A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 27 de 43

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A Grande Fome de Mao

25. “Querido presidente Mao”

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“Querido presidente Mao”

 

A verdade encontrou seu fim em Lushan. Embora falar com franqueza nunca

seja aconselhável em um Estado de partido único, o choque entre os líderes

no verão de 1959 não deixou ninguém em dúvida sobre o perigo de dar

opinião divergente da linha do partido. E, como Mao era frequentemente

misterioso em seus pronunciamentos, era prudente se desviar para a esquerda

em lugar de se inclinar para a direita. No meio da inanição em massa,

ninguém realmente mencionava a fome, os líderes usavam eufemismos como

“desastres naturais” ou “dificuldades temporárias”. Mais abaixo na hierarquia,

a fome era um tabu tão grande que quadros locais faziam de tudo para ocultar

a inanição e a doença dos olhos vigilantes de equipes de inspeção. Quando o

comitê do partido do condado de Longhua, Hebei, enviou um grupo de

funcionários para investigar o campo, algumas aldeias arrebanharam os

doentes e os esconderam nas montanhas.1

Uma corrente de visitantes estrangeiros — cuidadosamente filtrados pelo

partido e levados a luxuosas turnês por comunas-modelo — estava muito

disposta a saltar em defesa do maoismo.2 François Mitterrand, político

esquerdista que mais tarde se tornou presidente da França, sentiu-se

privilegiado em transmitir as palavras de sabedoria do presidente para o

Ocidente. Em sua opulenta casa de campo em Hangzhou, Mao, “um grande

estudioso conhecido no mundo inteiro pela diversidade de seu gênio”, lhe

disse, em 1961, que não havia fome, apenas “um período de escassez”.3 No

outro extremo do espectro político, o inglês John Temple, membro do

Partido Conservador e representante de Chester no Parlamento britânico, fez

uma turnê pelo país no fim de 1960 e declarou que o comunismo funcionava

e que o país fazia “grande progresso”.4

Mas nem todos estavam dispostos a ser enganados assim. Estudantes

estrangeiros com conhecimento da China eram muito menos crédulos. A

maioria dos 1.500 estudantes estrangeiros em Nanquim — a maior parte da

Indonésia, outros da Tailândia, Malásia e Vietnã — expressava dúvidas sobre

o Grande Salto Adiante e questionava abertamente a viabilidade das comunas

e toda a ideia da coletivização. Já em março de 1959, um bom número deles

estava de fato consciente dos efeitos da fome no campo.5

Alguns estudantes estrangeiros eram menos inibidos que os colegas locais,

e opiniões críticas se disseminavam amplamente nas faculdades em todo o

país — apesar das repetidas campanhas contra o “conservadorismo

direitista”. Como descobriu uma equipe de investigação despachada pela Liga

da Juventude Comunista, eram comuns as dúvidas sobre o Grande Salto

Adiante, o partido comunista e o socialismo em geral. Estudantes

universitários perguntavam abertamente por que, se as comunas do povo

eram uma forma superior de organização, a comida era escassa e os

camponeses abandonavam as aldeias. Por que o suprimento de bens era tão

ruim em um sistema socialista? Por que o padrão de vida era tão baixo, se a

taxa de desenvolvimento era mais alta que nos países capitalistas? “A

Indonésia pode ser uma colônia, mas o povo de lá vive bem”, opinou um

estudante.6

Nas cidades, as conversas sobre a fome eram abafadas pelo rugido da

propaganda, mas claramente audíveis para muitos agentes do partido. Como

notaram informantes que trabalhavam para um comitê de rua no distrito de

Putuo, em Xangai, trabalhadores comuns, como Chen Ruhang, especulavam

abertamente sobre o número de mortes causadas pela fome. A inanição em

massa era o principal assunto de conversa em sua casa, com visitantes

chegando do campo esfomeado em 1961.7 Em Hubei, como descobriu a Federação de Sindicatos, metade dos trabalhadores criticava a fome no fim de

