A Grande Fome de Mao

Frank Dikötter · Capítulo 6 de 43

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A Grande Fome de Mao

4. Toque de clarim

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Toque de clarim

 

Um rio lamacento corre pelo coração da China, fluindo cerca de 5.500

quilômetros, desde as montanhas áridas em Qinghai, e deságua no mar de

Bohai, o golfo mais interior do mar Amarelo, perto de Pequim. A montante, o

rio corre por vales de montanhas onde a água é clara, mas depois de uma série

de penhascos íngremes e gargantas ele serpeia por um platô de loess,

recolhendo o sedimento macio, lodoso, deixado para trás com o passar do

tempo por tempestades de vento. À medida que mais lama e areia são

descarregadas, ele se torna ocre sujo. O lodo depositado nas partes baixas do

curso d’água leva o leito do rio a se elevar. Quando passa pela antiga cidade de

Kaifeng, o leito corre a dez metros acima dos campos vizinhos. Quando as

barrancas do rio cedem, a planície achatada do norte é facilmente inundada,

transformando o rio em um dos mais perigosos obstáculos já registrados. A

própria Kaifeng já foi inundada, abandonada e reconstruída diversas vezes.

Diques e barragens eram tradicionalmente usados como defesa contra a

inundação, mas tinham pouco efeito, já que o rio carregava cerca de 1,6

milhão de toneladas de sedimentos anualmente. “Quando as águas do rio

Amarelo ficarem claras” é um ditado chinês que equivale a “quando os porcos

voarem”.

Outro dito tradicional anuncia o surgimento de um líder miraculoso:

“Quando um grande homem emergir, o rio Amarelo se tornará claro.”

Poderia o presidente Mao domesticar o rio que causava inundações com tanta frequência que ganhou o nome de “a tristeza da China”? Cartazes de

propaganda antecipada o mostram sentado pensativamente em uma rocha à

beira do rio, ponderando, talvez, sobre maneiras de clarear a água.1 Em 1952,

quando essas fotos foram tiradas, Mao havia percorrido o rio e proferido uma

única frase, algo enigmática: “O trabalho no rio Amarelo deve ser bem-

feito.”2 Ocorreram acalorados debates sobre o plano a seguir entre os

engenheiros, enquanto Mao permanecia à margem, e uma facção em favor de

uma grande represa prevaleceu. Especialistas soviéticos, eles próprios

enamorados de projetos gigantescos, supervisionaram a parte baixa e

identificaram as Três Gargantas, em Henan, como um sítio adequado. Um

desenho para uma represa que colocava o reservatório normal de água a 360

metros de altitude foi entregue em abril de 1956, o que significava que cerca

de um milhão de pessoas teriam de ser transferidas, pois perto de 220 mil

hectares de terra seriam submersos. Foi dada a partida no projeto em abril de

1957, oficialmente, apesar das reservas de vários engenheiros hidráulicos.

Huang Wanli, geólogo treinado pelos americanos e que visitara todas as

grandes represas nos Estados Unidos, argumentou que consequências

terríveis se seguiriam à tentativa de limpar o rio dos sedimentos. Bloquear a

lama e o lodo por trás de uma barragem gigantesca limitaria a vida do

reservatório e levaria ao desastre, no final. Então, Mao interveio. “Que lixo é

esse?” foi o título irado de seu editorial, publicado em junho de 1957, pelo

Diário do Povo. O artigo listava uma série de acusações a Huang, alegando,

entre outras coisas, que ele atacara o presidente, causara dano ao partido,

propagara a democracia burguesa e admirava culturas estrangeiras.3 Toda a

crítica às Três Gargantas foi repelida.

