A Grande Fome de Mao
3. Expurgo nas fileiras
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Expurgo nas fileiras
Em Moscou, Kruschev fornecera a Mao a munição para atirar. Não apenas o
Sputnik mostrara a habilidade da relativamente atrasada União Soviética de
passar à frente de uma nação economicamente avançada como os Estados
Unidos, como os próprios planejadores soviéticos preparavam um grande
impulso econômico similar à Maré Alta Socialista que Mao tinha sido
obrigado a abandonar.
De volta a Pequim, menos de duas semanas depois de retornar da União
Soviética, Mao assegurou o apoio do velho vice-presidente Liu Shaoqi para
um salto adiante. Homem frugal e taciturno, alto, mas ligeiramente
encurvado, com cabelos grisalhos, Liu dedicara sua carreira à linha do
partido, trabalhando regularmente noite adentro. Ele também se via como
sucessor do presidente, posição que, acreditava, viria para ele como
recompensa por anos de trabalho duro e abnegado. Poucos meses antes, o
próprio Mao indicara sua intenção de abandonar o posto de chefe de Estado
e, talvez, até tenha assegurado em particular a Liu que o apoiava em seu papel
de herdeiro aparente.1 Liu abraçou o ponto de vista de Mao: “Em quinze
anos, a União Soviética pode alcançar e ultrapassar os Estados Unidos na
produção de produtos industriais e agrícolas muito importantes. No mesmo
período de tempo, temos que alcançar e superar a Grã-Bretanha na produção
de ferro, aço e outros grandes bens industriais.”2 Antes do fim do ano, apareceram em todo o país artigos na imprensa que anunciavam grandes
avanços na conservação da água e na produção de cereais e aço. No dia do
Ano-Novo de 1958, o Diário do Povo publicou um editorial aprovado por Liu
Shaoqi que captava a visão dos líderes: “Façam tudo o que for possível e
tenham altas ambições.”3
Li Fuchun, estudioso de ar modesto, que, como chefe da Comissão de
Planejamento do Estado, enviava regularmente cópias heliográficas grossas
como catálogos telefônicos para cada província, detalhando o quanto de cada
bem deveria ser produzido, também apoiou Mao. Conterrâneo de Hunan e
conhecido do presidente desde a infância, veterano da Longa Marcha, Li foi o
primeiro entre os planejadores da economia a pular para dentro do “trio
elétrico” do Grande Salto Adiante, fosse por medo, convicção ou ambição. Ele
se somou a Liu Shaoqi nos elogios à visão ousada de Mao.4
Sob o rufar dos tambores da propaganda e instigados e adulados por Mao
em encontros privados e conferências do partido, líderes provinciais jogaram
o peso de sua influência na campanha do “façam-tudo-que-for-possível” e
prometeram metas mais altas em toda uma ampla variedade de atividades
econômicas. Em um pequeno encontro dos chefes do partido em Hangzhou,
no início de janeiro de 1958, Ke Qingshi, um homem alto com um corte de
cabelo cheio, que era prefeito de Xangai e vivia genuinamente maravilhado
com o presidente, entusiasmou-se com a “nova maré alta da construção
socialista” e propôs que o país “cavalgasse o vento e furasse as ondas”,
apoiando-se nas grandes massas.5 Rodeado de apoiadores e energizado por
Ke Qingshi, Mao não foi mais capaz de conter a ira reprimida durante vários
anos e explodiu na cara de Bo Yibo, um dos principais planejadores da
economia que resistira à sua visão. Bo era um revolucionário veterano, mas
preocupado com orçamento equilibrado. “Não vou ouvir nada dessas coisas
que você diz!”, berrou Mao. “Do que você está falando? Nos últimos anos,
parei de ler os orçamentos, mas você, simplesmente, me forçou a assiná-los de
qualquer maneira!” Depois, voltou-se para Chu En-lai: “O prefácio do meu
livro The Socialist Upsurge in the Countryside [O levante socialista no campo]
tem tido uma tremenda influência em todo o país. Isso é ‘culto à personalidade’ ou ‘idolatria’? Não obstante, jornais e revistas em todo o país o
republicaram e ele teve um enorme impacto. Então, agora, eu realmente me
tornei o ‘arquicriminoso do avanço precipitado!’”6 Havia chegado o
momento de exigir obediência e trabalho árduo e de conduzir os planejadores
para a estrada da utopia.