1961. Alguns desafiavam abertamente os líderes. Em um caso, um homem

repreendido por ser relapso no trabalho, bateu no próprio estômago e depois

olhou diretamente nos olhos do oficial e disse: “Está vazio!”8

No sul, mais perto de Hong Kong e Macau, conversas sobre o mundo livre

que acenava logo do outro lado da fronteira eram comuns em 1962. No

condado de Zhongshan, os jovens que trabalhavam nos campos trocavam

histórias sobre a colônia da coroa britânica e centenas realmente tentavam

atravessar a cada ano. Muitos eram presos e mandados de volta para suas

aldeias, onde regalavam os amigos com histórias sobre sua odisseia.9 Em

Guangzhou, jovens trabalhadores admiravam abertamente Hong Kong,

permitindo que voos da fantasia os levassem para um lugar mítico, onde a

comida era abundante e o trabalho, fácil.10 “Hong Kong é um mundo bom”,

alguém rabiscou na parede de uma escola primária.11

Outros rabiscos apareceram para deixar registrados traços mais

permanentes de descontentamento. Mensagens de oposição eram

escrevinhadas nas paredes de banheiros. Na cidade de Xingning, uma mão

irada gravou uma palavra de ordem em um banheiro público com insulto a

Mao.12 Uma alentada diatribe contra a exportação de alimentos foi

encontrada na parede de um banheiro na Fábrica de Automóveis de

Nanquim.13

Mais ousados eram os que saíam à noite para afixar panfletos e cartazes

críticos ao partido. Em Xangai, alguém afixou um cartaz de dois metros que

incitava à rebelião.14 Às vezes, centenas de folhetos eram distribuídos. Em

Gaoyang, uma centena de panfletos, com palavras de ordem escritas à mão

em papel cor-de-rosa ou vermelho, apareceu da noite para o dia, colados às

paredes em lugares bem visíveis ou afixados em árvores por toda a cidade:

“Por que as pessoas em nosso país estão morrendo de fome? Porque todo o

cereal está sendo enviado para a União Soviética!” Outro soava como um

aviso: “A colheita está chegando e devemos organizar um movimento para

furtar o trigo: quem quiser unir-se a nós, por favor esteja preparado!”15 Em

Lanzhou, mais de 2.700 panfletos pregaram greve geral em maio de 1962.16 Em Hainan, a grande ilha na costa de Guangdong, relatou-se que cerca de 40

mil folhetos antipartido foram distribuídos, alguns aparentemente jogados de

aviões mandados por Chiang Kai-shek.17 A extensão dessas atividades

subversivas é difícil de estimar, na medida em que os indícios de oposição

devem ter sido apagados assim que localizados. Mas, em Nanquim, em

apenas três meses, cerca de quarenta palavras de ordem e panfletos diferentes

sobre a fome foram relatados pela polícia.18

Agricultores também usavam cartazes para buscar reparação, descarregar

a ira ou denunciar um quadro. No condado de Ningjin, Hebei, Zhang Xirong

teve coragem bastante para afixar um grande mural, chamado dazibao, em

protesto contra as condições do refeitório local. Imediatamente atraiu a

atenção do Departamento de Segurança Pública e foi levado embora. Sua

opinião, de qualquer modo, foi solitária, perdida em um mar de 1,7 milhão de

panfletos, cartazes e palavras de ordem que o condado distribuiu na

campanha para aumentar a segurança pública.19 Tão teimoso quanto Xirong,

foi o camponês Wang Yutang. Sua resposta a uma campanha antidireitista,

com seus milhões de cartazes de propaganda oficial e incessantes

transmissões de rádio, foi afixar seu próprio dazibao no condado de Shishou.

“O Grande Salto Adiante em 1958 foi só bravata, os trabalhadores sofrem

muito e nossos estômagos ficam famintos”, proclamou ousadamente.20 Mas

até mesmo quando o equilíbrio de poder se inclinava pesadamente a favor do

partido, que usava um mar de propaganda para abafar os mais leves

resmungos de descontentamento, os cartazes, às vezes, atingiam a meta. No

condado de Dazhu, Sichuan, os aldeões efetivamente viraram algumas das

próprias armas de propaganda do partido contra um líder local e o

denunciaram em mais de vinte cartazes por roubar 6 yuans. A humilhação

pública foi tanta que o homem se recusou a supervisionar a colheita e foi

pescar. Os agricultores imediatamente se apossaram da safra.21

Mais populares eram os versos. Assim como exigia que cada um fosse um

soldado, Mao proclamava que cada homem e mulher era um poeta. A

população foi forçada a produzir milhões de versos no outono de 1958,

quando festivais foram organizados e prêmios entregues às melhores canções folclóricas, que celebravam com extravagante entusiasmo safras abundantes,

fábricas de aço ou medidas de conservação da água. Uma visão frenética do

futuro socialista era conjurada em estrofes rimadas produzidas aos milhões.

