A Grande Fome de Mao
25. “Querido presidente Mao”
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“Querido presidente Mao”
A verdade encontrou seu fim em Lushan. Embora falar com franqueza nunca
seja aconselhável em um Estado de partido único, o choque entre os líderes
no verão de 1959 não deixou ninguém em dúvida sobre o perigo de dar
opinião divergente da linha do partido. E, como Mao era frequentemente
misterioso em seus pronunciamentos, era prudente se desviar para a esquerda
em lugar de se inclinar para a direita. No meio da inanição em massa,
ninguém realmente mencionava a fome, os líderes usavam eufemismos como
“desastres naturais” ou “dificuldades temporárias”. Mais abaixo na hierarquia,
a fome era um tabu tão grande que quadros locais faziam de tudo para ocultar
a inanição e a doença dos olhos vigilantes de equipes de inspeção. Quando o
comitê do partido do condado de Longhua, Hebei, enviou um grupo de
funcionários para investigar o campo, algumas aldeias arrebanharam os
doentes e os esconderam nas montanhas.1
Uma corrente de visitantes estrangeiros — cuidadosamente filtrados pelo
partido e levados a luxuosas turnês por comunas-modelo — estava muito
disposta a saltar em defesa do maoismo.2 François Mitterrand, político
esquerdista que mais tarde se tornou presidente da França, sentiu-se
privilegiado em transmitir as palavras de sabedoria do presidente para o
Ocidente. Em sua opulenta casa de campo em Hangzhou, Mao, “um grande
estudioso conhecido no mundo inteiro pela diversidade de seu gênio”, lhe
disse, em 1961, que não havia fome, apenas “um período de escassez”.3 No
outro extremo do espectro político, o inglês John Temple, membro do
Partido Conservador e representante de Chester no Parlamento britânico, fez
uma turnê pelo país no fim de 1960 e declarou que o comunismo funcionava
e que o país fazia “grande progresso”.4
Mas nem todos estavam dispostos a ser enganados assim. Estudantes
estrangeiros com conhecimento da China eram muito menos crédulos. A
maioria dos 1.500 estudantes estrangeiros em Nanquim — a maior parte da
Indonésia, outros da Tailândia, Malásia e Vietnã — expressava dúvidas sobre
o Grande Salto Adiante e questionava abertamente a viabilidade das comunas
e toda a ideia da coletivização. Já em março de 1959, um bom número deles
estava de fato consciente dos efeitos da fome no campo.5
Alguns estudantes estrangeiros eram menos inibidos que os colegas locais,
e opiniões críticas se disseminavam amplamente nas faculdades em todo o
país — apesar das repetidas campanhas contra o “conservadorismo
direitista”. Como descobriu uma equipe de investigação despachada pela Liga
da Juventude Comunista, eram comuns as dúvidas sobre o Grande Salto
Adiante, o partido comunista e o socialismo em geral. Estudantes
universitários perguntavam abertamente por que, se as comunas do povo
eram uma forma superior de organização, a comida era escassa e os
camponeses abandonavam as aldeias. Por que o suprimento de bens era tão
ruim em um sistema socialista? Por que o padrão de vida era tão baixo, se a
taxa de desenvolvimento era mais alta que nos países capitalistas? “A
Indonésia pode ser uma colônia, mas o povo de lá vive bem”, opinou um
estudante.6
Nas cidades, as conversas sobre a fome eram abafadas pelo rugido da
propaganda, mas claramente audíveis para muitos agentes do partido. Como
notaram informantes que trabalhavam para um comitê de rua no distrito de
Putuo, em Xangai, trabalhadores comuns, como Chen Ruhang, especulavam
abertamente sobre o número de mortes causadas pela fome. A inanição em
massa era o principal assunto de conversa em sua casa, com visitantes
chegando do campo esfomeado em 1961.7 Em Hubei, como descobriu a Federação de Sindicatos, metade dos trabalhadores criticava a fome no fim de
1961. Alguns desafiavam abertamente os líderes. Em um caso, um homem
repreendido por ser relapso no trabalho, bateu no próprio estômago e depois
olhou diretamente nos olhos do oficial e disse: “Está vazio!”8
No sul, mais perto de Hong Kong e Macau, conversas sobre o mundo livre
que acenava logo do outro lado da fronteira eram comuns em 1962. No
condado de Zhongshan, os jovens que trabalhavam nos campos trocavam