* * *
Situada no extremo sul do país, Nanning é conhecida como a “cidade verde”
por seu clima luxuriante, tropical, suave o bastante para o pêssego doce, a
noz-de-areca e as palmeiras vicejarem o ano inteiro. Com árvores de cítricos
em flor e uma balsâmica temperatura de 25º C no meio de janeiro, o cenário
deveria ter proporcionado algum alívio para os líderes do partido que vinham
da ventosa Pequim, mas a atmosfera era tensa. Como disse, entusiasmado,
Zhang Zhongliang, o zeloso líder da província de Gansu, “do começo ao fim,
o presidente criticou o pensamento conservador de direita!”.7 Mao deu o tom
no dia de abertura do encontro: “Não mencionem esse termo ‘oposição ao
avanço precipitado’ novamente, está bem? Isso é um problema político.
Qualquer oposição levaria ao desapontamento, e 600 milhões de pessoas
desestimuladas seriam um desastre.”8
Ao longo de vários dias, Mao perdeu a calma diversas vezes enquanto
atormentava os planejadores, acusando-os de “jogar água fria no entusiasmo
do povo” e refrear o país. Os culpados de se opor ao “avanço precipitado”
estavam a meros “cinquenta metros de distância dos direitistas”. Wu Lengxi,
editor do Diário do Povo, que publicara o editorial crítico em 20 de junho de
1956, estava bem no alto da lista de líderes convocados por Mao. O veredicto
do presidente: “Marxismo vulgar, dialética vulgar. O artigo parece ser
antiesquerdista, assim como antidireitista, mas, de fato, não é de forma
alguma antidireitista, e sim exclusivamente antiesquerdista. Está apontado
precisamente para mim.”9
Uma grande pressão foi feita sobre os líderes reunidos, e até para homens
endurecidos, acostumados aos rigores da vida partidária, o estresse logo se tornaria demasiado. Huang Jing, presidente de uma comissão responsável
pelo desenvolvimento tecnológico e ex-marido da esposa de Mao, teve um
colapso depois que o presidente o repreendeu. De cama, olhando para o teto e
murmurando coisas incompreensíveis, endereçou ao médico um olhar
desnorteado, implorando perdão: “Salve-me, salve-me!” Posto em um avião
para tratamento médico, ajoelhou-se ante Li Fuchun, que o acompanhava a
Guangzhou. Internado em um hospital militar, pulou de uma janela e
quebrou uma perna. Morreu em novembro de 1958 aos 47 anos.10
Mas o verdadeiro alvo da ira de Mao era Chu En-lai. Em 16 de janeiro,
Mao brandiu diante do premiê uma cópia de The New Shanghai Rides the
Wind and Breaks the Waves, Accelerating the Construction of Socialism [A
nova Xangai avança ao sabor do vento e fura as ondas, acelerando a
construção do socialismo]. “Bem, En-lai, você é o premiê, você acha que
poderia escrever algo tão bom assim?”, perguntou sarcasticamente. “Eu não
poderia”, murmurou o premiê, endireitando-se para absorver o ataque.
