A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 33 de 43

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A Grande Fome de Mao

Parte Seis | Modos de Morrer

PARTE SEIS

 

MODOS DE MORRER

31

 

Acidentes

 

Segurança deficiente era endêmica na economia planificada, a despeito da

detalhada legislação trabalhista e das regras meticulosas em todos os setores

do trabalho industrial, desde a provisão de roupa protetora até padrões de

iluminação. Uma rede extensiva de inspetores do trabalho — da Federação de

Sindicatos, Federação das Mulheres e Liga da Juventude Comunista, assim

como do Ministério da Saúde e Ministério do Trabalho — periodicamente

percorria oficinas, monitorava os riscos para a saúde e examinava o padrão de

vida dos trabalhadores. Esses fiscais operavam sob uma enorme pressão

política e, frequentemente, fingiam não ver o abuso disseminado, mas

podiam encaminhar relatórios severos. Apesar desse vasto aparato, gerentes

de fábrica e líderes de equipes, independentemente de simpatias pessoais por

seus trabalhadores, permaneciam obcecados com aumentos da produção.

Na prática, fanáticos e preguiçosos davam o tom. Ativistas do partido

buscavam atalhos, reduziam padrões, ignoravam a segurança e abusavam da

força de trabalho, assim como de qualquer peça de equipamento, em sua

busca incessante para corresponder às metas mais altas de produção. No chão

da fábrica e nos campos, pessoas comuns tentavam opor-se ao golpe de cada

novo impulso para aumentar a produção com a força da inércia coletiva. Mas

a apatia e a negligência generalizadas, embora tornassem mais suportável a

pressão de cima, também tinham efeito corrosivo sobre a segurança no local

de trabalho, pois as pessoas abdicavam da responsabilidade por qualquer coisa que não lhes dissesse respeito diretamente. E, como a coletivização

produzia crescente escassez de comida, roupas e combustível, técnicas muito

mais arriscadas de autoajuda apareceram, desde acender um fogão em uma

cabana de palha ao roubo de equipamento de segurança, o que, em troca,

levava a mais acidentes. A fadiga de trabalho apenas piorava as coisas, pois as

pessoas caíam no sono diante do alto-forno ou na condução de um veículo.

A isso se deve acrescentar um simples, se não apavorante, cálculo: o

fracasso em preencher uma meta podia custar a um gerente sua carreira,

enquanto a violação da segurança do trabalho provocava um mero puxão de

orelhas. A vida era barata e custava muito menos que instalar equipamento de

segurança ou observar a legislação trabalhista. Afinal de contas, o que eram

algumas poucas mortes na batalha por um futuro melhor? Como vimos, o

ministro das Relações Exteriores, Chen Yi, ao comparar o Grande Salto

Adiante a um campo de batalha, foi inflexível ao observar que uns poucos

acidentes industriais não deteriam a revolução: “Não é nada!”, disse, e

encolheu os ombros.1

Tome o exemplo do fogo. Vimos como o Ministério da Segurança Pública

estimou que cerca de 7 mil incêndios destruíram 100 milhões de yuans em

propriedades, em 1958, o ano do Grande Salto Adiante. Uma razão para a

extensão do prejuízo foi a falta de equipamento contra incêndio. O país

importava a maioria das mangueiras, bombas, extintores, chuveiros e outras

ferramentas, mas as compras no exterior estavam suspensas em um esforço

pela autossuficiência local. No final de 1958, no entanto, todas, exceto sete das

oitenta fábricas nacionais que produziam o equipamento, haviam fechado as

portas. Em alguns casos, os bombeiros tinham que ficar de mãos vazias e ver

as chamas se espalharem, impotentes para intervir.2

A situação não melhorou nos anos seguintes. Trabalhadores em cortiços

lotados, remendados com barro, bambu e palha amassados, improvisavam

fogo, que, algumas vezes, fugia de controle. Centenas de incêndios grassaram

em Nanquim em um único mês, em 1959.3 Acidentes também aconteciam

quando pessoas se esgueiravam na cantina para cozinhar refeições

sorrateiramente. Quando uma jovem acendeu um fogo em tempo seco, o vento carregou uma fagulha e pôs fogo na cabana dela, e esse fogo se tornou

