A Guerra dos Fae: Luz e Trevas
Capítulo 9
– ELES COMEM COMIDA NORMAL POR AQUI? – perguntou enquanto saíam os pela porta.
– Isso depende de a que “eles” você se refere – disse eu olhando para Chase.
– Que foi? – perguntou Chase, realm ente sem entender o que eu achava tão engraçado.
– Nada.
Não m encionei o fato de que, além do bufê, ele com ia carne que ainda se m exia e praticam ente qualquer outra coisa noj enta que oferecessem por ali. Muitas refeições atrás eu havia prom etido apoiar seus hábitos alim entares repugnantes e seu enorm e apetite, porque eu tinha certeza de que era isso que o m antinha tão grande e m usculoso; e nenhum a garota fae quer um dem ônio fracote a protegê-la.
Chegam os ao refeitório e enchem os nossos pratos, sentam o-nos a nossa m esa habitual, onde agora outras crianças trocadas tam bém se sentavam . Nós havíam os sido o prim eiro grupo de crianças trocadas a passar pelo processo de recrutam ento, m as m uitos outros vieram depois. Eles nos olharam , a m aioria com m edo até de conversar enquanto estávam os por perto. Eu não sabia por quê, j á que não havíam os feito nada para assustá-los – talvez nossa reputação nos precedesse, ou algo do tipo. Eu havia arm ado algum as confusões em m eu prim eiro dia, inclusive colocando Céline em um estado de anim ação suspensa, para não m encionar o fato de ter feito praticam ente a m esm a coisa com um grupo de trinta elfos logo depois. Pensando bem , era m uito possível que eles tivessem ouvido falar de tudo que eu havia feito e ficassem com um pouco de m edo de m im . Mas não precisavam . Eu sabia controlar m eu poder sobre O Verde agora. Bem , a m aior parte dele, pelo m enos.
– Então, quem é esse tal Scum? – perguntei a Chase, observando enquanto ele m astigava um bocado de carne m isteriosa.
Tony o observava com er, fascinado. Ele olhou para seu próprio prato e depois de volta para o de Chase. No de Tony havia uns pedaços de carne bovina, um a cenoura e um pouco de salada. No de Chase havia carne contorcível, que estava im óvel, um a m ontanha de m acarrão e um a tigela gigante de pudim . Três fatias de pão se equilibravam ao lado dela.
Chase apontou para um a m esa próxim a com o garfo. Havia algum as crianças trocadas lá; todos pareciam m ais j ovens que nós. Aquilo não parecia prom issor.
– Qual é?
– O de túnica m arrom .
Oh, não me diga! Dãã. Todos os dem ônios usavam túnicas m arrons. Havíam os vestido nossos uniform es fae quando estávam os no avião, porque assim era m ais fácil saber quem pertencia a qual raça no com plexo. Tony era o único que ainda usava roupas hum anas. Eu sabia que haveria roupas esperando por ele em seu quarto no m om ento que chegássem os lá. Perguntei-m e se Ivar é que faria todo o trabalho dom éstico ou se eles contratariam um brownie para cuidar do quarto e das coisas de Tony. Eu tinha um para m eu quarto. Seu nom e era Netter, e eu o pagava todos os dias com um a bola de chocolate. Ele não tinha ideia de com o eram fáceis de obter, ou que elas não eram lá grande coisa para o resto de nós. Ele pensava que bolas de chocolate eram o alim ento dos deuses.
Olhei para o fae cham ado Scrum . Ele estava sentado, m as, por sua aparência, era vários centím etros m ais baixo que Tony. Seu corpo tinha a form a de um barril de cervej a.
– Ele é um dem ônio? – perguntei, sem acreditar em m eus olhos.
– Mm m -hm m – afirm ou Chase com a boca cheia de com ida.
Vi quando Scrum se levantou, não percebendo que seu guardanapo, que estava parcialm ente sob seu prato, havia ficado preso no cinto de sua túnica. Quando ele com eçou a se afastar da m esa, o prato o seguiu. O pessoal de sua m esa tentou avisá-lo, m as sua atenção foi atraída por Chase.
– Olá, Chase! E aí?
Ele se aproxim ou um passo, vindo em nossa direção, e então o prato caiu da m esa, derram ando todo o seu conteúdo nas pernas de Scrum e na cadeira e se espatifando no chão.