Só em Xangai afirmava-se que apenas 200 mil trabalhadores haviam

composto 5 milhões de poemas.22 Se grande parte da poesia oficialmente

patrocinada era banal, um espírito verdadeiramente criativo apareceu, de fato,

em cantigas espontaneamente criadas por aldeões em resposta à coletivização.

Aqui, no meio da fome, havia um alegre senso de humor que ajudava as

pessoas a atravessar os tempos de miséria. Em Xangai, um ditado popular

dizia “tudo está bem sob o camarada Mao, uma pena que ninguém possa

comer até se saciar”.23 No condado de Jiangmen, Guangdong, os agricultores

cantavam a seguinte canção:

 

Coletivização, coletivização

Ninguém ganha, alguém gasta,

Membros ganham, mas equipes gastam,

Equipes ganham, mas brigadas gastam,

Brigadas ganham, mas comunas gastam,

Apenas tolos se tornam ativistas do partido! 24

 

Um aldeão analfabeto apareceu com um poema sobre o mingau ralo servido

na cantina:

 

Entramos na cantina,

Vemos uma grande panela de mingau,

Ondas rolam em cada lado da panela,

No meio as pessoas afundam. 25

 

Oficiais locais recebiam apelidos satíricos que zombavam de sua cobiça, mau

temperamento ou glutonaria. No condado de Kaiping, Guangdong,

agricultores referiam-se a um oficial particularmente rotundo como “comida

de cachorro cozida” (yanhuogou). “Mosca dourada” e “tia mastigadora de tijolos” também eram usados. Em outros lugares, “pança grande” era comum,

e toda comuna parecia ter um demônio do submundo fantasmagórico.

Muitos quadros eram chamados de “Rei Yan”, Rei do Inferno.26 Havia ironia

também. Em Sichuan — onde, como vimos, o líder provincial Li Jingquan

observou que as pessoas ficaram ainda mais corpulentas que Mao Tsé-tung

graças à generosidade criada pela coletivização — alguns aldeões zombavam

das cantinas, dizendo que “a vantagem do rancho é que todos estamos muito

mais gordos”, referindo-se ao inchaço dos corpos no edema da fome.27

 

* * *

 

Logo abaixo da superfície da propaganda oficial, se estendia um mundo

sombrio de rumores. Eles viravam o mundo de cabeça para baixo e ofereciam

uma alternativa, forma dissidente de verdade que subvertia a informação

censurada que emanava do Estado.28 Todos davam ouvidos aos boatos e

tentavam dar sentido ao mundo mais amplo enquanto esperavam que tivesse

fim a loucura da coletivização. Boatos questionavam a legitimidade do

partido e desacreditavam as comunas do povo. Em Wuhan se temia que até

esposas pudessem ser compartilhadas.29

Boatos estimulavam ações de oposição ao Estado. Eram comuns notícias

não oficiais sobre camponeses que tomavam posse da terra ou pegavam grãos

dos celeiros estatais. Em Chaoyang, Guangdong, uma mulher vidente

proclamou que tomar comida em tempos de fome seria perdoado pelo

partido.30 Em Songzi, Hubei, cerca de sete brigadas decidiram, no inverno de

1959–60, dissolver os coletivos e dividir a terra.31 Rumores sobre distribuição

de terra também eram desenfreados em Anlu, Chongyang e Tongshan.32

“Mao morreu, a terra será devolvida ao povo!” era a mensagem repetida por

aldeões no meio da fome em Jiang’an, Sichuan.33

Divulgação ensurdecedora sobre déficit também contribuía para um

estado de caos permanente no local de produção, o que, por sua vez,

estimulava a máquina de propaganda a lançar slogans cada vez mais estrondosos. Povo e partido estavam presos em uma guerra de palavras, pois

todo dogma encontrava seu reverso em um boato. Pânicos eram despertados

quando se dizia, por exemplo, que cupons de racionamento para certos bens

tinham sido anulados. Alguns trabalhadores da Fundições de Aço Angang

compraram até 35 pares de meias em junho de 1960, quando longas filas

apareceram espontaneamente do nada para estocar todos os bens de

algodão.34 Similarmente, em uma comuna em Changle, Guangdong, um

boato de que o sal poderia ser retirado levou a um pânico local em janeiro de

1961, com pessoas tentando estocar cerca de 35 toneladas de sal em cinco

dias, quarenta vezes mais que o normal.35

Boatos de guerra e invasão iminente engolfavam comunidades inteiras e

espalhavam o medo ao virar a máquina de propaganda de cabeça para baixo.

