A Guerra dos Fae: Luz e Trevas
Capítulo 21
MINHAS COSTAS ESTAVAM DOENDO – PROVAVELMENTE POR causa de todos os calom bos duros e irregulares que m e cutucavam . Eu ainda não estava pronta para abrir os olhos e identificar o que eram . Meus outros sentidos m e diziam m uito m ais do que eu queria saber. Eu estava em um lugar frio e úm ido. A cam a, ou onde quer que eu estivesse deitada, era de pedra, portanto, não m uito m acia. Eu podia ouvir água pingando em algum lugar e tudo em volta de m im cheirava a m ofo. Tinha certeza de que estava em algum lugar subterrâneo ou dentro de um a caverna. Não conseguia ouvir nada além da m inha própria respiração e o pequeno respingo ocasional de água. Pelo m enos, eu esperava que fosse água.
Levei a m ão lentam ente até m eu peito e descobri que Tim ainda estava lá, em baixo de m inha túnica. Eu podia sentir seu calor, o que significava que ele estava vivo. Esperava não o ter esm agado durante o transporte. Não havia nenhum a dúvida em m inha m ente de que eu estava no com plexo dos Fae das Trevas; não precisava de habilidades sobrenaturais para descobrir. Provavelm ente eu estava em um a m asm orra. Eles tinham m esm o um a m asm orra. Idiotas.
Alcancei m inha perna e senti a bainha vazia onde a presença m aciça de Blackie deveria estar. Droga.
Finalm ente abri os olhos e m e em bebedei visualm ente do que via. Eu estava em um a espécie de quarto em um a caverna. Tudo no espaço havia sido esculpido na pedra. Não havia barras de ferro m e prendendo ali, por isso, não era tão parecido com um a m asm orra quanto eu esperava. Ainda assim , havia um a porta e ela estava fechada. Eu estava disposta a apostar que estava trancada pelo lado de fora. Não havia cam a, apenas a laj e de pedra na qual eu estava deitada, que poderia se transform ar em um altar para sacrifício de virgens sem m uito esforço. Virei a cabeça para dar um a olhada no chão, na esperança de não ver um a poça de sangue. Felizm ente, não havia nenhum a. O chão era de pedra e parecia irregular. Em um a das paredes opostas, tam bém de pedra irregular, alguns fios de água escorriam , e pude ver que era a fonte do pinga-pinga que eu ouvia.
Sentei-m e lentam ente, lutando contra a tontura que am eaçava m e dom inar. Qualquer que fosse o feitiço que Maggie ou Sam antha haviam m e lançado, fora um trabalho m uito bom . Tentei m e lem brar de algum a coisa que acontecera depois de eu gritar com Maggie, m as não consegui. Eu poderia ter transado com um orc que provavelm ente dorm iria durante a coisa toda do m esm o j eito. Fechei bem as pernas enquanto as im agens assaltavam m inha m ente. Eu não tinha certeza de que m e recuperaria de algo do tipo, e estrem eci de repulsa só de pensar.
– Ok – disse eu em voz alta para o quarto de caverna –, hora de ir para casa.
Tentei cham ar O Verde, m as não havia nada. Apenas um vazio negro. O pânico subiu por m inha garganta, m as falei baixo para m im m esm a e m inha voz batia nas paredes.
– Relaxe. O Verde está lá fora. Você só precisa ser paciente e tentar novam ente.
E assim fiz. E m ais um a vez. Mas nada aconteceu.
– Porra! – gritei para ninguém em particular.
– Droga! – gritou alguém de volta.
– Tim ?
Olhei para m eu peito.
– Você se im portaria de m e tirar desse seu m aldito sutiã, por favor? Está quente e m ole aqui. Estou tentando não vom itar, m as se você não m e tirar logo, não posso prom eter nada.
– Pode sair, pode sair!
Abri m inha túnica o m ais rápido que pude e puxei a borda do sutiã para baixo. Tim não esperava a liberdade súbita, de m odo que se desequilibrou, caindo em m eu colo.
– Ai, que inferno, isso dói – gem eu.
Eu o vi lutar para se levantar, tentando firm ar os pés em m inhas pernas, m as falhando. Peguei-o delicadam ente e o coloquei no banco a m eu lado.
– Que diabos aconteceu? Com o é que eu fui parar em seu sutiã? – Ele olhou ao redor enquanto esfregava sua bunda com um a m ão e a cabeça com a outra. – E onde estam os?
– O que aconteceu foi Ben e Sam antha, aj udados por Maggie, e estam os no com plexo dos Fae das Trevas. Que eu saiba.
Tim se voltou para olhar para m im .
– Não!
– Sim !
– Ah, isso não é bom . Isso não é bom de jeito nenhum. Jay ne, você sabe o que isso significa?
