A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 12 de 43 · parte 3/3

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

O Caminho do Eld

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Eu gosto das suas pernas, Suze — disse Jake, e o perfunctório tom do elogio fez Susannah mais uma vez rir. O garoto não notou; já se virará para Roland. — Quer ver a livraria?

— Tem mais alguma coisa pra ver lá?

O rosto de Jake ensombreceu-se.

— Na verdade, não muito. Está fechada.

— Eu gostaria de ver o terreno baldio, se houver tempo antes de sermos mandados embora de volta — disse Roland. — E a rosa.

— Elas machucam? — Eddie perguntou a Susannah. Olhava-a intensamente, na verdade.

— São ótimas — respondeu ela, rindo. — Excelentes.

— Você está diferente.

— Eu aposto! — disse ela, e deu uns passinhos de dança. Fazia luas e luas desde que dançara pela última vez, mas a grande alegria que tão visivelmente sentia compensou qualquer falta de graça. Uma mulher de terno executivo e balançando uma pasta topou com o maltrapilho grupo de perambulantes e afastou-se com uma guinada brusca, na verdade avançando alguns passos na rua para contorná-los. — Pode apostar que estou, eu tenho pernas!

— Igual à letra da música — disse-lhe Eddie.

— Hum?

— Esqueça — disse ele, e passou-lhe um braço em volta da cintura. Porém mais uma vez Roland viu-o dando a ela aquele olhar de busca, inquisitivo. Mas, com sorte, ele vai deixá-la em paz, pensou Roland. E foi o que Eddie fez. Beijou-lhe o canto da boca, depois se virou para Roland. — Então você quer ver o famoso terreno baldio e a ainda mais famosa rosa, né? Bem, eu também. Conduza-nos, Jake.

 

7

Jake conduziu-os pela Segunda Avenida, parando apenas para darem uma olhada rápida no Restaurante da Mente de Manhattan. Ninguém desperdiçava luz naquele estabelecimento, contudo, e na verdade não havia muito a ver. Roland esperava ver a tabuleta com o menu, mas desaparecera.

Lendo-lhe a mente à maneira prosaica como fazem as pessoas que partilham khef, Jake disse:

— Ele na certa o muda todo dia.

— Talvez — disse Roland.

Olhou através da vitrina mais um pouco, nada viu além de prateleiras escuras, algumas mesas e o balcão que Jake mencionara, aquele onde se sentavam os velhos tomando café e jogando a versão de Castelos daquele mundo. Nada a ver, mas alguma coisa a sentir, mesmo através do vidro: desespero e perda. Fora um cheiro, pensou Roland, teria sido amargo e um tanto rançoso. O cheiro do fracasso. Talvez de sonhos que nunca se realizaram. O que o tornava a perfeita alavanca para alguém como Enrico “Il Roche” (A Rocha) Balazar.

— Já viu o bastante? — perguntou Eddie.

— Sim. Vamos embora.

 

8

Para Roland, o passeio de oito quarteirões da Segunda com a Cinqüenta e Quatro até a Segunda com a Cinqüenta e Seis foi como visitar um país no qual até aquele momento semi-acreditava. Como pode ser estranho para Jake?, perguntou-se. O vagabundo que pedira ao garoto uma moeda se fora, mas o restaurante junto ao qual ele se sentara estava lá: Chew Chew Mama’s. Ficava na esquina da Segunda com a Cinqüenta e Dois. Uma quadra adiante, a loja de discos, Torre da Power Records. Continuava aberta — segundo um relógio acima que dava as horas em pontos elétricos, faltavam 14 minutos para as oito da noite. Sons altos vazavam da porta aberta. Guitarras e tambores. A música daquele mundo. Fê-lo lembrar-se da música sacrifical tocada pelos Gray na cidade de Lud, e por que não? Ali era Lud, de alguma maneira torcida de outro onde e quando. Teve certeza disso.

— São os Rolling Stones — disse Jake —, mas não a que tocava no dia em que vi a rosa. Aquela era “Paint It Black”.

— Não reconhece esta? — perguntou Eddie.

— Sim, mas não me lembro do título.

— Ah, mas devia — disse Eddie. — É “Nineteenth Nervous Breakdown”, o colapso nervoso dos 19 anos.

Susannah parou, olhou em volta.

— Jake?

Jake assentiu.

— Ele está certo.

Eddie, enquanto isso, pescara uma folha de jornal da porta gradeada da sentinela junto à Torre da Power Records. Uma parte de The New York Times, na verdade.

— Benzinho, sua mamãe não lhe ensinou que a melhor classe de pessoas não faz garimpo de sarjeta? — perguntou Susannah.

Eddie ignorou-a.

— Olhe só isto — disse ele. — Todos vocês.

Roland curvou-se mais para perto, meio esperando ver a notícia de outra peste, mas não era nada tão abalador. Pelo menos não pelo que ele sabia.

— Leia pra mim o que diz — pediu a Jake. — As letras saem e entram nadando de minha mente. É porque estamos todash... colhidos no meio...

— FORÇAS RODESIANAS ESTREITAM CERCO A ALDEIAS MOÇAMBICANAS — leu Jake. — DOIS ASSISTENTES DE CARTER PREVÊEM UMA ECONOMIA DE BILHÕES NO PLANO DE BEM-ESTAR SOCIAL. E aqui embaixo: CHINESES REVELAM QUE TERREMOTO DE 1976 FOI O MAIS MORTAL EM QUATRO SÉCULOS. E também...

— Quem é Carter? — perguntou Susannah. — O presidente antes de Ronald Reagan? Enfeitou as duas outras palavras com uma forte piscadela.

