Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
seguinte, Lutz deparou com mais onze casos,90 assim distribuídos: Porto Ferreira (1); Salto de Itu (1); Inhaim (2); Serra de Santos (2, e uma quantidade não especificada “com leucócitos pigmentados”). Na Santa Casa, examinou ainda um doente vindo de uma fazenda perto de Araraquara, um “caso crônico, provavelmente de origem italiana,” e quatro casos de lugares indeterminados do interior do estado.
Os trinta impaludados que examinara até então e as informações fornecidas por outros médicos permitiram a Lutz fazer um primeiro desenho da geografia da malária no estado de São Paulo e em suas adjacências. Os focos concentravam-se em três regiões: primeiramente o litoral – Barra de Santos, Guarujá e, fora do estado, Rio de Janeiro e Paranaguá; em segundo lugar, as serras costeiras, especialmente a de Santos; por fim, as margens dos grandes rios do interior: Moji-Guaçu, Tietê, Paraná e Piracicaba. Os casos não associados a estas regiões eram raros e de pouca importância. A malária dos rios do interior só aparecia quando estes atingiam certo tamanho; no Tietê, por exemplo, o trecho malarígeno situava-se próximo ao salto de Itu: “Por isso fica entre a serra costeira e as margens dos grandes rios uma zona quase indene na qual se acha a capital”.
A maior parte dos casos não era grave: “geralmente principiam pelo tipo quotidiano e tornam a mostrar este tipo nas recaídas. A febre terçã é mais rara e geralmente só se observa em casos de longa duração, parecendo resultar de modificação gradual do tipo
quotidiano”.91
Os relatórios de Lutz mostram que ele vinha pondo em prática aquela “estrutura de experiência” que vinha dominando a chamada patologia exótica e cuja inauguração Delaporte (1989) atribui a Manson. Como mostra o historiador francês, os trabalhos de Laveran tinham deixado em aberto dois problemas. O primeiro dizia respeito à natureza e função de certas formas dotadas de longos filamentos móveis encontradas no sangue extravasado: para uns eram corpos em vias de desintegração, para outros, novo estágio de desenvolvimento do parasito. O segundo problema concernia ao modo de propagação do impaludismo. Embora se conseguisse induzi-lo pela inoculação do sangue de doentes em indivíduos sãos, não parecia ser contagioso. Sugeriram-se várias hipóteses: para uns, os parasitos penetravam no organismo pela ingestão de água estagnada ou inalação de poeiras desprendidas por pântanos; para outros, os parasitos existentes nos pântanos infectavam os mosquitos, e estes, o homem.
Mapa de São Paulo. Em destaque, a área que se estende de Moji-
Guaçu a Guarujá. Organizado pela Comissão Geográfica e
Geológica. Engenheiro chefe João Pedro Cardoso. São Paulo:
Weiszflog irmãos, 1908.
Em 1894, Manson articulou os dois problemas ao aplicar aos filamentos móveis a hipótese sobre o ciclo das filárias. Aquelas formas que só apareciam no sangue extravasado seriam esporos flagelados, o primeiro estágio de vida do parasito fora do homem. Tal como na filariose, um mosquito ou outro sugador de sangue extrairia o hematozoário dos vasos sanguíneos do homem e, ao morrer, o transferiria à água. Por meio dela, ou do velho mecanismo aéreo, o parasito retornaria ao homem. Desta hipótese derivou o programa de pesquisa a que se dedicou Ronald Ross entre 1894 e 1898, em meio a seus afazeres como oficial do Indian Medical Service:
O objeto de estudo é infinitesimal e problemático: a extrema
delicadeza dos filamentos complica a observação e é preciso
encontrar um elemento cuja forma e localização não são
conhecidos. Além disso, nada garante que a pesquisa esteja
sendo conduzida com a boa espécie. Daí derivam as
estratégias elaboradas por Ross para vencer estas dificuldades.
De um lado, trabalhar com mosquitos estéreis, isto é, oriundos
de larvas mantidas em cativeiro, o que permite evitar as
complicações ligadas à invasão de corpos estranhos. De outro
lado, estar atento à pluralidade das formas sob as quais
poderiam se apresentar os corpos flagelados. O que supõe
familiaridade com os parasitos dos insetos e com a histologia
normal ou patologia do mosquito. (Delaporte, 1989, p.96-8)
No verão de 1897, uma observação decisiva forneceu-lhe a posição e o aspecto do parasito no corpo do inseto: descobriu células pigmentadas na parede estomacal de mosquitos alimentados com sangue de doentes quatro ou cinco dias antes. Na mesma época, MacCallum constatou que essas células tinham a ver com a reprodução biológica do parasito: estudando o hematozoário do corvo, verificou que se apresentava sob duas formas, uma masculina (corpos hialinos), a outra feminina (corpos granulosos). Por sugestão de Manson, Ross passou a investigar o paludismo aviário. Para rastrear o desenvolvimento e a posição final das células pigmentadas no mosquito, executou delicadas dissecações, cotidia-namente, verificando que até o oitavo dia as células aumentavam de tamanho, depois se abriam e liberavam os corpos filiformes. Por fim, surpreendeu-os nas glândulas salivares do inseto (ibidem, p.99-100).
Ronald Ross (1857-1932) (Olpp, 1932, S347).
Naquele mesmo período, Lutz abria os corpos de diversos animais para em seguida comparar seus hematozoários com o plasmódio, buscando entender o modo como parasitavam os organismos de seus hospedeiros. Em seus relatórios, no entanto, preocupava-se em descrever, com detalhes, a morfologia e a localização dos protozoários encontrados no sangue das aves e dos homens vitimados pelo impaludismo, ressaltando os aspectos que eram reconhecidos como os mais intrigantes pelos estudiosos da doença. Em 1898, resumia assim suas conclusões a esse respeito:
A forma do hematozoário observado quase sempre foi a do
plasmódio; 4 ou 5 vezes era acompanhado de crescentes e
uma vez encontramos só formas semilunares. Onde havia
crescentes, também se costumava, em observações
demoradas, perceber os corpos flagelados. Nunca achamos
formas segmentadas e só uma vez os plasmódios tinham o
pigmento reunido no centro, como preparando-se para
segmentação … Os plasmódios sempre tiveram o tipo descrito,
com pigmento fino, irregularmente distribuído, em movimento
browniano; mostravam movimentos amebóides pouco
acentuados; alcançavam ou excediam o tamanho de uma
hemácia e não se segmentavam no sangue da circulação
periférica. Não correspondiam exatamente a nenhum dos tipos
descritos, mas assemelhavam-se às formas benignas terçã e
quartã.
A problemática de sua transmissão por mosquitos impôs-se a Adolpho Lutz somente em 1897, e de forma súbita, em decorrência do enigma que descreveremos a seguir.
A descoberta da malária das florestas
A construção de ferrovias em São Paulo, na segunda metade do século XIX, foi decorrência da expansão da economia cafeeira. Até então, o transporte terrestre de mercadorias era feito por tropas de burros, em viagens que duravam dias. Com a ampliação do comércio exterior esse sistema tornou-se obsoleto, revelando a necessidade de novos meios que garantissem um escoamento mais rápido da produção até o litoral. A solução para o problema estava na construção de uma linha férrea ligando a capital da província e os principais centros produtores de café no interior ao terminal de Santos, através da Serra do Mar, no trecho conhecido como Serra de Santos ou de Cubatão.