– Tenho certeza de que isso significa que estam os presos. Ou pelo m enos eu estou. Eles não sabem que você está aqui.
Tim pensou por um segundo.
– Você tem certeza de que eles não sabem que eu estou aqui?
– Tenho certeza. Por que eles deixariam você em m eu sutiã? E eu com certeza não disse que você estava lá.
– Conte-m e tudo que sabe – ordenou ele, todo preocupado, andando por ali e ocasionalm ente sacudindo um a perna ou se curvando para esticar as costas. – Precisam os de um plano, m as, prim eiro, preciso de tanta inform ação quanto você. Vam os.
Inform ei-o sobre nossa triste situação, tentando recordar o m áxim o possível de detalhes. Quando term inei, Tim estava balançando a cabeça.
– Não posso acreditar que ela aj udou a capturá-la. Isso é tão típico de Maggie. Eu nunca deveria ter lhe apresentado a ela.
– O que quer dizer com é “típico de Maggie”? Ela sem pre foi boa para nós.
– Rá! Isso é o que você pensa. Maggie faz o que Maggie quer e pelas razões de Maggie. Se para ela vale a pena ser legal, ela é legal. Se ela quiser sua asa, ela a arranca. Se ela quiser vendê-la para seu pior inim igo, faz isso tam bém . Acredite em m im . Eu sei o que ela é capaz de fazer.
– Vocês têm um a história, e eu sei que não é coisa boa. Diga-m e o que ela fez com você.
– Além de arrancar m inhas asas, m ais de um a vez?
– Sim .
– Não. O passado deve ficar no passado. Agora, precisam os descobrir com o sair daqui. Se eles nos m antiverem por m uito tem po, vam os acabar ficando.
Tive um a sensação m uito assustadora ao ouvir isso.
– O que você quer dizer? Eu não vou ficar aqui.
Tim suspirou alto.
– Os Fae que são trazidos para cá raram ente vão em bora.
– Por quê? Será que eles... m orrem ?
A ideia m e deixou nauseada e em pânico m ais um a vez. Eu podia ouvir m eu coração batendo em m eus ouvidos. Tive que respirar fundo e engolir algum as vezes para m anter m eus conteúdos estom acais onde deveriam ficar.
– Não. Pior. Eles escolhem ficar. Os Fae das Trevas bagunçam seus cérebros.
– Não este cérebro – disse eu, confiante. – Tenho tanta vontade de m e tornar um Fae das Trevas quanto de dorm ir com um orc. Não vai rolar, com o diria Finn.
– Você diz isso agora, m as eu j á vi acontecer. Um fae perfeitam ente racional, inteligente. Um dia ele é fae de luz e feliz no casam ento, no próxim o, é um Fae das Trevas e diz coisas com o “Vej o você m ais tarde, otário”. Confie em m im . Acontece. E pode acontecer com igo ou com você. Precisam os sair daqui.
Ele voltou a andar de um lado para o outro, ainda m ais rápido. Seguindo esse ritm o, ele ia cavar um cam inho no banco de pedra.
– Tudo bem , tudo bem . Vam os elaborar um plano. – Pensei por alguns segundos e, em seguida, percebi que estava totalm ente sem ideias. – Qual é nosso plano?
– Você disse que nós estávam os lá fora com Tony, e não o pegaram , certo?
– Pelo que sei, não. Só nós. E você, só porque estava em m inha túnica.
– Eu estava em seu sutiã, Jay ne. Seu sutiã! E deixe eu lhe contar... Seus peitos são suados e pegaj osos.
– Tudo bem . Da próxim a vez vou deixar você virar alm oço de esquilo, que tal?
– Levantei-m e e saí andando, testando m inhas pernas. – Punk ingrato.
– Você não viu ninguém ainda? Há quanto tem po estam os aqui?
– Não, e não sei.
Só então ouvim os um som na porta.
– Rápido, entre em m inha túnica!
Inclinei-m e e peguei Tim , em purrando-o de volta para m eu sutiã antes que ele pudesse reagir. Eu podia senti-lo tentando sair, cavando ao redor e arranhando m inha pele, por isso bati levem ente do lado de fora de m inha túnica. – Shhh, alguém está chegando – sussurrei desesperadam ente –, e pare de m e coçar.
A porta se abriu para revelar Sam antha em pé no lim iar, sorrindo m aliciosam ente para m im , o que só m e fez querer arrancar aos chutes aquele sorriso daquela cara estúpida. Agora que eu sabia que Maggie estava de algum a form a envolvida na anulação de m eus poderes, não estava tão im pressionada com a bruxa Sam antha. Ela devia ser um a criança trocada pateta que não tinha a m enor ideia de nada, assim com o todo o resto dos novatos.
– Pronta para se render e m e deixar sair daqui? – perguntei.
Ela m e olhou com zom baria.
– Claro. Você não vai a lugar nenhum até que Ben term ine com você.
– Ah, sim . Ben. Então, qual é... ele é o substituto de Jared para seu enrugado coração negro?
– Cale a boca.
– Quanto tem po levou para esquecer seu am igo Jared? Um dia inteiro?
– Não é nada disso, Jay ne. Mas eu não espero que você entenda.
– Que bom . Não espere que eu entenda com o você pôde vender todos os seus am igos para um dem ônio m entiroso só porque ele é bonito. Eu nunca vou entender alguém com o você.
– Quer dizer que acha que eu sou bonito? – disse Ben, chegando do outro lado da porta para ficar ao lado de Sam antha. – Isso é tudo por enquanto, Sam . Encontro você na hora do alm oço.
– Mas...
– Eu disse que tudo bem . Por favor, deixe-nos.
– Você não acha que...
– Sam antha. Vá.
Ele franziu o cenho para ela.
Ela m e lançou um olhar de ódio, e em seguida saiu correndo, deixando Ben e eu quase sozinhos – Tim ainda estava escondido em m eu sutiã. Felizm ente, ele havia parado de lutar. Eu podia sentir seu pequeno corpo em m ovim ento a cada respiração rápida. Torci para que Ben não o visse ou ouvisse. Pelo que eu sabia, esse bosta tinha poderes auditivos supersônicos.
– Então, qual é o plano? – perguntei, irritada. – Tortura? Desm em bram ento? Morte? Conte-m e, o suspense está m e dando coceira.
Ben sorriu e entrou, fechando a porta atrás de si.
– Nenhum a das anteriores.
– Então? – descruzei os braços –, por que você m e trouxe aqui?
Ben deu de om bros.
– É um a parte necessária do plano.
– Seu plano para dom inar o m undo?
Ele riu sem vontade.
– Dificilm ente. Mas cham e com o quiser, não faz diferença. Vou conseguir o que quero, sem pre consigo.
Meu queixo endureceu, e fui incapaz de m e controlar.
– Você não conseguiu Tony. E eu sei que você o queria bastante.
Ben sorriu para m im com pena. Eu não gostei disso nem um pouco.
– Se fosse Tony que eu queria, não acha que eu teria sim plesm ente o arrebatado, com o fiz com Sam antha?
Ele deve ter lido a surpresa em m eu rosto, porque continuou:
– Sim , eu a trouxe assim que você e seus am igos entraram no avião. Ela está aqui há m ais tem po do que você é Fae da Luz. Nós não fazem os nossos recrutas passarem por todos aqueles testes ridículos.
– Sim , isso é verdade. Ouvi dizer que você vai alistar qualquer im becil com m erda no lugar do cérebro que tope. Sam antha não é a única prova disso.
O olhar de Ben passou de condescendente a irritado.
– Você está obviam ente incorreta, m as não faz diferença para m eus planos. Por m im , você pode continuar ignorante.
– Observação astuta não é ignorância. – Eu não tinha ideia de onde havia tirado isso, m as decidi prosseguir. – Tudo que vi foram enganações e truques. Você m entiu para Tony e feriu m eus am igos. Está disposto a m atar os seres hum anos e os fae para obter o que desej a. Isso m e diz que você precisa de pessoas de m oral duvidosa para construir seu exército. Sam antha é um exem plo perfeito disso.
– E o que Sam antha j á fez para você? – perguntou ele, cruzando os braços e recostando-se na porta.
– Nada, além de ser um a pessoa que anda com perdedores.
– Sinto m uito, m as você deve estar enganada. Você está olhando para os que em breve serão vencedores da guerra fae. Estaria fazendo um favor a si m esm a se se j untasse a nós.
– Só em seus sonhos. Mande-m e de volta agora e eu digo para eles pegarem leve com você.
Ben balançou a cabeça lentam ente.
– Você realm ente não tem ideia do que está dizendo – ele se afastou da porta –, m as isso não faz diferença. Você vai servir a seu propósito e, em seguida, será libertada. Ou m orta. Qualquer coisa que se adapte às m inhas necessidades no m om ento.
A dureza em sua voz m e gelou até os ossos. Não havia sequer um indício de potencial rem orso em sua expressão. Acreditei nele quando disse que m e m ataria se fosse conveniente, e isso teve o efeito de suavizar m inhas palavras.
– Por que eu? Por que você m e trouxe, em vez de Tony ?
Ele olhou para m im , analisando m eu rosto.
– Você não sabe m esm o, não é?
– Sei o quê? – perguntei, exasperada.
Eu j á estava cansada de seus j ogos.
Ele deu dois passos em m inha direção.