Então, depois do ritual de humilhação pública, veio o golpe: “Você não se
opõe ao ‘avanço precipitado’? Bem, eu me oponho à oposição ao ‘avanço
precipitado’!”11 Alguns líderes esquerdistas do partido entraram na briga. Ke
Qingshi e Li Jingquan, o líder radical de Sichuan, atacaram verbalmente o
premiê.12 Três dias depois, Chu fez um alentado discurso autocrítico, em que
assumia total responsabilidade pela reversão em 1956, admitindo que era o
resultado do “pensamento conservador de direita” e assumindo que ele se
desviara da política orientadora do presidente. A ideia de Mao de que os erros
do partido não deviam ser enfatizados além da conta, sendo apenas “um dedo
em dez”, estava colocada no manifesto do encontro e, assim, marginalizava os
que haviam atacado o Pequeno Salto Adiante.13
Chu En-lai, cujas maneiras suaves, afáveis, ligeiramente efeminadas o
tornaram a escolha ideal para representar a China no exterior, tinha o talento
para sempre cair na posição certa. Podia ser todo modéstia e humildade
quando necessário. Antes da vitória dos comunistas, os nacionalistas
costumavam chamá-lo Budaoweng, o nome chinês para o brinquedo “joão-
teimoso”, que sempre cai de pé.14 Antes, em sua carreira revolucionária, Chu resolvera nunca desafiar Mao. A decisão foi tomada depois que os dois se
chocaram em um incidente que deixou Mao cheio de ressentimento. Em uma
conferência em 1932, críticos da guerrilha haviam atacado Mao severamente e
entregado a Chu o comando na frente de batalha. O resultado foi um desastre,
pois, poucos anos depois, as tropas nacionalistas surrariam o Exército
Vermelho e forçariam os comunistas a fazer a Longa Marcha para longe de
suas bases. Em 1943, quando Chu percebeu que a autoridade de Mao se
tornara suprema, proclamou seu imorredouro apoio ao presidente: “A
direção e a liderança de Mao Tsé-tung”, declarou, “é a direção do Partido
Comunista Chinês”. Mas Mao não deixou que ele se safasse tão facilmente. A
submissão de Chu foi testada em uma série de encontros de autocrítica em
que ele teve que admitir seus crimes políticos e intitular a si próprio
“trapaceiro político” a quem faltavam princípios. Foi uma dura experiência de
autorrebaixamento, mas da qual Chu emergiu como o fiel assessor do
presidente. Dali em diante, uma aliança incômoda e paradoxal se
desenvolveu. Mao tinha que manter Chu a distância como potencial
competidor pelo poder; por outro lado, precisava que ele administrasse as
coisas. Mao não tinha interesse em questões de rotina diária e detalhes de
organização, e frequentemente era áspero com outras pessoas. Chu era um
administrador de primeiro escalão, com talento para a organização, e um
operador sereno e habilidoso para forjar a unidade do partido. Como diz um
biógrafo, Mao “tinha que puxar Chu para perto, mesmo quando levantava o
chicote e, às vezes, açoitava o homem sem o qual não podia viver”. 15
* * *
O açoitamento não parou em Nanning. Dois meses depois, em Chengdu, os
últimos dias de um encontro do partido foram devotados a seminários de
retificação. Mas, primeiro, Mao cuspiu desdém sobre a fé cega com que os
planejadores vinham seguindo o rumo econômico de Stalin: uma forte ênfase
em grandes complexos industriais, um vasto aparato de burocratas e um
campo cronicamente subdesenvolvido. Já em novembro de 1956, ele reprovara alguns de seus colegas por “pensar, de forma não crítica, que tudo
na União Soviética é perfeito, que até os gases intestinais são cheirosos”.16
Pensamento criativo era necessário para a China encontrar seu próprio
caminho para o comunismo em lugar de uma rígida adesão aos métodos
soviéticos, agora congelados no dogma socialista. A China deveria andar
“sobre duas pernas”, desenvolvendo simultaneamente a indústria e a
agricultura, e cuidar tanto da indústria pesada quanto da leve. E Mao, como o
líder a caminho, agora exigia obediência total. “O que há de errado com a
veneração? A verdade está em nossas mãos, por que não deveríamos adorá-la?
[...] Cada grupo deve venerar seu líder, não pode senão adorar seu líder”,
explicou; esse era o “culto correto da personalidade”.17 A mensagem foi
imediatamente entendida por Ke Qingshi, que se agitou entusiasticamente:
“Devemos ter fé cega no presidente! Devemos obedecer por completo ao
presidente!”18
Consagrado o culto de sua própria personalidade, Mao entregou a
condução do encontro a Liu Shaoqi, seu amigo político. Como praticamente
todos os participantes faziam autocrítica, a situação deve ter sido embaraçosa
para Chu. Ambos os homens eram intensamente competitivos, e Liu podia
ver Chu como ameaça às suas perspectivas de suceder o presidente.19 Naquele
dia, Liu superou Chu na adulação ao líder: “Ao longo dos anos tenho sentido
a superioridade do presidente Mao. Sou incapaz de acompanhar seu
pensamento. O presidente Mao tem um conhecimento notável, especialmente
da história chinesa, que ninguém mais no partido pode alcançar. Tem
experiência prática, especialmente em combinar a teoria marxista com a
realidade chinesa. A superioridade do presidente Mao nesses aspectos é algo
que deveríamos admirar e tentar aprender com ela.”20 Por sua vez, Chu sentia
intensa pressão para apaziguar o presidente, que lhe havia retirado autoridade
no planejamento econômico depois de Nanning. Novamente, fez longa
confissão de seus erros, mas suas palavras não impressionaram Mao.