Os primeiros estudos para a implantação da ferrovia remontam a fins da década de 1830. Um anteprojeto foi submetido à apreciação do engenheiro inglês Robert Stephenson, mas a proposta, considerada prematura, acabou sendo abandonada. Em 1859, outro grupo de brasileiros, tendo à frente o empresário Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), o Barão de Mauá, obteve do Governo Imperial concessão de 90 anos para construir e operar a linha, que deveria ligar o porto de Santos ao planalto paulista, de onde seguiria até Jundiaí. Foi organizada em Londres, em 1860, a São Paulo Railway Company Limited, contratando-se dois experientes engenheiros ingleses: James Brunlees e Daniel Makinson Fox. Diante da dificuldade em transpor as partes muito íngremes da serra, Fox propôs a adoção do chamado sistema funicular. Era formado por quatro declives, com inclinação de 8%, que se comunicavam por meio de patamares. Nestes últimos, ficavam máquinas estacionárias que acionavam os cabos de aço responsáveis pela movimentação das composições na subida e descida da serra. Primeira ferrovia de longa distância do país, com um total de aproximadamente 140 quilômetros, a São Paulo Railway foi concluída cerca de dez meses antes do previsto, sendo aberta oficialmente ao tráfego em 16 de fevereiro de 1867.
Participaram de sua construção cerca de 5 mil trabalhadores, que ficaram alojados num acampamento montado no topo da serra. Ao término das obras, a grande maioria dos empregados foi dispensada, permanecendo somente aqueles necessários à operação e manutenção do sistema. O acampamento inicial deu origem a um pequeno povoado chamado Alto da Serra, atual Paranapiacaba, que em tupi-guarani significa “lugar de onde se vê o mar”.
O grande volume de café transportado para Santos e o acelerado crescimento das cidades do interior logo demandaram a duplicação da ferrovia e a construção de um segundo sistema funicular, batizado de Serra Nova. Paralela à anterior, a nova linha foi construída com base no sistema de cabos contínuos ou Endless Rope: um engenhoso sistema de contrapesos articulava a composição que descia com outra que fazia, ao mesmo tempo, o caminho inverso, permitindo que as composições ultrapassassem a serra sem que o percurso fosse interrompido. O trajeto nas montanhas foi dividido em cinco seções, com dois quilômetros cada uma e inclinação máxima de 8%. Entre um plano e outro, os vagões eram puxados por uma pequena locomotiva denominada locobreque. O segundo sistema funicular começou a ser construído
em 1895 e foi inaugurado somente em 28 de dezembro de 1901.92
A São Paulo Railway, primeira ferrovia paulista. Construída pela
empresa Robert Sharpe and Sons, de Londres, de acordo com o
projeto dos engenheiros britânicos James Brunlees e Daniel
Mackinson Fox, contratados pelo Barão de Mauá. Foto de Militão
Augusto de Azevedo, 1865 (Walker & Braz, 2001, p.61).
Raiz da Serra, vendo-se à direita a residência do engenheiro. Nessa
região, Lutz encontrou trabalhadores com malária (BR. MN. Fundo
Adolpho Lutz, caixa Malária – 23, maço 9).
Em 1897-1898, a malária grassou em forma epidêmica entre os trabalhadores que construíam a nova linha ferroviária, no trecho recoberto de matas que escalava aquelas montanhas. O ambiente diferia muito das planícies encharcadas via de regra associadas à doença. “Os casos tinham o tipo intermitente regular cotidiano terçã” – escreveu Adolpho Lutz no relatório de atividades de 1897; “eram muito freqüentes, mas de pouca gravidade e facilmente curados pela quinina, mas com grande tendência para recaídas. Ocorriam tanto no alto da serra, como nas vertentes em lugares muito declives e completamente destituídos de pântanos, e não se observaram lá onde a linha atravessava os mangues”.
Surtos de malária vinham ocorrendo nos canteiros de obras de outras estradas de ferro, e Lutz dava, como exemplos, as de Mauá, perto do Rio de Janeiro, e Guarujá, próxima a Santos. No relatório de 1898, limitava-se a comentar que o grande número de casos observados na serra de Santos se explicava “naturalmente pela aglomeração de trabalhadores numa zona geralmente quase deserta”. Em relatórios posteriores, não tocou mais no assunto. A malária continuou em pauta depois de haver sido decifrado seu modo de transmissão, em 1898-1899, mas quase sempre referida a seus habitats previsíveis, as planícies e vales paludosos.
Em 1901, o diretor do Instituto Bacteriológico analisou 17 resultados positivos, a maior parte de Rincão. Mais de meia centena de doentes foram encontrados durante as viagens que Lutz fez a Conceição do Itanhaém, e seu assistente, Carlos Meyer, a Guatapará, Rincão e Rebouças. Colheram material abundante e fizeram “um estudo extenso da coloração pelo método de Romanowsky mais ou menos modificado, obtendo muitas
preparações magníficas”.93
As viagens ao interior do Estado prosseguiram em 1902,94 tendo sido verificadas epidemias de impaludismo em Peruíbe e, pouco depois, em zonas vizinhas a Conceição de Itanhaém e Iguape. Muitos casos foram estudados em Batatais, à margem do rio Sapucaí, e em Ribeirão Preto, onde a doença era endêmica.
Nesse período, uma única vez Lutz alude vagamente às “muitas observações” que fizera sobre “a coincidência das três espécies de mosquitos do gênero Anopheles … que serão referidas num
trabalho especial sobre este assunto”. 95
O trabalho veio a lume em 1903, e só então Lutz revelou a complexidade do enigma que o surto na serra de Santos lhe apresentara, e a cuja decifração havia dedicado todos aqueles anos. Na verdade, é pouco clara a ordem de ocorrência dos fatos que levaram à descoberta daquela forma de malária que grassava nas florestas.
O surto, como dissemos, ocorrera em circunstâncias que fugiam ao padrão conhecido. A parte principal da estrada de ferro que se construía entre São Paulo e Santos ligava a planície, pouco acima do nível do mar, ao espigão daquela cadeia de montanhas, cujo ponto menos elevado media cerca de 900 metros, sendo ladeado por picos bem mais altos. O traçado da ferrovia atravessava aí matas ininterruptas e desabitadas. A escarpa em forte declive só podia ser vencida mediante o emprego do já referido sistema de cabos. Então, além do leito da ferrovia, foram erguidas cinco casas de máquinas, assim como vários túneis e viadutos para transpor numerosos boqueirões e ravinas pelos quais desciam diversos riachos. O forte declive explicava tanto as freqüentes quedas d’água como a ausência de águas paradas, “no sentido usual da palavra”.
Plantas da ferrovia da Serra de Cubatão (BR. MN. Acervo Adolpho
Lutz, caixa 23, maço 9).
Vista panorâmica da Serra de Cubatão (Santos), onde Lutz
descobriu a Malária Silvestre – 1, 2, 3, 4, 5 (BR. MN. Acervo
Adolpho Lutz, caixa 23, maço 9).
