A Guerra dos Fae: Luz e Trevas
Capítulo 1
A MÃO DE TONY, MEU MELHOR AMIGO, pousou sobre m eu om bro, apaziguando m eu coração – o que não era pouca coisa, considerando que nesse m om ento em particular eu estava presa em um a batalha potencialm ente épica com ninguém m enos que Ben, o Fae das Trevas, dem ônio de fogo que agora parecia um a criatura saída direto das profundezas do inferno. Tony ter dito que queria ir com igo e que não tínham os m ais que ficar separados era a m elhor notícia que eu recebia em dois m eses, desde que eu m e transform ara de hum ana em fae. Agora, tudo que eu tinha que fazer era descobrir com o lidar com o terror flam ej ante parado à m inha frente com um a bom ba de fogo nas m ãos.
– Ben, ele não quer ir com você! Ele vem com igo!
Pensei que o rugido de nossos poderes opostos tornaria difícil ouvir, m as aparentem ente não havia razões para eu gritar, pois Ben m e respondeu em um tom de voz perfeitam ente norm al, e eu o entendi sem problem as.
– Eu o ouvi. Mas não acho que ele tenha todas as inform ações necessárias para tom ar um a decisão. É j usto que ele entre nessa sabendo de tudo, não acha?
Ele arqueou as sobrancelhas para m im com um ar condescendente, fazendo que eu m e sentisse pequena e estúpida. Eu detestava m e sentir pequena e estúpida, e detestava ainda mais quando era Ben que m e fazia sentir assim . A resposta dele tam bém era preocupante, porque eu não queria que Tony achasse que eu estava escondendo algum a coisa. Eu sabia a verdade, e j á a havia dito a Tony antes de Ben aparecer. Nós éram os os bonzinhos, os Fae da Luz; Ben representava os m alvados, os Fae das Trevas. Não havia m ais o que dizer, de verdade.
Era óbvio que esse Ben sabia um pouco de com bate psicológico. Provavelm ente ele m esm o havia inventado o term o, uns cem anos atrás ou algo assim . Não se consegue dizer a idade de um fae só de olhar para ele. Por fora, ele era um hum ano sério e terrivelm ente bonito de dezoito anos. Por dentro, devia ter uns trezentos e cinquenta anos, horroroso com o um fae serpente, usando um feitiço para m e fazer acreditar que ele era a gostosura em pessoa. Eu nem sabia se existia um fae serpente, m as ele poderia ser um . Ele certam ente era escorregadio.
Sacudi a cabeça, forçando-m e a parar de pensar na aparência dele. Tinha certeza de que a regra que eu tinha para garotos hum anos se aplicava para os fae tam bém – ou sej a, quanto m ais bonitos eles forem , pior tratarão as garotas e m ais superficiais serão. Que garoto vai desenvolver um a personalidade decente se todo o m undo sim plesm ente lhe dá tudo que ele quer só porque é lindo? Foco, Jayne. Tenho que ignorar esse rosto bonito... Concentrar-m e na escuridão de sua alm a e no quanto eu o desprezo por tentar roubar Tony de m im .
– Tony sabe de tudo. Eu j á havia lhe contado antes de você chegar; aliás, sem ser convidado ou desej ado, devo acrescentar.
Ben parou de m e encarar e se voltou para Tony.
– Ela lhe contou que vai forçá-lo a lutar na guerra? Que você vai ter que m atar gente?
Senti a m ão de Tony abandonar m eu om bro, o que m e deixou instantaneam ente preocupada. Eu havia acabado de passar os últim os trinta m inutos convencendo Tony de que ele tinha que ir com igo e que tudo ia ficar bem . Mas sabia que ele não gostava da ideia de violência, e aparentem ente Ben tam bém não.
– Tony sabe o suficiente para tom ar um a boa decisão, coisa que ele j á fez. Então, por que você não dá o fora daqui para poderm os seguir nosso cam inho?
– Hum m , Jay ne... – a voz assustada de Tony surgiu atrás de m im –, eu... eu não quero fazer parte da guerra...
Sua voz foi se apagando até desaparecer, m as eu sabia o que isso significava. Eu tinha que fazer algo para rem ediar a situação o m elhor que pudesse – e rápido. Fixei em Ben o olhar m ais raivoso que m eu m edo m e perm itia.