Recuei até m inhas pernas baterem no banco de pedra atrás de m im . Quanto m ais ele se aproxim ava, m ais eu era capaz de sentir seu calor; chegava em ondas. Olhei para seu rosto, incapaz de desviar o olhar. Seu cabelo estava levem ente desgrenhado, e um a m echa caía sobre a testa. Era escuro, m arrom -escuro, quase preto. Seus olhos verdes profundos penetraram m inha determ inação. Enquanto olhava para m im , ele falou novam ente.
– Você é quem vai com eçar a guerra – disse ele com calm a e frieza.
Senti m eu sangue fugir do rosto.
– Eu? – disse com voz fraca. – Com o eu poderia com eçar um a guerra trancada aqui?
Lam bi os lábios, nervosa. Minha boca estava seca.
Ben sorriu, parecendo quase triste, lentam ente chegando e tocando m eu rosto com um dedo.
– Tão suave... Tão fria ao toque... – disse ele, quase para si m esm o.
Então, ele piscou algum as vezes e sua expressão endureceu. Baixou a m ão:
– Eles virão buscar você. E quando chegarem , nós estarem os prontos.
Ele se voltou e saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
Fiquei congelada no lugar por alguns segundos, digerindo suas palavras e avaliando seu sentido. Eu tinha que dar o fora dali antes que elas pudessem se tornar realidade em vez de apenas divagações de um louco. Eu não tinha a m esm a fé que ele sobre m eu valor para os Fae da Luz com o um grupo; m as sabia que m eus am igos iriam m e buscar, e eu não queria que nenhum deles caísse em um a arm adilha.
Senti algum a coisa balançando em m inha túnica; coloquei a m ão sobre ela.
– Tem os que dar o fora daqui, Tim .
Um abafado “concordo!” veio de dentro da túnica.
Corri para a porta e puxei-a, esperando que estivesse trancada, m as ela se abriu e se chocou contra a parede. Perdi o equilíbrio um pouco, m as rapidam ente o recuperei, correndo da sala para o corredor. Olhei em am bas as direções, decidindo ir para a esquerda. Dei um a volta, fechei a porta atrás de m im e corri. Não havia nenhum ritm o ou razão em m inhas decisões agora, apenas instinto de sobrevivência.
Corri por um corredor que parecia perturbadoram ente conhecido. Passei de porta em porta, perguntando-m e quando eu chegaria ao fim ou a um a curva. Já um pouco sem ar, parei, colando os ouvidos a um a porta próxim a. Não ouvi nada, e tentei abrir o trinco delicadam ente. A porta se abriu pouco a pouco para revelar um quarto de pedra, com o o m eu. Abri m ais a porta e vi um banco de pedra, com o aquele em que eu estava. Abri o resto da porta e vi que estava em pé à porta do quarto onde estivera antes. Eu podia ver os fios de água que escorriam da parede.
– Foda-se, m aldito orc! – gritei para fora do quarto, cerrando os punhos, frustrada.
A cabeça de Tim despontou para fora de m inha túnica, com seu cabelo espetado em todas as direções.
– O que aconteceu? – sussurrou ele com voz rouca.
– O corredor é enfeitiçado. Corri por cinco m inutos e cheguei exatam ente a lugar nenhum .
– Palavrão!
Fiz um a pausa em m eu falatório e olhei para ele.
– O que você acabou de dizer?
– Palavrão!
– É essa sua ideia de xingar sem xingar?
– Obviam ente – Tim usou m eus botões para subir a m eu om bro. – Solte o cabelo para que eu possa m e esconder, caso eles voltem .
Tirei o elástico que segurava m eu rabo de cavalo e o guardei deslizando-o em m eu pulso. Eu estava vazia de ideias e cheia de irritação.
– Posso reclam ar um pouco m ais sobre o quanto m inha falta de asas está dificultando nossa fuga?
– Vá em frente. Mas talvez você devesse ficar quieto, caso este lugar estej a gram peado.
– Ah, não está.
– Com o você pode ter certeza?
– Pixies conseguem sentir coisas assim .
– Coisas assim com o?
– Bem , eletrônicos ou qualquer coisa que funcione com o eletrônicos, com o feitiços de gram peam ento.
– E por que você não m e disse essas coisas antes? Não acha que eu gostaria de saber disso?
– O quê? Eu devo inform á-la sobre todas as m inhas habilidades incríveis? Isso pode levar m uito tem po, sabia? Tenho pilhas delas.
Era um fato que, se tivesse asas agora, ele as estaria escovando e alisando. Ele era excessivam ente orgulhoso delas e de sua “pixiece” em geral. Eu tam bém era, norm alm ente, m as agora tudo que pensava era em com o fazer que ele e seus tocos de asa saíssem dali vivos.