A Grande Fome de Mao
Parte Seis | Modos de Morrer
PARTE SEIS
MODOS DE MORRER
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Acidentes
Segurança deficiente era endêmica na economia planificada, a despeito da
detalhada legislação trabalhista e das regras meticulosas em todos os setores
do trabalho industrial, desde a provisão de roupa protetora até padrões de
iluminação. Uma rede extensiva de inspetores do trabalho — da Federação de
Sindicatos, Federação das Mulheres e Liga da Juventude Comunista, assim
como do Ministério da Saúde e Ministério do Trabalho — periodicamente
percorria oficinas, monitorava os riscos para a saúde e examinava o padrão de
vida dos trabalhadores. Esses fiscais operavam sob uma enorme pressão
política e, frequentemente, fingiam não ver o abuso disseminado, mas
podiam encaminhar relatórios severos. Apesar desse vasto aparato, gerentes
de fábrica e líderes de equipes, independentemente de simpatias pessoais por
seus trabalhadores, permaneciam obcecados com aumentos da produção.
Na prática, fanáticos e preguiçosos davam o tom. Ativistas do partido
buscavam atalhos, reduziam padrões, ignoravam a segurança e abusavam da
força de trabalho, assim como de qualquer peça de equipamento, em sua
busca incessante para corresponder às metas mais altas de produção. No chão
da fábrica e nos campos, pessoas comuns tentavam opor-se ao golpe de cada
novo impulso para aumentar a produção com a força da inércia coletiva. Mas
a apatia e a negligência generalizadas, embora tornassem mais suportável a
pressão de cima, também tinham efeito corrosivo sobre a segurança no local
de trabalho, pois as pessoas abdicavam da responsabilidade por qualquer coisa que não lhes dissesse respeito diretamente. E, como a coletivização
produzia crescente escassez de comida, roupas e combustível, técnicas muito
mais arriscadas de autoajuda apareceram, desde acender um fogão em uma
cabana de palha ao roubo de equipamento de segurança, o que, em troca,
levava a mais acidentes. A fadiga de trabalho apenas piorava as coisas, pois as
pessoas caíam no sono diante do alto-forno ou na condução de um veículo.
A isso se deve acrescentar um simples, se não apavorante, cálculo: o
fracasso em preencher uma meta podia custar a um gerente sua carreira,
enquanto a violação da segurança do trabalho provocava um mero puxão de
orelhas. A vida era barata e custava muito menos que instalar equipamento de
segurança ou observar a legislação trabalhista. Afinal de contas, o que eram
algumas poucas mortes na batalha por um futuro melhor? Como vimos, o
ministro das Relações Exteriores, Chen Yi, ao comparar o Grande Salto
Adiante a um campo de batalha, foi inflexível ao observar que uns poucos
acidentes industriais não deteriam a revolução: “Não é nada!”, disse, e
encolheu os ombros.1
Tome o exemplo do fogo. Vimos como o Ministério da Segurança Pública
estimou que cerca de 7 mil incêndios destruíram 100 milhões de yuans em
propriedades, em 1958, o ano do Grande Salto Adiante. Uma razão para a
extensão do prejuízo foi a falta de equipamento contra incêndio. O país
importava a maioria das mangueiras, bombas, extintores, chuveiros e outras
ferramentas, mas as compras no exterior estavam suspensas em um esforço
pela autossuficiência local. No final de 1958, no entanto, todas, exceto sete das
oitenta fábricas nacionais que produziam o equipamento, haviam fechado as
portas. Em alguns casos, os bombeiros tinham que ficar de mãos vazias e ver
as chamas se espalharem, impotentes para intervir.2
A situação não melhorou nos anos seguintes. Trabalhadores em cortiços
lotados, remendados com barro, bambu e palha amassados, improvisavam
fogo, que, algumas vezes, fugia de controle. Centenas de incêndios grassaram
em Nanquim em um único mês, em 1959.3 Acidentes também aconteciam
quando pessoas se esgueiravam na cantina para cozinhar refeições
sorrateiramente. Quando uma jovem acendeu um fogo em tempo seco, o vento carregou uma fagulha e pôs fogo na cabana dela, e esse fogo se tornou
um grande incêndio que destruiu vidas e propriedades.4 Quando um lampião
de querosene foi chutado durante uma obra de engenharia em Jingmen,