Eddie até então não conseguira convencê-la de que falava a sério sobre Reagan ser presidente. Nem ela acreditara em Jake quando o garoto lhe dissera que podia parecer loucura, mas a idéia era ao menos levemente plausível, porque Reagan fora governador da Califórnia. Susannah apenas rira disso e assentira com a cabeça, como lhe dando pontos pela criatividade. Sabia que Eddie conversara com Jake para confirmar sua história de pescador, mas ela não engolira. Imaginava que poderia ver Paul Newman como presidente, talvez até Henry Fonda, que parecera bastante presidencial em Limite de Segurança, mas o anfitrião de Death Valley Days? Não, lá no íntimo.

— Não importa Carter — disse Eddie. — Vejam a data.

Roland tentou, mas as letras continuavam entrando e saindo a nadar.

— Qual é, pelo seu pai?

— Dois de junho — disse Jake. Olhou para Eddie. — Mas se o tempo é o mesmo aqui e lá no outro lado, não devia ser primeiro de junho?

— Mas não é o mesmo — disse Eddie, implacável. — Não é. O tempo passa mais rápido deste lado. Jogo começado. E o relógio do jogo está correndo rápido.

Roland pensou.

— Se voltarmos de novo aqui, vai ser mais tarde toda vez, não é?

Eddie assentiu.

Roland continuou, falando tanto consigo mesmo quanto com os outros.

— Cada minuto que passarmos no outro lado, no de Calla, vai transcorrer aqui um minuto e meio. Ou talvez dois.

— Não, dois não — disse Eddie. — Tenho certeza de que não é o dobro. — Mas seu olhar nervoso de volta à data no jornal sugeria que não tinha certeza alguma.

— Mesmo que você tenha razão — disse Roland —, só o que podemos fazer agora é seguir adiante.

— Para 15 de julho — disse Susannah. — Quando Balazar e seus cavalheiros deixarem de jogar limpo.

— Talvez a gente deva deixar aquela Calla folken resolver seu próprio negócio — disse Eddie. — Detesto dizer isso, Roland, mas talvez a gente deva.

— Não podemos fazer isso, Eddie.

— Por que não?

— Porque Callahan tem o Treze Preto — disse Susannah. — Nossa ajuda é o preço dele pra devolvê-lo. E precisamos disso.

Roland fez que não com a cabeça.

— Ele vai devolver de qualquer modo... Achei que fui claro sobre isso. Sente terror da coisa.

— Ié — disse Eddie. — Eu também tive a mesma sensação.

— Temos de ajudá-los porque é o Caminho do Eld — disse Roland a Susannah. — E porque o caminho de ka é sempre o caminho do dever.

Julgou ver um lampejo no fundo dos olhos dela, como se ele tivesse dito alguma coisa engraçada. Imaginou que tivesse, mas não fora Susannah quem se divertira. Fora Detta ou Mia quem achara aquelas idéias engraçadas. A questão era qual das duas. Ou haviam sido as duas?

— Odeio a sensação daqui — disse Susannah. — Essa sensação sombria.

— Eu me sentiria melhor no terreno baldio — disse Jake. Saiu andando, e os outros o seguiram. — As rosas tornam tudo melhor. Vocês vão ver.

 

9

Quando Jake atravessou a rua Cinqüenta, começou a apressar o passo. No lado do centro da cidade da Quarenta e Nove, começou a fazer jogging. Na esquina da Segunda com a Quarenta e Oito pôs-se a correr. Não pôde evitar. Conseguiu uma ajudinha do SIGA na Quarenta e Oito, mas o sinal no poste começou a piscar vermelho assim que chegou ao meio-fio da calçada.

— Jake, espere! — gritou Eddie de trás, mas o garoto não parou. Talvez não pudesse. Sem dúvida, Eddie sentiu a influência da coisa; assim como Eddie e Susannah. Um zumbido elevava-se no ar, fraco e agradável. Era tudo o que não era a terrível sensação sombria à volta deles.

Para Roland, o zumbido trouxe lembranças de Mejis e Susan Delgado. De beijos trocados num colchão de relva macia.

Susannah lembrou-se de quando estava com o pai, na infância, arrastando-se para o colo dele e pondo a pele lisa da face junto à áspera trama de seu suéter. Lembrou-se de que fechava os olhos e inspirava fundo o cheiro que era dele e só dele: tabaco de cachimbo, gaultéria e o ungüento que esfregava nos pulsos, onde a artrite começara a mordê-lo na revoltante idade de 25 anos. O que aqueles cheiros significavam para ela era que tudo estava bem.

Eddie viu-se lembrando de uma viagem a Atlantic City quando era muito pequeno, não mais que cinco ou seis anos. A mãe levara-os, num determinado ponto do dia ela e Henry haviam saído para comprar casquinhas de sorvete. A Sra. Dean apontara a calçada larga e dissera: Ponha a bunda bem ali, Sr. Homem, e fique ali até a gente voltar. E ele fizera isso. Poderia ter ficado ali o dia todo, olhando a descida até a praia do fluxo e refluxo cinzentos do mar. As gaivotas sobrevoando logo acima da espuma, chamando umas às outras. Cada vez que as ondas recuavam, deixavam uma escorregadia imensidão de areia marrom tão brilhante que ele mal conseguia olhá-la sem franzir os olhos. O barulho das ondas era ao mesmo tempo enorme e acalentador. Eu poderia ficar aqui para sempre, lembrou-se que pensara, porque é lindo e pacífico... e está tudo bem. Tudo aqui está bem.

Roland e Eddie seguraram Susannah pelos cotovelos sem mais que uma troca de olhares. Ergueram seus pés descalços da calçada e carregaram-na. Na Segunda com a Quarenta e Sete o trânsito corria contra eles, mas Roland lançou uma das mãos aos faróis que se aproximavam e gritou:

— Salve! Pare em nome de Gilead!