Ele parou de se m exer quando a sensação m orna da carne contorcível e do purê de ervilhas ultrapassou o tecido de suas calças, rapidam ente encharcando tudo e atingindo suas pernas. Ele olhou para a bagunça.
– Oops. Com o foi que isso aconteceu?
– Chase – disse eu, instantaneam ente chateada e preocupada com o bem -estar de Tony –, você deve estar brincando com igo. Esse cara é a proteção de Tony ?
Eu estava ficando totalm ente revoltada com Dardennes de novo. Quando ele com eçava a agir com o um cara legal, ia e fazia um a asneira gigante com o aquela: colocava um perfeito idiota para ser guarda-costas de Tony. Eu estava tentando ignorar o fato de que Chase havia sugerido Scrum e m e concentrar apenas no fato de que Dardennes havia concordado.
Chase deu de om bros.
– Ele é um bom rapaz. Só precisa de uns pequenos aj ustes.
– Eu diria que ele precisa m ais é de uns grandes aj ustes, se quiser m inha opinião – disse Finn sorrindo. – Não se preocupe Tony. Vou ficar de olho em tudo. Os elfos verdes sabem com o você é im portante para Jay ne, e nós querem os m antê-la feliz.
– Talvez você vá fazer algum treinam ento com igo tam bém , Tony – disse Becky, anim ada – Eu sou um espírito de água. Talvez você sej a tam bém .
– Com o vou saber que tipo de fae eu sou? – perguntou Tony a todos nós.
– Bem , eu posso praticam ente garantir que você não é um íncubo – disse Spike.
– Verdade; talvez consigam os descobrir o que você é pelo processo de elim inação – disse Finn.
– Com o você pode saber que ele não é um íncubo, Spike? – perguntei.
– Porque ele está com endo toda a com ida norm al e não vej o nenhum brilho em seus olhos.
Puxei o om bro de Tony para que ele ficasse de frente para m im , olhei em seus olhos e vi que Spike estava certo; nada do brilho verm elho de sangue quente. Seus olhos pareciam cinzentos para m im . Olhei para o prato de Spike, percebendo que não havia m uita com ida nele. Acho que eu nunca havia prestado m uita atenção a sua dieta antes. Com ecei a m e perguntar o que ele com ia, então, m as rapidam ente decidi que não queria saber.
– Tony, de que cor são seus olhos norm alm ente? – perguntei.
Não m e lem brava de eles serem cinzentos. Eu tinha quase certeza de que eram castanhos. Era isso que o fazia parecer um filhotinho triste às vezes.
– Castanhos.
– Hum m . Foi o que pensei – disse eu pensando no que isso poderia significar.
Eu teria que perguntar a Céline quando a visse novam ente.
– Por quê?
– Porque estão cinza agora.
– Sério? – Tony olhou para nós, virando a cabeça para todos os lados. – Alguém tem um espelho?
– Haverá um em seu quarto – disse Becky, esticando o pescoço para ver m elhor seus olhos. – É, você tem olhos cinza agora. Bonito.
– Oh, Tony – disse Finn com um a voz fina de falsete –, seus olhos são m uuuito bonitos agora.
– Cale a boca, Finn. Você está é com ciúm e – disse Becky, tentando não sorrir.
– Ciúm e de quem ? De Tony ? De j eito nenhum , senhora. Ele tem Jay ne pendurada nas costelas. Que ciúm e que nada, não senhora.
Bati no braço dele.
– Cuidado, elfo verde, ou posso esquecer que som os am igos.
– Sem chance. Você não vai se livrar de m im , Mãe.
Peguei um punhado do tecido de sua túnica.
– Cham e-m e de m ãe m ais um a vez para ver o que acontece.
Ele ergueu as m ãos em sinal de rendição, rindo.
– Ok, ok, m isericórdia! Eu desisto. Você é quem m anda. Vou calar a boca agora.
Tony sorriu. Fiquei contente ao ver que essa provocação o divertiu e fez feliz, m esm o que m e fizesse querer bater em alguém . Esses elfos verdes m e cham ando de m ãe m e deixavam um pouco m aluca. A ideia era m uito estúpida para se levar a sério; eu não tinha certeza de que estava pronta para esse tipo de responsabilidade, ou se a queria. Quando eu havia passado pela entrevista para m e qualificar para o teste fae e eles m e perguntaram o super-herói que eu queria ser, eu havia respondido Mãe Natureza. Mas não havia pensado m uito sobre o que m inha vida significaria se isso fosse verdade. Agora, toda vez que o assunto vinha à tona eu pensava em um m ilhão de outras coisas com as quais eu preferia m e preocupar – com o o Fae das Trevas que estava tentando roubar m eu m elhor am igo Tony, por exem plo. Agora que ele não era m ais um problem a, porém , provavelm ente eu teria que com eçar a lidar com essa questão “Mãe”. Ugh.
