A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

A.-D. Sertillanges · Capítulo 41 de 41 · parte 2/2

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A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

III. Como utilizar suas anotações

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

A vocação intelectual não admite os “mais ou menos”; os senhores têm de se entregar completamente. Votada ao Deus da verdade em sua globalidade, sua vida é dele em cada situação de que ela é constituída. Diante de cada trabalho digam: é meu dever fazê-lo, logo é também meu dever fazê-lo bem, já que o que não se acaba não é. Na medida em que eu fizer mal, eu falharei na vida, tendo desobedecido ao Senhor e faltado a meus irmãos. Nessa medida eu renuncio a minha vocação. Ter uma vocação é ter a obrigação do perfeito.

Um conselho prático importante se enquadra bem aqui. Quando um trabalho for decidido, bem concebido, bem preparado e os senhores o puserem em execução, determinem de imediato, com um vigoroso esforço, o valor de que ele deve se revestir. Não contem em emendar. Quando a preguiça lhes disser “toca para frente de qualquer jeito agora, mais tarde retomarás”, lembrem-se de que essas retomadas, na maioria das vezes, são ilusórias. Tendo resvalado pelo declive, dificilmente se torna a subir. Não terão coragem para repensar ab ovo uma obra medíocre; sua covardia de hoje não é nenhuma garantia de heroísmo para o amanhã. Quanto às correções que poderiam fazer, mesmo que perfeitas em si mesmas, elas destoariam no conjunto. Uma obra, no que diz respeito ao fundo, deve vir de um só jato. Beethoven observava que um trecho acrescentado ulteriormente nunca alcança ter o mesmo estilo. Uma bela obra é tal e qual uma torrente de lava. Ticiano emendava em profundidade, mas seguindo a nota inicial, visando unicamente o acabamento; ele não tocava em nada que se referisse aos elementos básicos, à composição, às linhas fundamentais. O esforço fora feito; tratava-se de rematá-lo.

Deem sempre o máximo de si na hora da criação. Uma vez gerada a obra, os senhores cuidarão dela como a criança que se tem de alimentar e educar, mas cuja hereditariedade está determinada, cujos caracteres fundamentais estão estabelecidos. Será então o momento de aplicar a seu rebento espiritual as palavras da Bíblia: “Quem poupa a vara, odeia seu filho” (Provérbios 13:24).

V. NÃO TENTAR NADA ACIMA DE SEUS LIMITES

Tamanha severidade para consigo mesmo deixa supor que os trabalhos empreendidos estão adaptados aos senhores e encontram-se à medida de seus recursos. Se a presa for mais forte que o caçador, ela o devora. Torna-se então irrisório fornecer regras. Não se diz ao caçador de lebres: para abordar um leopardo, proceda de tal maneira.

O último dos Dezesseis Preceitos tomistas é este: “Altiora te ne quæsieris – não procures acima de ti”. É de uma grande sabedoria. O oráculo antigo já dissera: “Não alargues teu destino; não tentes ultrapassar o dever que te é imposto”. O trabalho intelectual não é senão o prolongamento de nossas tendências inatas. Nós somos, nós agimos, a obra eclode: são esses os elementos da série. Se quiserem encompridar chumbo usando ferro, ou algodão usando seda, não haverá aderência, de nada valerá o esforço.

A vocação faz uso de nossos recursos, ela não os cria. O intelectual mal dotado não dará outra coisa que um “fracassado”; mas mal dotado pode também dizer-se de modo relativo, com referência a uma obra em particular. Ora, é disso que falamos no momento.

Procurem discernir em todas as ocasiões a energia que lhes convém investir, a disciplina que são capazes de manter, o sacrifício que consentem em fazer, a matéria que se prestam a abordar, a tese que conseguem desenvolver, o livro que podem aproveitar, o público ao qual querem ser úteis. Cogitem sobre tudo isso com humildade e confiança. Caso necessário, busquem aconselhamento, não se esquecendo de que nos conselheiros leviandade e indiferença é o que há de sobra. Decidam-se da melhor maneira possível. Depois disso, entreguem-se ao trabalho de todo o coração.

Toda obra é grande, quando foi medida com precisão e cuidado. A que transborda é de longe a menor de todas. Já muitas vezes lhes dissemos: sua obra pessoal é única, a de outro também, não procedam a permutas. Cada um é o único que pode fazer aquilo de que está encarregado; faríamos malfeito o que nosso próximo fará bem feito. Deus se satisfaz em todos.

Empreender de acordo com suas forças, assumir de dizer só quando se souber, não se forçar a pensar o que não se pensa, a compreender o que não se compreende, evitar o perigo de omitir a substância das coisas cuja ausência se disfarça usando de grandes palavras, que sabedoria! O orgulho não se atém a isso, mas o orgulho é o inimigo do espírito tanto quanto da consciência. O presunçoso sucumbe a sua obra, ridiculariza-se e aniquila sua força. Infiel a si mesmo, não é fiel a nada; é uma chama apagada.

O sucesso em qualquer setor está sempre subordinado às mesmas condições: refletir no início, começar pelo começo, proceder metodicamente, avançar pausadamente, investir todas as suas forças. Mas a reflexão inicial tem por principal objetivo determinar aquilo para o que fomos feitos. O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates não é apenas a chave da moral, é a de toda vocação, já que ser chamado para algo é ver-se designar um caminho só seu, na imensidão da trajetória humana.

Capítulo IX

O Trabalhador e o Homem- O Trabalhador e o Homem

I. MANTER O CONTATO COM A VIDA

Depois de haver pedido tanto e, aparentemente, forjado tantos grilhões, será ironia voltar-se uma última vez para o intelectual e dizer-lhe: conserve livre sua alma?

O que mais importa à vida não são os conhecimentos, é o caráter, e o caráter estaria ameaçado se o homem se encontrasse por assim dizer abaixo de seu trabalho, oprimido pela rocha de Sísifo. Existe uma outra ciência além da que cai para dentro da memória: a ciência de viver. O estudo tem de ser um ato de vida, ser proveitoso para a vida, sentir-se impregnado de vida. Destas duas espécies de espíritos, os que se esforçam em saber alguma coisa e os que tentam ser alguém, a segunda é a que merece, de longe, os louros. Tudo no saber não passa de esboço; a obra acabada é o homem.

A intelectualidade decerto concorre para a soberania do homem, mas não basta. Além da moralidade, onde se inclui a vida religiosa, prolongamentos em vários outros setores devem ser levados em conta. Mencionamos a sociedade, a atividade prática: acrescentemos o convívio com a natureza, os cuidados com o lar, as artes, as reuniões, uma dose de poesia, o culto da palavra, os esportes inteligentes, as manifestações públicas.

A medida certa para tudo isso é difícil de estipular: confio em que o leitor encontrará aqui ao menos o estado de espírito que deve nortear essa decisão. É um índice seguro, para o pensamento e a prática, o de saber apreciar o valor relativo das coisas.

O estudo não tem outra razão de ser que não a de propiciar a expansão de nosso ser: ele não deve acabar nos reduzindo. Se a arte é o homem acrescentado à natureza, a ciência é a natureza acrescentada ao homem: nos dois casos é preciso salvar o homem.

Pascal recusa-se a emprestar sua estima ao especialista que não seria nada além disso; ele não quer que, quando um homem entra num círculo social, todos se lembrem de seu livro. “É uma marca pessoal muito ruim”, diz ele, e ele não se refere apenas a esse espírito de ciência comparada que descrevemos, ele está pensando em termos de harmonia humana.

É preciso sempre ser mais do que se é; se filósofo, deve-se ser um pouco poeta e, se poeta, um pouco filósofo. O artesão tem de ter um tempo para ser poeta e filósofo, ninguém há de contestá-lo. O escritor precisa ser um médico e o clínico precisa saber escrever. Todo especialista é antes de tudo uma pessoa, e o essencial da pessoa está para além de tudo o que se pensa, de tudo o que se faz.

A compreensão do destino não se processa como a compreensão de uma coisa particular. Nos abrimos a ela “com a flor do espírito”, nas palavras de Zoroastro. As metas particulares não valem a vida, nem os atos, a ação, nem o talento, uma ampla intuição onde toda a existência fica englobada; a obra não vale o obreiro. Tudo é nocivo quando destacado de sua rede de relações e é unicamente em nosso ambiente geral que nossa alma consegue desabrochar.

Aquele que só pensa em seu trabalho trabalha mal; ele se diminui; ele adquire um cunho profissional que se transformará em tara. O espírito deve permanecer aberto, preservar o contato com a humanidade e o mundo, para que a cada sessão de estudo ele proporcione a possibilidade de uma nova expansão.

Já citamos esta consideração de um rabino: “Quando um recipiente está preenchido com nozes, pode-se ainda deitar nele muitas medidas de azeite”, aplicando-a aos trabalhos que se apoiam mutuamente em vez de se afrontar. Chamemos agora de nozes o trabalho técnico em seu todo; pode-se acrescentar-lhe sem sobrecarga, pelo contrário, aliviando-lhe o peso, o azeite da vida intelectual descontraída, dos nobres lazeres, da natureza, da arte.

O próprio trabalho técnico lucrará com isso. Ele tira amplo proveito da sociedade, da amizade, da ação exterior, e já expus os motivos desse fato. Nesse ponto só estou estendendo a situação básica, cujo alcance é geral. Será que se pode acreditar que uma visita ao Louvre, a audição da Sinfonia Heroica ou do Édipo Rei, um passeio em Versalhes nos ouros do outono, a simples visão de um pôr do sol, uma comemoração patriótica no Trocadéro ou no grande anfiteatro da Sorbonne, os jogos olímpicos, a encenação de um mistério em Jumièges ou no teatro de Orange, um grande discurso em Notre-Dame fiquem alheios às especialidades, quaisquer que sejam?

Seria ter uma péssima compreensão do pensamento se não se visse a ligação que ele entretém com todas as manifestações criadoras. A natureza tudo renova, refresca toda cabeça benfeita, abre caminhos e sugere enfoques abrangentes que ficam fora da alçada da abstração. A árvore é um instrutor e o prado formiga de ideias tanto quanto de anêmonas ou de malmequeres; o céu está carregado de inspirações em suas nuvens e astros; as montanhas estabilizam nossos pensamentos com sua massa, e as altas meditações se precipitam, num mesmo ímpeto, atrás das correntezas.

Conheço alguém que, olhando para uma torrente rápida, numa região montanhosa, se alçava invencivelmente à ideia dos mundos, sonhando com essas massas que se precipitam com a mesma celeridade, sob a dominação das mesmas leis, na dependência das mesmas forças, graças ao mesmo Deus de onde tudo parte e para onde tudo retorna. Voltando ao trabalho, ele se sentia enlevado pela Força única, imbuído dessa Presença propagada por toda parte e ele mergulhava sua obscura ação na comunhão dos seres.

Mas o senhor, espírito encarquilhado, coração ressequido, o senhor pensa que estará perdendo seu tempo se ficar a seguir as torrentes e a perambular em meio ao rebanho dos astros. O universo preenche o homem com sua glória e o senhor o ignora. A estrela da noite se enfastia em seu estojo sombrio, ela quer acomodar-se no pensamento e o senhor lhe recusa abrigo. O senhor escreve, calcula, alinha proposições e elabora teses, e não olha.

Quem não sabe que, durante um concerto, o intelectual pode ser tomado por uma impressão de grandiosidade, de beleza, de potência, que se transfere de imediato para seus modos de ver pessoais, contribui com seus propósitos, dá novo colorido a seus temas habituais e lhe proporcionará, logo mais, uma sessão de trabalho mais rica? Então ele não vai, nas costas do programa, rabiscar apressadamente o esquema de um capítulo ou de uma exposição, a ideia de uma temática, uma imagem vívida? A harmonia elevou o tom de sua inspiração, e o ritmo, onde ele ficou preso como um transeunte numa tropa em marcha, o arrastou para novas estradas.

Em São Sulpício, no interior de sua capela de Saints-Anges, Delacroix embebia-se deliciosamente dos sons do grande órgão e dos cantos religiosos. Ele atribuía a essa harmonia o êxito extraordinário de seu Jacó em luta e do cavaleiro do Heliodoro.

A música é preciosa para o intelectual por não especificar nada e, consequentemente, por não constituir empecilho para nada. Ela apenas suscita estados de ânimo cuja aplicação por cada qual a uma determinada tarefa tirará deles o proveito que quiser. Rodin fará disso uma estátua, Corot uma paisagem, Gratry uma página exaltada, Pasteur uma pesquisa mais apaixonada e mais atenta. Tudo na harmonia tem coesão e tudo nela se regenera. O ritmo, pai do mundo, é também pai do gênio onde o mundo se reflete. No horizonte indistinto do sonho, cada qual vê subir a imagem de sua escolha e registra-lhe os traços usando sua linguagem pessoal.

Segundo Santo Tomás, as circunstâncias de pessoa e as circunstâncias de fato fazem parte das atividades, elas concorrem para integrá-las e lhes conferem suas características. A ação de pensar constituirá a única exceção? Então não será ela influenciada pelo ambiente imaginativo, sensorial, espiritual, social que nós nos empenharemos em lhe proporcionar, a fim de que ela não seja mais um canto isolado e sim uma das vozes da orquestra?

É-se bem pobre, só consigo mesmo, num gabinete de trabalho! É bem verdade que se pode trazer para dentro dele o universo e povoá-lo com Deus; mas esse povoamento só se torna efetivo depois de uma longa experiência cujos componentes estão por toda parte. Será que eu poderia encontrar Deus em meu quarto se eu nunca fosse à igreja nem andasse sob o céu que “proclama sua glória”? Escreveria eu embevecido pela natureza e pela beleza universal se os grandes panoramas, o plácido campo e os cenários da arte não me tivessem previamente educado?

Assim sendo é preciso expandir o trabalho, para não se transformar num condenado a trabalhos forçados agrilhoado e não reduzir a intelectualidade ao papel de pelourinho. O trabalho é um ato livre.

Os senhores, pois, que tencionam dedicar-se à vocação do estudo, não deem as costas, para favorecê-lo, a todo o restante da vida. Não renunciem a nada do que faz parte do homem. Mantenham um equilíbrio em que o peso dominante não tente arrastar tudo consigo. Saibam elaborar uma tese e contemplar um raiar do dia, enfurnar-se nas abstrações profundas e brincar, como o Mestre divino, com as crianças. Hoje em dia as becas dos pedantes e seus barretes pontudos, de que zombava Pascal, caíram em desuso; entretanto eles subsistem, só que do lado de dentro, eles estão nas almas: não se pavoneiem com eles. Recusem ser um cérebro que se destacou de seu corpo e um humano que se diminuiu subtraindo-se sua alma. Não façam do trabalho uma monomania.

Meu intelectual é o homem detentor de um saber amplo e variado que vem prolongar uma especialidade dominada a fundo; é amigo das artes e das belezas naturais; seu espírito revela ser o mesmo nos afazeres corriqueiros e na meditação; encontramo-lo idêntico perante Deus, perante seus pares e perante sua criada, trazendo em si um mundo de ideias e de sentimentos que não se inscrevem apenas em livros e discursos, que se desabafam nas conversas amigáveis e que guiam sua vida.

No fundo, tudo está coeso e tudo é o mesmo. A intelectualidade não padece de nenhuma divisória. Todos os nossos objetos de investigação constituem-se um a um em portas para penetrar no “jardim secreto”, no “celeiro de vinhos”, que representa o termo das buscas fervorosas. Os pensamentos e as atividades, as realidades e seus reflexos têm todos um mesmo Pai. Filosofia, arte, viagens, cuidados domésticos, finanças, poesia e tênis sabem formar alianças e só entram em desacordo quando há desarmonia.

O indispensável, a todo momento, é estar onde se deve estar e fazer o que importa. Tudo se une no concerto antropo-divino.

II. SABER RELAXAR

Cada qual se dá conta de que expandir-se como estamos requerendo já é espairecer. A melhor parte da distração inclui-se nos modos de vida secundários a que fizemos menção. É pertinente, todavia, que se elogie mais explicitamente o repouso, reverso do trabalho, pelo qual, por conseguinte, o trabalho se qualifica de determinada maneira, ao revelar-se excessivo, sensato, submetido ou não à regra humana que se confirma na lei de Deus.

Nada deve exceder-se. O trabalho, exatamente por ser um dever, pede limites que o mantenham em pleno vigor, durante todo o seu decorrer, e que lhe proporcionem, ao longo da vida, a maior quantidade de efeitos de que ele seja capaz.

A intemperança é um pecado porque ela nos destrói, quando há obrigatoriedade em preservar a vida porque há obrigatoriedade em viver. Ora, a intemperança não está ligada apenas e tão somente aos regozijos sensuais; as mais sutis, as mais nobres empolgações tomam parte em sua malícia. Amar a verdade às custas da prudência, quer dizer, da verdade da vida, é uma inconsequência. Prova-se assim que a despeito de seus protestos, não é a verdade que se ama, mas o prazer que nela se obtém, as vantagens de vaidade, de orgulho, de ambição que dela se espera, à maneira destes enamorados de quem se diz que eles amam amar e que amam o amor de preferência ao objeto de seu amor.

A descontração é um dever, tal como a higiene, onde ela se inclui, tal como a conservação das forças. “Peço-te que te poupes a ti próprio” diz

Santo Agostinho a seu discípulo.[40] O espírito não se cansa, mas o espírito dentro da carne se cansa; nossas capacidades de pensar são proporcionais a uma certa dose de ação. Acrescente-se a isso que, sendo o sensível nosso meio conatural e as mais ínfimas ações práticas constituindo-se na trama de vida para a qual estamos preparados, sair desse setor para galgar ao abstrato acarreta lassidão. O esforço não consegue perdurar. É preciso voltar à

natureza e nela mergulhar para recobrar forças.[41]

O ser em contemplação é um “mais pesado que o ar”: ele só se mantém nas alturas mediante um dispêndio considerável de força; em pouco tempo o combustível se esgota e deve-se novamente “encher o tanque”.

Pode-se acatar sem paradoxo essa observação de Bacon que os dados da fisiologia confirmam: “É preguiça passar tempo demais estudando”. É preguiça de modo direto, no sentido em que se está impossibilitado de vencer um determinismo, de acionar o freio. É preguiça indiretamente, porque a recusa do repouso é a recusa implícita de um esforço que o repouso permitiria, que a estafa vai comprometer. Mas é preguiça de uma outra maneira ainda, mais dissimulada. De fato, fisiologicamente, o repouso é um trabalhão e tanto. Quando cessa a atividade pensante, o gênio interior do corpo empreende uma restauração que ele gostaria que fosse completa. O pretenso lazer não passa de uma transformação de energia.

No teatro, quando baixa o pano, um batalhão de operadores se lança ao palco, limpa, conserta, modifica, e assim se apronta o ato seguinte. O diretor de cena que interromperia ou atrapalharia essa correria não seria um inimigo da peça, do autor, dos intérpretes, do público, de si próprio? O estafado se contrapõe assim à própria vocação, Àquele que a atribui a ele, a seus parceiros na construção intelectual, a seus irmãos que dela tirariam proveito, a seu próprio bem.

O melhor modo de se descontrair ainda seria, se ele fosse viável, o de não se cansar, quero dizer, de equilibrar seu trabalho de maneira a conseguir que uma operação o descansasse de outra. Na medicina, combate-se com frequência os efeitos de uma droga nociva com seu antagonista. Nem tudo cansa do mesmo jeito, nem no mesmo momento. O fundidor suando em bicas diante da fornalha consideraria um repouso atar feixes de feno em campo aberto e o enfardador distribuir o feno nos cochos.

Já demos indicações nesse sentido. Ao tratar do aproveitamento do tempo, depois a respeito da constância no trabalho, tocamos no princípio da distribuição das tarefas. Nem tudo, na intelectualidade, se resume a uma concentração exaustiva: há as preliminares, os paralelos, os corolários práticos dos pensamentos e das criações. Escolher livros, selecionar documentos, reunir anotações, classificar manuscritos, colar papeletas nas margens de suas folhas, revisar provas, pôr em ordem os objetos de escritório, arrumar sua biblioteca, tudo isso são ocupações, não é trabalhar. Organizando-se de modo adequado, pode-se dar o máximo de si ciente e controladamente e, nos intervalos, executar muitas dessas tarefas pouco cansativas, conquanto indispensáveis, e que adquirem, em si mesmas, um valor de contemplação.

Esse escalonamento dos trabalhos segundo suas exigências cerebrais trará uma dupla vantagem: ele evitará a estafa e devolverá ao trabalho intenso toda a sua pureza. Quando não se previu o repouso, o repouso que não se toma toma-se; ele se intercala sub-repticiamente no trabalho sob a forma de distração, sonolência e necessidades que se deve atender, não se tendo pensado nelas no devido tempo.

Estou em pleno esforço criador; eis que me falta uma referência; não há mais tinta no tinteiro; um arquivamento de anotações ficou pendente; um livro, um manuscrito de que preciso estão em outro cômodo ou soterrados sob pilhas das quais têm de ser extraídos. Uma hora atrás, tudo isso teria sido feito brincando, com alegria, a mente a sonhar com a sessão de trabalho tranquila que eu, dessa maneira, me teria preparado. Mas no momento presente fico perturbado com isso; meu impulso se interrompe. Se omiti esses preparativos em benefício de um falso trabalho que meu descomedimento quis salvar, a desgraça é dobrada. E chego a isso: nem verdadeiro repouso, nem verdadeiro trabalho. Reina a desordem.

Evitem cuidadosamente, como já havia dito anteriormente, no que tange aos “instantes de plenitude”, o semitrabalho que é um semirrepouso e que não serve de nada. Trabalhem energicamente, depois relaxem, nem que seja por meio de um espairecimento relativo que prepara, auxilia ou encerra o trabalho.

O descanso total será aliás igualmente necessário, total, digo eu, pelo abandono momentâneo de toda e qualquer preocupação laboriosa, salvo a que se centra no “trabalho permanente” cuja facilidade e os benefícios já conhecemos.

Santo Tomás explica que o autêntico repouso da alma é a alegria, a ação deleitável. Os jogos, as conversas familiares, a amizade, a vida em família, as leituras prazerosas cujas condições já foram colocadas, a proximidade da natureza, a arte quando estiver acessível, um trabalho manual bem ameno, o perambular inteligente numa cidade, os espetáculos nem muito incisivos nem muito excitantes, os esportes moderados: são esses os elementos que asseguram a descontração.

Tampouco nisso deve-se incorrer em excessos. Um descanso longo demais, além de devorar tempo, causa danos ao envolvimento que está na base de uma vida laboriosa. É muito importante que cada qual descubra o ritmo que favorecerá o envolvimento máximo aliado ao mínimo cansaço possível. Trabalhar por tempo demasiado é ficar exausto; interromper o trabalho demasiadamente cedo é não dar tudo de que se é capaz. Do mesmo modo, descansar por tempo demasiado é destruir o envolvimento adquirido; descansar demasiadamente pouco é perder a oportunidade de renovar as forças. Conheçam-se, e dosem tudo em conformidade com esse autoconhecimento. Ressalvada essa condição, os repousos frequentes e curtos, que relaxam sem exigir um novo aquecimento antes de reiniciar, são os mais favoráveis.

Ah! Se fosse possível trabalhar em plena natureza, com a janela aberta diante de uma bela paisagem, em posição de se espairecer por alguns instantes, tão logo apareça o cansaço, em meio à vegetação ou, caso ocorra uma parada no pensamento, de perguntar o que opinam a esse respeito as montanhas, a assembleia das árvores ou das nuvens, os bichos que por ali circulam, em vez de ficar amarguradamente no aguardo de uma retomada, aposto que o produto do trabalho viria em dobro e que seria de longe mais admirável, de longe mais humano.

É-se tão realista estando a circular no campo, e a alma permanece ao mesmo tempo tão elevada! O Imperativo Categórico não deve ter sido concebido num prado, nem muito menos a aritmética pretensamente moral de um Bentham.

Jovens que aspiram alto e querem ir longe, atenham-se à realidade humana. Preservem uma cota de lazer; não se esgotem; trabalhem na tranquilidade e na alegria espiritual; sejam livres. E até, se necessário, usem de astúcia para consigo mesmos: prometam-se, na hora do esforço, algum alívio agradável cuja imagem já em si refresca-lhes o pensamento, enquanto aguardam que ele lhes venha restaurar as forças.

Se estiverem em grupo, façam boa acolhida às distrações uns dos outros. O homem que não graceja nunca, diz Santo Tomás, que não aceita brincadeiras e não incentiva o lado lúdico ou relaxante de outrem é um

bronco, e tem um alto custo para o próximo.[42] Não se consegue viver um dia sequer, dizia Aristóteles, com um homem inteiramente sombrio.

III. ACEITAR AS PROVAÇÕES

Esse equilíbrio do trabalho e da alegria repousante é tanto mais necessário que as provações do trabalhador são inúmeras. Demos uma ideia disso reiteradas vezes. Em matéria de ciência como em tudo o mais, não se chega à salvação senão pela cruz. O descontentamento consigo mesmo, a demora da inspiração, a indiferença do entorno, a inveja, as incompreensões, os sarcasmos, as injustiças, o abandono por parte dos chefes, a deserção dos amigos, tudo pode concorrer, e tudo tem sua hora.

“A superioridade tem de se haver com tantos obstáculos e sofrimentos”, escrevia George Sand a respeito de Balzac, “que o homem que persiste, com paciência e brandura, em cumprir a missão do talento é um grande homem”. Os senhores não hão de querer atribuir a si próprios esta última expressão. Contudo, se em algum grau vierem a ser alguém, fiquem no aguardo de provações seletas e preparem-se para experimentá-las em seus vários sabores: a provação do ideal, que lhes parece estar cada vez mais distante à medida que apertam o passo; a provação dos estúpidos que não entendem nada das palavras que os senhores lhes dizem e ficam escandalizados com elas; a provação dos invejosos que os julgam impertinentes por terem atravessado a linha de combate deles; a provação dos bons que se deixam abalar, passam a suspeitá-los e os largam; provação dos medíocres que são a grande massa e que os senhores incomodam com sua tácita afirmação de um mundo superior. “Se vós fôsseis do mundo, declara o Salvador, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo... por isso é que o mundo vos odeia” (João 15:19).

As distrações mencionadas acima como meios de se relaxar poderão aqui também ser de grande ajuda. Tudo o que descansa do trabalho é igualmente apto a acalmar o sofrimento. Todavia, recorram sobretudo aos meios sobrenaturais e dentre eles ao trabalho sobrenaturalizado que é nosso fim único.

O trabalho cura os padecimentos do trabalho e os do trabalhador; ele é o inimigo dos pesares, das doenças e dos pecados; ele nos coloca numa região elevada onde os percalços da existência e as fraquezas do corpo encontram algum alívio. A impulsão que ele confere, a orientação que ele dá às energias desencaminham os transtornos e nos livram das preocupações miseráveis.

Fiquem ociosos e apalpem o corpo: uma penca de vagos desconfortos provavelmente se manifestará; trabalhem com fervor, nem pensarão mais nisso tudo. O mesmo se pode dizer dos males da alma. Quando eu me pergunto “Como darei cabo das inquietações e dos pesos que me assaltam durante o trabalho?”, só encontro uma resposta: pelo trabalho. Qual o reconforto para meu coração se ele duvidar de sua obra? O trabalho. Qual o meio de resistir aos inimigos do esforço e aos invejosos do sucesso? O trabalho. O trabalho é o remédio, o trabalho é o bálsamo, o trabalho é o incentivo. Juntem-lhe o silêncio, seu companheiro, e a oração, sua inspiradora, usufruam de uma doce amizade, se Deus lhes outorgar uma, e estarão prontos para o que der e vier.

O trabalho equilibra a alma; ele confere unidade interior. Com o amor de Deus, que funda a hierarquia dos valores, ele realiza a subordinação das forças e a alma se estabiliza. Fora isso, a necessidade de unidade não se satisfará senão mediante alguma mania inferior ou alguma paixão, e nossas fraquezas de todos os tipos voltarão a dominar.

Não é à toa que se chama a preguiça de mãe de todos os vícios; ela é também mãe das falhas e dos penares, em todo caso ela os estimula. O sentimento de vitória que o trabalho suscita combate essa depressão; o gasto das forças, quando segue um ritmo, alça-lhes o tom e as regulariza, como o impulso da equipe que rema cantando.

A verdade é uma defesa; ela nos dá firmeza; ela nos alegra; com ela nós nos consolamos de nós mesmos e dos outros; sua descoberta é para nós uma recompensa, sua manifestação uma nobre desforra, nos dias de contradição.

O trabalhador está exposto, entre outras tristezas, àquela que é talvez a mais sensível ao intelectual, quando não ao homem: a crítica não o poupa. Quando essa crítica é superficial e injusta, ele sofre, ele fica propenso a se irritar; se ela acerta em seu ponto fraco e assinala em suas produções ou seu caráter defeitos que ele preferiria esquecer e ocultar aos olhares alheios por não conseguir eliminá-los, é principalmente então que ele se sente atingido.

Qual seria o revide adequado e qual a melhor atitude a tomar? Resposta: a mesma de sempre. “A todas as críticas só vejo uma resposta a ser dada”,

diz Emerson: “voltar ao trabalho”.[43] Diz-se também de Santo Tomás que quando ele era atacado, o que acontecia com muito maior frequência que seu triunfo posterior deixa supor, ele se esforçava em fortalecer sua posição, em precisar e esclarecer sua doutrina, feito o quê ele se calava. O boi mudo da Sicília não ia deixar que as gesticulações e gritarias de uma cruzada de crianças o desviassem de seu caminho.

Corrigir-se e calar-se, eis a grande máxima. Os que a puseram em prática sempre subiram alto; da força que se investia para derrubá-los eles fizeram uma impulsão vitoriosa; com as pedras que se jogavam neles eles construíram sua morada.

É pueril procurar defender suas obras ou estabelecer-lhes o valor. O valor se defende por si mesmo. O sistema solar não se pronuncia para desempatar Ptolomeu e Copérnico. A verdade é. As obras votadas à verdade participam de seu ser e de seu poder. Agitarem-se à volta delas é enfraquecerem-se. Calem-se; humilhem-se perante Deus; duvidem de seu juízo e corrijam seus erros; depois, permaneçam firmes como o rochedo contra o qual vêm rebentar as ondas. O tempo e a energia que os senhores gastariam para sustentar uma obra serão mais bem empregados fazendo outra, e sua paz vale mais que um êxito banal.

