A Grande Fome de Mao
6. Que comece o bombardeio
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Que comece o bombardeio
Os restos mortais de Laika, a cadela de rua catapultada em órbita dias antes
da celebração do aniversário da Revolução de Outubro, foram desintegrados
quando o Sputnik II reentrou na atmosfera em abril de 1958. Enquanto o
caixão espacial orbitava a Terra, o mundo embaixo mudou. Irritado com a
disparidade em mísseis que os russos haviam exposto, o presidente
Eisenhower mandou mísseis balísticos para a Grã-Bretanha, a Itália e a
Turquia. Kruschev respondeu com submarinos que carregavam mísseis
nucleares. Mas, para que a ameaça fosse digna de crédito, era necessária uma
base submarina no Oceano Pacífico, o que, por sua vez, requeria uma estação
transmissora de rádio. Moscou abordou Pequim com a proposta de construir
estações de rádio de ondas longas na costa chinesa, sugerindo que serviriam a
uma frota conjunta de submarinos.
Em 22 de julho, o embaixador soviético Pavel Yudin sondou o presidente
com a proposta. Mao teve um ataque de raiva. Durante tempestuoso
encontro, atacou o infeliz embaixador, afirmando: “Vocês simplesmente não
confiam nos chineses, só confiam nos russos. Os russos são seres superiores e
os chineses são inferiores, pessoas descuidadas, eis por que você veio com essa
proposta. Vocês querem propriedade conjunta, vocês querem tudo como
propriedade conjunta, nosso Exército, Marinha, Aeronáutica, indústria,
agricultura, cultura, educação: que tal? Por que não entregamos nossos
milhares de quilômetros de costa a vocês? Manteremos apenas uma força guerrilheira. Vocês têm algumas bombas atômicas e agora querem controlar
tudo, vocês querem alugar e fazer leasing. Por que outro motivo vocês viriam
com essa proposta?” Kruschev se comportava em relação à China como um
gato brincando com um rato, continuou Mao.1
A explosão foi um acontecimento inesperado para os russos: vendo
conspirações em toda parte, Mao estava convencido de que a proposta de
frota conjunta era uma manobra de Kruschev para renegar a promessa feita
um ano antes de entregar à China uma bomba atômica — e nenhuma
explicação poderia acalmar as suspeitas de Mao.2
Em 31 de julho, Kruschev voou para Pequim para pôr panos quentes na
situação. Mas, apesar da generosa hospitalidade com que recepcionara Mao
em Moscou sete meses antes, o líder soviético teve recepção fria no aeroporto.
“Nada de tapete vermelho, nada de guarda de honra e nada de abraços”,
recordou o intérprete Li Yueran, apenas uma equipe com rostos imóveis,
incluindo Mao Tsé-tung, Liu Shaoqi, Chu En-lai e Deng Xiaoping.3 Kruschev
foi relegado a alojamentos sem ar-condicionado em montanhas afastadas de
Pequim. Mudando a cama para a varanda para escapar do calor sufocante,
naquela noite Kruschev foi devorado por um enxame de mosquitos.4
Imediatamente após a chegada de Kruschev, um longo e humilhante
encontro se realizou em Zhongnanhai. O líder soviético foi forçado a explicar
as démarches de Yudin minuciosamente e se esforçou para acalmar um Mao
visivelmente irritado. Em determinado momento, Mao, impaciente, pulou de
sua cadeira e balançou o dedo diante do rosto de Kruschev: “Eu perguntei a
você que frota comum é essa, e você ainda não me respondeu!”