No fim de 1958, o rio Amarelo foi bloqueado. Cerca de 6 milhões de

metros quadrados de terra tinham sido movimentados em um

empreendimento faraônico, envolvendo o trabalho de dezenas de milhares de

aldeões. Um ano depois, a represa estava pronta. A água estava clara. Mas o

projeto inicial previa várias saídas e tubos, para permitir que o sedimento

acumulado fosse jogado através da represa. Essas passagens tinham sido

bloqueadas com concreto reforçado, na pressa para completar o projeto no prazo. Em um ano, o sedimento começou a se acumular a montante do

reservatório, elevando o nível das águas e ameaçando inundar o centro

industrial de Xi’an. Reconstrução extensiva foi requerida para drenar o

sedimento, o que, por sua vez, causou queda no nível da represa. Com a

linha-d’água mais baixa, as turbinas de 150 mil quilowatts, instaladas a um

alto custo, tornaram-se completamente inúteis e tiveram de ser removidas

para outro lugar. A água não estava mais clara. Em 1961, o volume de

sedimento carregado pelo rio Amarelo havia duplicado, admitiu o próprio

Chu En-lai. Até 95% de uma seção do rio Amarelo a oeste de Zhengzhou

consistiam em lama.4 Poucos anos depois, a área estava tão sedimentada que

os estrangeiros foram proibidos de visitar a represa.5

 

* * *

 

O termo “Grande Salto Adiante” foi usado pela primeira vez no contexto do

movimento para a conservação da água lançado no fim de 1957. Determinado

a superar a Grã-Bretanha em quinze anos, Mao viu uma chave para a

industrialização rápida na substituição de trabalho por capital. As massas

eram a verdadeira riqueza do país, e elas seriam mobilizadas durante a

indolente estação do inverno antes da lavra da primavera para transformar o

campo. Se a água pudesse ser desviada para irrigar a fina camada de solo de

muitas aldeias empobrecidas que se espalhavam no norte árido, se as

inundações fossem contidas por diques gigantescos e reservatórios no sul

subtropical, a produção de cereais saltaria. Em toda a China, dezenas de

milhões de agricultores uniram-se aos projetos de irrigação: coletivamente,

assim dizia a propaganda, eles poderiam conquistar em questão de meses o

que seus antepassados haviam feito em milhares de anos. Cerca de 30 milhões

de pessoas foram recrutadas em outubro de 1957. Em janeiro, uma em cada

seis cavava terra na China. Mais de 580 milhões de metros cúbicos de rochas e

solos tinham sido movidos antes do fim do ano.6 Henan — onde a

Hidrelétrica de Três Gargantas estava sendo construída — tomou a dianteira,

quando o chefe local Wu Zhipu cruelmente empurrou a força de trabalho para projetos grandiosos destinados a impressionar Pequim. Na região

vizinha a Henan e Anhui, centro da ambiciosa campanha “Domar o rio

Huai”, que se desenvolveria durante décadas, mais de cem represas e

reservatórios foram construídos entre 1957 e 1959.7

Em um país sob o domínio do gigantismo, esquemas de irrigação maciça

apareciam por toda parte, embora a liderança desse ênfase especial ao

noroeste. Vozes críticas eram poucas e raras. Mao desconfiava dos

intelectuais e, no verão de 1957, perseguiu centenas de milhares que ousaram

expressar opinião crítica durante as Cem Flores. Mas, como vimos no

capítulo anterior, o expurgo dos líderes do partido na campanha antidireitista

do fim de 1957 em diante foi ainda mais eficaz em remover a oposição ao

Grande Salto Adiante.

