A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 5 de 43

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A Grande Fome de Mao

3. Expurgo nas fileiras

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Expurgo nas fileiras

 

Em Moscou, Kruschev fornecera a Mao a munição para atirar. Não apenas o

Sputnik mostrara a habilidade da relativamente atrasada União Soviética de

passar à frente de uma nação economicamente avançada como os Estados

Unidos, como os próprios planejadores soviéticos preparavam um grande

impulso econômico similar à Maré Alta Socialista que Mao tinha sido

obrigado a abandonar.

De volta a Pequim, menos de duas semanas depois de retornar da União

Soviética, Mao assegurou o apoio do velho vice-presidente Liu Shaoqi para

um salto adiante. Homem frugal e taciturno, alto, mas ligeiramente

encurvado, com cabelos grisalhos, Liu dedicara sua carreira à linha do

partido, trabalhando regularmente noite adentro. Ele também se via como

sucessor do presidente, posição que, acreditava, viria para ele como

recompensa por anos de trabalho duro e abnegado. Poucos meses antes, o

próprio Mao indicara sua intenção de abandonar o posto de chefe de Estado

e, talvez, até tenha assegurado em particular a Liu que o apoiava em seu papel

de herdeiro aparente.1 Liu abraçou o ponto de vista de Mao: “Em quinze

anos, a União Soviética pode alcançar e ultrapassar os Estados Unidos na

produção de produtos industriais e agrícolas muito importantes. No mesmo

período de tempo, temos que alcançar e superar a Grã-Bretanha na produção

de ferro, aço e outros grandes bens industriais.”2 Antes do fim do ano, apareceram em todo o país artigos na imprensa que anunciavam grandes

avanços na conservação da água e na produção de cereais e aço. No dia do

Ano-Novo de 1958, o Diário do Povo publicou um editorial aprovado por Liu

Shaoqi que captava a visão dos líderes: “Façam tudo o que for possível e

tenham altas ambições.”3

Li Fuchun, estudioso de ar modesto, que, como chefe da Comissão de

Planejamento do Estado, enviava regularmente cópias heliográficas grossas

como catálogos telefônicos para cada província, detalhando o quanto de cada

bem deveria ser produzido, também apoiou Mao. Conterrâneo de Hunan e

conhecido do presidente desde a infância, veterano da Longa Marcha, Li foi o

primeiro entre os planejadores da economia a pular para dentro do “trio

elétrico” do Grande Salto Adiante, fosse por medo, convicção ou ambição. Ele

se somou a Liu Shaoqi nos elogios à visão ousada de Mao.4

Sob o rufar dos tambores da propaganda e instigados e adulados por Mao

em encontros privados e conferências do partido, líderes provinciais jogaram

o peso de sua influência na campanha do “façam-tudo-que-for-possível” e

prometeram metas mais altas em toda uma ampla variedade de atividades

econômicas. Em um pequeno encontro dos chefes do partido em Hangzhou,

no início de janeiro de 1958, Ke Qingshi, um homem alto com um corte de

cabelo cheio, que era prefeito de Xangai e vivia genuinamente maravilhado

com o presidente, entusiasmou-se com a “nova maré alta da construção

socialista” e propôs que o país “cavalgasse o vento e furasse as ondas”,

apoiando-se nas grandes massas.5 Rodeado de apoiadores e energizado por

Ke Qingshi, Mao não foi mais capaz de conter a ira reprimida durante vários

anos e explodiu na cara de Bo Yibo, um dos principais planejadores da

economia que resistira à sua visão. Bo era um revolucionário veterano, mas

preocupado com orçamento equilibrado. “Não vou ouvir nada dessas coisas

que você diz!”, berrou Mao. “Do que você está falando? Nos últimos anos,

parei de ler os orçamentos, mas você, simplesmente, me forçou a assiná-los de

qualquer maneira!” Depois, voltou-se para Chu En-lai: “O prefácio do meu

livro The Socialist Upsurge in the Countryside [O levante socialista no campo]

tem tido uma tremenda influência em todo o país. Isso é ‘culto à personalidade’ ou ‘idolatria’? Não obstante, jornais e revistas em todo o país o

republicaram e ele teve um enorme impacto. Então, agora, eu realmente me

tornei o ‘arquicriminoso do avanço precipitado!’”6 Havia chegado o

momento de exigir obediência e trabalho árduo e de conduzir os planejadores

para a estrada da utopia.