A primeira linha daquela estrada de ferro, inaugurada em 1867, era mais curta e, portanto, mais íngreme. Lutz fora informado por testemunhas oculares que, durante sua construção, as febres intermitentes grassaram entre os trabalhadores, mas o problema cessara depois de terminadas as obras, não se observando novos casos nem entre os viajantes e o pessoal de serviço que transitavam diariamente pelos trens, nem entre as poucas famílias que residiam à beira da estrada.
Na abertura da nova linha, centenas de operários foram alojados em plena mata, em ranchos que se comunicavam apenas por meio de picadas. Ressurgiram, então, numerosos casos de febre intermitente, a princípio entre os que residiam nos ranchos da zona mais baixa e quente. Logo se alastraram até o alto da serra, “atingindo, muitas vezes, em poucos dias, a maioria dos moradores de um rancho”. A incapacidade para o trabalho costumava ser passageira em razão do caráter benigno da doença e do uso abundante de quinina, mas eram freqüentes as recaídas.
Lutz examinou o sangue de diversos trabalhadores e verificou que padeciam mesmo de malária. Os aspectos intrigantes daquela epidemia, em ambiente tão diverso daquele tradicionalmente associado à doença, o levaram a passar algumas noites numa casa situada no meio da estrada antiga, pertencente a um engenheiro, amigo seu, cuja esposa adoecera ali:
Logo na primeira noite, que sucedeu a um dia muito quente,
surgiram, enquanto estávamos sentados junto a um lampião,
numerosos insetos picadores. Incluíam o Simulium pertinax
Kollar, alguns culicídeos, mais ou menos banais e meus
conhecidos, e uma espécie que ainda não vira, caracterizada
pelas asas maculadas e pela posição perpendicular esquisita
que tomava ao sugar. Apesar da sua delicadeza e tamanho
diminuto, deu provas de ser um sugador de sangue voraz,
pousando sem hesitação alguma nas pessoas presentes e num
cãozinho que também ali se achava, sem fazer zumbido prévio.
As picadas desse mosquito são menos dolorosas que as de
algumas outras espécies. Devido a estas circunstâncias,
deixam de ser sentidas por certas pessoas de modo que a
espécie, que voa principalmente durante o crepúsculo, passa
facilmente desapercebida.
Tive imediatamente a certeza de ter encontrado o mosquito que
procurava, muito embora naquela época ainda não fossem
conhecidos os característicos dos transmissores da malária. Ao
ser descoberto, pouco depois, que estes deveriam ser
procurados entre as espécies do gênero Anopheles, vi com
satisfação que a nova espécie era, de fato, um Anopheles.
Acampamento na planície, onde Lutz examinou trabalhadores com
malária. Sítio da atual estação de Piaçagüera, aberta em 1902 para
ser a estação inicial na subida para a linha da “serra nova,” provida
de planos inclinados, hoje abandonada (BR. MN. Fundo Adolpho
Lutz, caixa 23, maço 9).
O último comentário sugere que a ‘revelação’ a Lutz da transmissão por anofelinos dessa modalidade ainda desconhecida de malária humana ocorreu antes da divulgação, em 1899, do trabalho fundamental a esse respeito de Grassi, Bignami e Bastianelli.
De posse da espécie suspeita, a questão que se colocou foi encontrar os criadouros de suas larvas. Não duvidava que fossem aquáticas, como as de outros mosquitos, e não demorou a verificar que naquelas matas só excepcionalmente encontraria brejos e poças. “O problema resumia-se, pois, em encontrar depósitos de água apropriados para a sua criação”. Encontrou-os “em breve”. Tal brevidade deveu-se às habilidades de Lutz como zoólogo, e a uma experiência prévia importante.
Nas ilhas do Havaí (1889-1892), havia estudado uma planta que acumulava água entre suas folhas, uma pandanácea (Freycinetia arnottii) que servia de habitat para um pequeno crustáceo (Orchestia). Lutz já conhecia o trabalho de Fritz Müller, o primeiro naturalista a estudar as relações entre animais e plantas armazenadoras de água: em 1879 e 1880, descrevera pequeno crustáceo Ostracoda da família Cytheridae (Elpidium bromeliarum), cujo ciclo de vida transcorria numa bromeliácea do Brasil. Procurava explicar como esse habitante exclusivo de plantas passava de uma para outra. Müller apresentara, então, uma primeira relação de
animais que faziam parte da fauna bromelícola. 96
É possível que Lutz estivesse familiarizado com os trabalhos de outros autores que começavam a desbravar esse universo (se já não os conhecia, certamente viria a fazê-lo no decurso de suas pesquisas). Em 1883, Friedenreich descrevera um coleóptero (Pentameria bromeliarum) cujas larvas habitavam a água de bromeliáceas brasileiras. No ano seguinte, fora descrito outro coleóptero (Onthostygnus fasciatus) em plantas desse gênero, no México (D. Sharp, 1884), e Schimper (1884, 1888) publicara importantes trabalhos relativos à fisiologia daquelas plantas. No ano em que Lutz iniciou sua investigação na serra de Santos, F. W. Kirby (1897) mostrou que as do Chile abrigavam borboletas da família Sphingidae, gênero Castnides.
Ora, se pequenos crustáceos e outros animais podiam se manter aí, “as larvas de mosquito, naturalmente, também poderiam viver” – escreveria Lutz (1903). “Sendo as bromeliáceas muito abundantes naquelas matas, dispus-me a examiná-las, cheio de esperanças.”
Nas que vegetavam em rochas, só encontrou larvas de pererecas. As árvores de grande porte da região ostentavam quantidades exuberantes de bromé-lias, porém os galhos mais baixos ainda ficavam a uns dez metros acima do solo, portanto fora do alcance do cientista. Não adiantaria cortar a árvore porque se derramaria a água das plantas que a parasitavam. No fim de algum tempo, Lutz conseguiu localizar bromélias de acesso mais fácil, e nelas encontrou numerosas larvas do novo Anopheles e de outras espécies de mosquitos.
Em 1903, após cinco anos de estudos, pôde confirmar que “os mosquitos típicos da floresta, quase sem exceção, passam a fase larval na água das bromeliáceas”.
Bromelia plumier. Fonte: botu07.bio.uu.nl/brom/images/
list/bromel/Bromelia%20plumier%2096GR00628%20a.jpg, acesso
em 22.6.2005.
No intervalo entre as primeiras observações, baseadas em “uma convicção imediata, quase intuitiva” (Gadelha, 1994, p.178), e a publicação de sua descoberta, Lutz elaborou técnicas apropriadas para a coleta das larvas e sua criação em laboratório. Estudou as espécies de Bromeliáceas e sua distribuição não apenas na serra de Santos como em outras regiões com ecologia parecida. Interessou-se por todos os grupos de animais que povoavam as águas dessas plantas -crustáceos miúdos (ostracodes, copépodes, linceídeos) larvas de tipulídeos, culicídeos de Corethra, Chironimus e nematóceros semelhantes; larvas de coleópteros aquáticos e de anfíbios. Verificou que hilídeos e planárias terrestres gostavam de viver em bromeliáceas, já que estas reuniam as características de
aquários e terrários. 97 E o mais importante: estudou o modo de vida dos mosquitos das florestas, depois que alcançavam o estágio alado, sem se limitar às espécies bromelícolas.