Kruschev enrubesceu e fez um esforço para controlar-se.5 “Você realmente
acha que somos imperialistas vermelhos?”, perguntou, exasperado, ao que
Mao retorquiu: “Houve um homem que veio em nome de Stalin” e tornou
Xinjiang e a Manchúria semicolônias. Após mais briga sobre insignificâncias
reais ou percebidas, a ideia da frota conjunta foi abandonada.6
Mais humilhação aconteceu no dia seguinte, enquanto Mao, vestido
apenas de roupão de banho e chinelos, recebeu Kruschev ao lado de sua
piscina em Zhongnanhai. Mao percebera que Kruschev não sabia nadar e colocou o líder soviético na defensiva. Depois de algumas braçadas
atrapalhadas, com um volumoso salva-vidas no pescoço, Kruschev terminou
engatinhando para fora da piscina e se estendendo na borda, com as pernas
penduradas na água, desajeitadamente, ao passo que Mao nadava de um lado
para o outro, exibindo estilos diferentes para seu hóspede antes de virar de
costas e boiar confortavelmente na água.7 Enquanto isso, os intérpretes
corriam ao lado da piscina, tentando captar o sentido dos murmúrios
políticos do presidente. Mais tarde, Mao explicou a seu médico que esse tinha
sido seu jeito de “enfiar uma agulha no traseiro de Kruschev”.8
Mao iniciara uma guerra com Kruschev pelo comando do campo socialista
meio ano antes em Moscou. Agora, abrindo caminho na água, com seu
hóspede, derrotado, sentado ao lado da piscina, o presidente falou sobre o
sucesso do Grande Salto Adiante. “Temos tanto arroz que não sabemos mais
o que fazer com ele”, gabou-se, ecoando o que Liu Shaoqi dissera a Kruschev
alguns dias antes no aeroporto ao analisar a economia do país: “O que nos
preocupa agora não é tanto a falta de comida, mas, em vez disso, o que fazer
com o excedente.”9 Um confuso Kruschev replicou, diplomaticamente, que
não tinha condições de ajudar Mao em sua emergência. “Todos trabalhamos
duro e nunca conseguimos ter uma boa reserva de alimentos”, pensou
Kruschev. “A China está faminta, mas agora ele me diz que há arroz
demais!”10
Ao longo dos anos, Mao avaliara a personalidade de Kruschev. Agora lhe
dava ordens o tempo todo, descartava a necessidade de uma base de
submarinos e colocava de lado o pedido de estações de rádio. A delegação
soviética foi para casa de mãos vazias. Mas não foi o fim da questão, pois Mao
estava determinado a assumir a liderança nos assuntos mundiais. Poucas
semanas depois, em 23 de agosto, sem avisar previamente Moscou, Mao deu
ordem para que se iniciasse o bombardeio das ilhas Quemoy e Matsu, na
costa de Taiwan, controladas por Chiang Kai-shek, o que detonou uma crise
internacional. Os Estados Unidos responderam com o reforço de suas
unidades navais e armaram uma centena de caças em Taiwan com mísseis ar-
ar. Em 8 de setembro, Moscou foi obrigada a tomar posição, jogando seu peso atrás de Pequim, proclamando que um ataque à República Popular da China
seria considerado um ataque à União Soviética.11 Mao ficou radiante: havia
forçado Kruschev a estender o manto protetor do poder nuclear à China e, ao
mesmo tempo, arruinado a proposta de Moscou de reduzir as tensões com
Washington. Como explicou Mao mais tarde a seu médico: “As ilhas são
como duas batutas que mantêm Kruschev e Eisenhower dançando, correndo
por aqui ou por ali. Você não vê como são maravilhosas?”12
Mas a razão real por trás do bombardeio não tinha nada a ver com relações
internacionais. Mao queria aumentar a tensão para promover a coletivização:
“Uma situação tensa ajuda a mobilizar o povo, em particular os que são
reacionários, aqueles que ficam no meio da estrada [...]. As comunas do povo
devem organizar milícias. Todos em nosso país são soldados.”13 A crise do
estreito de Taiwan foi o argumento final para a completa militarização do
país. Um alemão oriental que estudava a China na época chamou isso de
“Kasernenkommunismus”, ou comunismo das casernas, que encontrou sua
expressão nas comunas do povo.14