E eles obedeceram. Houve um grito de freios, uma batida de pára-lama dianteiro com traseiro e o tinido de vidro caindo, mas pararam. Roland e Eddie atravessaram num clarão de refletor de faróis e uma cacofonia de buzinas. Susannah entre eles com os pés recuperados (e já muito sujos) a 10 centímetros do chão. A sensação de felicidade e correção foi ficando mais forte à medida que se aproximavam da esquina da Segunda com a Quarenta e Seis. Roland sentiu o zumbido da rosa a correr-lhe delirantemente no sangue.

Sim, pensou. Por todos os deuses, sim. É isto. Talvez não apenas a porta de entrada para a Torre Negra, mas a própria Torre. Deuses, que força! Que puxão! Cuthbert, Alain, Jamie — ah, se vocês estivessem aqui!

Jake estava na esquina da Segunda com a Quarenta e Seis, olhando para uma larga cerca de um metro e cinqüenta de altura. Lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Da escuridão além da cerca vinha um forte zumbido harmônico. O zunzum de várias vozes, todas cantando juntas. Cantando uma nota ampla e aberta. E aqui, sim, diziam as vozes. Eis a sua possibilidade. Eis a boa virada, o encontro afortunado, a febre que irrompeu pouco antes do amanhecer e deixou-lhe o sangue calmo. Eis o desejo que se torna verdade e o olho entendedor. Eis a bondade que lhe foi dada e assim aprendida a passar adiante. Eis a clareza e a sanidade que você julgava perdidas. Eis onde está tudo bem.

Jake virou-se para eles.

— Estão sentindo? — perguntou. — Estão?

Roland fez que sim com a cabeça. Eddie também.

— Suze? — perguntou o garoto.

— É quase a coisa mais linda do mundo, não? — disse ela.

Quase, pensou Roland. Ela disse quase. Nem lhe escapou o fato de que ela levou a mão à barriga e acariciou-a ao dizer isso.

 

10

Os cartazes de que Jake se lembrava estavam ali — Olivia Newton-John no Radio City Music Hall, um grupo chamado G. Gordon Liddy e os Grots num lugar chamado Mercury Lounge, um filme de terror intitulado Guerra dos Zumbis, NÃO ULTRAPASSE. Mas...

— Aquele não é o mesmo — disse ele, apontando uma pichação cor de rosa-maravilha esmaecida. — É da mesma cor, e as letras de fôrma parecem escritas pelo mesmo grafiteiro, mas quando estive aqui antes, era um poema sobre a tartaruga. “Veja a enorme TARTARUGA!, No casco ela carrega a Terra.” E depois alguma coisa sobre seguir o Feixe de Luz.

Eddie avançou mais um pouco e leu o seguinte: “Ó SUSANNAH-MIO, minha moça dividida em duas, Done estacionou sua BANHEIRA no DIXIE PIG, no ano de 99.” Ele olhou para Susannah.

— Que diabos quer dizer isso? Alguma idéia, Suze?

Ela fez que não com a cabeça. Tinha os olhos muito abertos. Olhos assustados, pensou Roland. Mas qual das mulheres estava assustada? Ele não soube dizer. Só sabia que Odetta Susannah Holmes fora dividida desde o início, e aquele “mio” era muito próximo de Mia. O zumbido que vinha da escuridão atrás da cerca dificultava pensar nessas coisas. Ele queria ir direto e já para a origem do zumbido. Precisava ir, como um homem morrendo de sede para a água.

— Vamos — disse Jake. — A gente pode pular pro outro lado, é fácil.

Susannah baixou os olhos para os pés descalços, sujos, e recuou um passo.

— Eu não — disse. — Não posso. Sem sapatos, não.

O que fazia perfeito sentido, mas Roland achou que tinha mais alguma coisa ali. Mia não queria ir lá. Sabia que alguma coisa terrível poderia acontecer se o fizesse. Com ela e seu bebê. Por um momento, esteve à beira de insistir, de deixar a rosa cuidar da coisa que brotava dela e da sua problemática personalidade nova, tão forte que Susannah aparecera ali com as pernas de Mia.

Não, Roland. Era a voz de Alain. O amigo que sempre fora o mais forte no toque. Hora errada, lugar errado.

— Vou ficar com ela — disse Jake.

Falou com imenso pesar, mas sem qualquer hesitação, e Roland foi inundado por seu amor pelo garoto que deixara certa vez morrer. A ampla voz da escuridão além da cerca cantava palavras daquele amor; ele a ouviu. E do simples perdão, em vez da difícil marcha forçada da expiação? Achou que sim.

— Não — disse ela. — Você vai, favinho de mel. Vou ficar ótima. — Sorriu-lhes. — Esta também é a minha cidade, vocês sabem. Posso cuidar de mim mesma. E além disso... — Baixou a voz como se confidenciasse um grande segredo. — Acho que a gente é meio invisível.

Eddie olhava-a mais uma vez daquela maneira perscrutadora, como se a perguntar se ela poderia não ir com eles, pés descalços ou não, mas dessa vez Roland não parecia preocupado. O segredo de Mia estava seguro, pelo menos por ora; o chamado da rosa era forte demais para que Eddie conseguisse pensar em muito mais coisas. Estava doido para prosseguir.

— Devíamos ficar juntos — disse Eddie, relutante. — Para a gente não se perder quando voltar. Foi o que você disse, Roland.

— A que distância fica a rosa daqui, Jake? — perguntou o pistoleiro. Era difícil falar com aquele zumbido como um vento nos ouvidos. Difícil pensar.

— Fica bem no meio do terreno. Talvez uns 30 metros, mas provavelmente menos.

— No segundo em que ouvirmos os sinos — disse Roland —, a gente corre para a cerca e Susannah. Todos os três. Combinado?

— Combinado — disse Eddie.

— Todos três e Oi — disse Jake.

— Não, Oi fica com Susannah.

Jake fez um ar de reprovação, claramente não gostando da idéia. Roland não esperava que fosse diferente.

— Jake, Oi também tem os pés nus... e você não disse que tem vidro quebrado lá?