– Dim inua o poder, babaca, assim poderem os falar sobre isso sem explodir a vizinhança.
– Eu dim inuo se você dim inuir.
Ele levantou as sobrancelhas de novo, dessa vez com ar desafiador. Cara, ele é mesmo bom com esse negócio da sobrancelha.
Relaxei um pouco m eu dom ínio sobre O Verde, inform ando-lhe que queria que ele voltasse pela fronteira dos m undos em baixo da casa de Tony e fosse para dentro da Terra, onde descansava, antes que eu o cham asse para cim a e o usasse para fazer m inhas vontades. O brilho verm elho que se j untava aos poucos nas m ãos de Tony se dissipou a princípio por seus braços, e depois por todo o seu corpo. Logo estávam os am bos parados ali, parecendo adolescentes norm ais de novo. Nada m ais de brilho. Nada de barulho ou de agitação. Dei um a olhada para os garotos ao m eu lado – Finn, Jared, Spike e Chase. Todos haviam visivelm ente relaxado suas posturas de com bate, m as ainda estavam apreensivos.
– Eu não confio nele – disse Finn.
– Nem eu – acrescentou Spike.
Chase perm aneceu em silêncio – com o sem pre – segurando m eu am igo pixie, Tim , que j azia m achucado, um a vez que Ben o havia praticam ente fritado no ar com um raio de fogo. Meu outro am igo, Jared, um dem ônio, tam bém estava em silêncio. Mesm o assim , eu sabia que eles não confiavam m ais em Ben do que eu.
– Bom , eu confio – disse Tony.
Eu olhei para ele, frustrada.
– Droga, Tony, m as o que é que... Achei que j á havíam os superado isso.
– Sim , você está certa, j á superam os. Não estou dizendo que vou a algum lugar com ele ou que não vou com você. Só digo que confio nele. Ele foi legal com igo, Jay ne, e nunca fez nada para m e m achucar. E, aparentem ente, ele poderia, se quisesse.
Ele olhou para Ben, dando um sorriso nervoso.
Isso era tão típico de Tony : dar a alguém o benefício da dúvida, m esm o que fosse um m aldito im becil que fritava pixies.
– Ouça, Tony, entendo que você se sentiu abandonado quando eu fiquei na floresta e você teve que voltar para cá...
Tony foi m e interrom per, m as com o eu sabia bem o que ele ia dizer, levantei a m ão para que ele se calasse.
– E sei que você não se lem bra de ter estado lá, m as estava, e eu ficarei feliz de lhe provar isso quando voltarm os. Mas tem os que ir. – Olhei para Ben. – Você pode confiar nele, m as nós não pensam os o m esm o; e tem os um am igo que precisa de cuidados – apontei com a cabeça para Tim , caído nas m ãos de Chase com os restos de um a asa carbonizada despontando da lateral de seu corpo.
– Ele está respirando – disse Chase.
– Bom , por sorte ele está inconsciente, porque sei bem que ter um a asa arrancada é doloroso; certam ente tê-la queim ada é excruciante.
Lancei a Ben um olhar que m ostrava exatam ente quão repulsivo eu o achava.
Tony olhou para Tim , e sua expressão assum iu um ar enoj ado.
Ben ia ignorar m eu com entário, m as, então, ele viu o olhar de Tony tam bém .
– Tony, você tem que entender, pixies são realm ente perigosos. Eles podem parecer pequenos e fofinhos, m as ele estava vindo m e atacar. Eu estava apenas m e defendendo.
Tony olhou para m im , concordando, o que m e deixou desconfortável. Por que é que eu tinha que defender m eu pequeno am igo, agora inerte, que estava apenas tentando nos salvar?
Olhei para Ben com raiva.
– Tim , com o você convenientem ente esqueceu, estava apenas nos protegendo. De você!
– Eu não era perigoso para nenhum de vocês. Não fiz nada. Vocês é que com eçaram com as am eaças.
Quanto m ais essa conversa avançava, pior eu m e sentia. De algum a m aneira, Ben estava virando tudo do avesso para fazer parecer que eu era a vilã da situação. Eu sabia que m eu rosto deixava clara m inha frustração, e quando olhei para ele para responder, o vi sorrindo, satisfeito. O im becil achava que havia m e colocado em um a sinuca de bico.