Só então Scrum chegou a nossa m esa, coberto de m anchas de com ida e sorrindo com o um idiota.
– Ei pessoal. Tudo bem ?
Spike se levantou para sair.
– Bem , vou deixar vocês, crianças... ãhn... fazerem o que quer que tenham que fazer.
Finn se j untou a ele.
– É. Até m ais tarde. Vej o vocês todos no café da m anhã. – Ele estendeu a m ão para Becky. – Vam os lá, garota. Deixe esse povo para lá. Preciso de aj uda com um a coisa.
Becky olhou para ele desconfiada, pegando sua m ão e se levantando.
– Se isso é m ais um a de suas experiências com teletransporte, eu não estou interessada.
Enquanto cam inhavam para longe eu podia ouvi-lo tentando convencê-la.
– Não, não, não é nada disso. Dessa vez, preciso que você m e m ostre...
Não consegui ouvir o resto, e provavelm ente não ia querer. Finn e Spike estavam sem pre tentando descobrir com o desenvolver poderes diferentes, que gostariam de ter. Nenhum dos dois estava satisfeito com as coisas incríveis que j á podiam fazer, especialm ente Finn. Becky podia fazer um m onte de coisas que nenhum de nós podia, e isso o deixava louco. Acho que Finn e Spike haviam feito um a espécie de acordo de se tornarem superfae ou qualquer coisa estúpida parecida. Hom ens. Todos iguais. Pequenos m eninos em corpos grandes.
Scrum ficou parado olhando para nós, nervoso, esperando que alguém reconhecesse sua existência.
Eu suspirei.
– Olá. Então, ouvi dizer que você é o novo dem ônio daqui.
Ele ficava m udando de um pé para outro, nervoso, para a frente e para trás.
– É. Acho que sim . Estou com Chase.
Chase levantou as sobrancelhas, m as continuou com endo.
– Você está gostando? Quer dizer, até agora? – perguntou Tony, sorrindo para ele.
– Ah, é legal. Ser um dem ônio é... m uito incrível. – Ele olhou para a cam isa de Tony e franziu as sobrancelhas, confuso. – Que tipo de fae é você? Sua roupa parece... bem ... não fae.
Uau. E ele levou só m eia hora para perceber isso. Acho que “observador” não estava na lista de qualificações desse dem ônio. Ele devia ser de um a hierarquia m uito baixa, pois não participara daquela assem bleia infernal. Pensei que todo o m undo estaria lá.
– Acabei de m e tornar um a criança trocada. Menos de um a hora atrás. Ninguém sabe que tipo de fae sou ainda.
– Ah... Isso é norm al? De todos que m udaram com igo, Dardennes m eio que j á sabia o que seríam os m esm o antes da m udança.
Tony deu de om bros.
– Não sei. É tudo novo para m im .
– Que tipo de coisas você pode fazer?
Eu o interrom pi.
– Ei, ele j á disse que não sabe.
– Ah, cocô, desculpe m esm o. Eu falo dem ais. As pessoas m e dizem isso o tem po todo. Ou m elhor, agora os fae m e dizem isso o tem po todo.
– Cocô?
Será que meus ouvidos estão me enganando ou ele realmente disse isso?
Ele parecia envergonhado.
– É que não estou autorizado a xingar.
– Quem disse?
Pelo que eu sabia, não havia polícia de palavrões por ali. Caso contrário, eu estaria com grandes problem as.
– Minha avó. Ela m orreu há pouco tem po, que sua alm a descanse em paz por toda a eternidade. Era um a defensora das regras. Sem palavrões e sem cotovelos em cim a da m esa. – Ele parecia envergonhado. – E algum as outras coisas que eu odeio dizer, com o tam bém não peidar, exceto no banheiro...
– Puta m erda, cara, m uita inform ação!
Droga, qual era o problem a desse cara? Ele era estúpido? Agora eu estava realm ente com eçando a m e preocupar com Tony de novo.
