A Guerra dos Fae: Luz e Trevas
Capítulo 24
A SALA FICOU BRANCA – TODA BRANCA. Não só as cores do quarto, m as tam bém os sons e a tem peratura. Era com o se houvéssem os todos sido transportados de repente para um lugar com pletam ente branco, sem nada nos pisos, paredes ou teto, vazio. Um vento forte chicoteava em volta e em cim a de m im , fazendo m eu cabelo voar ao redor de m inha cabeça. Quando pensei que era forte o suficiente para m e levantar e m e levar em bora, o barulho do vento desapareceu e foi substituído por um som m etálico distante, com o um canal de televisão fora do ar. Meu cabelo se acom odou sobre m eus om bros. Eu não sabia se ainda estava na m esm a sala ou em outro lugar. Dorothy deve ter se sentido assim quando foi varrida para Oz.
Então, ocorreu-m e: talvez assim fossem os Outros Mundos. Talvez eu estivesse em um a sala de espera para o Mundo de Cim a. Oh, porfavorporfavorporfavor, que seja o Mundo de Cima, e não o submundo.
O único problem a com essa teoria era que ainda podia sentir Tim em m eu cabelo, e eu tinha certeza de que quando m orresse não ia poder levar alguém de carona com igo. Levantei lentam ente a m ão para colocá-la na nuca. Tim estava lá, trem endo. De algum a form a, ele conseguira se segurar para não ser soprado para longe. Ele estava bem quieto – provavelm ente em estado de choque. Eu esperava que Tim não fizesse xixi em m im .
Mudei o peso do corpo de um pé para o outro, sentindo o chão em torno de m im com as pontas de m eus m ocassins. Eu ainda estava em pé no chão da cela; podia sentir sua superfície irregular abaixo de m im . O branco recuou para um cinza claro. Lentam ente, o chão de pedra, paredes e superfícies do quarto foram voltando aos seus tons naturais. Vi que eu ainda estava no m esm o lugar na cela, m as Ben havia ido em bora e em seu lugar estava outro fae – um a m ulher vestindo um a túnica de prata. Ela tinha cabelo cinza prateado e olhos brancos. Parecia-se tanto com Céline que era assustador. Eu quase a cham ei Céline, m as m e detive. Não precisava dar a esses fae nenhum a inform ação, e decidi que isso incluía nom es.
– Quem é você?
Eu m e convenci de que o prim eiro a falar teria autom aticam ente a vantagem .
– Sou Maléna, dos elfos de prata. E você é Jay ne, a elem ental dos Fae da Luz.
Inclinei a cabeça, recusando-m e a confirm ar ou negar quem ou o que eu era.
– Foi sua bola de luz que passou por aqui?
Ela olhou para m im com um a interrogação nos olhos antes que entender do que eu estava falando.
– Aquilo era vento, e não luz.
– Parecia m uito brilhante.
Ela m e exam inou com o se eu fosse um rato em um a gaiola fazendo algo curioso.
– Você é divertida.
– Não, na verdade, estou irritada. Quero ser libertada. Você não tem o direito de m e prender contra m inha vontade.
– De acordo com qual lei?
Hesitei.
– De acordo com a lei da Floresta Verde.
Tirei isso do nada, m as m e pareceu bom .
– Não existe tal lei.
– Bom , deveria existir. Eu não sei quem é responsável por fazer as leis por aqui, m as, obviam ente, andaram dorm indo de touca. Deixaram passar a parte de “tortura é desum ano” tam bém .
– Nós não som os hum anos, e por isso não som os obrigados a agir com o hum anos. Agim os com o fae, portanto, fazem os o que deve ser feito para nos proteger. Você pode sair assim que responder às nossas perguntas. Acredito que lhe tenham dado um a dem onstração suficiente de nossos m étodos. Não nos force a m andá-la para os Outros Mundos. Diga-nos o que querem os saber e vam os m andá-la de volta para a Floresta Verde para que volte para casa.
– Para quê? Para você poder destruir m inha casa e todos de quem gosto? Não. Não, obrigada. Eu não concordo com isso.
Ela era um a puta fria, fazia Ben parecer só um m enino m alvado.