— Ih, ié... — Arrastado. Relutante. Em seguida, Jake apoiou-se num joelho e encarou Oi nos olhos debruados de dourado. — Fique com Susannah, Oi.

— Oi! Ica! — Oi fica. Isso bastava para Jake. Ele levantou-se, virou-se para Roland e assentiu com a cabeça.

— Suze? — perguntou Eddie. — Tem certeza?

— Sim.

Enfática. Sem hesitação. Roland teve quase certeza de que era Mia no controle, puxando as alavancas e girando os mostradores. Quase. Mesmo então, não foi positivo. O zumbido da rosa tornava impossível ter certeza de qualquer coisa, além de que tudo... tudo... podia estar bem.

Eddie assentiu, beijou-lhe o canto da boca e avançou para a cerca ripas com seu estranho poema Ó SUSANNAH-MIO, minha moça dividida em duas. Enlaçou os dedos formando um degrau. Jake apoiou o pé, içou-se e desapareceu como um hálito de brisa.

— Aque! — gritou Oi, e calou-se, sentando-se ao lado de um dos pés descalços de Susannah.

— Você é o próximo, Eddie — disse Roland.

Enlaçou os dedos restantes, pretendendo dar a Eddie o mesmo calço que ele dera a Jake, mas ele simplesmente agarrou-se ao alto da grade e saltou para o outro lado. O drogado que Roland vira pela primeira vez num avião a jato chegando ao aeroporto Kennedy jamais poderia ter feito aquilo.

O pistoleiro disse:

— Fiquem onde estão. Os dois. — Talvez se dirigisse à mulher e ao trapalhão, mas só olhava para a mulher.

— Vamos ficar ótimos — disse ela, e curvou-se para afagar o pêlo sedoso de Oi. — Não vamos, garotão?

— Oi!

— Vá ver sua rosa, Roland. Enquanto ainda consegue.

Roland lançou-lhe um olhar pensativo e agarrou-se à cerca. Um momento depois, desaparecera, deixando Susannah e Oi sozinhos na mais vital e vibrante esquina de todo o universo.

 

11

Coisas estranhas aconteceram-lhe enquanto ela esperava.

Lá atrás no caminho por onde tinham vindo, perto da Torre da Power Records, o relógio de um banco piscava sinais alternados de hora e temperatura: 8h27, 17,77°C, 8h27, 17,77°C, 8h27, 17,77°C. Então, de repente, piscava 8h34, 17,77°C, 8h34, 17,77°C. Ela não desviou os olhos dele, jurava. Teria ocorrido alguma avaria com a maquinaria do relógio?

Deve ter, ela pensou. Que mais poderia ser? Nada, imaginou, mas por que tudo de repente parecia diferente? Até ficava diferente? Talvez seja a minha maquinaria que ficou avariada.

Oi ganiu e esticou o longo pescoço para ela. Quando fez isso, ela percebeu por que tudo parecia diferente. Além de algum modo passar sete minutos não contados por ela, o mundo recuperara sua perspectiva anterior, em tudo familiar. Uma perspectiva mais baixa. Estava mais próxima de Oi por estar mais próxima do chão. As esplêndidas pernas inferiores e pés que usara quando abrira os olhos em Nova York haviam desaparecido.

Como acontecera isso? E quando? Nos sete minutos perdidos?

Oi ganiu mais uma vez. Desta foi quase um latido. Olhava além dela, no lado oposto. Ela virou-se para lá. Seis pessoas atravessavam a Quarenta e Seis em direção a eles. Cinco eram normais. A sexta, uma mulher de rosto branco com um vestido manchado de musgo. Tinha as cavidades dos olhos vazias e pretas. A boca abria-se aparentemente até o esterno, e Susannah via um verme verde rastejando pelo lábio inferior. Os que atravessavam com ela abriam-lhe seu próprio espaço, assim como os outros pedestres na Segunda Avenida haviam aberto o de Roland e seus amigos. Susannah imaginou que nos dois casos os transeuntes mais normais sentiam alguma coisa fora do comum e evitavam passar perto. Só que aquela mulher não estava todash.

Aquela mulher estava morta.

 

12

O zumbido ia aumentando cada vez mais enquanto os três tropeçavam no ermo cheio de tijolos e lixo do terreno baldio. Como antes, Jake via rostos em cada ângulo e sombra. Viu Gasher e Hoots; Tiquetaque e Flagg; as armas de Eldred Jonas, Depape e Reynolds; a mãe, o pai e Greta Shaw, a governanta deles, que parecia um pouco com Edith Bunker na TV, e que sempre se lembrava de tirar as cascas de seu sanduíche. Greta Shaw, que às vezes o chamava de ’Bama, embora isso fosse um segredo só entre os dois. Eddie viu pessoas do antigo bairro: Jimmie Polio, o garoto do pé deformado, e Tommy Fredericks, que sempre ficava tão nervoso ao assistir aos jogos de beisebol de rua que fazia caretas e a garotada o chamava de Tommy Halloween. Havia Skipper Brannigan, que puxaria uma briga com o próprio Al Capone, se este houvesse revelado suficiente falta de sensatez para ir ao bairro deles, e Csaba Drabnik, o Porra Louca húngaro. Viu o rosto da mãe numa pilha de tijolos quebrados, os olhos luminosos dela recriados dos cacos quebrados de uma garrafa de refrigerante. Viu sua amiga Dora Bertollo (toda a garotada do quarteirão a chamava de Tetas Bertollo, pois as tinha realmente grandes, do tamanho de melancias). E, claro, Henry. O irmão em pé bem ao longe no fundo, nas sombras, olhando-o. Só que Henry sorria em vez de zoar, e parecia normal. Estendia a mão e mostrava a Eddie o que parecia um polegar erguido. Vá, parecia sussurrar o zumbido a elevar-se. Vá, Eddie, mostre a eles do que você efeito. E eu não contei àqueles caras? Quando saíamos e ficávamos atrás da Dahlie fumando os cigarros de Jimmie Polio, não lhes contei? “Meu maninho convenceria até o diabo a atear fogo em si mesmo”, eu dizia. Sim. Ele contara. E isto foi o que sempre senti, sussurrou o zumbido. Eu sempre amei você. Às vezes eu o reprimia, mas sempre o amei. Você era o meu homenzinho.

Eddie caiu em prantos. E eram lágrimas boas.

Roland viu todos os fantasmas de sua vida naquela ensombrada ruína cheia de entulhos, desde a mãe e sua ama-seca até os visitantes de Calla Bryn Sturgis. E à medida que seguiam andando, aumentava aquela sensação de acerto. O sentimento de que todas as suas decisões difíceis, toda a dor e o sangue derramado não haviam, afinal, sido em vão. Havia um motivo. Havia um propósito. Havia vida e amor. Ouvia tudo isso na cantiga da rosa, e também ele se pôs a chorar. Sobretudo de alívio. Chegar ali fora uma jornada difícil. Muitos haviam morrido. No entanto, ali eles viviam: ali cantavam uma cantiga com a rosa. Sua vida não fora um sonho árido, afinal.

Deram-se as mãos e avançaram aos tropeções, ajudando uns aos outros a evitar as tábuas cheias de pregos e os buracos onde podiam enfiar, torcer e até quebrar um tornozelo. Roland não sabia se alguém podia quebrar um osso no estado todash, mas não sentia a menor vontade de descobrir.

— Isto aqui vale tudo mais — disse, a voz rouca.

Eddie assentiu.

— Nunca mais vou parar. Talvez não pare nem que morra.

Jake fez-lhe o gesto de OK com o polegar e o indicador, e riu. O som era doce aos ouvidos de Roland. Embora fosse mais escuro ali do que na rua, as lâmpadas cor de laranja da Segunda com a Quarenta e Seis eram fortes o bastante para proporcionar ao menos alguma iluminação. Jake apontou uma tabuleta caída numa pilha de tábuas.

— Vêem isto? É a placa da delicatessen. Eu a arranquei das ervas daninhas. Por isso é que está aqui. — Olhou em volta, depois apontou o outro lado. — E olhem!

A placa ainda estava de pé. Roland e Eddie viraram-se para lê-la. Embora nenhum deles a houvesse visto antes, sentiram uma forte sensação de déjà-vu, apesar disso.

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Como Jake lhes dissera, a placa parecia velha, necessitando de restauração ou substituição imediata. Jake lembrara-se da pichação pintada sobre a placa, e Eddie se lembrava dela da história de Jake, não porque significasse alguma coisa para ele, mas apenas porque era estranha. E ali estava, igual à relatada: BANGO SKANK. O cartão de visita de algum grafiteiro há muito desaparecido.

— Eu acho que o número do telefone na placa é diferente — disse Jake.

— É? — perguntou Eddie. — Qual era o antigo?

— Não me lembro.

— Então como pode ter certeza de que é diferente?

Em outro lugar e em outro tempo, Jake talvez tivesse se irritado com aquelas perguntas. Agora, acalmado pela proximidade da rosa, sorria, em vez disso.

— Não sei. Acho que não posso ter certeza. Mas parece diferente. Igual à tabuleta na vitrina da livraria.

Roland mal ouvia. Avançava sobre as pilhas de tijolos, tábuas e vidro quebrado com suas surradas botas de caubói, os olhos brilhantes mesmo nas sombras. Vira a rosa. Alguma coisa jazia a seu lado, no local onde Jake encontrara sua versão da chave, mas Roland não prestava atenção alguma. Só via a rosa, brotando de um tufo de grama, manchada de roxo com tinta derramada. Ajoelhou-se diante dela. Um momento depois Eddie juntava-se à esquerda dele, Jake à direita.

 

13

A princípio Susannah ficou muito bem. Equilibrava-se apesar de ter perdido um pé e uma metade de si mesma — o ser que chegara ali, em todo caso —, e agora forçava a assumir a antiga e conhecida postura (e odiosamente subserviente), semi-ajoelhada e semi-sentada na imunda calçada e encostada na cerca de tábuas em torno do terreno baldio. Um pensamento sarcástico cruzou-lhe a mente — Tudo o que preciso é de uma placa de cartolina e uma caneca de estanho.

Continuou no lugar, mesmo após a visão da mulher morta atravessando a rua Quarenta e Seis. A cantoria — o que ela julgava fosse a voz da rosa — ajudava. Oi também ajudava, aconchegando seu calor junto ao dela. Acariciava-lhe o pêlo sedoso, usando a realidade dele como um ponto de apoio. Dizia a si mesma repetidas vezes que ela não era insana. Tudo bem, perdera sete minutos. Talvez. Ou talvez as entranhas dentro daquele moderníssimo relógio ali houvessem acabado de ter um ataque de soluços. Tudo bem, ela vira uma mulher morta atravessando a rua. Talvez. Ou talvez só vira uma entupida de droga estupidificada, Deus sabe que não havia escassez delas em Nova York...

Uma drogada com um verme verde saindo da boca?

— Posso ter imaginado essa parte — disse ela ao trapalhão. — Certo?

Oi dividia sua nervosa atenção entre Susannah e os faróis que passavam a toda, que talvez lhe parecessem enormes e predatórios animais de olhos luminosos. Gania nervosamente.

— Além disso, os meninos logo vão voltar.

— Ninos — concordou o trapalhão, parecendo esperançoso.

Por que não fui com eles? Eddie teria me levado nas costas, Deus sabe que ele já fez isso antes, tanto com o arreio quanto sem.

— Não podia — sussurrou. — Eu simplesmente não podia. Porque alguma parte dela temia a rosa. Ou chegar perto demais da flor. Teria aquela parte assumido o controle durante os sete minutos que haviam desaparecido? Susannah temia que tivesse assumido. Se assim fosse, já fora embora àquela altura. Levara de volta as pernas e simplesmente dera o fora nelas para a Nova York de cerca de 1977. Nada bom. Mas levara consigo seu medo da rosa, e isso era bom. Ela não queria ter medo de uma coisa tão forte e maravilhosa.

Outra personalidade? Você acha que a dama que trouxe as pernas era outra personalidade?

Outra versão de Detta Walker, em outras palavras?

A idéia deu-lhe vontade de gritar. Pensou que agora entendia como se sentiria uma mulher se, mais ou menos cinco anos depois de uma operação de câncer aparentemente bem-sucedida, o médico lhe dissesse que um raio X de rotina detectara uma sombra em seu pulmão.

— Outra vez, não — ela murmurou, a voz baixa e frenética, ao passar um novo grupo escolar de pedestres. Todos se afastaram um pouco da cerca de tábuas, embora isso reduzisse consideravelmente o espaço entre eles. — Não, outra vez, não. Não pode ser. Estou inteira. Estou... estou consertada.

Fazia quanto tempo que seus amigos haviam partido?

Olhou o relógio piscando, na rua abaixo. Dizia 8h42, mas ela não teve certeza se podia confiar nele. Parecia ter passado mais tempo. Muito mais. Talvez devesse chamá-los com um grito. Só para gritar olá. Como estão se saindo aí?

Não. Nada disso. Você é uma pistoleira, menina. Pelo menos é isso o que ele diz. O que acha. E não vai mudar o que ele pensa de você gritando como uma menina de escola que acabou de ver uma cobra sob um arbusto. Só vai ficar sentada aqui e esperar. Pode fazer isso. Você tem a companhia de Oi e...

Então viu o homem parado no outro lado da rua. Só parado junto a uma banca de jornal. Nu. Um malfeito corte em Y, costurado com grandes pontos industriais, começava na virilha, subia e bifurcava-se no esterno. Os olhos vazios fitavam-na. Através dela. Através do mundo.

Qualquer possibilidade de que aquilo fosse uma alucinação terminou quando Oi começou a latir. Olhava diretamente o homem nu no outro lado da rua.

Susannah desistiu do silêncio e pôs-se a gritar por Eddie.

 

14

Quando a rosa se abriu, revelando a fornalha escarlate no interior de suas pétalas e o sol em chamas no centro, Eddie viu tudo que importava.

— Ó meu Deus — suspirou Jake a seu lado, mas era como se estivesse a mil quilômetros de distância.

Eddie via coisas fantásticas e quase as deixou escapar. Albert Eins-tein na infância, não exatamente atropelado por uma caminhonete de leite ao atravessar. Um adolescente chamado Albert Schweitzer saindo de uma banheira e pisando exatamente no sabonete ao lado da tampa puxada. Um Oberleutnant nazista queimando uma folha de papel com a data e o local da invasão do Dia D escritos. Viu um homem que pretendia envenenar todo o abastecimento d’água de Denver morrer de um ataque cardíaco num restaurante à beira da estrada Interestadual 80 em Iowa, com um saco de batata frita do McDonald’s no colo. Viu um terrorista revestido de explosivos desviar-se de repente de um restaurante numa cidade que poderia ter sido Jerusalém. O terrorista ficara hipnotizado por nada mais que o céu e o pensamento de que cobria, no arco acima, os justos e os injustos igualmente. Viu quatro homens resgatarem um menino de um monstro, cuja cabeça toda parecia consistir em um único olho.

Porém, mais importante que tudo isso, era o imenso peso acumulado de pequenas coisas, desde aviões que não haviam caído sobre homens e mulheres que haviam chegado ao lugar certo na hora perfeita e assim fundado gerações. Viu beijos trocados em vãos de porta, carteiras devolvidas e homens que haviam chegado a um caminho que se bifurcava e escolhido a bifurcação certa. Viu milhares de encontros fortuitos nada fortuitos, dez milhares de decisões acertadas, uma centena de milhares de respostas certas, um milhão de atos de não reconhecida bondade. Viu a velha gente de River Crossing e Roland ajoelhando-se na poeira para a bênção de tia Talitha; mais uma vez ouviu-a dando a bênção livre e alegremente. Ouviu-a dizer-lhe que pusesse a cruz que lhe dera aos pés da Torre Negra e falasse em nome de Talitha Unwin no outro lado da Terra. Viu a própria Torre nas dobras em chamas da rosa, e por um momento compreendeu seu propósito: que distribuía suas linhas de força a todos os mundos que existiam e mantinha-os coesos na grande hélice do tempo. Para cada tijolo que caía no chão e não na cabeça de um menino, para cada furacão que não atingia o campo de motoristas com trailers, para cada míssil que não decolara, para cada mão afastada da violência, havia a Torre.

E a voz cantando baixo da rosa. A melodia que prometia que tudo ia dar certo, que tudo podia dar certo, que todo tipo de coisa ia dar certo.

Mas tem alguma coisa errada nela, pensou.

Uma dissonância cacofônica enterrada no zumbido, como cacos de vidro quebrado. Havia um desagradável clarão roxo a tremeluzir no núcleo quente, uma luz fria que não fazia parte dali.

— Há dois centros de existência — ouviu Roland dizer. — Dois! — Como Jake, era como se estivesse a milhares de quilômetros de distância.

— A Torre... e a rosa. Mas são a mesma coisa.

— A mesma coisa — disse Jake.

O garoto tinha o rosto pintado de luz brilhante, vermelho-escura e amarelo-ouro. Mas Eddie achou que também ele via a outra luz, um reflexo roxo a tremeluzir igual a um hematoma. Ora dançava na testa de Jake, ora na face, ora nadava no poço do seu olho; ora desaparecia, ora reaparecia na testa como a manifestação de uma má idéia.

— Que é que há com ela? — Eddie ouviu-se perguntando, mas não obteve resposta. Nem de Roland, nem de Jake, nem da rosa.

