A Guerra dos Fae: Luz e Trevas
Capítulo 23
SENTI UMA BATIDA SUAVE EM MINHA BOCHECHA.
– Jay ne. Jay ne! Você tem que acordar.
A voz era de Tim . Ele parecia preocupado. Por que Tim estava tão preocupado? Eu estava atrasada para o café da m anhã? Dorm ira dem ais?
Lentam ente fui tom ando consciência das sensações em várias partes de m eu corpo. Meu pescoço estava retorcido. Meu om bro, costelas e quadril doíam por estarem sobre algum tipo de superfície dura, im placável. Pedra? Por que eu não estava em m inha cam a?
E então, lem brei. E senti os cheiros. Abri os olhos e vi o quarto acim a de m im ; eu estava caída no chão. Havia um a poça rançosa de algo que cheirava a vôm ito seco bem na frente de m eu rosto.
– Puta que pariu, o que aconteceu? – perguntei enquanto m e sentava. – Ihrrrrrg! Merda m erda m erda, que porra é essa? Por que m inha cabeça está explodindo?
Meu cérebro pulsava com o se Tim e alguns dos seus am igos form assem um a banda de rock em m inha cabeça – um a banda de percussão.
– Eles torturaram você – lam entou Tim suavem ente. – Foi a pior coisa que eu j á vi em m inha vida. Eu não posso acreditar que um fae faria isso com você. – Meu pobre am igo pixie estava realm ente com o coração partido. – Você esteve desm aiada por um longo, longo tem po. Fiquei com m edo de que não acordasse.
Respirei fundo algum as vezes, tentando convencer a dor a voltar para os recantos m ais distantes de m eu crânio.
– Eu não lem bro m uito claram ente. Quem era aquele cara que estava aqui?
– Leck. Um irado.
– Sim ... – Ouvir seu nom e refrescou m inha m em ória. – E que diabos era aquilo com o poder de enxaqueca de derreter o cérebro, afinal?
– Eu não sei, m as pensei que você estava m orrendo. Foi horrível. Eu queria “pixificá-lo”, m as não tinha certeza de poder fazê-lo sem atingir você, e tinha m edo que eles nos m atassem se eu tentasse.
– Não, estou feliz por você não tê-lo feito. Não faça isso a não ser que eu diga. Não quero que eles saibam que você está aqui; eles só iriam usá-lo para m e forçar a dizer coisas.
– Você não pode contar a eles, Jay ne. Não im porta o que aconteça, não faça isso! – disse ele em pânico.
– Não brinque. Acha que não sei disso? – segurei m inha cabeça entre as m ãos. – Que inferno, eu preciso de um a aspirina.
Massageei m inhas têm poras pensando que talvez aj udasse, m as m e sentia tão m achucada que por fim desisti. Fiquei im aginando o que um a tom ografia com putadorizada de m eu cérebro m ostraria agora – provavelm ente, um m onte de pontos m ortos. Pensei que era altam ente provável que eles houvessem desintegrado partes de m eu cérebro.
– Tem os que descobrir com o sair daqui. Não sei quanto dessa tortura eu consigo aguentar antes de acabar m e m atando.
Eu não estava brincando tam bém . Decidi, depois desse confronto, que eu era oficialm ente um a covarde. Podiam m e insultar o dia inteiro que tudo bem , sem problem as; m as se m e causassem dor, eu estaria pronta para fugir. E preferia sem pre fugir a m e entregar.
– Eu não vou deixar que faça isso, Jay ne. Se for necessário, vou “pixificar” você para que eles não sej am capazes de m achucá-la. Tudo que você vai sentir é a felicidade para o resto da eternidade... Ou pelo m enos até m orrer de exaustão de tanto dançar e cantar.
– Bem , vam os guardar isso com o nosso Plano Z, está bem ? Eu não sou suicida e ainda não estou pronta para desistir de m inha visão ocasionalm ente derrotista do m undo.
– E nenhum de nós está pronto para ver você desistir dela tam bém . Há um charm e todo especial em seu fatalism o.
– Cale a boca e m e aj ude a resolver isso, certo?
Levantei-m e com cuidado, esperando até saber que m inhas pernas estavam firm es o suficiente para voltar à laj e de pedra. Eu tinha que ficar longe do treco noj ento no chão.
– Precisam os de um brownie ou alguém aqui para lim par essa m erda. Não existe inferno pior que olhar para seu próprio vôm ito depois de sofrer a enxaqueca m ais insuportável do m undo.
– Sim , existe. Ser forçado a olhar para um a poça gigante de vôm ito de outra pessoa.
Lancei-lhe um olhar fulm inante, m as eu não podia discutir.
Ele atravessou o piso para se j untar a m im e eu abaixei a m ão para fazer um a espécie de elevador para Tim , estrem ecendo com a dor latej ante que com eçara de novo em m inha cabeça. Ficam os ali sentados no banco frio pelo que pareceram horas, eu fazendo um a rotina ocasional de respirações profundas para tentar adm inistrar os ecos do efeito colateral da dor que ainda m artelavam m inha cabeça. Deitei-m e, dorm indo e acordando, preferindo descansar de lado o m áxim o que pudesse, porque deitada de costas a dor de cabeça aum entava.