“O verdadeiro sábio não discute”, escreve Keyserling; “ele não se defende. Ele fala ou escuta; ele afirma ou procura penetrar as significações”.

Assim que lhes repreenderem algo, em vez de reagir por dentro e por fora, como o animal que eriça o pelo, observem, como um homem, o alcance do que se diz; sejam impessoais e íntegros. Se a crítica é que estiver com a razão e não os senhores, hão de querer resistir ao que é verdadeiro? Mesmo que tenha ocorrido inimizade desde o início, tenham a coragem de confessar e a dignidade de fazer bom uso da malevolência que Deus pôs a serviço dos senhores. Pois o próprio mal está nas mãos de Deus, e a crítica maldosa, por ser a mais afiada, lhes trará um proveito ainda maior.

Colhido o que de útil houver, deixem o restante com o Senhor que julga pelos senhores e que saberá, no devido tempo, fazer justiça. Não deem mais ouvidos. “Não se diz nada de ruim, escreve Santo Agostinho, diante daquele que não escuta.” A inveja é o imposto de renda da glória, da distinção ou do trabalho. O trabalho, que em si é invulnerável, exige do trabalhador seu resgate. Que este pague e não venha com recriminações. “As grandes almas sofrem silenciosamente”, diz Schiller.

Quando não há nada de aproveitável a retirar de um ataque, resta ainda aproveitar para se retirar, a si próprio, para sair primeiramente ileso, isento de enfraquecimentos e de rancores, depois engrandecido, aprimorado pela provação. A força espiritual genuína se exalta na perseguição; às vezes geme, porém seu gemido é igual ao de toda criatura que “geme ainda agora e sofre as dores da maternidade” diz o Apóstolo.

Dissemos que a vida intelectual é um heroísmo: então gostariam que o heroísmo nada custasse? As coisas só valem na exata proporção do que elas custam. O sucesso fica para mais tarde; o louvor fica para mais tarde, talvez não o dos homens, mas o de Deus e de sua corte que farão da consciência dos senhores seu profeta. Os trabalhadores, seus irmãos, também os reconhecerão, apesar de sua defecção aparente. Entre intelectuais, muitas pequenas vilezas e às vezes grandes iniquidades se cometem; entretanto uma classificação implícita nem por isso deixa de consagrar os valores autênticos, mesmo que a publicidade os relegue ao esquecimento.

Se for preciso protelar também sua utilidade – quem sabe? Talvez até a época em que os senhores já não estiverem aqui –, consintam. As honrarias póstumas são as mais desinteressadas e a utilidade póstuma preenche satisfatoriamente os verdadeiros desígnios de sua obra. Afinal, o que querem os senhores? Fama? Lucro? Nesse caso não passam de falsos intelectuais. A verdade? Ela é eterna. Não é necessário utilizar-se a eternidade.

O verdadeiro se desvela pouco a pouco; os que o tiram da sombra não têm de lhe pedir que ele lhes confira uma auréola; eles estão servindo, isso basta, e cingir, por um único instante, o gládio dos heróis ou carregar o escudo diante deles, é sua recompensa.

O trabalho não vale de fato por si mesmo? É um dos crimes de nosso tempo de havê-lo depreciado e substituído sua beleza pela feiura de um violento egoísmo. As nobres almas vivem uma bela vida e esperam dela a fecundidade como um suplemento. Elas trabalham não só pelo fruto, mas pelo trabalho, para que sua vida seja pura, reta e viril, semelhante à de Jesus e pronta para unir-se a ela. Assim, elas não se detêm nas decepções. O amor não receia as decepções, nem a esperança, nem a fé de raízes sólidas.

Por mais que se trabalhe sem fruto aparente, que se semeie e não se colha, que se nade e se seja repelido da margem, que se caminhe e não se encontre diante de si senão espaços sem fim, isso não se constitui de forma alguma em decepção para quem crê, para quem tem esperança, e isso agrada a quem ama porque o amor tem sua melhor prova quando se trabalha por prazer, o prazer do amado e o de seu serviço.

IV. APRECIAR AS ALEGRIAS

De resto, no trabalho, nem tudo é contrariedade, o trabalho comporta suas alegrias, e é uma felicidade se a alegria por si só despertar nossa disposição para trabalhar e nos relaxar após o esforço.

Seria bom ter alegria mesmo nas aflições e contrariedades, a exemplo do Apóstolo: “Eu me excedo em alegria em meio a minhas tribulações”. A tristeza e a dúvida matam a inspiração, mas a matam unicamente quando se cede a elas. Reerguer-se mediante a alegria cristã é reavivar a chama abafada.

“Os fracos pensam no passado”, escreve Marie Bashkirtseff, “os fortes tratam de se vingar”. Isso é sempre viável e, a fim de nos ajudar, Deus permite que descansemos às vezes num contentamento tranquilo.

A sensação da altitude dá ao trabalhador, como ao escalador de rochas e geleiras, uma alma a um só tempo confrangida e feliz. As paisagens de ideias, mais sublimes que as alpinas, excitam sua embriaguez. “Ver a ordem do universo e as disposições da divina Providência é uma atividade

eminentemente deleitável”, diz Santo Tomás de Aquino.[44]

Segundo o angélico Doutor, a contemplação parte do amor e termina na alegria: amor do objeto e amor do conhecimento enquanto ato de vida;

alegria da possessão ideal e do êxtase que ela provoca.[45]

O intelectual cristão escolheu a renúncia, mas a renúncia o enriquece mais que uma opulência altiva. Ele perde o mundo e o mundo lhe é dado espiritualmente; ele ascende ao trono de onde se julgam as doze tribos de Israel (Lucas 22:30). O ideal é sua realidade pessoal, que para ele substitui a outra e absorve todos os defeitos desta usando da beleza. Despojado de tudo pelo espírito e não raro de uma pobreza efetiva, ele se vê acrescido de tudo de que ele abre mão, ou que abre mão dele, pois ele reencontra secretamente a magnífica possessão de tudo isso. Se ele se abandona à mais absorvente das ações interiores, ao recôndito desse profundo sono aparente, ele poderia dizer, como a Esposa: “Durmo, mas meu coração vela.” “Sobre meu leito, durante a noite, procurei o que meu coração ama, agarrei-o e não o deixarei ir-se.”

Quando se está nas condições requeridas e a alma está inteiramente entregue à obra a executar, quando se estuda bem, quando se lê bem, quando se anota bem, quando se faz com que a inconsciência e a noite cumpram sua tarefa, os trabalhos que se preparam são como semente sob o sol, como a criança a quem a mãe dá à luz na dor, mas tão feliz por ter nascido um homem que ela nem se lembra mais de sua dor (João 16:21).

A recompensa de uma obra é tê-la feito; a recompensa do esforço é ter crescido.

Coisa espantosa, o verdadeiro intelectual parece escapar dessas tristezas causadas pela idade que infligem a tantos homens uma morte antecipada. Ele se mantém jovem até o fim. Dá a impressão de tomar parte da juventude eterna do verdadeiro. Tendo em geral amadurecido muito cedo, ele continua maduro, em nada azedo nem decaído, quando a eternidade vem recolhê-lo.

Essa perenidade excepcional é igualmente a dos santos; ela talvez desse a pensar que santidade e intelectualidade têm a mesma essência. Com efeito, a verdade é a santidade do espírito; ela o conserva, como a santidade é a verdade da vida e tende a fortalecê-la para este mundo tanto quanto para o outro. Não há virtude sem crescimento, sem fertilidade, sem alegria; não há luz intelectual tampouco sem que tais efeitos dela derivem. Sábio, conforme a etimologia, é o que possui erudição e experiência de vida, e a sabedoria é una, abrangendo a dupla regra do pensamento e da ação.

V. ANSIAR PELOS FRUTOS

Com isso chegamos às últimas palavras que convém dirigir ao ouvinte dessa tão curta e tão longa teoria da vida intelectual. “Se seguires esse caminho”, diz Santo Tomás a seu discípulo, “produzirás, na vinha do Senhor, verduras e frutos úteis por toda a tua vida. Se colocares em prática esses conselhos, alcançarás o que desejas. Adeus”.

Não será um digno adeus esse que empenha, em favor do labutador e do fiel, a honra do verdadeiro, garantindo a quem preencher as condições os resultados que ele deseja?

Não se pode prometer nada a quem não tem nenhum dom. Porém, estando pressuposta a vocação, tem-se o direito de dizer que a cultura não é filha principalmente do gênio; ela nasce do trabalho, de um trabalho qualificado, organizado e contínuo, tal como tentamos retratá-lo.

O trabalho fabrica para si seu próprio instrumental. Como o ferreiro que dá têmpera a suas ferramentas, ele forma nosso caráter e nos confere solidez, consequentemente confiança.

Essa confiança que está fundada sobre uma lei das coisas pertence ao trabalho mais do que ao trabalhador; entretanto o trabalhador também deve ter fé em si mesmo. Não tem ele consigo o Deus que disse: “O que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á”? Todos nós temos a Verdade por detrás de nós e ela nos impele pela inteligência; nós a temos diante de nós e ela nos chama, acima de nós e ela nos inspira.

A alma é igual em todos; o Espírito sopra em todos; o intuito e as aspirações profundas são os mesmos para todos; só o que varia, além dos ânimos, são os elementos cerebrais mais ou menos livres e ativos, mais ou menos interligados. Ora, sabemos que com nossos socorros terrestres e celestes, podemos superar um bom número de deficiências. A luz pode filtrar através das brechas que nosso esforço alarga; quando ela se faz presente, por si mesma ela expande e firma seu reinado.

Não se deve apoiar-se em si mesmo; mas em Deus dentro de si nunca se conseguirá ter demasiada confiança. Nunca se está superestimando o eu, quando se trata do eu divino.

De resto, esperamos também daqueles que nos iniciaram, de nossos amigos, de nossos irmãos no meio intelectual uma contribuição permanente. Os gênios estão do nosso lado. Os grandes homens não são grandes só para si; eles nos sustêm; nossa confiança os subentende. Com sua ajuda, podemos construir-nos uma vida tão grande quanto a deles, ressalvada a desproporção das forças.

O verdadeiro intelectual não deve temer a esterilidade, a inutilidade; basta que uma árvore seja uma árvore para dar sementes. Os resultados às vezes tardam, mas não falham; a alma dá uma paga; os acontecimentos dão uma paga. Se não podemos nos igualar ao que admiramos, sempre podemos nos igualar a nós mesmos: eis nosso único objetivo.

Cada indivíduo é único: por conseguinte cada fruto do espírito é também único. O único é sempre precioso, sempre necessário. Não faltemos a Deus, e o sucesso de Deus será em parte o nosso. Temos aí um consolo para nossa inferioridade e, se produzimos, um reconforto diante do dilúvio dos livros.

Deem tudo o que houver nos senhores, e se forem fiéis a si próprios, se o forem até o fim, estejam certos de chegar à perfeição de sua obra – a sua, digo eu, aquela que Deus espera dos senhores e que vem em resposta a suas graças, interiores e exteriores. E, na ocasião, deverão dizer a si mesmos que muitas obras e vidas são mais belas, mas poderão acrescentar: não há mais bela para mim, e não há outra igual.

Acrescento isto ainda, que faz parte dos motivos para termos confiança. Quando lhes pedirem fidelidade, um trabalho dedicado e bem organizado, não ficam radicalmente excluídas eventuais falhas; promessas feitas com essa condição seriam irrisórias. Errar é humano, mas dentre todas as prescrições, retenhamos o essencial, o habitual; é com referência a esse conjunto que nos é dito: basta, é indispensável.

Seria desejável que nossa vida fosse uma chama sem fumaça e sem escórias, que nada dela fosse desperdiçado, que nada nela fosse impuro. Isso não é possível; mas o possível é ainda belo, e belos e saborosos são seus frutos.

Decididos a pagar, anotem no registro de seu coração, hoje mesmo, se já não fizeram isso, sua firme resolução. Aconselho a escreverem essa decisão também preto no branco, de modo bem legível, e a colocarem os termos em que foi formulada bem a sua frente. Quando se puserem ao trabalho e depois de terem orado, reassumirão essa resolução a cada dia. Terão tido o cuidado de mencionar especialmente o que lhes é o menos natural e o mais indispensável, aos senhores, tais como são. Caso necessário, recitarão isso em voz alta, para que sua palavra lhes seja, a si próprios, mais nitidamente dada.

Então, acrescentem e repitam com plena certeza: “Se fizeres isso, produzirás frutos úteis e alcançarás o que desejas”.

ADEUS.

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[1] Em latim no original. (N. E.)

[2]Les Prières de Saint Thomas d’Aquin [As Orações de Santo Tomás de Aquino]. Tradução e apresentação de A.-D. Sertillanges. Paris, Librairie de l’Art Catholique.

[3] VII Physic., lib. 6.

[4] Vide Santo Tomás, Suma Teológica. IIª IIæ, q.167.

[5] Vide, adiante, “O campo do trabalho” – “A ciência comparada”.

[6] Vide Les Prières de Saint Thomas d’Aquin. Paris, Librairie de l’Art Catholique.

[7] Q. XIX De Veritate, art. I, arg. I.

[8] De Memoria, lect. I.

[9] In II De Anima, lect. 19.

[10] Santo Tomás. Q. XXVI De Veritate, art. 3, ad 12m.

[11] Vide Réveillé Parise: Physiologie et Hygiène des Hommes Livrés aux Travaux de l’Esprit [Fisiologia e Higiene dos Homens Dedicados aos Trabalhos do Espírito], 1881.

[12] J.-P. Muller, Mon Système [Meu Sistema]. Ed. Lafitte.

[13] Contra Gentes, III, cap. CXLI.

[14] Suma Teológica Iª IIæ, q. 3, art. 2, ad. 4m.

[15] Les Sources [As Fontes], primeira parte, cap.VI, 54.

[16] Iª Pars, q. 84, art. 8.

[17] Ralph-Waldo Emerson, Poems [Poemas].

[18] É digno de nota que atualmente o cientista seja convidado por sua própria ciência a elucidar problemas que até então diziam respeito tão somente à filosofia: causalidade, determinismo, probabilidade, contínuo e descontínuo, espaço, tempo etc. Pela lógica, é do filósofo que o cientista deveria tomar emprestadas essas noções; mas aquele, na maioria das vezes, se esgueira, muito satisfeito com seus antigos quadros de referência, e o cientista vê-se obrigado a filosofar por si mesmo, o que ele faz sem qualquer experiência e não raro erradamente.

[19] Veja-se inclusive, na Suma Teológica, toda a Primeira Questão; no Comentário ao De Trinitate de Boécio, a Questão IIª, art. 2; no Contra Gentes, o cap. Iº do Iº Livro.

[20] Charles Dunan escreveu esta observação marcante: “Para a filosofia moderna, os problemas transcendentes são nulos e inexistentes. Mas a recíproca é verdadeira: se esses problemas existem, é a filosofia moderna que não existe”. Les Deux Idealismes [Os Dois Idealismos]. Paris, Alcan éd., 1911, p.182.

[21] A título de auxílio, permitam-me mencionar o Catéchisme des Incroyants [Catecismo dos Descrentes], publicado pela editora Flammarion com o objetivo de facilitar para nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã e de seus fundamentos.

[22] Alguns julgaram, lendo essa frase, que o autor tinha algum segredo para ensinar o latim a alguém em dois meses! Não se trata do latim, trata-se da linguagem de Santo Tomás, que está para o latim clássico aproximadamente como a “Montagne Sainte-Geneviève” está para o “Pic du Midi”. O vocabulário tomista é tão reduzido, as expressões sempre tão marcadamente as mesmas e tão distantes do que constitui as dificuldades do latim que efetivamente apenas a preguiça poderia recuar visto tratar-se, e por um preço irrisório, de um tesouro.

[23] Veja-se como obra básica: Jacques Maritain, Éléments de Philosophie [Elementos de Filosofia], Téqui, 1920. Para o estudioso mais adiantado: A.-D. Sertillanges, Saint Thomas d’Aquin [Santo Tomás de Aquino], na Collection des Grands Philosophes, Aubier éd.

[24] In Evang. Joann., C. IX, lect. 3, fim.

[25] Nicole, Essais de Morale Contenus en Divers Traités [Ensaios de Moral Constantes de Diversos Tratados], t. II. Paris, 1733, p. 244.

[26] Op. cit., p. 246.

[27] Santo Tomás. In II. Metaphys, lect. I.

[28] Boécio, De Consolatione Philosophiæ.V, prosa 5.

[29] Santo Agostinho, Opuscule De Magistro. [Edição brasileira: O Mestre. Trad. Antônio Soares Pinheiro. SP, Landy, 2006 - N. E.]

[30] Santo Tomás, De Magistro em Quæstiones Disputatæ de Veritate, q. 11, art. 1º, com os argumentos e as respostas.

[31] Pensamento familiar ao abade de Tourville, que o aplicava à ciência social.

[32] Op. cit., p. 261.

[33] De Memoria et Reminiscentia, lect. 5.

[34] Ibidem, lect. 2.

[35] L’Organisation du Travail Intellectuel [A Organização do Trabalho Intelectual], pelo dr. Chavigny, professor-adjunto do Val de Grâce, Delagrave, 1918.

[36] Emerson, Autobiographie [Autobiografia], Edit. Régis Michaud, Colin éd., p. 640.

[37] Gratry, Les Sources [As Fontes].

[38] Nicole, op. cit., p. 255.

[39] Friedrich Nietzsche, Ainsi parla Zarathoustra. Alcan éd.[Ed. brasileira: Assim Falava Zaratustra. 2.ed. Trad. e notas de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis/RJ, Vozes, 2008 -N. E.]

[40] De Musica, c. II.

[41] Cf. Santo Tomás, IIª IIæ, q. 168, art. 2.

[42] Idem, IIª IIæ, q. 168, art. 4.

[43] Autobiographie [Autobiografia]. Ed. Régis Michaud. Colin éd, p. 145.

[44] In Psalm. 26.

[45] IIª IIæ, q. 180, art. 1º.

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