um grande incêndio que destruiu vidas e propriedades.4 Quando um lampião

de querosene foi chutado durante uma obra de engenharia em Jingmen,

Hubei, um inferno ceifou sessenta vidas.5 Aldeões recrutados para trabalhar

em grandes áreas de irrigação viviam em cabanas de palha erguidas às pressas

que regularmente se incendiavam, quando trabalhadores exaustos

tropeçavam em lampiões ou acendiam furtivamente um cigarro.6 Existem

poucas estatísticas confiáveis sobre o índice real de mortes, mas, em Jiangxi,

apenas 24 incidentes queimaram ou asfixiaram 139 pessoas em um único

mês.7 Em Hunan, aproximadamente cinquenta pessoas morriam todo mês; o

Departamento de Segurança Pública listou cerca de dez incêndios por dia no

primeiro semestre de 1959.8

Os acidentes industriais disparavam, enquanto a segurança era

considerada “preocupação direitista”. Em Guizhou, o comitê provincial do

partido estimou que, no início de 1959, o número de mortes acidentais se

multiplicou por 17 em comparação com o ano anterior.9 O número exato de

baixas é desconhecido, pois poucos inspetores queriam jogar água fria no

Grande Salto Adiante com conversa sobre mortes, e as empresas

rotineiramente escondiam acidentes. Li Rui, um dos secretários de Mao

expurgado no início da Conferência de Lushan, mais tarde estimou em 50 mil

o total de acidentes fatais na indústria em 1958.10 De acordo com o Ministério

do Trabalho, cerca de 13 mil trabalhadores morreram nos primeiros oito

meses de 1960, o equivalente a mais de cinquenta mortes por dia. Embora,

provavelmente, isso seja apenas uma fração dos acidentes de fato ocorridos, o

relatório trouxe à luz alguns dos problemas que assediavam a mineração e as

indústrias de aço. Na Siderúrgica de Tangshan, mais de quarenta poderosos

altos-fornos se agrupavam em um quilômetro quadrado, mas não havia

cercas protetoras em torno dos tanques de resfriamento. Trabalhadores

escorregavam e caíam na lama fervente. Nas minas de carvão pelo país, a

ventilação inadequada permitia que gases asfixiantes e altamente inflamáveis

se acumulassem. Explosões de gás de carvão rasgavam as minas provocadas,

às vezes, por fagulhas provenientes de aparelhos elétricos defeituosos. As inundações eram outro perigo que reclamava numerosas vidas, enquanto