Hubei, um inferno ceifou sessenta vidas.5 Aldeões recrutados para trabalhar
em grandes áreas de irrigação viviam em cabanas de palha erguidas às pressas
que regularmente se incendiavam, quando trabalhadores exaustos
tropeçavam em lampiões ou acendiam furtivamente um cigarro.6 Existem
poucas estatísticas confiáveis sobre o índice real de mortes, mas, em Jiangxi,
apenas 24 incidentes queimaram ou asfixiaram 139 pessoas em um único
mês.7 Em Hunan, aproximadamente cinquenta pessoas morriam todo mês; o
Departamento de Segurança Pública listou cerca de dez incêndios por dia no
primeiro semestre de 1959.8
Os acidentes industriais disparavam, enquanto a segurança era
considerada “preocupação direitista”. Em Guizhou, o comitê provincial do
partido estimou que, no início de 1959, o número de mortes acidentais se
multiplicou por 17 em comparação com o ano anterior.9 O número exato de
baixas é desconhecido, pois poucos inspetores queriam jogar água fria no
Grande Salto Adiante com conversa sobre mortes, e as empresas
rotineiramente escondiam acidentes. Li Rui, um dos secretários de Mao
expurgado no início da Conferência de Lushan, mais tarde estimou em 50 mil
o total de acidentes fatais na indústria em 1958.10 De acordo com o Ministério
do Trabalho, cerca de 13 mil trabalhadores morreram nos primeiros oito
meses de 1960, o equivalente a mais de cinquenta mortes por dia. Embora,
provavelmente, isso seja apenas uma fração dos acidentes de fato ocorridos, o
relatório trouxe à luz alguns dos problemas que assediavam a mineração e as
indústrias de aço. Na Siderúrgica de Tangshan, mais de quarenta poderosos
altos-fornos se agrupavam em um quilômetro quadrado, mas não havia
cercas protetoras em torno dos tanques de resfriamento. Trabalhadores
escorregavam e caíam na lama fervente. Nas minas de carvão pelo país, a
ventilação inadequada permitia que gases asfixiantes e altamente inflamáveis
se acumulassem. Explosões de gás de carvão rasgavam as minas provocadas,
às vezes, por fagulhas provenientes de aparelhos elétricos defeituosos. As inundações eram outro perigo que reclamava numerosas vidas, enquanto
escoras sem manutenção caíam e enterravam homens vivos.11 Em março de
1962, uma explosão rasgou a mina de Badaojiang, no condado de Tonghua,
Jilin, e tirou a vida de 77 pessoas, embora o pior caso acontecesse,
provavelmente, na mina de Laobaitong, em Datong, onde 677 mineiros
morreram em 9 de maio de 1960.12
Explosões também aconteciam comumente em sítios menores, apesar de
tais casos serem, sem dúvida, excluídos das estatísticas reunidas pelo
Ministério do Trabalho. Em Hunan, um relatório crítico observou como os
acidentes nas minas aumentaram todos os trimestres desde o lançamento do
Grande Salto Adiante. No início de 1959, dois mineiros em média morriam
todos os dias em acidentes em algum lugar da província.13 Na mina de
Guantang, em Nanquim — aberta durante o Grande Salto Adiante —, três
detonações pesadas ocorreram em um período de duas semanas, entre outros
acidentes descritos como “evitáveis”. Lampiões caíam dentro de poços, cintos
de segurança eram postos de lado e trabalhadores inexperientes mandados
para as minas sem treinamento apropriado, às vezes até descalços. Poços e
túneis eram cavados de forma descrita como “caótica”, em profundo descaso
pela geologia local. 14
As minas de carvão custavam mais vidas que qualquer outra indústria,
mas em todos os lugares as mortes aumentavam. Sujeira e entulho
amontoavam-se nas oficinas, lixo não recolhido e peças abandonadas
espalhavam-se pelos corredores, e uma crônica falta de luz, aquecimento e
ventilação transformava o chão da fábrica em um lugar intrinsecamente
perigoso. Muitos trabalhadores não tinham sequer uniforme, que dirá roupa
protetora. Em Nanquim, explosões letais ocorreram todos os meses de 1958
em diante, enquanto a preocupação com a segurança dos trabalhadores era
descartada na perseguição por índices mais altos.15 Muitas fábricas foram
apressadamente erguidas e mal planejadas durante o Grande Salto Adiante:
em vários casos, tetos inteiros desabavam sobre os trabalhadores.16
A situação não melhorava muito quando se tratava de transporte público.