– O que aconteceu com Ben?
Eu queria saber se ele havia sido explodido pelo tornado. Parecia proj etado para apagar seu fogo. Seria terrivelm ente conveniente para os Fae da Luz se os Fae das Trevas sim plesm ente destruíssem uns aos outros. Talvez eu pudesse orquestrar m ais um a daquelas pequenas catástrofes.
– Não se preocupe com Ben. Você devia estar m ais preocupada consigo m esm a.
– Eu não estou preocupada, estou curiosa. É um a grande diferença.
Maléna olhou para m im e em seguida saiu da sala. Manteve a porta aberta, então, não perdi tem po e olhei para fora. Não a vi em lugar nenhum . Corri alguns passos pelo corredor e tentei abrir outra porta, encontrando-m e m ais um a vez em m inha própria cela.
– Filhos da puta – disse eu com desgosto, suspirando quando entrei no quarto, fechando a porta atrás de m im . – Você está bem , Tim ?
– Sim – disse a voz fraca que saía de m eu cabelo.
– Quer sair?
– Não. Vou ficar aqui por um tem po.
– Eu não o culpo. Eu gostaria de ter um ninho de cabelo gigante onde pudesse m e esconder.
Deitei-m e de lado na cam a de pedra im aginando que horas seriam , pensando que devia ser m uito tarde. Eu estava exausta. Apesar da terrível dureza e do frio do banco, estava sonolenta. Enquanto m eu cérebro tentava descontrair, m eus pensam entos sonolentos flutuavam sobre os acontecim entos do dia – ou dias. Realm ente eu não tinha ideia de quanto tem po estava ali.
Pensei em Ben e lutei com igo m esm a. Parte de m im o odiava até sua própria essência, m as outra parte de m im estava curiosa sobre ele. Tentei negar e ignorar, m as as coisas a respeito dele não faziam sentido, por isso m antive m eu cérebro interessado e im aginando. Maldito cérebro traidor que ele era para m im às vezes. Ben era cruel e havia feito coisas terríveis; estava disposto a fazer qualquer coisa para alcançar seus obj etivos – até m esm o m e m atar. Mas ele tam bém m ostrava lam pej os de com paixão ou m isericórdia. Ele poderia ter pegado Tony, m as não o fez. Poderia tê-lo m atado no prado, m as não o fez. Poderia ter m e torturado m ais, m as não o fez. Nada disso fazia sentido nenhum , e isso m e frustrou. Aplaquei m inha frustração im aginando o tipo de tortura que eu poderia fazer com ele para obter respostas às m inhas perguntas. Em prim eiro lugar, ia fazê-lo se sentar e ouvir Scrum durante seis horas seguidas. Eu m andaria um a bruxa fazer um feitiço para que ele não pudesse bloquear o som da voz de Scrum e não conseguisse adorm ecer. Então, daria a Tim um prato inteiro de frutas e trancaria os dois em um espaço m uito pequeno, fechado...
Meus pensam entos felizes foram interrom pidos por outro som na porta.
Leck entrou na sala, sozinho dessa vez.
Que inferno, de novo não. Meu cérebro estava chorando de m edo, m as recusei-m e a deixar que isso transparecesse em m eu rosto.
– Olá, rapaz. Que sorte a m inha – disse eu sentando-m e e fixando nele um olhar ousado.
Leck estava à porta, sem dizer nada.
– Você não vai m e vencer no j ogo do sério, Leck. Eu arraso nisso.
Ele ainda não disse nada. Ficou só olhando para m im , e foi m e assustando.
– Alguém j á lhe disse que você tem a personalidade de um ogro?
Vi um a ligeira elevação, quase im perceptível, de um a de suas sobrancelhas, m as nada m ais. Sabia que estava chegando perto de irritá-lo, e por algum m otivo sádico, eu realm ente precisava fazer isso – deixá-lo com raiva. Eu não poderia usar O Verde ou Blackie contra ele, m as poderia usar m inha inteligência afiada. Pelo m enos foi o que eu disse a m im m esm a.
– Não, espere. Isso seria um insulto aos ogros. Acho que seria m ais correto dizer que você tem a personalidade de um orc.