Chase estava tentando m anter um a expressão séria, m as não estava conseguindo. Eu o cutuquei. Esse cara j á era totalm ente irritante, e o sorriso de Chase só m e irritou m ais. Já estava com um belo m au hum or, e aquele m oleque ia sofrer as consequências.
– Escute, se você quer ficar por aqui, preciso esclarecer um a coisa: se m e der um a dor de cabeça, vou quebrar sua cara. E você vom itando todas essas suas coisas pessoais em cim a de nós está m e dando dor de cabeça.
Os olhos de Tony saltaram das órbitas.
– Jay ne, fique fria. Ele só está nervoso.
Olhei para o garoto dem ônio e ele parecia não saber se devia correr, chorar, m ij ar nas calças ou todos os três.
Eu im ediatam ente m e senti m al.
– Ouça, Scum, eu só estou cansada, estressada e com fom e. Sinto m uito se feri seus sentim entos. Sente-se aí e cale a boca por alguns m inutos, ok?
O sorriso voltou a seu rosto com o se nunca houvesse ido em bora.
– Ok! É Scrum , a propósito, não Scum, m as não se preocupe, as pessoas se confundem o tem po todo. Vou sentar aqui com vocês. Isso é legal. Posso ficar quieto. Nãããão tem problem a, de m aneira nenhum a. Entendo totalm ente esse lance de dor de cabeça. Minha avó tinha o tem po todo. Ela m e m andava para m eu quarto por horas e horas. Essa era a única coisa que parecia fazê-la se sentir m elhor. Acho que ela gostava do silêncio, com o você.
Chase continuou com endo, m as colocou a outra m ão sobre a m inha, que eu fechara em form a de punho sobre a m esa.
– Respire, Jay ne – disse Tony com um sorriso na voz.
Olhei para ele.
– Nem com ece, cabeça de balão.
– O quê? – ele riu. – Eu não disse nada.
Acho que m esm o se eu lhe desse um tapa, ele não ia parar de sorrir.
– Estou feliz por m inha desgraça fazê-lo feliz, Tony.
– Ótim o. Agora, term ine seu j antar para que possa m e m ostrar m eu novo am biente.
– Não fique tão anim ado – disse eu enquanto punha um a garfada de não sei o quê na boca. – É um a cela sem j anelas.
Eu sorri ao ver a expressão de horror em seu rosto.
– Mas não são ruins, de verdade – interviu Scrum , ou Scrubs, ou qualquer que fosse o nom e do m oleque. – São quentes o suficiente para você não sentir frio, e têm um a bela colcha na cam a...
Desliguei-m e do resto da m erda que ele estava vom itando sobre nós. Eu tinha a sensação de que teria que fazer m uito isso no futuro com esse babaca. Meus pensam entos se voltaram para m eu quarto sem j anelas e m eu pequeno am igo Tim , que eu esperava que ainda estivesse dorm indo em sua dor.
– Vou pegar algum as frutas para Tim .
– Quem é Tim ? – ouvi o garoto perguntar enquanto eu cam inhava para o bufê.
Minutos depois estávam os todos andando pelo corredor a cam inho do m eu quarto, Chase liderando. O garoto Scrubs continuou falando e falando e falando. Eu não conseguia entender com o não estava rouco, falando assim o tem po todo. E com o diabos ele havia feito isso no m eio da Floresta Verde durante o teste fae? Sua conversa teria alertado cada um dos fae em todo o m aldito lugar, o que significava que ele devia ter lidado com um m onte de conflitos. Tinha que perguntar a Céline sobre seu desem penho. Ou talvez eu pudesse encontrar um a das crianças trocadas que passaram pelo teste com ele e que m e contassem .
Chegam os a m eu quarto e coloquei o dedo indicador na frente dos lábios.
– Scrubs, você precisa calar a boca agora, e não estou brincando. Há um pixie m uito doente aqui, e se você o irritar, ele vai pixificar sua bunda.
Ele arregalou os olhos e sussurrou.
– Isso é ruim ?
– Sim – disse eu m uito séria. – É muito ruim . É pior que ser m orto e com ido por um orc.
Parecia que ele ia ter um AVC. Coloquei o dedo na frente dos lábios novam ente e levantei as sobrancelhas, form ando com a boca as palavras “Fique quieto”.
Enquanto eu estava ocupada repreendendo e advertindo o novo dem ônio idiota, Chase abriu a porta do quarto e entrou. Ele j á havia dado dois passos para dentro do quarto quando percebi m eu erro; m as aí, j á era tarde dem ais.