Jake ergueu o dedo e começou a contar. Contar as pétalas, viu Eddie. Mas era desnecessário contar. Todos os três sabiam quantas pétalas havia ali.

— Precisamos ter este terreno — disse Roland. — Ser donos dele e protegê-lo. Até os Feixes de Luz se restabelecerem e a Torre tornar-se mais uma vez segura. Porque, enquanto a Torre Negra enfraquece, esta é que mantém tudo coeso. E também está enfraquecendo. Doente. Vocês sentem?

Eddie abriu a boca para dizer claro que sentia, e foi quando Susannah começou a gritar. Um momento depois Oi juntou sua voz à dela, latindo ferozmente.

Eddie, Jake e Roland entreolharam-se como pessoas a dormir que são despertadas do mais profundo dos sonhos. Eddie foi o primeiro a levantar-se. Virou-se e saiu aos tropeços de volta à cerca e à Segunda Avenida, gritando o nome dela. Jake seguiu-o, parando só o bastante para arrancar alguma coisa do emaranhado de bardana onde se encontrava a chave antes.

Roland se permitiu um último e agonizante olhar à rosa silvestre que crescia tão bravamente ali naquela tombada terra devastada de tijolos, tábuas, ervas daninhas e lixo. Ela já começava a enrolar as pétalas de novo, escondendo a luz que ardia dentro.

Eu voltarei, disse-lhe. Juro pelos deuses de todos os mundos, por minha mãe e pai e meus amigos que já existiram, que eu voltarei.

Mas sentia medo.

Roland virou-se e correu para a cerca de tábuas, escolhendo o caminho pelo lixo tombado com inconsciente agilidade, apesar da dor no quadril. Ao correr, voltou-lhe um pensamento que lhe martelava a mente como um coração: Dois. Dois centros de existência. A rosa e a Torre. A Torre e a rosa.

Todo o resto se mantinha entre eles, girando em frágil complexidade.

 

15

Eddie precipitou-se para a cerca, caindo mal, de braços e pernas abertos, levantou-se de um salto e avançou diante de Susannah sem sequer pensar. Oi continuava latindo.

— Suze? Que foi? Que é que há?

Estendeu a mão para pegar o revólver de Roland e nada encontrou. Parecia que armas não entravam em todash.

— Ali! — gritou ela, apontando o outro lado da rua. — Ali! Está vendo-o? Por favor, Eddie, por favor diga que está!

Eddie sentiu a temperatura do sangue despencar. O que ele via era um homem nu que fora aberto e depois costurado novamente até em cima, no que só poderia ser uma tatuagem de autópsia. Outro homem — vivo — comprou um jornal na banca ao lado, verificou o tráfego e atravessou a Segunda Avenida. Embora sacudisse o jornal para abri-lo e ver a manchete ao fazê-lo, Eddie viu a maneira como contornou o cadáver. Como as pessoas nos contornavam, pensou.

— Também tinha outro — sussurrou ela. — Uma mulher. Andando. E um verme ras-ras-rastejando...

— Olhe à direita — disse Jake, tenso.

Apoiado num joelho, acariciava Oi mandando-o calar-se. Na outra mão, segurava uma coisa rosa amassada, o rosto pálido como queijo cottage.

Eles olharam. Uma criança vagava devagar em sua direção. Só se podia dizer que era uma menina por causa do vestido vermelho e azul que usava. Quando ela se aproximou, Eddie viu que o azul devia ser o mar. Os pingos grossos vermelhos revolviam-se em pequenos barcos a vela cor de bala. Tivera a cabeça esmagada em algum acidente cruel, esmagada até ficar mais larga que comprida. Os olhos eram uvas espremidas. Sobre um dos pálidos braços, trazia uma bolsa de plástico branco. A melhor bolsa vou-a-um-acidente-de-carro-e-não-sei de uma menina.

Susannah inspirou para gritar. A escuridão que apenas sentira antes agora era quase visível. Sem a menor dúvida, palpável; comprimia-a como terra. E, no entanto ela queria gritar. Precisava gritar. Gritar ou enlouquecer.

— Nem um pio — sussurrou-lhe no ouvido Roland de Gilead. — Não a perturbe, pobre coisa perdida. Por sua vida, Susannah! — O grito expirou num longo e horrorizado suspiro.

— Estão mortos — disse numa voz rala, controlada. — Os dois.

— Mortos errantes — respondeu Roland. — Ouvi falar deles pelo pai de Alain. Não deve ter sido muito depois que voltamos de Mejis, porque após isso não se passou muito tempo até tudo... como é que você diz, Susannah? Antes de tudo ir pro inferno numa cesta de mão. Em todo caso, foi Burning Chris quem nos avisou que se algum dia entrássemos em todash, talvez víssemos os errantes. — Apontou o outro lado da rua onde o morto continuava parado. — Os que como ele do lado de lá morreram tão de repente que não compreendem o que aconteceu com eles ou simplesmente se recusam a aceitar isso. Cedo ou tarde, seguem mesmo adiante. Não creio que sejam muitos.

— Obrigado, meu Deus — disse Eddie. — Parece uma coisa saída de um filme de zumbi de George Romero.

— Susannah, que é que houve com suas pernas?

— Eu não sei. Num minuto eu as tinha, e no seguinte fiquei como antes. — Pareceu tomar consciência do olhar de Roland e virou-se para ele. — Está vendo alguma coisa engraçada, doçura?

— Somos ka-tet, Susannah. Conte o que realmente aconteceu.

— Que porra você tá tentando insinuar? — perguntou-lhe Eddie. Talvez houvesse dito mais, porém, antes que começasse, Susannah agarrou-lhe o braço.