escoras sem manutenção caíam e enterravam homens vivos.11 Em março de

1962, uma explosão rasgou a mina de Badaojiang, no condado de Tonghua,

Jilin, e tirou a vida de 77 pessoas, embora o pior caso acontecesse,

provavelmente, na mina de Laobaitong, em Datong, onde 677 mineiros

morreram em 9 de maio de 1960.12

Explosões também aconteciam comumente em sítios menores, apesar de

tais casos serem, sem dúvida, excluídos das estatísticas reunidas pelo

Ministério do Trabalho. Em Hunan, um relatório crítico observou como os

acidentes nas minas aumentaram todos os trimestres desde o lançamento do

Grande Salto Adiante. No início de 1959, dois mineiros em média morriam

todos os dias em acidentes em algum lugar da província.13 Na mina de

Guantang, em Nanquim — aberta durante o Grande Salto Adiante —, três

detonações pesadas ocorreram em um período de duas semanas, entre outros

acidentes descritos como “evitáveis”. Lampiões caíam dentro de poços, cintos

de segurança eram postos de lado e trabalhadores inexperientes mandados

para as minas sem treinamento apropriado, às vezes até descalços. Poços e

túneis eram cavados de forma descrita como “caótica”, em profundo descaso

pela geologia local. 14

As minas de carvão custavam mais vidas que qualquer outra indústria,

mas em todos os lugares as mortes aumentavam. Sujeira e entulho

amontoavam-se nas oficinas, lixo não recolhido e peças abandonadas

espalhavam-se pelos corredores, e uma crônica falta de luz, aquecimento e

ventilação transformava o chão da fábrica em um lugar intrinsecamente

perigoso. Muitos trabalhadores não tinham sequer uniforme, que dirá roupa

protetora. Em Nanquim, explosões letais ocorreram todos os meses de 1958

em diante, enquanto a preocupação com a segurança dos trabalhadores era

descartada na perseguição por índices mais altos.15 Muitas fábricas foram

apressadamente erguidas e mal planejadas durante o Grande Salto Adiante:

em vários casos, tetos inteiros desabavam sobre os trabalhadores.16

A situação não melhorava muito quando se tratava de transporte público.

Motoristas inexperientes entravam na frota em expansão; peso e limite de velocidade eram ridicularizados, quando não denunciados como direitistas;

caminhões, trens e barcos tinham manutenção ruim e eram usados além da

margem de segurança. Ao se quebrarem, eram remendados com

equipamento de má qualidade e peças descartadas. Novamente, não há

estatísticas, mas a extensão do problema é indicada por um relatório

resumido de Hunan. Nas estradas e rios que cruzavam a província, mais de 4

mil acidentes foram registrados em 1958, causando 572 mortes. Em um caso,

um homem cego e seu colega deficiente físico operavam uma balsa.17 Na

vizinha província de Hubei, os barcos com frequência navegavam no escuro,

pois faltavam lampiões e iluminação. No lago Macang, Wuhan, um barco de

passageiros superlotado e sem nenhum equipamento de segurança se

incendiou e vinte passageiros se afogaram, em agosto de 1960. Acidentes

similares aconteciam por toda Hubei.18 Em Tianshui, Gansu, mais de cem

pessoas, a maioria estudantes, morreram em dois acidentes distintos em

menos de um mês, no inverno de 1961–62. As balsas que cruzavam o rio Wei

estavam três vezes acima do limite de passageiros.19 Os ônibus também

circulavam congestionados. Nos de Guangzhou, as pessoas viajavam

apertadas “como porcos”, e veículos quebrados eram tão comuns que

multidões de passageiros à espera dos coletivos dormiam durante dias a fio do

lado de fora da estação. Acidentes fatais eram corriqueiros.20

Desastres de trem eram menos frequentes, mas, à medida que a fome

piorava, os vagões da estrada de ferro também se tornaram condutores da

morte. Em janeiro de 1961, passageiros ficaram parados à espera de trem no

meio do campo gelado de Gansu e suportaram atrasos de até trinta horas

enquanto as máquinas se quebravam ou não tinham combustível. Não havia

comida ou água a bordo, urina e excremento espalharam-se pelos carros, e

cadáveres de passageiros famintos se acumularam rapidamente. Como o

sistema ferroviário se congestionou, multidões rebeldes também ficaram

paradas em estações ferroviárias. Em Lanzhou, até 10 mil pessoas foram

colocadas em acomodações temporárias por causa dos enormes atrasos. A

própria estação estava lotada, com milhares de passageiros que esperavam

sem provisões adequadas. Vários morriam todos os dias.21

Para cada morte acidental, várias pessoas mal escapavam com vida. Mas,

no meio da fome, até o menor ferimento podia ser fatal. Os trabalhadores

raramente recebiam compensação por um acidente industrial e com

frequência eram arruinados pelas despesas médicas ou afastados do trabalho.

No campo, a comida podia ser usada como arma por quadros ávidos. A falta

ao trabalho, até por razão médica, era motivo de diminuição da ração.

Infecções, má nutrição ou invalidez parcial reforçavam-se umas às outras,

colocando pessoas doentes em desvantagem na luta pela sobrevivência e, com

demasiada frequência, arrastando-as para um vicioso círculo de pobreza.