A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 21 de 43

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A Grande Fome de Mao

19. Comércio

19

 

Comércio

 

Muitos produtos nunca chegavam às lojas. O Banco da China calculou que

cerca de 300 milhões de yuans desapareceram em Hunan em 1960 em

consequência de recibos falsos, bens extraviados, vendas a crédito sem

permissão ou simplesmente sonegação. Isso foi apenas em uma província. Em

nível nacional, o Conselho de Estado estimou que cerca de 7 bilhões de yuans

em recursos ficaram nas fábricas em vez de contribuir para a circulação de

bens.1 Em todos os níveis da rede de distribuição, a corrupção e a má

administração tiravam a sua parcela, mordiscando o suprimento de bens que

o plano havia alocado para o povo.

Quando os bens conseguiam deixar o chão da fábrica, a primeira escala era

um depósito, onde companhias de armazenamento especial, credenciadas

pelo Estado, faziam a separação de acordo com a destinação final. Na

Companhia de Estocagem e Transporte em Xangai, centenas de objetos que

valiam bem mais de 100 mil yuans — telefones, refrigeradores, equipamento

médico, guindastes — se acumulavam em boxes por causa da burocracia

lenta, de contabilidade incorreta e inventários ilegíveis. Cem tonéis de pasta

de camarão apodreceram do lado de fora, na chuva, durante um mês, os

documentos extraviados e a companhia esquecida dos tonéis. Mas, acima de

tudo, os bens desapareciam porque a motivação do lucro nunca deixou de

existir realmente: o que se “perdia” podia ser comercializado privadamente

no mercado negro.2

Depois, havia a espera por trem ou caminhão. A China era agrária e pobre.

Nunca tivera a capacidade de enviar bens e suprimentos de um canto a outro

do país, e o fluxo era rapidamente desviado por um sistema de transporte que

caía aos pedaços. Já no fim de 1958, a economia reduziu de ritmo e, depois,

parou completamente, e montanhas de bens empilharam-se em todos os

lugares próximos a estações e portos. A cada dia, cerca de 38 mil veículos de

frete eram requeridos pelo plano, mas apenas 28 mil estavam disponíveis. Ao

inspecionar somente áreas de embarque ao longo da costa de Xangai, os

planejadores descobriram que 1 milhão de toneladas de material esperava por

transporte.3

A falta de equipamento, de peças de reposição e de combustível apenas

piorou as coisas nos três anos seguintes. Em 1960, em Tianjin, Pequim,

Hankou, Guangzhou e outras cidades, os bens que entravam nas estações

ferroviárias excediam os que saíam em um montante equivalente a 10 mil

toneladas todo dia. Muitos eram simplesmente empilhados em instalações de

armazenamento improvisadas, chegando a 250 mil toneladas em meados de

outubro. Em Dalian, 70 mil toneladas de frete não recolhido se deterioraram

na estação, enquanto centenas de toneladas de dispendiosa borracha

importada ficaram paradas durante seis meses no porto de Qinhuangdao. No

terminal de transporte de Zhengzhou, um fosso de seis metros de

profundidade foi cavado para que nele se descarregassem bens, de sacos de

cimento a maquinário. Boa parte estava estragada, um monte esquecido de

sacos e fardos, caixotes, barris e tonéis.4 Em Xangai, no verão de 1961, bens

estimados em 280 milhões de yuans se amontoavam em refeitórios,

dormitórios e até nas ruas, incluindo 120 milhões de metros do muito

necessitado algodão. Boa parte desse estoque simplesmente apodreceu ou

enferrujou.5

Tal era o desarranjo do sistema de transporte que trens tinham que fazer

fila e aguardar a vez de entrar na estação. Não havia equipamento nem mão

de obra para movimentar a carga. Equipamentos de descarga, novos em folha,

apresentavam defeitos, problema complicado pelo fato de 100 mil carregadores e transportadores terem sido apressadamente dispensados para