Os lábios de Leck se estreitaram .
– Um extraestúpido.
Ele deu três passos longos em m inha direção e, em seguida, lançou-m e o olhar do m al. A dor explodiu em m inha cabeça. Tive tem po de dizer algum as palavras antes que ela se tornasse insuportável.
– Orc... filho da puta!
Rolei da laj e de pedra, segurando a cabeça com as m ãos enquanto caía no chão. Eu ofegava; algum a parte de m eu cérebro m e dizia que poderia ser possível respirar através da dor, com o as m ulheres fazem quando dão à luz. Poucos segundos depois, a única parte racional de m eu cérebro que ainda estava funcionando decidiu que quem disse que dá para respirar através da dor intensa nunca tentou. Bastardos mentirosos.
A agonia era tão grande que dom inava m eu pensam ento. Tim não era m ais m inha preocupação. Ben m e explodir? Tudo bem . Tanto fazia. Tornados m e transportando para fora da Terra? Claro. Qualquer coisa. Basta acabar com esse horror em m inha cabeça que vou concordar com qualquer coisa.
A dor dim inuiu. Meus olhos fechados lutaram para abrir. Eu queria – não, precisava – ver se Leck ainda estava ali. Minha esperança desesperada era que ele houvesse ido em bora de novo e eu pudesse cair em um sono profundo e escuro no qual as farpas pungentes e cortantes j á não fossem capazes de m e alcançar.
Um olho aberto e m inhas esperanças foram im ediatam ente frustradas. Leck ainda estava ali, só que agora tinha um leve sorriso no rosto. Ele não precisava dizer; eu sabia o que estava pensando. Agora, quem está rindo?
Eu m e senti quase nocauteada com esse últim o ataque. Talvez fosse essa a chave para lidar com ele – irritá-lo o suficiente para ter um a overdose, e então eu poderia dorm ir. Olhei para ele, agora com os dois olhos abertos.
– Nada m al – gem i – para um fodedor de orc.
Eu esperava que m inha tortura prosseguisse até a fusão do cérebro, de m odo que estava totalm ente despreparada para o chute no rosto que levei. Fez m inha cabeça ir para trás e eu rolei por m etade do chão do quarto. Tentei m anter a cabeça longe do chão um pouco para não esm agar m eu am igo, m as toda m inha concentração estava tom ada. Se esse cara fosse com eçar a m e quebrar fisicam ente daquele j eito, Tim não aguentaria. De m odo que m esm o que a dor em m eu olho m e distraísse da dor de cabeça, as coisas m udaram . Eu j á não podia m e dar ao luxo de provocá-lo e esperar por um blecaute.
– Merda! Por que você fez isso?
– Diga-nos o que querem os saber e tudo vai acabar.
– Sim , isso eu entendi. E talvez eu estej a disposta a conversar, m as tenho que ir ao banheiro prim eiro.
– Não.
Ergui a cabeça e fixei os olhos nele, lançando-lhe o olhar m ais fulm inante que pude.
– Sério m esm o que vai m e torturar fazendo eu m e cagar nas calças? Eu não sou a única que vai sofrer com isso, sabia?
Leck fez um a expressão de extrem a repugnância, o que m e deixou m uito feliz. Fiz um esforço infernal para não sorrir. Eu não tinha que ir ao banheiro de verdade, m as estava lutando para pensar em algum a m aneira de atrasar o inevitável e tam bém de encontrar um lugar para esconder Tim , para que ele não precisasse levar um a surra com igo.
– Pode ir ao banheiro. Se dem orar m uito, vou m andar alguém atrás de você.
Engoli a réplica que estava pronta para voar boca afora, não querendo abusar de m inha sorte. Eu sabia que esse cara era o verdadeiro problem a – realm ente um coração negro de Fae das Trevas. Era com o se alguém houvesse tirado sua alm a. Eu trem ia só de pensar. Tony poderia ter se tornado um deles.
Levantei-m e lentam ente, tentando ignorar as pontadas em m inha sobrancelha, onde o pé de Leck havia m e atingido. Eu sentia algo quente escorrendo pela lateral de m eu rosto; não tinha certeza se era suor ou sangue. Andei o m ais casualm ente e confiante que pude, tropeçando apenas um a vez. Leck se afastou de lado, perm itindo-m e passar.