Em algum m om ento da noite alguém deixou um prato de com ida insossa do lado de fora da porta. Notei quando m e levantei para ir ao banheiro. Senti-m e um pouco m elhor depois de com er e lavar o rosto. Tim tam bém com eu algum as m ordidas do lixo sem gosto que foi nosso j antar. Nenhum de nós sabia se as refeições seriam oferecidas com algum a regularidade, então, com em os, m esm o sem vontade. Eu usei o pequeno guardanapo que eles incluíram em m eu prato para cobrir a noj eira no chão.
– Esses Fae das Trevas são uns anim ais – disse eu enoj ada quando m e sentei na laj e de pedra com as costas contra a parede m ais próxim a. – Nós nunca trataríam os os fae desse j eito.
Tim lim pou a garganta e olhou para o teto, parecendo terrivelm ente culpado.
– Que foi? – perguntei.
– Bem ... Isso não é exatam ente verdade.
– De que diabos você está falando? Nós não torturam os outros fae, Tim .
– Você ainda não viu todos os quartos do com plexo, não é? – Ele m e perguntou m isteriosam ente.
– Não, você j á?
– Nem todos, m as m ais que você. Mais do que o Conselho sabe que eu vi.
– Tiiiim ... confesse. O que você sabe que eu não sei?
Ele deu de om bros.
– Só que os Fae da Luz têm quartos com o estes e que eles estão no m eio de um a guerra tam bém .
Eu m e senti um pouco m al do estôm ago. Não podia im aginar Dardennes ou Céline ordenando que alguém fosse torturado com o Ben havia feito.
– Você viu alguém ser torturado?
– Não. Mas ouvi algum as coisas.
– Coisas de tortura?
– Talvez. Eu estava do lado de fora da porta um a vez. Quem estava lá dentro não estava feliz.
– Quando foi isso?
– Alguns dias atrás.
– Por que você não m e disse nada?
– Não sei. – Ele deu de om bros, olhando para suas m ãos entrelaçadas. – Não quero que você pense que estou dando desculpas, Jay ne, m as sou m ais velho que você, eu vi um m onte de coisas em m eu tem po, e sei que quando alguém está em guerra, algum as regras são distorcidas. Algum as são até m esm o violadas.
– Sim , m as som os Fae da Luz. Nós som os os m ocinhos. Nós não torturam os os fae.
Ele balançou a cabeça tristem ente.
– Não é assim tão sim ples, Jay ne. Mocinhos... bandidos... as linhas são um pouco tênues, não acha?
Tudo que ele estava dizendo m e enoj ou e irritou. Ele m e fez lem brar Ben.
– Não. Eu não acho que são tênues, de j eito nenhum . Ser do bem significa que você não tortura ou m ata. Bandidos fazem essas coisas, m as nós não. É sim ples.
Ele m e encarou com o olhar fixo.
– Você precisa ir um pouco m ais fundo.
– Não, não preciso.
Nesse m om ento a porta se m oveu e eu agarrei Tim , j ogando-o em cim a de m eu om bro. Tentei não estrem ecer com os puxões e cabelos arrancados enquanto ele se escondia freneticam ente.
– Você estava falando com alguém ? – perguntou Ben olhando em volta, desconfiado.
– Sim . Com o exército de elfos verdes que estão a cam inho daqui para quebrar sua cara.
Ele sorriu, condescendente.
– Há um forte feitiço de bloqueio em torno desta cela. Nenhum dos seus am igos pode ouvi-la, nem O Verde.
– Magias foram feitas para serem quebradas – disse eu o m ais ferozm ente que pude.
– Não, as regras é que foram feitas para serem quebradas – respondeu ele olhando para m im intensam ente.
– Algo em que você obviam ente é m uito bom . Por exem plo, as regras relativas ao m ínim o de decência para com os outros.
– Eu não vim aqui para discutir com você.
– Para que veio, então? Para m e torturar um pouco m ais? Porque isso foi m uito divertido. Vam os fazer de novo. Talvez possam os fazer um pouco em você, tam bém .
Os olhos de Ben brilharam , verm elhos.
– Você tem ideia de quanto é frustrante?
– Você acha que m e interessa? – gritei.
– Deveria, Jay ne, você realm ente deveria! Porque eu sou a chave para sua sobrevivência. Um a palavra m inha e você j á era, vai em barcar em um a viagem só de ida para o além .
Dei dois passos em sua direção.
– Vam os deixar um as coisas bem claras, Ben – eu quase cuspi as palavras. – Eu não tenho m edo de você. Eu o odeio com toda m inha alm a. E não vou aj udá-lo a ferir m inha fam ília ou qualquer outra pessoa. Você pode queim ar no inferno, pelo que m e diz respeito.