histórias sobre a colônia da coroa britânica e centenas realmente tentavam
atravessar a cada ano. Muitos eram presos e mandados de volta para suas
aldeias, onde regalavam os amigos com histórias sobre sua odisseia.9 Em
Guangzhou, jovens trabalhadores admiravam abertamente Hong Kong,
permitindo que voos da fantasia os levassem para um lugar mítico, onde a
comida era abundante e o trabalho, fácil.10 “Hong Kong é um mundo bom”,
alguém rabiscou na parede de uma escola primária.11
Outros rabiscos apareceram para deixar registrados traços mais
permanentes de descontentamento. Mensagens de oposição eram
escrevinhadas nas paredes de banheiros. Na cidade de Xingning, uma mão
irada gravou uma palavra de ordem em um banheiro público com insulto a
Mao.12 Uma alentada diatribe contra a exportação de alimentos foi
encontrada na parede de um banheiro na Fábrica de Automóveis de
Nanquim.13
Mais ousados eram os que saíam à noite para afixar panfletos e cartazes
críticos ao partido. Em Xangai, alguém afixou um cartaz de dois metros que
incitava à rebelião.14 Às vezes, centenas de folhetos eram distribuídos. Em
Gaoyang, uma centena de panfletos, com palavras de ordem escritas à mão
em papel cor-de-rosa ou vermelho, apareceu da noite para o dia, colados às
paredes em lugares bem visíveis ou afixados em árvores por toda a cidade:
“Por que as pessoas em nosso país estão morrendo de fome? Porque todo o
cereal está sendo enviado para a União Soviética!” Outro soava como um
aviso: “A colheita está chegando e devemos organizar um movimento para
furtar o trigo: quem quiser unir-se a nós, por favor esteja preparado!”15 Em
Lanzhou, mais de 2.700 panfletos pregaram greve geral em maio de 1962.16 Em Hainan, a grande ilha na costa de Guangdong, relatou-se que cerca de 40
mil folhetos antipartido foram distribuídos, alguns aparentemente jogados de
aviões mandados por Chiang Kai-shek.17 A extensão dessas atividades
subversivas é difícil de estimar, na medida em que os indícios de oposição
devem ter sido apagados assim que localizados. Mas, em Nanquim, em
apenas três meses, cerca de quarenta palavras de ordem e panfletos diferentes
sobre a fome foram relatados pela polícia.18
Agricultores também usavam cartazes para buscar reparação, descarregar
a ira ou denunciar um quadro. No condado de Ningjin, Hebei, Zhang Xirong
teve coragem bastante para afixar um grande mural, chamado dazibao, em
protesto contra as condições do refeitório local. Imediatamente atraiu a
atenção do Departamento de Segurança Pública e foi levado embora. Sua
opinião, de qualquer modo, foi solitária, perdida em um mar de 1,7 milhão de
panfletos, cartazes e palavras de ordem que o condado distribuiu na
campanha para aumentar a segurança pública.19 Tão teimoso quanto Xirong,
foi o camponês Wang Yutang. Sua resposta a uma campanha antidireitista,
com seus milhões de cartazes de propaganda oficial e incessantes
transmissões de rádio, foi afixar seu próprio dazibao no condado de Shishou.
“O Grande Salto Adiante em 1958 foi só bravata, os trabalhadores sofrem
muito e nossos estômagos ficam famintos”, proclamou ousadamente.20 Mas
até mesmo quando o equilíbrio de poder se inclinava pesadamente a favor do
partido, que usava um mar de propaganda para abafar os mais leves
resmungos de descontentamento, os cartazes, às vezes, atingiam a meta. No
condado de Dazhu, Sichuan, os aldeões efetivamente viraram algumas das
próprias armas de propaganda do partido contra um líder local e o
denunciaram em mais de vinte cartazes por roubar 6 yuans. A humilhação
pública foi tanta que o homem se recusou a supervisionar a colheita e foi
pescar. Os agricultores imediatamente se apossaram da safra.21
Mais populares eram os versos. Assim como exigia que cada um fosse um
soldado, Mao proclamava que cada homem e mulher era um poeta. A
população foi forçada a produzir milhões de versos no outono de 1958,
quando festivais foram organizados e prêmios entregues às melhores canções folclóricas, que celebravam com extravagante entusiasmo safras abundantes,
fábricas de aço ou medidas de conservação da água. Uma visão frenética do
futuro socialista era conjurada em estrofes rimadas produzidas aos milhões.