Im aginei o banheiro em m inha m ente e cheguei logo. Queria ficar o m aior tem po possível, m esm o ele havendo m e am eaçado para que m e apressasse. Parei na frente do espelho, percebendo que o que escorria por m eu rosto era realm ente sangue. A pele acim a de m inha sobrancelha se rasgara, então eu não tinha só um a ferida escancarada e sangrenta, m as tam bém um inchaço acim a do olho. Pelo m enos não fora no próprio olho. Joguei um pouco de água em m eu agora não tão belo rosto, tentando lavar o sangue, m as isso só serviu para fazer o sangram ento piorar.
Tim foi na ponta dos pés para m eu om bro e m e olhava sem dizer nada. Seu olhar era m uito triste. Eu não disse nada porque não podia encarar sua piedade naquele m om ento. Se um a única lágrim a traidora saísse de m eus olhos, provavelm ente eu m e transform aria em um Neanderthal e socaria o espelho.
Havia toalhas de papel perto da pia, que eu usei para tentar im pedir o pior do sangram ento. Eu j á havia m anchado bastante m inha túnica, m as dessa vez não tinha j eito – nem sei por que m e incom odei de usar as toalhas. Eu estava coberta não só de sangue, m as tam bém de suj eira, baba, e não quero saber de que m ais. Por favor, que não seja vômito. Joguei as bolinhas de papel m anchado de verm elho na pia e peguei um pouco m ais. Elas absorviam o sangue m uito rapidam ente, e cada vez que eu as tirava, puxavam o sangue seco e o sangram ento com eçava novam ente. É possível sangrar até a m orte por um corte na sobrancelha?
Olhei para a enorm e pilha de toalhas de papel sangrentas na pia. Depois olhei no espelho, vendo o banheiro atrás de m im no reflexo. Fiquei ali por um m inuto sem fazer nada, perguntando-m e por que m eu cérebro estava m e cutucando. Eu não conseguia entender, então, desisti e peguei as toalhas de papel para j ogá-las no lixo; m as m udei de ideia no últim o segundo e j oguei-as no vaso sanitário.
– O que está fazendo? – perguntou Tim .
– Não sei.
Olhei para todas as toalhas ensanguentadas no vaso, vendo-as afundar e se encharcar com a água. Minha m ente corria.
– Eu ia deixar você aqui, m as este lugar está enfeitiçado e você não pode voar. Você m orreria de fom e antes que conseguisse ir em bora.
– Então, não m e deixe aqui. Eu quero ficar com você.
– Ele vai bater para caralho em m im , Tim . E se isso acontecer, você vai se m achucar m uito. Eles vão encontrá-lo e m atá-lo, eu sei que vão. Não posso deixar isso acontecer.
– Qual é o lance com as toalhas na privada? Você teve um a ideia?
– Acho que sim . Talvez.
Tive? Eu tive uma ideia? Era um tiro no escuro, m as m esm o isso valia a pena tentar nesse m om ento.
– Prepare-se para abandonar o navio e encontrar um lugar para se esconder até que suas asas cresçam de volta e você possa voar para fora daqui.
– Eu não vou abandonar você, Jay ne.
– Sim , vai. Confie em m im ... Eu abandonaria sua cara feia.
– Não, você não m e abandonaria. Eu sei o que você está tentando fazer, Jay ne. Não tente m e deixar irritado para que eu vá em bora.
Suspirei.
– Tim , se você m e am a, vai fazer o que eu estou lhe pedindo.
– Isso é j ogo suj o, Jay ne, j ogo suj o. – Eu podia sentir sua carranca queim ando em m eu pescoço. – Mas vou pensar nisso.
– Tudo bem . Já é o suficiente.
Voltei para a pia e tirei todas as toalhas de papel do dispensador, em purrando-as para dentro do vaso sanitário até que ficasse lotado.
– Muito bem , Tim . Hora de a Operação Cagão Entupido com eçar.
Fui até a porta e coloquei a cabeça para fora do banheiro.