Na província de Gansu, por exemplo, líderes antigos como Sun Diancai e

Liang Dajun foram denunciados como cabeças de um grupo “antipartido” e

expulsos em fevereiro de 1958. Uma das acusações levantadas contra eles foi

que haviam expressado dúvidas sobre a velocidade e extensão do movimento

pela conservação da água: para cada 50 mil hectares de terra irrigada,

afirmavam, cem aldeias pagavam com suas vidas. A remoção deles do poder

permitiu que o chefe local Zhang Zhongliang tomasse a liderança e

respondesse ao apelo de Pequim. Cerca de 3,4 milhões de agricultores, perto

de 70% da força de trabalho de Gansu, foram colocados em projetos de

irrigação que cruzavam uma das províncias mais áridas do país. Muitos

aldeões tiveram que construir pequenas represas e reservatórios, mas esses

não foram suficientes para satisfazer a liderança. Zhang Zhongliang tinha

uma visão mais ousada do futuro, de uma grande estrada de água que passava

por túneis através de montanhas cobertas de neve e acima de vales profundos

para fornecer água para as regiões central e ocidental da província. Bastante

literalmente, o rio Tao “subiria as montanhas”, ao ser desviado para cima, em

sua direção, antes de fluir por 900 quilômetros, desde as Gargantas Jiudian até

Qingyang.8 À medida que água potável limpa fosse levada para aldeias

ressequidas através da província, Gansu se tornaria um parque gigantesco, tão

viçoso e verde quanto o Palácio de Verão em Pequim.9

O trabalho começou em junho de 1958 e atraiu o apoio da liderança do

país. Em setembro de 1958, o marechal Zhu De usou sua caligrafia para

sinalizar a natureza importante do projeto. A inscrição dizia: “Elevar o rio

Tao às montanhas é uma tarefa pioneira do povo de Gansu em transformar a

natureza.”10 Mas o projeto foi atrapalhado por problemas desde o início. A

erosão do solo causava deslizamentos frequentes, reservatórios se enchiam de

sedimentos, rios transformavam-se em lama.11 Aldeões alistados no projeto

tinham que cavar cavernas nas montanhas para se abrigar do frio congelante

do inverno, saindo em busca de ervas para suplementar a magra dieta de

cereais.12 No verão de 1961, o trabalho foi suspenso e, em março de 1962, o

projeto foi completamente abandonado. Total irrigado da superfície: zero

hectare. Custo para o Estado: 100 milhões de yuans. Número de dias de

trabalho: 600 mil. Custo para o povo: inestimável. Em seu auge, cerca de 160

mil pessoas tinham sido levadas a trabalhar no projeto, e a maioria delas era

de agricultores desviados do trabalho agrícola. Pelo menos 2.400 pessoas

morreram, algumas em acidentes, mas muito mais como resultado de um

regime brutal que forçava os trabalhadores a labutar como escravos dia e

noite a fim de atingir metas cada vez mais altas.13 Tal era o frenesi com que os

oficiais puxavam os aldeões, que Tongwei, um condado empobrecido nas

montanhas, situado no coração do projeto, teria um dos mais altos índices de

mortalidade no país: inanição lenta e punição física generalizada

transformaram esse lugar desolado em um sítio de horrores.

 

* * *

 

As metas na conservação de água eram medidas pelo número de toneladas de

terra que uma província podia movimentar. Esse número mágico —

inteiramente sem ligação com a real utilidade dos projetos executados — era

então comparado em toda a nação, em um espírito de emulação que

determinava a influência política de uma província. Liu Derun, vice-diretor

do Escritório de Conservação de Água que foi estabelecido especificamente

para supervisionar a campanha, mais tarde recordaria como “o nosso trabalho diário consistia em dar telefonemas para as províncias, perguntar o