Em maio, após um encontro formal do partido de mais de 1,3 milhão de
pessoas, Chu En-lai e o tsar econômico do partido, Chen Yun, foram
convocados para preparar mais uma autocrítica. Sem saber mais como satisfazer Mao, Chu passou dias em isolamento autoimposto, lutando para
encontrar as frases certas. Depois de uma conversa telefônica com Chen Yun,
que estava em apuro semelhante, mergulhou em tal melancolia que sua mente
simplesmente ficou em branco. Só conseguia murmurar algumas palavras,
seguidas de longos silêncios, enquanto olhava fixamente para seu secretário.
Tarde, naquela noite, sua esposa encontrou-o sentado, curvado sobre a mesa.
Tentando ajudar, o secretário escreveu uma passagem sobre Chu e Mao terem
“estado no mesmo barco em muitas tempestades”. Quando Chu mais tarde
viu o documento, iradamente repreendeu o secretário e, com os olhos cheios
de lágrimas, acusou-o de saber muito pouco da história do partido.21 No fim,
Chu rastejou, derramando-se em elogios ao presidente diante dos líderes do
partido reunidos e disse à audiência que Mao era a “personificação da
verdade” e que erros aconteciam apenas quando o partido se divorciava de
sua grande liderança. Poucos dias após essa exibição, Chu entregou a Mao
uma carta pessoal em que prometia estudar os escritos dele seriamente e
seguir todas as suas diretrizes. O presidente, finalmente, ficou satisfeito.
Declarou que Chu e outros eram bons camaradas. Chu salvara seu emprego.
Durante os primeiros meses do Grande Salto Adiante, Chu foi
repetidamente humilhado e diminuído, mas nunca retirou seu apoio,
optando, em vez disso, por aceitar tranquilamente a cruel explosão do
presidente em Nanning. Chu En-lai não tinha poder para derrubar seu amo,
mas contava com os planejadores atrás de si e poderia ter recuado — ao custo
de sua carreira. Mas aprendera a aceitar a humilhação nas mãos do presidente
como meio de se manter no poder, embora à sombra de seu colega. Chu era
leal a Mao e, como resultado disso, muitas habilidades do servo serviram de
apoio ao amo.22 Mao Tsé-tung era o visionário, Chu En-lai aquele que
transformava pesadelos em realidade. Sempre colocado à prova, trabalharia
incansavelmente no Grande Salto Adiante para demonstrar sua capacidade.
* * *
Quando Chu En-lai foi degradado em um espetáculo de poder e humilhação, outros funcionários da cúpula rapidamente se conformaram. Li Fuchun,
presidente da Comissão de Planejamento do Estado, nunca teve que recorrer
à autocrítica, pois rompeu fileiras com outros planejadores ao colaborar com
os slogans de Mao em dezembro de 1957. Chen Yun fez várias declarações
autocríticas. Li Xiannian, ministro das Finanças, e Bo Yibo, presidente da
Comissão Econômica Estatal, ambos opositores do Pequeno Salto Adiante,
em 1956, agora percebiam que não poderiam resistir à maré. Ninguém ousou
discordar. Li Fuchun e Li Xiannian foram incluídos no secretariado, o núcleo
interno do partido, depois de proclamar sua obediência a Mao.
Para aumentar a pressão política sobre o escalão superior, o presidente
também orientou uma mudança do poder do centro para as províncias.
Nanning foi a primeira de uma série de conferências de improviso
convocadas por Mao, que controlava rigorosamente a lista de participantes,
estabelecia os programas de trabalho e dominava seu desenvolvimento, o que
lhe permitia convencer seus seguidores a dar o Grande Salto Adiante. Mao
trouxe o secretariado para as províncias, em lugar de convidar as províncias
para as sessões mais formais de organismos estabelecidos, como o Conselho
de Estado, em Pequim.23 Ao fazer isso, chegou a uma corrente profunda de
insatisfação entre os líderes provinciais. Tao Lujia, primeiro-secretário de
Shanxi, falou por muitos oficiais locais quando expressou sua impaciência
com a pobreza predominante no país.24 A visão de Mao de uma China que
era “pobre e como um papel em branco” ressoou entre os idealistas que
acreditavam na capacidade do partido de catapultar o país para a dianteira de
seus rivais. “Quando você é pobre, você se inclina a ser revolucionário. Papel
em branco é ideal para escrever.”25 Líderes provinciais radicais engoliram a
visão de seu líder. Wu Zhipu, líder de Henan, anunciou formalmente uma
“revolução contínua” para esmagar opositores direitistas e saltar adiante.