Só em Xangai afirmava-se que apenas 200 mil trabalhadores haviam
composto 5 milhões de poemas.22 Se grande parte da poesia oficialmente
patrocinada era banal, um espírito verdadeiramente criativo apareceu, de fato,
em cantigas espontaneamente criadas por aldeões em resposta à coletivização.
Aqui, no meio da fome, havia um alegre senso de humor que ajudava as
pessoas a atravessar os tempos de miséria. Em Xangai, um ditado popular
dizia “tudo está bem sob o camarada Mao, uma pena que ninguém possa
comer até se saciar”.23 No condado de Jiangmen, Guangdong, os agricultores
cantavam a seguinte canção:
Coletivização, coletivização
Ninguém ganha, alguém gasta,
Membros ganham, mas equipes gastam,
Equipes ganham, mas brigadas gastam,
Brigadas ganham, mas comunas gastam,
Apenas tolos se tornam ativistas do partido! 24
Um aldeão analfabeto apareceu com um poema sobre o mingau ralo servido
na cantina:
Entramos na cantina,
Vemos uma grande panela de mingau,
Ondas rolam em cada lado da panela,
No meio as pessoas afundam. 25
Oficiais locais recebiam apelidos satíricos que zombavam de sua cobiça, mau
temperamento ou glutonaria. No condado de Kaiping, Guangdong,
agricultores referiam-se a um oficial particularmente rotundo como “comida
de cachorro cozida” (yanhuogou). “Mosca dourada” e “tia mastigadora de tijolos” também eram usados. Em outros lugares, “pança grande” era comum,
e toda comuna parecia ter um demônio do submundo fantasmagórico.
Muitos quadros eram chamados de “Rei Yan”, Rei do Inferno.26 Havia ironia
também. Em Sichuan — onde, como vimos, o líder provincial Li Jingquan
observou que as pessoas ficaram ainda mais corpulentas que Mao Tsé-tung
graças à generosidade criada pela coletivização — alguns aldeões zombavam
das cantinas, dizendo que “a vantagem do rancho é que todos estamos muito
mais gordos”, referindo-se ao inchaço dos corpos no edema da fome.27
* * *
Logo abaixo da superfície da propaganda oficial, se estendia um mundo
sombrio de rumores. Eles viravam o mundo de cabeça para baixo e ofereciam
uma alternativa, forma dissidente de verdade que subvertia a informação
censurada que emanava do Estado.28 Todos davam ouvidos aos boatos e
tentavam dar sentido ao mundo mais amplo enquanto esperavam que tivesse
fim a loucura da coletivização. Boatos questionavam a legitimidade do
partido e desacreditavam as comunas do povo. Em Wuhan se temia que até
esposas pudessem ser compartilhadas.29
Boatos estimulavam ações de oposição ao Estado. Eram comuns notícias
não oficiais sobre camponeses que tomavam posse da terra ou pegavam grãos
dos celeiros estatais. Em Chaoyang, Guangdong, uma mulher vidente
proclamou que tomar comida em tempos de fome seria perdoado pelo
partido.30 Em Songzi, Hubei, cerca de sete brigadas decidiram, no inverno de
1959–60, dissolver os coletivos e dividir a terra.31 Rumores sobre distribuição
de terra também eram desenfreados em Anlu, Chongyang e Tongshan.32
“Mao morreu, a terra será devolvida ao povo!” era a mensagem repetida por
aldeões no meio da fome em Jiang’an, Sichuan.33
Divulgação ensurdecedora sobre déficit também contribuía para um
estado de caos permanente no local de produção, o que, por sua vez,
estimulava a máquina de propaganda a lançar slogans cada vez mais estrondosos. Povo e partido estavam presos em uma guerra de palavras, pois
todo dogma encontrava seu reverso em um boato. Pânicos eram despertados
quando se dizia, por exemplo, que cupons de racionamento para certos bens
tinham sido anulados. Alguns trabalhadores da Fundições de Aço Angang
compraram até 35 pares de meias em junho de 1960, quando longas filas
apareceram espontaneamente do nada para estocar todos os bens de
algodão.34 Similarmente, em uma comuna em Changle, Guangdong, um
boato de que o sal poderia ser retirado levou a um pânico local em janeiro de
1961, com pessoas tentando estocar cerca de 35 toneladas de sal em cinco
dias, quarenta vezes mais que o normal.35
Boatos de guerra e invasão iminente engolfavam comunidades inteiras e
espalhavam o medo ao virar a máquina de propaganda de cabeça para baixo.