 

* * *

 

Situada no extremo sul do país, Nanning é conhecida como a “cidade verde”

por seu clima luxuriante, tropical, suave o bastante para o pêssego doce, a

noz-de-areca e as palmeiras vicejarem o ano inteiro. Com árvores de cítricos

em flor e uma balsâmica temperatura de 25º C no meio de janeiro, o cenário

deveria ter proporcionado algum alívio para os líderes do partido que vinham

da ventosa Pequim, mas a atmosfera era tensa. Como disse, entusiasmado,

Zhang Zhongliang, o zeloso líder da província de Gansu, “do começo ao fim,

o presidente criticou o pensamento conservador de direita!”.7 Mao deu o tom

no dia de abertura do encontro: “Não mencionem esse termo ‘oposição ao

avanço precipitado’ novamente, está bem? Isso é um problema político.

Qualquer oposição levaria ao desapontamento, e 600 milhões de pessoas

desestimuladas seriam um desastre.”8

Ao longo de vários dias, Mao perdeu a calma diversas vezes enquanto

atormentava os planejadores, acusando-os de “jogar água fria no entusiasmo

do povo” e refrear o país. Os culpados de se opor ao “avanço precipitado”

estavam a meros “cinquenta metros de distância dos direitistas”. Wu Lengxi,

editor do Diário do Povo, que publicara o editorial crítico em 20 de junho de

1956, estava bem no alto da lista de líderes convocados por Mao. O veredicto

do presidente: “Marxismo vulgar, dialética vulgar. O artigo parece ser

antiesquerdista, assim como antidireitista, mas, de fato, não é de forma

alguma antidireitista, e sim exclusivamente antiesquerdista. Está apontado

precisamente para mim.”9

Uma grande pressão foi feita sobre os líderes reunidos, e até para homens

endurecidos, acostumados aos rigores da vida partidária, o estresse logo se tornaria demasiado. Huang Jing, presidente de uma comissão responsável

pelo desenvolvimento tecnológico e ex-marido da esposa de Mao, teve um

colapso depois que o presidente o repreendeu. De cama, olhando para o teto e

murmurando coisas incompreensíveis, endereçou ao médico um olhar

desnorteado, implorando perdão: “Salve-me, salve-me!” Posto em um avião

para tratamento médico, ajoelhou-se ante Li Fuchun, que o acompanhava a

Guangzhou. Internado em um hospital militar, pulou de uma janela e

quebrou uma perna. Morreu em novembro de 1958 aos 47 anos.10

Mas o verdadeiro alvo da ira de Mao era Chu En-lai. Em 16 de janeiro,

Mao brandiu diante do premiê uma cópia de The New Shanghai Rides the

Wind and Breaks the Waves, Accelerating the Construction of Socialism [A

nova Xangai avança ao sabor do vento e fura as ondas, acelerando a

construção do socialismo]. “Bem, En-lai, você é o premiê, você acha que

poderia escrever algo tão bom assim?”, perguntou sarcasticamente. “Eu não

poderia”, murmurou o premiê, endireitando-se para absorver o ataque.

Então, depois do ritual de humilhação pública, veio o golpe: “Você não se

opõe ao ‘avanço precipitado’? Bem, eu me oponho à oposição ao ‘avanço

precipitado’!”11 Alguns líderes esquerdistas do partido entraram na briga. Ke

Qingshi e Li Jingquan, o líder radical de Sichuan, atacaram verbalmente o

premiê.12 Três dias depois, Chu fez um alentado discurso autocrítico, em que

assumia total responsabilidade pela reversão em 1956, admitindo que era o

resultado do “pensamento conservador de direita” e assumindo que ele se

desviara da política orientadora do presidente. A ideia de Mao de que os erros

do partido não deviam ser enfatizados além da conta, sendo apenas “um dedo

em dez”, estava colocada no manifesto do encontro e, assim, marginalizava os

que haviam atacado o Pequeno Salto Adiante.13

Chu En-lai, cujas maneiras suaves, afáveis, ligeiramente efeminadas o

tornaram a escolha ideal para representar a China no exterior, tinha o talento

para sempre cair na posição certa. Podia ser todo modéstia e humildade

quando necessário. Antes da vitória dos comunistas, os nacionalistas

costumavam chamá-lo Budaoweng, o nome chinês para o brinquedo “joão-

teimoso”, que sempre cai de pé.14 Antes, em sua carreira revolucionária, Chu resolvera nunca desafiar Mao. A decisão foi tomada depois que os dois se

chocaram em um incidente que deixou Mao cheio de ressentimento. Em uma

conferência em 1932, críticos da guerrilha haviam atacado Mao severamente e

entregado a Chu o comando na frente de batalha. O resultado foi um desastre,

pois, poucos anos depois, as tropas nacionalistas surrariam o Exército

Vermelho e forçariam os comunistas a fazer a Longa Marcha para longe de

suas bases. Em 1943, quando Chu percebeu que a autoridade de Mao se

tornara suprema, proclamou seu imorredouro apoio ao presidente: “A

direção e a liderança de Mao Tsé-tung”, declarou, “é a direção do Partido

Comunista Chinês”. Mas Mao não deixou que ele se safasse tão facilmente. A

submissão de Chu foi testada em uma série de encontros de autocrítica em

que ele teve que admitir seus crimes políticos e intitular a si próprio

“trapaceiro político” a quem faltavam princípios. Foi uma dura experiência de

autorrebaixamento, mas da qual Chu emergiu como o fiel assessor do

presidente. Dali em diante, uma aliança incômoda e paradoxal se

desenvolveu. Mao tinha que manter Chu a distância como potencial

competidor pelo poder; por outro lado, precisava que ele administrasse as

coisas. Mao não tinha interesse em questões de rotina diária e detalhes de

organização, e frequentemente era áspero com outras pessoas. Chu era um

administrador de primeiro escalão, com talento para a organização, e um

operador sereno e habilidoso para forjar a unidade do partido. Como diz um

biógrafo, Mao “tinha que puxar Chu para perto, mesmo quando levantava o

chicote e, às vezes, açoitava o homem sem o qual não podia viver”. 15

 

* * *

 

O açoitamento não parou em Nanning. Dois meses depois, em Chengdu, os

últimos dias de um encontro do partido foram devotados a seminários de

retificação. Mas, primeiro, Mao cuspiu desdém sobre a fé cega com que os

planejadores vinham seguindo o rumo econômico de Stalin: uma forte ênfase

em grandes complexos industriais, um vasto aparato de burocratas e um

campo cronicamente subdesenvolvido. Já em novembro de 1956, ele reprovara alguns de seus colegas por “pensar, de forma não crítica, que tudo

na União Soviética é perfeito, que até os gases intestinais são cheirosos”.16

Pensamento criativo era necessário para a China encontrar seu próprio

caminho para o comunismo em lugar de uma rígida adesão aos métodos

soviéticos, agora congelados no dogma socialista. A China deveria andar

“sobre duas pernas”, desenvolvendo simultaneamente a indústria e a

agricultura, e cuidar tanto da indústria pesada quanto da leve. E Mao, como o

líder a caminho, agora exigia obediência total. “O que há de errado com a

veneração? A verdade está em nossas mãos, por que não deveríamos adorá-la?

[...] Cada grupo deve venerar seu líder, não pode senão adorar seu líder”,

explicou; esse era o “culto correto da personalidade”.17 A mensagem foi

imediatamente entendida por Ke Qingshi, que se agitou entusiasticamente:

“Devemos ter fé cega no presidente! Devemos obedecer por completo ao

presidente!”18

Consagrado o culto de sua própria personalidade, Mao entregou a

condução do encontro a Liu Shaoqi, seu amigo político. Como praticamente

todos os participantes faziam autocrítica, a situação deve ter sido embaraçosa

para Chu. Ambos os homens eram intensamente competitivos, e Liu podia

ver Chu como ameaça às suas perspectivas de suceder o presidente.19 Naquele

dia, Liu superou Chu na adulação ao líder: “Ao longo dos anos tenho sentido

a superioridade do presidente Mao. Sou incapaz de acompanhar seu

pensamento. O presidente Mao tem um conhecimento notável, especialmente

da história chinesa, que ninguém mais no partido pode alcançar. Tem

experiência prática, especialmente em combinar a teoria marxista com a

realidade chinesa. A superioridade do presidente Mao nesses aspectos é algo

que deveríamos admirar e tentar aprender com ela.”20 Por sua vez, Chu sentia

intensa pressão para apaziguar o presidente, que lhe havia retirado autoridade

no planejamento econômico depois de Nanning. Novamente, fez longa

confissão de seus erros, mas suas palavras não impressionaram Mao.

Em maio, após um encontro formal do partido de mais de 1,3 milhão de

pessoas, Chu En-lai e o tsar econômico do partido, Chen Yun, foram

convocados para preparar mais uma autocrítica. Sem saber mais como satisfazer Mao, Chu passou dias em isolamento autoimposto, lutando para

encontrar as frases certas. Depois de uma conversa telefônica com Chen Yun,

que estava em apuro semelhante, mergulhou em tal melancolia que sua mente

simplesmente ficou em branco. Só conseguia murmurar algumas palavras,

seguidas de longos silêncios, enquanto olhava fixamente para seu secretário.

Tarde, naquela noite, sua esposa encontrou-o sentado, curvado sobre a mesa.

Tentando ajudar, o secretário escreveu uma passagem sobre Chu e Mao terem

“estado no mesmo barco em muitas tempestades”. Quando Chu mais tarde

viu o documento, iradamente repreendeu o secretário e, com os olhos cheios

de lágrimas, acusou-o de saber muito pouco da história do partido.21 No fim,

Chu rastejou, derramando-se em elogios ao presidente diante dos líderes do

partido reunidos e disse à audiência que Mao era a “personificação da

verdade” e que erros aconteciam apenas quando o partido se divorciava de

sua grande liderança. Poucos dias após essa exibição, Chu entregou a Mao

uma carta pessoal em que prometia estudar os escritos dele seriamente e

seguir todas as suas diretrizes. O presidente, finalmente, ficou satisfeito.

Declarou que Chu e outros eram bons camaradas. Chu salvara seu emprego.

Durante os primeiros meses do Grande Salto Adiante, Chu foi

repetidamente humilhado e diminuído, mas nunca retirou seu apoio,

optando, em vez disso, por aceitar tranquilamente a cruel explosão do

presidente em Nanning. Chu En-lai não tinha poder para derrubar seu amo,

mas contava com os planejadores atrás de si e poderia ter recuado — ao custo

de sua carreira. Mas aprendera a aceitar a humilhação nas mãos do presidente

como meio de se manter no poder, embora à sombra de seu colega. Chu era

leal a Mao e, como resultado disso, muitas habilidades do servo serviram de

apoio ao amo.22 Mao Tsé-tung era o visionário, Chu En-lai aquele que

transformava pesadelos em realidade. Sempre colocado à prova, trabalharia

incansavelmente no Grande Salto Adiante para demonstrar sua capacidade.

 

* * *

 

Quando Chu En-lai foi degradado em um espetáculo de poder e humilhação, outros funcionários da cúpula rapidamente se conformaram. Li Fuchun,

presidente da Comissão de Planejamento do Estado, nunca teve que recorrer

à autocrítica, pois rompeu fileiras com outros planejadores ao colaborar com

os slogans de Mao em dezembro de 1957. Chen Yun fez várias declarações

autocríticas. Li Xiannian, ministro das Finanças, e Bo Yibo, presidente da

Comissão Econômica Estatal, ambos opositores do Pequeno Salto Adiante,

em 1956, agora percebiam que não poderiam resistir à maré. Ninguém ousou

discordar. Li Fuchun e Li Xiannian foram incluídos no secretariado, o núcleo

interno do partido, depois de proclamar sua obediência a Mao.

Para aumentar a pressão política sobre o escalão superior, o presidente

também orientou uma mudança do poder do centro para as províncias.

Nanning foi a primeira de uma série de conferências de improviso

convocadas por Mao, que controlava rigorosamente a lista de participantes,

estabelecia os programas de trabalho e dominava seu desenvolvimento, o que

lhe permitia convencer seus seguidores a dar o Grande Salto Adiante. Mao

trouxe o secretariado para as províncias, em lugar de convidar as províncias

para as sessões mais formais de organismos estabelecidos, como o Conselho

de Estado, em Pequim.23 Ao fazer isso, chegou a uma corrente profunda de

insatisfação entre os líderes provinciais. Tao Lujia, primeiro-secretário de

Shanxi, falou por muitos oficiais locais quando expressou sua impaciência

com a pobreza predominante no país.24 A visão de Mao de uma China que

era “pobre e como um papel em branco” ressoou entre os idealistas que

acreditavam na capacidade do partido de catapultar o país para a dianteira de

seus rivais. “Quando você é pobre, você se inclina a ser revolucionário. Papel

em branco é ideal para escrever.”25 Líderes provinciais radicais engoliram a

visão de seu líder. Wu Zhipu, líder de Henan, anunciou formalmente uma

“revolução contínua” para esmagar opositores direitistas e saltar adiante.

Zeng Xisheng, antigo veterano do Exército de Libertação Popular e líder de

Anhui, forneceu o slogan “Lute duro por três anos para mudar a face da

China”. Mais que tudo, porém, depois de testemunhar a depreciação formal

de seus superiores em seu próprio terreno, as províncias foram estimuladas a

lançar sua própria caça às bruxas, enquanto um vento de perseguição varria o país.

 

* * *

 

Mao podia ser enigmático, deixando seus colegas se perguntarem sobre a

natureza de sua mensagem, mas, desta vez, havia muita pressão de Pequim

em relação à direção certa. Para se assegurar de que os expurgos contra os

elementos direitistas seriam conduzidos de maneira completa, Mao mandou

seu bull terrier Deng Xiaoping a uma série de encontros regionais. As

instruções eram claras. Em Gansu, Deng explicou que a luta contra os vice-

governadores Sun Diancai, Chen Chengyi e Liang Dajun tinha de ser

inequívoca.26 O chefe de Gansu, Zhang Zhongliang, não perdeu tempo e,

semanas depois, anunciou que um grupo antipartido tinha sido descoberto

dentro do comitê provincial do partido. Coincidentemente, seus líderes eram

Sun Diancai, Chen Chengyi e Liang Dajun, que foram acusados de negar as

conquistas da Maré Alta Socialista em 1956, atacar o partido, denegrir o

socialismo e promover o capitalismo — entre outros crimes abomináveis.27

Esses foram líderes poderosos derrubados com o apoio de Pequim. Os

expurgos, no entanto, eram levados adiante em todos os níveis do partido,

silenciando a maioria das vozes críticas. Poucos ousavam opor-se à linha do

partido. Em partes de Gansu, uma província pobre perto dos desertos da

Mongólia Interior, qualquer comentário crítico sobre a requisição de cereais

ou cotas excessivas se tornou impensável. A mensagem aos membros do

partido preocupados com a colheita era direta: “Vocês deveriam pensar com

cuidado se são ou não direitistas.”28 Na Universidade de Lanzhou, localizada

na capital de Gansu, aproximadamente metade de todos os estudantes

recebeu uma bandeira branca, o símbolo de um preguiçoso politicamente

conservador. Em alguns, um recado foi preso às costas: “Seu pai é um

bandeira branca.” Outros foram espancados. Os que escolhiam ficar neutros

eram denunciados como reacionários.29 O expurgo continuou durante o

tempo em que Zhang Zhongliang permaneceu no poder. Em março de 1960,

cerca de 190 mil pessoas tinham sido denunciadas e humilhadas em reuniões públicas e 40 mil oficiais foram expulsos do partido, incluindo 150 altos