Zeng Xisheng, antigo veterano do Exército de Libertação Popular e líder de
Anhui, forneceu o slogan “Lute duro por três anos para mudar a face da
China”. Mais que tudo, porém, depois de testemunhar a depreciação formal
de seus superiores em seu próprio terreno, as províncias foram estimuladas a
lançar sua própria caça às bruxas, enquanto um vento de perseguição varria o país.
* * *
Mao podia ser enigmático, deixando seus colegas se perguntarem sobre a
natureza de sua mensagem, mas, desta vez, havia muita pressão de Pequim
em relação à direção certa. Para se assegurar de que os expurgos contra os
elementos direitistas seriam conduzidos de maneira completa, Mao mandou
seu bull terrier Deng Xiaoping a uma série de encontros regionais. As
instruções eram claras. Em Gansu, Deng explicou que a luta contra os vice-
governadores Sun Diancai, Chen Chengyi e Liang Dajun tinha de ser
inequívoca.26 O chefe de Gansu, Zhang Zhongliang, não perdeu tempo e,
semanas depois, anunciou que um grupo antipartido tinha sido descoberto
dentro do comitê provincial do partido. Coincidentemente, seus líderes eram
Sun Diancai, Chen Chengyi e Liang Dajun, que foram acusados de negar as
conquistas da Maré Alta Socialista em 1956, atacar o partido, denegrir o
socialismo e promover o capitalismo — entre outros crimes abomináveis.27
Esses foram líderes poderosos derrubados com o apoio de Pequim. Os
expurgos, no entanto, eram levados adiante em todos os níveis do partido,
silenciando a maioria das vozes críticas. Poucos ousavam opor-se à linha do
partido. Em partes de Gansu, uma província pobre perto dos desertos da
Mongólia Interior, qualquer comentário crítico sobre a requisição de cereais
ou cotas excessivas se tornou impensável. A mensagem aos membros do
partido preocupados com a colheita era direta: “Vocês deveriam pensar com
cuidado se são ou não direitistas.”28 Na Universidade de Lanzhou, localizada
na capital de Gansu, aproximadamente metade de todos os estudantes
recebeu uma bandeira branca, o símbolo de um preguiçoso politicamente
conservador. Em alguns, um recado foi preso às costas: “Seu pai é um
bandeira branca.” Outros foram espancados. Os que escolhiam ficar neutros
eram denunciados como reacionários.29 O expurgo continuou durante o
tempo em que Zhang Zhongliang permaneceu no poder. Em março de 1960,
cerca de 190 mil pessoas tinham sido denunciadas e humilhadas em reuniões públicas e 40 mil oficiais foram expulsos do partido, incluindo 150 altos
funcionários provinciais.30
Expurgos semelhantes aconteceram por todo o país, com líderes radicais
aproveitando a oportunidade para se livrar de rivais mais tímidos. De
dezembro de 1957 em diante, a província sulista de Yunnan esteve nas garras
de um expurgo antidireitista que atingiu desde os antigos membros do
partido até oficiais nas aldeias. Em abril de 1958, o chefe local Xie Fuzhi, um
homem pequeno e de queixo duplo, anunciou a derrubada de líderes de um
grupo antipartido: Zheng Dun e Wang Jing, os cabeças do Departamento de
Organização, eram culpados de “localismo”, “revisionismo”, bem como de
defender o capitalismo, tentar derrubar a liderança do partido e se opor à
revolução socialista.31 No verão de 1958, a inquisição resultara na remoção de
cerca de 2 mil membros do partido. Um em cada quinze líderes partidários
foi expulso, incluindo mais de 150 poderosos oficiais que trabalhavam em
nível de condado, ou em nível mais alto, em uma das dezenas de regiões
administrativas da província. Mais 9 mil membros do partido foram tachados
de direitistas quando a campanha se estendeu.32
Grupos “antipartido” foram descobertos em quase todos os lugares. Mao
estimulava os líderes provinciais a seguir adiante. “Melhor eu do que você
como ditador”, declarou, em março de 1958, invocando palavras de Lenin. “É
semelhante nas províncias: o ditador será Jiang Hua ou Sha Wenhan?”33 Em
Zhejiang, Sha Wenham foi perseguido por Jiang Hua, e batalhas semelhantes
aconteceram em Guangdong, Mongólia Interior, Xinjiang, Gansu, Qinghai,
Anhui, Liaoning, Hebei e Yunnan, entre outras províncias.34 Em Henan, uma
das províncias que seriam mais afetadas pela fome, um líder moderado
chamado Pan Fusheng foi afastado por Wu Zhipu, zeloso seguidor de Mao.