Anfíbio da espécie Hyla claresignata, habitante de bromélias,
coletado em Teresópolis em 9.11.1929 (BR. MN. Fundo Bertha
Lutz).
Para a execução desse programa mobilizou uma rede de coletores que, em pouco tempo, e em função de seu interesse crescente pela entomologia, alcançaria rincões remotos do Brasil e vários países
estrangeiros. 98
“Waldmosquitos und Waldmalaria” – em português “Mosquitos da floresta e malária silvestre” – foi publicado no Centralblatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten (v.33, n.4,
1903, p.282-92), 99 tendo Lutz aposto nele a data 16 de setembro de 1902. O artigo foi objeto de várias resenhas: na Grã-Bretanha, saiu longo comentário no Journal of Tropical Medicine (1903, v.6, p.111-23) sob o título “Forest mosquitoes and Forest Malaria”. O Bulletin de Vlnstitut Pasteur deu menos importância à contribuição de Lutz (1903, n.1, p.183); outras resenhas foram publicadas em Archiv für Schiffs- und Tropenhygiene (v.7, p.339-40), Münchener medizinische Wochenschrift (v.50, n.6, p.264), Hygienische Rundschau (v.13, n.18, p.937-8); Rif. Med. (v.19, n.15, p.418) e, ainda, em Allgemeine Zeitschrift für Entomologie] (v.8, n.8-9, p.377), esta última de autoria de Paul Gustav Eduard Speiser.
O estudo dos mosquitos como transmissores de doenças vinha sendo feito por médicos que adquiriam na prática, às pressas e nem sempre de maneira adequada, as competências necessárias para lidar com a biologia e a sistemática dos culicídeos. Um dos grandes problemas que enfrentavam era a falta de conhecimentos específicos sobre esse grupo de animais.
À semelhança da fase mais prolífica e caótica da caça aos micróbios patogênicos, nas décadas de 1880 e 1890, a avidez com que se passou a buscar possíveis transmissores alados de doenças, nesta última década e na seguinte, alavancou o conhecimento dos culicídeos mas, ao mesmo tempo, criou enormes confusões no tocante à identificação e ao batismo de espécies sinonimas.
A Inglaterra colocou-se na vanguarda desses estudos após a descoberta de Ronald Ross. A pedido do primeiro-ministro Joseph Chamberlain, a Royal Society formou uma comissão para estudar o controle da malária em suas possessões coloniais (Howard, 1930). Um de seus integrantes, Edwin Ray Lankester, diretor do Museu Britânico, propos o levantamento dos mosquitos existentes no mundo, sendo, então, mobilizados os consulados e outros órgãos governamentais para dar cabo da empreitada. Concomitantemente seria formada, no Museu Britânico de História Natural, uma coleção de dípteros que desse suporte a esse conhecimento planetário. Frederick Theobald, zoólogo do South-Eastern Agricultural College, em Wye, Kent, foi indicado por Lankester para superintender o ambicioso empreendimento.
Adolpho Lutz foi um dos pesquisadores acionados no Brasil. O primeiro contato foi feito em 24 de março de 1899, por intermédio do Consulado Geral Britânico. Como veremos no próximo livro desta edição de sua Obra Completa, desempenharia papel crucial nos estudos de Theobald. Lutz começara o estudo sistemático dos Culicidae em 1897 e assim pôde fazer a primeira remessa ao zoólogo britânico já em junho de 1899: “achando-me naquele tempo ocupado com estudos análogos … correspondi mandando todos os meus culicídeos, em número de mais de quarenta espécies” – registra Lutz (1903). Incluíam mosquitos da floresta e outras
espécies que considerava novas.100 Theobald confirmou as suposições do colaborador brasileiro e, para homenageá-lo, deu seu nome ao novo Anopheles coletado nas zonas onde florescia seu habitat, as bromeliáceas: Anopheles lutzii. Outra espécie foi denominada Anopheles albipes.
Em carta a Theobald, de 23 de setembro de 1900, Lutz comentava a classificação feita por ele e descrevia o Anopheles lutzii. Encontrara-o
próximo a Santos em matas … e na encosta da montanha,
excepcionalmente alguns exemplares perto de São Paulo,
levados para longe da zona montanhosa e florestal
provavelmente pelo rio que transborda; obtive também alguns
exemplares do sr. Schmalz coletados em Joinville (Santa
Catarina). A larva via de regra desenvolve-se em bromélias
como suspeitava há muito tempo uma vez que a imago é
encontrada em matas em encostas íngremes de montanha
onde não se encontra nenhuma outra [coleção] de água. A larva
e a ninfa têm a cor vermelho-tijolo. A imago pica homens e cães
com avidez ao entardecer – estando o clima quente – e penetra
nas moradias e barracões erguidos nas matas, sendo
responsável por várias epidemias de febre intermitente entre
trabalhadores engajados na construção de ferrovias. À sombra,
pode picar também de dia.101
Ao batizar aquele mosquito, Theobald deu-lhe inadvertidamente o mesmo nome que Oswaldo Cruz atribuíra a outra espécie de Anopheles, também em homenagem a Lutz. Em revisão anterior a 1903, o entomologista britânico incluiu o A. lutzii no gênero Myzomyia, passando então a chamar-se Myzomyia lutzii. Aquele descrito por Oswaldo Cruz foi primeiramente colocado no gênero Pyretophorus de Blanchard, e posteriormente no gênero Myzorhynchella, criado por Theobald.
Desenho do Kerteszia cruzi (antigo Myzomyia lutzii), transmissor da
malária silvestre descoberto por Adolpho Lutz (BR. MN. Fundo
Adolpho Lutz, caixa 23, maço 9).
Desde a virada do século, estavam empenhados em coletar e classificar dípteros do Brasil Oswaldo Cruz, antes mesmo de se tornar diretor do Instituto Soroterápico de Manguinhos e diretor-geral de Saúde Público, e o zoólogo suíço Emilio Goeldi (18591917), diretor do Museu Paraense de História Natural e Etnografia, em Belém, que publicou, em 1905, Os mosquitos no Pará (Sanjad, 2003). Carlos Chagas e Arthur Neiva logo se associaram a esse empreendimento. Publicariam vários trabalhos com des crição de novas espécies nos primeiros anos do século XX, em periódicos do país que não tinham circulação internacional, o que contribuía para tornar mais confusa a classificação de espécimes. O trabalho de Oswaldo Cruz, o primeiro em entomologia médica, foi publicado em O Brazil-Medico, em 1901, mesmo ano em que veio a lume o primeiro volume da obra de Theobald.
Em 1908, em outra publicação importante sobre culicídeos, os entomologistas norte-americanos Frederick Knab e Harrison Gray Dyar (p.53) retiraram do gênero Myzomyia o transmissor da malária silvestre, incluindo-o novamente entre as espécies do gênero Anopheles, agora como Anopheles cruzii: “Dá-nos grande prazer dedicar esta interessante espécie ao Dr. Oswaldo Cruz, conhecido higienista e bacteriologista do Rio de Janeiro. As larvas foram descobertas pelo sr. A. H. Jennings na zona do canal do Panamá, vivendo na água entre as folhas de bromeliáceas, que parecem ser seu único habitat”. Em divergência com Theobald, Knab e Dyar não reconheciam nem o Myzomyia nem o Myzorhynchella como gêneros distintos do Anopheles. “Além disso, constatamos a existência de Manghinhosia lutzi Peryassu, que também requererá novo nome, se se verificar, como supomos, que o novo gênero Manguinhosia não é
separável de 102 Anopheles”.
