A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 12 de 43 · parte 2/3

Páginas do PDF

A Torre Negra V: Lobos de Calla

O Caminho do Eld

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A voz de Jake também não tinha expressão, mas as palavras saíram duras e seguras.

— Eu não miro com a mão; quem mira com a mão esqueceu o rosto do seu pai. Eu miro com o olho. Eu não atiro com a mão...

— Eu não vejo o que isso... — começou Overholser.

— Calado — disse Susannah, e apontou o dedo para ele.

Jake pareceu não ter ouvido. Não tirava os olhos de cima de Roland. Tinha a mão direita em cima do peito, os dedos abertos.

— Aquele que atira com a mão esqueceu o rosto do seu pai. Eu atiro com a mente. Eu não mato com a arma; aquele que mata com a arma esqueceu o rosto do seu pai.

Parou. Inspirou fundo. E soltou.

— Eu mato com o coração.

— Mate estes — disse Roland, e, sem mais aviso, jogou todos os quatro pratos para cima. Eles voaram e separaram-se, formas negras contra o céu branco.

A mão de Jake, a que repousava no peito, tornou-se um borrão. Puxou a Ruger do coldre, ergueu-a e começou a puxar o gatilho enquanto a de Roland ainda se erguia no ar. Os pratos não pareceram explodir um atrás do outro, mas todos juntos. Os cacos choveram sobre a clareira. Alguns caíram na fogueira. Um ou dois percutiram na cabeça metálica de Andy.

Roland ergueu os braços, as mãos abertas movendo-se num borrão. Embora ele não lhes houvesse ordenado, Eddie e Susannah fizeram o mesmo, no momento em que os visitantes de Calla Bryn Sturgis se encolhiam, chocados pelo barulho da fuzilaria. E a rapidez dos tiros.

— Olhem aqui pra nós, está bem, e agradeçam — disse Roland.

Estendeu as mãos. Eddie e Susannah fizeram o mesmo. Eddie pegara três cacos de cerâmica. Susannah tinha cinco (e um corte pouco fundo na polpa de um dos dedos). Roland agarrara uma dúzia inteira de pedaços de fragmentos caídos. Parecia quase o suficiente para fazer um prato inteiro, se os pedaços fossem colados uns nos outros.

Os seis de Calla olhavam fixo, incrédulos. O garoto Benny, que continuava com as mãos nos ouvidos, baixou-as então devagar. Olhava para Jake como se olharia para um fantasma ou aparição baixados do céu.

— Meu... Deus — disse Callahan. — Parece um truque num espetáculo do Oeste Selvagem.

— Não é truque — disse Roland —, jamais pense isso. É o Caminho do Eld. Nós pertencemos a esse an-tet, khef e ka, vigiar e garantir. Pistoleiros, está bem? E agora vou lhes dizer o que faremos. — Buscou Overholser com os olhos. — O que queremos fazer, digo, porque ninguém nos dá ordens. Contudo, acho que nada do que digo vai deixá-los demasiado desconfortáveis. Se porventura deixar... — Deu de ombros. Se deixar, é uma pena, dizia o dar de ombros.

Deixou cair os cacos de cerâmica entre as botas e espanou as mãos.

— Se esses cacos fossem Lobos — disse —, só restariam 56 para perturbá-los, em vez de sessenta. Quatro deles caídos mortos no chão antes que vocês pudessem dar uma respirada. Mortos por um garoto. — Olhou para Jake. — O que vocês chamariam menino, talvez. — Fez uma pausa. — Estamos acostumados a longos obstáculos.

— O carinha é um atirador de tirar o fôlego, isso eu admito — disse o pai Slightman. — Mas há uma diferença entre pratos de barro e Lobos a cavalo.

— Para você, sai, talvez. Não para nós. Não assim que começar o tiroteio. Quando começar o tiroteio, matamos qualquer coisa que se mexa. Não foi para isso que vocês nos procuraram?

— E se eles não puderem ser mortos a tiros? — perguntou Overholser. — Não possam ser derrubados mesmo pelo mais duros dos grossos calibres?

— Por que vocês desperdiçam um tempo tão curto? — perguntou Roland. — Vocês sabem que eles podem ser mortos, senão jamais teriam vindo nos procurar, para começar. Eu não perguntei, porque é claro por si mesmo.

Overholser enrubescera mais uma vez, roxo.

— Eu rogo o seu perdão — disse.

Benny, enquanto isso, continuava a fitar Jake com olhos arregalados, e Roland sentiu uma pequena pontada de arrependimento pelos dois meninos. Ainda podiam conseguir alguma amizade, mas o que acontecera a mudaria em aspectos fundamentais, a transformaria numa coisa inteiramente diferente do habitual khef alegre que eles partilhavam. O que era uma vergonha, porque quando Jake não era chamado a ser pistoleiro, ainda era apenas uma criança. Perto da idade que o próprio Roland tinha quando lhe haviam imposto a prova de maturidade. E foi uma vergonha.

— Agora me escutem — disse — e me escutem muito bem. Vamos deixá-los por um breve período para voltar ao nosso acampamento e tomar nossa decisão. Amanhã, quando chegarmos à sua aldeia, conversaremos com um de vocês...

— Venham a Seven-Mile — disse Overholser. — Nós os receberemos e agradeceremos, Roland.

— Nossa casa é muito menor — disse Tian —, mas Zalia e eu...

— Teríamos muito prazer em recebê-los — disse Zalia. Corara tanto quanto Overholser. — É, teríamos, sim.

Roland disse:

— Tem uma casa, além de uma igreja, sai Callahan?

Callahan sorriu.

— Tenho, sim, e agradeço a Deus.

— Talvez pudéssemos ficar em sua casa na primeira noite em Calla Bryn Sturgis — disse Roland. — Seria possível?

— Claro, e sejam bem-vindos.

— Poderia nos mostrar sua igreja. Apresentar-nos aos mistérios dela.

olhar de Callahan foi firme.

— Muito me alegraria a oportunidade de fazer isso.

— Nos dias seguintes — disse Roland, sorrindo —, vamos nos lançar à hospitalidade da cidade.

— Vão encontrá-la em abundância — disse Tian. — Isto eu lhes prometo. — Overholser e Slightman assentiam com a cabeça.

— Se a comida que acabamos de comer serve de sinal, tenho certeza de que isso é verdade. Nós agradecemos, sai Jaffords; obrigado a um e a todos. Durante uma semana, vamos os quatro circular por sua cidade, metendo o nariz aqui e ali. Talvez um pouco mais de tempo, porém a probabilidade é de uma semana. Vamos examinar o traçado da terra e a forma como se distribuem os prédios nela. Ficar de olho na chegada dos Lobos. Vamos falar com a ∗ Calla folken e a Calla folken falar conosco... vocês aqui presentes poderiam cuidar disso pra nós?

Callahan assentia.

— Não posso falar pelos mannis, mas tenho certeza de que todo mundo se mostrará mais que disposto a falar com vocês sobre os Lobos. Deus e o Homem Jesus sabem que não há segredo. Se eles virem uma chance de que talvez tenham condições de nos ajudar, farão tudo o que você pedirem.

— Os manni também vão falar comigo — disse Roland. — Já conversei com eles antes.

∗ Calla folken: os habitantes de Calla. (N. da T.)

— Não se deixe levar pelo entusiasmo do Velho, Roland — disse Overholser. Ergueu as mãos rechonchudas no ar, um gesto de cautela. — Há outros na cidade que vocês terão de convencer...

— Vaughn Eisenhart, por exemplo — disse Slightman.

— É, e Eben Took, sem dúvida — disse Overholser. — O Armazém Geral é a única coisa que leva seu nome, você sabe, mas ele é dono da pensão e do restaurante defronte dela... além de metade dos lucros no aluguel de cavalos e carruagens... e papéis de crédito na maioria das pequenas propriedades por aqui.

“Por falar em pequenas propriedades, não podemos negligenciar Bucky Javier — ressoou Overholser. — Ele só não é o maior deles porque deu metade do que tinha à irmã mais moça quando ela se casou. — Overholser curvou-se para Roland, o rosto iluminado por um fragmento da história da cidade prestes a ser transmitida. — Roberta Javier, irmã de Bucky, moça de sorte. Quando os Lobos vieram a última vez, ela e o irmão gêmeo só tinham um ano. Por isso eles seguiram adiante.”

— O irmão do próprio Bucky foi levado da vez anterior — disse Slightman. — Já faz quase quatro anos que Bully morreu. Da doença. Desde então, não há o bastante que Bucky possa fazer por aqueles dois caçulas. Mas devia falar com ele, sim. Só tem pouco mais de 30 hectares, mas se veste com elegância.

Roland pensou: Eles continuam não entendendo.

— Obrigado — disse. — O que temos diretamente em frente se resume, sobretudo a ver e ouvir. Feito isto, vamos pedir a quem estiver encarregado da pena que a circule para que se possa convocar uma assembléia. Nessa reunião, diremos a vocês se a cidade pode ser defendida e de quantos homens vamos precisar para nos ajudar, se for possível.

Roland viu Overholser inchando-se para falar e fez-lhe que não com a cabeça.

— Não precisaremos de muito, em todo caso — disse. — Somos pistoleiros, não um exército. Pensamos diferente e agimos diferente de um exército. Talvez a gente peça no máximo que cinco fiquem conosco. Provavelmente, menos... só dois ou três. Mas podemos precisar de mais pra nos ajudar a preparar.

— O quê? — perguntou Benny.

Roland sorriu.

— Isto eu ainda não posso dizer, pois não vi como são as coisas em sua Calla. Mas, em casos assim, a surpresa é sempre a arma mais poderosa, e em geral são necessárias muitas pessoas para preparar uma boa surpresa.

— A maior surpresa prós Lobos — disse Tian — seria até mesmo se lutássemos.

— E se vocês decidirem que Calla não pode ser defendida? — perguntou Overholser. — Me diga isso, eu lhe peço.

— Então eu e meus amigos agradeceremos sua hospitalidade e seguiremos adiante — disse Roland —, pois temos nossos assuntos mais adiante no Caminho do Feixe de Luz. — Observou os rostos abatidos de Tian e Zalia por um momento, e acrescentou: — Não acho isso provável, vocês sabem. Em geral, há um jeito.

— Que a assembléia receba favoravelmente o seu julgamento — disse Overholser.

Roland hesitou. Aquele era o ponto onde se poderia martelar a ver, se ele quisesse. Se aquelas pessoas ainda acreditavam que um tet de um pistoleiro seria obrigado pelo que camponeses e fazendeiros decidissem em assembléia pública, eles realmente haviam perdido a forma do mundo como fora outrora. Mas seria isso tão ruim assim? No fim, tudo se desenvolveria e faria parte de sua longa história. Ou não. Se não, ele acabaria sua história e sua busca em Calla Bryn Sturgis, mofando embaixo de uma lápide. Talvez nem isto; talvez acabasse morto embaixo de um monturo em algum ponto a leste da aldeia, ele e seus amigos, muita carne podre para ser picada pelos corvos e pelos outros pássaros chamados rústicos. Ka diria. Sempre dizia.

Enquanto isso, eles o olhavam.

Roland levantou-se, contraindo-se com a dura explosão de dor no quadril direito. Pegando as dicas dele, Eddie, Susannah e Jake também se levantaram.

— Fomos bem recebidos — disse Roland. — Quanto ao que está à frente, haverá água se Deus quiser.

— Amém — disse Callahan.

CAPÍTULO 7

 

Todash

 

1

— Cavalos cinzentos — disse Eddie.

— É — concordou Roland.

— Cinqüenta ou sessenta, todos em cavalos cinzentos.

— É, foi o que disseram.