– Com licença! – disse eu em voz alta no corredor. – Há alguém aí fora? Estou com um problem inha aqui!
Um a porta se abriu no final do corredor e o duende do bosque, guardião do calabouço, apareceu, obviam ente irritado.
– Qual é o problem a?
Olhei para ele tim idam ente.
– Na verdade, é m eio em baraçoso.
Fiz um gesto convidando-o a entrar. Ele m e olhou desconfiado, m as seguiu-m e.
Apontei para o vaso sanitário.
– Acho que devo ter usado m uito papel da últim a vez que estive aqui, porque a descarga não funciona. E preciso usar o banheiro agora, m as não posso se a descarga não funcionar, entende? Há outro banheiro que eu poderia usar?
Tentei parecer o m ais constrangida possível e não desonesta, m as por dentro m e sentia desleal e esperançosa. Vamos lá, seu estúpido espírito da floresta... Caia em meu insano plano de fuga!
Ele deu alguns passos m ais e olhou para o vaso com um olhar enoj ado.
– O que você colocou aí dentro? – perguntou ele, irritado.
Olhei para ele.
– Você está brincando com igo, não é?
Eu poderia dizer que m inha reação o surpreendeu um pouco, então, decidi que a vergonha era o cam inho certo:
– O que foi? Vocês, Fae das Trevas, não cagam ? Não m enstruam ? Que negócio é esse? Coisa de Fae das Trevas? Então, se eu m e j untar a vocês, nunca m ais vou ter que cagar de novo? Nunca terei que procurar um absorvente na floresta? Porque, vou lhe dizer, isso é tentador.
Ele olhou para m im horrorizado; sua boca se m ovia, m as nenhum som saía. Seus olhos iam de m im para a porta, e em seguida para o vaso sanitário. Ele estava em pânico total. Esses duendes do bosque não eram bons em confrontos verbais, para m inha sorte.
– Ouça, leve-m e para outro banheiro, sim ? Eu não vou contar a ninguém que sei seu segredo sobre cocô e m enstruação, está bem ? Mas, honestam ente, vocês deviam colocar isso nos folhetos. Conseguiriam um m onte de recrutas m ulheres dessa form a.
– Nós não tem os... Não há... Todo o m undo... – Ele fechou os olhos e respirou fundo. – Tudo bem . – Abriu os olhos e os fixou em m im com calm a. – Vam os. E apresse-se. Leck está esperando você.
– Sim , e eu com certeza m al posso esperar para voltar para ele tam bém . Sabia que ele está fazendo aquela coisa de tortura? Uau, é sem pre divertido. Ele até com eçou a m e chutar no rosto agora, percebeu? – Apontei para m eu olho sangrento, m as ele se recusou a olhar. – E ele não parece nem um pouco incom odado com o fato de ter o dobro do m eu tam anho e eu ser um a garota. Vocês, Fae das Trevas, têm um a m ente tão m oderna... Vocês batem em suas esposas tam bém ?
Ele m e ignorou enquanto cam inhávam os pelo corredor; eu tentei de todas as m aneiras notar qualquer tipo de característica distinta em qualquer um a das portas enquanto continuava tagarelando, m as não encontrei nada. Todas pareciam iguais.
O duende parou em frente a outra porta.
– Aqui – disse ele, irritado. – Use este. E não use tanto papel desta vez.
Fiz um gesto para ele se aproxim ar e m e inclinei em sua direção, sussurrando, conspiratória:
– Para sua inform ação, eu sei que você não caga há um longo tem po, m as, às vezes, é necessário um m onte de papel, sabia?
Deixei-o, irritado, do lado fora da porta. Eu tinha que m e apressar e tentar descobrir que diabos fazer a seguir; não tinha tem po para desfrutar m inha tortura de fazer hum or com as funções corporais.
Esse banheiro era m uito parecido com o outro, se não um pouco m ais agradável. Tinha dois reservados e duas pias, além de um a coisa que parecia um a pequena caixa de m etal quadrada no canto. Fui rapidam ente até ela, percebendo, quando cheguei m ais perto, que era um velho aquecedor.
– Que diabos é isso? – disse eu, passando as m ãos sobre ele, procurando um a m aneira de abri-lo.