número de projetos em construção, quantas pessoas estavam envolvidas e

quanta terra tinha sido movimentada. Em retrospecto, alguns dados e

números eram reunidos com óbvio exagero, mas ninguém na época tinha

energia para checá-los”.14

Nessa campanha, o tom era estabelecido por Pequim e, na capital, Mao se

assegurava de que todos se envolvessem. Cerca de 30 quilômetros ao norte de

Pequim, em um vale sereno e escassamente povoado, protegido dos ventos do

norte por várias montanhas, muitos dos imperadores Ming e suas esposas

jazem enterrados em seus mausoléus subterrâneos. Protegidos por estátuas de

elefantes, camelos, cavalos, unicórnios e outros animais míticos, que, por sua

vez, são acompanhados de esculturas humanas em um cortejo fúnebre, esses

imperadores eram agora acusados de ter construído vastos palácios para si

enquanto seus súditos ficavam expostos a torrentes que vinham das encostas

nuas das montanhas. Em janeiro de 1958, os soldados do Exército de

Libertação Popular começaram a trabalhar em um reservatório próximo às

tumbas. Represando um rio no vale, um suprimento regular de água poderia

ajudar o povo. Tropas de choque vinham do exército. O trabalho progredia

dia e noite, a mão de obra era fornecida por fábricas e instituições na capital,

enquanto a imprensa e o rádio faziam cobertura constante para o público.

O Reservatório das Tumbas Ming deveria ser o carro-chefe do Grande

Salto Adiante, um exemplo a ser imitado pelo resto do país. Logo, dezenas de

milhares de “voluntários” da capital uniram-se ao esforço, incluindo

estudantes, oficiais e até diplomatas estrangeiros. O trabalho continuou em

todos os climas e prosseguia durante a noite à luz de tochas, lanternas e

lâmpadas de querosene. Dificilmente algum maquinário foi usado: às pessoas

que apareciam eram dadas picaretas, pás e cestas penduradas em varas para

jogar o entulho em vagões de trem. O entulho era levado para a represa e

moído até se transformar em cascalho. Rochas talhadas eram levantadas por

roldanas e guinchos. Então, em 25 de maio de 1958, Mao apareceu diante das

multidões e posou para fotógrafos com uma vara de bambu nos ombros, dois

cestos pendendo dela, um em cada ponta.15 As fotos saíram na primeira

página de cada jornal, galvanizando a nação.

Jan Rowinski, um jovem estudante da Polônia, participou da construção

desse reservatório. A ele e a outros voluntários foi dada uma vara com dois

cestos que eles enchiam de entulho, seguindo seu caminho em torno da pista

com chapéus de palha para se proteger do sol. Os trabalhadores eram

divididos em unidades de dez com um supervisor que se reportava ao

supervisor de um grupo de cem, que, por sua vez, respondia ao homem

seguinte na cadeia de comando. Todos dormiam nas tendas armadas pelos

militares ou em cabanas de camponeses, com bandeiras a proclamar que “três

anos de trabalho duro são 10 mil anos de felicidade”. Rowinski percebeu

rapidamente que os imperadores, denunciados por explorar o povo comum,

tinham, provavelmente, usado táticas semelhantes para construir a Grande

Muralha, o Canal Imperial e as Tumbas Ming — transformando dezenas de

milhares de trabalhadores armados de nada mais que uma vara de bambu em

força de trabalho dócil, mas eficiente.16

Mikhail Klochko, conselheiro estrangeiro que se oferecera como

voluntário para trabalhar, mas também cético, notou que as poucas pazadas

de terra que havia espalhado em torno tinham pouco valor propagandístico,

mas forneciam uma bem-vinda oportunidade de descanso de alguns minutos

para centenas de trabalhadores que se reuniam em torno dele e abriam a

boca, admirados com a cavação do estrangeiro. O trabalho, em sua maior

parte, era desorganizado. Algumas centenas de homens com escavadeiras e

caminhões poderiam ter feito trabalho mais eficiente que as milhares de

pessoas compelidas a participar, todas tendo que ser transportadas, alojadas e

alimentadas durante semanas a fio.17

A pressa com que esse trabalho foi executado resultou em um grande erro

de cálculo e, em abril de 1958, apareceram vazamentos no reservatório. Um

especialista polonês em solidificação do solo foi mandado às pressas de

Gdansk para congelar o solo, impedindo a água de escapar. Finalmente, a

represa foi formalmente inaugurada com banda de música e dignitários que

celebravam a cerimônia com elogios a Mao e homenagens aos trabalhadores

voluntários.18 Como tinha sido construído no lugar errado, o reservatório

secou e foi abandonado alguns anos depois.