– Não fique aí se fazendo de super-honesto. Você nunca contou a Tony que era um fae, e nunca lhe revelou suas verdadeiras intenções – olhei para Tony e continuei. – Pergunte a ele, Tony. Pergunte por que ele não lhe contou. Você confiou em um cara que estava m entindo e escondendo coisas o tem po todo.
Nesse exato m om ento alguém bateu na porta do quarto de Tony.
– Tony ? Há alguém com você no quarto?
O rosto de Tony assum iu um a expressão de pânico.
– Não, m ãe! É só um a m úsica!
– Bom , dim inua, então. Já passou bastante de sua hora de dorm ir.
Finn deu um a risadinha, m as teve a decência de parecer desgostoso quando olhei feio para ele. Só o que faltava era que Tony achasse que estávam os rindo dele. Tudo bem , a m ãe dele era tola e obviam ente quase surda, m as isso não era culpa dele.
Sussurrei para o grupo.
– Ouçam , não vam os chegar a lugar nenhum com isso. Além do m ais, não há razão para isso. Tony vem conosco, e precisam os ir – olhei para Tony, praticam ente im plorando com o olhar. – Você ainda vem , certo?
– É, ainda vou. Mas quero ouvir o que Ben tem a dizer prim eiro. Ele é m eu am igo, Jay ne. Sei que você não gosta disso, m as é assim que é. Eu devo a ele a oportunidade de m e contar seu lado da história.
Ben sorriu.
– Tony é um a pessoa j usta. Sem pre esteve disposto a ouvir. Talvez você pudesse perder um m inuto ouvindo tam bém , Jay ne. Você pode se surpreender com o que eu tenho a dizer.
– Pfff... im provável.
Jared deu um passo à frente com as m ãos levantadas em um gesto de paz.
– Por que não vam os lá para fora ou para algum lugar onde possam os falar à vontade? – disse ele olhando de Ben para m im . – Um território neutro, um lugar onde todos possam se sentir à vontade.
Ben concordou.
Olhei em volta e todo o m undo parecia pensar que essa era um a boa ideia. Eu era m ais a favor de dar o fora dali logo e não olhar para trás, m as tinha que ser j usta com Tony. Eu não queria que ele abandonasse tudo achando que eu tinha algo a esconder.
– Certo. Onde?
– Que tal aquela lanchonete vinte e quatro horas perto da escola? – sugeriu Tony.
Todos nós concordam os.
Dois segundos depois, a im agem de Ben desapareceu no ar. “Encontro vocês lá” foi a últim a coisa que ele disse, antes de desaparecer em um sopro de vento e fum aça escura.
Olhei para Tony e vi que seus olhos estavam quase saltando das órbitas. Eu sorri.
– E você confia nesse cara... Diabo fae, ou o que quer que ele sej a.
Balancei a cabeça, andando até a j anela e olhando para fora para ter certeza de que Ben não estava m ais lá. Fiquei pensando quão longe ele conseguia ir com aquela coisa de desaparecim ento esfum açado.
– Vocês vão na frente e nos esperem lá fora. Vou aj udar Tony a arrum ar a m ala. – Olhei para Chase: – Por favor, tenha cuidado com Tim . Vou ver por aqui se acho algum a coisa onde possam os colocá-lo.
Chase concordou antes de seguir os outros, saindo j anela afora com cuidado enquanto eu e Tony observávam os.
Um a vez sozinhos, voltei-m e para ele.
– Você vai precisar de pouca coisa, só aquilo que for indispensável. Haverá roupas e coisas para você lá.
– Para m im , onde? – perguntou Tony sem se m over.
– No com plexo. Onde nós m oram os.
Tony parecia aflito, m as nada disse. Peguei levem ente sua m ão.
– Ouça, é o seguinte: quando chegarm os lá, você vai conhecer o lugar todo e saber o que está acontecendo, e vai ter a chance de escolher ficar ou voltar. Você j á teve essa chance antes, e escolheu voltar para casa. Eu acho que é porque você ainda não sabia de tudo na época. Agora, vou garantir que você saiba de tudo. Tenho certeza de que quando souber, vai decidir ficar.
– Então, poderei voltar caso decida que não quero ter nada a ver com tudo isso?
Balancei a cabeça, frustrada.