— Você me sacou, não foi? — ela perguntou a Roland. — Tudo bem, vou contar a vocês. Segundo aquele extravagante relógio digital, eu perdi sete minutos enquanto esperava vocês. Sete minutos e as minhas belas pernas novas. Não quis dizer nada porque... — A voz vacilou, depois continuou. — Porque tive medo de que pudesse estar enlouquecendo.

Não é disso que você tem medo, pensou Roland. Não exatamente.

Eddie deu-lhe um breve abraço e um beijo na face. Lançou um olhar nervoso ao cadáver nu no outro lado da rua (a menina com a cabeça esmagada seguira vagando, graças a Deus, pela rua Quarenta e Seis em direção às Nações Unidas) e desviou-o para o pistoleiro:

— E se em vez de sete minutos, pulasse três meses? E se na próxima vez que voltarmos aqui, Calvin Tower tiver vendido o terreno? Não podemos deixar que isso aconteça. Porque aquela rosa, cara... — Lágrimas haviam começado a escorrer-lhe dos olhos.

— É a melhor coisa do mundo — disse Jake, baixinho.

— De todos os mundos — disse Roland.

Acalmaria Eddie e Jake saber que aquele particular lapso de tempo fora provavelmente na cabeça de Susannah? Que Mia saíra durante sete minutos, dera uma olhada em volta e depois tornara a mergulhar em seu buraco, como Punxsutawney Phil no Groundhog Day? Provavelmente não. Mas uma coisa ele viu no rosto desfigurado de Susannah: ela sabia o que estava acontecendo, ou tinha fortes suspeitas. Deve ser infernal para ela, pensou.

— Temos melhor a fazer se formos realmente mudar as coisas — disse Jake. — Assim nós mesmos não somos muito melhores que errantes.

— Também precisamos chegar a 1964 — disse Susannah. — Se quisermos pôr a mão na minha massa. Podemos, Roland? Se Callahan pegou o Treze Preto, isto vai funcionar como uma porta?

O que vai funcionar é diabrura, pensou Roland. Diabrura é pior. Mas antes que pudesse dizê-lo (ou qualquer outra coisa), os sinos todash começaram. Os pedestres na Segunda Avenida não os ouviam mais do que viam os peregrinos reunidos perto da cerca de tábuas, mas o cadáver do outro lado da rua levou as mãos mortas aos ouvidos, a boca contraindo-se para baixo numa careta de dor. E então eles conseguiram ver através dele.

— Segurem-se uns nos outros — disse Roland. — Jake, ponha a mão no pêlo de Oi, e fundo! Não faz mal se doer!

Jake fez como mandou Roland, os sinos mergulhando no fundo de sua cabeça. Lindos mas dolorosos.

— Como a raiz de um canal sem Novocaína — disse Susannah.

Virou a cabeça, e por um momento viu através da cerca de tábuas. Tornara-se transparente. Além dela, estava a rosa, as pétalas agora fechadas, mas ainda emanando seu brilho silenciosamente maravilhoso. Sentiu o braço de Eddie deslizar em volta de seus ombros.

— Segure-se, Susannah... não importa o que faça, segure-se.

Ela tomou a mão de Roland. Por mais um instante, viu a Segunda Avenida, e então tudo desapareceu. Os sinos devoraram o mundo e ela voava através da cegante escuridão com o braço de Eddie nos ombros e a mão de Roland apertando a sua.

 

16

Quando a escuridão os libertou, estavam na estrada, a quase 13 metros do acampamento. Jake sentou-se devagar, depois se virou para Oi.

— Tudo bem com você, menino?

— Oi.

Jake acariciou a cabeça do trapalhão. Olhou em volta como os outros. Tudo ali. Suspirou, aliviado.

— Que é isto? — perguntou Eddie.

Pegara a outra mão de Jake quando começaram os sinos. Agora, colhido nos dedos entrelaçados, havia um objeto rosa amassado. Parecia tecido; e também metal.

— Não sei — respondeu Jake.

— Você pegou no terreno, logo depois dos gritos de Susannah — disse Roland. — Eu o vi.

Jake assentiu.

— Sim, acho que talvez tenha pegado. Porque era o lugar onde estava a chave, antes.

— Que é isto, docinho?

— Uma espécie de saco. — Ergueu-o pelas tiras. — Eu diria que era meu saco de boliche, mas este ficou atrás, nas pistas, com a minha bola dentro. Em 1977.

— Que é que tem escrito no lado? — perguntou Eddie.

Mas ele não conseguiu decifrar. As nuvens mais uma vez tinham-se agregado, e não havia luar. Voltaram a pé para o acampamento, lentamente, trêmulos como inválidos, e Roland acendeu a fogueira. Então olharam para o texto no lado do saco de boliche rosa.

NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO MUNDO MÉDIO

era o que dizia.

— Não está certo — disse Jake. — Quase, mas não muito. O que diz no meu saco é NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO CENTRO DA CIDADE. Timmy me deu quando acertei em cheio os pinos 2-8-2. Disse que eu não tinha idade suficiente pra me pagar uma cerveja.

— Um pistoleiro do boliche — disse Eddie, e balançou a cabeça. — As maravilhas nunca param, não é?

Susannah pegou o saco e correu os dedos pela superfície.

— Que tipo de tecido é este? Parece metal. E é pesado.

Roland, que tinha uma idéia da utilidade do saco, embora não quem nem o que o deixara para eles, disse:

— Ponha na sua mochila com os livros, Jake. E guarde tudo com muita segurança.

— Que vamos fazer em seguida? — perguntou Eddie.

— Dormir — disse Roland. — Acho que vamos ficar muito ocupados durante as próximas semanas. Temos de aproveitar nosso sono quando e onde o encontrarmos.

— Mas...

— Durmam — disse Roland, e estendeu suas peles.

Todos acabaram dormindo, e todos sonharam com a rosa. Exceto Mia, que se levantou na última hora escura da noite e saiu de mansinho para empanturrar-se no grande salão de banquete. E lá se banqueteou muito bem.

Afinal, comia por dois.