Sabe-se hoje que o Anopheles cruzii é o vetor primário da chamada ‘malária das bromélias’, que ocorre no litoral do estado de São Paulo, em caráter epidêmico, e, de forma endêmica, de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Além de transmitir paludismo ao homem, é o
único vetor natural conhecido de malária simiana nas Américas.103
Mas esses conhecimentos não resultam de uma progressão linear desde o trabalho publicado por Lutz em 1903. Como na Doença de Chagas, houve solução de continuidade e, por bom tempo, a malária das florestas permaneceu no limbo das teorias incompreendidas.
Além de Lutz, outros autores estudavam a relação entre as bromeliáceas epífitas das florestas americanas e sua fauna. Um inventário exaustivo desses estudos foi apresentado, em 1913, por Clodomiro Picado Twight em Les broméliacées, considérées comme
milieu biologique 104 . O biólogo costa-riquenho dividia-os em três categorias: trabalhos cujo objeto eram os animais adaptados às bromeliáceas, sem levar em conta as condições de meio; os que diziam respeito somente à biologia e à distribuição das plantas e, por fim, trabalhos concernentes às suas relações com a fauna. Entre estes, sobressaía, soberano, o de Adolpho Lutz:
Esse autor verifica, de uma parte, que as larvas de culicídeos
criam-se às centenas nas bromeliáceas epífitas do Brasil;
considera que a quinta parte, pelo menos, dos culicídeos
conhecidos habitam exclusivamente as bromeliáceas; por outro
lado, constata que os detritos não apodrecem enquanto
permanecem nelas, mas entram em putrefação assim que são
retirados da planta e colocados num vidro de boca larga.
(Picado, 1913, p.220)
Nas florestas tropicais, em especial na América intertropical, as bromeliáceas epífitas substituíam os pântanos terrestres, formando verdadeiros charcos aéreos, muito diferentes daqueles resultantes das águas estagnadas no solo; os charcos bromelianos constituíam um meio biológico especial. Picado (p.327-9) os via como pântano permanente mas fracionado, acima do solo, com água proveniente da condensação cotidiana da água atmosférica e com um lodo celulótico que não apodrecia em razão da atividade própria das plantas. Era povoado por uma fauna muito numerosa, que compreendia desde batráquios até protistas, e que podia ser dividida em dois grandes grupos: animais exclusivamente bromelícolas, e os que habitavam também outros meios. A fauna bromelícola conhecida antes das pesquisas de Picado compreendia cerca de uma centena de espécies. A lista apresentada pelo biólogo costa-riquenho ascendia já a cerca de 250 espécies.
Diversos especialistas o tinham ajudado a determinar aqueles animais, entre eles Knab, Coquillet e D. Keilin para os dípteros, e
Dyar para as larvas de lepidópteros. 105
Os numerosos autores relacionados por Picado haviam descrito batráquios (Ohaus, 1900; L. Stejneger, 1911; C. Werkle, 1910); planárias (P. M. de Beauchamp, 1912, 1913); oligoquetas (W. Michaelsen, 1912); larvas de Odonata como as dos gêneros Megaloprepus e Mecistogaster (Barret, 1900) e outras (Knab, 1907; Philip P. Calvert, 1909); ortópteros da família Blattidae (R. Shelford, 1912) e outros (A. Borelli, 1911); dípteros tipulídeos (Ch. P. Alexander, 1912), Rhyphidae e Eristalinae (F. Knab, 1912 e 1913), Borboridae (Knab & Malloch, 1912); coleópteros como larvas de Helodinae (Knab, 1913; Picado, 1913) e outros (H. Scott, 1912); hemípteros (W. L. Distant, 1912); borboletas (Walsinghan, 1913) e outros animais semelhantes. Knab (1913) acabara de descrever um culicídeo, o Megarhinus iris, proveniente de criações efetuadas por F. W. Ulrich em Trinidad (Picado, p.221). Adolpho Lutz era o autor do estudo mais abrangente realizado até então sobre os mosquitos das florestas, e a nenhum outro o costa-riquenho atribuía a descrição de espécies transmissoras de doenças. Certamente, é o trabalho do zoólogo brasileiro que fundamenta uma de suas conclusões, formulada nos seguintes termos:
Bromélia da espécie Vriesea incurvata, encontrada com freqüência
nas matas do estuário do Rio Verde, na Estação Ecológica de
Juréia, São Paulo. Foto de Erich A. Fischer (Revista da Sociedade
Brasileira de Bromélias, v.3, n.2, 1996, p.24).
O conhecimento da fauna bromelícola explica a existência de
certas doenças infecciosas (paludismo, filariose etc.) nas
regiões da América desprovidas de charcos terrestres. Os
bromelianos abrigam os hospedeiros intermediários (culicídeos,
copépodes etc.) de parasitas cujo ciclo evolutivo termina no
homem ou em alguns animais silvícolas, símios ou outros. É
desse modo que essas doenças persistem, mesmo na ausência
de homens e mesmo na ausência de pântanos terrestres.
(Picado, 1913, p.329)
A descoberta de Adolpho Lutz tinha recebido outras confirmações importantes, sobretudo de parte daqueles pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz que vinham sendo requisitados por empresários que investiam na construção de ferrovias e hidrelétricas em zonas malarígenas do Brasil. Em 1906, Carlos Chagas relatou um surto de malária a cerca de 700 metros de altitude, num lugar onde pareceria impossível encontrar Culicidae: “causou-nos o fato justa surpresa, desaparecida quando verificamos, na zona, a presença do Myzomyia lutzi. Foi isso num dos contrafortes da cordilheira do mar, onde a Companhia Docas de Santos fez importante instalação de
eletricidade”.106 Em Trinidad, à mesma época, F. W. Ulrich e, em seguida, Lassale e De Verteuil também destacaram o papel dos mosquitos da floresta (Anopheles [k] bellator) na transmissão da malária (Gadelha, 1994).
No mesmo ano da publicação do trabalho de Lutz, Bruno Galli-Valerio (1903) encontrou oocistos no estômago de exemplares originários de Paranaguá (PR); cinco anos depois, Stephens e Christopheres (1908) incluíram o Myzomyia lutzi entre os vetores comprovados da malária, já que tinham encontrado nele os chamados oocinetos, parasitos do impaludismo no estágio posterior à formação do zigoto, quando tomam a forma de vermículos móveis.
Não obstante considerasse aquela espécie “perigosa,” Arthur Neiva (1909, p.76) considerou que não havia ainda evidências conclusivas de que era o transmissor da doença; em sua opinião, as precárias condições em que se achavam os espécimes remetidos em álcool a Galli-Valerio, na Itália, tornavam impossível saber se os oocistos encontrados por ele eram de origem humana ou aviária e, portanto, o achado apenas aumentava “a probabilidade desta anofelina transmitir impaludismo;” por sua vez, os oocinetos vistos por Stephens e Christophers podiam facilmente ser detectados em “qualquer anofelina alimentada em gametocitos em condições de transmissibilidade; desta verificação não se deve concluir que o oocineto possa sempre evoluir até esporozoíto”.