Ben deu um passo em m inha direção; estávam os a apenas alguns centím etros de distância. Eu podia sentir o calor de seu corpo, preso ao fogo, enviando pulsações de eletricidade por todo o m eu corpo, e nem todas totalm ente horríveis. Seus olhos ardiam , brilhantes, e eu sabia que devia ter m edo – eu j á o tinha visto quase em cham as antes –, m as, por algum a razão, não tinha. Eu sentia a pureza d’O Verde em m inhas veias, m esm o que não pudesse cham á-lo para m im . Ele estava lá fora, em algum lugar, esperando por m im para nos conectarm os novam ente. Esse pensam ento m e encheu de um a confiança que eu não sabia que tinha.
– Tenha m edo de m im , Jay ne. Por favor.
Ele estendeu a m ão com o se quisesse tom ar m inha m ão, m as parou. Ben estava quase im plorando. Se ele houvesse tom ado qualquer outra atitude, eu provavelm ente teria cuspido em seu rosto. Mas, do j eito com o falou, era com o se estivesse m e im plorando para ter m edo dele, o que não fazia sentido nenhum .
– Por quê? Por que quer tanto que eu tenha m edo de você?
– Porque... – seus olhos exam inaram m eu rosto e m eus om bros, com o se estivesse m em orizando m inhas características, parando finalm ente em m eus olhos – ...eu não quero destruí-la.
Ele estendeu a m ão lentam ente, tocando m inha têm pora com o dedo, passando-o por m eu rosto e pescoço, deixando um a trilha de fogo que não queim ava quando passava.
– Mas vou, se você m e forçar a isso.
Senti m inha respiração parar em m inha garganta. Tudo que ele fazia e cada vibração que enviava estava em total contradição com m inha prisão e tortura que ele havia ordenado pessoalm ente apenas algum as horas antes.
– Por que está fazendo isso? – sussurrei.
Seus olhos se endureceram e ele puxou a m ão, dando um passo para trás. Voltou a seus olhos a raiva flam ej ante.
– Estam os em guerra, Jay ne. Quanto m ais cedo você aceitar isso e se render a m im , m ais cedo sua situação vai ficar bem m elhor.
Sua abrupta m udança de ânim o m e irritou. Joguei as m ãos para o alto, gesticulando para a cela ridícula na qual eu estava sendo forçada a dorm ir.
– Ah, então até que eu m e renda, tenho que dorm ir em um banco de pedra cercada por m eu próprio vôm ito? – Cruzei os braços sobre o peito. – Bom , quer saber, Ben? Por m im , você pode ir foder um orc. Prefiro nadar nesta m erda a lhe dar essa satisfação.
O brilho verm elho surgiu em volta dele em um instante. Ele estava quase perdendo a calm a, e m esm o não o conhecendo m uito bem , eu sabia que a birra desse diabo das trevas seria épica. Eu duvidava que sobrevivesse. Provavelm ente todo esse com plexo não sobreviveria. Deixei cair os braços, e em pânico, m inha m ente entrou em polvorosa. E foi aí que a ideia m e ocorreu. Eu poderia detonar todo esse m aldito lugar com a aj uda de Ben. Tudo que eu tinha que fazer era deixá-lo com raiva suficiente. Eu nem sequer considerei que sacrificaria a m im m esm a e a m eu am igo Tim . Tudo em que pensei foi no resultado final.
– Isso, vá em frente. Exploda-m e, Ben. Mande-m e ao Outro Mundo com seu fogo. Você sabe que a única razão pela qual pode fazer isso é porque cortou totalm ente m eu poder aqui. Se estivéssem os lá em cim a na Floresta Verde, eu quebraria sua cara daqui até o subm undo. Eu pegaria seu fogo e o destruiria com m inha água! Eu pegaria seu vento e o anularia com m inha terra! Você é fraco! – Dei um passo até ficar perto o suficiente para sentir o cheiro de enxofre, que era com o um a aura em torno dele. – Você é um aproveitador e um torturador. Você não tem nenhum código de honra. Você não m erece ser fae.
Essa últim a parte foi a que pegou, acho. Foi a pior coisa que eu poderia pensar em dizer no m om ento. Mesm o que eu não tenha nascido fae, tenho um talento natural para criar bons insultos. Aparentem ente, essa coisa de “m erecer ser fae” era um detonador para ele – um tiro inspirado direto no coração.
O fogo irrom peu e form ou um a gigante bola flam ej ante. Tropecei para trás, afastando-m e o m áxim o que pude, m as o calor era quase insuportável. Eu esperava que ele estivesse com raiva suficiente para queim ar todo o lugar. Não queria ser assada à toa.
Tive alguns segundos, quando estava sendo consum ida pelas cham as, para pensar sobre m eu m om ento de sacrifício e m orte. Eu deveria ter sentido m ais m edo, pavor m esm o. Mas não havia para onde ir, e eu sabia. Era inútil tem er. Não havia j anelas de onde saltar... não havia m aneira de passar por ele até a porta... nenhum poder verde para m e refrescar e m e proteger. Eu só estava triste por Tim ser pego nessa tam bém .
– Desculpe, Tim ! – gritei.
Eu senti um puxão em m eu cabelo com o resposta, e exatam ente ao m esm o tem po a porta da cela se abriu e um grande rugido de desagrado encheu o quarto.