A Grande Fome de Mao
37. A contagem final
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A contagem final
Quantos morreram? Nunca haverá resposta satisfatória para essa pergunta,
no mínimo porque, no meio da grande fome, tão poucas estatísticas
confiáveis eram conservadas.
Até esse ponto, toda estimativa digna de nota se baseou nos números
oficiais de tamanho da população e nas taxas de nascimento e mortalidade
para 1950–82, publicados pela primeira vez no Anuário Estatístico de 1984,
ou em números oficiais dos censos de 1953, 1964 e 1982. Imediatamente após
a publicação do Anuário Estatístico, Basil Ashton usou a comprovação oficial
para propor um número de 30 milhões de mortes prematuras durante o
período de 1958–62, quando toda a população chinesa ficou em cerca de 650
milhões.1 Judith Banister, demógrafa profissional, também analisou as
estatísticas populacionais e concluiu que um número estimado em 30 milhões
de mortes adicionais apareceu durante 1958–61.2 Uma vez que os dados
apresentam toda uma variedade de problemas, da falta de consistência interna
ao registro incompleto de nascimentos e mortes e à exclusão das forças
armadas, diferentes autores têm usado esta ou aquela variável e diminuem ou
aumentam o número. Peng Xizhi, especialista em estudos populacionais,
propôs, em 1987, uma estimativa de 23 milhões de mortes, enquanto Jung
Chang, em seu livro sobre Mao, chegou à cifra de 38 milhões.3 Mais
recentemente, o jornalista aposentado Yang Jisheng sugeriu um montante de
mais ou menos 36 milhões — também baseado em estatísticas publicadas.4
Evidências inéditas foram produzidas em 2005, quando Cao Shuji,
demógrafo histórico de Xangai, trabalhou sistematicamente com mais de mil
jornais — histórias oficiais locais publicadas depois de 1979 por comitês do
partido de condado ou de cidade. Embora se admita que esse conjunto de
dados, amplamente diverso, repouse, no fim das contas, em números
divulgados pelo partido, também se reconhece que ele introduziu uma análise
das diferenças regionais muito mais refinada. A estimativa de Cao: 32,5
milhões de mortes prematuras.5
São confiáveis os números oficiais? Na União Soviética, o Escritório
Central de Estatísticas produzia dois conjuntos de dados demográficos, um
para uso interno e outro para publicação. E, como já vimos no caso das
requisições de grãos, os arquivos do partido na China têm conjuntos muito
diferentes de estatísticas em todos os níveis, da comuna, do condado e da
província até o centro. Alguns foram compilados no auge da loucura da
coletivização e eram destinados a transmitir zelo político. Outros, reunidos
por equipes de investigação enviadas ao campo para fiscalizar a remoção de
funcionários do partido que praticavam abusos. Em outras palavras, os
debates sobre se os números divulgados são ou não falsificados deixam passar
um ponto realmente básico. Não é necessário ninguém distorcer números:
trata-se, meramente, de uma questão de compilar um conjunto de estatísticas
que pareça o menos danoso politicamente. Ou, para pôr isso de forma
ligeiramente diferente, o fato de os dados públicos de um Estado de um só
partido não serem falsificados não os torna necessariamente confiáveis.
No mínimo, três conjuntos diferentes de dados não publicados existem
nos arquivos, principalmente nos que foram compilados pelo Departamento
de Segurança Pública, pelo comitê local do partido e pelo Departamento de
Estatística local. Ninguém jamais teve acesso a esses três conjuntos. Mas,
depois de 1979, como a nova liderança queria saber mais sobre a era maoista,
uma equipe de duzentas pessoas foi instruída por Zhao Ziyang a ir a cada
província para examinar os documentos internos do partido. O antigo
secretário de Guangdong que promovera uma campanha contra a ocultação
dos dados em 1959 era agora premiê e pediu à equipe que traçasse um quadro da China rural. O relatório da equipe nunca foi publicado, mas um de seus
membros, um antigo oficial do partido chamado Chen Yizi, fugiu para os
Estados Unidos na esteira do massacre de Tiananmen, em 1989. No exílio,
afirmou que a equipe chegara a um total de 43 a 46 milhões de pessoas mortas
pela fome.6 Apenas uma pessoa que investigou a fome levou a declaração de
Chen Yizi a sério — chama-se Jasper Becker, e o entrevistou para seu livro
Hungry Ghosts [Fantasmas famintos], publicado em 1996. A evidência dos
arquivos apresentada a seguir pela primeira vez confirma as descobertas de
Chen Yizi e põe o número de mortes prematuras conservadoramente em um
mínimo de 45 milhões para a grande fome de 1958–62.
* * *
Até Chen Yizi e sua equipe teriam encontrado dificuldades para levar adiante
a pesquisa. Em um Estado de um só partido, arquivos não são públicos.
Pertencem ao partido e são controlados pelo partido. Exceto os que estão sob
a responsabilidade do Departamento de Segurança Pública, a maioria dos
arquivos está em um edifício dentro da sede do partido. Até uma delegação de
alto nível de Pequim teria sido enganada ou deliberadamente despistada por
arquivistas experientes, mais ainda porque não havia um catálogo para cada
coleção. Acima de tudo, alguns conjuntos simplesmente faltavam. Em Hubei,
por exemplo, o arquivo do comitê do partido que deveria conter os números
de todas as mortes em excesso durante a fome está incompleto. Dentro da
pasta marrom há uma nota escrita à mão e anexada por um arquivista, datada
de junho de 1979, que lamenta que o item esteja “faltando”.7 O Departamento
de Segurança Pública, em Hubei, não ofereceu mais que uma vaga estimativa
e especulou que o índice de mortalidade em 1961 foi duas ou três vezes mais
baixo que no ano anterior. O relatório questiona sobre o número total de
mortos, mas não dá respostas.8
De qualquer modo, as três organizações — a segurança pública provincial,
o comitê provincial do partido e o departamento estatístico da província —
teriam que se apoiar em unidades de nível mais baixo na hierarquia do partido para compilar seus relatórios. E a obstrução de baixo era comum. Na
província de Gansu, o comitê provincial do partido enviou em 1962 uma
requisição de estimativas para as mortes em excesso durante a fome. O
projeto afundou porque apenas um punhado de condados respondeu.9
Até mesmo quando números eram enviados por autoridades do condado,
havia problemas. O primeiro dentre eles era a distinção entre mortes
“normais” e “anormais”. Os demógrafos distinguem entre mortes “naturais” e
“não naturais” para fazer estimativas aproximadas de quantas pessoas
morreram prematuramente em consequência da fome. Na China, a distinção
era política. Acidentes industriais, suicídios, epidemias fatais ou mortes pela
fome eram, todos, aspectos de grande preocupação para as autoridades. Eles
figuravam como índices de saúde política e social e eram diligentemente
monitorados pelos inspetores do partido. Até um único caso de suicídio
podia sinalizar que alguma coisa estava fora de ordem e justificar uma
investigação política a partir de cima. No meio da mortandade em Fuyang,
um dos sítios de horror em Anhui, onde até 70% de algumas aldeias foram
eliminados, a região reportou 10.890 mortes no primeiro trimestre de 1961,
das quais meros 524 casos foram descritos como “anormais”, incluindo 103
mortes devido à “emaciação” e ao “edema”.10 Em Rongxian, Sichuan, o
cabeça do condado, Xu Wenzheng, simplesmente decretou que, nas
estatísticas oficiais, duas regras tinham que ser seguidas: as taxas de
natalidade tinham que ser maiores que as de mortalidade e a taxa de
mortalidade não poderia ser mais alta que 2%. Em Fuling, também em
Sichuan, dois conjuntos de estatísticas eram mantidos. Para 1960, os quadros
locais conseguiram contar uma população total de 594.324 pessoas, mas
informaram 697.590, uma diferença de mais de 100 mil.11
Até mesmo quando os quadros desejavam confrontar a dura realidade da
fome, quem seria capaz de manter um registro atualizado em uma avalanche
de mortes? Em Jiangjin e Jiangbei, condados de Sichuan, até 250 pessoas
morreram por dia em dezembro de 1960: a última coisa na mente dos
funcionários locais teria sido fazer as contas todo dia para produzir uma lista
organizada do número de mortes, mesmo que seus superiores lhes pedissem
especificamente que fizessem isso.12 Quando quadros locais ou funcionários
da polícia tentavam informar, de fato, toda a extensão das mortes, geralmente
eram rotulados de direitistas. Zhao Jian, cabeça do Departamento de
Segurança Pública no condado de Wenjiang, Sichuan, compilou
sistematicamente estatísticas para 1959 e descobriu que faltavam 27 mil
pessoas, ou 16%, em comparação com o ano anterior. Foi advertido por seu
superior em nível provincial, mas se recusou a modificar suas descobertas, o
que levou diretamente à sua morte política.13
Para tornar as coisas ainda mais complicadas, a cegueira ia até o topo. O
chefe provincial Liu Zihou — como tantos outros — informou
submissamente ao presidente Mao 4.700 “mortes anormais” para toda Hebei
em 1960, muito embora sua própria equipe de inspetores tenha descoberto
que, em apenas um condado, cerca de 18 mil haviam morrido de fome a
partir de 1958.14 A ironia é que ele punia líderes de condado por ocultar a
extensão da fome, enquanto, durante todo o tempo, escondia os números
incriminadores de seus superiores em Pequim.15 Em todos os níveis,
funcionários do partido importunavam seus subordinados pela verdade, mas
enganavam seus próprios superiores e contribuíam para uma barafunda de
autoengano. Dizer que conhecimento é poder é um truísmo, mas essa
obviedade não explica suficientemente por que, quanto mais absoluto era o
poder, menos verdade conseguia produzir.
Morte em tal escala dificilmente poderia ser ocultada todo o tempo. Às
vezes, os líderes locais se arriscavam e enviavam relatórios contundentes para
cargos mais acima na hierarquia, ocasionalmente dirigidos a Chu En-lai ou ao
próprio Mao Tsé-tung. Extraordinariamente, relatórios detalhados
compilados por equipes de investigação que se espalharam pelo campo após
outubro de 1961 levaram à remoção de toda uma série de líderes que
presidiram as mortes em massa. E, às vezes, investigações retrospectivas eram
levadas a efeito nos anos posteriores à fome, à medida que o partido tentava
extrair algum sentido do que havia acontecido. O resultado não é tanto um
conjunto organizado de estatísticas que mostrem a verdade absoluta em
poucos números reveladores, mas, de fato, uma massa irregular e, às vezes, confusa de documentação compilada de diferentes formas, em tempos
diferentes, por razões diferentes, por instituições diferentes, com diferentes
graus de confiabilidade. Por isso, designar um grupo de duzentas pessoas para
filtrar os indícios teria sido uma boa ideia.
Documentos excelentes foram compilados por um poderoso
Departamento de Segurança e cobriram uma província inteira. Como vimos,
isso não aconteceu em Hubei e sim em Sichuan — de longe, a província mais
devastada de toda a China. O chefe do Departamento de Segurança autorizou
uma investigação nas estatísticas de 1954 a 1961. Os resultados questionam
muitos dos totais informados, que subestimam o número de mortes em vários
pontos percentuais só em 1960. A correção do índice de mortalidade de 1954
a 1957 foi em média de 1%. Isso aumentou para 2,5% em 1958, para 4,7% em
1959, para 5,4% em 1960 e para 2,9% em 1961. A correção acrescentou até
10,6 milhões de mortes de 1958 a 1961, das quais 7,9 milhões estavam acima
de 1% e, assim, podem ser consideradas “mortes em excesso”.16 Mas em
Sichuan, à diferença do resto do país, a fome não desapareceu em 1962.
Existem incontáveis relatórios sobre a continuidade da desnutrição em uma
variedade de condados até o fim de 1962. O Departamento de Segurança
Pública compilou números que determinaram que 1,5% da população morreu
naquele ano, o que significa que mais 300 mil sucumbiram prematuramente,
levando o total para 8,2 milhões.17 Mas até esse número é, sem dúvida, baixo
demais, no mínimo em 10% a 20%, mesmo porque em Sichuan — à diferença
de outras províncias de Gansu — o chefe do partido Li Jingquan permaneceu
firme no poder a despeito de sua responsabilidade pelas mortes de muitos
milhões de pessoas. Até mesmo em 1962, poucos líderes de condado em
Sichuan estavam preparados para contar toda a extensão do desastre.
Não há documentos similares disponíveis — até agora. Porém, temos
dados coletados por departamentos regionais de estatísticas. No caso de
Yunnan, onde a fome começou em 1958, o índice de mortalidade registrado
no ano foi de 2,2%, o dobro da média nacional de 1957: só isso pode ter
chegado a 430 mil mortes em excesso, enquanto a maioria dos historiadores
que usaram estatísticas oficiais mencionam apenas 800 mil mortes para todo
o período de 1958 a 1961.18
A melhor comprovação disponível vem de relatórios cuidadosamente
compilados em nível de aldeia, comuna e condado. Uma vez que o trabalho
do demógrafo histórico Cao Shuji, que usou diretórios geográficos do partido
para estimar taxas de mortalidade com base no condado, está em consonância
com o trabalho de outros especialistas populacionais que propõem um índice
de mortalidade de cerca de 32 milhões, os dados de Cao são uma base de
referência muito útil. O senso comum indica que os comitês locais do partido
tinham todo incentivo para subestimar taxas de mortalidade publicadas e,
nesse caso, a estimativa de Cao Shuji deve ser considerada conservadora. O
propósito do que se segue é testar as suas cifras e fornecer uma ideia
aproximada de como deveriam ser ajustadas. Não apenas o foco em entidades
menores, como condados, é muito mais acurado do que em conjuntos
maiores em nível nacional, como também nos permite eliminar numerosas
variáveis que confundiram os demógrafos que trabalham com censos, da
migração interna ao tamanho do exército, entre 1958 e 1962.
No entanto, uma taxa de mortalidade média é necessária para calcular
números de mortes “extras”. O que seria razoável? Eis aqui o que pensava, em
1961, Liu Shaoqi, o chefe do Estado, quando discutia a fome em sua cidade
natal, Huaminglou, onde centenas morriam todo mês: “O que são mortes
normais? O que são mortes anormais? Se você atira em um homem e ele
morre das feridas, ou se alguém pula em um rio, isso se qualifica como morte
anormal. Se você pegar os números dos dois últimos anos para calcular uma
taxa de mortalidade normal [...]. Uma taxa de mortalidade normal é abaixo de
1%, em geral 0,8%, uma taxa de natalidade normal é 2%, quaisquer mortes
acima de 0,8% são anormais.”19 Para usar de prudência, dadas as amplas
variações em todo o país, 1% deve ser tomado como taxa de mortalidade
normal.
No caso de Hebei, temos alguns relatórios muito detalhados relativos a
1960, compilados depois que o chefe provincial Liu Zihou deu sinal verde ao
pedir investigações sobre mortes anormais “até o nível da unidade familiar”.
Hu Kaiming, um funcionário franco do partido que chefiava Zhangjiakou e
mais tarde incorreu na ira de Mao Tsé-tung por propor mais liberdade para os camponeses determinarem seus próprios preços, informou que 1,9% da
população havia morrido em 1960, cerca de 59 mil pessoas. No condado de
Weixian, adjacente a Zhangjiakou, a taxa de mortalidade atingiu 3,4% em
1960, com a morte de 18 mil pessoas.20 Isso somou 40 mil mortes excessivas
em um ano. Usando a documentação oficial, o número de Cao Shuji para
mortes excessivas em Zhangjiakou e Weixian é de 15 mil, o total para os três
anos de fome.21 Em Tianjin e no seu entorno — dificilmente a parte mais
empobrecida do país —, 30 mil pessoas morreram em três meses no fim de
1960. Uma percentagem normal teria reclamado menos da metade dessas
vidas. O número fornecido por Cao Shuji, novamente baseado em fontes
oficiais em lugar de fontes de arquivo, é de 30 mil mortes em excesso para três
anos.22 Outro exemplo vem de Shijiazhuang, a sede de uma região que cobria
quinze condados. Ao ler com enfoque crítico os dados oficiais, Cao chega a 15
mil mortes para toda a região em três anos. Mas, só no caso da cidade de
Shijiazhuang, perto de 4 mil pessoas morreram em meros dez dias em janeiro
de 1961, quando a contagem das vítimas da fome não era mais um tabu
político.23
Tianjin, Zhangjiakou e Shijiazhuang eram cidades normalmente isoladas
da fome no campo. Um exemplo muito diferente vem de Gansu, onde o
rebaixamento de posto de Zhang Zhongliang, em novembro de 1960, foi
seguido de vários meses de investigações locais, que trouxeram à luz a
extensão da fome. No condado de Longxi, 16 mil pessoas morreram em 1959,
ou 7,5%, e 23 mil em 1960, ou 11% da população. Então, apenas naqueles dois
anos, as mortes em excesso atingiram 35 mil. Mas, nos três anos de fome, Cao
Shuji chega a 24 mil mortes.24 Os arquivos do partido dão 32 mil mortes para
o condado de Jingning, cerca de 7% por ano em 1959 e 1960. Isso contrasta
com a cifra de 19 mil mortes em excesso a que chega Cao Shuji para um
período de três anos.25 Em Zhangye, de uma população de cerca de 280 mil,
aproximadamente 5 mil pessoas morreram em novembro e 6 mil em
dezembro de 1960. Mesmo se dobrarmos a taxa percentual para 2%, isso
representaria mais de 10 mil mortes excessivas em menos de um trimestre.
Cao Shuji chega a 17 mil mortes excessivas — não para um condado em dois
meses, mas para quatro condados em um período de três anos.26 Na
primavera de 1960, cerca de 20 mil pessoas morreram só no condado de
Wuwei. Cao Shuji sugere 50 mil mortes prematuras para uma região que
compreende quatro condados, para um período de três anos.27
O comitê provincial do partido em Guizhou reconheceu em 1961 que
faltavam aproximadamente 10% da força de trabalho quando comparada à de
1957 — o que significava meio milhão de trabalhadores, sem contar crianças e
idosos.28 Nem todos morreram, obviamente, pois muitos migraram para fora
da província, mas as taxas de mortalidade eram altas em toda Guizhou, em
particular em regiões como Chishui e Meitan. Em Chishui, aproximadamente
22 mil morreram em metade de um ano — ou 10% da população.29 Cao Shuji
usa os registros oficiais do condado e propõe 46 mil mortes para um período
de três anos, o que parece bastante razoável. Mas, no caso de Meitan, 45 mil
pessoas morreram em metade de um ano. Cao Shuji sugere 105 mil para os
quatro condados em um período de três anos, o que deve ser baixo demais.30
Mais interessante ainda é que, na compilação dos dados oficiais
extremamente conscienciosa de Cao Shuji para todos os condados, faltam
alguns lugares: Yanhe, parte da região de Tongren, não é mencionada,
embora somente naquele condado tenham morrido de fome cerca de 40 mil a
50 mil pessoas.31
Em Shandong, as discrepâncias são de magnitude similar — ainda que
poucos entre os arquivos relevantes possam ser acessados por historiadores.
No condado de Pingyuan, para tomar um exemplo da parte noroeste da
província, uma investigação de alto nível observou que, de uma população de
452 mil em 1957, mais de 46 mil pessoas haviam morrido em 1961. Apesar de
24 mil nascimentos, a população total caiu para 371 mil, uma vez que dezenas
de milhares pegaram as estradas para escapar da fome — muitos morreram
em outro lugar, o que os exclui desses números. O exame de Cao Shuji dos
anais oficiais propõe 19 mil mortes prematuras para o condado de Pingyuan.
Mesmo se levarmos em consideração uma taxa de mortalidade normal de 1%
ao ano em um período de quatro anos, o total de mortes em excesso
informado na época deveria ser equivalente a 28 mil, ou 50% mais alto.32 Observação similar pode ser feita sobre Qihe, que perdeu um quinto de sua
população, ou 100 mil, entre 1957 e 1961. Se deduzirmos uma taxa normal de
mortalidade de 1% para os quatro anos e aceitarmos que cerca de metade dos
desaparecidos provavelmente migrou para outras áreas (a documentação não
é clara sobre essa questão), nós ainda ficamos com cifra comparável à de
Pingyuan, ou algo em torno de 30 mil, embora Cao Shuji sugira não mais de
19 mil, ou um terço a menos.33 Para toda a região de Lanzhou, que consiste
em Qingdao e 13 condados, a estimativa de Cao Shuji é de 164 mil mortes
prematuras em quatro anos. Mas os arquivos mostram que só no condado de
Jimo, segundo estatísticas incompletas, cerca de 47 mil pessoas morreram
(excluindo 51 mil camponeses que pegaram as estradas) em um período de
dois anos. Mesmo se deduzirmos 15 mil mortes normais para uma população
de aproximadamente 750 mil pessoas, isso deixa o condado com 32 mil
mortes prematuras — muito acima da estimativa de Cao Shuji.34
Em alguns casos, os dados dos arquivos e o material publicado coincidem.
No condado de Xinxing, Guangdong, 1,5% da população morreu em 1959,
seguido de 2,88% em 1960. Isso chegaria a um total de cerca de 5 mil,
enquanto Cao Shuji chega a um total de 8 mil mortes para os três anos.35 Para
a região muito maior de Jiangmen, também em Guangdong, que abrange
vários condados, a taxa de mortalidade atribuída pelo comitê provincial do
partido foi de 2% em 1960 (ou 120 mil mortes, metade das quais contaria
como “prematuras”). Isso é difícil de comparar com a reconstrução de Cao
dos dados oficiais, pois as fronteiras administrativas da região foram
amplamente redesenhadas depois de 1961, mas as cifras parecem grosso modo
encaixar-se em sua estimativa de 112 mil mortes em excesso para três anos.36
No caso de Sichuan, como observado acima, a pressão política sob Li
Jingquan significou que poucos condados, se não nenhum, informaram altas
taxas de mortalidade, e nenhuma delas se enquadra nas encontradas na
documentação oficial publicada décadas depois e consultada por Cao Shuji.
Nada disso pretende ser uma crítica ao trabalho de Cao Shuji: ao contrário,
sua minuciosa reconstrução do que aconteceu em nível de condado, com base
em bem mais de mil diretórios geográficos regionais, estabeleceu uma base de referência que está muito de acordo com números aferidos por demógrafos a
partir de conjuntos mais abstratos de estatísticas populacionais. Uma
comparação sistemática desses números com os dados de arquivos
compilados na época ou imediatamente após a fome não seria possível sem o
trabalho de Cao Shuji. E, quando confrontamos os dados oficiais com as
evidências dos arquivos, encontramos um padrão de subestimação, às vezes
de 30% a 50%, às vezes por um fator de três ou quatro.
Talvez alguns dos informes exagerassem as taxas de mortalidade, mas é
muito difícil ver por quê. Não havia vantagem a ser auferida em declarar
mortes extras. A taxa de mortalidade não foi uma consideração maior no
expurgo dos membros do partido após outubro de 1960. A forma da morte
importava, sendo os quadros locais classificados de acordo com níveis
diferentes de abuso. Na verdade, toda a vantagem estava em inflar a
população geral. Quando foi investigar as estatísticas em Hunan, em 1964,
uma equipe descobriu que a população geral era sistematicamente inflada em
mais de 1%, em alguns condados em até 2% ou 3%. A diferença para 1963, em
Hunan, foi de meio milhão de pessoas que existiam só no papel: “Por meio de
testes completos, descobrimos que, no passado, as cifras populacionais eram
rotineira e severamente infladas.”37 Quando o Ministério da Segurança
Pública encarregou-se de uma checagem mais ampla nas estatísticas
populacionais em 1963, descobriu padrão similar em todo o país, às vezes tão
alto quanto 2,2%, no caso de Gansu, por exemplo. “De uma população de 681
milhões hoje, estimamos que de 1% a 1,5% dos que foram contados são falsos.
Muitos quadros locais, a fim de obter rações maiores de tecido e de outros
bens, intencionalmente inflavam os números da população.”38 Um ano
depois, durante o censo oficial de 1964, o Escritório Central de Censo
confirmou que “o problema de inflar a população é muito pior do que
pensávamos”, no mínimo um milhão de pessoas foram acrescentadas para
Hebei e Hunai individualmente, e não menos de 700 mil para Shandong, três
províncias que foram detalhadamente investigadas: muito pouco podia ser
feito sobre essa questão.39
Mesmo que ignoremos algumas das disparidades mais evidentes entre os dados dos arquivos e as cifras oficiais, a defasagem é de 50% a 100%. É muito
difícil arriscar uma taxa de mortalidade alternativa, ainda mais que tantos dos
principais conjuntos estatísticos permanecem prudentemente fechados à
chave, longe dos olhos intrometidos de historiadores. Mas há evidências
suficientes de arquivo, provenientes de uma grande variedade de unidades do
partido, para confirmar que o número de 43 milhões a 46 milhões de mortes
prematuras proposto por Chen Yizi, membro sênior de um grande grupo de
trabalho que inspecionava os documentos internos do partido por volta de
1980, é, com toda probabilidade, uma estimativa confiável. A taxa de
mortalidade fica, assim, em um mínimo de 45 milhões de mortes em excesso.
Poderia ser ainda pior que isso. Alguns historiadores especulam que a cifra
real vai de 50 milhões a 60 milhões de pessoas. É improvável que saibamos a
extensão total do desastre até que os arquivos sejam completamente abertos.
Mas existem alguns números informalmente discutidos por vários
historiadores do partido. E esses números, de acordo com Chen Yizi, também
são citados em encontros internos dos membros seniores do partido sob Zhao
Ziyang.40 Yu Xiguang, pesquisador independente com grande dose de
experiência, coloca o número em 55 milhões de mortes em excesso.41