A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 8 de 43

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A Grande Fome de Mao

6. Que comece o bombardeio

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Que comece o bombardeio

 

Os restos mortais de Laika, a cadela de rua catapultada em órbita dias antes

da celebração do aniversário da Revolução de Outubro, foram desintegrados

quando o Sputnik II reentrou na atmosfera em abril de 1958. Enquanto o

caixão espacial orbitava a Terra, o mundo embaixo mudou. Irritado com a

disparidade em mísseis que os russos haviam exposto, o presidente

Eisenhower mandou mísseis balísticos para a Grã-Bretanha, a Itália e a

Turquia. Kruschev respondeu com submarinos que carregavam mísseis

nucleares. Mas, para que a ameaça fosse digna de crédito, era necessária uma

base submarina no Oceano Pacífico, o que, por sua vez, requeria uma estação

transmissora de rádio. Moscou abordou Pequim com a proposta de construir

estações de rádio de ondas longas na costa chinesa, sugerindo que serviriam a

uma frota conjunta de submarinos.

Em 22 de julho, o embaixador soviético Pavel Yudin sondou o presidente

com a proposta. Mao teve um ataque de raiva. Durante tempestuoso

encontro, atacou o infeliz embaixador, afirmando: “Vocês simplesmente não

confiam nos chineses, só confiam nos russos. Os russos são seres superiores e

os chineses são inferiores, pessoas descuidadas, eis por que você veio com essa

proposta. Vocês querem propriedade conjunta, vocês querem tudo como

propriedade conjunta, nosso Exército, Marinha, Aeronáutica, indústria,

agricultura, cultura, educação: que tal? Por que não entregamos nossos

milhares de quilômetros de costa a vocês? Manteremos apenas uma força guerrilheira. Vocês têm algumas bombas atômicas e agora querem controlar

tudo, vocês querem alugar e fazer leasing. Por que outro motivo vocês viriam

com essa proposta?” Kruschev se comportava em relação à China como um

gato brincando com um rato, continuou Mao.1

A explosão foi um acontecimento inesperado para os russos: vendo

conspirações em toda parte, Mao estava convencido de que a proposta de

frota conjunta era uma manobra de Kruschev para renegar a promessa feita

um ano antes de entregar à China uma bomba atômica — e nenhuma

explicação poderia acalmar as suspeitas de Mao.2

Em 31 de julho, Kruschev voou para Pequim para pôr panos quentes na

situação. Mas, apesar da generosa hospitalidade com que recepcionara Mao

em Moscou sete meses antes, o líder soviético teve recepção fria no aeroporto.

“Nada de tapete vermelho, nada de guarda de honra e nada de abraços”,

recordou o intérprete Li Yueran, apenas uma equipe com rostos imóveis,

incluindo Mao Tsé-tung, Liu Shaoqi, Chu En-lai e Deng Xiaoping.3 Kruschev

foi relegado a alojamentos sem ar-condicionado em montanhas afastadas de

Pequim. Mudando a cama para a varanda para escapar do calor sufocante,

naquela noite Kruschev foi devorado por um enxame de mosquitos.4

Imediatamente após a chegada de Kruschev, um longo e humilhante

encontro se realizou em Zhongnanhai. O líder soviético foi forçado a explicar

as démarches de Yudin minuciosamente e se esforçou para acalmar um Mao

visivelmente irritado. Em determinado momento, Mao, impaciente, pulou de

sua cadeira e balançou o dedo diante do rosto de Kruschev: “Eu perguntei a

você que frota comum é essa, e você ainda não me respondeu!”

Kruschev enrubesceu e fez um esforço para controlar-se.5 “Você realmente

acha que somos imperialistas vermelhos?”, perguntou, exasperado, ao que

Mao retorquiu: “Houve um homem que veio em nome de Stalin” e tornou

Xinjiang e a Manchúria semicolônias. Após mais briga sobre insignificâncias

reais ou percebidas, a ideia da frota conjunta foi abandonada.6

Mais humilhação aconteceu no dia seguinte, enquanto Mao, vestido

apenas de roupão de banho e chinelos, recebeu Kruschev ao lado de sua

piscina em Zhongnanhai. Mao percebera que Kruschev não sabia nadar e colocou o líder soviético na defensiva. Depois de algumas braçadas

atrapalhadas, com um volumoso salva-vidas no pescoço, Kruschev terminou

engatinhando para fora da piscina e se estendendo na borda, com as pernas

penduradas na água, desajeitadamente, ao passo que Mao nadava de um lado

para o outro, exibindo estilos diferentes para seu hóspede antes de virar de

costas e boiar confortavelmente na água.7 Enquanto isso, os intérpretes

corriam ao lado da piscina, tentando captar o sentido dos murmúrios

políticos do presidente. Mais tarde, Mao explicou a seu médico que esse tinha

sido seu jeito de “enfiar uma agulha no traseiro de Kruschev”.8

Mao iniciara uma guerra com Kruschev pelo comando do campo socialista

meio ano antes em Moscou. Agora, abrindo caminho na água, com seu

hóspede, derrotado, sentado ao lado da piscina, o presidente falou sobre o

sucesso do Grande Salto Adiante. “Temos tanto arroz que não sabemos mais

o que fazer com ele”, gabou-se, ecoando o que Liu Shaoqi dissera a Kruschev

alguns dias antes no aeroporto ao analisar a economia do país: “O que nos

preocupa agora não é tanto a falta de comida, mas, em vez disso, o que fazer

com o excedente.”9 Um confuso Kruschev replicou, diplomaticamente, que

não tinha condições de ajudar Mao em sua emergência. “Todos trabalhamos

duro e nunca conseguimos ter uma boa reserva de alimentos”, pensou

Kruschev. “A China está faminta, mas agora ele me diz que há arroz

demais!”10

Ao longo dos anos, Mao avaliara a personalidade de Kruschev. Agora lhe

dava ordens o tempo todo, descartava a necessidade de uma base de

submarinos e colocava de lado o pedido de estações de rádio. A delegação

soviética foi para casa de mãos vazias. Mas não foi o fim da questão, pois Mao

estava determinado a assumir a liderança nos assuntos mundiais. Poucas

semanas depois, em 23 de agosto, sem avisar previamente Moscou, Mao deu

ordem para que se iniciasse o bombardeio das ilhas Quemoy e Matsu, na

costa de Taiwan, controladas por Chiang Kai-shek, o que detonou uma crise

internacional. Os Estados Unidos responderam com o reforço de suas

unidades navais e armaram uma centena de caças em Taiwan com mísseis ar-

ar. Em 8 de setembro, Moscou foi obrigada a tomar posição, jogando seu peso atrás de Pequim, proclamando que um ataque à República Popular da China

seria considerado um ataque à União Soviética.11 Mao ficou radiante: havia

forçado Kruschev a estender o manto protetor do poder nuclear à China e, ao

mesmo tempo, arruinado a proposta de Moscou de reduzir as tensões com

Washington. Como explicou Mao mais tarde a seu médico: “As ilhas são

como duas batutas que mantêm Kruschev e Eisenhower dançando, correndo

por aqui ou por ali. Você não vê como são maravilhosas?”12

Mas a razão real por trás do bombardeio não tinha nada a ver com relações

internacionais. Mao queria aumentar a tensão para promover a coletivização:

“Uma situação tensa ajuda a mobilizar o povo, em particular os que são

reacionários, aqueles que ficam no meio da estrada [...]. As comunas do povo

devem organizar milícias. Todos em nosso país são soldados.”13 A crise do

estreito de Taiwan foi o argumento final para a completa militarização do

país. Um alemão oriental que estudava a China na época chamou isso de

“Kasernenkommunismus”, ou comunismo das casernas, que encontrou sua

expressão nas comunas do povo.14