quebrar gelo nas montanhas, mas
morreu de fome em 1959. A mãe estava doente demais para trabalhar. Um
dos quadros locais foi até a casa dela e bateu com força na porta para anunciar
que os preguiçosos não receberiam comida. Outro valentão local veio à noite
e importunou sua mãe para obter favores sexuais. No fim, exausta, a mãe
parece ter desistido. No meio de uma noite gelada, em janeiro de 1960,
levantou-se e foi ao banheiro. Sua filha, Zhao Xiaobai, de 11 anos, levantou-se
e perguntou à mãe aonde ela ia. Então, adormeceu novamente, mas, duas
horas depois, a mãe ainda estava no banheiro. “Eu a chamei e ela não
respondeu. Apenas ficou sentada lá, com a cabeça virada para o lado, e não
disse nada.”
Cercada de estranhos que falavam um dialeto diferente, Zhao e a irmã de 6
anos terminaram vivendo com um tio, que também migrara para Gansu. “Ele
era razoável comigo, porque eu tinha idade suficiente para sair para trabalhar.
Mas não era bom para minha irmã. Você sabe, em Gansu era muito frio,-20ºC. Ele pediu à minha irmã que saísse e catasse gravetos para acender o
fogo naquele tempo gelado. Como era possível ela encontrar alguma madeira?
Um dia, fazia frio demais e ela voltou de mãos vazias. Então, ele bateu na
cabeça dela e ela sangrou muito.” Para proteger a irmã dos maus-tratos do tio,
Zhao levava a menina de 6 anos com ela quando ia trabalhar como um adulto,
cavando canais e arando campos. Mas ali também ela não estava segura.
“Uma vez, enquanto trabalhava, ouvi minha irmã chorar e vi alguém que a
estava machucando. Alguém atirava bolas de areia em minha irmã e ela estava
cercada de punhados de areia. Seus olhos estavam cobertos de areia, e ela só
chorava e chorava.” Zhao encontrou um casal que planejava voltar para
Henan. Vendeu tudo o que as duas tinham e comprou duas passagens por 10
yuans. De volta a Henan, finalmente, encontraram a avó, que tomou conta
das duas meninas. Quando perguntada como se tornou a mulher que é agora,
Zhao Xiaobai respondeu sem hesitação: “Pelo sofrimento.”46
Algumas crianças nunca encontraram alguém com vontade de tomar
conta delas e eram colocadas em orfanato, onde as condições — muito
previsivelmente — eram aterradoras. O castigo físico era comum. Uma dúzia
de crianças morreram nas mãos de seus guardiões em uma comuna do
condado de Dianjiang, Sichuan.47 Em Hubei, os órfãos eram abrigados em
prédios decrépitos, com telhados com goteiras, e largados para sobreviver no
inverno sem roupas de algodão acolchoadas ou cobertores. O cuidado médico
inexistia. Muitos milhares morreram de doença.48
* * *
Embora os bebês morressem em números desproporcionais, menos
nascimentos foram registrados durante a fome. Especialistas em demografia
se baseiam nos números dos censos de 1953, 1964 e 1982 para tentar
reconstituir o declínio dos nascimentos durante a fome, mas números muito
mais confiáveis estão disponíveis nos arquivos, pois em uma economia
planificada as autoridades tinham que se manter informadas sobre a
população. Na região de Qujing, Yunnan, onde a fome apareceu em 1958, os nascimentos caíram de 106 mil em 1957 para 59 mil no ano seguinte. Em
Yunnan como um todo, o número de nascimentos desabou de 678 mil em
1957 para 450 mil em 1958.49
Outra forma de analisar o fato é encontrar estatísticas de idade compiladas
depois da fome. Em Hunan, província que não estava entre as mais atingidas,
uma defasagem muito clara aparece entre crianças de 3 anos de idade em
1964 que nasceram em 1961: havia cerca de 600 mil crianças a menos que
entre as de 6 anos de idade, embora estas também devam ter sofrido. Por
outro lado, existiam quatro vezes mais crianças de um ano de idade e quatro
vezes mais crianças com menos de um ano.50 Mas nenhuma dessas
estatísticas apresenta os incontáveis casos de bebês que morriam semanas
depois de nascer: quem teria qualquer incentivo para contar as mortes de
recém-nascidos cujos nascimentos não tinham sido sequer registrados no
meio da fome?