poupar salários. Logística e coordenação não estavam entre as forças da

economia planificada.6 A isso se acrescentava a falta de incentivos e,

diretamente, a fome. Os motoristas de máquinas, normalmente mimados

pelo regime, tinham, no passado, permissão pessoal para receber 25 quilos de

grão por mês, mas isso foi reduzido para 15 quilos. Em Dahushan, Liaoning,

o grão foi substituído por sorgo ou painço, enquanto em Shijiazhuang, Hebei,

metade da ração do mês era entregue em batata-doce. Os trabalhadores

faziam o mínimo, já enfraquecidos pela dieta pobre.7 O caos também afetava

o embarque internacional. Só a renda perdida como consequência de navios

fretados que tinham que esperar dias a fio nos principais portos da China

chegava a £ 300 mil.8

As redes locais também se desfizeram. Em Yunnan, antes de 1958, mais de

200 mil burros e mulas carregavam comida, roupa e suprimento para muitas

aldeias escondidas nas colinas. Foram substituídos por carretas puxadas por

cavalos, que aumentaram de 3 mil para mais de 30 mil. Mas os cavalos

custavam muito mais em ração, mal administrada por empresas estatais, e

muitos morreram durante a fome. Charretes, além do mais, não serviam para

subir montanhas íngremes e terrenos acidentados da província sulista, e

muitas aldeias pequenas ficaram isoladas.9

Caminhões paravam. Yunnan recebia apenas metade do petróleo de que

necessitava em 1960 e, em setembro, cerca de 1.500 caminhões usavam

combustíveis alternativos, de carvão fóssil a linhita, assim como açúcar de

cana e etanol.10 Em Hunan, óleo vegetal em lugar de óleo de máquina era

colocado nos motores, causando perda generalizada.11 Até em Xangai,

riquixás motorizados foram tirados das ruas e muitos ônibus passaram a usar

gás, em parte carregado em enormes sacos de aniagem improvisados em lugar

de cilindros.12 Negligência também sabotava entregas. A Companhia de

Veículos de Transporte, de Guangzhou, por exemplo, gabava-se de quarenta

carros, a maioria deles adquirida durante o Grande Salto Adiante. Desses, três

já estavam arruinados em 1961, enquanto uma média de 25 carros estava

sempre em reparo, deixando apenas uma dúzia em serviço.13 Quando os veículos eram pressionados ao limite na corrida para cumprir um plano

vacilante, os custos reais de operação aumentavam. Em 1957, segundo

estimativa, um carro custava 2,2 yuans por 100 quilômetros em peças de

reposição e substituições, e 9,7 yuans em 1961. A principal razão era uso

constante e manutenção deficiente.14

 

* * *

 

Todo tipo de bens era entregue na porta de casa na China pré-revolucionária,

carregados em cestas penduradas em varas levadas nos ombros, carrinhos de

mão ou, ocasionalmente, cestos puxados por burros. Vendedores itinerantes

chegavam até aldeias isoladas no interior, levando roupa, louça de barro,

cestos, carvão, brinquedos, doces e nozes, assim como cigarros, sabão e

loções. Nas cidades, vendedores apinhavam-se nas ruas, oferecendo todos os

itens possíveis, de meias, lenços, toalhas e sabão até roupa íntima de mulher.

Quando mascates e comerciantes se reuniam a intervalos regulares em um

lugar combinado no campo, um mercado periódico emergia: miríades de

agricultores, artesãos e comerciantes, com seus produtos às costas, ou em

carroças, fervilhavam em uma aldeia antes silenciosa, que, então, se

transformava em cenário movimentado, com artigos vendidos à beira da

estrada ou expostos em bancas temporárias. Nos vilarejos e cidades, centenas

de butiques, lojas, bazares e lojas de departamentos disputavam atenção, de

chapeleiros, sapateiros e vendedores de tecidos e roupas a fotógrafos, tudo

misturado com videntes, mágicos, acrobatas e lutadores para oferecer

diversão e comércio.

As lojas tradicionais eram baixas e os donos viviam no andar de cima,

enquanto as novas lojas de departamentos eram torres de comércio,

monumentos de comércio erguendo-se muito acima dos prédios vizinhos.