* * *

 

Trabalhar nas Tumbas Ming pode ter sido um evento empolgante para alguns

estudantes estrangeiros, mas para a maioria das pessoas o trabalho era

extremamente exaustivo. O próprio Mao ficou transpirando após cavar meia

hora ao sol, seu rosto tornando-se brilhante. “Um esforço tão pequeno e já

estou pingando de suor”, ele disse, antes de se retirar para a tenda de

comando para descansar um pouco.19 Seu grupo mais próximo — secretários,

guarda-costas e médico particular — também foi mandado por Mao para o

reservatório. “Trabalhem até ficar exaustos. Se, realmente, não puderem

aguentar, me avisem.” O Grupo Um, como era conhecido, permaneceu como

elite privilegiada, dormindo em mantas sobre o piso de uma sala de aula,

enquanto todos os demais passavam a noite em esteiras de junco do lado de

fora. O Grupo Um também foi poupado do calor do início do verão e

designado para o turno da noite pelo general no comando. Li Zhisui, médico

particular de Mao, era saudável e ainda jovem aos 38 anos de idade, mas cavar

e carregar a terra foi o mais árduo trabalho que já fizera na vida. Após duas

semanas estava exausto, com todos os membros doendo e tremendo de frio à

noite; toda a reserva de energia de seu corpo tinha sido usada. Ninguém no

Grupo Um queria continuar, nem mesmo os fortes guarda-costas, mas quem

queria ser tachado de elemento retrógrado por sugerir que fossem embora?

Misericordiosamente foram mandados de volta para Zhongnanhai.20

Fora da capital, a pressão era muito maior, e os aldeões eram os que

suportavam a parte mais difícil da campanha, não sendo dispensados após

duas semanas de trabalho para retornar aos luxos do estilo de vida de um

oficial da elite. Eram conduzidos em grupos para canteiros de obras muito

distantes de casa e da família, obrigados a executar trabalho exaustivo durante

o dia inteiro por meses a fio, algumas vezes durante a noite, sem descanso

algum, mal alimentados e malvestidos, expostos às intempéries, fosse neve,

chuva ou calor.

Yunnan fornece um bom exemplo do que acontecia longe do brilho da

publicidade. Algumas aldeias da província subtropical começaram a trabalhar no reservatório no inverno de 1957–58, mas o chefe local não se