Tais ressalvas sinalizavam a necessidade de um programa de pesquisas dos mais interessantes, mas a crescente aceitação do Anopheles lutzi como protagonista de uma forma especial de transmissão da malária foi bruscamente interrompida no começo da década de 1910, e só nos anos 40 a malária das florestas ressurgiria como objeto de estudo e de ações sanitárias relevantes.
A controvérsia com Knab e Dyar e seus
desdobramentos
Gadelha (1994) e autores por ele citados (Downs & Pittendrigh, 1946, 1949; Rachou, 1946) atribuem o prolongado ostracismo às críticas externadas em 1912 por Frederick Knab. Embora tenham sido veiculadas em artigos assinados somente por este zoólogo do Bureau of Entomology do United States Department of Agriculture, as críticas eram endossadas pelo entomologista Harrison Gray Dyar.
Harrison Gray Dyar (1866-1929) (Howard, 1930).’
Nascido em Wurzburg, na Baviera, em 22 de setembro de 1865, Frederick Knab emigrara com a família para os Estados Unidos aos oito anos de idade. Seu pai, Oscar Knab, era gravador e pintor, e um de seus irmãos havia servido como artista na corte da Baviera. Frederick Knab também revelou talento para as artes e, após uma temporada de estudos na Alemanha, dedicou-se à pintura de paisagens. Seu interesse pela história natural e pela vida dos insetos levou-o a participar de uma expedição ao Rio Amazonas em 1885-1886. Trabalhou depois (1903-1904) como ilustrador para o entomologista Stephen Alfred Forbes. A colaboração iniciada então com Leland Ossian Howard e Harrison Gray Dyar daria origem a The Mosquitoes of North and Central America and the West Indies, obra em quatro volumes publicada pelo Carnegie Institute, de Washington, entre 1912 e 1917. Parte considerável do alentado estudo baseou-se em investigações realizadas em países tropicais e subtropicais por Knab e Dyar. O primeiro, além disso, assinava várias ilustrações incluídas na obra. Dyar ficou responsável pela parte taxonômica; sua condição econômica abastada permitiu que financiasse várias expedições de coleta.
Em 1906, Knab ingressou no Bureau de Entomologia do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Com a morte de Daniel William Coquillet (1856-1911), assumiu a curadoria da coleção de dípteros do United States National Museum.
A curadoria da Seção de Lepidoptera era exercida, desde 1894, por Dyar, que foi também assistente do referido Bureau de Entomologia (1904-1916) e capitão do Departamento Sanitário do exército norte-americano (19241929). Um dos mais importantes taxonomistas de
sua época, era o autor da chamada 107 Regra de Dyar, que permitiu a determinação dos vários estágios de vida de um lepidóptero através da medição de sua cabeça. Publicou numerosos artigos sobre as espécies norte-americanas e estudou, também, mosquitos, especialmente em seu estágio larval.
Após a morte de Knab, em 2 de novembro de 1918, vítima de uma doença não diagnosticada que contraíra durante a expedição ao Brasil, Dyar passou a pesquisar os mosquitos em sua fase adulta. Suas investigações sobre a genitália masculina dos Culicidae foram muito importantes para estabelecer a classificação do grupo. Estudou também as famílias Simuliidae, Psychodidae e Chaoboridae.
Além de colaborar nas principais publicações entomológicas de seu país, fundou o lnsecutor lnscitiae Menstruus, que alcançou 14 volumes entre 1913 e 1927. Dyar, que faleceu em 21 de janeiro de 1929, sustentou acaloradas polêmicas com alguns dos nomes mais importantes da entomologia norte-americana, entre eles Coquillet, J. B. Smith e Henry Skinner.
O embate com Lutz teve início com a publicação no Journal of Economic Entomology de artigo onde Frederick Knab (1912a) analisava a transmissão de doenças por insetos sugadores de sangue. O tema foi objeto de outra comunicação lida, à mesma
época, na Entomological Society of Washington.108 Nessa sessão, quando Howard opôs a teoria de Lutz sobre a malária das florestas ao argumento que Knab sustentava, este declarou, com o apoio de Dyar, que o zoólogo brasileiro interpretara mal os fatos que o tinham conduzido àquela teoria.
No artigo veiculado pelo órgão da American Association of Economic Entomologists, Knab afirmava que os estudos sobre o papel de insetos sugadores de sangue na transmissão de doenças, iniciados pouco tempo antes, eram em sua maioria vagos, caóticos, apoiados em dados questionáveis, coletados por investigadores em geral mal preparados em biologia: “Desde a descoberta de que certos insetos sugadores de sangue são os hospedeiros secundários de parasitas patogênicos, praticamente todo inseto que suga sangue, quer seja habitual ou ocasionalmente, tem sido considerado possível transmissor de doença ou suspeito disso”.
Segundo o entomologista norte-americano, só poderia hospedar e transmitir um parasita do sangue humano o inseto que mantivesse estreita associação com o homem, e que tivesse o hábito normal de sugar seu sangue repetidamente. Não bastava que o fizesse de vez em quando, como os mosquitos da floresta estudados por Lutz. Outros requisitos eram a relativa longevidade, bem como refeições de sangue e reprodução contínuas. Assim, haveria sempre indivíduos em quantidade necessária para que não sofresse interrupção o ciclo de vida dos parasitas que hospedavam, inclusive no hospedeiro definitivo – o homem – que se tornava, então, presa de uma doença endêmica.
Esses critérios eram aplicáveis não só aos mosquitos, mas a todos os insetos sugadores de sangue, e, por não satisfazer a eles, tabanídeos e simulídeos podiam ser desqualificados como transmissores de doenças. Poucos insetos, na verdade, atendiam comprovadamente às cláusulas estabelecidas por Knab: o Aedes calopus -sinônimo de Stegomyia fasciata -, hospedeiro intermediário do organismo da febre amarela; o Culex quinquefasciatus, transmissor da filariose e da dengue, e o Triatoma (Conorhinus) megistus, recém-incriminado por Carlos Chagas como transmissor
de uma perigosa tripanossomíase no Brasil.109
Triatoma megistus, “barbeiro vermelho”. Desenho de Castro Silva.
(Chagas, 1909, estampa 9).
O Anopheles não parecia ser um gênero tão bem adaptado a humanos, mas, para Knab, essa impressão advinha do desconhecimento dos hábitos de suas diferentes espécies. As evidências então disponíveis sugeriam que as transmissoras de malária medravam nas vizinhanças do homem, ao passo que eram inofensivas as que não se alimentavam habitualmente de seu
sangue. 110
As idéias de Adolpho Lutz sobre os mosquitos e a malária das florestas contradiziam aqueles pressupostos. Pois bem, naquele artigo publicado uma década após a descoberta, Knab manifestava a sua convicção de que o brasileiro havia “interpretado mal os fatos”. Muito provavelmente, o Anopheles incriminado por ele nada tivera a ver com o surto de malária entre os trabalhadores acampados na serra de Santos:
É um fato bem conhecido que nos trópicos a maioria das
pessoas, ainda que aparentassem boa saúde, têm uma malária
latente. Quando um indivíduo desses é submetido a uma
tensão física, como estafa, exposição ao mau tempo ou prática
de excessos, a doença se manifesta … Os homens já
abrigavam a malária latente quando chegaram à região, e a
estafa e exposição ligados ao trabalho causaram a irrupção da
doença.