Podiam ser encontradas em qualquer cidade grande, iluminadas à noite por

fios de lâmpadas elétricas, e ofereciam bens locais e importados, de latas de

sardinha americanas a motores pequenos de carro. O contraste notável entre

as luxuosas lojas de departamentos e as tradicionais lojas de um andar, muitas vezes umas ao lado das outras, era típico da diversidade que permeava toda a

estrutura da vida diária na era republicana.15

A maior parte desse mundo alvoroçado e barulhento desapareceu depois

de 1949. O livre comércio foi substituído por uma economia planificada. Os

mercados foram fechados. Encontros espontâneos eram proibidos. Mascates e

vendedores ambulantes foram retirados das ruas e forçados a ir para empresas

coletivas controladas pelo Estado. O comerciante itinerante e o outrora

ubíquo ferreiro tornaram-se relíquias do passado. As lojas de departamentos

foram estatizadas, o suprimento constante de bens de todo o mundo se

esgotou e foi substituído por bens designados pelo Estado, produzidos em

empresas do Estado, para serem vendidos a preços estipulados pelo Estado.

Os donos de lojinhas foram obrigados a se tornar empregados do governo.

Mikhail Klochko lembrava-se de ter ido a uma obscura lojinha quase sem

produtos em Pequim. Comprou uma caixa de lápis por pena do abatido

lojista e dos dois filhos doentes.16 As únicas lojas prósperas eram as que

ficavam perto dos hotéis de turistas em cidades como Pequim e Xangai,

oferecendo peles, utensílios esmaltados, relógios, joias, imagens de paisagens

bordadas em seda e retratos de Marx, Engels, Lenin e Mao. As Lojas da

Amizade, como eram chamadas, eram exclusivas de visitantes estrangeiros e

membros da elite do partido.

Para as pessoas comuns, a escolha era terrível. Veja o exemplo de

Nanquim, cidade outrora florescente na margem sul do Yang-Tsé que servira

como capital da república. Embora o governo reprimisse o livre mercado,

ainda havia bem mais de setecentas lojas às vésperas do Grande Salto Adiante,

vendendo artigos diretamente ao público. Em 1961, apenas 130 sobreviviam.

Uma sofisticada rede de fabricantes, comerciantes e varejistas conectara a

cidade a setenta condados e mais de quarenta cidades por todo o país, e o

advento da coletivização rígida levou a uma volta para dentro, e somente seis

condados e três cidades passaram a contribuir para a indústria de artesanato

local. Enquanto o plano substituía o mercado, a variedade de produtos

artesanais desceu à metade, 1.200. Até marcas tradicionais, de grampos de

cabelo a fechaduras de mola, curvaram-se ao peso do Estado. A variedade do

design sofreu. Antes de 1958 havia 120 fechaduras diferentes disponíveis; em 1961, apenas uma dúzia sobreviveu. A maioria era tão parecida que uma

chave podia abrir várias fechaduras. Mas os preços de todos os produtos

estavam mais altos, geralmente em cerca de um terço; em alguns casos, o

dobro.17 O mesmo poderia ser dito dos gêneros alimentícios. Desde o

deslanche do Grande Salto Adiante, cerca de 2 mil mascates de comida

tinham sido forçados a mudar de ocupação em Nanquim. Antes, mascates

individuais tinham conhecimento das condições complexas do mercado e,

eficientemente, transportavam as verduras para pontos-chave de entrega na

cidade; agora, uma desajeitada e rígida economia planificada apenas

complicava os problemas causados pela fome no campo.18

Também se desintegrou o comércio de bens excedentes e sobras de

materiais, que proliferava antes de 1949. Ao louvar a prática disseminada de

reciclar todos os objetos concebíveis, Dyer Ball observou que, antes da queda

do império, a pobreza estimulava o cuidado das coisas mais insignificantes,

transformando todos em mercadores.19 Mas o exato oposto aconteceu

durante a fome: a obsessão com um plano mestre produziu, na prática,

montanhas de desperdício, pois a poucas pessoas eram concedidos incentivos

para reciclar. Em Guangzhou, cerca de 170 toneladas de sobras — de óxido de

ferro a pó de grafite — estavam empilhadas pela cidade no verão de 1959.