– Sim . Mas, Tony, você não vai conseguir ficar de fora. O fato de Ben estar aqui é um a prova disso. De qualquer m aneira você vai se envolver. Ou vai voluntariam ente conosco, ou vai arrastado por Ben. Você é im portante para Ben por algum a razão que ele não está nos revelando. E é im portante para m im porque é m eu m elhor am igo. Você vai acabar com o fae de luz ou das trevas... E eu quero que você sej a de luz, com igo.
– E quanto a Tim ? Achei que ele fosse seu novo m elhor am igo.
Sorri.
– Ciúm es?
Tony sorriu levem ente.
– Não. Não m uito.
– Bom , você não tem com que se preocupar, ninguém pode tom ar o lugar que é seu em m eu coração. Mas você vai adorá-lo. E fique feliz por não poder ouvi-lo.
– Você pode? Com o?
– Um feitiço de bruxa. Eu explico depois.
– E por que eu não iria querer poder ouvi-lo?
– Digam os que pixies têm gases.
Tony pareceu enoj ado.
– Ah, credo.
– É. Nem m e diga. Vam os lá, vam os fazer sua m ala. O que você quer levar?
Tony olhou a sua volta no quarto; foi buscar a foto de nós dois que estava em um porta-retratos quebrado, com o resultado de tê-la atirado na parede no dia anterior. Eu o vira quebrando-o quando visitara seu quarto, quando viaj ava pelo Cinza com a aj uda de m eu am igo Gregale, o elfo cinzento. Foi quando eu soube o quanto Tony estava realm ente m al. Vê-lo chorar sobre a foto e depois atirá-la na parede m e deixou arrasada por dentro.
Ele arrancou a parte quebrada do porta-retratos e tirou a foto, colocando-a no bolso de trás da calça enquanto j ogava os restos no lixo. Pegou um suéter caído no chão e o vestiu rapidam ente, sentando-se na cam a para colocar suas botas.
– Você tem algum a coisa onde eu possa colocar Tim ?
Ele apontou para o guarda-roupa sem levantar os olhos dos cadarços.
– Ali.
Fui até o guarda-roupa e abri a porta, afastando o lixo até encontrar um a velha caixa de sapatos. Então, fui até a cam a, peguei o travesseiro de Tony e tirei a fronha, usando-a para forrar a parte de dentro da caixa, para ficar m ais confortável.
Tony se levantou e foi até a escrivaninha, tirando um papel da im pressora.
– Vou deixar um bilhete para m eus pais.
– O que você vai dizer a eles?
– Que vou ficar fora um tem po e que depois ligo.
– Diga que vai m andar um e-mail. Nós tem os com putadores, m as não telefones.
Tony deu de om bros.
– Tudo bem .
Ele term inou o bilhete, dobrou o papel e o colocou sobre o travesseiro. Puxou os lençóis e cobertores para que a cam a parecesse m ais arrum ada. Chutou as roupas suj as para um canto do quarto onde j á havia um a pilha delas. Tony olhou em volta, j ogando as m ãos para cim a e depois deixando-as cair.
– Pronto? – perguntei. – Está com seu passaporte?
– Acho que sim ... Sim , está com igo.
Ele foi até a escrivaninha e o pegou em um a gaveta, enfiando-o no bolso de trás da calça.
– Ótim o. Vam os em bora.
Eu queria dar o fora dali o m ais rápido possível, antes que ele m udasse de ideia.
Saím os pela j anela, apoiando-nos no telhado da varanda e usando a cerca para descer. Os outros nos esperavam no j ardim da frente.
Fui até Chase e lhe m ostrei a caixa.
– Coloque-o aqui.
Chase colocou Tim com cuidado dentro da caixa. Olhei para m eu pequeno com panheiro, que ainda estava gelado, e o cobri o m ais gentilm ente possível com o canto da fronha.
– Aguente firm e, Tim . Vam os voltar logo para que Maggie possa aj udá-lo.
Não recebi resposta nenhum a, então tam pei a caixa e usei aquele breve m om ento de hesitação para m e centrar e lutar contra o sentim ento de desespero que tom ava conta de m im . Funguei, tossi, livrando-m e da m assa disform e que se form ava no fundo de m inha garganta. Eu não poderia participar do showzinho de Ben sentindo-m e toda chorosa e fraca. Não dava para dim inuir a seriedade desse encontro. Era pela vida de Tony que eu estava lutando. Haveria tem po para lam entar por Tim m ais tarde – quando eu estivesse com todos os m eus com panheiros em um avião rum o à Floresta Verde.