— E não acharam isso nem um pouco estranho — ruminou Eddie.

— Não, não pareceram achar.

— É?

— Cinqüenta ou sessenta cavalos, todos da mesma cor? Eu diria que sim.

— Esse pessoal de Calla cria cavalos eles mesmos.

— É.

— Trouxeram alguns para cavalgarmos. — Eddie, que jamais montara um cavalo na vida, estava agradecido por pelo menos isso ter sido adiado.

— É, amarrados na colina.

— Tem certeza disso?

— Senti o cheiro deles. Imagino que era o robô que cuidava deles.

— Por que levariam cinqüenta ou sessenta cavalos, todos da mesma cor, aliás?

— Porque eles na verdade não pensam nos Lobos nem em nada relacionado a eles — disse Roland. — Estão muito ocupados sentindo medo.

Eddie assobiou cinco notas que não formavam exatamente uma melodia. Depois disse:

— Cavalos cinzentos.

Roland assentiu:

— Cavalos cinzentos.

Por um momento, ficaram olhando um para o outro. Eddie adorava quando Roland sorria. O som era seco, tão feio quanto os chamados dos gigantescos pássaros pretos que chamavam de rústicos... mas ele adorava. Talvez porque Roland ria muito raramente.

Era fim de tarde. Acima, as nuvens haviam-se adelgaçado o suficiente, tornando-se de um azul-claro quase da cor do céu. O grupo de Overholser retornara ao acampamento deles. Susannah e Jake haviam retornado à estrada da floresta para catar mais bolinhos. Após o grande repasto, arrumaram a bagagem, ninguém queria nada mais pesado. Eddie sentou-se num toro, talhando. Roland sentou-se a seu lado, com todas as suas armas desmontadas no chão diante deles, sobre um pedaço de pele de gamo. Ele lubrificava as peças uma a uma, virando cada ferrolho, cilindro e cano para a luz do dia, para uma olhada final antes de colocá-las de lado para tornar a montá-las.

— Você disse a eles que estava fora de suas mãos — disse Eddie —, mas eles não sabem mais disso do que sabiam do negócio dos cavalos cinzentos. E você não insistiu no caso.

— Isso só iria angustiá-los — disse Roland. — Havia um ditado em Gilead: Que o mal espere pelo dia em que deve se abater.

— Hum-hum — disse Eddie. — Havia um ditado no Brooklyn: Não se tira fuligem de um casaco de pele. — Ergueu o objeto que estava fazendo. Seria um pião, pensou Roland, um brinquedo para um bebê. E mais uma vez se perguntou quando Eddie poderia saber sobre a mulher com quem se deitava toda noite. As mulheres. Não no topo de sua mente, mas embaixo. — Se você decidir que a gente pode ajudá-los, então temos de ajudá-los. É a isso que na verdade se resume o Caminho do Eld, não é?

— É — disse Roland.

— E se não conseguirmos que nenhum deles resista conosco, resistimos sozinhos.

— Ah, não estou preocupado com isso — disse Roland. Tinha um pires cheio de óleo de arma leve e cheiroso. Mergulhou nele a ponta de um trapo de camurça, pegou a mola do carregador da Ruger de Jake e começou a limpá-la. — Tian Jaffords resistiria conosco, por falar nisso. Certamente tem um ou dois amigos que fariam o mesmo, independentemente do que a assembléia decida. No aperto, tem a esposa dele.

— E se a gente fizer com que os dois sejam mortos, que será das crianças? Têm cinco. Acho que há também um cara velho no quadro. Um desses avôs. Provavelmente cuidam dele também.

Roland encolheu os ombros. Poucos meses atrás, Eddie haveria interpretado erroneamente esse gesto — e o rosto sem expressão do pistoleiro — como indiferença. Agora sabia que não. Roland era tão prisioneiro de suas próprias regras e tradições quanto fora Eddie da heroína.

— E se nós formos mortos nesta aldeiazinha, fodendo com esses Lobos? — perguntou Eddie. — Seu último pensamento não vai ser: "Eu não acredito que merda eu fui, jogando fora minha chance de chegar à Torre Negra a fim de ajudar um bando de moleques remelentos." Ou sentimentos semelhantes.

— A menos que continuemos autênticos, jamais chegaremos nem a mil quilômetros da Torre — disse Roland. — Vai me dizer que não acha isso?

Eddie não podia, porque achava. E também sentia outra coisa: uma espécie de sanguinária avidez. Queria de fato tornar a lutar. Ter alguns daqueles Lobos, fossem lá o que fossem, na mira de um dos grandes revólveres de Roland. Não havia sentido em enganar-se sobre a verdade: queria arrancar alguns escalpos.

Ou máscaras de lobo.

— Que é que realmente o está perturbando, Eddie? Eu gostaria que falasse enquanto somos só eu e você. — O pistoleiro torceu a boca num sorriso tênue, torto. — Fale, eu lhe peço.

— Vê-se, né?

Roland encolheu os ombros e esperou.

Eddie pensou na pergunta. Era uma grande pergunta. Enfrentá-la fazia-o sentir-se desesperado e incompetente, muito parecido com o que sentia quando diante da tarefa de talhar a chave que levaria Jake Chambers ao mundo deles. Só que então ele tinha o fantasma de seu grande irmão para culpar, Henry sussurrando no fundo de sua cabeça que ele não prestava, nunca prestara, nunca prestaria. Agora era apenas a enormidade do que Roland perguntava. Porque tudo o perturbava, estava tudo errado. Tudo. Ou talvez errado fosse a palavra errada, e por 180 graus. Porque, em outro aspecto, tudo parecia demasiado certo, demasiado perfeito também...

— Aarrgh — disse Eddie. Agarrou tufos de cabelos dos dois lados da cabeça e puxou. — Não consigo pensar em nada pra dizer.

— Então diga a primeira coisa que lhe vier à mente. Não hesite.

— Dezenove — disse Eddie. — Toda essa coisa virou 19.

Caiu para trás sobre o fragrante chão da mata, cobriu os olhos e esperneou como uma criança dando chilique. Pensou: Talvez matar alguns Lobos me endireite. Talvez eu só precise disso.

 

2

Roland deu-lhe todo um minuto contado e depois disse:

— Está se sentindo melhor?

Eddie sentou-se.

— Na verdade estou.

Roland balançou a cabeça, com um leve sorriso.

— Então pode falar mais? Se não pode, deixamos pra lá, mas eu aprendi a respeitar suas sensações, Eddie... muito mais do que você compreende... e se falar, eu escuto.

O que ele dizia era verdade. Os sentimentos iniciais do pistoleiro por Eddie haviam oscilado entre a cautela e o desprezo pelo que via como fraqueza de caráter. O respeito viera mais lentamente. Começara no escritório de Balazar, quando Eddie lutara nu. Muito poucos homens que ele conhecia poderiam ter feito isso. Crescera com a compreensão do quanto Eddie se parecia com Cuthbert. Depois, no mono, Eddie agira com uma espécie de criatividade desesperada que Roland podia admirar, mas nunca igualar. Eddie Dean tinha o senso de ridículo sempre intrigante, mas às vezes irritante, de Cuthbert Allgood; e também os rápidos e profundos lampejos de intuição de Alain Johns. Mas no fim não se parecia com nenhum dos velhos amigos de Roland. Às vezes era fraco e centrado em si mesmo, mas dono de profundas reservas de coragem e do bom irmão da coragem, o que o próprio Eddie chamava às vezes de “coração”.

Mas era a intuição dele que Roland queria aproveitar agora.

— Tudo bem então — disse Eddie. — Não me detenha. Não faça perguntas. Só escute.

Roland fez que sim com a cabeça. E esperou que Susannah e Jake não voltassem, pelo menos ainda não.

— Eu olho para o céu... lá em cima, onde as nuvens rompem neste mesmo minuto... e vejo o número 19 escrito em azul.

Roland ergueu o olhar. E, sim, lá estava. Ele o via também. Mas também via uma nuvem que parecia uma tartaruga, e outro buraco no fiapo evanescente que parecia um vagão de artilharia.

— Eu olho para as árvores e vejo 19. Para o fogo, vejo 19. Os nomes formam 19, como os de Overholser e Callahan. Mas é só isso que posso dizer, o que posso ver, o que posso pegar. — Falava com desesperada rapidez, olhando diretamente dentro dos olhos de Roland. — E mais uma coisa. Tem a ver com todash. Eu sei que vocês às vezes acham que tudo me faz lembrar como é ficar doidão, mas, Roland, entrar em todash é como ficar drogado.

Eddie sempre lhe falava dessas coisas, como se Roland jamais houvesse posto nada mais forte que erva no cérebro e no corpo em toda a sua vida, o que estava longe da verdade. Ele podia lembrar isso a Eddie outra hora, mas não agora.

— Só estar aqui em seu mundo já é como entrar em todash. Porque... ah, cara, isso é difícil... Roland, tudo aqui é real, mas não é.

Roland pensou em lembrar-lhe que aquele não era o seu mundo, não mais — para ele a cidade de Lud fora o fim do Mundo Médio e o princípio de todos os mistérios que esperavam além —, mas de novo manteve a boca fechada.

Eddie pegou um punhado de folhas, enchendo as mãos com as fragrantes agulhas e deixando cinco marcas negras em forma de mão no chão da mata.

— Real — disse. — Eu sinto o toque e o cheiro. — Levou o punhado de agulhas à boca e esticou a língua para tocá-las. — Sinto o gosto. E, ao mesmo tempo, é tão irreal quanto o 19 que a gente vê na fogueira, ou aquela nuvem no céu que parece uma tartaruga. Entende o que estou dizendo?

— Entendo muito bem — murmurou Roland.

— As pessoas são reais. Você... Susannah... Jake... o tal Gasher que pegou Jake... Overholser e os Slightman. Mas a maneira como as coisas do meu mundo continuam aparecendo aqui, isso não é real. Não é sensato nem lógico tampouco, mas não é isso que eu quero dizer. Simplesmente não é real. Por que as pessoas aqui em cima cantam “Hey Jude”? Eu não sei. Por que isso me lembrou coelhos? Aquele urso ciborg, Shardik... de onde eu conheço esse nome? Toda aquela merda sobre o Mágico de Oz, Roland... tudo isso aconteceu com a gente, não tenho dúvida, mas ao mesmo tempo não me parece real. Parece todash. Como 19. E que acontece no Palácio Verde? Ora, nós entramos na mata, como João e Maria. Há uma estrada para caminharmos. Bolas de bolinho para catar. A civilização acabou. Tudo se desenrola. Foi você que nos disse. Nós vimos em Lud. Só que, adivinha? Não existe! Rapaz, babaca, peguei ele!

Eddie deu uma breve risada. Soou aguda e doentia. Quando ele tirou o cabelo da testa, deixou nela uma marca escura de terra da mata.

— A piada é que, lá fora, a bilhões de quilômetros de lugar nenhum, nós demos com uma aldeia de livro infantil. Civilizada. Decente. O tipo de gente que a gente acha que conhece. Talvez não goste deles... Overholser é meio duro de engolir... mas a gente sente que os conhece.

Estava certo nisso também, pensou Roland. Ainda nem vira Calla Bryn Sturgis e já a cidade lembrava-lhe Mejis. Em alguns aspectos, parecia perfeitamente razoável — aldeias camponesas no mundo inteiro tinham semelhanças umas com as outras —, mas em outros era perturbador. Perturbador como o diabo. O sombreiro que Slightman usava, por exemplo. Seria possível que ali, a milhares de quilômetros de Mejis, os homens usassem chapéus semelhantes? Supunha que sim. Mas era provável que o sombreiro de Slightman lhe lembrasse tão fortemente o usado por Miguel, o velho mozo à Beira-mar de Mejis, todos esses anos depois? Ou era apenas sua imaginação?

Quanto a isso, Eddie diz que eu não tenho nenhuma, pensou.

— A aldeia de livro infantil tem um problema de história da carochinha — continuava Eddie. — E assim as pessoas do livro infantil chamam um bando de heróis de cinema para salvá-las dos vilões das histórias da carochinha. Eu sei que é real... gente vai morrer, muito provavelmente, e o sangue será real, os gritos, o choro depois serão reais... mas ao mesmo tempo alguma coisa nisso não parece mais real que um cenário de palco.

— E Nova York? — perguntou Roland. — Como lhe pareceu?

— A mesma coisa — disse Eddie. — Quer dizer, pense só. Dezenove livros deixados na mesa depois que Jake pegou Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações... e depois, de todos os bandidos de Nova York, aparece logo Balazar! Aquele puto!

— Vamos, vamos, ora! — chamou Susannah, alegremente, detrás deles. — Nada de palavrões, garotos.

Jake empurrava-a pela estrada, o colo dela cheio de bolinhos. Os dois pareciam animados e felizes. Roland supôs que o fato de comer bem de manhã cedo tinha alguma coisa a ver com isso. Disse:

— Às vezes essa sensação de irrealidade passa, não passa?

— Não é exatamente irrealidade, Roland. É...

— Deixe as sutilezas pra lá. Às vezes passa, não passa?

— Passa — disse Eddie. — Quando eu estou com ela.

Aproximou-se dela. Curvou-se. Beijou-a. Roland observava-os, perturbado.

 

3

A luz do dia ia desaparecendo. Eles sentavam-se em torno da fogueira e deixavam-na ir. O pouco apetite que haviam conseguido reunir fora facilmente satisfeito com os bolinhos que Susannah e Jake haviam trazido para o acampamento. Roland vinha meditando numa coisa que Slightman dissera, e com mais profundidade do que seria saudável, provavelmente. Afastou a coisa então ainda mal digerida e disse:

— Alguns de nós, ou todos, podemos nos encontrar mais tarde, esta noite, na cidade de Nova York.

— Eu só espero chegar a ir desta vez — disse Susannah.

— Será como ka quiser — disse Roland, sem expressão. — O importante é que fiquem juntos. Se só um fizer a viagem, acho que pode ser você quem vai, Eddie. Se só um fizer a viagem, esse deve ficar exatamente onde ele... ou talvez ela... está até os sinos recomeçarem.

— Os kammen — disse Eddie. — Foi como Andy os chamou.

— Vocês todos entendem isso?

Eles assentiram, e olhando os seus rostos Roland percebeu que cada um deles se reservava o direito de decidir o que fazer quando chegasse a hora, com base nas circunstâncias. O que estava exatamente certo. Ou eram pistoleiros ou não eram, afinal.

Surpreendeu-se dando um breve bufido de risada.

— Qual é a graça? — perguntou Jake.

— Simplesmente pensar que uma vida longa traz estranhos companheiros — disse Roland.

— Se se refere a nós — disse Eddie —, eu vou-lhe dizer uma coisa, Roland... você mesmo não é lá muito normal.

— Acho que não — disse Roland. — Se atravessarmos em grupo... dois, três, talvez todos... devemos nos dar as mãos quando os sinos começarem.

— Andy disse que tínhamos de nos concentrar uns nos outros — disse Eddie. — Para evitar que nos percamos.

Susannah surpreendeu a todos começando a cantar. Só que, para Roland, parecia mais um coro de galés — uma coisa para ser gritada verso por verso — que uma música mesmo. Mas mesmo sem uma verdadeira melodia para cantar, a voz era bastante melodiosa:

— Filhos, quando ouvirem a música do clarinete... Filhos, quando ouvirem a música da flauta! Filhos, quando ouvirem a música do pan-dei-ro... Vocês devem se curvar e adorar o ííí-DOLO!

— Que é isso?

— Um hino da roça — disse ela. — Uma daquelas coisas que meus avós e bisavós cantavam quando catavam o algodão do velho senhor. Mas os tempos mudam. — Sorriu. — Eu a ouvi pela primeira vez num café de Greenwich Village, em 1962. E o homem que a cantava era um branco berrador de blues chamado Dave Van Ronk.

— Aposto que Aaron Deepneau estava lá também — murmurou Jake. — Diabos, aposto que estava sentado à porra da mesa ao lado.

Susannah voltou-se para ele, surpresa e pensativa.

— Por que diz isso, docinho?

Eddie disse:

— Porque ele ouviu Calvin Tower dizer que esse tal de Deepneau vinha rondando o Village desde... que foi que ele disse, Jake?

— O Village não, Bleecker Street — disse Jake, com uma ligeira risada. — O Sr. Tower disse que o Sr. Deepneau vinha rondando a Bleecker Street antes de Bob Dylan saber como se soprava mais que uma nota sol em sua Hohner. Devia ser uma gaita de boca.

— É — disse Eddie —, e embora eu possa não apostar uma fortuna no que Jake diz, poria bem mais que uns trocados. Claro, Deepneau estava lá. Não me surpreenderia nem que Jack Andolini estivesse atendendo no bar, porque é assim que tudo funciona na Terra do 19.

— Seja como for — disse Roland —, aqueles de nós que cruzarem devem permanecer juntos. E quero dizer ao alcance da mão, o tempo todo.

— Eu acho que não vou estar lá — disse Jake.

— Por que diz isso, Jake? — perguntou o pistoleiro, surpreso.

— Porque não vou adormecer — disse Jake. — Estou excitado demais.

Mas todos acabaram adormecendo.

 

4

Ele sabe que é um sonho, uma coisa causada nada mais que por uma observação casual de Slightman, e no entanto não consegue escapar. Procure sempre a porta dos fundos, dizia-lhes Cort, mas se houver uma porta dos fundos neste sonho, Roland não pode encontrá-la. Eu sabia da colina de Jericó e de histórias de sangue e trovões de faz-de-conta, foi o que disse o capataz de Eisenhart. Só que a colina de Jericó parecera bastante real para Roland. Por que não pareceria? Ele estiver a lá. Fora o fim deles. O fim de todo um mundo.

O dia está de um calor sufocante; o sol chega ao zênite e parece ficar lá parado, como se as horas tivessem sido suspensas. Abaixo deles, estende-se um longo campo em descida, cheio de grandes faces de pedra cinza-escuro, estátuas corroídas por erosão, deixadas por pessoas há muito desaparecidas, e os homens de Grissom avançam implacáveis entre elas, enquanto Roland e seus poucos companheiros finais se retiram sempre para cima, atirando sem parar. A fuzilaria é constante, interminável, o barulho das balas assobiando nas faces de pedra um agudo contraponto que entra em suas cabeças como o sanguinário zumbido de mosquitos. Jamie DeCurry foi morto por um franco-atirador, talvez o filho do próprio Grissom, com seu olho de águia. Com Alain, o fim foi muito pior; levou um tiro de seus dois melhores amigos na escuridão da noite antes da batalha final, um erro estúpido, uma morte horrível. Não houve socorro. A coluna de DeMullet foi emboscada e massacrada em Rimrocks, e quando Alain cavalgou de volta após a meia-noite para contar-lhes, Roland e Cuthbert... o barulho de suas armas... e, ah, quando Alain gritou os nomes deles...

E agora estão no topo e não resta lugar nenhum para correr. Atrás deles, a leste, há um precipício de argila xistosa para o Salt — o que a 600 quilômetros dali se chama de mar Limpo. A oeste fica a colina das faces de pedra, e os homens de Grissom que avançam gritando. Roland e seus homens mataram centenas, mas ainda restam 2 mil, e esse é um cálculo por baixo. Dois mil homens, as caras uivantes pintadas de azul, alguns com armas de fogo e uns poucos até com flechas — contra uma dúzia. E tudo que lhes resta agora, ali no topo da colina de Jericó, sob o sol ardente. Jamie morto, Alain morto sob as armas de seus amigos — o impassível Alain, digno de confiança, que podia ter cavalgado para a segurança, mas preferiu não fazê-lo — e Cuthbert, que fora baleado. Quantas vezes? Cinco? Seis? A camisa está encharcada roxa sobre a pele. Um lado do rosto afundou em sangue; o olho desse lado projeta-se ligeiramente sobre a bochecha. Mas ainda segura a trombeta de Roland, aquela que foi soprada por Arthur Eld, ou assim contavam as histórias. Não a devolverá. “Porque eu a sopro mais doce do que você jamais soprou”, ele diz a Roland, rindo. “Pode tê-la de volta quando eu morrer. Não esqueça de pegá-la, Roland, pois é sua propriedade.”

Cuthbert Allgood, que um dia cavalgou para o Baronato de Mejis com a caveira de um corvo montada no cabeçote da sela. “A vigia”, chamava-a, e conversava com ela como se estivesse viva, pois esse era o seu capricho, e às vezes deixava Roland meio louco com sua loucura, e ali estava sob o sol ardente, cambaleando para ele com um revólver fumegante numa das mãos e a Trombeta de Eld na outra, coberto de flechas, meio cego e agonizando, mas ainda rindo. Ah, bons deuses, rindo e rindo.

— Roland! — grita. — Fomos traídos! Eles têm mais homens. Estamos de costas para o mar! Nós os temos exatamente onde os queremos. Vamos atacar?

E Roland entende que ele tem razão. Se sua busca da Torre Negra deve realmente terminar ali na colina de Jericó — traídos por um dos seus e depois esmagados por aquele bárbaro resto do exército de John Farson —, que termine esplendidamente.

— Ié! — grita ele. — É, muito bem. Vocês do castelo, a mim! Pistoleiros, a mim! A mim, estou dizendo!

— Quanto a pistoleiros, Roland — diz Cuthbert —, eu estou aqui. E nós somos os últimos.

Roland primeiro olha para ele, depois o abraça sob aquele céu horrendo. Sente o corpo ardente de Cuthbert, a trêmula magreza suicida. E, no entanto ele ri. Bert ainda ri.

— Tudo bem — diz Roland com voz rouca, olhando os poucos homens que lhe restam em volta. — Vamos para cima deles. E não aceitaremos quartel.

— Neca, nada de quartel, absolutamente nenhum — diz Cuthbert.

— Não aceitaremos a rendição deles, se oferecerem.

— Em nenhuma circunstância! — concorda Cuthbert, rindo mais que nunca. — Nem mesmo se todos os 2 mil depuserem as armas.

— Então toque a porra dessa corneta.

Cuthbert leva a cometa aos lábios ensangüentados e sopra uma grande explosão — a explosão final, pois quando o instrumento cai dos seus dedos um minuto depois (ou talvez cinco, ou dez; o tempo não tem significado nessa batalha final), Roland a deixará caída no pó. Em sua dor e sede de sangue esquecerá tudo sobre Eld.

— E agora, meus amigos, adiante!

— Avante! — grita a última dúzia sob o sol escaldante.

É o fim deles, o fim de Gilead, o fim de tudo, e ele não liga mais. A velha fúria rubra, seca e enlouquecedora abate-se sobre sua mente, afogando todo pensamento. Uma última vez, então, pensa. Que assim seja.

— A mim! — grita Roland de Gilead. — Adiante! Pela Torre!

— A Torre! — grita Cuthbert a seu lado, cambaleando para trás.

Ergue a Trombeta de Eld para o céu numa das mãos, o revólver na outra.

— Não façam prisioneiros! — berra Roland. — NÃO FAÇAM PRISIONEIROS!

Correm para baixo rumo à horda de caras azuis de Grissom, ele e Cuthbert à frente, e quando passam pelas primeiras faces cinza-escuro, que se apóiam no mato alto, lanças, flechas e balas voando em toda a sua volta, começam os sinos. É uma melodia muito além de bela; ameaça rasgá-lo em pedaços com sua crua beleza.

Agora, não, ele pensa. Ah, deuses, agora, não — deixem-me acabar com isso. Deixem-me acabar com isso e meu amigo a meu lado, e ter paz finalmente. Por favor. Estende o braço para pegar a mão de Cuthbert. Por um instante, sente o toque dos dedos viscosos de sangue do amigo, ali na colina de Jericó, onde a brava e risonha existência dele foi apagada... e então os dedos que tocam os seus desaparecem. Ou melhor, os seus derreteram-se entre os de Bert. Está caindo, está caindo, o mundo escurece, ele está caindo, os sinos tocam, os kammen tocam (“Parecem havaianos, não parecem?”), e ele está caindo, a colina de Jericó desapareceu, a Trombeta de Eld desapareceu, há escuridão e letras rubras na escuridão, algumas são Grandes Letras, o bastante para ele poder ler o que dizem, as palavras dizem...

 

5

Diziam PARE. Embora Roland visse que as pessoas atravessavam a rua apesar do sinal. Davam uma rápida olhada na direção do fluxo de tráfego e se mandavam. Um sujeito atravessou apesar de um bate-vê amarelo que vinha. O bate-vê desviou-se e tascou a buzina. O pedestre gritou para ele sem medo, depois espetou o dedo médio da mão direita para cima e sacudiu-o atrás do veículo que se afastava. Roland teve a idéia de que o gesto provavelmente não significava longos dias e belas noites.

Era noite na cidade de Nova York, e embora gente passasse para todos os lados, ninguém era do seu ka-tet. Ali, ele admitiu para si mesmo, estava uma contingência que Roland dificilmente esperara: que a única pessoa a aparecer fosse ele próprio. Não Eddie, mas ele. Aonde, em nome de todos os deuses, devia ele ir? E que devia fazer quando chegasse lá?

Lembre-se do seu próprio conselho, pensou. “Se aparecer sozinho”, dissera-lhes, “fiquem onde estão.”

Mas significava isso simplesmente se empoleirar em... ergueu os olhos para o sinal verde... na esquina da Segunda Avenida com a rua Cinqüenta e Quatro, sem fazer nada além de olhar um sinal mudar de PARE para SIGA em branco?

Enquanto pensava nisso, uma voz gritou às suas costas, alta e delirante de alegria.

— Roland! Meu favo de mel! Se vire e olhe pra mim! Me veja muito bem!

Ele se virou, já sabendo o que ia ver, mas sorrindo mesmo assim. Como fora terrível reviver aquele dia na colina Jericó, mas que antídoto aquele — Susannah Dean voando pela rua Cinqüenta e Quatro abaixo em sua direção, sorrindo e chorando de alegria, os braços abertos.

— Minhas pernas! — ela gritava no topo da voz. — Minhas pernas! Eu as tenho de volta! Ah, Roland, favinho de mel, louvado Homem Jesus. EU RECUPEREI AS MINHAS PERNAS!

 

6

Lançou-se ao abraço dele, beijando-lhe a face, o pescoço, a testa, o nariz, os lábios, sempre a repetir:

— Minhas pernas, ah, Roland, você está vendo, eu posso andar, eu posso correr, eu tenho as minhas pernas, louvados sejam Deus e todos os santos. Eu recuperei as minhas pernas.

— Dê-se toda a alegria delas, coração querido! — disse Roland. Adotava o dialeto local que recentemente descobrira ser um velho jeito seu, ou talvez hábito. Por ora era o dialeto de Calla. Imaginou que se passasse muito tempo ali em Nova York logo se veria erguendo o dedo médio para os táxis.

Mas eu sempre seria um forasteiro, pensou. Ora, não consigo nem dizer “aspirina”. Toda vez que tento, a palavra sai errada.

Ela tomou a mão direita dele, arrastou-a com surpreendente força e botou-a em sua perna.

— Está sentindo? — perguntou. — Quer dizer, não estou só imaginando, estou?

Roland riu.

— Você não correu para mim como se tivesse asas tipo Raf? Correu, sim, Susannah. — Pôs a mão esquerda, a com todos os dedos, na perna esquerda dela. — Uma e duas pernas, cada uma com um pé embaixo. — Olhou com ar de reprovação. — Mas precisamos comprar uns sapatos para você.

— Pra quê? Isto é um sonho. Tem de ser.

— Entramos em todash. Estamos realmente aqui. Se você cortar seu pé, Mia, vai ficar com um corte amanhã, quando acordar junto à fogueira do acampamento.

O outro nome saíra quase... mas não exatamente por si mesmo. Agora ele esperava, todos os músculos retesados como arame, para ver se ela ia notar. Se rolasse, ele se desculparia e diria que entrara em todash direto de um sonho com alguém que conhecera muito tempo antes (embora só houvesse existido uma mulher de alguma importância após Susan Delgado, e não se chamava Mia).

Mas ela não notou, e Roland não ficou muito surpreso.

Porque ela se aprontava para mais uma de suas expedições de caça — como Mia —, quando soaram os kammen. E, ao contrário de Susannah, Mia tinha pernas. Banqueteia-se de comidas ricas em açúcar e gordura num grande salão, fala com todos os amigos, ela não ia a Morehouse nem à casa de ninguém, e tinha pernas. Portanto esta tinha pernas. Esta é as duas mulheres, embora não o saiba.

De repente Roland viu-se desejando que não encontrassem Eddie. Talvez sentisse a diferença, embora a própria Susannah não. E isto podia ser ruim. Se Roland tivesse feito três pedidos, como o príncipe abandonado numa história infantil da hora de dormir, ali e então todos os três teriam sido a mesma coisa: resolver até o fim aquele problema de Calla Bryn Sturgis antes que a gravidez de Susannah — a gravidez de Mia — ficasse óbvia. Ter de lidar com as duas coisas ao mesmo tempo ia ser difícil.

Talvez impossível.

Ela encarava-o com olhos arregalados, inquisidores. Não porque ele a chamara de um nome que não era o seu, mas por querer saber o que eles deveriam fazer em seguida.

— Esta é a sua cidade — disse ele. — Eu visitaria a livraria. E o terreno baldio. — Fez uma pausa. — E a rosa. Você pode me levar?

— Bem — disse ela, olhando em volta —, é a minha cidade, sem a menor dúvida, mas a Segunda Avenida não parece igual ao que era nos dias em que Detta partia em expedições de furtos na Macy's.

— Então não pode encontrar a livraria e o terreno baldio?

Embora decepcionado, Roland não chegou nem perto de ficar desesperado. Haveria um meio. Sempre havia um...

— Ah, problema nenhum — disse ela. — As ruas são as mesmas. Nova York é apenas uma grade, Roland, com as avenidas correndo numa direção e as ruas na outra. Fácil como uma torta. Venha.

O sinal voltara a PARE, mas após uma rápida olhada em frente Susannah pegou o braço dele e atravessaram a rua Cinqüenta e Quatro. Ela caminhava a passos largos, destemida, apesar dos pés descalços. Os quarteirões eram curtos, mas cheios de lojas exóticas. Roland não pôde deixar de admirá-las com olhos arregalados, mas sua falta de atenção parecia bastante segura; embora as calçadas estivessem apinhadas de gente, ninguém esbarrava neles. Ouvia os saltos das botas batendo na calçada, contudo, e via as sombras que projetavam na luz das vitrinas em exposição.

Quase lá, pensou. Se a força que nos trouxe fosse um pouco mais poderosa, estaríamos lá.

E, percebeu, a força poderia de fato ficar mais poderosa, se Callahan tivesse razão sobre o que se encontrava escondido debaixo do piso de sua igreja. Ao se aproximarem do centro e da fonte da coisa que fazia aquilo...

Susannah puxou seu braço e ele parou de chofre.

— São seus pés? — perguntou ele.

— Não — disse ela, e ele viu que ela estava assustada. — Por que está tão escuro?

— Susannah, é de noite.

Ela deu-lhe um puxão impaciente no braço.

— Eu sei, não sou cega. Você não... — Hesitou. — Não consegue sentir?

Roland percebeu que sim. Primeiro, a escuridão na Segunda Avenida realmente não estava nada escura. O pistoleiro ainda não conseguia compreender a forma prodigiosa como aquelas pessoas de Nova York desperdiçavam as coisas que as de Gilead guardavam como as mais raras e preciosas. Papel; água; petróleo refinado; luz artificial. Esta última se via em toda parte. O lume das vitrinas das lojas (embora a maioria estivesse fechada, os artigos expostos continuavam iluminados), o brilho ainda mais forte de um lugar que vendia sanduíches chamado Blimpie’s, e acima de tudo isso, peculiares lâmpadas elétricas alaranjadas pareciam encharcar de luz o próprio ar. Mas Susannah tinha razão. Uma sensação soturna emanava do ar apesar das lâmpadas alaranjadas. Parecia rodear as pessoas que andavam na rua. Fê-lo pensar no que Eddie dissera antes: Todo esse negócio está virando 19.

Mas aquela escuridão, mais sentida que vista, nada tinha a ver com 19. A gente tinha de subtrair seis para entender o que ocorria ali. E pela primeira vez Roland acreditou realmente que Callahan tivesse razão.

— Treze Preto — disse ele.

— Como?

— Foi o que nos trouxe aqui, nos enviou a todash, e o sentimos em toda a nossa volta. Não é o mesmo de quando voei dentro da grapefruit, mas é parecido.

— Passa uma sensação ruim — disse ela, em voz baixa.

— É ruim. O Treze Preto com quase toda probabilidade talvez seja o mais terrível objeto dos dias do Eld que ainda permanece na face da Terra. Não que o Arco-íris do Mago fosse dessa época; tenho certeza de que existia antes...

— Roland! Ei, Roland! Suze!

Eles ergueram os olhos, e apesar de seus receios anteriores, Roland ficou imensamente aliviado ao ver não só Eddie, mas Jake e Oi também, uma quadra adiante. Eddie acenava. Susannah retribuiu o aceno com exuberância. Roland agarrou seu braço antes que ela se pusesse a correr, o que era sua clara intenção.

— Cuidado com os pés — disse ele. — Não precisa pegar alguma infecção e levá-la para o outro lado.

Acertaram um passo rápido. Eddie e Jake, os dois calçados, correram ao encontro deles. Os pedestres se afastavam sem olhá-los nem interromper suas conversas, viu Roland, e então observou que isso não era bem verdade. Um menininho, sem dúvida não mais velho que três anos, caminhava vigorosamente ao lado da mãe. A mulher não pareceu notar nada, mas quando Eddie e Jake os contornaram, o pequeno observou-os com olhos imensos e maravilhados... e chegou mesmo a estender a mão para afagar Oi, que trotava rapidamente.

Eddie passou à frente de Jake e chegou primeiro. Segurou Susannah à distância do braço, admirando-a. Sua expressão, viu Roland, era exatamente igual à do menininho.

— Então? Que acha, doçura? — Susannah falava, nervosa, como uma mulher que chega em casa ao encontro do marido com um penteado novo, radical.

— Uma melhoria definitiva — disse Eddie. — Eu não preciso delas pra amá-la, mas são mais que boas chegando à terra do excelente. Nossa, agora você é uns 2 centímetros mais alta que eu!

Susannah constatou a verdade da afirmação e riu. Oi farejou o tornozelo que não estava ali na última vez que vira aquela mulher, e depois também riu. Um estranho latido-ganido, mas claramente uma risada por tudo aquilo.

Continuar: parte 3 de 3