Motoristas inexperientes entravam na frota em expansão; peso e limite de velocidade eram ridicularizados, quando não denunciados como direitistas;
caminhões, trens e barcos tinham manutenção ruim e eram usados além da
margem de segurança. Ao se quebrarem, eram remendados com
equipamento de má qualidade e peças descartadas. Novamente, não há
estatísticas, mas a extensão do problema é indicada por um relatório
resumido de Hunan. Nas estradas e rios que cruzavam a província, mais de 4
mil acidentes foram registrados em 1958, causando 572 mortes. Em um caso,
um homem cego e seu colega deficiente físico operavam uma balsa.17 Na
vizinha província de Hubei, os barcos com frequência navegavam no escuro,
pois faltavam lampiões e iluminação. No lago Macang, Wuhan, um barco de
passageiros superlotado e sem nenhum equipamento de segurança se
incendiou e vinte passageiros se afogaram, em agosto de 1960. Acidentes
similares aconteciam por toda Hubei.18 Em Tianshui, Gansu, mais de cem
pessoas, a maioria estudantes, morreram em dois acidentes distintos em
menos de um mês, no inverno de 1961–62. As balsas que cruzavam o rio Wei
estavam três vezes acima do limite de passageiros.19 Os ônibus também
circulavam congestionados. Nos de Guangzhou, as pessoas viajavam
apertadas “como porcos”, e veículos quebrados eram tão comuns que
multidões de passageiros à espera dos coletivos dormiam durante dias a fio do
lado de fora da estação. Acidentes fatais eram corriqueiros.20
Desastres de trem eram menos frequentes, mas, à medida que a fome
piorava, os vagões da estrada de ferro também se tornaram condutores da
morte. Em janeiro de 1961, passageiros ficaram parados à espera de trem no
meio do campo gelado de Gansu e suportaram atrasos de até trinta horas
enquanto as máquinas se quebravam ou não tinham combustível. Não havia
comida ou água a bordo, urina e excremento espalharam-se pelos carros, e
cadáveres de passageiros famintos se acumularam rapidamente. Como o
sistema ferroviário se congestionou, multidões rebeldes também ficaram
paradas em estações ferroviárias. Em Lanzhou, até 10 mil pessoas foram
colocadas em acomodações temporárias por causa dos enormes atrasos. A
própria estação estava lotada, com milhares de passageiros que esperavam
sem provisões adequadas. Vários morriam todos os dias.21
Para cada morte acidental, várias pessoas mal escapavam com vida. Mas,
no meio da fome, até o menor ferimento podia ser fatal. Os trabalhadores
raramente recebiam compensação por um acidente industrial e com
frequência eram arruinados pelas despesas médicas ou afastados do trabalho.
No campo, a comida podia ser usada como arma por quadros ávidos. A falta
ao trabalho, até por razão médica, era motivo de diminuição da ração.
Infecções, má nutrição ou invalidez parcial reforçavam-se umas às outras,
colocando pessoas doentes em desvantagem na luta pela sobrevivência e, com
demasiada frequência, arrastando-as para um vicioso círculo de pobreza.