Na réplica publicada nos Proceedings of the Entomological Society of Washington, Lutz (1913a) abriu fogo contra aquele argumento: “Se tal etiologia de uma epidemia típica fosse possível, o que nenhuma pessoa competente admitiria, as pessoas que vivem aqui e que se interessaram pelo caso não teriam esperado até que dois leigos cogitassem nisso, e eu não me daria ao trabalho de buscar uma explicação satisfatória para um fato enigmático”. O zoólogo brasileiro lembrava, em primeiro lugar, que nada tinha de tropical o clima do lugar onde realizara seu estudo, nem tampouco o dos lugares de origem dos doentes. O enorme esforço que fizera para distinguir a febre tifóide e outras pirexias da malária, com o intuito de desmanchar o conceito equivocado das “febres paulistas,” mostrara que a doença causada pelo plasmódio de Laveran era bem localizada, “mesmo em países tropicais. Na verdade, não é encontrada em muitos lugares onde há Anophelidæ, os quais não são de modo algum ubíquos”.
Lutz argumentava, ainda, que suas afirmações haviam sido confirmadas por diversos estudiosos, especialmente Carlos Chagas, “o que é de grande interesse, uma vez que ele observou várias epidemias de malária em diferentes lugares e estudou os Anophelidæ aí presentes”. Houvera outros registros de malária epidêmica em lugares sem pântanos mas com profusão de bromeliáceas epífitas.
Observações feitas em diversas zonas de floresta da serra do mar, com características análogas àquelas descritas por Lutz em 1903, teriam convertido em fato geralmente aceito no Brasil que a implementação de grandes projetos de engenharia nesses ambientes resultaria em surtos inevitáveis de malária. Entretanto, não houvera sinal da doença em canteiros de obras implantados em regiões secas de campos e em florestas do interior desprovidas de Anophelidæ de bromélias.
Sem dúvida, entre os trabalhadores recrutados para essas obras havia indivíduos com malária crônica, mas não tinham a aparência nada saudável, como supunha Knab, e, sem dificuldade, poderiam ser identificados e excluídos.
Investindo contra o pressuposto teórico de seu adversário, Lutz afirmava que dois transmissores da malária no Brasil – a Cellia albimana e, principalmente, a Cellia argyrotarsis – eram freqüentes em lugares desabitados, aproximando-se das habitações humanas somente em regiões pantanosas: “Que não querem nem preferem o sangue humano é demonstrado pelo fato bem conhecido de que preferem o cavalo ao cavaleiro … O mesmo se aplica a todas as outras espécies de Anophelidæ”.
Os homens que adentravam lugares onde eram raros os animais de grande porte naturalmente atraíam os mosquitos, e, se permanecessem tempo suficiente no lugar
a epidemia seguirá o crescimento da infecção entre os
mosquitos, e eles próprios aumentarão em número graças à
facilidade de alimentação. É fato bem estabelecido que uma
espécie pode se tornar excelente hospedeira intermediária ou
definitiva de um parasito bem novo na região porque só
recentemente foi introduzido o hospedeiro para o estágio
seguinte.
Nesse parágrafo encontra-se o nervo da controvérsia. Para Knab, a transmissão da malária, da febre amarela e de outras doenças “parasitárias” só podia ser feita por sugadores já habituados ao sangue do homem: os conhecimentos sobre as diversas espécies aptas a desempenhar esse papel evoluíam com grande dinamismo à época, mas o sistema em que Knab operava era conservador, quase estático. Lutz entrevia a possibilidade do envolvimento de humanos em ciclos silvestres já instalados ou emergentes, e não só para a malária. Em comunicação subseqüente – a tréplica ao segundo artigo de Knab – o cientista brasileiro afirmaria:
Os senhores Dyar e Knab julgam que mosquitos que nunca
estiveram em contato com homens antes não podem transmitir
doenças. Para testar sua tese, é preciso colocar homens em
lugares absolutamente desabitados. Em termos gerais, isso é
um tanto difícil, mas ocorre que no Brasil estradas e ferrovias
têm sido feitas em tais condições, e quase sempre há epidemia
de malária. Eu também tenho conhecimento de epidemias de
feridas de leishmânia, com boas razões atribuídas à
transmissão por Phlebotomus, em zonas absolutamente
desertas. Vi ainda uma pequena epidemia de febre amarela
entre pessoas que viviam num lugar onde se podia esperar que
houvesse mosquitos da floresta. Tudo isso mostra que as
considerações teóricas não foram respeitadas pelos fatos, e
tudo o que se quer é que o transmissor, seja qual for o seu
passado, pertença a uma categoria em que o parasita possa se
desenvolver; então ele deve ter acesso repetido a seres
humanos, alguns infectados, outros sem imunidade. Como
toma tempo o processo de desenvolvimento, sua vida não pode
ser muito curta. Por essa razão, a oviparidade é uma condição
favorável. (Lutz, 1913b)
Na resposta à primeira réplica de Lutz – lida por Dyar numa sessão da Entomological Society of Washington – Knab (1913a) fizera mea culpa pelo tom dogmático usado em sua primeira comunicação, e pela arrogância em propor explicações a tamanha distância geográfica e temporal do problema estudado pelo zoólogo brasileiro: “Pessoalmente, têm-me proporcionado muita inspiração os escritos do Dr. Lutz, e não era minha intenção em absoluto desacreditá-lo”.
Depois de reler seu trabalho e sua réplica, chegara à conclusão de que estavam de acordo em todos os pontos, exceto num:
Não estou disposto … a admitir que uma espécie de Anopheles
que é peculiar a florestas desabitadas, e que em condições
normais não pode obter sangue humano, venha incontinênti a
se tornar a hospedeira de um parasito do sangue do homem. É
verdade que tal caso poderia ocorrer, e que talvez o tenhamos
à nossa frente no que está em discussão, mas em minha
opinião isso seria tão excepcional que teria de ser provado de
maneira muito conclusiva.
Para Knab e Dyar, três hipóteses eram capazes de explicar o surto observado por Lutz. Primeira: ele não soubera identificar o verdadeiro transmissor; segunda: a doença fora transmitida pelo Anopheles lutzii a partir de um caso latente entre os trabalhadores; após o período de incubação, primeiro no mosquito depois no homem, disseminara-se entre os humanos em conseqüência das picadas dos lutzii infectados; terceira teoria: existiria uma forma de malária entre os animais selvagens que habitavam a floresta transmitida pelo A. lutzii; quando o homem penetrara aí, ficara exposto às picadas de mosquitos previamente infectados em animais selvagens, e desenvolvera a doença originária deles.