impressionou. No início de janeiro de 1958, Xie Fuzhi, o homem que poucos

meses depois expurgaria seus colegas tão cruelmente no movimento

antidireitista, queixou-se em voz alta de que demasiados agricultores eram

preguiçosos que fracassavam em executar seus deveres coletivos nos meses

calmos de inverno. Oito horas de trabalho por dia era o mínimo estrito para

todo adulto, enquanto o volume de comida consumido pelos trabalhadores

nos projetos de irrigação deveria ser reduzido.21 Então, em 15 de janeiro, o

Diário do Povo listou Yunnan como um dos piores desempenhos na

campanha de conservação da água.22 Determinado a recuperar o terreno

perdido, Xie convocou uma reunião de emergência no dia seguinte. Até

metade da força de trabalho da província deveria juntar-se ao movimento,

ordenou, e os aldeões passariam a trabalhar até dez horas por dia, durante a

noite, se necessário. Os ociosos seriam punidos, e as metas deveriam ser

alcançadas a todo custo. Os oficiais que falhassem seriam demitidos.23

Surgindo no meio de uma campanha antidireitista que já afastara milhares de

quadros locais do trabalho, essa não era uma ameaça vazia. Os resultados

apareceram prontamente. Em 19 de janeiro, o Diário do Povo registrou que

Yunnan, apontada poucos dias antes, tinha agora 2,5 milhões de pessoas, um

terço da força de trabalho, movimentando terra.24 Entusiasmado, Xie Fuzhi

declarou que a província seria completamente irrigada em três anos.25

O custo do sucesso foi alto. Em Chuxiong, perto de um lago grande como

um mar nas montanhas, os agricultores alistados nos projetos de irrigação

eram rotineiramente ofendidos e espancados. Aldeões eram amarrados por

roubar alguns vegetais; outros, que fracassavam em trabalhar duro o bastante,

eram picados com facas por oficiais que tentavam impor um regime cruel de

trabalho. Um campo de trabalho improvisado cuidava dos elementos

recalcitrantes. Os líderes do partido em posições mais elevadas na cadeia de

comando tinham conhecimento dessas práticas. Em abril de 1958, uma

equipe foi enviada de Yunnan pelo comitê provincial do partido para

investigar o condado. Rumores esperançosos começaram a circular entre os

aldeões, um indivíduo corajoso tentou reunir apoio para uma queixa coletiva sobre comida insuficiente e longas horas de trabalho. Foi denunciado como

“reacionário” e “sabotador” no relatório final enviado a Xie Fuzhi.26

Cerca de 130 quilômetros a leste da capital provincial, Kunming, no meio

de uma floresta primeva com montanhas escarpadas modeladas em areia e

pedra pela erosão, o condado de Luliang tinha sido barbarizado pelo comitê

provincial do partido por ceder às “exigências de cereais por agricultores

direitistas” em 1957. O novo líder Chen Shengnian, rigidamente aderido à

linha do partido, organizou esquadrões militares para patrulhar as ruas da

cidade com chicotes de couro, assegurando-se de que os aldeões doentes

saíssem para trabalhar nos campos.27 Os primeiros casos de morte por

inanição surgiram em fevereiro de 1958. Em junho, o edema, ou retenção de

líquido, estava disseminado, e mil trabalhadores morreram de fome, tendo a

maioria trabalhado no reservatório de Xichong. O edema acontece quando o

líquido se acumula nos pés, tornozelos e pernas ou sob a pele de outras partes

do corpo. Em países desenvolvidos, pode ser causado por pequenas mudanças

no comportamento, como, por exemplo, comer sal demais, ou ficar de pé por

muito tempo quando o clima está quente. Em países pobres, no entanto, é

causado por falta de proteína e visto como sintoma de má nutrição; é

chamado, às vezes, de edema da fome. Em Luliang, equipes médicas foram

despachadas em várias ocasiões para investigar os casos, mas, no meio de uma

campanha antidireitista, ninguém tinha coragem de identificar o edema como

uma condição em geral causada pela fome — como era bem sabido em um

país com longo registro de fome. Alguns médicos até se perguntaram se

poderia ser uma doença contagiosa e prescreveram antibióticos em lugar de

descanso e comida.28 A princípio os corpos dos mortos eram enterrados em

caixões, mas, depois de alguns meses, eram simplesmente cobertos de esteiras

e jogados em diques e lagos perto dos sítios de construção.29

Yunnan não foi exceção. Por toda a China os agricultores estavam sendo

empurrados à beira da fome em grandes planos de irrigação, pressionados

duramente por oficiais temerosos de serem tachados de direitistas. Após

passar meia hora escavando cascalho, Mao conseguiu prever o custo humano

da campanha de irrigação. Em março de 1958, quando ouvia um relatório de Jiang Weiqing sobre irrigação em Jiangsu, murmurou: “Wu Zhipu afirma que

pode mover 30 bilhões de metros cúbicos; eu acho que 30 mil pessoas vão

morrer. Zeng Xisheng disse que vai mover 20 bilhões de metros cúbicos, e eu

acho que 20 mil pessoas vão morrer. Weiqing só promete 600 milhões de

metros cúbicos; talvez ninguém morra.”30 A mobilização em massa para os

planos de conservação de água continuou com força total durante vários

anos, custando a vida de centenas de milhares de aldeões exaustos, já

enfraquecidos pela fome. Em apavorante presságio do Camboja sob o

domínio do Khmer Vermelho, os aldeões em Qingshui, Gansu, chamavam

esses projetos de “campos da morte”.31