E o medo, por sua vez, provocava um senso de coesão, enquanto imagens

apocalípticas uniam o campo desmantelado. Em Guangdong, agricultores

souberam que Guangzhou se levantara em armas e Shantou tinha sido

tomada quando Chiang Kai-shek invadira o país. Estandartes que desejavam

longa vida ao Kuomintang apareceram na estrada. A informação era precisa:

“O Kuomintang chegou à aldeia de Dongxi no dia 14!”, ou “Chiang Kai-shek

voltará em agosto!”36 Desafiando as suposições comuns sobre a vida

paroquial que os agricultores supostamente levavam em aldeias isoladas, os

rumores se espalhavam como incêndio na mata, saltando de condado em

condado e pelas províncias, e chegavam a Hunan em questão de dias.37 Em

Putian, Fujian, a província em frente a Taiwan, uma sociedade secreta

distribuiu estandartes amarelos para serem colocados em destaque após a

queda do Partido Comunista. Aparentemente, os estandartes também

protegiam contra os efeitos da radiação nuclear.38

 

* * *

 

Alguns agricultores prejudicados confiavam bastante na lei. Em Liuhe, perto

de Nanquim, um oficial roubou e mais tarde comeu uma galinha que uma

velha tentava vender. Encorajada, ela foi ao tribunal e fez uma queixa.39 Com

frequência, no entanto, o litígio não tinha significado, sobretudo porque o

sistema judiciário desabara sob a pressão política, que levou até à abolição do

Ministério da Justiça em 1959. A política estava no comando, cerceando a

justiça formal — assim como o recurso formal. No condado de Ningjin, por

exemplo, o número de quadros a cargo da polícia, da inspetoria e dos

tribunais foi reduzido à metade em 1958. Os tribunais locais estavam

inundados de casos cíveis trazidos por pessoas comuns.40

Em vez de procurar a Justiça, muitos se voltaram para a tradicional queixa

na forma de cartas e petições. Como a informação incorreta proliferava na

burocracia do partido, com todos os níveis a alimentar informes falsos e

estatísticas infladas para os níveis imediatamente acima, a segurança do

Estado tentava contornar os órgãos oficiais e chegar direto ao chão da fábrica.

Prestava muita atenção à opinião popular e estimulava cartas anônimas de

denúncia. 41 Afinal, os inimigos de classe podiam rastejar para dentro das

fileiras do partido, enquanto espiões e sabotadores espreitavam entre as

massas. A vigilância popular era necessária para afugentá-los: o povo

monitorava o partido. Até o mais insignificante joão-ninguém tinha o poder

de escrever e derrubar um oficial poderoso, um funcionário local negligente

ou um burocrata abusador. Denúncia arbitrária podia atacar a qualquer

momento os escalões superiores da escada do poder. E as pessoas escreviam

furiosamente, enviando sacos de cartas todos os meses para pedir, protestar,

denunciar ou queixar-se, às vezes tímida e humildemente, ocasionalmente

vociferantes. Algumas denunciavam os vizinhos por ninharias, outras

meramente buscavam ajuda para mudar de emprego ou de casa, e algumas

faziam longa diatribe contra o sistema inteiro e apimentavam as cartas com

slogans anticomunistas. Escreviam para os jornais, a polícia, os tribunais e o

partido. Algumas escreviam para o Conselho de Estado e não poucas

endereçavam cartas a Mao Tsé-tung pessoalmente.

Em Changsha, as autoridades provinciais recebiam cerca de 1.500 cartas

ou visitantes por mês. Muitos escreviam em busca de reparação para uma

injustiça visível e poucos se aventuravam a escrever cartas críticas o bastante para serem consideradas “reacionárias”. Aqueles que apresentavam caso

específico com pedido concreto tinham a chance de receber uma resposta.