Pan pintara um quadro sombrio da coletivização durante a Maré Alta
Socialista. “Os camponeses [...] são como burros de carga hoje. Bois amarelos
estão amarrados em casa e seres humanos estão arreados nos campos.
Garotas e mulheres empurram arados e rastelos com seus ventres crescidos. A
cooperação se transformou na exploração da força humana.”35
Aparentemente, essas críticas eram um caso gritante de recuo para o capitalismo e, em consequência, todos os seguidores de Pan foram
perseguidos, o que dividiu o partido e a província. Espantalhos com slogans
apareceram ao longo de estradas poeirentas, com os dizeres “Abaixo Pan
Fusheng”, ou “Abaixo Wu Zhipu”. A maioria dos oficiais locais podia ver
para que direção o vento soprava e pendeu para o lado de Wu Zhipu.36
Por maior que fosse a pressão, no entanto, sempre havia escolhas a fazer.
Quando Mao foi a Jiangsu e perguntou ao líder local se eles estavam
combatendo os direitistas, Jiang Weiqing reuniu coragem e disse ao
presidente que, se maus elementos existiam, ele próprio deveria ser contado
entre eles. O partido teria que se livrar dele primeiro. Mao riu: “Você não
teme ser cortado em pedaços por empurrar o imperador de seu cavalo! Bem,
então deixe disso.”37 Como resultado, menos oficiais foram denunciados em
Jiangsu que em qualquer outro lugar.
Mas raros eram os que tinham a convicção, a coragem ou a inclinação para
nadar contra a corrente. Os expurgos impregnaram as fileiras do partido até
embaixo. Assim como Mao impôs sua vontade em Pequim, os senhores locais
baixavam a lei em suas próprias províncias, denunciando qualquer oposição
como “direitismo conservador”. E, assim como as capitais provinciais tinham
a hegemonia, os líderes dos cantões e seus amigos usavam o expurgo para
eliminar os rivais e faziam vista grossa para os intimidadores locais. No local
de produção, um mundo muito afastado da utopia que estava nos papéis
começou a emergir.
Um sinal precoce veio no verão de 1958, quando um relatório circulou
entre os funcionários de alta patente mostrando como a violência se tornara a
norma durante a campanha antidireitista no condado de Fengxian, logo ao
sul de Xangai. Cem pessoas se suicidaram, muitas outras trabalharam até a
morte nos campos. Wang Wenzhong, líder do condado, deu o exemplo com
um lema que comparou “as massas” a cães amedrontados apenas à vista de
um pedaço de pau nas mãos de um oficial local. Milhares de camponeses
foram acusados de serem “proprietários de terras” ou
“contrarrevolucionários” em reuniões públicas que pontuaram a vida diária
durante meses a fio. Muitos eram rotineiramente espancados, amarrados e
torturados, alguns levados embora para campos especiais de trabalho criados
em todo o país.38
Fengxian foi um aviso horrível da escuridão que viria. No alto, entretanto,
flutuando muito acima do chão, a fé na habilidade do povo para mudar céu e
terra era ilimitada. Em dezembro de 1957, Chen Zhengren, um dos mais
confiáveis colegas de Mao, atacou o conservadorismo de “direitistas” que
obstruíam o entusiasmo das massas na campanha pela conservação da água.
Este foi o brado de guerra do Grande Salto Adiante.39