E o medo, por sua vez, provocava um senso de coesão, enquanto imagens
apocalípticas uniam o campo desmantelado. Em Guangdong, agricultores
souberam que Guangzhou se levantara em armas e Shantou tinha sido
tomada quando Chiang Kai-shek invadira o país. Estandartes que desejavam
longa vida ao Kuomintang apareceram na estrada. A informação era precisa:
“O Kuomintang chegou à aldeia de Dongxi no dia 14!”, ou “Chiang Kai-shek
voltará em agosto!”36 Desafiando as suposições comuns sobre a vida
paroquial que os agricultores supostamente levavam em aldeias isoladas, os
rumores se espalhavam como incêndio na mata, saltando de condado em
condado e pelas províncias, e chegavam a Hunan em questão de dias.37 Em
Putian, Fujian, a província em frente a Taiwan, uma sociedade secreta
distribuiu estandartes amarelos para serem colocados em destaque após a
queda do Partido Comunista. Aparentemente, os estandartes também
protegiam contra os efeitos da radiação nuclear.38
* * *
Alguns agricultores prejudicados confiavam bastante na lei. Em Liuhe, perto
de Nanquim, um oficial roubou e mais tarde comeu uma galinha que uma
velha tentava vender. Encorajada, ela foi ao tribunal e fez uma queixa.39 Com
frequência, no entanto, o litígio não tinha significado, sobretudo porque o
sistema judiciário desabara sob a pressão política, que levou até à abolição do
Ministério da Justiça em 1959. A política estava no comando, cerceando a
justiça formal — assim como o recurso formal. No condado de Ningjin, por
exemplo, o número de quadros a cargo da polícia, da inspetoria e dos
tribunais foi reduzido à metade em 1958. Os tribunais locais estavam
inundados de casos cíveis trazidos por pessoas comuns.40
Em vez de procurar a Justiça, muitos se voltaram para a tradicional queixa
na forma de cartas e petições. Como a informação incorreta proliferava na
burocracia do partido, com todos os níveis a alimentar informes falsos e
estatísticas infladas para os níveis imediatamente acima, a segurança do
Estado tentava contornar os órgãos oficiais e chegar direto ao chão da fábrica.
Prestava muita atenção à opinião popular e estimulava cartas anônimas de
denúncia. 41 Afinal, os inimigos de classe podiam rastejar para dentro das
fileiras do partido, enquanto espiões e sabotadores espreitavam entre as
massas. A vigilância popular era necessária para afugentá-los: o povo
monitorava o partido. Até o mais insignificante joão-ninguém tinha o poder
de escrever e derrubar um oficial poderoso, um funcionário local negligente
ou um burocrata abusador. Denúncia arbitrária podia atacar a qualquer
momento os escalões superiores da escada do poder. E as pessoas escreviam
furiosamente, enviando sacos de cartas todos os meses para pedir, protestar,
denunciar ou queixar-se, às vezes tímida e humildemente, ocasionalmente
vociferantes. Algumas denunciavam os vizinhos por ninharias, outras
meramente buscavam ajuda para mudar de emprego ou de casa, e algumas
faziam longa diatribe contra o sistema inteiro e apimentavam as cartas com
slogans anticomunistas. Escreviam para os jornais, a polícia, os tribunais e o
partido. Algumas escreviam para o Conselho de Estado e não poucas
endereçavam cartas a Mao Tsé-tung pessoalmente.
Em Changsha, as autoridades provinciais recebiam cerca de 1.500 cartas
ou visitantes por mês. Muitos escreviam em busca de reparação para uma
injustiça visível e poucos se aventuravam a escrever cartas críticas o bastante para serem consideradas “reacionárias”. Aqueles que apresentavam caso
específico com pedido concreto tinham a chance de receber uma resposta.
Afinal, dentro do imenso sistema de monitoramento da burocracia do
partido, as autoridades locais tinham que mostrar que agiam em resposta aos
“pedidos das massas”.42 Em março de 1961, em Nanquim, cerca de 130 mil
cartas tinham sido recebidas desde o Grande Salto Adiante. A maioria das
queixas dizia respeito a trabalho, comida, bens e serviços, mas uma análise
mais detalhada de quatrocentas cartas “das massas” mostrava que uma em
dez fazia uma acusação direta ou ameaçava com processo.43 Em Xangai, o
departamento que recebia cartas do público contabilizou bem mais de 40 mil
missivas em 1959. As pessoas se queixavam de falta de comida, casas ruins e
más condições de trabalho, e poucas atacavam o partido e seus
representantes.44 O objetivo da denúncia era provocar uma investigação, e
algumas cartas mostravam convicção suficiente para levar as autoridades a
agir. Depois que uma queixa foi mandada para o governador provincial de
Guangdong com a alegação de que o Instituto das Nacionalidades incluíra
dezenas de estudantes fictícios em sua lista para aumentar a alocação de
cereais, uma equipe de segurança local foi enviada e conseguiu extrair várias
confissões e uma desculpa dos líderes do Instituto.45
Alguns leitores mandavam cartas para o Diário do Povo. Poucas eram
publicadas, mas seu conteúdo era resumido e circulava entre a liderança. Os
mineiros de carvão da província de Guangxi, por exemplo, escreveram para
queixar-se de que alguns desmaiavam no trabalho porque as rações tinham
sido cortadas, embora as horas de trabalho tivessem aumentado.46 O
Conselho de Estado recebia centenas de cartas por mês. Alguns missivistas
eram corajosos o bastante para atacar as políticas do Grande Salto Adiante e
lamentar as exportações de grãos em meio à fome.47 Alguns escreviam
diretamente para os líderes da cúpula. Ao fazer isso, reproduziam uma
tradição imperial muito antiga de peticionar ao imperador, mas também
demonstravam sua crença de que o abuso de poder era local e não o resultado
de uma campanha de coletivização iniciada pelo próprio Mao: “Se Mao
soubesse disso.” A justiça, certamente, sobrevivera na capital. Cartas criavam esperança. Xiang Xianzhi, garota pobre de Hunan, escondeu uma carta
endereçada ao presidente, costurada por dentro do casaco, durante um ano
inteiro, antes de entregá-la a uma equipe de investigação enviada pelo comitê
provincial do partido.48 “Querido presidente Mao” foi a abertura padrão de
saudações, por exemplo, da carta de Ye Lizhuang sobre inanição e corrupção
em Hainan. Seu apelo funcionou. Levou a uma extensa investigação da equipe
da cúpula que trouxe à luz a “opressão do povo” por membros locais do
partido.49
Muitas cartas jamais chegavam ao destino. Depois que Liu Shaoqi se
queixou pessoalmente ao ministro de Segurança Pública, Xie Fuzhi, de que
cartas enviadas a ele por vizinhos de sua aldeia tinham sido abertas pela
polícia local (ver capítulo 16), todo o caso foi revelado. Em Guizhou, o posto
de correios e o Departamento de Segurança Pública abriam rotineiramente as
cartas, o que levou à prisão de autores das denúncias por atividades
“antipartido” ou “contrarrevolucionárias”. Quando um oficial do partido
escreveu sobre a inanição em massa em Zunyi, foi interrogado durante
diversos meses e mandado para trabalhar em uma fábrica de fornos.50 Mais
de 2 mil cartas eram abertas pela polícia todos os meses no condado de
Gaotai, Gansu. O anonimato, aparentemente, oferecia pouca proteção. Em
um caso, He Jingfang enviou oito cartas sem assinar, mas a polícia local
conseguiu rastreá-lo, extrair uma confissão e mandá-lo para um campo de
trabalho.51 Em Sichuan, a carta de Du Xingmin que denunciava o secretário
do partido Song Youyu levou a brigada a uma busca frenética, em que
amostras de caligrafia foram comparadas. Du foi desmascarado e acusado de
sabotagem. Antes de ser entregue ao Departamento de Segurança Pública,
teve os olhos arrancados por um enraivecido Song. Du morreu poucos dias
depois na prisão.52 Não admira que algumas pessoas recorressem à violência
em vez de escrever cartas.