funcionários provinciais.30

Expurgos semelhantes aconteceram por todo o país, com líderes radicais

aproveitando a oportunidade para se livrar de rivais mais tímidos. De

dezembro de 1957 em diante, a província sulista de Yunnan esteve nas garras

de um expurgo antidireitista que atingiu desde os antigos membros do

partido até oficiais nas aldeias. Em abril de 1958, o chefe local Xie Fuzhi, um

homem pequeno e de queixo duplo, anunciou a derrubada de líderes de um

grupo antipartido: Zheng Dun e Wang Jing, os cabeças do Departamento de

Organização, eram culpados de “localismo”, “revisionismo”, bem como de

defender o capitalismo, tentar derrubar a liderança do partido e se opor à

revolução socialista.31 No verão de 1958, a inquisição resultara na remoção de

cerca de 2 mil membros do partido. Um em cada quinze líderes partidários

foi expulso, incluindo mais de 150 poderosos oficiais que trabalhavam em

nível de condado, ou em nível mais alto, em uma das dezenas de regiões

administrativas da província. Mais 9 mil membros do partido foram tachados

de direitistas quando a campanha se estendeu.32

Grupos “antipartido” foram descobertos em quase todos os lugares. Mao

estimulava os líderes provinciais a seguir adiante. “Melhor eu do que você

como ditador”, declarou, em março de 1958, invocando palavras de Lenin. “É

semelhante nas províncias: o ditador será Jiang Hua ou Sha Wenhan?”33 Em

Zhejiang, Sha Wenham foi perseguido por Jiang Hua, e batalhas semelhantes

aconteceram em Guangdong, Mongólia Interior, Xinjiang, Gansu, Qinghai,

Anhui, Liaoning, Hebei e Yunnan, entre outras províncias.34 Em Henan, uma

das províncias que seriam mais afetadas pela fome, um líder moderado

chamado Pan Fusheng foi afastado por Wu Zhipu, zeloso seguidor de Mao.

Pan pintara um quadro sombrio da coletivização durante a Maré Alta

Socialista. “Os camponeses [...] são como burros de carga hoje. Bois amarelos

estão amarrados em casa e seres humanos estão arreados nos campos.

Garotas e mulheres empurram arados e rastelos com seus ventres crescidos. A

cooperação se transformou na exploração da força humana.”35

Aparentemente, essas críticas eram um caso gritante de recuo para o capitalismo e, em consequência, todos os seguidores de Pan foram

perseguidos, o que dividiu o partido e a província. Espantalhos com slogans

apareceram ao longo de estradas poeirentas, com os dizeres “Abaixo Pan

Fusheng”, ou “Abaixo Wu Zhipu”. A maioria dos oficiais locais podia ver

para que direção o vento soprava e pendeu para o lado de Wu Zhipu.36

Por maior que fosse a pressão, no entanto, sempre havia escolhas a fazer.

Quando Mao foi a Jiangsu e perguntou ao líder local se eles estavam

combatendo os direitistas, Jiang Weiqing reuniu coragem e disse ao

presidente que, se maus elementos existiam, ele próprio deveria ser contado

entre eles. O partido teria que se livrar dele primeiro. Mao riu: “Você não

teme ser cortado em pedaços por empurrar o imperador de seu cavalo! Bem,

então deixe disso.”37 Como resultado, menos oficiais foram denunciados em

Jiangsu que em qualquer outro lugar.

Mas raros eram os que tinham a convicção, a coragem ou a inclinação para

nadar contra a corrente. Os expurgos impregnaram as fileiras do partido até

embaixo. Assim como Mao impôs sua vontade em Pequim, os senhores locais

baixavam a lei em suas próprias províncias, denunciando qualquer oposição

como “direitismo conservador”. E, assim como as capitais provinciais tinham

a hegemonia, os líderes dos cantões e seus amigos usavam o expurgo para

eliminar os rivais e faziam vista grossa para os intimidadores locais. No local

de produção, um mundo muito afastado da utopia que estava nos papéis

começou a emergir.

Um sinal precoce veio no verão de 1958, quando um relatório circulou

entre os funcionários de alta patente mostrando como a violência se tornara a

norma durante a campanha antidireitista no condado de Fengxian, logo ao

sul de Xangai. Cem pessoas se suicidaram, muitas outras trabalharam até a

morte nos campos. Wang Wenzhong, líder do condado, deu o exemplo com

um lema que comparou “as massas” a cães amedrontados apenas à vista de

um pedaço de pau nas mãos de um oficial local. Milhares de camponeses

foram acusados de serem “proprietários de terras” ou

“contrarrevolucionários” em reuniões públicas que pontuaram a vida diária

durante meses a fio. Muitos eram rotineiramente espancados, amarrados e

torturados, alguns levados embora para campos especiais de trabalho criados

em todo o país.38

Fengxian foi um aviso horrível da escuridão que viria. No alto, entretanto,

flutuando muito acima do chão, a fé na habilidade do povo para mudar céu e

terra era ilimitada. Em dezembro de 1957, Chen Zhengren, um dos mais

confiáveis colegas de Mao, atacou o conservadorismo de “direitistas” que

obstruíam o entusiasmo das massas na campanha pela conservação da água.

Este foi o brado de guerra do Grande Salto Adiante.39