Afinal, dentro do imenso sistema de monitoramento da burocracia do

partido, as autoridades locais tinham que mostrar que agiam em resposta aos

“pedidos das massas”.42 Em março de 1961, em Nanquim, cerca de 130 mil

cartas tinham sido recebidas desde o Grande Salto Adiante. A maioria das

queixas dizia respeito a trabalho, comida, bens e serviços, mas uma análise

mais detalhada de quatrocentas cartas “das massas” mostrava que uma em

dez fazia uma acusação direta ou ameaçava com processo.43 Em Xangai, o

departamento que recebia cartas do público contabilizou bem mais de 40 mil

missivas em 1959. As pessoas se queixavam de falta de comida, casas ruins e

más condições de trabalho, e poucas atacavam o partido e seus

representantes.44 O objetivo da denúncia era provocar uma investigação, e

algumas cartas mostravam convicção suficiente para levar as autoridades a

agir. Depois que uma queixa foi mandada para o governador provincial de

Guangdong com a alegação de que o Instituto das Nacionalidades incluíra

dezenas de estudantes fictícios em sua lista para aumentar a alocação de

cereais, uma equipe de segurança local foi enviada e conseguiu extrair várias

confissões e uma desculpa dos líderes do Instituto.45

Alguns leitores mandavam cartas para o Diário do Povo. Poucas eram

publicadas, mas seu conteúdo era resumido e circulava entre a liderança. Os

mineiros de carvão da província de Guangxi, por exemplo, escreveram para

queixar-se de que alguns desmaiavam no trabalho porque as rações tinham

sido cortadas, embora as horas de trabalho tivessem aumentado.46 O

Conselho de Estado recebia centenas de cartas por mês. Alguns missivistas

eram corajosos o bastante para atacar as políticas do Grande Salto Adiante e

lamentar as exportações de grãos em meio à fome.47 Alguns escreviam

diretamente para os líderes da cúpula. Ao fazer isso, reproduziam uma

tradição imperial muito antiga de peticionar ao imperador, mas também

demonstravam sua crença de que o abuso de poder era local e não o resultado

de uma campanha de coletivização iniciada pelo próprio Mao: “Se Mao

soubesse disso.” A justiça, certamente, sobrevivera na capital. Cartas criavam esperança. Xiang Xianzhi, garota pobre de Hunan, escondeu uma carta

endereçada ao presidente, costurada por dentro do casaco, durante um ano

inteiro, antes de entregá-la a uma equipe de investigação enviada pelo comitê

provincial do partido.48 “Querido presidente Mao” foi a abertura padrão de

saudações, por exemplo, da carta de Ye Lizhuang sobre inanição e corrupção

em Hainan. Seu apelo funcionou. Levou a uma extensa investigação da equipe

da cúpula que trouxe à luz a “opressão do povo” por membros locais do

partido.49

Muitas cartas jamais chegavam ao destino. Depois que Liu Shaoqi se

queixou pessoalmente ao ministro de Segurança Pública, Xie Fuzhi, de que

cartas enviadas a ele por vizinhos de sua aldeia tinham sido abertas pela

polícia local (ver capítulo 16), todo o caso foi revelado. Em Guizhou, o posto

de correios e o Departamento de Segurança Pública abriam rotineiramente as

cartas, o que levou à prisão de autores das denúncias por atividades

“antipartido” ou “contrarrevolucionárias”. Quando um oficial do partido

escreveu sobre a inanição em massa em Zunyi, foi interrogado durante

diversos meses e mandado para trabalhar em uma fábrica de fornos.50 Mais

de 2 mil cartas eram abertas pela polícia todos os meses no condado de

Gaotai, Gansu. O anonimato, aparentemente, oferecia pouca proteção. Em

um caso, He Jingfang enviou oito cartas sem assinar, mas a polícia local

conseguiu rastreá-lo, extrair uma confissão e mandá-lo para um campo de

trabalho.51 Em Sichuan, a carta de Du Xingmin que denunciava o secretário

do partido Song Youyu levou a brigada a uma busca frenética, em que

amostras de caligrafia foram comparadas. Du foi desmascarado e acusado de

sabotagem. Antes de ser entregue ao Departamento de Segurança Pública,

teve os olhos arrancados por um enraivecido Song. Du morreu poucos dias

depois na prisão.52 Não admira que algumas pessoas recorressem à violência

em vez de escrever cartas.