Tim saiu de m eu cabelo.
– O que é isso?
– Um tipo de aquecedor. Você poderia se esconder aqui dentro.
– Sim , vai ser perfeito... até que alguém acenda o fogo – disse ele sarcasticam ente.
– Ouça, está quente. O verão está chegando. Ninguém vai acender um fogo aqui tão cedo. Suas asas estarão de volta em três sem anas ou m ais. Você só precisa encontrar um j eito de arranj ar com ida. Talvez, se rastej ar pelo tubo que vai para o teto, possa encontrar um a m aneira de sair, ou pelo m enos o refeitório ou a cozinha.
Tim subiu pelo m eu braço para se aproxim ar.
– Parece possível – adm itiu a contragosto.
– Bem , pense nisso enquanto eu tiro esse sangue estúpido de m eu rosto.
O corte estava escorrendo novam ente.
Deixei Tim no aquecedor e fui até a pia, abrindo a torneira e deixando a água correr sobre m inhas m ãos enquanto olhava para m im m esm a no espelho. Eu estava um a m erda. Meu cabelo era um a bola gigante de nós. Meu rosto tinha suj eira e sangue. Meus lábios estavam secos e querendo rachar. Fechei os olhos e respirei fundo, deixando m inha m ente vagar para o lugar em m im onde havia m em órias d’O Verde. Nossa, com o eu desej ava poder usar seu poder de cura em m im agora e refazer-m e.
Senti um form igam ento nas m ãos. No com eço, pensei que era a tem peratura da água m udando, m as depois ficou m ais forte. Abri os olhos e olhei para baixo, preocupada, achando que o lugar tinha torneiras enfeitiçadas. Talvez a água fosse envenenada.
Mas o sentim ento que fluía através da água não era ruim . Quando eu m e concentrava nas sensações, eram realm ente m uito boas. Muito boas. Parecia...
– Não... – sussurrei com m edo de ficar m uito esperançosa.
– O quê? – perguntou Tim .
– Tim ! – sussurrei anim ada –, estou sentindo algum a coisa!
– Sim , eu tam bém . Desespero... Fom e... Tristeza... Desesperança. Pode escolher.
– Não, pare de brincar, estou falando sério! Há algo nesta água!
– Depressa! Venha m e pegar, venha m e pegar!
Ele estava pulando para cim a e para baixo no aquecedor, ansioso, gesticulando com as m ãos e acenando.
A voz do duende do bosque entrou pela porta.
– Você j á está acabando aí? Leck quer você de volta.
Sim, aposto que ele quer.
– Saio em um m inuto! Estou um pouco constipada agora!
Estendi a m ão e agarrei Tim .
– Fique aqui na beira da pia e coloque a m ão na água. Diga-m e se você sente tam bém .
Tim e eu deixam os a água correr sobre nossas m ãos. Não havia erro; algo estava acontecendo ali.
– Eu não sinto nada. É só água – disse ele com decepção nas palavras.
– Não, Tim . Há algo. Eu posso sentir. É forte.
Tim olhou para a água em m inhas m ãos, e em seguida, para m eu rosto, encontrando m eus olhos.
– Jay ne. Você é um elem ental.
– Sim , e daí?
– Você tem laços com a água.
Pensei sobre isso um segundo. Flashes de Naida e Becky passaram por m inha m ente.
– O que isso significa?
– Eu não sei! – disse ele febrilm ente. – Talvez você possa se conectar! Com o isso funciona?
– Não tenho a m enor ideia, Tim ! – disse eu com pânico na voz. – Eu nunca m e com uniquei com a água antes! Isso é coisa de Becky, não m inha!
– Ouça – disse Tim estendendo as m ãos em um gesto de calm a –, relaxe. Estenda a m ão para a água... Através da água. Vej a se consegue encontrar alguém lá fora... um espírito de água, um a sereia... um sapo, um girino... algum a coisa!
Respirei hesitante e profundam ente e fechei os olhos. Im aginei que tinha cerca de dois m inutos antes que o duende do bosque entrasse por aquela porta e m e arrastasse para fora. Eu tinha que tentar.