Antes do Grande Salto Adiante, cada pedaço de metal ou tecido teria sido

reciclado por um pequeno exército de vendedores ambulantes independentes,

que se asseguravam de que trapos, latas, plástico, papel e pneus chegassem a

um comprador em potencial. Muitos abandonaram o comércio depois de

serem forçados ao alistamento em um coletivo grande e indiferente.20

Enquanto o refugo se acumulava, a escassez dos itens mais básicos se

tornava endêmica. Em Nanquim, tudo era escasso no verão de 1959, até

sapatos e panelas.21 Filas — o marco do socialismo — eram parte da vida

diária. À medida que a fome se estabelecia, elas aumentavam. Em Jinan,

alguns trabalhadores faltavam dois dias ao trabalho para ficar na fila para

comprar grãos. Li Shujun permaneceu na fila durante três dias, mas fracassou

até em conseguir um tíquete, que tinha que ser trocado por um número, que,

por sua vez, tinha que ser trocado por grão — tudo em filas diferentes.22 Em Xangai, homens e mulheres trabalhadores também tinham que ficar na fila

pelos poucos bens que chegavam às lojas. O ritual começava antes do nascer

do dia, pois todos sabiam que à tarde as lojas já estariam vazias.23 A paciência

estava por um triz. Brigas explodiam quando pessoas usavam tijolos para

marcar lugar na fila e os tijolos eram chutados pelos outros.24 Em Wuhan,

onde, no fim de 1960, até duzentas pessoas tinham que esperar em uma única

fila durante toda a noite para comprar arroz, os temperamentos se

inflamavam e as disputas proliferavam.25

 

* * *

 

O Estado, mais que o mercado, determinava o preço dos bens. Supunha-se

que isso estabilizaria os preços e reforçaria o poder de compra do povo. Mas

os agricultores compravam bens manufaturados a preços inflacionados,

embora fossem forçados a vender grãos e outros gêneros alimentícios para o

Estado a preços ínfimos — frequentemente tão baixos que tinham prejuízo,

como vimos. Houve uma colossal transferência de riqueza do campo para as

cidades. Um indicador da escala dessa transferência foi descoberto por Lan

Ling, funcionário que inspecionava Qingdao. Compilando e ajustando preços

pagos por comida e bens desde 1949, descobriu que o preço do carvão subira

18,5%; sabão, 21,4%; sapatos, até 53%; corda, 55%; bens domésticos, até 157%;

e ferramentas comuns, 225%. Ao contrário, o preço do grão pago pelo Estado

na realidade diminuíra, variando de 4,5% para o trigo até 10,5% para o

milho.26

Os preços fixados pelo Estado raramente eram respeitados, ainda mais

porque todos os tipos de cobranças adicionais podiam ser feitos. Uma

investigação detalhada pelo Congresso do Povo em Guangzhou descobriu que

havia até quarenta preços diferentes para o mesmo tipo de barra de metal. Na

indústria do ferro e do aço, muitos preços cobrados eram, na realidade, 50%

mais altos que os ordenados pelo Estado. Em alguns casos, o preço foi

multiplicado por dez, contribuindo para uma recessão na produção

industrial, enquanto administradores da companhia se esforçavam para ajustar um orçamento rígido às violentas flutuações no custo dos

suprimentos. O preço do carvão também era fixado, mas acordos privados

fechados entre diferentes empresas levavam a uma incessante pressão para

cima. O custo real da produção subia dessa forma e forçava o Estado a

subsidiar ainda mais as indústrias, na tentativa de manter baixos os preços

dos bens acabados. Isso também falhou. Quase tudo ficou mais caro, embora

crescentemente de má qualidade, de garrafas de vidro a bolinhas de naftalina,

de grampos de cabelo a tamancos de madeira.27 Em Wuhan, como em todos

os outros lugares, o custo de um balde, de uma chaleira de ferro ou de uma

faca de frutas pequena dobrou em um ano, ou quase isso, a partir do

lançamento do Grande Salto Adiante. Na capital da fundição da China, uma

panela de ferro custava 22 yuans, enquanto 5 yuans teriam sido suficientes em

1957.28 Como Li Fuchun reconheceu, no verão de 1961, a inflação anual

estava em 10% para tudo, de comida e commodities a serviços, mas chegava a

40%–50%, em alguns lugares. Cerca de 12,5 bilhões de yuans foram

esbanjados em bens que valiam apenas 7 bilhões.29

Outros efeitos colaterais da economia planificada apareceram porque a

motivação do lucro, muito mais que a dedicação abnegada às necessidades do

povo, espreitava logo abaixo da superfície do papel do plano. Em meio à

maior fome da humanidade, toda uma variedade de produtos de luxo era

vendida a preços altos, de vegetais a entradas de cinema, de folhas de chá a

simples baldes. Empresas estatais usavam as deficiências generalizadas para

valorizar alguns de seus bens e aumentar os lucros.30 Quando o Congresso do

Povo de Pequim resolveu inspecionar a Loja de Departamentos Pequim, a

nau capitânia stalinista em Wangfujing, descobriu que as empresas

respondiam à pressão inflacionária e não à demanda do consumidor. Em

1958, cerca de 10% das roupas no interior da loja estavam na faixa de preços

mais alta. O grosso, 60%, consistia em produtos médios acessíveis à maioria

dos habitantes da cidade. Em 1961, mais da metade era de itens de luxo e

apenas um terço trazia etiqueta de preço médio. Essa mudança estrutural veio

com a inflação, estimada em 2,7% ao mês.31

* * *

 

À medida que gigantes estatais substituíam lojas pequenas, a responsabilidade

por bens defeituosos afastou-se da rua em direção a remotas e impenetráveis

burocracias.32 O plano, naturalmente, tinha uma resposta para esse problema,

instalando “estações de serviços” (fuwuzu) para o benefício das grandes

massas. Mas elas eram poucas e muito afastadas umas das outras, incapazes

de dar conta do dilúvio de bens malfeitos e, acima de tudo, profundamente

desinteressadas em prestar serviço ao povo. Então, em um país pobre, o custo

de consertar um objeto com frequência superava o custo de substituí-lo. Em

Wuhan, o gasto de mandar pôr sola no sapato, reparar panelas ou fazer

chaves era o dobro do estipulado pelo Estado, pois as estações de serviços

efetivamente tinham o monopólio do trabalho de reparação. Em Xiangtan,

Hunan, o custo para reparar um braseiro era de 8 yuans, mas comprar um

novo custava apenas 9 yuans; em algumas regiões, o custo de ter meias

cerzidas era o mesmo que comprar um par novo.33 No inverno de 1960–61,

enquanto todo mundo tremia com a escassez de combustível e roupas

inadequadas, centros de reparos na capital estavam enterrados sob pilhas de

bens defeituosos. Empregados apáticos meramente empurravam as coisas de

um lado para o outro, sem incentivo, ferramentas ou suprimentos para fazer

o trabalho. Até simples pregos para uma sola nova não estavam disponíveis.

Na comuna de Qianmen, no coração da capital, cerca de sessenta fogões

jaziam jogados, enferrujando-se. Mobília quebrada espalhava-se no local, que

não tinha serrotes, plainas, nem formões.34

Até mesmo quando as estações de serviço pegavam roupas para lavar, o

que deveria ser tarefa relativamente descomplicada se tornava uma situação

difícil, sem esperança. Uma burocracia embaraçada envolvia uma série de

passos, desde o registro dos itens à emissão de recibo para entrega das roupas

lavadas, operações feitas por pessoas diferentes, que envolviam um terço da

força de trabalho. Aqueles que lavavam, de fato, raramente conseguiam lavar

mais de dez itens por dia. Tudo era administrado com prejuízo e cobrado do

Estado, apesar dos preços altos. Na Estrada Shantou, Xangai, uma pequena lavanderia pagava 140 yuans de salário por mês, embora tivesse receita

mensal de apenas 100 yuans, sem contar os numerosos itens perdidos que

tinham de ser indenizados.35 Naturalmente, a maioria das pessoas comuns

teria preferido consertar elas próprias suas roupas, sapatos e mobília, mas as

ferramentas para isso tinham sido levadas durante a campanha do ferro e do

aço. Lao Tian lembrou que, em Xushui — uma das comunas-modelo do país

—, por vários anos, sua mãe teve que entrar na fila para pedir emprestada a

única agulha não confiscada na vizinhança.36