Por julgarem implausíveis a segunda e a terceira hipóteses, Knab e Dyar estavam convencidos de que Lutz cometera algum erro como o enunciado na primeira hipótese:
numa curta visita de investigação, o Dr. Lutz encontrou uma
única espécie de Anopheles na localidade e imediatamente
concluiu que era a responsável pelo surto de malária … Supôs
que nenhuma outra espécie de Anopheles poderia estar
presente porque lhe pareceu que não havia locais adequados à
reprodução além das bromélias.
Para justificar sua “incredulidade,” Knab recorria a suas próprias experiências de coleta em regiões com características que julgava similares às encontradas pelo zoólogo brasileiro. Em pequenas poças no leito de um rio de montanha, encontrara três espécies de Anopheles, duas das quais (A. argyritarsis e A. eiseni) ocorriam no sul do Brasil. Em Córdoba, México, coletara larvas num cânion que era ‘lavado’ por torrentes de montanha após cada chuva pesada.
Segundo Knab, a relação entre os parasitos da malária e certas espécies de Anopheles dependia de um ajuste fisiológico muito delicado. Entre as que obtinham suas refeições de sangue da mesma fonte em dada localidade, algumas eram hospedeiras eficientes para os parasitos ao passo que outras simplesmente o digeriam junto com o sangue. Em geral, o Anopheles mais comum numa região era o que servia como hospedeiro, mas nem sempre era fácil estimar a abundância relativa de diferentes espécies num lugar, uma vez que umas eram vistas com mais facilidade que outras, mais hábeis em se esconder na cobertura de telhados, por exemplo, ou em objetos da mesma cor.
Esta linha de argumentação tinha o objetivo de mostrar que Adolpho Lutz deixara de perceber outras espécies de Anopheles nas
coleções de água existentes na serra de Santos.111 Segundo o entomologista norte-americano, podia haver outra fonte de erro em sua teoria:
A pergunta coloca-se naturalmente: quão completamente e por
quanto tempo ficaram os trabalhadores confinados ao habitat
florestal? Não terão, individualmente ou em pequenos grupos,
aproveitado feriados para deixar aquela zona ou feito visitas
noturnas a tavernas e lugares de prazer situados além de seus
limites? O que conhecemos a respeito dos hábitos dos Homo
em geral nos autorizam a suspeitar isso!
A terceira hipótese capaz de explicar a descoberta de Lutz parecia a Knab e Dyar nada mais que uma possibilidade interessante:
Não se tem conhecimento de organismos materiais que
habitem animais selvagens e sejam transferíveis ao homem,
embora pareça possível que existam parasitos de macacos
transmissíveis por Anopheles da floresta, e que talvez o homem
seja suscetível a ele. Se tal relação existe, poderia ser
demonstrada por um estudo adequado, mas considero que não
temos o direito de invocá-la como explicação do presente caso
com base meramente numa possibilidade.
Serra de Santos na primeira metade do século XX. Fonte:
www.portocidade.stcecilia.br/fotos/santos_primeira_metade_sec_xx/
anchieta_imigrantes/g/serradesantos.jpg, acesso em 22.6.2005.
Restava, então, a alegação de Lutz de que uma espécie inteiramente “selvagem” de Anopheles se havia tornado hospedeira eficiente do parasito da malária humana. A Knab isso parecia “tão improvável que nenhuma outra evidência que não seja a demonstração da presença dos parasitos nas glândulas salivares do mosquito me induzirão a aceitá-la”.
Como Neiva, em 1909, julgava inaceitável a comunicação de Galli-Valerio (1904) a respeito da presença de oocistos do parasito da malária nas paredes do estômago de espécimes do Anopheles incriminado por Lutz: “Até mesmo um íntimo estudioso de mosquitos americanos hesitaria em identificar positivamente tais espécimes, e não me consta que Galli-Valerio antes disso tenha dado a mínima atenção a mosquitos americanos!”.
Knab e Dyar endereçavam a Lutz um desafio: fosse qual fosse a explicação verdadeira, “o ônus da prova pertence ao investigador … e temos o direito de esperar que a prova seja completa ou de rejeitar a explicação oferecida”.
Em sua tréplica, lida por Howard em sessão da Entomological Society of Washington, Lutz (1913b), em parágrafo aqui já citado, refutava a pressuposição de que não poderiam transmitir a malária mosquitos que nunca tinham estado em contato com homens antes, deixando entreaberta a possibilidade de que a infecção dos mosquitos das bromélias pudesse se dar primitivamente por relação com um hospedeiro não humano, habitante da floresta.
Lutz investia, então, contra os elos mais frágeis da argumentação dos entomologistas norte-americanos:
sou acusado de ignorar o fato de que homens são homens, e é
dito que estes devem ter escapado à noite, infectando-se em
outro lugar. Já declarei que viviam na floresta a uma distância
de muitas milhas e não dispunham de outro meio para se
locomover que não fosse a pé. Mesmo que houvessem
escapado ao controle, as noites não teriam sido longas o
suficiente para que alcançassem um lugar onde pudessem
encontrar o que é sugerido, e nem tampouco isso teria ajudado,
porque não havia e não há malária naqueles lugares.
Argumentando-se dessa forma, poder-se-ia também dizer que
os marinheiros italianos que contraíram a febre amarela a bordo
do vaso de guerra ancorado no porto do Rio de Janeiro, bem
distante da costa, foram atacados porque nadaram até lá
durante a noite.
Lutz ironizava a afirmação de que Galli-Valerio não teria elementos para identificar o Myzomyia lutzi, não obstante “esta seja uma espécie extremamente característica que pode ser diferenciada de todas as outras por uma simples olhada na rótula (scutum)”. Tratava com justificado desdém a acusação de que ele – e aqui inclui Chagas, também – houvesse deixado de notar a presença de outros anofelídeos nos lugares onde realizara suas observações, “não obstante os senhores Knab e Dyar possam vê-los de Washington. Ora, é de se esperar que Lutz e Chagas conheçam os anofelídeos, já que trabalharam com eles por muitos anos e juntos identificaram a maioria das espécies brasileiras”.
Mas Adolpho Lutz passava em silêncio a exigência feita pelos adversários de que apresentasse as provas de que o mosquito da floresta de fato hospedava o parasito da malária. Ele não seguira aquele protocolo estabelecido por Manson no estudo da transmissão da filariose, e replicado nos estudos de Ross e dos italianos quanto à transmissão da malária das aves pelo Culex, e da humana pelo Anopheles.
O programa que Lutz seguira combinava o estudo exaustivo dos hábitos e da distribuição do Myzomyia lutzi e da vegetação que o hospedava com a pesquisa de campo sobre os casos humanos de malária que ocorriam nos ambientes onde prosperavam os mosquitos da floresta e as bromeliáceas. Era um programa que requeria o uso das ferramentas da entomologia, botânica, epidemiologia e clínica, mas que passava inteiramente ao largo das démarches de Ross, Grassi e outros investigadores que tinham se entregado a demoradas observações sobre a evolução do parasito nos organismos de seus hospedeiros intermediários. Apesar de haver demonstrado suas habilidades nesse tipo de procedimento experimental, nos estudos parasitológicos fundamentais que publicara na década de 1880, Lutz não tomaria o caminho proposto pelos adversários. Encerrou a discussão, sustentando “integralmente” a exatidão de suas observações, e enfatizando o “interesse prático” que tinham: